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quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Kamikaze Diaries - Pátria e morte


Pátria e morte

Emiko Ohnuki-Tierney

Perto do final da Segunda Guerra, quando a invasão do Japão por tropas dos Estados Unidos parecia iminente, o vice-almirante Onishi Takijiro criou as Unidades Especiais de Ataque por Choque. Elas incluíam aviões comandados por pilotos kamikazes, os tokkōtai, que deveriam produzir o milagre da defesa da nação, cercada de porta-aviões inimigos tidos como indestrutíveis. Para tanto, os pilotos suicidas deveriam conduzir um avião carregado de explosivos a um choque direto e devastador contra um navio inimigo.

Quando a operação tokkōtai foi criada, em outubro de 1944, nem um único oficial treinado nas academias militares japonesas se apresentou como piloto voluntário – todos sabiam que se tratava de missões suicidas.

Os “voluntários” foram perto de 3 mil “meninos-soldados”, nome dado às levas de adolescentes recém-recrutados como parte do esforço de guerra. Outros mil eram “soldados-estudantes”, universitários formados às pressas pelo governo para entrar nas fileiras militares.

Os soldados-estudantes formavam um grupo excepcional. Eles eram cosmopolitas e cultos, dados a reflexões profundas, fruto do exigente currículo escolar japonês. Era obrigatório o estudo de duas línguas estrangeiras, além do latim. Quem tivesse optado pelo alemão, por exemplo, recebia como dever de casa, já na primeira aula, ler Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe. E no original, antes mesmo de o aluno ter sido apresentado ao alfabeto romano. Também era avaliada a leitura da Crítica da Razão Pura, de Immanuel Kant. O fato de o aluno não entender quase nada, e ser obrigado a reler o texto à exaustão, destinava-se a torná-lo consciente de sua ignorância e do quanto deveria estudar.

Outra característica fundamental: enquanto os soldados alemães eram treinados para matar, os japoneses eram adestrados para morrer. Rendição, fuga, rebeldia, qualquer ato para salvar a vida diante da derrota incontornável eram punidos com a morte. Todo soldado que desobedecesse ao regulamento militar, ou a alguma ordem de superior, era fuzilado na hora. E uma ofensa dessa natureza podia levar à punição dos parentes imediatos do soldado.

Como primeira lição, o soldado-estudante aprendia a usar o rifle para se matar antes de ser capturado. Era-lhe ensinado a acionar o gatilho usando o dedão do pé – tendo por alvo um ponto preciso abaixo do queixo, para a morte ser instantânea.

Ser piloto tokkōtai significava morte certa, e por isso a oficialidade de alta patente imprimiu-lhe a falsa característica de voluntariado. Na maioria das vezes, todos os membros de uma unidade eram convocados a se apresentar num salão comum. Convidavam-se os recrutas a dar um passo à frente caso quisessem aderir à honra de dar a vida pela pátria. Ou o inverso: aqueles que não quisessem se tornar pilotos suicidas deveriam dar um passo à frente. Poucos resistiam à pressão.

O retrato idealizado desses jovens, promovido pelo governo militar da época, corresponde ainda hoje ao estereótipo do kamikaze – eles são vistos como a encarnação moderna dos bravos guerreiros, honrados por poderem se sacrificar pelo imperador.

Kamikaze Diaries: Reflections of Japanese Student Soldiers, livro da acadêmica americana Emiko Ohnuki-Tierney,corrige essa distorção. A seguir, trechos desses diários.



SASAKI HACHIRŌ

O pai de Sasaki Hachirōfez o possível para dissuadir o filho de ser voluntário para a missão de piloto kamikaze. Não tendo conseguido, jamais voltou a lhe dirigir a palavra. Mesmo quando Hachirō, com 22 anos de idade, veio se despedir, o pai saiu de casa e só retornou na manhã seguinte. Terminada a guerra, a família recebeu uma notificação da morte de Hachirō, junto com uma medalha e uma pequena soma de dinheiro. Sem dizer nenhuma palavra, o pai pegou o dinheiro, foi até uma loja de bebidas, comprou saquê e o bebeu sozinho.



10 de fevereiro de 1940_Finalmente invadimos Cingapura. O número de vítimas civis deve ter sido grande. Crueldade da guerra. Cega a esse tipo de questões, a história continua sua marcha diária.



13 de abril_Soa a sentimentalismo, mas, se você precisa morrer, que seja de forma bela.



12 de outubro_O idealismo não é nem uma ideologia fixa nem uma autoridade absoluta.



1º de novembro_Para quem vive no século XX, é preciso saber encontrar a síntese entre o mais passivo e o mais agressivo polo de racionalismo e ativismo... O racionalismo é por demais objetivo e o ativismo, subjetivo em demasia. Como sustenta Heidegger, estamos na história. Ela não nos precede quando nela adentramos. A partir do momento em que nascemos, estamos na história. Somos o sujeito que vive no objeto. (...)

(...)Prefiro pensar que “inevitabilidade” é mais importante do que “necessidade”. Devemos sempre nos empenhar em stirb und werde! [“morra e seja”, ou crescimento por meio da morte]. Estou sinceramente feliz por estar vivo... O que mais importa é a liberdade da vontade, liberdade de espírito em meio ao caos do presente... Obediência cega sem vontade livre não constitui uma resposta ao nosso caos.



16 de abril de 1941_Quantos realmente morrem de “morte trágica” nessa guerra? Estou convencido de haver várias mortes cômicas disfarçadas de mortes trágicas. À primeira vista, ambas são iguais. Mas mortes cômicas camufladas de trágicas não deixam transparecer a alegria de uma vida. Estão cobertas de agonia sem valor ou sentido. Ou seja, são duplamente negativas, o que as torna cômicas.



14 de setembro_Foi anunciado que todos os japoneses devem trabalhar em indústrias vitais para o esforço de guerra. Isso significa que há pessoas saboreando néctar enquanto ignoram o esforço árduo e a humanidade dos japoneses. O que é patriotismo? Como tolerar a matança de milhões de pessoas e a privação de liberdades básicas de bilhões de outras por causa de noções abstratas como patriotismo e pátria?



9 de dezembro_Não consigo me sentir eufórico com as vitórias do Japão na guerra. Sinto ansiedade. Também me preocupo com os rumos do capitalismo depois do fim da guerra.



