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domingo, 14 de setembro de 2014

Notícias História Viva


Cineasta desafia censores chineses para revelar horrores da Grande Fome

Documentários de Hu Jie contam a história de estudantes cujas críticas aos excessos maoistas custaram suas vidas

TANIA BRANIGAN
DO "OBSERVER", EM PEQUIM


Para os modernos estudantes chineses, o nome não é "Grande Fome" mas "Três Anos de Dificuldades". A catástrofe continua a ser assunto tão delicado que seus livros de história não documentam quantas pessoas morreram de fome, e por quê. No entanto, mais de 50 anos atrás, no pico do desastre, alguns poucos de seus predecessores publicavam uma revista clandestina que acusava diretamente os líderes comunistas de causar a devastação. "Os mortos não tinham como contar suas histórias", diz Xiang Chengjian, um dos responsáveis pela revista. "Decidi me sacrificar... estava pronto para morrer".

A história da revista "Faísca", e da audácia dos estudantes, é o mais recente pedaço do passado da China escavado pelo documentarista Hu Jie. Seus documentários revelam os excessos maoistas dos anos 50, 60 e 70, e os extraordinários indivíduos que tentaram nadar contra a corrente.

"Quero que as pessoas tenham a chance de conhecer a história real", ele diz. Hu, um ex-soldado barbado e ainda musculoso apesar de ter passado dos 50 anos, foi demitido da agência estatal de notícias Xinhua depois de começar a trabalhar em seu primeiro filme, "Em Busca da Alma de Lin Zhao", em suas horas vagas. Lin era um jovem e talentoso dissidente que terminou executado como inimigo da revolução, e escreveu cartas usando o próprio sangue como tinta, quando estava encarcerado.

Pouco depois surgiram dois documentários espantosos sobre a Revolução Cultural. "Embora Eu Tenha Partido" relata a brutal morte da professora Bian Zhongyun, executada pelos alunos; "Minha Mãe Wang Peiying" é sobre a execução de uma mulher que pediu a renúncia de Mao Tse-Tung.

Os temas de que Hu trata são tão sensíveis que alguns dos envolvidos não os discutem nem mesmo com suas famílias. Ele convenceu uma gama notável de testemunhas a falar diante das câmeras; algumas ficam agradecidas pela oportunidade de se pronunciar depois de esconder a verdade por muitos anos.

"Estou tentando preservar todo esse material. Se essas pessoas morrerem, todas essas recordações terão desaparecido", disse Hu.

Mas há quem simplesmente se recuse a falar, e um dos entrevistados em "Faísca" se detém subitamente ao receber no meio da entrevista um telefonema que o alerta para que não fale. Desafios como esse ajudam a explicar por que a realização do filme demorou cinco anos.

"Não começo com nada preconcebido para essas filmes", diz Hu. "É um processo de descoberta, para mim. Sempre soube que havia alguma coisa lá, mas não exatamente do que se tratava. Descubro no processo de realizar o filme."

"Eu sabia que uma publicação tinha existido, mas não sabia do que ela tratava. Sabia só que pessoas tinham morrido por causa dela", ele acrescenta.

A Grande Fome foi causada pela política do Grande Salto à Frente, que Mao adotou em 1958 –um esforço para causar uma disparada na produção industrial e agrícola usando a coletivização e o zelo revolucionário.

As autoridades locais, por ambição e por medo, exageraram drasticamente o volume de suas safras; comida desesperadamente necessária no campo foi enviada às cidades e até exportada. Os quadros do partido intimidavam, espancavam, detinham e matavam as pessoas que alertassem as autoridades nacionais, roubassem comida para sobreviver ou tentassem fugir da região da fome.

Enquanto via mais e mais cadáveres se empilhando, um pequeno grupo de estudantes decidiu agir. Os dois números da revista "Faísca" –tudo que puderam publicar antes que fossem apanhados– mostravam que as comunas haviam transformado os agricultores em escravos, e protestavam contra os quadros do partido, que se banqueteavam enquanto o povo morria de fome.

"Os intelectuais chineses mantiveram o silêncio. Ninguém ousava criticar o governo", disse Hu, "Só os estudantes ousavam falar, e isso lhes custou a vida".

Hu não está sozinho em seu trabalho. Outros pesquisadores chineses tentaram documentar a catástrofe. Yang Jisheng, antigo repórter da Xinhua, passou 15 anos vasculhando os arquivos oficiais para produzir seu relato, intitulado "Lápide". Outro documentarista, Wu Wenguang, recorreu a jovens voluntários para que recolhessem depoimentos de história oral. Mas esses trabalhos não podem ser veiculados na China, e Yang vem sendo criticado recentemente por adversários que se recusam a aceitar que dezenas de milhões de pessoas tenham morrido e que o Grande Salto à Frente tenha causado essas mortes.

"As pessoas nos documentários estão morrendo por nós –se sacrificaram para nos salvar. Temos a obrigação moral de relatar suas histórias", diz Hu.

Em dado momento, ele trabalhou gravando vídeos de casamentos para bancar seus documentários; agora, ele e a mulher Jiang Fenfen vivem de suas aposentadorias. Trabalham com verba minúscula, comprando passagens para viajar em pé nos trens e se hospedando nos hotéis mais baratos. "Meu sacrifício pessoal nem merece menção, mas admiro a contribuição de minha mulher", ele diz.

Hu está perdendo um pouco de energia, ao envelhecer, e dedica mais tempo a um amor anterior, a pintura –ainda que seus quadros muitas vezes se relacionem aos temas de seus filmes. Mas espera que uma nova geração de documentaristas compreenda a importância da era que ele cobre e que assuma a tarefa que ele vem realizando.

"Se você não registrar o passado, talvez ninguém mais o faça", ele adverte.

Tradução de PAULO MIGLIACCI
FOLHA DE S.PAULO

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

O impacto das mudanças climáticas nas dinastias chinesas

Registros em estalagmites revelam como índices pluviométricos afetaram a ascensão e queda de imperadores chineses

David Biello


© Science/AAAS
Milhares de anos de chuva: Amostra da estalagmite encontrada na gruta Wanxiang, China, começou a se formar aproximadamente em 190 d.C.

No século 9 uma seca terrível dizimou a colheita chinesa, e a fome se espalhou por todo o país, então sob o domínio da dinastia Tang. No ano 907 d.C. – após cerca de três séculos de domínio – essa dinastia caiu o imperador Ai foi deposto e o império dividido. De acordo com o registro atmosférico existente em uma estalagmite, uma das causas dessa ruína pode ter sido a mudança climática.

“Acreditamos que o clima tenha tido um papel importante na história chinesa” comenta o paleoclimatologista Hai Chen da University of Minnesota e membro da equipe científica que analisou a estalagmite da gruta Wanxiang em Gansu, uma província no noroeste da China. A estalagmite revela, por exemplo, que as chuvas essenciais das monções asiáticas se tornaram raras na época do declínio das dinastias Tang, Yuan e Ming ao longo dos últimos 1.810 anos.

O clima ─ observa Cheng ─ foi a gota que faltava para o copo transbordar. Formada por carbonato de cálcio dissolvido pelos pingos de água, a estalagmite de 11,7 centímetros conserva um registro da chuva nesta região, que está situada na margem da área de impacto das monções asiáticas. A região recebe menor quantidade de chuvas quando a monção é suave e mais chuva quando os ventos são fortes, explicam os pesquisadores em artigo publicado recentemente naScience.

© Science/AAAS
Segredos das estalagmintes – Interior da Gruta Wanxiang

Esses períodos de chuvas fortes e fracas, quando comparados com os registros da história chinesa, coincidem com períodos de tumulto ou de prosperidade no império, como no caso da expansão da dinastia Song ao norte ─ uma época de colheitas abundantes. Além disso, o registro da estalagmite coincide com retrações glaciais nos Alpes, registros de sedimentos do Lago Huguang Maar no sul da China e secas ocorridas desde Barbados até o sul da França.

O colapso da dinastia Tang, na verdade, coincide com o da civilização Maia ─ ambos devido a um estado de extrema seca. “Demonstramos que o registro da gruta está bem correlacionado com muitos outros registros, inclusive o da Pequena Idade do Gelo na Europa, das mudanças de temperatura em todo o hemisfério Norte, e uma variabilidade solar importante”, observa Chang.

A variabilidade da intensidade solar no passado parece ter tido um papel preponderante na determinação da força das monções asiáticas. O registro revelado nos 50 anos passados, no entanto, mostra um quadro diferente, com fuligens produzidas pelo homem e gases do efeito estufa determinando a intensidade da chuva.

“É provável que a atual tendência de aquecimento global ou influência antropogênica esteja acompanhada de uma tendência de enfraquecimento das monções do verão asiático, principalmente no noroeste da China,” ─ comenta Cheng. Talvez por isso os atuais líderes chineses estejam tão ansiosos para atuar nas mudanças climáticas causadas pelo homem.
Scientific American Brasil

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Notícias História Viva

Pesquisa afirma que guerreiros de terracota eram peças de treinamento militar
Estudo inédito contradiz teoria vigente de que exército protegia a tumba do Primeiro Imperador Qin
Efe
PEQUIM - Um pesquisador chinês publicou, após 30 anos de estudo, uma teoria revolucionária sobre o famoso Exército de Terracota de Xian, na qual defende que essas famosas figuras de argila não protegiam a tumba do Primeiro Imperador Qin, mas eram usadas para treinar guerreiros de carne e osso.

Publicada na última edição da revista chinesa História Militar, esta tese, que começou a agitar os círculos arqueológicos do país, sustenta que os soldados de terracota eram utilizados para simular batalhas para testar os exércitos reais do império Qin (século III a.C.).

Sun Jiachun, membro do escritório geológico da província chinesa de Shaanxi - cuja capital é Xian -, é o grande defensor desta teoria, que menciona como um de seus principais argumentos o fato de que o agora turístico Exército de Terracota fica longe demais da suposta tumba do imperador, a 1,5 quilômetro de distância.

Os arqueólogos acreditam que, entre os soldados de terracota e a tumba imperial, pode haver ainda mais figuras de argila, ainda não desenterradas, já que muitos são reticentes a realizar escavações na área temendo destruir os tesouros de uma tumba supostamente tão enorme.

Nem sequer a tumba do imperador foi aberta, apesar de ser visitada por milhares de turistas diariamente, embora tenha se tentado usar robôs para entrar nela, imitando as pesquisas em algumas pirâmides do Egito.

Sun aproveita esta ausência de novos avanços na teoria da tumba imperial para desenvolver a sua própria, defendendo um uso mais pragmático dos soldados de terracota.

