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terça-feira, 8 de novembro de 2011

ilha da Utopia


Gravura de 1516 da famosa ilha da Utopia, celebrizada pelo inglês Thomas Morus. Ele retratou essa ilha imaginária como um paraíso de igualdade e tolerância cristãs, localizando-a na América. A gravura apareceu em uma das primeiras edições de seu famoso livro Utopia e foi colorida posteriormente.

Morte do imperador inca


Francisco Pizarro exigiu enorme resgate em ouro por Atahualpa. O resgate foi pago, com grande mobilização das aldeias do Peru, mas o conquistador mandou matar o imperador inca em Cajamarca, em 1553.

Xilografia de Felipe Huaman Poma de Ayala (1526-1613)

sábado, 1 de maio de 2010

A verdadeira história sobre a descoberta das Américas

A verdadeira história sobre a descoberta das Américas
Alberto Cury Nassour
Engenheiro de Materiais

À quem se deve realmente a descoberta das Américas, à Cristovão Colombo, à Américo Vespúcio ou aos próprios índios nativos da região? Essa pergunta intrigante tem provocado muita controvérsia nas últimas décadas. Alguns historiadores creditam aos nativos que chegaram do estreito de Bering, entre a Sibéria e o Alasca, à 40.000 anos o verdadeiro descobrimento das Américas. Outros pesquisadores atribuem aos escandinavos por volta do ano 1.000 quando chegaram ao Canadá e retornaram sem desembarcarem devido aos imensos blocos de gelo, enquanto que outros estudiosos acreditam que fragmentos de cerâmicas encontrados no Equador em 1956, apresentam semelhanças marcantes com cerâmicas produzidas no Japão há mais de 5.000 anos. Alguns admitem que uma viagem do monge budista até o lado do “grande mar”, ou oceâno pacífico, teria chegado até o México no século V, conforme comprovam o uso de dragões alados como motivo de cerimônias mágicas encontrados em cerâmicas mexicanas, uma vez que este símbolo especificamente representava a dinastia do monge chinês. Daí a mera semelhança dos latinos, incluindo os índios brasileiros, com traços dos povos orientais.

Enfim, muitas são as teorias que tentam explicar os verdadeiros descobridores das Américas. Até pouco tempo, Cristovão Colombo era tido como um homem de larga visão e caráter obstinado, o sábio defensor da certeza de que a Terra era redonda, o homem que fez um ovo parar em pé e abriu as portas do Oceâno Atlântico, e de repente não é mais nada disso. O escritor e historiador americano Kirkpatrick Sale, em seu livro “The Conquest of Paradise” relata um homem vulgar, apreciador da ganância do ouro, obcecado pelos títulos de nobreza e extremamente confuso em suas observações de navegação. Apesar de realizar quatro viagens às Américas, nunca soube descrever fielmente onde realmente esteve. Além de demonstrar uma ferocidade bestial com os nativos, trazendo consigo e sua tripulação formada na maioria por ladrões e desocupados, doenças como a febre, tuberculose e a varíola, que dissiparam milhares de nativos logo nos primeiros contatos em terra. Sobre Colombo, dos seus primeiros vinte anos pouco se sabe. Há razões para acreditar que nasceu em Gênova no ano de 1451, mas muitos historiadores não estão de acordo. Há quem atribua o seu nascimento nas regiões da Córsega, Maiorca, Aragão, Galícia e até em Portugal. Sabe-se pelo menos que seu idioma favorito era o Castelhano, pois servia-se dele para suas correspondências. Em 1472, tem-se notícia que esteve no mar como corsário, que serviu de trampolim para ingressar na frota do grande corsário francês Coullon, o Velho. Numa investida frustante, viu-se náufrago na costa portuguesa, por onde viveu escondido por oito anos, dos 25 aos 33.

As primeiras rotas das grandes navegações


Era o tempo da Escola de Sagres, das grandes navegações pela Costa da África. Em 1488, o explorador português Bartolomeu Dias, (1455-1500), ultrapassou o cabo da Boa Esperança. Cogitava-se o verdadeiro caminho para as Índias. Colombo então, desenvolvia um plano inovador para chegar as Índias navegando para oeste, cruzando o Oceâno Atlântico. Baseando-se em dados do grande cosmógrafo e navegador árabe Alfraganus, (daí a origem dos termos latinos fragata e naufragar) demarcou as bases para suas viagens utilizando os cálculos em milhas árabes, que correspondem a 1.975,5 metros, diferente da milha italiana, 1.477,5 metros. Sem dúvida um erro marcante. Colombo, concluiu então que saindo das Ilhas Canárias e navegando 2.760 milhas (árabes) para o oeste, chegaria às ilhas japonesas. Um duplo erro, pois se revelasse a distância verdadeira, cerca de quatro vezes maior, nunca teria encontrado alguém que lhe financiasse a tentativa. Estava certo de que poderia alcançar o Oriente pelo Ocidente. Embora a teoria da Terra redonda já circulasse nos meios mais cultos, havia um certo ar confuso nos seus cálculos. Colombo não conseguiu fazer interessar o Rei de Portugal, Dom João II, nos seus projetos. Da sua estada em Portugal, sabe-se de seu casamento com Fillipa Moniz Perestrello, de família nobre, com quem teve um filho chamado Diego, futuro companheiro de viagens. Depois do falecimento de sua esposa, Colombo muda-se para a região de Andaluzia, na Espanha, onde cultivou amizades com os Medina-Celli e os Medina-Sidonia. Graças ao Duque de Medina-Celli, foi apresentado formalmente à rainha Isabel de Castella, e pouco depois apresentou seus planos à uma comissão de cientistas e navegadores espanhóis liderada pelo escriba de Talavera, braço direito da rainha.

Primeiro mapa das Américas

Em face da conclusão inteiramente negativa, a comissão recusou o projeto, considerando-o impossível frente aos cálculos apresentados. Colombo não desistiu. Tentou penetrar nas cortes da França e da Inglaterra em distintas situações frustantes. Volta então à Espanha e certas intervenções históricas acabaram ajudando-o. Em 1492, os espanhóis conseguiram readquirir suas terras após domínio dos mouros árabes por mais de setecentos anos, na rendição de Granada. Vem dessa época a grande influência árabe na cultura portuguesa e espanhola, desde o vocabulário, passando pela culinária, música e costumes. Ultrapassado a fase de reintegração de posse, os espanhóis começaram a se interessar por novos horizontes além-mar. A rainha Isabel de Castella nunca penhorou as jóias para financiar as expedições de Colombo, ao contrário do que se pregava nas escolas antigamente. Das três embarcações, Pinta e Nina eram caravelas e foram providenciadas pela cidade de Palos, a terceira, Santa Maria, era uma nau e foi financiada por um banqueiro independente que não entendia nada de navegação, mas era bastante ganancioso. Todas as embarcações levavam não mais que noventa homens, geralmente ladrões e devedores da corte espanhola e muita gente doente. No dia 06 de setembro de 1492 as embarcações saíram de Palos em direção às Ilhas Canárias e de lá em direção ao tão sonhado Oriente. Em 25 de setembro o comandante da nau capitânia Santa Maria, Martin Alonso Pizón, confundia uma porção quilométrica de algas boiando com um monte de terra e declarou “terra à vista”, o que provocou certo ar de descontentamento entre a tripulação, gerando até indícios de motim à bordo entre os mais revoltosos. Foi só então na manhã de 12 de outubro que a primeira ilha das Bahamas apareceu aos olhos do marinheiro-mor da caravela Pinta. Segundo o Calendário Juliano em vigor no século XV, era realmente 12 de outubro, porém pelo calendário Gregoriano, seria 21 de outubro. O calendário Gregoriano entrou em vigor alguns anos mais tarde corrigindo o período anual correto em função do Equinócio, marco muito utilizado por navegadores que representa o período em que o dia tem a mesma duração que a noite. O local exato onde Colombo aportou é outro ponto de controvérsias. Nada menos do que doze locais são declarados como sendo o primeiro, devido às suas anotações errôneas e ao fato de querer guardar segredo para não ser seguido caso encontrasse ouro ou especiarias. Teve seu mérito ao descobrir as Ilhas do Haiti e República Dominicana, aí fundou Isabella, em homenagem a rainha da Espanha e na expectativa de futuros financiamentos. Como os comandantes a serviço de Colombo acreditavam terem chegado às Índias, denominaram os nativos de “índios”, cujo continente estava à milhares de quilômetros de distância.

De volta à Espanha, Colombo foi recebido como herói, recebeu inúmeras honrarias e dezenas de banquetes, jamais compreendidos pelos grandes cientistas e navegadores da época que acreditavam impossível ter chegado às Índias com cálculos tão absurdos. Colombo retornou por três vezes às ilhas recém descobertas que ainda não se chamavam América, pois à luz da verdade, ele mesmo sabia que seus cálculos estavam equivocados. Isso gerou-lhe uma tremenda confusão interior. De lá saiu para a conquista de Guadalupe, Porto Rico, Jamaica e Cuba, cuja ilha imaginou ser o final do continente asiático. Só na terceira viagem, em 1498, Colombo realmente chegou ao continente americano atracando pelo norte da Venezuela. Na quarta e última viagem, em 1502, já atormentado pela crises de temperamento e alucinações constantes, não consegue descobrir mais nehuma ilha nova e então escreveu entre delírios, as obras “O livro dos privilégios” e “O livro das profecias”, nos quais se auto intitula “Dom Cristovão Colombo, Vice-Rei e Governador de todas as ilhas e terras firmes do Ocidente”. O que mais o prejudicou não foram suas teorias desatinadas, mas a prática do seu dia-a-dia como Governador das terras descobertas. Neste ponto, relata Sale em seu livro, “…Colombo foi simplesmente desastroso. Faltavam aos moradores das novas terras, comida, bebida, roupa e moradias decentes….” Os reis de Espanha perderam a paciência e mandaram o interventor Francisco de Bobadilla prender Colombo e enviá-lo de volta à Europa. Faleceu em 1506, ainda dono de uma fortuna considerável, porém, totalmente atormentado. Quem deixou bem anotadas todas as crueldades e façanhas de Colombo, foi o frade dominicano Bartolomeu de Las Casas, cuja obra publicada integralmente no século XIX, serve até hoje como fonte para os historiadores e revisionistas. Quem realmente descobriu as Índias, o continente no Oriente em 1497, foi o navegador português Vasco da Gama, (1460-1524), seguindo o caminho escolhido por Bartolomeu Dias, e conseguiu contornar o Cabo da Boa Esperança, navegando às margens do continente Africano e o Oceano Índico até chegar à Malabar.