15 de dezembro_Dado que vivobem, sob a benevolência da nação deste imperador, não me recusaria a me alistar, se chamado. Não sou fraco a ponto de me sentir esmagado pela guerra. Mas faço questão de declarar minha oposição a todas as guerras.



26 de janeiro de 1942_Sei que posso morrer a qualquer momento, e por isso deixo tudo o que é meu arrumado; vivo uma vida organizada e tiro fotografias para a posteridade.



1º de março_Hoje presto exame de admissão para economia na Universidade de Tóquio. Usei meu uniforme de sempre, mas minhas roupas íntimas estavam limpas e novas. Acho que escrevi um ensaio singular sobre a questão da nossa história e da história do Ocidente. Também acho que fui bastante audacioso na resposta sobre a crítica literária contemporânea. Portanto, não sei como serei avaliado. Em retrospecto, penso que poderia ter me saído melhor, mas se for reprovado isso significa que eles não têm a mais vaga ideia do meu potencial. Uma das perguntas foi tirada da obra de Tanabe Hajime, Rekishiteki-geniitsu [Realidade Histórica, sem edição em português]. Fico deprimido ao pensar o quanto esse livro me impressionou no passado. Ele é dogmático e cheio de fios soltos. Não é nada além de raciocínio vazio.



4 de março_Achei uma aranha minúscula dentro do meu livro. Num impulso de malvadeza, aproximei meu cigarro da aranha, que se pôs a correr freneticamente. Coloquei o cigarro aceso à sua frente, ela mudou de rota. Repeti o ato várias vezes até a aranha se imobilizar. Deixei-a sossegada por um tempo. Num novo impulso, aproximei o cigarro aceso por cima, e ela voltou a correr. Continuamos assim por uns dois minutos. Ela então cansou, encolheu as pernas e tornou-se imóvel mesmo sem ter sido tocada pela brasa do cigarro.

É possível que, para essa aranha, o tamanho do livro seja o do Japão, e cinco minutos sejam cinco ou dez anos. Durante esse período, e nesse espaço, onde quer que ela fosse, havia fogo. E quando ela parou, o fogo veio de cima... Se isso acontecer a um ser humano, ele enlouquece. A aranha não entendia de onde vinha aquela chama. Seres humanos também perdem.

Desejo me tornar um homem capaz, mesmo que a grande custo. Capaz de identificar objetivamente a causa do problema, e transmitir esse conhecimento à geração seguinte. Feito isso, posso morrer. Através da alegoria da aranha traço um retrato doloroso do povo japonês nestes tempos de guerra – sem entender o que ocorre, ele corre sem rumo, em busca de uma saída para a situação impossível causada pela guerra.



Abril_Os militares: bando de loucos!



Junho_Todos os livros escritos pelos marxistas [japoneses] são demagógicos, combativos ou parecem ensaios de estudantes secundários que descobriram a filosofia. Perdi a ingenuidade de me deixar levar nessa demagogia. Lamento por Marx ser divulgado através desses sujeitos.



Abril de 1943_[A notícia da morte do almirante Yamamoto Isoroku angustia Sasaki. Yamamoto opusera-se inicialmente à entrada do Japão na guerra, argumentando que o país não aguentaria seis meses, mas acabou designado para comandar o ataque a Pearl Harbor. Seu bombardeiro Mitsubishi “Betty” foi derrubado por caças americanos numa emboscada, causando profunda comoção à nação. Sasaki pensa em se apresentar como piloto suicida voluntário e morrer.] Sou um mero ser humano. Por vezes, meu peito explode de excitação quando imagino o dia em que vou decolar rumo ao céu. Treinei corpo e alma o quanto pude, e anseio pela chegada do dia de usar em combate todo o meu potencial. Minha vida e morte pertencem à missão. Mas há vezes em que invejo os estudantes de ciências que continuam em casa, isentos do serviço militar. Invejo os que se tornarão bibliotecários, engenheiros ou médicos, e escaparam do recrutamento. Sou atraído pela minha segunda alma terrena. Tenho duas almas escondidas dentro de mim, e cada uma desponta com os estímulos externos da minha mente. Uma de minhas almas olha para o céu, enquanto a outra sente atração pela terra. Gostaria de me alistar na Marinha o quanto antes, para poder me dedicar à minha tarefa. Tomara que passem logo os dias em que me sinto atormentado por pensamentos tolos.



11 de junho_[O desembarque das tropas americanas na ilha Attu desencadeia um longo solilóquio de Sasaki Hachirōsobre marxismo e capitalismo.] Vejo sinais de um novo ethos para uma nova era. Se o poder do velho capitalismo é algo do qual não conseguimos nos libertar a menos que ele seja esmagado pela guerra, estaremos transformando um desastre num fato positivo. Estamos em busca de uma fênix saída das cinzas. Mesmo que o Japão sofra uma ou duas derrotas, ele não será destruído se conseguir sobreviver. Não sou pessimista, mas não podemos negar a realidade. Temos de olhar para frente, superar os tempos difíceis. Nesta encruzilhada crítica da história, não podemos deixar que velhos capitalistas e militares irracionais se agarrem ao velho regime. Nós, os jovens, precisamos arcar com a responsabilidade de fazer nascer um novo mundo.



Novembro_Não sei se esperam que eu vença esta guerra, mas vou lutar o quanto puder... Rezo para que chegue logo o dia em que possamos saudar um mundo no qual não devamos matar inimigos que não conseguimos odiar. Para esse fim, estou disposto a ter meu corpo destroçado inúmeras vezes.



Dezembro de 1944_Finalmente vou para a Marinha. Treinei meu corpo praticando natação, ginástica e tiro ao alvo. Sinto-me confiante na minha força. Devemos agora tornar-nos escudos para garantir vida eterna à nossa nação e prevenir o avanço do inimigo. Meus estudos universitários são importantes, mas a disciplina que escolhi (economia), que é pragmática e socialmente relevante, será mais bem exercida se eu tiver um treinamento militar. E, mesmo que eu venha a tombar, a sociedade não depende de um só indivíduo.



20 de fevereiro de 1945_[Todos os soldados-estudantes foram reunidos num saguão da Universidade Imperial de Tóquio e “convidados” a se inscrever na lista de pilotos suicidas “voluntários”.]



14 de abril_[Sasaki Hachirōmorre aos 22 anos e 9 meses de idade.]