Para ele, outra prova que mostra que este peculiar Exército não acompanha o imperador em sua vida além da morte é a desorganização dos soldados, empilhados, e o fato de eles não terem um general ou comando que os lidere, algo que seria inadmissível em uma formação militar da época.

"Isso contradiz o sistema militar da China antiga e as crenças tradicionais nas quais se dizia que um imperador morto deveria ser servido da mesma forma como quando estava vivo", expõe o especialista em sua tese, divulgada pela imprensa oficial chinesa.

Outra razão apontada pelo pesquisador, aproveitando seus conhecimentos geológicos, é a distinta profundidade à qual estão os soldados com relação ao mausoléu imperial. Este fica, segundo os arqueólogos, a dez metros debaixo da terra, enquanto o Exército, naquela época, estava a apenas um ou dois metros de profundidade.

Antes de Sun, outros especialistas tinham desenvolvido novas teorias sobre o Exército de Terracota, embora nenhuma delas tão ousada.

Um célebre historiador, Wang Xueli, tinha notado, por exemplo, que os três grupos de soldados atualmente expostos aos turistas representavam diferentes cenas (o primeiro e mais conhecido, um agrupamento de batalha; o segundo, um acampamento; e o terceiro, alguns quartéis), mas não se tinha atrevido a levar a tese adiante.

No entanto, Sun aproveita as ideias de Wang para reforçar as suas e ressaltar que todo o sítio arqueológico não é mais do que uma escola militar.

As ideias do pesquisador chegaram a outros especialistas sobre o assunto, e embora não tenham refutado-as completamente, defenderam que a teoria da tumba imperial continua sendo a mais convincente.

"Eu pessoalmente acho que se trata de um Exército de guerreiros para o imperador após sua morte, mas, seja como for, precisamos de mais evidências para sustentar suas teorias e as nossas", assinala Duan Qingbo, professor da Universidade Noroeste de Xian, citado pela agência de notícias oficial "Xinhua".

O Exército de Terracota, construído na época do unificador do império chinês Qin Shihuang, foi descoberto há 37 anos por um camponês, por acaso, e o achado é considerado um dos mais importantes da arqueologia do século XX.

O Museu do Exército de Terracota foi estabelecido em 1979. Em 1987, foi incluído na lista do Patrimônio Mundial da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Guerra dos Boxers

partilha da China

Rainer Gonçalves Sousa
A Guerra dos Boxers foi um conflito ocorrido na China entre os anos de 1899 e 1900, onde um violento grupo nacionalista lutava contra a presença dos estrangeiros em seu território. Inconformados com a inapetência do poder imperial em conter a intervenção imperialista no país, um grupo de lutadores da China desenvolveu uma sociedade secreta, conhecida como “A Sociedade dos Punhos Harmoniosos e Justiceiros”, para lutar contra os imperialistas.

Com o apoio velado das autoridades locais, os boxers empreenderam as suas primeiras ações realizando pequenos atos de vandalismo ao cortar linhas telegráficas, destruir ferrovias e perseguir os missionários cristãos. Em suma, apesar de uma organização incipiente, os participantes dessa revolta atacavam tudo aquilo que poderia representar a dominação dos ocidentais em seu país. Paulatinamente, o triunfo das primeiras ações impeliu o planejamento de ataques com maior gravidade.

O crescimento da situação hostil obrigou as nações imperialistas a organizarem um exército que desarticularia as ações violentas organizadas pelos boxers. Alemanha, Estados Unidos, Inglaterra, França, Japão, Itália e Rússia cederam soldados para tomar a cidade de Pequim, o principal foco dos conflitos. A invasão estrangeira – ocorrida no final de maio de 1900 – foi logo respondida com um novo ataque dos boxers à pista de corrida dos estrangeiros e o isolamento do bairro das Embaixadas.

Enquanto os civis estrangeiros e os cristãos tentavam se refugiar da onda de ataques, os vários representantes políticos da autoridade estrangeira resistiam à espera de uma forte reprimenda contra os chineses. Entre os meses de julho e agosto, as tropas estrangeiras lutaram contra os boxers e os membros do exército imperial que apoiavam o levante. Percebendo o recuo dos chineses, as nações imperialistas fizeram uma série de exigências em troca da preservação dos territórios.

No dia 7 de setembro de 1901, a Paz ou Protocolo de Pequim oficializou os acordos que puseram fim à Guerra dos Boxers. Derrotado, o governo chinês se viu obrigado a pagar uma pesada indenização em ouro e liberar novos portos às embarcações estrangeiras. Além disso, os imperialistas impuseram a sua autoridade na capital do país e proibiram os chineses de importarem armamentos. Nas décadas seguintes, apesar do fracasso, outros levantes determinaram o fim da dominação estrangeira na China.

Por Rainer Sousa
Mestre em História
http://mundoeducacao.uol.com.br

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Os guerreiros de Xian

Alguns dos 7 mil guerreiros de terracota de Xian
Engorde seu plano de milhagem e conheça um dos maiores patrimônios arqueológicos da China com nosso caçador de tesouros

Arthur Veríssimo

Pequim, ou melhor, Beijing é uma fonte inesgotável de passeios e descobertas. Conhecer suas entranhas, bairros, museus, restaurantes e sua imensa população é uma tarefa que exige algumas vidas. Lá encontrei o Palácio de Verão, um pedaço da Grande Muralha e a maravilhosa Cidade Proibida. Meu guia, um senhor com mais de 70 anos, insistia que fôssemos conhecer os famosos guerreiros de terracota de Xian, no noroeste da China. Recordava-me de que em 2003 uma exposição trouxera para a Oca, no Parque do Ibirapuera (São Paulo), relíquias como 11 estátuas de soldados, dois cavalos também de terracota e centenas de relíquias do tesouro da Cidade Proibida. O evento foi um sucesso estrondoso, com mais de meio milhão de visitantes.

Convencido por meu anfitrião, parti para Xian para visitar o fabuloso tesouro. Segundo pesquisas de arqueólogos, há evidências de que a cidade, capital do estado de Shaanxi, era habitada há mais de 6 mil anos. Para você ter uma idéia da sua importância, Xian foi capital de 11 dinastias - como Qin e Tang - e foi ponto de partida para a antiga Rota da Seda.

Arthur às portas da Cidade Proibida, em Beijing

A história do descobrimento dos guerreiros de terracota ocorreu em um dia como outro qualquer. Em março de 1974, um agricultor da região escavava um poço à procura de água e acabou dando de cara com uma imensa galeria. Levou um baita susto quando viu as milhares de estátuas. Sua descoberta causou uma revolução no governo chinês. Desde então, uma megaoperação de arqueólogos e restauradores começou a resgatar e revelar ao mundo as esculturas que reproduziam o exército do grande imperador Qin Shi Huang, unificador da China no ano de 211 a.C.

O maravilhoso tesouro foi aberto ao público em 1979. O complexo encontra-se espalhado por uma área de 20.000 m2. Os arqueólogos encontraram quatro zonas de escavação, sendo uma delas estranhamente vazia. Foram descobertos mais de 7 mil guerreiros, 500 cavalos de terracota e uma centena de carros de combate de madeira. As figuras encontram-se em rígida formação militar, e grande parte das esculturas foi moldada a mão pelos artesões. Esse impressionante exército foi colocado a 1.500 metros a leste da tumba de Qin Shi Huang para acompanhar e proteger o imperador após a sua morte. Sim, caríssimo leitor: os chineses daquela época já acreditavam em vida após a morte. Mais de 700 mil homens teriam trabalhado durante 36 anos para finalizar o complexo.

A restauração feita pelos arqueólogos desde o descobrimento continua sendo exaustivamente minuciosa. Os guerreiros foram encontrados em péssimo estado. Saqueadores, vândalos, incêndios e a umidade destruíram uma parte do tesouro. Com muita perseverança, os restauradores garimparam milhões de cacos e os recolocaram nas esculturas. O sítio arqueológico é um assombro. Turistas de todas as partes do planeta ficam boquiabertos diante do cenário. Centenas de guardas e monitores proíbem os viajantes de fotografar o complexo. Consegui, como por milagre, fazer cinco fotos.

À medida que seu olhar vai se aprimorando diante dos guerreiros, é possível observar que cada soldado foi esculpido com expressões faciais diferentes. Recentes escavações encontraram outros tipos de personagens - artistas, bailarinos e figurinhas da corte -, mas as autoridades temem realizar outros trabalhos no complexo funerário devido à erosão e às chuvas. Só nos resta esperar que as técnicas de escavações se aprimorem para finalmente conhecermos todos os segredos da tumba do imperador Qin Shi Huang.

Arthur Veríssimo, repórter de 48 anos, acumula milhas aéreas e histórias para contar sobre os lugares e as pessoas mais incríveis do mundo
http://revistagalileu.globo.com/

quarta-feira, 20 de abril de 2011

A questão tibetana

Entenda as raízes da disputa pela soberania do Tibete e a influência chinesa sobre a região


Entre os séculos 7 e 9, o rei tibetano Namri Lontsen e seus descendentes disputam territórios com a China, na tentativa de unificação. Sob a dinastia Yuan, a partir do século 13, a China passa a clamar o território tibetano. Seriam mais de 700 anos de jurisdição chinesa no território.

O Tibete, por sua vez, argumenta que era um protetorado dos impérios dominantes, oferecendo auxílio espiritual em troca de proteção política. Além disso, dizem os tibetanos, vários impérios alternaram-se no controle da região, como o Mongol e o Manchu - os quais eventualmente incluíam a China em suas fronteiras.
Independência
Depois de anos de exílio por causa do domínio da dinastia chinesa Qing, que entra em colapso em 1912, o 13º dalai-lama retorna ao Tibete e declara independência do país. Apesar disso, a China e alguns países ocidentais, como os EUA e o Reino Unido, não reconheceram a independência do Tibete.

Invasão e acordo
Um ano após a fundação da República Popular da China, comandada por Mao Tsé-tung, o governo chinês decide reincorporar o Tibete. A invasão causa a morte de cerca de 1,1 milhão de pessoas. Em 1951, líderes tibetanos são forçados a aceitar o 'Acordo de 17 Pontos para a Liberação Pacífica do Tibete', que garantiria a autonomia política e religiosa do Tibete, mas sob a condição de estabelecimento de bases militares e civis chinesas em Lhasa. As Nações Unidas anulam o acordo, assinado sob pressão.