O grande escritor francês Victor Hugo, (1802-1885), deixou registrado que “…Há homens sem sorte, e que Colombo não conseguira associar seu nome à descoberta da América…” e que “…a história do ovo em pé de Colombo não passa de uma lenda italiana, na qual Colombo querendo impressionar seus comandados, fez parar em pé um ovo cozido e levemente amassado na base, que logo em seguida ele mesmo amassa para não descobrirem sua façanha…”. É muito intrigante realmente, a América não se chamar Columbia. Américo Vespúcio, (1451-1512), nascido em Florença e navegador familiarizado com o mar, desenvolveu sistemas de cálculos de longitude imbatíveis para a época, “emprestou” seu nome para as novas terras, parecia ser melhor cotado nos meios pertinentes, pois ao contrário de Colombo descrevia e muito bem sobre suas viagens às novas terras. Afirmava ter chegado ao continente sul, próximo do Rio da Prata em 1497, antes de Pedro Alvares Cabral (1467-1520) ter descoberto o Brasil em 1500. Amigo fiel dos Medici, o “Magnífico”, Américo Vespúcio conseguia se infiltrar facilmente entre patronos e banqueiros da época. A Vila de Saint-Dié, na França, era o berço de reliogiosos cartográficos e o ilustrador Monsenhor Martin Waldseemüller ao preparar o mapa do Novo Mundo, seguindo cálculos de Vespúcio sugeriu o nome das novas terras de “Amerige”. Nasce assim o continente América. O autor Sale, da obra “The Conquest of Paradise” traça um quadro interessante da civilização no século XV, tanto na Espanha sob os olhares de novas descobertas e sob o terror da Inquisição, quanto no resto da Europa dilacerada pelas guerras constantes, assolada pela fome e pela peste. Porém, ressalta simultaneamente com brilhantismo uma época recheada de ilustres figuras como, Leonardo Da Vinci, (1452-1519), Maquiavel,(1469-1527), Michelângelo, (1475-1564), Nicolau Copérnico, (1473-1543), Lutero, (1483-1546) e Rafael, (1483-1520). As grandes navegações foram consequência natural de uma efervescência cultural da época do Renascimento, que estremeceram o conteúdo do conceito humano.

© Revista Eletrônica de Ciências - Número 19 - Maio / Junho de 2003.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

PROMESSA DA AMÉRICA


O tigre azul romperá o mundo.


Outra terra, a que não tem mal, a que não tem morte, vai nascer da aniquilação desta terra. Ela pede que seja assim. Pede a morte, pede o nascimento, esta terra velha e ofendida, ela está cansadíssima e, de tanto chorar por dentro, ficou cega. Moribunda, atravessa os dias, lixo do tempo, e quando é noite inspira piedade às estrelas. Logo logo, o Pai Primeiro executará as súplicas do mundo, terra querendo ser outra, e então solçtará o tigre azul que dorme debaixo de sua rede.


Esperando esse momento, osd índios guaranis peregrinam pela terra condenada.


- Você tem alguma coisa que dizer para nós, colibri?


Dançam sem parar, cada vez mais leves, mais voadores, e cantam os cantos sagrados que celebram o próximo nascimento da outra terra.


Lança raios, lança raios, colibri!


Buscando o paraíso chegaram até as costas do mar e até o centro da América. Rodaram selvas e serras e rios, perseguindo a terra nova, a que será fundada sem velhice nem doença nem nada que interrompa a incessante festa de viver. Os cantos anunciam que o milho crescerá por sua conta e as flexas voarão sozinhas na floresta; e não serão necessários o castigo e o perdão, porque não haverá proibição nem culpa.

Clastres, Hèléne. La terre sans mal. Le prophétisme tupi-guarani. Paris, Seuil, 1975.
Nimuendajú, Curt. Los mitos de crieación y de destrucción del mundo. Lima, Centro Amazónico de Antropologia, 1979.




Memórias do Fogo II
Eduardo Galeano

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Uma América incógnita


An America unknown


Susani Silveira Lemos França

Professora Doutora - Departamento de História - Faculdade de História, Direito e Serviço Social - UNESP - 14409-160 - Franca - SP - Brasil. E-mail: susanilemos@uol.com.br


RESUMO

Se os cronistas espanhóis inventaram paulatinamente o que viria a ser a América, como O' Gorman propôs, os cronistas portugueses da primeira metade do século XVI foram bem mais cautelosos na construção de uma identidade para os territórios do ultramar visitados por Colombo e por Cabral. Esses cronistas quinhentistas, com os olhos na Ásia, só tardiamente deixaram de pensar esse "quase um outro mundo" como lugar de passagem para pensá-lo como lugar de parada. Embora distanciando-se do tom de espanto que marca cartas e relatos utilizados como fontes e revelando uma preocupação em atribuir um lugar específico para a viagem de Cabral na construção da história portuguesa, as peripécias dos navegadores sobressaem às peculiaridades das terras e gentes que viriam futuramente a merecer dos seus congêneres uma atenção especial. Neste ensaio, o alvo visado é o lugar, na cronística portuguesa quinhentista, conferido a esses territórios de pouco prestígio, melhor, o lugar que lhe é concedido na memória portuguesa desses primeiros tempos.

Palavras-chave: Cronistas; Expansão portuguesa; Século XVI.


ABSTRACT

If we consider that the Spanish chroniclers had gradually invented what eventually became America, as O'Gorman proposed, the Portuguese chroniclers of the first half of the 16th century were even more cautious in building an identity for the overseas territories visited by Columbus and Cabral. These sixteenth century chroniclers, focusing on Asia, only later ceased to think of this "almost other world" as a place of passage, to think of it as a place to stop. Disregarding the surprised tone of the letters and reports used as sources, and showing concern in giving Cabral's travels a specific place in the construction of Portuguese history, the explorers' adventures highlight the peculiarities of the lands and peoples that would later come to deserve special attention from their congeners. It is the place that the Portuguese sixteenth century chronicler has given to these territories, and the place that was fixed in the memory of the 16th century Portuguese, which are the aspects covered in this text.

Keywords: Chroniclers; Portuguese discoveries; 16th century.


Não foram poucos os historiadores que indagaram os relatos dos viajantes europeus em busca de destacar os elementos principais que compuseram a imagem que esses, e seus leitores, forjaram da América e de seus habitantes. Por trás dessa interrogação, estava a vontade ora de desmontar a relação entre os fatos observados e sua interpretação1, ora de levantar os referentes culturais que participaram na sua construção do mundo do ultramar2, ora de traçar o perfil daqueles que fizeram deslocamentos concretos ou registraram a experiência de outros3, ora, ainda, para ficarmos nuns poucos exemplos, de mapear os tópicos e as especificidades da imagem que estes forjaram dos lugares e gentes da América4.

Quando, porém, a interrogação parte para um gênero que se alimentou dessas narrativas para pensar esses mesmos lugares, a história-crônica, o jogo entre o passado narrado e o presente dos cronistas5,aos quais foi encomendada a tarefa de fixar um certo passado, bem como as implicações das mediações que utilizaram, demanda que se interrogue não apenas de onde falam, mas também onde se enquadra o seu discurso no longo processo de tomada de conhecimento da América pelos europeus. Na obra dos cronistas portugueses do início do século XVI, ou seja, daqueles que escreveram quando ainda eram recentes as grandes descobertas, já é possível perceber, diferentemente da obra de Zurara, escrita no século anterior, uma perspectivação de conjunto, uma visão global6 dos feitos e efeitos expansionistas, ainda que desprovida de adiantamentos sobre o significado cultural do alargamento do mundo7. Phillipe Bonnichon, a esse propósito, em Des Cannibales aux Castors. Les découvertes françaises de l'Amérique (1503-1788), considera que, embora tenham sido os ibéricos os primeiros a pisar a América, os descobrimentos só se cumprem culturalmente quando retornam à Europa. Em suas palavras, a descoberta prolonga-se para muito além do primeiro golpe, prolonga-se no espaço e na duração, porque demanda ida e vinda, feito e publicidade; demanda, em suma, que as novidades encontradas retornem às nações conquistadoras e suas vizinhas e irmãs8.

Levando em conta a importância desse retorno, interessa aqui menos pensar as conhecidas fases da concretização da expansão, como fixaram, entre outros, Pierre Chaunu9, Fréderic Mauro10 e Oliveira Marques11 - fases que contemplam desde a expansão interna européia até a externa, ou apenas à expansão portuguesa -, e mais refletir sobre as voltas tortuosas da expansão da notícia sobre os descobrimentos, nomeadamente do descobrimento da América. A pergunta específica, pois, a ser respondida nos limites deste ensaio é: como e onde se enquadra o pensamento dos cronistas portugueses que escreveram quando eram recentes as grandes viagens ultramarinas e as grandes descobertas? Questão cuja relevância está ligada ao fato de que, se a descoberta não é apenas espacial ou geográfica mas principalmente histórico-cultural, importa saber o papel que esses cronistas, da nacionalidade daqueles que desencadearam com suas viagens um processo que integraria todo o globo terrestre, tiveram na construção histórica do descobrimento da América. E tal questão emerge quando se leva em conta que, se não é questionável a anterioridade da chegada dos portugueses ao Brasil - ou dos espanhóis às Antilhas, mesmo que não sejam negligenciados possíveis antecedentes de Colombo e de Cabral12 -, não teria sido tão impactante o papel dos portugueses, ao menos dos cronistas, no processo continuado de invenção e divulgação dos lugares encontrados.

Acerca do saber histórico desta primeira metade do século XVI, vale lembrar, de saída, que, no caso de Portugal, embora esse se desloque do compromisso direto com a legitimação da dinastia de Avis13 ou com a formação de reis e nobres para a expansão ultramarina, o empenho em pintar um passado honroso indica o peso da herança ciceroniana, que propunha fazer da escrita do passado "testemunha dos tempos", "luz da verdade" e instrutora dos tempos vindouros. Cícero entendia a história como "mestra da vida" e esse seu caráter edificante justificava as imortalizações que empreendia. Nesse sentido, a história devia constituir-se num repertório de exemplos políticos e morais, pois era a "verdade ética" que deveria estar na mira do historiador14. Idéia que se encontra na base da leitura de S. Agostinho, especialmente no que diz respeito à moralização da memória e ao entendimento dela como uma parte da "virtude da prudência", considerada pelos medievais, e ainda persistente no século XVI, como uma das virtudes maiores, ao lado da coragem, da justiça e da temperança15. João de Barros, nas suas décadas da Ásia, define a história nos seguintes termos:

[...] a historia he hum ágro & cãpo onde está semeada toda a doctrina, diuinal, moral, racional & jnstrumental: quem pastar o seu fructo, cõuertello há em forças de jntendimento & memoria, pera vso de justa & perfecta vida, cõ que apraz a Deus & aos homes.16

Caráter pedagógico igualmente corroborado por Castanheda, que destaca o louvável costume dos reis do Egito de:

terem cada dia lição das historias: não soomente de seus antecessores: mas doutros reys estrangeiros, pera que delas tomassem doctrina de como auião de gouernar seus reynos na paz, & na guerra. Costume de grande louuor, & muyto digno de ser notado: & que os reys & principes ainda agora auião de goardar, porque os que gouernão bem, ho farião de cadauez melhor, & os que mal, se enmendarião (pois nas historias se achão os melhores exemplos que podem ser pera qualquer estado de vida) & por isso deuião eles de ter cada dia lição delas, principalmente das de seus antecessores...17