HAYASHI TADAO

O diário manuscrito de Hayashi Tadao foi compilado e editado por seu irmão mais velho, Katsuya, vários anos após o fim da guerra. As forças de ocupação americanas haviam imposto uma rígida censura ao Japão. Diários como o de Tadao eram confiscados. O irmão de Hayashi também quis dar tempo para que os próprios japoneses começassem a compreender o envolvimento do país na Segunda Guerra Mundial. E o porquê de se ter enviado tantos jovens universitários para a morte.

Os irmãos Hayashi e Katsuda compartilhavam o apego ao comunismo, à música clássica ocidental, à filosofia e a discussões sobre vida e morte. Pouco depois da guerra, a família recebeu uma caixa de madeira com a inscrição “A Heroica Alma do Saudoso Hayashi Tadao”. No lugar das cinzas, em uma pequena folha de papel branco havia as palavras “restos mortais” (ikotsu) escritas em caligrafia nobre.



6 de abril de 1940_À noite leio Debaixo das Rodas, de Hermann Hesse. A jovem alma [o personagem Hans Giebenrath] procura crescer contra a opressão do sistema educacional do mosteiro. Ele abandona o mosteiro e tenta seguir seu próprio caminho. Mas Hans adoece. A beleza e a efemeridade do seu espírito e alma levam ao triste final de sua vida. A corrente subterrânea da impermanência. Sopro de crescimento, bela mas frágil alma da juventude, e morte.



15 de abril_Dominar o idioma inglês e identificar um princípio que me guiará intelectualmente – o liberalismo – são duas tarefas importantes da minha busca. Me pergunto em vão: “Quanto tempo vou viver?”



23 de maio_Sigo uma agenda diária que me impus: ler cinco páginas em inglês e 100 em japonês... Durante meus anos de colegial me proponho a ler 300 livros em japonês, quinze em inglês [além dos do currículo escolar] e melhorar meu condicionamento físico com trinta minutos de exercícios diários. Não ler enquanto descanso.



19 de abril de 1941_A indulgência com emoções e o erótico tem sua razão de ser. Mesmo que não passe de uma união entre dois corpos, o ser humano está destinado a sentir que não pode viver sem a companhia de outro ser humano. É claro que o erotismo não brota apenas da solidão. Algo mais leva ao desejo de companhia. Mas talvez essa interpretação sirva apenas para estetizar o erotismo...



22 de junho_[A propósito da declaração de guerra da Alemanha à União Soviética.]O que vai acontecer com o Japão? A morte é imoral e viver é absolutamente moral.



31 de agosto_Japão, por que eu não te amo e não te respeito?



12 de outubro_A nação é uma entidade com enorme poder de controle.Não posso mais elogiar minha pátria. A guerra não se destina a proteger o país, mas é o resultado inevitável da forma como o Japão se desenvolveu como nação. Sinto que devo aceitar o destino da minha geração, lutar na guerra e morrer. Chamo isso de “destino”, uma vez que somos mandados ao campo de batalha para morrer sem podermos expressar nossas opiniões, criticar e dar argumentos a favor ou contra. Morrer na guerra, morrer sob a demanda da nação – não tenho a menor intenção de elogiar esse estado de coisas. Trata-se de uma grande tragédia.



20 de janeiro de 1942_Uma frase de Jean-Christophe [obra que valeu o Nobel de Literatura ao romancista francês Romain Rolland] me tocou fundo: “A vida consiste em uma batalha contínua e sem trégua. Se você quer se tornar um ser humano honrado, precisa lutar contra inimigos invisíveis, desastres naturais, desejos avassaladores, pensamentos sombrios; tudo o que engana a pessoa, a diminui, a destrói.”



18 de junho_Assisti a uma palestra do professor Tanabe Hajime [venerado membro da Escola de Filosofia de Kyoto]. Sua voz era tão miúda que ficou quase inaudível. Em suma, ele disse que “a filosofia é um treinamento para a morte. A realidade demanda a morte, isto é, o sacrifício da própria vida. Não se morre de acordo com a própria vontade”.



30 de setembro_Preciso ser sincero. O desejo sexual é doloroso. Olho para mim, tomado pela vontade de união física. Em seguida combato o impulso como se fosse sujo e feio, resultado da minha raiva por não satisfazer o desejo. Por outro lado, sonho em aspirar o cheiro do suor [de uma amante] que excita, o cheiro do corpo do sexo oposto, o toque em um corpo quente, a euforia do enlace de duas pessoas apaixonadas se descobrindo, sem o sentimento da vergonha, a dança selvagem do ato, o adormecer abraçado e a doce sensação de despertar a seu lado – são todas imagens que me atormentam. Luto diariamente com esta dor. Preciso assumir o controle sobre mim!



21 de maio de 1943_Outra palestra do professor T. Ele explicou que a Escola Estoica considera a morte um fenômeno natural, não controlável por nossa vontade, enquanto o existencialismo de Heidegger vê a morte como uma possibilidade realista – a possibilidade de renascer que deriva da nossa habilidade de encarar a morte. De acordo com o professor, nossa única salvação é sabermos que devemos morrer, que devemos viver nossas vidas preparados para mergulhar na morte a qualquer momento. A morte não é Sein [ser, em alemão], mas Sollen [dever ser]. Ele prosseguiu dizendo que a humanidade e Deus não entram em contato direto. São as nações que medeiam entre os dois. Devemos fazer o possível para manter os três conectados.



16 de junho_Ao ler Em Torno de uma Vida: Memórias de um Revolucionário [de Piotr Kropotkin, o anarquista], fiquei tocado pela força espiritual dos russos, em especial pelas mulheres da Rússia pré-revolucionária. Apesar de perseguidas pelo regime, elas procuraram obter conhecimento; algumas se aventuraram no exterior e acabaram por encontrar uma faculdade de medicina para mulheres. Nelas encontro o verdadeiro caráter dos russos. Nossa tendência, quando pensamos no povo russo, é evocar a imagem do miserável mundo descrito por Dostoiévski em Recordações da Casa dos Mortos, mas a intensa busca intelectual da verdade também existiu.



1º de dezembro_[Entre 200 mil e 300 mil estudantes foram convocados para a guerra. O número exato permanece incerto.]



9 de dezembro_[Entre os 63 mil jovens enviados para a base naval de Takeyama, em Yokosuka, estava Hayashi Tadao.]



19 de dezembro_Os dias passam rápido. Ainda assim, cada dia parece longo... Não se pode lutar sozinho em guerras modernas. Cada um se torna uma peça da roda. Como estou convencido de que esta guerra é uma Totalkrieg [guerra total], devo concordar com cada etapa necessária.