Protestos e exíilio
Acusando a China de não cumprir o acordo, os tibetanos organizam o primeiro levante contra as forças chinesas. As manifestações são repreendidas com violência. O dalai-lama, vários de seus ministros e cerca de 80 mil tibetanos fogem para a Índia. No plano internacional, os EUA adotam postura ambígua: enquanto se recusam a reconhecer a indepêndência do Tibete, financiam grupos separatistas de guerrilha. O auxílio financeiro americano dura até 1971, quando iniciam aproximação com a China.

Revolução cultural
Durante os anos da Revolução Cultural de Mao, as atividades religiosas no Tibete são proibidas e templos são destruídos. Em 1965, o Tibete é declarado região autônoma da China. Nas décadas seguintes, o governo chinês passaria a investir na região, modernizando-a e exaltando os progressos materiais que promove. Para os tibetanos, no entanto, a suposta ajuda beneficiaria mais a etnia han, que passou a migrar para o Tibete, e contribuiria para a descaracterização da cultura local.

Dialogos retomados
Sob o governo de Deng Xiaoping, a China adota uma postura menos dura e abre canais de negociação com o dalai-lama, exilado. As discussões sobre a soberania tibetana são abaladas quando novos protestos surgem. Em resposta, a China impõe Lei Marcial no Tibete. Em 1989, o dalai-lama recebe o prêmio Nobel da Paz. No mesmo ano, acontece o massacre dos estudantes na Praça da Paz Celestial.

Rompimento e interferência
China interrompe as negociações com o dalai-lama. Em 1995, o governo chinês prende Gedhun Choekyi Nyima, o garoto de seis anos apontado pelo dalai-lama como o Panchen Lama, segunda figura mais importante do budismo tibetano, e nomeia outro no lugar. O menino nunca mais foi visto e é considerado o mais jovem prisioneiro político do mundo.

Olimpíada e protesto
Em 2002, o governo chinês retoma contato com o dalai-lama. Em 2008, às vésperas da Olimpíada em Pequim, na China, as manifestações pela independência tibetana se intensificam e tornam-se violentos. A causa atrai simpatia também no ocidente, e o revezamento da tocha olímpica no mundo se transforma em catalisador de protestos.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

China – Década de 1980, abertura para um universo de influência cultural do “Império do Centro”