Mas a atualização dessa herança, no início do século XVI, é conduzida pela expansão ultramarina: seus alvos, sua importância, suas configurações e vicissitudes, o desempenho dos homens que a empreenderam e, ainda abreviadamente, a apresentação e o mapeamento dos lugares e gentes do ultramar visitado. Desse modo, se as bases da história que elaboraram os cronistas do século XV tinham sido as histórias de outros historiadores, os documentos oficiais, os testemunhos dos grandes homens que viveram os acontecimentos narrados e, em casos mais raros, a própria observação direta18, os cronistas dos descobrimentos tiveram de alimentar-se sobretudo das narrativas de viagens. De onde a familiaridade entre os dois gêneros, pois, apesar de toda a produção escrita medieval ser caracterizada pelo compromisso de verdade assumido pelos autores dos mais diferentes gêneros, os relatos de viagem e as crônicas mais diretamente conjugam a preocupação de veracidade e de testemunho19. As crônicas, por sua função de preservação, dão ênfase à sua intenção de permitir que se alcançasse o conhecimento da verdade; como afirma o referido Castanheda: "se me eu detiue vinte tantos annos em escreuer esta historia, foy porque a fizese como auia de ser, principalm½te na verdade." Do mesmo modo, nos relatos, aparecem passagens onde o compromisso de veracidade é igualmente declarado, como no relato iniciado em 1505, Esmeraldo de Situs Orbis, em que o cosmógrafo português Duarte Pacheco Pereira declara a D. Manuel que "todas essas cousas, sereníssimo Príncipe, são verdade [...]."20

Já no que diz respeito à função testemunhal comum aos dois conjuntos discursivos, embora no século XVI os cronistas apelem a ela de forma mais ostensiva21, graças ao peso crescente que o conhecimento por experiência começa a ganhar na afirmação da verdade22, não se pode dizer que ela ganhe o mesmo peso que nos relatos dos viajantes na autenticação da verdade, dado que o recurso a fontes consideradas legítimas, a outras histórias, aos testemunhos de terceiros e às autoridades desempenha igual valor na fixação da verdade. Nos relatos, conquanto a mesma busca da realidade notável nas crônicas caracterize a preocupação de veracidade23, a unidade do mundo que o viajante procura restituir é fundada explicitamente na empiria, e não tanto na conjugação entre a idéia de espelho do passado, o apelo às autoridades antigas e medievais e o recurso às verdades consolidadas em outros escritos. Mesmo que também os relatos sejam alimentados pelos referentes culturais dos viajantes antecessores e, em vários casos, sejam também eles construídos sobre escritos do passado, à base da compilação, é o testemunho direto, a afirmação da busca da realidade sem intermediações que os sustenta. Isso, entretanto, não deve nos levar a cair na armadilha da função documental desses textos, nem tampouco das crônicas. Igualmente, não podemos cair na tentação oposta de desmenti-los, pois o que importa é atentar para como recorreram a classes de verdade que pareceram tão convincentes para seus contemporâneos, ao ponto de se apresentarem como espelho do mundo24. E, no caso dessas crônicas do século XVI, esse espelho do mundo é alimentado sobretudo pelas narrativas de viagens.

Tais narrativas de viagens, caracterizadas como documentos de "primeira mão", amparados na experiência pessoal25, eram, contudo, poucas no início do século XVI e, no que diz respeito à América, esquivas, já que os olhares ainda continuavam treinados para ver sobretudo o Oriente. Em sua maioria sem grande trabalho de elaboração e, à moda da época, sem grande preocupação com a originalidade, elas interessaram aos cronistas - assim como mais tarde a outros leitores - pelo quanto de informações que conseguiam reunir e por serem testemunhos sobre terras, homens e sociedades que eles próprios não puderam visitar. Era nesse testemunho direto, a propósito, que os cronistas julgavam que poderiam encontrar a aclamada autenticidade que buscavam nos seus próprios relatos históricos.

Se, porém, os cronistas quinhentistas26 procuraram, nessas dispersas reportagens do passado, um melhor conhecimento de gentes e terras desconhecidas, no que diz respeito à América, que tanto veio a interessar seus sucessores, apenas colaboraram para manter o vazio na divulgação das imagens do lugar nos primeiros tempos de descobertas geográficas e históricas. O passado que fixaram sobre a América, como se verá, parece não ser nem aquele dos humanistas curiosos com a novidade, nem muito menos o daqueles homens movidos pelo interesse filosófico ou científico, como foi o dos homens do século das Luzes. Nesses textos históricos portugueses do século XVI, portanto, a América apresentada é uma América que está longe de interessar por si mesma; por um lado, porque o que importava eram os feitos dos grandes homens da expansão; por outro, porque, como têm notado vários historiadores, ela era ainda, neste momento, lugar de passagem para uma conquista mais promissora: as Índias Orientais.

No que diz respeito ao primeiro aspecto, é possível notar que João de Barros27, em sua Ásia, além de incluir um subtítulo que denuncia a tendência marcante da sua história, "os feitos que os portugueses fizeram no descobrimento e conquista dos mares e terras do oriente", apresenta como ponto de partida de seu projeto de registro do passado - em décadas, à moda dos antigos - os feitos militares portugueses nos quatro continentes, um ponto de partida que, porém, acabou por não ter continuidade, pois Barros não pôde realizar a proposta de compor uma parte geográfica e uma parte dedicada às relações e aos produtos comerciais28. Restringiu-se, assim, o historiador a pensar os feitos pelo mérito daqueles que o empreenderam. Talvez por isso louve, no prólogo da Segunda Década, os quatro príncipes que, em momentos diferentes, alicerçaram os descobrimentos: D. Henrique, que lançou as "pedras rústicas" da conquista da Guiné, D. Afonso V e D. João II, porque acrescentaram ao que aquele tinha começado, e D. Manuel, porque, na visão do cronista, deu a conhecer à Europa o descobrimento da Índia e despertou interesse por ela29. O cronista, pois, no seu compromisso de "encomendar as cousas à custódia das letras" e preencher o vazio que seus antecessores e contemporâneos portugueses deixaram acerca dos descobrimentos, só se refere à parte oriental das descobertas e não contempla que, no que diz respeito à parte ocidental, ele próprio ampliará o vazio -30 talvez porque a sua fonte principal tenha sido a Relação do Piloto Anônimo. As matérias tratadas por Barros voltam-se também sobretudo para o oriente. Da ação e das peripécias do Infante D. Henrique e seus servidores - Gil Eanes, Gonçalo de Sintra, Nuno Tristão, Gomes Pires, Diogo Gil e outros - às iniciativas exitosas de D. Manuel, levadas adiante pelos famigerados Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral, Afonso de Albuquerque, Francisco de Albuquerque, Francisco de Sá, Henrique de Meneses, Pêro Mascarenhas, e outros, passando pelo arrendamento a Fernão Gomes por D. Afonso V e pelo impulso dado às conquistas por D. João II.

Também Castanheda atenta mais para a dominação dos portugueses na Índia - "seus feitos notáveis", suas "façanhas" - do que propriamente para os costumes dos reis e povos do Oriente ou para as características dos lugares; uns e outros descritos acima de tudo com a finalidade de compor melhor a grandeza dos feitos portugueses31. E mesmo Gaspar Correia, que se distinguiu de Damião de Góis por não tomar o rei D. Manuel como figura central de sua narrativa, declara que não escreveria "nada das terras, gente, e trato", mas apenas se ocuparia dos "nobres feitos" daqueles portugueses atuantes nas partes da Índia32.

Se, pois, o alvo de engrandecimento dos portugueses que militaram no ultramar se sobrepunha à descrição dos lugares da Índia, no que diz respeito à futura América, a ausência de nuances sobre os lugares e gentes é ainda mais notável. Segundo Mollat33, os navegadores dos tempos de Colombo procuravam Catai e encontraram a América, portanto, levou tempo para que a consideração da América por ela mesma viesse a se efetivar, pois o objetivo permanecia Catai. Desse modo, nas primeiras décadas do século XVI, o extremo ocidente descoberto, além de surgir nos escritos como reminiscência do extremo oriente34, aparece como interposto. Não é, pois, de admirar que aquele que foi o cronista português mais traduzido, Fernão Lopes de Castanheda35, quando sintetiza os grandes feitos dos portugueses, abrindo mares e mundos, ressalte apenas a África, o Cabo da Boa Esperança, a Etiópia, a Arábia, a Pérsia, a China e as ilhas Molucas36.

Materia completa abaixo
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Revista História - UNESP

O nascimento da América portuguesa no contexto imperial lusitano


O nascimento da América portuguesa no contexto imperial lusitano. Considerações teóricas a partir das diferenças entre a historiografia recente e o ensino de História

Lucília Siqueira


Professora Doutora - Departamento de História - PUC-SP - 05014-901 - São Paulo - SP - Brasil. E-mail: lucilia-siqueira@uol.com.br

RESUMO

O artigo estrutura-se sobre a comparação entre o que é trazido pela produção historiográfica recente e o que os livros didáticos e o ensino de História do Brasil oferecem acerca do início de nosso período colonial. Os temas aqui tratados são a formação da monarquia e do Estado em Portugal, os antecedentes e as causas da expansão marítima, o significado da viagem de Cabral e, por fim, a dinâmica imperial lusitana até a metade do século XVI. Os fenômenos e processos históricos discutidos servem como indício de uma concepção histórica que está como pano de fundo na maneira de tratar a história do Brasil e de estruturar os livros didáticos.

Palavras-chave: Historiografia brasileira; América portuguesa; Brasil colonial; Ensino de História; Livros didáticos de História.

ABSTRACT

This article deals with the comparison between what is discussed by recent historiographical production and what History textbooks offer concerning Brazil's Colonial Period. The themes include the formation of the Monarchy and the State in Portugal, the antecedents and causes of overseas expansion, the significance of Cabral's travels and, lastly, the Portuguese Imperial dynamics up to the mid-16th century. The historical phenomena and processes brought up here can be considered as pointing toward a historical conception which works as a backdrop to the way in which the history of Brazil is dealt with and how textbooks are organized.

Keywords: Brazilian historiography; Portuguese America; Colonial Brazil; History teaching; History textbooks.


Entre os anos de 2003 e 2006, ministramos no curso de História da PUC-SP a disciplina Brasil I: Introdução à Historiografia Brasileira1, cujo conteúdo era, essencialmente, a montagem do Império português no início do período moderno. Além de focalizar o Reino de Portugal desde sua formação até os meados do século XVI, chegando perto de se constituir num curso de história ibérica, a disciplina promovia uma reflexão acerca da historiografia brasileira e, em vista disso, buscamos organizar o programa com uma bibliografia inovadora, em grande parte publicada há menos de dez anos.2

Sucedeu com os estudantes de História do 1º ano, recém-chegados do Ensino Médio, um estranhamento maior do que esperávamos, pois a cada leitura traziam as diferenças espantosas que encontravam em relação às informações e à abordagem com que tinham lidado ao longo de sua escolarização anterior. O clamor por discutir tais diferenças nos fez transformar um dos instrumentos avaliatórios do curso numa comparação entre os autores que ora estudavam e o que lhes fora apresentado nos anos de ensino de História, principalmente por meio de livros didáticos. Estes últimos seriam da escolha dos alunos, podiam ser novos ou publicados há mais tempo e podiam, ainda, ser do Ensino Fundamental ou do Médio.