25 de dezembro_Estou decidido a manter meu diário. Mas o Geist [Espírito] precisa permanecer livre. Dado que procuramos manter a liberdade de espírito, nos sentimos controlados. Por sermos responsáveis pela proteção do país, devemos ter a firme convicção de pro patria mori, trabalhar nossa força física e dominar nossas qualificações técnicas.



1º de janeiro de 1944_Talvez o que nos espera seja uma funda desilusão e, para nossa sociedade, uma anarquia insidiosa. Sonho em me alongar sobre as ondas do mar num dia ensolarado de primavera para me intoxicar com pensamentos soltos enquanto meu corpo se solta à deriva na água... De repente, me vem à mente uma cena de Casa dos Mortos – no entardecer de um dia de verão de céu esbranquiçado, os prisioneiros são empurrados para dentro das celas.

Vivo na solidão.



3 de janeiro_Não fujo do sacrifício. Mas martírio e sacrifício devem ser feitos no auge da realização pessoal. Sacrifício ao término do autoaniquilamento, da dissolução do seu ser, não tem nenhum significado.



22 de janeiro_Os militares exterminam a paixão e transformam o ser humano numa peça que gira uma roda mecanicamente.



23 de janeiro_Estamos todos pessimistas quanto à possibilidade de voltar para casa. Se eu não conseguir sair da Marinha, vou enlouquecer. No momento eu só quero ler livros e nesse estado de espírito não vou conseguir lutar na guerra... Não tenho paixão. Sinto perda e indiferença. Não me importa o que venha a acontecer. O sentimento mais penoso e insuportável deriva dessa vida de forçada indiferença. A parte dura não é morrer, é viver.



28 de janeiro_[Hayashi Tadao é selecionado para piloto reserva e transferido para a base naval de Tsuchiura, notória pelo tratamento brutal conferido aos soldados.]



8 de maio_O individualismo não é um mero “ismo”, mas um princípio inato do ser humano. Realmente odeio os militares. A única utilidade que reconheço neles é o seu papel de protetor do nosso Volk [povo, em alemão].



19 de maio_Sinto-me cada vez mais atraído pela solidão, preces, dívida e responsabilidade social, mas nenhum sentimento de amor, que me parece remoto demais no momento.



2 de junho_Acabo de ouvir a Nona de Beethoven. Me tocou profundamente. Intensificou meu desejo de ler livros.



8 de junho_Prevejo a queda de Paris para dentro de um mês e meio. Agora começa o contra-ataque inimigo, com sua acachapante superioridade bélica. A catastrófica etapa descrita em Nada de Novo no Front [romance pacifista de Erich Maria Remarque sobre a Primeira Guerra Mundial] se aproxima.



16 de junho_Ataques aéreos contra Saipan, ilhas de Tinian e Bonin. A situação é muito tensa, mas para mim tanto faz o Japão ser destruído. É por demais tedioso ficar esperando.



20 de junho_Minha alma treme diante da tapeçaria literária de Tonio Kröger, de Thomas Mann, com sua pitada de solidão, sensibilidade aguda e uma sublimidade quase ameaçadora.



8 de julho_É pouco provável que eu consiga obter O Estado e a Revolução, de Lênin. Meu plano, então, é memorizar A Última, de Wilhelm Schmidtbonn, e O Apóstolo, de Rilke.



14 de Julho_Hoje encerro meu diário, fruto da minha empobrecida vida espiritual. Eu, confusão e anarquia, estou reduzido a isso. O que me atrai são questões sobre a natureza da sociedade moderna. Neste diário eu expus minhas fraquezas. Este misérable humano na sua totalidade está aqui retratado. Escrever o diário foi uma forma de encontrar algum sentido para mim.

O que desejaria, para mim, é andar pelas ruas de Moscou com uma boina na cabeça, estudar economia e política internacional numa Bibliothek alemã ou me envolver numa análise teórica dos rumos a serem tomados pelo Japão. Se eu viver, é o que farei. Se eu morrer, terá sido um mero sonho. Gostaria de pensar neste diário como o primeiro capítulo do registro de um ser humano que tinha um grande sonho, mas que não encontrou uma solução. Tentei como pude realizar este sonho. Fim.



Final de maio de 1945_[Antes de ser transferido para a base aeronaval de Miho, Hayashi Tadao implorou ao irmão que lhe emprestasse O Estado e a Revolução, de Lênin, à época proibido no Japão. O irmão conseguiu fazer-lhe chegar a obra e Hayashi Tadao lhe contou ter lido, página por página, no banheiro. A cada vez, rasgava a nova página em pedacinhos e a fazia sumir na privada. Houve vezes em que engoliu os pedacinhos.]



30 de maio_[Última carta à mãe.] Mãe. Quantas vezes você falou que viveríamos em Kyoto depois da minha formatura da faculdade... Kyoto é realmente uma cidade pacífica e plebeia. Você e eu – não há lugar melhor para vivermos juntos e continuarmos a nos aprimorar. Mãe, já não há esperança de vivermos juntos agora que fomos arrastados pelo redemoinho do tumulto mundial. Como você viverá? De qual força moral poderá você depender para a continuação da vida? Minha pobre mãe.



27 de julho_Entardecer, o momento mais belo... Sem avisar, milhões de imagens aparecem e desaparecem. Amado povo. Como é doloroso morrer no céu.



28 de julho_[Hayashi Tadao morreu aos 24 anos, já depois da rendição aos americanos. Seu avião explodiu numa noite enluarada.]





KASUkA TAKEO

Apesar da publicação de inúmeros testamentos, fotos e filmes mostrando jovens pilotos sorridentes fazendo o último aceno antes de decolar para a derradeira missão, um raro relato de como transcorria a noite de véspera mostra uma história inteiramente diversa. Kasuka Takeo tinha 86 anos em junho de 1995 quando narrou o que viu, numa noite como aquela. Durante a guerra, Kasuka Takeo tinha por tarefa cuidar das refeições, da lavanderia, da faxina e de outros trabalhos manuais para os pilotos tokkōtai da base aeronaval de Tsuchiura. Eis o trecho da carta enviada a um amigo:

No salão onde ocorriam as festas de despedida, os jovens oficiais estudantes bebiam saquê frio. Alguns engoliam o copo de um só trago. Outros sorviam grandes quantidades em goles consecutivos. O local se transformava em caos. Alguns quebravam lâmpadas com suas espadas. Outros arremessavam cadeiras contras as janelas e rasgavam as toalhas de mesa. Um misto de hinos militares com xingamentos enchia o salão. Enquanto alguns vociferavam em fúria, outros soluçavam. Era a última noite de suas vidas. Embora, para todos os efeitos, estivessem prontos a sacrificar sua preciosa juventude ao alvorecer, em nome do imperador e do Japão, eles estavam dilacerados – uns repousavam a cabeça na mesa, outros escreviam testamentos ou juntavam as palmas das mãos em meditação, ou dançavam feito alucinados. Na manhã seguinte, todos decolaram portando a faixa com o sol nascente na fronte.