por Paulo Antônio Pereira Pinto

Há cerca de dez anos, tenho tido o privilégio de contar com este espaço, concedido pela Universidade de Brasília, para exercícios de reflexão sobre minha vivência, entre China, Sudeste Asiático, Taiwan, Índia e, agora, Cáucaso. Peço vênia, nesta oportunidade, para a recapitulação dos “melhores momentos” destes estudos. O primeiro artigo trata do período entre 1982 e 1995, dividido entre Pequim (Brasília), Kuala Lumpur, Cingapura e Manila. Analisa o processo de abertura chinesa, consequências no plano interno e nas relações da RPC com seu entorno imediato, no Sudeste Asiático.
Assim, meus depoimentos se iniciam, a partir da década de 1980, quando começa uma nova fase na história recente da China, com processo de modernização e abertura do país ao exterior, após o período turbulento da Revolução Cultural.
Tanto no plano interno, como no externo, identificam-se, naquele momento, alterações determinadas por condicionantes da forma de pensar chinesa, cuja história é marcada por ciclos que se repetem em resposta a sucessivas novas contradições. Buscam-se, sempre, outros pontos de equilíbrio. O ocorrido na década de 1980 significava o início de nova cena de partida, de um passado recente, que estabeleceu bases para o cenário em vigor na China. Daí, talvez, o interesse quanto à reflexão sobre o que se passou, para o melhor entendimento do que está acontecendo e virá a ocorrer.
Naquele período, cabe ressaltar, não era possível deixar de sentir uma certa tristeza, pelo fato de que havia sido encerrada, na China, uma era de convicção poética maoista. A partir de 1949, acreditara-se que, em benefício do interesse comum da sociedade, centenas de milhões de pessoas poderiam ser levadas a patamar mais elevado do que o egoísmo individual.
A experiência chinesa de busca de uma sociedade igualitária encantara a muitos. Os países do Terceiro Mundo admiravam sua combatividade e auto-suficiência. Os economistas ocidentais registravam o pleno emprego atingido no campo e invejavam sua força de trabalho disciplinada, na indústria. O exercício de observação diário e o aprendizado da realidade do país, no entanto, indicavam que não se vivera na China, nas três décadas anteriores, tantos motivos de encantamento[1].
Na verdade, naquele período, perdurara o elitismo e a corrupção entre os dirigentes do partido e do governo. O lento progresso obtido na economia demonstrara não ser tão fácil, desenvolver-se com os próprios recursos, sem a infusão de investimento, tecnologia ou ajuda externa.
Em suas relações internacionais, sabe-se que a República Popular, desde sua fundação, em 1949, havia mantido um vasto exército e milícias armadas e desenvolvido a bomba atômica. A China tivera conflitos com a União Soviética e Índia e fricções com o Japão, com respeito às Ilhas de Senkaku e com o Vietnã, quanto às Spratlys. Não se tratava, portanto, de país totalmente “amante da paz”, conforme se divulgava em Pequim aos visitantes estrangeiros.
No plano interno, à medida que se conhecia melhor a real situação chinesa, ficavam diminuídos, inclusive, os ganhos considerados, por exemplo, no controle familiar – enorme. No entanto, verificava-se o custo em termos de direitos humanos, na proibição de casamentos antes dos 20 anos e obrigatoriedade de apenas um filho por casal.
Não se quer negar, no entanto, as grandes conquistas do período maoísta, nem os feitos do povo chinês. Um país que, na primeira metade do século XX, fora devastado por guerras internas, encontrava-se, no início da década de 1980, unificado, apesar das crises de liderança resultantes da Revolução Cultural.
Como era possível verificar, a China alimentava e vestia seu povo. Um esforço descomunal fora feito para construir represas, diques e sistemas de irrigação, bem como no sentido da auto-suficiência alimentar. Mas seria isso suficiente? Tais conquistas teriam que ser vistas em perspectiva.
Mao Zedong tornara a “necessidade” em “virtude”, como base de sustentação para política de auto-suficiência. Em grande parte, tratava-se de reação ao fato de que os soviéticos terem cessado toda e qualquer auxílio, a partir de 1960, levando consigo, inclusive as matrizes de fábricas cuja instalação já havia sido iniciada.
O Grande Timoneiro, então, colocou toda sua crença na “genialidade do povo chinês”. Doravante, tudo seria resolvido com a mobilização permanente das “massas”. Daí, surgiriam energias e talentos até então escondidos por sistema social opressivo. Na década de 1960, por exemplo, ampla campanha nacional encorajava simples operários a fazerem sugestões sobre inovações tecnológicas. Exageros evidentes eram noticiados a respeito do aumento de produtividade como resultado de soluções práticas obtidas nos canteiros de obras, campos agrícolas e operadores de máquinas nas fábricas.
O caráter “anticientífico” das práticas maoistas chegou ao apogeu durante a chamada Revolução Cultural, quando professores e alunos foram obrigados a curvar-se diante da “sabedoria” das massas.
Postura semelhante foi adotada nas forças armadas chinesas, onde o conceito maoista de “guerra popular” baseava-se na premissa de que “homens contavam mais do que máquinas”. Nessa perspectiva, centenas de milhares de soldados de infantaria, com armamento obsoleto, seriam capazes de derrotar um Exército soviético equipado com armas modernas. Mantinha-se, no entanto, a dissuasão nuclear, na medida em que a China não renunciava a sua própria bomba atômica.
Com a derrota do “bando dos quatro”, a China desencadeou outra campanha, desta feita para condenar a viúva de Mao, visando a acusá-la e a seus três cúmplices de Xangai pela maioria dos fracassos e fraquezas do anos anteriores. Este novo processo implicou, novamente, em notáveis exageros nas acusações. A mensagem, no entanto, era clara: os dirigentes chineses haviam tomado consciência de que suas políticas de auto-suficiência, recusa em aceitar ajuda externa e negativa à aquisição de tecnologia estrangeira haviam reduzido as taxas de crescimento e o progresso em quase todos os setores da economia.
A rejeição da ideologia passada foi feita na forma de pronunciamentos que, gradativamente, desautorizassem o autoritarismo vigente na fase que se encerrava. Enquanto isso, o corpo de Mao Zedong era reverenciado no Mausoléu, em Pequim, com todas as honras devidas ao fundador da República Popular da China. Tratava-se, no entanto, de trazê-lo a proporções humanas.
Começava o processo de estabelecer seu lugar na história, como um grande líder revolucionário, mas como um homem com menor sucesso, quando se tratou de administrar um país. Suas principais preocupações diziam respeito à eliminação dos dogmas socialistas, agora vistos como impedimento à nova marcha da China, em direção à modernização. O principal responsável pelas alterações na condução das políticas, econômica e social da China, a partir de 1978, e “Novo Timoneiro”, passou a ser o então Vice-Primeiro-Ministro Deng Xiao-Ping.
O julgamento público de Mao, no entanto, tinha dimensões restritas. Todos os erros cometidos no período de radicalização maoísta eram atribuídos a Lin Piao e ao “bando dos quatro”. Para o cidadão chinês, contudo, havia implicações óbvias: não era possível aceitar que toda a culpa fosse atribuída a um traidor e a quatro radicais – na prática, os atuais dirigentes em Pequim estavam admitindo que a “Grande Revolução Proletária Cultural” havia sido um fracasso enorme e custoso.
O próprio retorno de Deng Xiao-Ping ao poder, como Vice-Primeiro Ministro já significava uma rejeição eloqüente do julgamento de Mao, que havia dado seu apoio pessoal às duas quedas anteriores de Deng.
Não era possível ignorar, contudo, que Mao tinha razão quanto ao diagnóstico sobre os males que atingiam a China. Assim, de acordo com sua visão, o maior perigo para o país seria o retorno à estagnação imposta pela burocracia do partido e do estado. Suas soluções eram poéticas e imaginativas: uma série de campanhas para mobilizar os intelectuais – “O Movimento de Cem Flores” – a busca de um caminho mais curto para o Socialismo – “O Grande Salto Adiante” – e a provocação de uma “discórdia criativa” entre a juventude do país e a burocracia estatal – “A Revolução Cultural”.
Sabe-se, contudo, que Mao não obteve sucesso na criação do “homem socialista”. Ele pediu demais, tanto dos chineses, quanto da natureza humana.
No final da década de 1970, no entanto, todo este processo havia sido esquecido. Ficara provado que, em tese era uma boa idéia encorajar os trabalhadores a pensarem o aumento da produção com seus próprios meios. Na prática, a premissa ideológica, sobre a qual se baseava – a de que a sabedoria está consagrada nos trabalhadores – conduziu a medidas impraticáveis, como por exemplo, a utilização de máquinas antiquadas sendo utilizadas em velocidade inapropirada, provocando acidentes ou resultados negativos.
Com a morte de Mao Zedong e a derrubada do “Bando dos Quatro”, a China poderia, finalmente, defrontar-se com estes fatos negativos e tomar as decisões cabíveis, para superá-los.
Havia sido abandonado, no entanto, o fundamento da filosofia maoista: o “conceito hegeliano” de que a unidade deve ser dividida em duas partes e que cada situação contém em si contradições saudáveis que são necessárias para a luta e o progresso, levando, assim, à noção de luta de classes contínua e revolução permanente[2].
Segundo Mao, a China não deveria jamais permitir-se cair na complacência da “unidade” e, de acordo com esta filosofia, o “Grande Timoneiro” teve a audácia poética de desencadear uma revolução contra seu próprio governo e partido. O veredito da história será provavelmente o de que, enquanto Mao foi um dos maiores líderes revolucionários, demonstrou ser um governante menos habilidoso, uma vez que sua revolução tornou-se vencedora. Provocou, assim, severas perdas a seu país, enquanto perseguia suas visões utópicas.
Sob nova liderança, Pequim pareceria retomar a abordagem mais tradicional à forma de governança, recuperando a busca filosófica chinesa do “Caminho Real”.
Recorda-se, então, que, desde os primórdios da civilização chinesa, há 4000 anos, às margens do Rio Amarelo, que pensadores buscam equilíbrio e harmonia como forma de governança a ser chamada de “Caminho Real”, quando haveria “ordem social” em que os monarcas exerceriam suas responsabilidades e a população cumpriria seus deveres.
Nas palavras de Confúcio: “Quando um governante faz o que é certo, influenciará as pessoas, sem ordená-las. Quando o governante não faz o que é certo, seus comandos não são obedecidos”. Implícita fica a noção de que, caso a autoridade local não crie condições de governança adequadas ao funcionamento harmonioso da sociedade, os cidadãos podem ignorar o governante.
No início da década de 1980, portanto, o sentimento dominante era o de que a morte havia “humanizado” Mao Zedong e “desmitificado” a China, que, então, admitia suas limitações no trato com os grandes problemas do país.
Abertura para um Mundo de “Desordem sob os Céus”
Nos anos em que foram registradas as observações acima – entre 1982 e 1985– o cenário internacional era bipolar, com centros de poder em Washington e Moscou. Segundo classificação adotada no Ocidente, o planeta era dividido em “Três Mundos”. Os países industrializados de economia de mercado foram incluídos no Primeiro Mundo. Os de sistema econômico centralmente planificado participavam do Segundo. Os em desenvolvimento eram despachados para o Terceiro.
Durante a fase maoista, no entanto, os chineses tinham uma visão própria do globo terrestre. Este estaria dividido em duas partes antagônicas – a metade que apoiava o bloco soviético e a outra que se opunha, incluindo a China. A política externa da RPC seguia esta rigidez, baseada no pressuposto de que qualquer coisa que pudesse prejudicar os interesses de Moscou seria favorável a Pequim.
Sob a nova liderança de Deng Xiaoping, tornou-se mais pragmática também a postura chinesa no plano externo. Este “último Grande Timoneiro do século XX” – como se referem a ele alguns historiadores – apresentara, a propósito, teoria própria quanto à existência de “Três Mundos”[3].
Segundo Deng:
“A julgar pelas alterações nas relações internacionais, o mundo atual consiste de três partes, ou três mundos, que são tanto interconectados, quanto contraditórios. Os Estados Unidos e a União Soviética formam o Primeiro Mundo. Os países em desenvolvimento na Ásia, África e América Latina integram o Terceiro Mundo. Os desenvolvidos – sejam os do mundo capitalista ou do socialista – formam o Segundo Mundo”.
De acordo com o novo discurso chinês, o Sudeste Asiático, já então organizado por sua associação regional ASEAN (na sigla em inglês), representaria, em meados da década de 1970, exatamente o tipo de interlocutor capaz de implementar a cooperação – e refletir as contradições – entre países do Terceiro Mundo e entre estes e o Segundo Mundo, conforme defendido pela China. Assim, em oposição ao congelamento das esferas de influência das superpotências—ambas integrantes exclusivas do Primeiro Mundo imaginado pelos chineses.
Tais desenvolvimentos induziam, desde então, à percepção de que a estrutura de poder bipolar que vinha permeando a região estaria sendo alterada em função de nova “multipolaridade”, na Ásia-Pacífico, onde quatro potências principais – os Estados Unidos, a União Soviética, a China e o Japão – teriam, doravante, sua parcela de influência.
Verifica-se, a propósito, que, desde o início da atual política de modernização da China, na década de 1980, houve desdobramentos que facilitaram o atual avanço do processo de congruência entre a área de influência tradicional da cultura chinesa e uma nova fronteira econômica da RPC .
A crescente regionalização da produção evoluía, de forma que a interação de novas tendências, como a redução nos custos da mobilidade dos fatores de produção e as economias de escala exigidas por processos produtivos crescentemente sofisticados, proporcionavam o surgimento dos chamados “tigres” ou “novas economias industrializadas”. Os efeitos de tais reajustes seriam evidentes no aparecimento de formas de relacionamento inovadoras, que incluiriam diferentes tipos de parcerias entre Japão, novas economias industrializadas no Sudeste Asiático e partes da China.
A emergência de certos países e agrupamentos regionais, sempre de acordo com esta linha de raciocínio, não se deveria a experiências isoladas, mas a fenômeno integrado, que projetaria sobre a área como um todo os benefícios da acumulação de capital e da experiência modernizadora resultante da aplicação prática de novos conhecimentos científicos e tecnológicos[4].
A estabilidade e o progresso na Ásia-Pacífico passaram a ser entendidos, por setores de opinião, como dependentes, cada vez mais, de processos de cooperação que garantissem a negociação entre suas diferentes culturas. Nesse contexto, despertavam crescente interesse os vínculos históricos entre a China e o Sudeste Asiático.
Isto porque a maioria dos países do Sudeste Asiático compartilha de passado que os inseriu, em maior ou menor escala, em esfera de influência de duas grandes civilizações: a chinesa e a indiana, que interagiram, através dos séculos, com culturas locais. O Budismo, o Islã, o Hinduismo e o Confucionismo deixaram, assim, marcas profundas que continuam a diferenciar ou aproximar pessoas.
A este mosaico de heranças culturais seculares, somou-se, mais recentemente, o colonialismo europeu que impôs pela força, novos valores e normas de organização e comportamento. A partir do término da Segunda Grande Guerra, os Estados recém-independentes da região foram divididos, pela rivalidade ideológica das superpotências, entre os que serviriam como a vitrine da economia de mercado e os que seguiriam o sistema de planejamento centralmente planificado.
Com a multipolaridade resultante do término da Guerra Fria, ocorreu o recuo das esferas de domínio de Washington e Moscou. Como consequência, no Sudeste Asiático, tornou-se possível o ressurgimento de influências político-culturais antigas, como a chinesa. Hoje, quando se discutem os efeitos da presença avassaladora da cultura de massa, resultante da globalização, os países da área buscam, em sua própria região, marcos de referência que permitam afirmar valores, idéias e crenças, consolidadas através de uma história compartilhada numa geografia determinada.
No Sudeste Asiático, nessa perspectiva, verificou-se a gestação de um novo conjunto de mudanças que afetaram não apenas a economia, através da reorganização freqüente de suas vantagens competitivas, transformações técnico-industriais nas formas de produzir e alterações na organização da sociedade. Tudo isso ocorreu, no entanto, com a preservação de valores culturais que, passando de geração a geração, garantiram uma base de sustenção do modelo que se consolidava.
Tal panorama leva alguns estudiosos, como Léon Vandermeersch[5], a contribuir para a tese de que existe uma base cultural para avaliar o fenômeno do dinamismo dos países objeto deste estudo. Isto porque, apesar de sua diversidade, em termos de extensão geográfica, população, estágio de desenvolvimento, sistema político e experiência colonial, alguns países do Sudeste Asiático possuem, em comum, conjunto de valores herdados de período de influência cultural chinesa.
Na prática, este processo de complementação/contradição – segundo o pensamento de Deng Xiaoping, citado acima – evoluiu com a busca da construção de sucessivos “building blocks”, a partir da integração do próprio sistema econômico da China. Isto levaria a moldura política regional com forte influência do ordenamento histórico em que, durante séculos, parte da área hoje situada entre Myanmar e Vietnã esteve inserida em grande arco de Estados vinculados ao Império do Centro.
Na primeira etapa dessa construção de blocos, logo após ao desaparecimento de Mao Zedong, integrou-se o próprio sistema econômico chinês. Em seguida, foi permitida a abertura de cidades costeiras ao comércio internacional, com a criação das Áreas Econômicas Especiais, onde foram adotadas práticas de economia de mercado dentro de um sistema centralmente planificado mais amplo. Os blocos seguintes foram surgindo ao longo do rio Yantze, até chegar a Xangai, onde se situaria a “cabeça do dragão”[6].
Gradativamente, houve a consolidação de Hong Kong e Macau no sistema produtivo da RPC. A crescente integração econômica – e futuramente política – com Taiwan será o passo seguinte. A expansão da fronteira econômica chinesa em direção ao Sudeste Asiático será a fase posterior, que está sendo facilitada pela existência, ao Sul da China, de uma rede de indivíduos com origem étnica comum, chamados “chineses de ultramar”, que têm como referência uma mesma identidade cultural.
Assim, gradativamente, chegar-se-ía a uma futura congruência entre a área de influência tradicional da cultura chinesa e uma nova fronteira econômica da RPC.
Este último desenvolvimento ocorreria através de um fenômeno de “cross fertilization”[7], caracterizado por intercâmbio de referenciais de valores, entre aquela área considerada historicamente como situada na periferia do Império do Centro e a RPC.
O conjunto de transformações ocorreu de forma a sugerir, mesmo, a emergência de um novo paradigma regional. Isto porque, por um lado, a existência de uma base cultural chinesa servia de plataforma de sustentação para um processo de cooperação com o Sudeste Asiático.
Por outro, haveria os tipos de contribuições seguintes:
os países bem sucedidos como a “vitrine do Capitalismo no Sudeste Asiático” – a exemplo de Cingapura – indicariam os rumos para o aperfeiçoamento da “economia socialista de mercado”, com características chinesas, ora buscada pelo programa de modernização da RPC;
a persistência do Vietnã em manter seu sistema central de planejamento, ao mesmo tempo em que adota “práticas de economia de mercado”, reforça a proposta chinesa de preservar a vertente “socialista” entre as medidas que estão sendo crescentemente adotadas, no programa de modernização da República Popular da China; e
o esforço de composição constante no sentido da manutenção da harmonia e convivência pacífica entre a população de origem chinesa e os de fé islâmica na Malásia e Indonésia serve como inspiração para exercício semelhante a ser promovido na região central da RPC, principalmente na província de Xinjiang, onde há expressivo contingente de muçulmanos. Outrossim, estende-se a necessidade de relacionar-se com novas Repúblicas, como a do Tajiquistão, onde predomina a mesma religião.
A tese de que estaria em curso tal desenvolvimento considera que, quando se fala em influência político-cultural chinesa, se tem em conta os efeitos dessa herança histórica na ação das sociedades civis, como facilitador do processo da cooperação entre a China e o Sudeste Asiático[8].
Não estão sendo consideradas, portanto, iniciativas de “políticas de Estado”. Isto porque, tanto na China, quanto no Sudeste Asiático, o conceito de Estado evoluiu em diferentes estágios, sempre a partir da perspectiva de que o centro de tudo era a figura do dirigente local, desvinculada de um espaço geográfico definido. A concepção chinesa, ademais, sempre atribuiu importância fundamental aos laços sanguíneos, como marco de referência para a soberania do Imperador. As fronteiras eram definidas em termos de população, sem levar em conta limites territoriais.
O interesse quanto à reflexão sobre o tema deve-se à influência que a emergência de um bloco político de interesses recíprocos e de mega proporções – como o representado pela China e o Sudeste Asiático – exercerá no ritmo de integração e cooperação na Ásia-Pacífico, um dos laboratórios de modernidade do planeta. Ademais, existe a possibilidade de que laços culturais possam vir a ser fator determinante na expansão de fronteira econômica na área em questão, em oposição ao exercício da força como garantia de esfera hegemônica, conforme ocorrido, com freqüência, em outras partes do mundo.
O processo de abertura da China, na década de 1980, portanto, foi facilitado por conjunto de reciprocidades entre a RPC e o Sudeste Asiático, que, ao consolidarem seu relacionamento, desenvolvem projeto regional com agenda de preocupações próprias.
CONCLUSÃO
A partir do processo de abertura, na década de 1980, a evolução social na China inicia novo ciclo histórico, em obediência ao paradigma ditado pela tradição chinesa. Nessa sequência, acontecem mais consensos do que compromissos. Há novas “cenas de partida” que se sucedem [9]. A RPC superava, naquele momento, o ponto de equilíbrio alcançado pelo princípio socialista, segundo o qual “de cada um de acordo com suas habilidades e a cada um de acordo com suas necessidades”. Seguindo a tradição confucionista, a busca da estabilidade social deveria, então, recorrer a novos fundamentos.
Segundo especialistas no assunto, Mao não teria sido um líder na concepção de Confúcio. Pois, não abraçou as normas ditadas pela “li”, que estabelecem a conduta adequada à ordem social. Teria agido no estilo de um “Macaco Rei”, liberando forças de “luan” (desordem e rebelião) para mobiizar a população e manter-se no poder. Assim, na essência do pensamento maoista se encontrava a rejeição à concepção confucionista de estabilidade. O progresso, para Mao, só poderia ser obtido pela luta contínua e permanente.
Deng Xiaoping, no entanto, personificou o retorno da China à tradição confucionista, no sentido de que caberia ao líder benevolente buscar o caminho certo para a estabilidade, segurança e o estabelecimento de forma de governança que favorecesse o progresso. Sua liderança proporcionou, também, a consolidação do relacionamento entre a China e o Sudeste Asiático, em função dos laços históricos, mencionados no decorrer do texto, que têm sido capazes de garantir a inserção internacional chinesa atual em universo de influência cultural do antigo “Império do Centro”[10].
Por precaução, cabe seguir identificando se predominam, hoje, na sociedade chinesa, normas ditadas por “li” ou se há riscos de “luan”.
[1] Tais observações decorrem do fato de o autor ter servido na Embaixada do Brasil em Pequim, no período de 1982 a 1985, quando era leitor assíduo das revistas semanais “Far Eastern Economic Review” e “Asiweek”, editadas, então, em Hong Kong, entre as poucas fontes de informação sobre o que se passava na China.
[2] Vide “Mao prend le Pouvoir”, por Roland Lew, Éditions Complexe 1981.
[3] “Teng Hsiao-Ping, a Political Biography”, por Chi Hsin. Cosmos Books. Ltd. 1978.
[4] Tais observações decorrem do fato de o autor ter servido, no período de 1986 a 1995, no Sudeste Asiático, sucessivamente, nas Embaixadas do Brasil em Kuala Lumpur, 86-88, Cingapura, 89-90, e Manila, 91-95. Durante estes nove anos, participou de numerosos seminários e conferências em centros de estudos estratégicos destas capitais.
[5] “Le Nouveau Confucionisme” – Léon Vandermeersch, Le Débat – número 66, septembre-octobre 1991.
[6] O “China Institute of Contemporary International Relations”, em estudo intitulado “China’s Economic Reform and Opening-up”, publicado em abril de 1993, menciona que: “To vitalize the domestic economy and to open it to the outside world are two inseparable and basic parts of China’s economic restructuring and are also an important expression of the socialism with Chinese characteristics. The opening up and development of Pudong Area in Shanghai will make it a “dragon-head” to lead the economic development of the Yangtze Delta and even the whole Yangtze River valley. Shanghai will become a “Hong Kong” on the Chinese mainland and resume its position as one of the international economic, financial and trade centers”.
[7] Segundo “The Random House Dictionary of the English Language, Second Edition Unabridges”, “Cross fertilization” pode ser entendido como : “interaction or interchange, as between two or more cultures, fields of activity or knowledge, or the like, that is mutually beneficial and productive”.
[8] Pereira Pinto, Paulo Antônio – A China e o Sudeste Asiático, Editora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. 2000.
[9] Vide Pereira Pinto, Paulo Antônio, “Iruan nas Reinações Asiáticas”, Editora Age, Porto Alegre,2004. O autor procura associar sua participação na batalha judicial para o retorno do menor brasileiro Iruan Ergui Wu, retido em Taiwan, ao Rio Grande do Sul, com a forma de negociação cultural com o universo de influência chinesa, do qual a ilha de Formosa faz parte.
[10] Denominação usada pelos chineses de outrora para definir sua posição hegemônica na Terra.