Dessa maneira nasceu o texto que segue, estruturado sobre a comparação entre o conhecimento que era trazido pelos alunos do 1º ano de História da PUC-SP acerca do início de nosso período colonial - incluídos os livros didáticos com que estudaram - e o que é apresentado pela produção historiográfica recente.

Estão aqui apontadas muitas das obras historiográficas que compunham a bibliografia de Brasil I, mas os livros didáticos não estão discriminados, nem seus autores e nem seus títulos, embora estivessem disponíveis nos papers entregues pelos que cursaram a disciplina. Os alunos perceberam que muitas das idéias que traziam consolidadas dos tempos anteriores à universidade não estavam propriamente nos livros didáticos com que trabalharam, mas na fala dos professores de História, na "explicação que faziam do processo colonial" - como disse certa vez um aluno; isto é, os alunos perceberam que, para além do texto do livro didático, havia a interpretação do passado lusitano e colonial que era veiculada pelos docentes na intenção de promover a compreensão do passado entre o alunado.

Assim, o modo como este ensino de História do Brasil se abriga na sala de aula e nos textos didáticos configura-se, neste artigo, como uma superfície indefinida sobre a qual dispomos as diferenças que intentamos apresentar. Os processos e acontecimentos históricos que discutiremos abaixo pretendem seguir na vereda dos traços mais fortes que vemos apresentados nos textos acadêmicos. Os temas aqui tratados são a formação da monarquia e do Estado em Portugal, os antecedentes e as causas da expansão marítima, o significado da viagem de 1500 de Pedro Álvares Cabral e, por fim, a dinâmica imperial lusitana até a metade do século XVI.

O incremento dos programas de pós-graduação no país, o aumento na quantidade de pesquisadores brasileiros e a abertura crescente dos arquivos em várias partes do mundo têm tornado possível uma apreensão mais concreta das especificidades da história da América portuguesa e têm acrescentado bastante ao modo como entendíamos o nascimento da sociedade colonial. Tais novidades tornam necessário, como em muitos outros momentos vividos pelo ensino de História, uma reflexão acerca das balizas que estruturam o que é ensinado nos bancos escolares.

Como este artigo não quer ser uma nova cartilha para a seleção de conteúdos em História do Brasil, os fenômenos e processos históricos discutidos servem como indício de algo que cremos ser muito maior, isto é, uma concepção histórica que está como pano de fundo na maneira de tratar a história do Brasil na sala de aula e de compor os livros didáticos.



A formação da monarquia e do Estado em Portugal

Ainda que outros domínios ultramarinos já estivessem presentes na visão de alguns historiadores das décadas de 1960 e 1970 - como Amaral Lapa, Charles Boxer e Magalhães Godinho, por exemplo -, um dos traços mais fortes na maneira atual de escrever a história colonial do Brasil é a sua inserção no contexto imperial português. Se, de um lado, isso afasta os anacronismos, pois se entende que foi com o passar do tempo que os portugueses foram incorporando partes do território americano e que o Brasil ainda não existia como unidade territorial, conjunto cultural ou político nos primeiros séculos do tempo moderno, de outro lado, deixa ver como a América portuguesa participava das relações mercantis, políticas e culturais que se criavam entre as gentes que viviam nos Oceanos Índico e Atlântico; isto é, passamos a vislumbrar a porção oriental da América do Sul como parte, até mesmo pouco importante, do Império que incluía Ásia e África (ALENCASTRO, 2000).

A ampliação que permite ver além da colônia brasileira faz companhia para um alargamento já existente no tratamento da história de Portugal, cujos autores introduzem no ambiente mundial a formação do Reino e do Estado português, as navegações oceânicas, a montagem do Império, as redes de comércio e as de poder. Os processos históricos lusitanos do esgarçar da medievalidade e da composição do período moderno são pesquisados hoje nos arquivos de Portugal, da Índia, da China, do Brasil, da Espanha, da Itália, da Holanda, etc., de modo que podem ser vislumbradas as faces de uma história que não foi protagonizada apenas por portugueses.

Para compreender a construção do Império ultramarino é preciso conhecer o processo de constituição da monarquia portuguesa, do surgimento do Reino de Portugal no século XII, do aumento crescente do poder régio e da especificidade com que se estruturou o Estado lusitano ao longo dos séculos seguintes. Nos Ensinos Fundamental e Médio, o estudo da formação e do fortalecimento da monarquia portuguesa na sua peculiaridade poderia contribuir para que se compreendesse melhor o processo de crise do feudalismo e de formação das monarquias nacionais na Europa como um todo.

Na tentativa de explicar as grandes navegações que ocasionaram o "aparecimento do Brasil na história", os livros didáticos costumam apresentar para Portugal moderno uma situação modelar em que, como em outras regiões européias, a burguesia comercial derrotou o feudalismo em aliança com o rei lusitano e, com o Estado moderno constituído, juntos empreenderam a expansão marítima. Nos textos didáticos é usual que a Revolução de Avis (1383) - quando a dinastia de Borgonha foi substituída pela de Avis - seja o acontecimento central na explicação do surgimento do Estado moderno português. Na maioria dessas obras, a revolução se constituiu na vitória da nação portuguesa contra a tentativa de tomada do trono pelos estrangeiros de Castela; além disso, o movimento liderado por D.João de Avis teria garantido à burguesia o ingresso no aparelho estatal.

É preciso notar, como apontou Boxer há 40 anos, que em Portugal do Quatrocentos não existia propriamente uma burguesia, mas um número reduzido de comerciantes instalados em algumas das principais cidades costeiras (BOXER, 2002: 22-23). O mais importante nesta troca dos vocábulos de "burguesia comercial" para "comerciantes" está na abertura que proporciona ao entendimento de que se tratava de um grupo social que, aos poucos, foi se aperfeiçoando no mercadejar, conseguiu alguma entrada nos espaços políticos e, mais adiante, participou com vários outros segmentos nas primeiras viagens oceânicas que, entre outras metas, propiciavam lucros por meio das atividades mercantis. Assim, não se tratava de uma classe social com um projeto acabado de desenvolvimento do capitalismo comercial, que desde o seu surgimento sabia o que lhe seria mais vantajoso do ponto de vista político e econômico e, por isso, associou-se à Coroa e a fez implantar uma política econômica mercantil. Formula-se desse modo uma história em que outros estratos - políticos, culturais, religiosos - não estiveram submetidos à força motriz do grupo econômico que tencionava comerciar.

No segundo volume da obra História de Portugal, intitulado "A monarquia feudal (1096-1480)", José Mattoso e Armindo de Sousa mostram como o processo de concentração de poder político pelo rei fez-se ancorado em valores e práticas feudais, ou seja, ao invés do modelo "rei-aniquila-poder-dos-senhores-feudais", temos que o rei se fortalecia na medida em que se tornava um senhor com mais poder - de caráter senhorial - do que os outros, um primus inter pares, como assinalam os autores. Pouco a pouco, os historiadores revelam como, nos séculos XIII e XIV, o rei assumia crescentemente as funções "públicas", retirando-as dos senhores, ou seja, o rei trazia para si um poder já existente, atribuições que ele não inventara3. Fazia-o amparado numa estratégia política que ao mesmo tempo erigia a singularidade do poder régio e reservava aos nobres um espaço de prestígio e de atuação junto à Coroa, por concessões de privilégios e de prerrogativas, como a tarefa de arrecadar certos tributos, por exemplo (MATTOSO, s/d.: 269-309).

Segundo Mattoso e Sousa, as funções estatais em Portugal desenvolveram-se, de fato, com Afonso III (1248-1279). Para a organização estatal, foi preciso, ao longo dos séculos XIII e XIV, organizar as finanças régias, fortalecer o tribunal e a lei régia em detrimento das justiças locais, criar um corpo de funcionários burocráticos e, ainda, fazer surgir um complexo de regras de cortesia, uma maneira de viver em torno da Coroa, de prestar vassalagem ao rei.

O principal instrumento de que se serviram os reis da dinastia de Borgonha para superarem os senhores foi a guerra externa, cuja liderança lhes possibilitava conquistar terras para o Reino. E, para construir o Estado, o mais importante foi o papel que a justiça régia adquiriu sobre as jurisdições locais, nas diferentes regiões do Reino; se a Coroa não dispunha de aparelho administrativo e funcionários para cada setor da administração pública, possuía, entretanto, os juízes que trabalhavam pela Coroa por todo o reino, fazendo valer a lei régia sobre os ditames locais que vigoravam anteriormente e que variavam bastante nas distintas partes do território. Nas leis régias, estavam dispostos os princípios da Coroa para lidar com os crimes, tributos, atividades de agricultura, de pesca, de produções artesanais, de uso das benfeitorias comuns e dos recursos naturais, etc.

No século XV, quando se iniciaram as navegações oceânicas, o rei de Portugal já tinha poder inquestionável, absoluto. Importa, no entanto, saber o que isso significava naquela época. Segundo Humberto Baquero Moreno, "(...) pelo menos desde o século XIII ninguém põe em causa a autoridade absoluta do monarca (...). Em muitos aspectos o caráter absoluto da monarquia afigura-se mais propriamente teórico do que real." (MORENO, 2001: 47). Adiante, o autor explica que o poder do rei atingia de maneira desigual as regiões do Reino, muitas inacessíveis em alguns períodos do ano. Algumas áreas não dispunham de rede viária que permitisse seu acesso pelo monarca ou seus funcionários, que existiam em número bem reduzido. Com efeito, a Coroa não dispunha de verbas que sustentassem os órgãos que seriam necessários a um poder centralizado, e o rei exercia seu poder sobretudo com dois tipos de funcionários: os arrecadadores de impostos e os juízes.

Estudar a história do nascimento de Portugal dessa maneira possibilitaria, em sala de aula, apreender a concretude e a especificidade de certos processos históricos, como aquele que os livros didáticos chamam de "formação das monarquias nacionais". Descartando a explicação esquemática que dá conta de todas as regiões da Europa no começo da modernidade, podemos trabalhar, simultaneamente, com o que é específico de Portugal e o que diz respeito à história de outros povos europeus no mesmo período; pode-se estabelecer para os estudantes o que é comum e o que é diferente; o que é histórico, porque único e não recorrente, do que é conceitual, porque criado por nós para entender as semelhanças, os contornos mais gerais das sociedades do passado. Pode-se compreender, então, que "monarquia", "rei", "absolutismo", "Estado" e outros conceitos, embora carreguem idéias matrizes muito importantes no uso da linguagem política, têm conteúdo próprio a cada tempo e a cada gente.

Em Portugal, como se vê pelo que foi exposto, primeiramente surgiu a monarquia, depois o Estado. Quanto à nação, conforme José Mattoso, só terminou de ser construída no século XIX, quando as populações que viviam no território português não apenas assumiam a autoridade régia - o que já se dava há muito tempo -, mas quando elas se viam identificadas entre si, como uma comunidade diferente dos demais povos, e identificadas com direitos e deveres comuns, com símbolos onde o Estado se materializava. Para tanto, foi preciso, inclusive, que a maioria da população portuguesa pudesse passar por escolarização, o que somente ocorreu na metade do século XX (MATTOSO, 2001: 31-41).