NAKAO TAKENORI

Nascido em Fukuoka, numa família de classe média-alta, Nakao Takenori estudava direito na Universidade de Tóquio quando foi convocado para a guerra, em dezembro de 1943, aos 19 anos de idade.

Em 1997, seu irmão caçula publicou Registro de uma Busca Espiritual: Diário Manuscrito Deixado por Nakao Takenori, um Estudante que Morreu na Guerra. Com mais de 700 páginas, nele ficam evidentes a procura de um sentido para a vida e o desejo de ser “puro”, livre de qualquer materialismo ou egoísmo. A busca da mulher ideal também permeia os escritos de Nakao Takenori. Seu conhecimento de textos filosóficos em grego e latim, além de literatura alemã e francesa, era profundo.



Agosto de 1939_Embora Hitler e Napoleão tenham guerreado para expandir seus territórios nacionais, do ponto de vista histórico eles são apenas a ascensão e queda de um povo. Seres humanos nascem para a morte. Somos apenas um ciclo histórico. A história se repete. Qual o verdadeiro sentido do universo?



Dezembro_Ameaçar a vida de um inocente jamais deveria ser permitido. Do ponto de vista dos militares, porém, isso não importa, pois a única coisa que conta para eles é a honra. Eles não questionam o que é ou não verdade, apenas enchem o ar de mentiras.

Devo ingressar no mundo do caos em que interesses partidários obstruem a justiça? Não gostaria de fazer parte do mundo que aprimora a justiça somente para os burocratas e aumenta o poder dos militares. Prefiro me manter à margem e, como Zola [Émile Zola, autor de J’Accuse, panfleto de 1898 em defesa do oficial francês Alfred Dreyfus, de raiz judaica, acusado injustamente de traição], orientar a nação em direção à justiça e à verdade.



Abril de 1940_Sócrates foi forte. Sempre se opôs aos hipócritas e manteve seu sentido de justiça. Sinto não ser tão forte como ele.



Maio_Vejo tudo cinza. Desesperança e melancolia sem perspectiva de melhora. Não estou certo de conseguir suportar a exaustão física e mental. Devo simplesmente morrer, sem haver qualquer sentido à minha vida? Sinto como se tudo fosse desmoronar repentinamente.



Abril de 1941_Muitos estudantes aceitam o seu destino, aceitam a necessidade de lutar mesmo diante da matança cruel. Sacrificam as próprias vidas pela pátria e morrem abençoando suas mães e irmãos. É espantoso. Talvez seja esse o espírito que hoje torna a Alemanha vitoriosa. [Nakao Takenori acabara de ler uma coleção de cartas escritas por soldados-estudantes alemães da Primeira Guerra Mundial.]



Abril de 1943_Estamos lutando contra a Inglaterra, esse grande império em declínio, e contra uma América que está no ápice de sua cultura material. Embora eu ainda não esteja no campo de batalha físico, já me considero dentro. Eu, que procuro e amo o absoluto, devo me sacrificar pela pátria... Será o “absoluto” encontrável neste sacrifício?

Não consigo não me debater com esta contradição... Eu, que cheguei a conhecer a profundidade da vida e a viver essa vida, devo me sacrificar pelo país uma vez que é esse meu destino? Persigo a verdade, a duras penas.



28 de abril de 1945_[Última carta endereçada aos pais.] Na festa de despedida o pessoal me deu forças. Também me esforcei para me encorajar. Sinto-me uma pessoa feliz. Posso ir ao encontro da morte na certeza de ter recebido tratamento sincero de quem eu tratei bem... Meu copiloto é Uno Shigero, um garoto bacana de 19 anos... Ele me considera seu irmão mais velho e eu o vejo como meu irmão caçula. Unidos por um mesmo pulsar de coração, vamos mergulhar num navio inimigo. Uma foto minha, que tirei recentemente, ficará pronta em pouco tempo. Ela será enviada a vocês.



29 de abril_[Nakao e Uno decolam para a missão suicida, mas são forçados a retornar à base por mau funcionamento do avião.]



5 de maio_[Os pais de Nakao vão até a base naval de Takuma para ver o filho, mas são informados de que ele já havia sido transferido para outra base; não foram informados de que ele tinha morrido na véspera, ao mergulhar na batalha de Okinawa.]





HAYASHI ICHIZŌ

Nascido numa família cristã de cultura refinada, Hayashi Ichizōse formou pela Universidade Imperial de Kyoto e foi alistado aos 21 anos. Dois anos depois, foi selecionado como piloto tokkōtai. Em menos de dois meses partiu para sua missão final. Todos os trechos de seu diário datam de 1945, quando já estava aquartelado na base naval de Wŏnsan, na Coreia ocupada.



9 de janeiro de 1945_Ganhei um caderno novo e vou começar a escrever meu diário... Embora nossa missão seja lutar, é frustrante ficar esperando... Mais um dia sem poder decolar... Provavelmente não poderei ir à frente de combate antes do florescer das cerejeiras, nem quando elas já tiverem murchado.



22 de fevereiro_[Data em que foi designado para uma unidade tokkōtai.] Devemos seguir a expressão “Sob as ordens de Sua Majestade”. Recebemos a locação da nossa morte. Devemos simplesmente mergulhar com o avião. Seres humanos são dotados da capacidade de perdoar.



23 de fevereiro_Tenho tido tanto medo da morte, mas ela já foi decidida por nós...Quando penso na minha mãe, não consigo não chorar. Sei que tentarão consolá-la, mas sei que não será fácil aliviar sua dor. Choro muito ao pensar nela...

Tenho a sorte de crer em Deus, e minha mãe também. Embora eu vá morrer, sonho com o nosso reencontro... Tenho a forte esperança de que nosso país irá superar esta crise e haverá de prosperar. Não suportaria a ideia de a nossa pátria ser esmagada pelo inimigo sujo.