Paulo Antônio Pereira Pinto é Diplomata. Primeiro Embaixador do Brasil residente em Baku, Azerbaijão. Serviu, anteriormente, como Cônsul-Geral em Mumbai, entre 2006 e 2009 e, a partir de 1982, durante vinte anos, na Ásia Oriental, sucessivamente, em Pequim, Kuala Lumpur, Cingapura, Manila e Taipé. Na década de 1970 trabalhou, na África, nas Embaixadas em Libreville, Gabão, e Maputo, Moçambique e foi Encarregado de Negócios em Pretória, África do Sul. As opiniões expressas são de sua inteira responsabilidade e não refletem pontos de vista do Ministério das Relações Exteriores (papinto2006@gmail.com).

Meridiano 47

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Religião e Filosofia Chinesas


Taoísmo

O Taoísmo é o único conjunto de ensinamentos filosóficos e práticas religiosas que se originou na China. Suas raízes surgem com os antigos panteístas chineses e crenças xamânicas. Foi criado por Lao-Tsé durante o Período dos Estados Guerreiros e se tornou uma religião organizada no século 5 d.C. Seu texto fundamental é o Tao Te Ching, originalmente escrito por Lao-Tsé, e reflete sobre o caminho para a humanidade eliminar o conflito e o sofrimento.

Os taoístas acreditam que o homem deve viver em harmonia com a natureza por meio do Tao, ou “O Caminho”, a idéa de uma grande harmonia cósmica. As crenças taoístas ressaltam a auto-desenvolvimento, a liberdade e a busca da imortalidade. O Taoísmo é fortemente influenciado pela religião popular chinesa, e os deuses taoístas são figuras históricas que demonstraram poderes excepcionais em vida.

Algumas divindades taoístas:
Imperador Jade
Considerado o soberano supremo de todas as divindades chinesas, o Imperador Jade teria criado a humanidade a partir do barro. Os taoístas rezam para ele para ter boa sorte e longevidade em seu aniversário, e também na noite do Ano Novo Chinês.

Cai Shen
O Deus Chinês da Prosperidade e Riqueza é amplamente cultuado pelos chineses – por razões óbvias! Acredita-se que Cai Shen teria sido um general da Dinastia Qin, e é representado por um tigre negro.



Budismo

O Budismo prosperou pela primeira vez na China durante a Dinastia Han. Uma forma radical do Hinduísmo em sua origem, o Budismo chegou à China pela Índia, e então se espalhou pelo resto da Ásia e outros lugares. Foi fundado durante os séculos 4 ou 5 a.C. no Nepal por Sidarta Gautama, mais conhecido como Shakyamuni, e reconhecido pelos budistas como o Buda Supremo.

O Budismo acredita na pureza da mente e das ações, e na purificação do carma (a lei da causalidade moral). As boas ações geram uma reação de mesma qualidade e intensidade, nesta vida ou em uma outra encarnação, gerando carma positivo, e a mesma lei age sobre as más ações, gerando carma negativo. Com o carma livre de toda a negatividade, é possível atingir o estado do nirvana – o fim do sofrimento trazido pela existência cíclica.

Algumas divindades budistas:

Gautama Buda
Sidarta Gautama é conhecido como o Buda Supremo, sendo a personalidade chave do Budismo. De acordo com antigos textos budistas, o fundador do Budismo era filho de um rei. Ele se tornou monge como forma de superar o sofrimento humano, finalmente alcançando a iluminação e transformando-se no Buda.

Kuan Yin
Mais conhecida como a Deusa da Compaixão, Kuan Yin é venerada por Budistas e Taoístas como um ser iluminado e imortal. Seu nome significa “Observando os Sons do Mundo Humano”. Em sânscrito, ela é Padma-pâni, ou “Nascida do Lótus”.

Kuan Yin é fortemente associada ao vegetarianismo, devido à compaixão por todas as criaturas vivas, e também cultuada como deusa da fertilidade.