Diferentemente do que a orientação nacionalista sempre tendeu a expor para muitos países, é essencial mostrar aos estudantes que, em Portugal, a nação não precedeu o Estado e que este, portanto, não se legitimou sobre a anterioridade daquela. Assim como se verá no Oitocentos no Brasil, o Estado português não foi criado para atender uma demanda da nação já existente. Parece-nos precioso para a formação dos cidadãos de hoje o aprendizado de que poder político, Estado e nação são fenômenos construídos historicamente e em momentos não coincidentes.



Os antecedentes e as causas da expansão marítima

É evidente que para nós o estudo da construção do Estado lusitano tem como fim primordial constituir-se numa introdução para a história do Brasil; e não é mau que seja assim. Investigando Portugal no alvorecer da modernidade, os estudiosos da história brasileira pretendem a compreensão do início da sociedade colonial, ainda que saibam da existência anterior de inúmeras populações nativas e da diversidade que caracterizou o território da América portuguesa. Isto é, sabemos que as terras americanas visitadas, exploradas e por vezes povoadas pelos portugueses na primeira metade do século XVI não se configuravam propriamente no Brasil, mas é fundamental conhecê-las neste período - porque dizem respeito ao nosso passado - tendo sempre em mente que seu destino poderia não ter sido tornar-se um Estado e um território único no século XIX (NOVAIS, 2000).

Atados a uma perspectiva nacional de história para o Brasil e também para Portugal - mesmo sem o saber -, os livros didáticos fazem a explanação das grandes navegações realçando a atuação do sujeito Portugal, consolidado num Estado de administração centralizada que gerencia o grande empreendimento marítimo; emergem expressões como "Portugal toma posse do Brasil", intitulando o trecho em que a viagem de Pedro Cabral é narrada. Um dos eixos em torno do qual se organizam os capítulos sobre os descobrimentos é o do pioneirismo português. Além da capacidade estatal empreendedora que teima em ignorar a precariedade da organização administrativa da Coroa lusitana, os didáticos mostram a situação geográfica do Reino, na extremidade ocidental da Europa, voltado para o Atlântico, como um dos fatores que fizeram dos portugueses o primeiro povo europeu a ultrapassar as navegações mais próximas da costa. Charles Boxer rejeita o argumento da contigüidade com o Atlântico logo na introdução de O império marítimo português. Adverte o autor que a costa portuguesa não se presta naturalmente a bons portos e, aos que referem a tradição pesqueira como um facilitador da navegação que se iniciou no século XV, Boxer responde que os portugueses eram principalmente agricultores e que os pescadores eram uma pequeníssima parte da população reinol, cujas embarcações e arte de navegar em nada serviam ao que era empregado nas expedições oceânicas, onde era preciso contestar os ventos, desprezar as marés e afastar-se da costa. (BOXER, 2002: 27-28)

Dar relevo à questão do pioneirismo lusitano promove a idéia da "genialidade" daquele povo, enquanto os historiadores atualmente acentuam a internacionalidade das grandes navegações, enfatizando que as primeiras viagens oceânicas contaram com homens castelhanos, mercadores e financiadores da Península Itálica, navegadores e "cientistas" árabes, gente nascida em outros cantos do mundo e, principalmente, de variados segmentos sociais (GODINHO, s/d.: 57-152).

Luís Adão da Fonseca, em De Vasco a Cabral, expõe de modo bastante esclarecedor o movimento navegatório na virada do século XV para o XVI, construindo internacionalmente o cenário cultural, tecnológico, político e diplomático no qual se realizaram as expedições de Vasco da Gama em 1497 e 1502, e a de Cabral, em 1500. Conforme o autor, dentro e fora das fronteiras do Reino português fabricou-se um novo modelo europeu de navegação que já não era o mediterrânico, que até então respeitava os ventos e exigia que a embarcação estivesse próxima da terra para conseguir se localizar (FONSECA, 2001). Magalhães Godinho alerta para o fato de que não se tratava ainda de uma mentalidade científica, mas de uma "náutica prática sistemática", onde se confrontavam observação e mitos, onde se anotavam os ventos, as correntes e as funduras; pouco depois, por volta de 1480, viria a "náutica astronômica", extraída em grande parte dos conhecimentos judaico-muçulmanos (GODINHO, s/d.: 57-152).

Com a caravela portuguesa, que permitiu navegar prescindindo da direção determinada dos ventos, e com a bússola e o astrolábio, instrumentos com que os navegadores puderam se orientar mesmo distantes da costa, os europeus alcançaram os elementos centrais da tecnologia para navegar em mar alto. Ao que se acrescentou a instalação de artilharia a bordo, proporcionando a imposição de sua presença nos mares em que não fossem bem-vindos.

No final da década de 1470, as coroas de Portugal e de Castela acordavam, no Tratado de Alcáçovas-Toledo, que o Oceano Atlântico seria separado em duas áreas de influência: ao norte das Canárias, seria navegável por Castela, e ao sul deste arquipélago, ficaria sob controle lusitano. Para Adão da Fonseca, este tratado de 1479 revela uma nova visão de mar, pois pela primeira vez o oceano foi tomado como uma superfície geográfica a ser explorada e não somente como o espaço das rotas comerciais (FONSECA, 2001: 16).

Sabedores de que para atingir a região norte da Europa era preciso navegar dando uma volta para oeste, para não tomar de frente as grandes correntes ao longo da costa portuguesa, os navegadores acreditaram que o mesmo mecanismo regia o Atlântico na porção sul; desse modo, Bartolomeu Dias, em 1488, rumando para o sul da África, abriu um grande arco para oeste e, assim, pegou as correntes mais fracas no interior do oceano, dobrou o Cabo das Tormentas e adentrou o Oceano Índico. Ao passarem o cabo do sul da África, que então chamaram de Cabo da Boa Esperança, os navegadores consolidavam sua percepção do oceano, pois puderam navegar até o cabo quando apostaram na idéia de que o funcionamento oceânico no hemisfério sul seria o mesmo do norte, de maneira invertida. Adão da Fonseca afirma que a manobra navegatória deste português em 1488 tornou possível conceber o Atlântico "como um espaço unitário, com um funcionamento de tipo mecânico." (FONSECA, 2001: 16-ss).

Distante das noções de nacionalidade que os textos didáticos expõem, a internacionalidade da expansão marítima tem que ver, ainda, com a envergadura européia da dinastia que governava o Reino lusitano. Lembremos que a Casa Real tinha laços de família com outras dinastias da Europa, principalmente com a de Castela. Quando esses laços não estiveram estreitados na medida de seu interesse, a Coroa portuguesa empenhou-se para tanto, como o que se passou com os casamentos de D. Manuel (1495-1521), todos os três com mulheres da família real de Castela.

Este rei, chamado Venturoso, tinha ambições de anexação do Reino castelhano, conforme se vê pelo lugar que concedeu à Ordem de Santiago - milícia religiosa, cruzadista, de dimensão ibérica - nas expedições de Vasco da Gama e de Álvares Cabral, e pela construção em 1501 do Mosteiro dos Jerônimos - ordem eremita espanhola -, feito um monumento ibérico comemorativo das navegações. No encaminhamento de sua política expansionista, D. Manuel sempre marcou posição de modo a firmar as conquistas realizadas sob a bandeira portuguesa; mas, ao mesmo tempo, apresentava-as como empreendimentos em grande parte operados por gente de Castela. Assim, construía uma estratégia em que afirmava suas descobertas como virtualmente capazes de serem apresentadas como ibéricas (FONSECA, 2001: 44-54).

O panorama cultural e político mostrado pela historiografia faz ver que as expedições portuguesas da primeira centúria de expansão marítima - até as primeiras décadas do século XVI - não buscavam a conquista de terras recém-descobertas para Portugal, o que é comumente apresentado pelnos livros didáticos, implícita ou explicitamente. No imaginário daquele tempo, o espaço ignoto abrigava as maravilhas mágicas e o paraíso terrestre; era também o lugar de combater infiéis e o espaço oceânicano sobre o qual se poderiam viabilizar novas rotas comerciais para os produtos originários da África e do Oriente. Nesse emaranhado de fatores e agentes históricos, a dominação imperial ainda não tinha caráter territorial, não se afirmava sobre a posse de novas terras nas porções do planeta a serem descobertas. Contavam muito, entretanto, além das redes mercantis, o engrandecimento do rei que conseguia fincar alguns de seus súditos em pontos longínquos do mundo e a cruzada religiosa que levava a lutar contra os infiéis.

Tanto em Portugal como no Brasil da atualidade, frutificam os estudos acerca da origem social e da trajetória de vida dos que integraram o aparelho administrativo do Império ultramarino. João Paulo Oliveira e Costa, por meio de vastos quadros em que relaciona origem, estatuto - escudeiro, cavaleiro, fidalgo - e cargo administrativo - feitor, recebedor, juiz, almoxarife, escrivão, chanceler etc. - demonstra como a Coroa, ao longo do Quatrocentos, recrutou os membros da baixa nobreza para serem os oficiais do aparelho ultramarino e como este foi o grupo social que mais se beneficiou com a expansão. Para o historiador português, a expansão marítima foi uma das mais eficazes maneiras de garantir a reprodução da nobreza, que no século XV já não tinha as guerras com os vizinhos para atuar e não podia mais almejar a novos privilégios ou cargos em razão da dimensão do Reino lusitano; segundo o autor:

(...) A expansão veio alterar esta situação e permitiu que a nobreza mantivesse o seu modelo social e mental quase inalterado durante mais de século e meio; desfez-se, assim, o bloqueio que parecia que iria asfixiar este grupo social, o que foi possível porque milhares de nobres, desde escudeiros recém-nobilitados a fidalgos proeminentes e de velha cepa, aceitaram o risco de navegar e combater no exterior, passando muitas vezes longuíssimas temporadas fora do Reino. (COSTA, 2001: 89)

Os historiadores constroem um ambiente cultural para o tempo das grandes navegações em que são acolhidos os elementos medievais, fazendo com que os homens das grandes aventuras marítimas sejam vistos por nós, também, como cavaleiros, como cruzados (THOMAZ, 1994). Em vez disso, as obras didáticas realçam os traços que caracterizam a transformação para uma época moderna e impedem nossa compreensão do universo mental europeu do final do Quatrocentos e início do Quinhentos.

Boxer, mais uma vez, parece-nos apresentar uma síntese clara:

(...) os impulsos fundamentais por trás do que se conhece como a 'Era dos Descobrimentos' sem dúvida surgiram de uma mistura de fatores religiosos, econômicos, estratégicos e políticos, é claro que nem sempre dosados nas mesmas proporções.(...)" (BOXER, 2002: 33)

De acordo com o historiador britânico, os motivos principais que inspiraram os comerciantes, nobres, príncipes e reis portugueses foram, cronologicamente: "(...)1.o fervor empenhado na cruzada contra os muçulmanos; 2.o desejo de se apoderar do ouro da Guiné; 3.a procura de Preste João;; 4.a busca de especiarias orientais." (BOXER, 2002: 34).