Para ser sincero, não posso afirmar que o desejo de morrer pelo imperador seja genuíno, que ele venha do fundo do coração. Mas foi decidido assim.

Não terei medo no momento da morte. Tenho medo do quanto o medo da morte perturba a minha vida.



4 de março_O motivo pelo qual ando pensando em suicídio é porque a morte em combate significa o meu completo aniquilamento, impedindo que eu contribua para a sociedade, que eu empreenda algo. É fácil falar de morte no abstrato, como nas discussões dos filósofos da Antiguidade. É a morte real que temo e não sei se poderei superar este medo.



19 de março_Gostaria de fazer alguma diferença no mundo. Não nego que parte desse desejo deriva da minha vontade de ter a existência reconhecida. Mas sobretudo ele deriva do vazio que sinto e da minha ira com os chamados líderes, que são incapazes de reconhecer problemas que até eu consigo identificar.

Os militares que ocupam altos postos estão cometendo um pecado que não pode ser desculpado: estão matando crianças e civis inocentes na China.

Não tenho mais tempo para fugir... Desta vez não vou tentar escapar.



21 de março_Com os preparativos para a decolagem final sinto um peso dentro de mim. Acho que não conseguirei olhar a morte na cara.

Desespero, desespero é pecado.



Abril_[A missão final de Hayashi Ichizōfoi abortada devido ao mau funcionamento do seu avião. Isso permitiu que ainda escrevesse mais três “cartas de despedida” à mãe.] Hoje metade de nossa unidade mergulhou sobre navios inimigos ao largo de Okinawa. Não temos luz, por isso escrevo perto de uma fogueira.

Mando lembranças a todos. Não me resta tempo para escrever-lhes. Vamos afundar navios inimigos. O uniforme de um piloto tokkōtai para sua última missão inclui uma bandana com o sol nascente e uma echarpe de seda branca em volta do pescoço... Para meu último voo vou enrolar no meu corpo a bandeira do Sol Nascente que você me deu e vou colocar uma foto sua no peito... Quando você ouvir pelo rádio que navios inimigos foram afundados, por favor lembre que mergulhei em um deles.

Amanhã não estarei mais vivo. Os que saíram em missão ontem estão todos mortos? Não consigo crer que seja real. Sinto como se fossem retornar de repente. Você talvez pense a mesma coisa em relação a mim. Mas, por favor, desista. Por favor, chore. Mas, por favor, não fique tão triste.

Parto antes de você. E me pergunto se me será permitido ir para o céu. Ore por mim, mãe. Não suportaria a ideia de ir para um lugar onde você não se juntará a mim mais tarde.

Amanhã mergulho contra uma flotilha de porta-aviões inimigos. Se você fizer um funeral religioso, coloque a data certa: 10 de abril.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Relatos da Guerra


França, 10 de Dezembro de 1915



Querida mãe:

Espero que esteja tudo bem por aí.
Não sabes o quanto estou a sofrer no meio disto tudo.
Trabalhamos noites inteiras nas trincheiras, agora pergunto-me se vale a pena estas noites todas, horas de suor, quando vejo os meus amigos a sofrer.
Estou farto de passar as noites em branco e, ainda por cima, mal comemos, ou seja não temos energia para trabalhar.
Estamos fracos!!
Dormir? Muito pouco. Sonhos? Já nem me lembro o que é isso. Pesadelos? Muitos, tenho-os todos os dias pois adormeço e acordo a ouvir as metralhadoras, o barulho dos carros blindados...
Agora pergunto-me: " Nós fazemos isto tudo pela nossa terra. E eles o que estão a fazer por nós, se nem sequer um prato de comida nos dão?"
Esta é a pergunta feita por todos os soldados que aqui estão e espero respondê-la em breve assim que chegar a casa.
Estou cheio de saudades vossas, espero que os manos também estejam bem.
Por favor, tenta responder à minha correspondência.
Beijos do filho que te ama,

Lloyd Polite


França, 17 de Maio de1915




Querida irmã:
As coisas aqui estão, cada vez, piores.
Comida? Apenas pão.
Espero que vocês estejam melhores,
Porque aqui vive-se um clima de grande tensão.
Guerra:
A palavra mais ouvida.
Zelemos pela nossa terra
Pois essa é a nossa vida.
Numa nova fase da guerra,
Acabámos de entrar
Porque é pela nossa terra,
Que estamos a lutar.
Construímos trincheiras
Para mantermos a posição.
Trabalhamos nelas, noites inteiras
Pois essas eram a nossa salvação.
Cheias de corpos,
Cheias de lama
Corpos esses,
Que uma pessoa mais ama.
Novos armamentos,
Novas comunicações
Também recebemos gás
Nas nossas instalações.
Armas essas,
Que nos vieram a afectar,
Pois muitos franceses e alemães
Conseguiram matar.
Á nossa aconchegada casa
Espero chegar,
Pois ao pé da nossa família
Eu quero estar.
Sem poder escrever mais,
Só espero que respondas à minha correspondência.
Trata bem de ti e do resto da nossa família.
Beijos do teu irmão que te adora e que espera ver-te em breve!!!

Johnson Pierre





Val de Lys, 14 de Setembro de 1914




Querida Ana
Hoje encontro-me num dia não, pois cada dia que passa morre mais um irmão e a esperança de voltar para casa diminui. Ontem deparei-me com uma situação um tanto constrangedora: de longe vi um irmão ferido nas trincheiras, mas como nós estávamos cercados, infelizmente, não pudemos fazer nada porque as trincheiras ficam inundadas de água e de lama. A comida aqui não chega para todos, passo dias sem comer porque, muitas vezes, prefiro tirar da minha boca para dar a um irmão que necessita mais.
Despeço-me porque já escurece e a minha visão falha.
Beijos e abraços para os nossos filhos,
muitas saudades,

António Vieira

Relatos da Guerra



Querida Irene:

Então como tens passado? E os miúdos como estão? Devem estar enormes. Espero que se encontrem todos bem. Já passaram 6 meses e ainda me encontro neste sítio horrível a lutar pelo nosso país, mas a vida é assim, há que lutar pelos nossos direitos. Aqui vê-se de tudo mas o pior é ver um camarada nosso a morrer como eu vi ontem. Eu e esse camarada éramos amigos e tínhamos estado outro dia a falar de terras porque ele também gostava muito de ter a sua horta e cuidar dela. Eu, também muitas vezes, já pensei em desistir: como por exemplo pôr-me em cima dos sacos de areia, onde nós nos abrigamos, para levar um tiro em qualquer sítio e voltar para o meu país. Mas depois penso em vocês e não o faço.
Então, como vão as coisas por aí? As nossas hortas? Deves precisar da minha ajuda mas, de certeza que conseguiste resolver essa situação….tu encontras sempre forma de resolver os problemas. Tenho tantas saudades tuas, dos miúdos, enfim… tenho saudades de tudo, do meu país, dos nossos passeios de domingo em família em que vestíamos a nossa melhor roupa e íamos passear. Sinto muito a falta da tua comida. Aqui as refeições são muito fracas. Lembras-te como era um pouco gordo? Agora estou muito magro. Ao longo destes 6 meses não tenho dormido bem nem comido bem. Isto é um inferno. Está a chegar o Natal e eu não estou aí para comer os teus petiscos, aqueles que só tu fazes bem. Não vou poder estar à frente da nossa fogueira, a aquecer-nos um ao outro e, quando chegasse a meia-noite, dava um beijinho a cada um de vocês. Mas, para ser sincero, não sei se chegarei aí algum dia porque aqui morre muita gente. Hoje um camarada meu e amanhã posso ser mesmo eu, mas só Deus sabe o que acontecerá. Como estamos em Dezembro nem imaginas o frio que passamos aqui todos os dias e as fortes chuvas que caem provocam vários estragos por isso temos sempre que fazer de novo todos os dias barreiras de sacos de areia enormes para nos protegermos.
Manda um abraço aos meus amigos aí da aldeia. Um dia vou voltar para jogar às cartas com eles como jogava. Chega a hora de me despedir. Não sei se esta é a última carta ou se escreverei mais alguma vez mas espero escrever dentro em breve. Um beijinho para os nossos filhos e para ti que tens suportado a minha ausência ai na terra.

O teu eterno,
António Ferreira de Sousa

Relatos da Guerra


Val de Lys, 1 de Setembro de 1915


Minha querida amada,
Espero que esteja tudo bem contigo e com a nossa família.
Comigo está tudo mal, esta guerra parece o inferno, todos os dias a morte bate-me à porta.
Lá fora há um mar de sangue e partes de corpos espalhados por todos os lados.
Cá dentro, nas trincheiras, existe uma passadeira de mortos e nós, soldados, temos que caminhar por cima deles. Alguns eram grandes amigos meus.
Quando chove estas longas e tortuosas galerias ficam transformadas em verdadeiros trilhos de lama, nos quais nós temos que rastejar. Muitos ficam ali feridos e presos na lama e o pior é que ninguém os ajuda porque têm medo de morrer também.
As condições de higiene são horríveis, muitos soldados têm doenças de pele.
As nossas roupas estão cheias de piolhos que quase nos devoram. Para nos vermos livres deles temos de tirar a roupa toda e queimar os piolhos e os ovos com a ponta dos cigarros.
É assim que eu vivo no inferno.
Por favor continua a escrever-me para eu saber como estás e como está a minha família.
Espero voltar a ver-vos.

Thierry
P.S- Adoro-te.


20 de Novembro de 1915
Meu querido pai,

Não imaginas como fiquei feliz ao receber a maravilhosa notícia que a mana teve gémeos.
Vocês são a razão do meu viver, e quando recebo noticias vossas só penso em voltar para casa.
Até já pensei em fugir, mas assim seria pior arriscar-me-ia a ser condenado à morte.
Estar nesta trincheira é doloroso pois tudo aqui é muito mau, desde a comida, que é à base de pão e água, o que não nos dá muita força. A higiene aqui é escassa: as roupas são lavadas a vapor para eliminar os piolhos e o pior é a lama nas trincheiras, ainda por cima em época de Inverno.
E agora despeço-me porque está na hora de ir trabalhar naquela porcaria enlameada de que já estou farto. Mas tem que ser. Espero conseguir voltar a escrever-te.

Adeus e não te preocupes,
Miguel

Relatos da Guerra


França, 25 de Setembro de 1917

Querida Mãe,
Estou a mandar esta carta para vos informar que estou com muitas saudades vossas e que não sei se vou poder mandar outra carta porque muitos dos meus colegas estão a morrer e nunca sabemos quando chega a nossa hora.
Não estava à espera que a guerra das trincheiras fosse tão sangrenta, tem mortos e feridos por todo o lado. Os soldados aliados estão desesperados com a morte dos seus homens porque os adversários são muito destemidos, apesar de também morrerem muitos dos seus soldados.
Muitos beijos e saudades.
Do vosso amado filho,

Edson Patrick

França, 10 de Setembro de 1917



Queridos pais,
Espero que esteja tudo bem convosco…
Aproveitei a oportunidade, do inimigo ter cessado fogo, para vos poder escrever, pois, não sei quando voltarei a ter oportunidade para tal.
Isto, por aqui, está péssimo, parece que estamos no inferno.
Por vezes passamos noites e dias sem dormir, sem comer, nem beber, passamos muito mal, esta é a verdade.
Já morreu muita gente devido a esta guerra, infelizmente, já morreram muitos amigos meus verdadeiros, pessoas que vêm para aqui sem estarem, devidamente, treinadas para tal acontecimento.
Só espero voltar a poder escrever-vos novamente, pois nem sabem as saudades que eu tenho de casa, gostaria imenso que esta guerra acabasse e eu pudesse voltar para casa.
Assim me despeço de todos vós…

Beijos de carinho
saudades para todos,
Patrick





França, linha da frente, 17 de Junho de 1916



Querido pai,
Como tens passado?
Como sabes eu vim para a guerra, por livre e boa vontade, para te fazer uma homenagem e para me transformar num herói.
A vida aqui é muito diferente do que eu imaginava ser. Estou nas trincheiras, onde os combates podem dar-se a qualquer hora. Os locais a que me refiro são buracos escavados, chamados trincheiras. Pomos sacos de areia que nos deixam a salvo da mira do inimigo enquanto nós os atacamos de frente.
A terra-de-ninguém é o território que separa a nossa trincheira da trincheira dos inimigos, que não pertence a ninguém, apenas pertence às ratazanas.
Nestas trincheiras marcantes, ouvimos o som da morte, está distante e tão perto, à distância de uma bala que acaba com a vida de uma família perfeita.
O lança-chamas queima as mágoas com o calor do interior da terra e as metralhadoras distribuem tragédias.
Tornámo-nos escravos da guerra, nem homens livres nem máquinas. Apenas coisas!
A lama do campo de batalha arrasta-nos a vontade. Alguns morrem afogados, as nossas trincheiras ficaram destruídas e inundadas, cheias de lamas.
Por vezes sinto-me um verdadeiro patriota, quero levar o meu país a provar ao Mundo que não somos inferiores aos Alemães e,por isso, é obrigatório terminar esta guerra.
Mas quando há aqueles momentos de espera, eu fico a pensar que estou sozinho e ponho-me a escrever cartas para vocês. Não podia deixar de me lembrar de ti, da mãe e dos manos, claro! Quando íamos às vinhas da quinta, e as deliciosas comidas feitas pela mãe, porque a comida que fazem nos bunkers é horrível, (são os nossos próprios cavalos quando morrem e pão sem sal).
Despeço-me com muitas saudades vossas,
beijos à mãe e aos manos.