Confucionismo

O Confucionismo foi um dos mais importantes aspectos da vida chinesa de 100 a.C. a 1900 d.C., influenciando áreas como a educação e o governo, além de orientar o comportamento social e os deveres do indivíduo em relação à sociedade.

Confúcio nasceu em uma família nobre, mas empobrecida, durante a Dinastia Zhou Oriental. Seu sistema moral é baseado na empatia e na compreensão. É centrado em três conceitos, denominados li ou “ação ideal”, yi ou “honradez”, e ren ou “compaixão humana ou empatia”. De acordo com o Confucionismo, uma vida boa e obediente só poderia surgir em uma sociedade bem disciplinada, que valoriza a cerimônia, o dever, a moralidade e o serviço público.

Confúcio ensinou o valor do poder, e acreditava que a solidez da lealdade familiar, o culto aos ancestrais, o respeito pelos mais velhos e a unidade familiar formavam a base de um bom governo. Em um de seus ditados, conhecido como “Regra de Ouro”, ele declara que “um homem deve praticar o que prega, mas também deve pregar o que pratica”.

Suas opiniões mais tarde se difundiram pela China através de seus discípulos, e muitas pessoas aprenderam com seus sábios ensinamentos.

Discovery Channel

A Grande Muralha da China

Photograph by Gavin Hellier/Getty Images
National Geographic

A Grande Muralha da China

A Grande Muralha da China começou a ser construída pelo Imperador Qin durante a Dinastia Qin, para defender seu reino contra a pilhagem de tribos nômades. Sua construção prosseguiu ao longo de sucessivas dinastias. O trecho da Muralha que ainda permanece nos dias de hoje era parte da Rota da Seda, e foi construída durante a Dinastia Ming. Ela se estende por cerca de 6.350 quilômetros.

Ao longo dos séculos, a Muralha foi guarnecida por exércitos com o objetivo de alertar ao primeiro sinal de invasão, e também como primeira linha de defesa. Diferente do que se acredita, seu propósito não era tanto deter a invasão dos Manchus e das tribos nômades do norte, mas impedí-los de roubar propriedaddes e fugir da China.

Depois da formação da Dinastia Qing, a Muralha já não tinha utilidade, pois o país passou a ser governado pelos mesmos povos contra os quais ela havia sido construída. Ela então se tornou uma fonte de materiais de construção para os vilarejos vizinhos, contribuindo para sua deterioração e destruição. Discovery Channel

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Chineses loiros: A legião perdida


Chineses loiros: A legião perdida
Chineses dizem ser descendentes de soldados romanos
por Daniel Schneider
Loiros, altos, olhos azuis, narizes aquilinos e... chineses. Sim, eles não só existem como também povoam um vilarejo inteiro da China e juram ser descendentes dos soldados romanos. A favor deles, pesquisas e relatos históricos confirmam a história. O naturalista romano Plínio, o Velho, relata na enciclopédia Naturalis Historiae, do ano de 77, que prisioneiros da batalha de Carrhae teriam sido enviados para a fronteira leste do território inimigo, de onde desapareceram dos registros históricos. Em 1957, o sinólogo americano Homer H. Dubs publicou a pesquisa “Uma Cidade Romana na China Antiga”, que afirma que os soldados capturados teriam fundado Liqian, atual Zhelai Zhai.

Diferentemente dos vilarejos vizinhos, os habitantes da região compartilham com os possíveis ancestrais a paixão por touros – chegam até a praticar tauromaquia, tipo de sacrifício sagrado. Como se não bastasse, “Liqian” (pronuncia-se “litchiân”) é uma palavra usada pelos chineses para se referir a Roma. E a China utilizava nomes estrangeiros em cidades cuja população majoritária era de forasteiros.

Para desvendar o mistério, cientistas realizaram exames de DNA. Resultado: a ancestralidade romana não pôde ser comprovada. Os habitantes de Liqian provavelmente são um subgrupo dos chineses Han. Porém, a variedade genética dos romanos era tão diversa que pode ter “enganado” os cientistas. Ou seja, o fato de não haver provas “não necessariamente significa que os romanos não estiveram lá”, explica a geneticista Maria Cátira Bortolini, da UFRGS, que colaborou com a pesquisa. De olho no potencial turístico da história, o pobre vilarejo torce por uma nova chance de provar a ascendência romana.

Meio chinesa, meio romana
Uma mistura explosiva

* 54 a.C.

Batalha de Carrhae, Pártia: o general Marco Licínio Crasso e mais de 40 mil soldados sofrem humilhante derrota para 10 mil arqueiros montados da Pártia, onde hoje é o Irã. Metade do exército morreu na batalha, inclusive o general. Não se teve mais notícia dos 10 mil presos, que teriam fundado Liqian.

* 36 a.C.

Batalha de Zhizhi, China antiga: ao invadir um forte inimigo, o exército chinês captura 145 mercenários que defendiam o lugar numa formação militar nunca antes vista na região, cuja descrição lembra a “tartaruga” das legiões romanas (escudos intercalados por todos os lados).

Revista Aventuras na História

terça-feira, 20 de abril de 2010

Espíritos insaciáveis

Espíritos insaciáveis
Na China atual, os antigos sacrifícios humanos deram lugar a cuidadosos cerimoniais com as sepulturas - mas os mortos ainda fazem exigências.
Por Peter Hessler
Foto de Ira Block

Os guerreiros foram esculpidos há 2,2 mil anos para guardar, no além, o primeiro imperador da China. A vida após a morte era planejada: a comitiva contava também com animais e artistas.

Os moradores do vilarejo chinês Vale da Primavera raramente falam nos mortos.
"Este lugar sempre foi muito pobre", dizem quando pergunto sobre o passado, e então se calam. Eles têm poucas fotografias antigas e apenas um punhado de registros escritos. A Grande Muralha está ali perto, mas nem mesmo essas ruínas fabulosas inspiram muito interesse. Em 2001, em parte por curiosidade sobre a história da região, aluguei uma casa no vilarejo. Mas logo descobri que os vislumbres do passado eram fugazes. Como a maioria dos chineses da geração atual, os moradores concentram-se nas oportunidades do momento: o aumento nos preços daquilo que plantam, o megassurto da construção civil que traz novos empregos a Pequim, situada a menos de duas horas de viagem.

Em um único dia do ano eles olham para trás: em abril, durante o festival de Qingming. Esse nome chinês significa "dia do brilho luminoso", e por mais de um milênio tem sido celebrado em toda a China sob várias formas regionais. O culto dos ancestrais é ainda mais antigo. Há mais de 5 mil anos, as culturas do norte da China veneravam os mortos com cerimônias metódicas. Ecos dessas tradições perduram até hoje, e, no meu primeiro ano no vilarejo, quando enfim chegou o dia do festival, acompanhei meus vizinhos em sua visita ritual ao cemitério.

Só homens podiam participar. Todos se chamavam Wei, e cerca de uma dezena de membros desse numeroso clã partiu antes do amanhecer para subir a íngreme montanha atrás do vilarejo. Usavam roupas simples e levavam cestos de vime e pás nos ombros. Sem falar à toa nem parar para descansar, tinham o ar resoluto de uma turma de trabalho: de ferramentas em punho, avançavam com dificuldade, passando por damasqueiros em flor com botões que cintilavam como estrelas na penumbra da madrugada. Em 20 minutos chegamos ao cemitério do povoado, numa parte alta da encosta. Montinhos de terra dispunham-se em fileiras bem alinhadas. Cada fileira representava uma geração, e os homens começaram a trabalhar na fileira da frente, cuidando das sepulturas dos mortos mais recentes: pais e mães, tios e tias. Arrancaram ervas daninhas e depois jogaram mais terra no monte. Deixaram presentes especiais, como garrafas de bebida e maços de cigarro. E queimaram dinheiro de mentira para ser usado no além. A marca-d’água nas notas tinha os dizeres "Banco do Céu Ltda."

Cada morador deu atenção especial a seus parentes próximos, seguindo pela fileira dos pais para a dos avós, depois para a dos bisavós. Como quase nenhum túmulo tinha nome, conforme os moradores mudavam de fileira e regrediam no tempo, ficavam menos certos quanto à identidade dos ocupantes. Por fim o trabalho passou a ser em comum, todos compartilhando os cuidados de todas as sepulturas e ninguém sabendo quem estava enterrado ali. O último túmulo era solitário: o único representante da quarta geração. "Lao Zu, o ancestral", disse um morador. Não havia nenhum outro nome para o fundador do clã, cujos detalhes se perderam no passado.

Quando terminaram, a luz da manhã espiava por trás dos picos a leste. Um homem chamado Wei Minghe explicou que os montes de terra representavam as casas dos mortos, e a tradição local mandava que os moradores concluíssem o ritual de Qingming antes do amanhecer.

"Se pusermos terra no túmulo antes que o sol apareça, significa que na outra vida eles ganham um telhado de telhas", disse ele. "Se não acabarmos a tempo, eles ganham cobertura de sapê."

Wei Minghe beirava a casa dos 70 anos, mas ainda tinha o físico esguio e musculoso de quando era lavrador. Agora morava em um apartamento para aposentados numa cidade próxima, Huairou, e todo ano retornava ao Vale da Primavera para o Qingming. Mais tarde naquele dia, dei-lhe carona para voltar à cidade. Quando perguntei se ele tinha saudade do Vale da Primavera, comentou: "Antes do apartamento onde estou agora, nunca morei em um lugar que tivesse bom aquecimento". Essa visão do progresso é compreensível e condiz com a preferência dos ancestrais: telhado de telhas, e não de sapê.

A ideia dos chineses sobre a vida após a morte sempre foi marcada por qualidades que muitos ocidentais considerariam mundanas. Os antigos em geral tinham uma visão do além que era pragmática, materialista e até burocrática, e esses valores ficam evidentes nas descobertas arqueológicas atuais. Muitas tumbas reais, quando abertas, mostram uma imensa riqueza e uma organização meticulosa. A tradição de sepultar o corpo com bens valiosos remonta no mínimo ao quinto milênio antes de Cristo, quando algumas tumbas continham jade e cerâmicas.

Só a partir da cultura Shang, que floresceu no norte da China entre 1600 e 1045 a.C., temos evidências por escrito de como as pessoas concebiam a vida após a morte. Os primeiros textos chineses aparecem em ossos oraculares dos Shang: escápulas de boi e carapaças de tartaruga usadas em rituais na corte real. Quebrados e interpretados, os ossos eram um meio de comunicação com o mundo invisível e permitiam inclusive transmitir mensagens ao ancestrais da família real. "Comunicamos por este ritual a doença de olhos do rei ao Avô Ding." "Comunicamos por este ritual ao Pai Ding a chegada do Shaofang [um inimigo]."