Boa parte do material didático escrito na última década já menciona a multiplicidade de fatores que motivaram a expansão marítima. No entanto, apresentam-nos de modo a confluírem para o grande conjunto do "capitalismo nascente", ou seja, acima de tudo eram necessários os metais preciosos para que os mercados europeus continuassem a se desenvolver e para comprar as mercadorias orientais. Na memória que os estudantes carregam sobre o período, os impulsos religiosos são tratados mais como uma justificativa fingida para as conquistas ultramarinas do que uma experiência cultural verdadeira para os indivíduos do começo do período moderno. De maneira sutil, constrói-se para o aluno a idéia de que, ao findar do período medieval, era uma contradição ter, simultaneamente, metas econômico-financeiras e impulsos religiosos.

Se a expansão marítima não se constituiu na execução de uma política mercantil traçada pelo Estado português, ou ainda, na realização de um projeto colonial, isso não quer dizer que toda a expansão foi aventuresca, ao sabor do acaso, nem que todas as dezenas de expedições do Quatrocentos partiram na direção do desconhecido sem se preocupar com os riscos financeiros que corriam. Em meados do XV, a lucratividade proporcionada pelas viagens atlânticas fez com que os portugueses prosseguissem com a expansão; o comércio de ouro e de escravos que já se estabelecera com as regiões da costa ocidental africana permitia continuar na busca de novos caminhos para o Oriente. No retorno para as terras européias, os navegadores levavam as informações geográficas e as notícias que obtiveram acerca de oportunidades de comércio em localidades africanas um pouco mais ao sul de onde tinham chegado.
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Revista Historia - UNESP

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

RETRATO DA AMÉRICA QUANDO JOVEM (final)


RETRATO DA AMÉRICA QUANDO JOVEM*
Imagens e representações sobre o Novo Continente entre os séculos XVI e XVIII
Mary Lucy Murray Del Priore

Esta estranheza diante da distante diversidade, longe de favorecer o desabrochar de um olhar objetivo, revelou-se para a cristandade como o mais íntimo dos espelhos: aquele dos seus próprios desejos individuais e de seus sonhos coletivos.
Distante ou próximo, diz Nicole Pellegrin, o Outro é permanentemente aquele que está vestido de forma diversa. E isto em um tempo em que a veste, não contente de distinguir o animal do homem, torna-se também um costume e elemento fundamental de discriminação social e cultural. A representação da nudez dos americanos, ou a escolha de seus objetos vestimentares, reporta- se à influência da dupla herança, bíblica e mitificante, que estrutura, então, a cultura européia e cristã. Não é necessário lembraras quatro significações simbólicas que a teologia medieval emprestava à nudez (naturalis, temporalis, virtualis, criminalis) para explicar os julgamentos contraditórios sobre a nudez dos americanos estampada nas representações iconográficas dos mapas. A insistência e a ambivalência destes julgamentos são o fruto de uma obsessão onde coabitam tanto a idéia de uma nudez vergonhosa, devido ao impudor e à indigência, quanto aquela, motivada pelas descobertas greco-latinas no Renascimento, de uma nudez gloriosa, símbolo de inocência ou de humildade.
Entre o sonho da Idade de Ouro e o fantasma da besta brutal, a realidade dos costumes indígenas arriscava-se a fecundar o tema culturalmente valorizado na Europa, de corpos nus e
bem proporcionados, mas as escassas penas que cobriam as chamadas partes pudendas acabaram por introduzir uma irredutível deformidade e também uma uniformidade no despudor.
Numa época de releitura da Bíblia, devido às Reformas, poderiam seres marcados pelo pecado original andar nus sem infringir as leis de Deus? A quase nudez dos americanos não os aproximaria da seita herética adamita, condenada tanto por protestantes quanto por católicos?
As alegorias sobre a América e seus habitantes sublinhavam a parcimônia com que as informações chegavam à Europa. Ao visualizar sob formas sintéticas a aparência de sociedades
inteiras, elas colocam em evidência um sistema iconográfico que revela menos as diversas formas de viver dos vários grupos que povoavam o Novo Mundo do que os reduzidos estoques de imagens de que dispunham os ateliers de impressores entre os séculos XVI e XVII.
No imaginário ocidental o índio nu e emplumado reemerge no fim do século XVIII, depois de atravessar um purgatório de ballets à fantasia que pontilharam as suas aparições nas cortes européias no período anterior. Sua presença nas vinhetas e alegorias, todavia, não teve por finalidade fornecer, na sua totalidade, os materiais de um verdadeiro conhecimento do outro entre os séculos XVI e XVII. Evocando a bizarria humana, sua diferença trabalhava para a única Ciência digna deste nome, aquela que procurava encontrar, através das coisas, a vontade de Deus.
Uma vinheta num mapa de Josua Van Ende (1640) permite uma observação mais acurada do tipo de leitura que se fazia: gesticulando, uma fila de homens segue um índio que bate um tambor em direção a um pequeno santuário com uma abóbada arrendondada. Em seu interior, índios em transe oficiam diante de um ídolo que sustentava várias cabeças de animal.
Ao fundo, homens enterram um morto. A volta, mulheres acocoradas choram. A aldeia é constituída por palhoças arredondadas. Um guerreiro observa a cerimônia. Sentados sobre um banco rústico, selvagens conversam. Ao centro um homem está ajoelhado e de sua cabeça escorre matéria encefálica. O carrasco brande a borduna. Outro índio lança-se, arco em punho e
aljava nas costas, em direção a um grupo de selvagens. Estes estão avaliando a coragem de um prisioneiro que, embora amarrado pela cintura, atira uma pedra ao seu sacrificador. A golpes de
borduna e entre chuvas de flechas, selvagens guerreiam. Feridos agonizam pelo chão.
Ameríndios desmembram um morto e cada qual toma a sua parte. O escalpo desta vítima será retirado depois que um guerreiro enfiar-lhe uma flecha no ânus. Próximo à grelha, um homem agachado aviva o fogo, e todos à volta mastigam carne humana. A sombra de uma árvore, protegida por uma rede em dossel, América observa a cerimônia de canibalismo. Seus cabelos estão amarrados numa longa trança, colares de pérolas pendem de seu pescoço e tornozelos, nas costas uma capa curta de penas. Na mão direita segura o 'Iupã, maça cerimonial, reconhecível por pequenas penas fixadas na parte inferior do punho. A seus pés, o chão está juncado de diferentes capacetes e chapéus que representam as variadas nações que povoaram a América, somados a diversas armas e ornamentos de plumas e penas. Vê-se ainda um como através do qual os índios chamavam-se para a guerra e urna cabeça humana decapitada trespassada por duas flechas. Na mão esquerda, América traz seu arco. Seminua, está sentada sobre um gigantesco tatu.
A imagem permite a descoberta de um Outro absoluto. Aquele sobre cuja antropofagia Montaigne já tinha escrito. Nesta vinheta o ameríndio não é apenas aquele cuja aparência física, mores, vestes, vida social, religião não têm nenhum ponto comum com os cristãos da Europa.
Ele é definitivamente o Outro, cuja presença nem os antigos greco-latinos nem a Bíblia invocavam, diferentemente do africano e do asiático, velhos companheiros de comércio e de trocas. Nestes, o estranhamento ou a “barbárie”, a diferença e a “inferioridade” comportavam níveis conhecidos. O Outro americano, a despeito da bula Sublimis Deus de Paulo III, promulgada em 1537, conferindo-lhe o status de ser humano, estava na consciência comum e no imaginário coletivo europeu mais próximo da besta selvagem, por nutrir-se de carne humana. Contrariamente ao “bárbaro”, que a tradição humanista e a Antiguidade mediterrânica tinham de alguma maneira assimilado, conferindo-lhe um status no seio de uma dialética lingüística e sócio-cultural, o selvagem americano é o primitivo que vive no seio de uma natureza exuberante e virgem, ignorando as leis mais elementares da sociedade, sobretudo, da sociedade urbana, modelo europeu de sociedade e de sociabilidade. Ele não conhecia a comunidade familiar, era incapaz de falar ou empregar uma linguagem de comunicação, e, em resumo, melhor seria que constituísse um capítulo à parte, num livro de História Natural, de Mirabilias et Monstra ou de singularidades. O americano, do qual a alegoria da América é uma representação, faz jus ao texto simbólico e sintético do Atlas que Abraham Ortelius editou em 1568:


“Celle qui tout en bas sur la terre couchée
Toute nüe tu vois de plumettes coiffée
Ayant en l’une main le chef d'un homme mort
Et l'autre le baston, d'ont elle fait l'effort
Meurdrissant les humains d'une cruauté grande,
Les corps desquelz apres lui servent de viande;
Ayant dessus le front une pierre de pris,
Dont elle en a tout plein en sa terce et poupris,
Nous representons icy l’Amerique l'avare;
La gourmande par trop inhumaine et barbare
Les plumes sur son chef et gemmes sur son front,
Autour la greve encor des sonnettes en rond
Son tous les ornements dont elle se decore.
Ell’manie souvent l’arc et flesches encore,
Par lesquelles souloit les pouvres gens navrer,
Pour (comme je t’ay dit) desmembrer et manger
Puis, pleine de la chair des hommes, qu’en Ia chasse
Elle a prins et tuez, et de Ia chasse lasse'
S'en va dormir dessus un harnas estendu
A deuz arbres voisins, où elle 1’a pendu”


Nos textos escritos ou iconográficos observa-se o empobrecimento temporário que acompanhou os valores humanísticos no fim do Renascimento. A Igreja Católica, por seu turno, colocando as artes a serviço da moral e do dogma, ensejava que se lesse a nudez e a antropofagia americanas como mais uma razão para a catequese. A presença de tais representações na iconografia cartográfica era a prova lógica da existência de primitivismo nas terras do Novo Mundo, mas tais imagens sublinhavam também a energia retórica e o poder de legitimação conferido aos mapas na idade moderna. Figurado nas cartas geográficas, o ameríndio deixa de ser sujeito humano para constituir-se em objeto de saber europeu e cristão.
Sua nudez é aquela da fé e da lei. O olhar que lançam sobre ele é o de um colecionador de curiosidades. Na Wunderkammer que possuía Montaigne em seu Chateau, exibia-se uma invejável americana composta por redes, maças, bastões de ritmo e artefatos de penas.
A alegoria da América, o ameríndio e seus petrechos, depois de sofrerem a inevitável deformação dos quadros mentais europeus, saltam dos mapas para outras obras de arte.
Circulam na cultura do Velho Mundo associados à inferioridade técnica, à bestialização e, conseqüentemente, à escravidão. São sempre representados de acordo com os objetivos europeus de exploração e catequese. Michelangelo os insere no grupo do Juízo final pintado na Capela Sistina, próximo ao altar mor. É Fidelino Figueiredo quem descreve: “Um moço vigoroso levanta para os céus, isto é para o mundo da salvação, com toda a energia mas sem constrangimento no esforço dois homens etnicamente exóticos: um negro e um índio, este em hábito eclesiástico. Não lhes dá a mão diretamente, levanta-os pelo rosário a que eles se apegam, como náufragos se afincam no cabo que lhes estendem...”
Frans Francken, num quadro sobre a abdicação de Carlos V, retrata a alegoria da América de joelhos, entre tesouros e um tatu. Araras, papagaios e macacos freqüentam as “festas campestres” pintadas por Dirck Hals ou as gravuras de Jean de Mes. As faianças de Delft, ilustradas por autores anônimos, traziam africanos vestidos à americana. O luxo vestimentar aderiu às cores rutilantes, às plumas e aos rosários de pequenas conchas. Nume festa realizada por Luís XIV em junho de 1662, o Duque de Guise conduziu puma quadrilha de “americanos”, vestidos com peles e galhos de pau-brasil, trazendo às mãos pesadas e mortais bordunas. Israel Silvestre e François Chaveau, encarregados de transportar para gravuras coloridas com guache o famoso Carrousel que se formara, faz acompanhar os bizarros ameríndios por sátiros e um unicórnio, como se todos, indistintamente, pertencessem a uma terra imaginária.
Montaigne perguntava: “Ya-t-il rien de plus conforme a notre nature que d'aimer le changement et de se plaire à la diversité?”
A diversidade serviu para semear, nesta invisível paisagem de idéias que eram os mapas modernos, o retrato de uma América diferente, cuja diferença era sinônimo de perigo e estranhamento. Este “retrato da América quando jovem” foi pintado com traços e imagens que
procuravam convencer o leitor, cristalizando representações e ensinamentos polêmicos, discretos ou explícitos sobre o que seria o Novo Continente. Atrás de tais imagens, a cristandade européia projetava-se como superior, poderosa, remida pela fé e consagrada pelo avanço técnico. Longe da visão romântica que os pintou tio século XIX como se fossem feitos de “astros e éter”, os ameríndios são apreendidos, entre os séculos XVI e XV111, como inumanos, bárbaros, avaros e gulosos. A descoberta, a que se referia inicialmente um entusiástico La Popelinière, transformou-se através dos mapas e cartas geográficas num misto de espanto, desprezo e horror.