Paulo Sérgio Dias Duarte

As cartas da guerra


Rússia, 14 de Novembro de 1915


Querida Manuela,
Se estás a ler esta carta significa que ainda estou vivo, que não tive a mesma sorte que alguns companheiros meus. Só consigo sobreviver porque estou confiante em te ver outra vez.
Desde a ceia até à pernoita com honrados companheiros a serem devorados por ratazanas, que têm melhor aspecto que aquilo que nos dão como comida.
Onde estou localizado nem posso considerar o meu bem-estar pois o meu colchão é de lama misturado com cadáveres, e os meus lençóis são os seus uniformes.
Neste confronto não vejo vitória para nenhuma das vertentes, existem baixas materiais e humanas irremediáveis pelo que as duas frentes disparam com tudo o que têm até acabar as munições, após isto, segue-se a estupidez do rescaldo em que uma vertente dirige os seus soldados para contagem de baixas de outra vertente e neste momento começa o banho de sangue, e tudo o que podemos fazer é combater. Enquanto os ditos senhores da guerra, verdadeira alma do combate, se encontram noutra batalha importantíssima em que as suas armas, faca e garfo de prata, assassinam pedaços de carne assada e o sangue dessa batalha é derramado pelas uvas pisadas para formar um óptimo vinho.
Esta batalha não tem fim, espero voltar a ver-te em breve...
Beijos saudosos,

Guilherme Sá





França, 20 de Abril de 1917


Querida mãe,

Espero que estejam todos bem.
Eu estou deserto que esta guerra acabe ou que me mandem para casa são e salvo.
Todos os dias morrem companheiros meus, todos os dias são retirados das trincheiras feridos em muito mau estado. Tanta gente a sofrer por terem morto o herdeiro ao trono Austro-Húngaro.
Aqui falta tudo. A alimentação é horrível, só comemos sopas de legumes, ainda por cima sem gosto. Os legumes são tão rijos que parecem arame farpado.
Sem falar na higiene. Há quem tenha piolhos. Quem tenha sido mordido por carraças, ficando depois doente. As enfermeiras ficam com medo de cuidarem de nós por causa dos piolhos.
Mas tenho a certeza que tudo irá acabar bem para mim e que voltarei brevemente para o pé de si. Tenho muitas saudades suas.
Reze por mim, assim como eu rezo por si.
Beijos do seu filho que a adora.

António Silva

França, 14 de Dezembro de 1916


Caro amigo,

Espero que esta carta te vá encontrar de boa saúde, e em boas condições financeiras pois agora já te libertaram da guerra e já tens emprego. Escrevo-te para te descrever as cenas de horror vividas aqui nas trincheiras e espero que não digas nada aos meus pais pois eles não merecem saber o que se passa por cá. Depois de tantos anos que passei ao lado deles, a ajudá-los nos melhores e piores momentos, não merecem saber isto. Viver aqui é como viver no inferno, se algum familiar te perguntar por mim (pois tu és o meu melhor amigo), diz-lhe que ainda não morri e que estou bem de saúde.

As trincheiras são «óptimas», porque fomos os primeiros a abri-las e a escolher melhores terrenos, temos caves subterrâneas onde dormimos e onde cozinhamos mas vive-se em más condições. Os ataques são constantes e há quem não resista aos estilhaços e tenha que ir para os serviços médicos. É difícil conquistar terreno ao inimigo porque o arame farpado não permite chegarmos à outra frente. Depois vêm as metralhadoras e varrem tudo e todos e são poucos os que chegam com vida ao território inimigo. De tantos mortos existentes no terreno entre trincheiras, os meus colegas deram-lhe o nome de «Terra de Ninguém».
Aqui até as paredes da trincheira têm ouvidos e temos que reparar no que falamos. Enquanto a artilharia está em actividade, a infantaria entrou em repouso mas sempre atenta a qualquer perigo vindo do inimigo. Agora que chegou o gás, não se pára e não se aguenta com o cheiro que está activo durante semanas e, por vezes, horas depois de várias explosões de gás, morremos sufocados.

Como os ataques de infantaria não resultam, chegaram novos materiais de combate, como os aviões, para espiar as zonas onde o inimigo guarda o seu armamento de guerra, os tanques de guerra e máquinas de artilharia pesada. Com as doenças vamos ficando fracos e até as pulgas, ratos e outros bichos nos perturbam o sono e nos enfraquecem a moral. Estamos cansados de tantas cenas horrorosas que provocam doenças físicas e psicológicas.
Despeço – me, com um grande abraço.



Amidel

França, 18 de Junho 1918


Querido pai,
Espero que esteja tudo bem. O meu dia-a-dia de soldado das trincheiras é ir sempre para a guerra, mesmo com muitas dificuldades de alimentação. Por vezes não há comida e tenho que comer cavalo, temos más condições de higiene, não tomo banho e fiquei cheio de piolhos e de pulgas na roupa. Acreditas que, para tirar as pulgas das roupas, tinha que com a ponta do cigarro passar em cima das pulgas para que elas pudessem morrer.Ficar um dia nas trincheiras é ficar sem descanso, no meio da guerra, atirar balas de metralhadoras, dentro de um tanque ou mandar granadas TNT.E enquanto eu descansava houve uma enfermeira que tratou de um soldado inimigo.Querido pai … têm sido dias difíceis, estes, muito difíceis, às vezes penso que me falta a força e a coragem parece desaparecer também.
Tenho muitas saudades vossas, escrevam-me assim que puderem.
Beijo do seu filho querido,




Ivan Fialho
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