Os mortos tinham grande poder sobre o dia a dia - ancestrais insatisfeitos podiam causar doença ou desventura aos vivos. Muitos ossos oraculares mencionam sacrifícios para apaziguar os espíritos. Em um complexo de tumbas na província de Henan, escavações revelaram mais de 1,2 mil fossos sacrificatórios, muitos contendo vítimas humanas. Um arqueólogo disse-me um dia que havia contado 60 modos de matar uma pessoa durante uma cerimônia Shang. Mas ele lembrou também de que se tratava de ritual, não de assassinato ou violência arbitrária. Da perspectiva Shang, o sacrifício humano era apenas parte de um sistema bem organizado. Os Shang seguiam um calendário estrito no qual cada sacrifício era dedicado a seu respectivo ancestral. Seus procedimentos obedeciam a um rigor quase científico. Em um caso, um adivinho pacientemente quebrou 70 ossos oraculares para descobrir qual ancestral estava sendo responsável pela dor de dente do rei vivo.

Os mortos, por sua vez, estavam sujeitos a vasta burocracia. Os membros da família real trocavam de nome após a morte a fim de marcar a transição a novos papéis na eternidade. O propósito do culto aos ancestrais não era lembrar o modo como as pessoas haviam sido em vida - era, na verdade, granjear o favor dos finados, que passavam a ter outras incumbências. Muitas inscrições em ossos oraculares solicitavam a um ancestral que fizesse uma oferenda própria a um poder ainda mais elevado.

David N. Keightley, historiador da Universidade da Califórnia em Berkeley, ficou impressionado com o fato de as inscrições em ossos oraculares transmitirem uma ideia de ordem e hierarquia. "Os mortos mais recentes se encarregam de coisas pequenas; os falecidos há mais tempo tratam das coisas maiores", conta ele. "É um modo de organizar o mundo."

Após a queda dos Shang em 1045 a.C., a dinastia Zhou, que governou partes da China setentrional até o século 3 a.C., deu continuidade à adivinhação com ossos oraculares. Mas a prática do sacrifício humano foi perdendo importância, e as tumbas reais começaram a conter mingqi, objetos "espirituais", em substituição a bens verdadeiros. Representações moldadas em cerâmica tomaram o lugar de pessoas. Os soldados de terracota encomendados pelo primeiro imperador da China, Qin Shi Huang Di, que uniu o país sob única dinastia em 221 a.C., são o exemplo mais conhecido. Esse exército de 8 mil estátuas em tamanho natural destinava-se a servir ao imperador no além-túmulo.

A dinastia seguinte, a Han, deixou uma coleção de artigos funerários de caráter menos militar. A tumba de Han Jing Di, que governou de 157 a 141 a.C., continha um assombroso conjunto de bens espirituais representando as necessidades do cotidiano: réplicas de porcos, ovelhas, cães, carruagens, pás, serrotes, enxós, talhadeiras, fogareiros e instrumentos de medição. Existem até estampilhas, ou carimbos oficiais, para uso dos burocratas do outro mundo.

Em uma cultura rica e antiga como a da China, a linha do passado ao presente nunca é reta, e inúmeras influências moldaram e mudaram a visão chinesa do mundo dos espíritos. Alguns filósofos taoístas não acreditavam em vida após a morte, mas o budismo, cuja influência sobre o pensamento chinês começou no século 2 d.C., introduziu conceitos de renascimento. Além disso, houve a infiltração de ideias budistas e cristãs de recompensa e castigo eternos.

Ainda assim, elementos de culturas mais antigas, como Shang e Zhou, permaneceram reconhecíveis ao longo dos milênios. Os chineses continuaram a cultuar seus ancestrais e a imaginar o além-túmulo em termos materiais e burocráticos. Casos de quase morte engendraram lendas populares, como a de um escriturário do outro mundo que errou ao grafar um nome no livro razão dos mortos e quase cortou uma vida antes que o erro fosse descoberto.

David Keightley contou-me que acha otimista a visão que os chineses tradicionais têm da morte. Nela não existe conceito de pecado original; por isso, entrar na outra vida não requer nenhuma mudança radical. O mundo não é fatalmente defeituoso; pelo contrário, nos fornece um exemplo bem adequado para a próxima etapa. "No Ocidente tudo é sobre renascimento, redenção e salvação", diz ele. "Na tradição chinesa a pessoa morre mas continua sendo o que é."

Keightley acredita que ideias como essa contribuíram para a estabilidade histórica da sociedade chinesa. "Culturas que veneram seus ancestrais tendem a ser conservadoras", explica ele. "As novidades não atrairão as pessoas, pois isso seria uma afronta aos antepassados."

As atuais mudanças na China não têm nada de conservadoras e são duras com os mortos. Muitos cemitérios são destruídos por projetos imobiliários, e multidões de chineses da zona rural migram para as cidades e não podem mais voltar ao Qingming. Alguns tentam formas alternativas de cuidar das sepulturas, como websites que permitem aos descendentes zelar por "sepulturas virtuais". Mas em um país que muda rapidamente é difícil pensar no passado, e muitas tradições acabam declinando até desaparecer.

A cada ano no Vale da Primavera parece que um número menor de pessoas vem celebrar o Qingming. Mas o festival perdura, e alguns de seus elementos lembram rituais milenares. Os túmulos no vilarejo são organizados com precisão burocrática, com cada geração em sua devida fileira. Os aspectos materiais permanecem importantes: cigarro, bebida e dinheiro de mentira para os mortos. Talvez algum dia até essas tradições sejam abandonadas, mas por enquanto elas ainda fornecem uma ligação entre passado e presente.

Três anos depois de meu primeiro Qingming, apenas sete moradores sobem a montanha até o cemitério. Lá em cima, vejo um novo túmulo na primeira fila, decorado com uma vela com os dizeres "Eternamente jovem". Curioso, pergunto quem está enterrado ali. "Wei Minghe", responde o homem a meu lado. "Você lhe deu uma carona até a cidade anos atrás. Morreu no ano passado. Não me lembro em que mês." Outro homem acrescenta: "É a primeira vez que estamos marcando o túmulo dele".

"No ano passado, ele pôs terra no túmulo de outras pessoas", filosofa alguém. "Neste ano, nós colocamos terra no dele." Pego uma pá e contribuo para o monte. Alguém acende um cigarro e o espeta na terra. Wei Minghe teria gostado desse detalhe, apreciado o momento. Partimos antes do amanhecer - os ancestrais, ao menos por mais um ano, terão seu telhado de telhas.

National Geographic Brasil

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Notas sobre a História da Revolução Cultural Chinesa (1966-1976) - parte 1

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Notas sobre a História da Revolução Cultural Chinesa (1966-1976) - parte 1

Cristiane Soares de Santana
Mestre em História Social pela Universidade Federal da Bahia. E-mail: crysthianesantana@yahoo.com.br

Resumo:
Este artigo analisa a história da Revolução Cultural Chinesa ocorrida entre 1966 e 1976. Investigando esse importante período da história recente da China. Nosso trabalho busca compreender essa tentativa de construção de um estilo específico de socialismo baseado no retorno periódico dos militantes do Partido Comunista Chinês ao trabalho no campo e nas fábricas visando, através deste contato com as massas, a criação de uma nova sociedade edificada sob um conjunto de valores morais.

Um processo de revisão política se iniciou na segunda metade dos anos 50 com as resoluções do XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética, onde foi reafirmada e consolidada a política de “coexistência pacífica”. Logo, a exclusividade do caminho armado para a revolução socialista desaparecia, o qual passaria a dividir espaço com a idéia da transição pacífica do capitalismo ao socialismo. A conseqüência disso foi a alteração das perspectivas políticas dos Partidos Comunistas Mundiais e sua autonomia em relação ao Partido Comunista da União Soviética (FERREIRA, 1999).
As declarações de Nikita Kruchev no XX Congresso do Partido Comunista da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas denunciando os crimes de Josef Stalin e propondo a tese da chamada transição pacífica do capitalismo para o socialismo, deram o primeiro passo para o estremecimento das relações entre a China e a URSS.
O Partido Comunista Chinês afirmava que as críticas à Stalin e a tese da coexistência pacífica eram errôneas e indicavam o crescente revisionismo do PCUS. Numa famosa carta escrita em 14 de junho de 1963, na qual o Partido Comunista Chinês recapitulava seu posicionamento em relação às teses do XX Congresso através de 25 pontos.

O princípio de coexistência pacífica de Lênin é bem claro e de fácil compreensão para as pessoas simples. A coexistência pacífica se refere às relações entre países com distintos sistemas sociais, e ninguém pode interpretá-la segundo lhe convenha. A coexistência pacífica não deve estender-se jamais as relações entre as nações oprimidas e as nações opressoras, entre os países oprimidos e os países opressores, ou entre as classes oprimidas e as classes opressoras, não deve considerar-se jamais como o conteúdo principal da transição do capitalismo ao socialismo, e menos ainda como o caminho da humanidade para o socialismo. A razão consiste em que uma coisa é a coexistência pacífica entre países com distintos sistemas sociais, no qual nenhum dos países pode, nem lhe é permitido, tocar nem sequer um só fio de cabelo do sistema social dos outros, e outra coisa é a luta de classes, a luta de libertação e a transição do capitalismo ao socialismo nos diversos países, que são lutas revolucionárias, inflamadas, de morte, encaminhadas a mudar o sistema social. A coexistência pacífica não pode, de nenhuma maneira, fazer as vezes lutas revolucionárias dos povos. A transição do capitalismo ao socialismo em qualquer país só pode realizar-se mediante a revolução proletária e a ditadura do proletariado nesse mesmo país. (CÔMITE CENTRAL DO PARTIDO COMUNISTA DA CHINA, 1963: 67-68).

Segundo Devillers (1975), as divergências entre a China e a URSS puderam ser apreciadas no âmbito da política estrangeira, através das críticas veladas de Kruchov a Mao Tsé Tung, ao declarar que a edificação socialista na China ultrapassava etapas. Além disso, em 1960, Kruchov retirou da China todos os peritos soviéticos desferindo um golpe bastante intenso na economia do país. A conseqüência disso foi a ruptura do Partido Comunista Chinês com o Partido Comunista da União Soviética.
Mao Tsé Tung acreditava que cada vez mais o PCUS enveredava pelo caminho não leninista e que essas mudanças no caráter do Partido acarretariam transformações na política do campo socialista e no futuro da luta do proletariado mundial.