Bibliografia
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__________. 1987. As navegações e a sua projeção na ciência e na cultura. Lisboa, Gradiva.
BENASSAR, Bartolomé e BENASSAR, Lucile. 1991. 1492 - Un monde nouveau?. Paris, Perrin.
BROC, Numa. 1974. La géographie des philosophes - géographes et voyageurs français au XVllle siècle. Paris, Ophrys.
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DIAS, J. S. da Silva. 1973. Os descobrimentos e a problemática cultural do século XVI. Lisboa, Editorial Presença
CHARTIER, Roger. 1990. A história cultural entre práticas e representações. Lisboa, Difel.
ELLIOT, J. H. 1984. O Velho Mundo e o Novo 1492-1650. Lisboa, Editorial Querco.
FIGUEIREDO, Fidelino de. 1987.A épica portuguesa no século XVI. Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda.
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siècles. Paris, Macula.
LESTRINGANT, Frank. 1990. Le huguenot et le sauvage. Paris, Klincksieck.
LESTRINGANT, Frank.1991. L'atelier du cosmographe ou l'image du monde à Ia Renaissance. Paris, Albin Michel.

PELLEGRIN, Nicole. 1987. “Vêtements de peau(x) et de plumes: la nudité des indiens” in Voyager à la Renaissance, org. Ceard e Margolin, Paris, Maisonneuve & Larose.
TAILLEMITE, Étienne. 1987. Sur des mers inconnues. Paris, Gallimard.


Mary Del Priore é professora do Departamento de História da USP


Revista Estudos Históricos - CPDOC-FGV

RETRATO DA AMÉRICA QUANDO JOVEM* (parte 2)

RETRATO DA AMÉRICA QUANDO JOVEM*
Imagens e representações sobre o Novo Continente entre os séculos XVI e XVIII
Mary Lucy Murray Del Priore


Nesta perspectiva, observa-se também que desde o Renascimento uma nova convenção pictural somara-se à já tão utilizada iconografia das alegorias presente na cartografia. A América, como os outros continentes, surge personificada como urna mulher vestida de atributos e acompanhada de animais característicos do Novo Mundo. Assim, com variantes de detalhes que se revezam desde o século XVI, ela emerge num “décor” de árvores tropicais, paramentada com uma coroa, um cinto e um bracelete de penas. A seus pés jaz um tesouro, guardado por um jacaré, uma tartaruga, um tatu e papagaios. Suas armas são um arco, aljava e flechas. A noção de exotismo domina a representação da América como o índio no motivo do selvagem bárbaro, cruel, antropófago, ou o seu contrário, o homem em estado natural, o “bom selvagem” das Luzes. Este índio de convenção se prestará a inúmeras metamorfoses e será freqüentemente utilizado nas vinhetas ou cartouches dos mapas.
Observe-se que a descoberta da América trouxe, na sua esteira, a proliferação de um certo gênero literário: atlas, relações de viagens, cosmografias e mesmo coleções agrupando diferentes relatos de diversos viajantes nos quais emergia a experiência européia nas novas terras, mas também a visão própria da cultura ocidental na permanência de seu laço com o Novo Mundo e suas transformações. No interior desta literatura, tanto a gravura sobre madeira quanto aquela realizada em talho doce foi largamente utilizada para permitir uma maior riqueza de modelos ou de detalhes sobre os habitantes e os mores americanos. As duas diferentes técnicas não tinham senão o alvo de aprimorar o texto com imagens singulares deste vasto e aparentemente estranho mundo novo.
Antes que a América fosse descoberta, existia, contudo, um outro tipo de imagem e estampa de tema alegórico que representava as quatro estações, os quatro humores, as quatro virtudes cardeais etc. Esta forma de decoração de vinhetas era herdeira de tradições medievais. Santo Isidoro expusera o significado escondido dos números num tratado intitulado Liber Numerorum, e este tipo de especulação estendeuse a outros autores do período moderno. O número quatro era o dos evangelistas, dos elementos (água, ar, fogo, terra), dos quatro rios do Paraíso, dos quatro ventos, das quatro idades do homem, das quatro letras do nome de Adão.
Sete eram os dias da semana, os pecados mortais, as idades do mundo. Nos mapas modernos, esta tradição mantém-se incorporando também os quatro continentes. Willem Janszoon Blaeu, em seu Nova Totius Orbis Terrarum, utilizou vinhetas com os sete deuses gregos, as sete maravilhas, os quatro elementos e as quatro estações. Ortelius, no seu já mencionado Theatrum..., apresenta 70 mapas detalhados dos países dos quatro continentes, alérnde mapas sobre os quatro continentes e um mapa-múndi, todos alegoricamente decorados. Em 1668, Frederick de Wit recorreu às ilustrações de Rorneyrr de Hooghe para encheras vinhetas sobre os quatro elementos que adornariam um de seus mapas, e este artista, por sua vez, utiliza seminuas e arrendondadas figuras femininas que se espalham em campos de trigo, no céu entre anjos e pássaros, entre monstros, barcos e sereias no mar, e em meio ao fogo da guerra.
Os mapas publicados a partir do século XVI já trazem consigo a marca de um olhar característico sobre a América. Ainda presente em Pacheco Pereira ou Fontenau, o caldo do maravilhoso medieval confrontado com as realidades vai desaparecendo, e uma teoria humanista da pintura faz a sua transferência para a cartografia. Nela, o pressuposto fundamental é a imitação ideal da natureza humana em ação. A arte deveria exprimir uma verdade geral em detrimento do específico ou do local e, inspirada na literatura greco-romana, almejaria deleitar e instruir simultaneamente. Nesta linhagem é que, em 1630, Blau incorpora a seu Atlas a iconografia de povos que habitavam as terras americanas. Eram os Mexicani, os Rex e Regina Floridae, os Peruviani, os Brasiliani militates, entre outros. Seus corpos são desenhados com todas as características do classicismo humanista: a musculatura belamente torneada, os troncos escassamente vestidos, as fisionomias européias, os cocares, cintos e alguns mantos de penas, as crianças com ar angelical. No Theatre de la Guerre en Amerique telle qu'elle esta present possedée par les espagnols, Pierre Morder, em 1705, inclui cenas de mineração de ouro é índios vestidos com penas, apontando para os cofres cheios de moedas, barras de ouro e jóias, ofertando ao espectador-sonhador um retrato da rotina e da rota dos tesouros americanos. Ao fundo, um dado real: barcos ingleses e holandeses disparam tiros de canhão contra os espanhóis e franceses.

A visão de mundo passada através destas imagens e de outras tantas fundamenta-se num elogio ao presente e ao seu valor civilizacional. Por isso mesmo, os gravadores europeus permitem-se a tentativa de compatibilizar mundos diferentes. No mapa mais prolífico, editado no final do século XVII, Frederick de Wit mistura na América imagens naturalistas e tropicais:
caravanas, camelos e autoridades trajadas com turbantes orientais freqüentam a mesma cena que europeus enchapelados, portando cruzes e bandeiras, e negros africanos vestidos à americana. O jogo antropológico, como diria Luiz Felipe Barreto, faz-se no interior do espelho religioso, através do qual só se vê o Outro como o anticristão. O cristianismo é o denominador cultural europeu e, fora dele, só existem indícios do que possa anular o idílio anunciado pela Igreja ou pelos Estados conquistadores.
A iconografia nos mapas modernos coloca-se, assim, a serviço da legitimação moral de assuntos profanos, bem como dos dogmas cristãos. O não-cristão apresenta-se seminu para ser catequizado; o muçulmano, com cimitarra e turbante, devia ser convertido. Todo um conjunto de imagens extraídas do caleidoscópio eurocêntrico justificava a presença ocidental em terra americana. E tudo se justificava ao ser pintado na América. Até animais africanos, como antílopes e elefantes, aparecem nas cartas sobre a América. O fato é que uma leitura específica se fazia destas cartas. Uma leitura encorajada em nome da conveniência, da semelhança e, quando muito, da erudição.

A América e os americanos: “jóias maravilhosas feitas de astros e éter”?
Como já afirmamos, a alegoria passa a ser muito utilizada nos mapas modernos, pois ela permite recuperar uma enorme riqueza de detalhes, inserindo-se nesta matriz aquela da América. Pela presença de objetos emblemáticos (cachos de uvas, trigo, cornucópias), um tema tornava-se alegórico. O cristianismo, por exemplo, representava-se sob a forma de um castelo que devia ser defendido; armas, castelo-forte, navios figuravam em sua alegoria. Depois da descoberta do Novo Mundo, a Europa, identificada com o cristianismo, representava-se como o continente detentor de um formidável poder geopolítico em face da Ásia, da África e da América. A questão mais contundente a ser observada nas vinhetas alegóricas é a de como a cristandade ocidental se projetava e se representava nas suas relações com os outros continentes. Ou ainda, de como esta mesma cristandade apreendeu e representou o Outro por intermédio de alegorias.
Há três pontos que devem ser observados na cartografia para se ter uma idéia de como um discurso específico sobre a América e seus habitantes foi construído: a postura (de pé, sentada, deitada), a roupa (nudez, drapeado, saia, vestido) e os instrumentos (cetro, turíbulo, ramos, maça, cabeça decapitada). Todos estes elementos traduzem uma ordem hierárquica social, cultural e religiosa entre as distintas alegorias sobre os continentes.
Sempre apresentada de pé ou sentada, a Europa porta coroa, vestido longo, às vezes chapéu, coroa de flores ou capacete. Seus instrumentos são o cetro, a cornucópia da abundância, a esfera e a cruz, um touro e anuas.
A Ásia mostra-se de pé, com vestido, chapéu/turbante, trazendo nas mãos ramos de canela ou pimenta, turíbulo com especiarias, e acompanhada por um camelo.
Seminua, vestida com um drapeado ou uma saia, aparece a África. Ora porta um guarda-sol, ora um ramo, e está sempre secundada por crocodilos, elefantes ou leões. Sua posição é sentada ou deitada.