O avanço para o comunismo quer dizer o desenvolvimento na direção de elevar a consciência comunista das massas populares. É inconcebível uma sociedade comunista em que persista a ideologia burguesa. Porém Kruchov insiste por fazer renascer a ideologia burguesa na União Soviética e trabalha como um missionário da putrefata cultura norte americana. Difunde o incentivo material, reduz as relações entre os homens a simples relações de dinheiro e fomenta o individualismo e o egoísmo.
Devido a ele, o trabalho manual volta a ser considerado como algo indigno, e o amor aos prazeres as custas do trabalho alheio, como algo honorável. (CÔMITE CENTRAL DO PARTIDO COMUNISTA DA CHINA, 1963: 430)

Foi justamente nesse contexto do cisma sino soviético que Mao Tsé Tung começou a refletir sobre os caminhos que a revolução na China estaria seguindo graças à crescente burocratização do Partido Comunista Chinês. Para ele, mesmo que a sociedade chinesa fosse controlada por um partido proletário ela não estaria livre de ver ressurgir as antigas práticas capitalistas.

Para Mao, la evolución experimentada por la sociedad soviética en las ultimas décadas, ha constituido y constituye la más grave y alarmante desnaturalización sufrida por el movimiento revolucionario socialista en toda su historia; según el, ha concluido con una restauración de clase, llevada a cabo por una minoría de tecnócratas y burócratas que, monopolizando las instituciones estatales colectivas y los instrumentos de producción, se ha transformado en una nueva clase dirigente, limitada y privilegiada, que excluye a la gran mayoría de las masas de la participación efectiva en la vida política y del control sobre los medios de producción, sometiéndola a la explotación económica y a la represión política, social y cultural. (PISCHEL, 1973: 14)

Em 1959, Mao Tsé Tung deixou o cargo de presidente da República Popular da China e passou a se dedicar ao trabalho de aperfeiçoamento dos quadros e das massas. O objetivo era politizar ao máximo as massas para evitar que os integrantes do Partido estivessem seguindo o caminho da rotina burocrática. Desse modo, em 1962 lançou-se o Movimento de Educação Socialista, que foi uma campanha nacional de doutrinação política e ideológica de “retificação” do partido visando afastá-lo da influência do moderno “revisionismo kruchevista” e reavivar o socialismo no seio do Partido. Esse movimento político foi a última tentativa de “retificação” dos quadros que seguiam a “linha capitalista” antes da Revolução Cultural.
A “Revolução Cultural Proletária” pode ser apreendida como um choque entre as concepções das duas elites partidárias em relação aos destinos da nação chinesa. Segundo Audrey (1976), havia duas elites na alta esfera do Partido Comunista Chinês as quais a autora identifica como “militante” e “funcional”. A “elite militante” era oriunda do período das Comunas de Shangai e Cantão, da Longa Marcha e da luta contra o Japão.
Com o crescimento do Partido, esse grupo foi reduzido e ficou sem força diante dos militantes sem passado revolucionário. A “elite militante” acentuava a transformação do homem através de uma vida de sacrifícios pessoais e sem privilégios, incentivava a participação das massas nas tarefas da direção e alimentava o desejo de implantar o coletivismo no campo e na cidade, etc.
Enquanto que a “elite funcional” era herdeira da burguesia e dos intelectuais compreendendo artistas, engenheiros, técnicos, médicos e professores. Ao longo dos anos, sua influência cresceu devido ao aumento da complexidade das relações entre Estado, Partido e Administração, além do avanço dos setores modernos da economia o que promoveu a ampliação dos quadros da “elite funcional”.
A preocupação desta “elite militante” com esse grupo já se expressava desde os princípios da revolução, pois nos primeiros anos após a fundação da República Popular tentou-se enquadrar esse grupo aos novos padrões morais impostos pelo regime através de “campanhas de retificação”. No entanto, estas não foram suficientes para que a transformação do corpo político partidário se sucedesse.
A história da China no século XX foi marcada por inúmeras campanhas de denúncias contra ex-membros do Kuomintang, ex-fazendeiros, quadros vistos como não revolucionários, intelectuais, etc. Em 1951, apenas dois anos após a fundação da República Popular da China, Mao Tsé Tung lançou a campanha dos “três anti”.
O “três anti” foi uma campanha lançada entre os trabalhadores dos departamentos governamentais e das empresas estatais, que visava lutar contra os três “vícios”: a corrupção, o desperdício e a burocracia. O governo tinha como objetivo identificar quadros comunistas que estivessem envolvidos em diversos casos de ganhos ilícitos, desvios de dinheiro, desperdício com promoção de festas às custas do Estado, num momento em que o país passava por problemas econômicos e tentava se restabelecer dos anos de guerras civis ocorridas antes da fundação da República Popular da China em 1949. A segunda campanha foi denominada de “cinco anti”, a qual foi lançada em 1952 lutando contra cinco desvios: suborno, fraude, evasão fiscal, roubo e desvio de informações econômicas. (TSÉ-TUNG, 1977, v. V, p.67)
Essas duas campanhas tinham como objetivo estabelecer o controle sob os membros do partido e da sociedade. Segundo Chang (1994), o governo enviava equipes às províncias para analisarem o comportamento das autoridades e dos funcionários públicos suspeitos, os quais eram encaminhados para se reeducarem no campo ou na fábrica através do trabalho produtivo, caso tivessem cometido algum crime. Segundo

Mao Tsé Tung, em um texto escrito em 1952, Deve-se dar tanto destaque à luta contra a corrupção, o desperdício e a burocracia como à luta pela eliminação dos contra revolucionários. Tal como nesta última, as amplas massas - incluindo os partidos democráticos e pessoas de todos os sectores sociais - devem ser mobilizadas; esta luta deve ser largamente propagandeada; os quadros dirigentes devem assumir pessoalmente a direcção e lançar-se ao trabalho; e as pessoas devem ser chamadas a confessar abertamente o seu mau procedimento e a apontar as culpas dos outros. Em casos de menor gravidade, os culpados devem ser demitidos do cargo, punidos ou condenados à penas de prisão, e os piores de entre eles devem ser fuzilados. (sic., TSÉ-TUNG, 1977, v. V, p.70)

O Movimento Cem Flores (1956-1957) estimulou o debate intelectual através do lema - que desabrochem cem flores, cem escolas do pensamento. Com o desejo de saber o que a intelectualidade chinesa pensava sobre o Partido Comunista, foi iniciado tal movimento, o qual obteve como saldo muitas críticas em relação ao PCCh. A conseqüência disso foi o lançamento da Campanha Antidireitista em 1957, através da qual se promoveu uma luta contra os “elementos de direita”, os quais foram enviados ao campo para passarem por uma “reeducação ideológica”.
Após as sucessivas reformas agrárias e o Grande Salto para Frente (1958), iniciou-se um processo de restauração econômica liderado pela “elite funcional”, representada por Liu Shao-Chi e Deng Xiaoping. Em contra ofensiva, foi lançado em 1964, o Movimento de Educação Socialista por meio do qual se identificaram os quadros comprometidos com a “linha burguesa”. Porém, como foi dito anteriormente, essas sucessivas tentativas de combater a “elite funcional” no seio do Partido não foram suficientes, tendo como continuação desse embate a ocorrência da Revolução Cultural, a qual pode ser entendida como uma contra ofensiva dessa “elite militante”.
A partir de 1963, desencadeou-se uma luta ideológica e política no grupo dirigente chinês representado por uma “elite militante” adepta das idéias de Mao Tsé Tung e contrária às idéias e ao comportamento da maioria do partido, constituído pela “elite funcional”. Com o objetivo de modificar a orientação política geral do país esse grupo deu início a revolucionarização dos setores da cultura, do ensino e da propaganda.
A Revolução Cultural teve início com uma crítica literária a uma peça de teatro chamada “A destituição de Hai Rui”, escrita pelo vice-prefeito de Xangai, Wu Han, a qual promoveu uma luta no seio do Partido, logo que tratava da estória de um funcionário antigo que havia sido vítima do imperador tirânico injustamente. Na verdade, essa peça fazia menção à destituição do Marechal Peng Dehuai, ocorrida em 1959, quando este escreveu uma carta tecendo críticas às políticas econômicas adotadas durante o Grande Salto para Frente.1
Foi escrita uma crítica sobre esta peça na imprensa por Yao Wenyuan, jornalista e membro da seção de propaganda do Comitê Municipal de Shangai. Por trás desta crítica estava o descontentamento de Mao Tsé Tung com o grupo da “elite funcional”, os quais haveriam abandonado as suas posições socialistas.
Em meio a essa luta no interior do alto escalão, o documento A Circular 16 de maio promoveu uma verdadeira reviravolta na Revolução Cultural, já que rompeu com o procedimento de lutas secretas no Partido e trouxe à tona as contradições existentes entre as facções, convocando a população a lutar contra os quadros do alto escalão (NAVES, 2005). De modo que,

o Partido deve levar, bem alto erguido, o grande estandarte da revolução cultural proletária, denunciar a fundo a posição reacionária burguesa desse grupo de “sumidades” acadêmicas anti-Partido e anti-socialista, criticar totalmente e todas as idéias reacionárias burguesas dos meios acadêmicos, pedagógicos, jornalísticos, literários, artísticos e do Mundo da edição, assim como assegurar a direcção da cultura em todos os domínios. (sic., DEVILLERS, 1976: 215)

Por trás do desencadeamento de um grande movimento de massa, visava-se a transformação ideológica e cultural do país. O apelo às massas teve como resultado o surgimento de críticas públicas aos quadros dirigentes e às práticas político-administrativas desenvolvidas até então.

De facto, a população tinha que ser mobilizada para criticar tudo o que, na sociedade, sofria a influência da tradição. Era o caso da pedagogia, da literatura, da arte, aspectos da Revolução Cultural (...). Era igualmente necessário que o povo pudesse criticar o funcionamento das engrenagens do Estado. (DAUBIER, 1974: 21).

1 O Grande Salto para Frente foi um conjunto de medidas econômicas que visava a reorganização e a aceleração da produção no campo através da iniciativa e mobilização das massas. A implantação de tal idéia enfrentou inúmeros problemas, tais como as calamidades naturais e a retirada dos técnicos soviéticos devido à ruptura das relações entre os dois países, o que contribuiu para um processo de retração econômica que se instalou no país no final dos anos 50 e início dos anos 60. (NAVES, 2005)


Revista de História da UNICAMP