Quase sempre deitada, com a cabeça ornada de penas, trazendo sobre o corpo nu apenas um saiote e carregando um arco, flechas, uma maça, tendo aos pés um tatu ou um jacaré, apresenta-se a América.
A posição espacial que ocupa a imagem, valorizando ou não uma postura diferenciada, é denotativa da mensagem que se quer passar sobre o continente. Alongada ou deitada encontra-se a cultura considerada primitiva, ou seja, a América. De pé, as civilizadas Ásia e África; espiritualizada e reinante, símbolo da hegemonia geopolítica, a Europa.
A transformação de fibras vegetais, animais ou minerais denota, para cada alegoria, um estado de evolução técnica e uma organização social concretizada na vestimenta. Esta constitui-se num elemento emblemático distintivo de uma hegemonia cultural entre os povos representados. Em contraste com os vestidos luxuosos da Europa, ou sofisticados da Ásia, a América veste-se com plumas ou penas que a remetem ao aspecto arcaico do indivíduo primitivo coberto com peles de animais. Até o guarda-sol portado muitas vezes pela África tem um caráter de vestimenta suplementar contra as agressões exteriores que o saiote de plumas não possui.
Mesmo quando aparecem ambas seminuas, África e América apresentam diferenças cuja leitura esconde distintos sentidos. A América é pintada com seios pontudos, cintura curvilínea e o ventre achatado de uma donzela púbere e, portanto, infecunda. A África possui os seios pesados e é desenhada como uma mulher madura cujo potencial está em plena fruição ou desfrute. Esta sucessão de significantes na alegoria sobre a América testemunha a lenta digestão intelectual do traumatismo que foi para os europeus a descoberta do Novo Mundo.
Revista Estudos Históricos - CPDOC-FGV

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

RETRATO DA AMÉRICA QUANDO JOVEM* (parte 1)


RETRATO DA AMÉRICA QUANDO JOVEM*
Imagens e representações sobre o Novo Continente entre os séculos XVI e XVIII

Mary Lucy Murray Del Priore
“Voilà un monde qui ne peut estre remply que de toutes sortes de biens et choses tres excellentes; il ne faut que les decouvrir “. La Popelinière, Les trois Mondes, 1582

Desde o achamento da América, cada século exprimiu-se na percepção do Novo Continente através de uma visão de mundo que lhe era própria e específica. Sucedendo-se uma a outra, podemos, de início, identificar imagens da América como uma passagem para o Oriente-grande preocupação do século XVI - caminho, portanto, para a fonte de sonhadas riquezas referidas ao Eldorado. Esta imagem ligava-se a outra, igualmente cara ao Renascimento: aquela de uma Idade de Ouro onde vicejaria o estado natural que teria antecedido a Antiguidade. O século XVII é marcado por uma visão ao mesmo tempo missionária e colonial, fruto do desejo universal de conquista, mas também do poder absolutista de jovens Estados Modernos e da Igreja reformada. Na visão naturalista e científica do XVIII, os enciclopedistas associavam a relatividade religiosa com a noção de um homem originalmente puro, o “bom selvagem”, o que abriu as portas para o pré-romantismo. Já no início do XIX, a França, por exemplo, olhava a América através de uma visão de mundo que fez desabrochar uma sensibilidade romântica, na qual o exotismo teve um grande papel. Vejam-se os clássicos Atala, de Chateaubriand, ou Les Incas, de Marmontel, para ficar nos mais conhecidos.
Testemunha atenta destas variações na percepção do Novo Continente, o mapa e seus ornamentos apresenta-se como um alicerce cognitivo no qual se entrelaçam a imagem de positividade do próprio documento e a visão de mundo de que é portador e a partir da qual se funda a imagem do Outro. É importante o estudo do sentido das imagens nas vinhetas dos mapas para conhecer a representação dada pelo cartógrafo, somada àquela dada pelos indivíduos, grupos e sociedade que, ao contemplá-los, vêem aí uma paisagem real e outra, ideal.
* Sou grata a OEA e ao Governo da França pelo prêmio que me permitiu pesquisas na Bibliothèque Nationale de Paris, onde levantei o material cartográfico para este artigo.

Os mapas medievais, Mappae Mundi, reconhecidos como “cartes moralisées”, eram mais portadores de valores ideológicos do que repositórios. de fatos geográficos e históricos. Um saltério anônimo do século XIII, por exemplo, revelava a localização da muralha atrás da qual Alexandre o Grande prendera as hordas de Gog e Magog, trazia um catálogo de humanidades consideradas monstruosas e derivadas dos escritos de Solinus, bem como apontava a situação de Jerusalém e do Paraíso. Neste período, desenhavam-se distâncias de forma esquemática, e sábios religiosos copiavam, segundo a tradição, manuscritos e cartas geográficas transmitidas por gerações passadas. Os homens se interessavam muito pouco pela forma verdadeira da terra, enquanto a Igreja Católica incentivava os cartógrafos a retratarem-na como expressão artística e contemplativa de suas próprias idéias. Esta imagem “fechada” do mundo não foi jamais modificada pelos relatórios de religiosos que fizeram viagens de missões nas regiões longínquas, em particular na Ásia. Outras viagens foram necessárias até que este mundo se abrisse.
O Renascimento da cartografia foi grandemente determinado pelas descobertas geográficas. Estas, por sua vez, não foram obra do acaso. Estão ligadas ao desenvolvimento do comércio da época e à evolução de conhecimentos técnicos, como a descoberta da bússola, da orientação de ventos e correntes, o aperfeiçoamento da navegação marítima e a introdução de novos tipos de barcos, nos quais os marinheiros tinham mais esperanças de voltar ao porto.
Neste mesmo período, inicialmente na Itália e depois no resto da Europa, a imprensa começa a se impor, e sem ela é impossível pensar no desenvolvimento da cartografia. A xilogravura pertencia às técnicas gráficas mais antigas e foi, até meados do século XVI, a técnica principal para a fabricação de mapas. Neste setor de artes gráficas os alemães tinham a primazia, por serem mais artistas do que artesãos. Albrecht Dürer era um destes expoentes e, entre outros, destacou-se por suas cartas impressas à mão, ou por xilogravuras produzidas a cores.
O pensamento na Europa à época dos descobrimentos inseria-se numa concepção de História dominada pela idéia de que o Mediterrâneo e as partes orientais eram o centro de difusão em torno do qual se agrupava o mundo habitado. A multiplicação de civilizações exóticas conhecidas incentivou, todavia, analogias, e nelas, o sentido de contrastes, às vezes críticos, sobre temas comparativos como as representações antropomórficas ou as correspondências estabelecidas entre os ciclos históricos do Velho e do Novo Mundo. Neste contexto, os mapas e seus ornamentos acabaram por constituir-se mais numa invisível paisagem de idéias do que na descrição de um terreno tangível sobre o qual se destribuíam formas e direções. O Theatrum Orbis Terrarum, de Abraham Ortelius (1527-1548), é um bom exemplo desta maneira de pensar, uma vez que coloca em causa a visão aristotélica e ptolomaica do mundo sem que as crenças populares nem a prática marítima tenham sido transformadas. Nele, a viagem real e aquela do espírito se misturam, permitindo a coexistência de lendas e fatos, de mitos vividos como realidades e de verdades descritas como fabulosas. Aí, por exemplo, a ilha de Próspero é reconhecível pelo seu público, capaz de descobrir o real através do imaginário. Esta geografia fantástica, patrimônio que desde a Antiguidade era transmitido aos diversos autores, irrigava outros trabalhos igualmente importantes. Duarte Pacheco, no seu Esmeraldo de Situ Orbis, indica na região da Serra Leoa a existência de “homens selvagens a que os antigos chamavam de sátiros, todos cobertos de cabelos e cerdas tão ásperos quanto porcos”. A cosmografia de Jean de Fontenau (1559) explicita, por sua vez:
“Et au dedans de Ia terre, (Angola), y a des gens gui n'ont point de teste et est Ia teste dedans Ia poitrine, et tout le reste forme d'homme.” Iesin Ulsius, numa carta feita em 1599 sobre a América do Sul, ilustra-a com homens sem cabeça, amazonas, animais insólitos e antropófagos.
Tal era a beleza e a riqueza dos mapas impressos ao longo do século XVI que estes não satisfaziam a demanda crescente de tiragens novas. Destinados a um largo público,
somavam-se a eles as cosmografias acompanhadas por mapas executados em xilogravura, cujo objetivo era familiarizar ao máximo o leitor com fenômenos e eventos ali descritos.

Diálogos silenciosos entre o real e o sonho
O estudo dos ornamentos cartográficos permite acompanhar a trajetória de um inventário de variantes que, modificando tal figura ou tal imagem, traz sentidos novos à interpretação dos mapas modernos. Atrás de cada vinheta dissimula-se uma intenção polêmica, mais ou menos explícita ou escondida, que visa justificar, convencer ou sublinhar. As imagens nos ornamentos e vinhetas das cartas geográficas propõem ao leitor a corneta compreensão do texto e sua justa significação. Neste papel, elas são um lugar de memória cristalizando uma única representação, uma história, uma propaganda, um ensinamento. Ou bem, como sugere Roger Chartier, são construídas como uma figura moral, simbólica e analógica, que salva o sentido global do texto cartográfico de sofrer uma leitura descontínua e errática. Neste uso, portanto, envolvem adesão, produzem persuasão e crença, exprimindo, finalmente, a teoria da intelecção pela imaginação.

Revista Estudos Históricos - CPDOC - FGV

terça-feira, 24 de novembro de 2009

CRUZ QUE FALA


Chan Santa Cruz - 1850

Três longos anos de guerra índia em Iucatán. Mais de 150 mil mortos, 100 mil refugiados. A população se reduziu à metade.

Um dos capitães da rebelião, o mestiço José Maria Barrera, conduz os índiosaté uma gruta no mais remoto da selva. Ali o manancial oferece água fresca, à sombra de uma altíssima caioba. Da caioba nasceu uma pequena cruz que fala.
Diz a cruz em língua maia:

- Chegou o tempo de Iucatán se levantar. Eu a cada hora estou caindo, estão me machadando, estão me dando punhaladas, estão me dando pauladas. Eu ando por Iucatán para redimir meus índios amados....

A cruz tem o tamanho de um dedo. Os índios a vestem. Põem nela huipil e saia; a enfeitam com fios coloridos. Ela juntará os dispersos.

Reed, Nelson. La Guerra de Castas de Yucatán. México, Era, 1971.
Memórias do Fogo - Eduardo Galeano