Mostrando postagens com marcador Hannah Arendt. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Hannah Arendt. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

A banalidade do mal


"Há tempos nem os santos tem ao certo a medida da maldade" (Renato Russo)
 Mauro Sérgio Santos
O Julgamento de nuremberg, 1945

Hannah Arendt, pensadora judia nascida na Alemanha em 1906. Foi aluna dos filósofos Heidegger, Jaspers e Husserl. Fugindo do nazismo, exila-se nos EUA, onde permanece até o fim de sua vida, em 1975.

Na década de 1960, Arendt se oferece para cobrir o julgamento de um burocrata nazista chamado Eichmann, um dos responsáveis pela chamada solução final: a ideia de extermínio total dos judeus.

Esperava-se de Arendt, na condição de judia, uma reportagem emocional que desvelasse o monstro nazista. A autora, entretanto, no relato do julgamento surpreende a todos, demonstrando que Eichmann era, tão somente, um homem superficial: burocrata, pai de família que cumpria ordens sem reflexão e questionamento; e que tal superficialidade o leva a fazer parte de uma engrenagem produtora da barbaridade.

A filósofa defende que uma sociedade superficial facilmente produz o mal que se torna banal, corriqueiro, cotidiano, sem relevância. Um determinado sistema social imposto, como o regime nazista, foi capaz de gerar um comportamento mal em milhares de pessoas. O sistema leva pessoas comuns a praticarem a barbárie.

De Arendt até nossos dias, passamos da banalização do mal à sua glamourização. Nas produções cinematográficas e nas telenovelas, por exemplo, há uma inversão de valores das figuras em questão assimiladas pelos telespectadores, em face da superficialidade social. Frequentemente, o mocinho é apresentado como alguém insosso, inglório, sofredor. Ao passo que o vilão passa a ser o protagonista, o centro das atenções, bem-sucedido, bem-humorado etc. O herói, para ser popular, precisa ter, nesses enredos, certa dose de ironia e malícia sob a pena de ser ridicularizado e/ou negligenciado.

Mais grave ainda são os noticiári0 pseudo-investigativos que, como abutres, alimentam-se da carnificina alheia, da exposição da violência, da barbárie e do ridículo humano. Na busca desenfreada pela audiência de telespectadores, atuam como formadores de opinião na reprodução de discursos superficiais e, portanto de fácil assimilação. "Bandido bom é bandido morto". "Os Direitos Humanos só protegem bandidos". "As leis brasileiras são fracas." "Chegamos ao fim do mundo". "A pena de morte é a única alternativa" (...)

Discursos ultraconservadores em relação aos direitos humanos, "escatologias de botequim" marcadas por um pessimismo gratuito. Exposição exacerbada da violência como instrumento de catarse e entretenimento (sim, entretenimento!), propagação da intolerância em relação ao diferente. Fortalecimento do elitismo, do racismo, da homofobia, da discriminação.

O simplismo de tais discursos absorve as massas justamente porque é superficial e sem fundamentação. A prática do bem exige reflexão. O mal é fruto do tacanho e medíocre, da irreflexão.

"Meus heróis morreram de overdose. Meus inimigos estão no poder"
(Cazuza)
Por Mauro Sérgio Santos, bacharel e licenciado em Filosofia - Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais(PUC-MG); especialista em Educação Universidade Federal de São João Del Rei (UFSJ-MG); mestrando em Filosofia - Universidade Federal de Uberlândia (UFU-MG); Professor de Filosofia; membro da Academia de Letras e Artes de Araguari - MG; autor do livro Camaleão: metapoesia.
Revista Leituras da História

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Violência e banalidade do mal

Oficial nazista e seus auxiliares descansam no campo de concentração de Auschwitz,indiferentes ao massacre dos judeus e aos maus-tratos impostos aos prisioneiros

Violência e banalidade do mal
14 de março de 2010

Em Arendt, o problema do mal é abordado por uma perspectiva política e não moral ou religiosa
Odílio Alves Aguiar
Jerome Kohn, assistente de ensino e intérprete de Hannah Arendt, escreveu que o problema do mal é o principal eixo argumentativo a atravessar toda a reflexão político-filosófica arendtiana. A base da reflexão da pensadora é a experiência totalitária. Ao ligar essa experiência ao mal, Hannah Arendt apontou o paroxismo da violência perpetrada pelos governos totalitários e mostrou a insuficiência das teorias e categorias científicas, econômicas e políticas tradicionais para captar e explicar a novidade do que estava acontecendo. O domínio total é mais opressor que a escravidão e a tirania, é mais destruidor que a miséria econômica e o expansionismo territorial. O controle total pretende atingir e capturar os humanos; adota, como critério de legitimidade governamental, a redução dos homens a seres naturais. O recurso à categoria do mal é uma forma de tentar compreender o inexplicável e visa aproximar-se reflexivamente da primeira tentativa de constituição de uma forma de governo, no Ocidente, baseada na purificação e no extermínio dos seres humanos. Trata-se, assim, de pensar o mal nas sociedades secularizadas sem apelar ao teor teológico-religioso.
O tema do mal, em Arendt, não tem como pano de fundo a malignidade, a perversão ou o pecado humano. A novidade da sua reflexão reside justamente em evidenciar que os seres humanos podem realizar ações inimagináveis, do ponto de vista da destruição e da morte, sem qualquer motivação maligna. O pano de fundo do exame da questão, em Arendt, é o processo de naturalização da sociedade e de artificialização da natureza ocorrido com a massificação, a industrialização e a tecnificação das decisões e das organizações humanas na contemporaneidade. O mal é abordado, desse modo, na perspectiva ético-política e não na visão moral ou religiosa.
Faz-se necessário esclarecer, antes de avançarmos, que Hannah Arendt nunca sistematizou suas reflexões sobre o assunto. Colhemos os elementos do seu ponto de vista nas seguintes obras: Origens do totalitarismo (1951), Eichmann em Jerusalém (1963), A vida do espírito (1971) e em outros textos publicados postumamente. Essa bibliografia está muito bem articulada no livro de Nádia Souki intitulado Hannah Arendt e a banalidade do mal (Ed. UFMG).
Contingência do mal
Em Origens, o tema aparece no cotejamento e prolongamento da reflexão kantiana sobre o mal radical. Kant percebeu que o mal pode ter origem não nos instintos ou na natureza pecaminosa do homem e, sim, nas faculdades racionais que o fazem livre. Dessa forma, o mal não possui dimensão ontológica, mas contingencial. Ele acontece a partir da interação e da reação das faculdades espirituais humanas às suas circunstâncias. O mal radical, em Kant, é uma espécie de rejeição consciente ao bem e está atrelado, ainda, ao uso dos homens como meios, instrumentos, e não fim em si mesmo. Arendt retém esse aspecto da reflexão kantiana, acrescentando-lhe a dimensão histórico-política do seu próprio tempo. Nela, o radicalismo vai relacionar-se à novidade e ao assombro diante das informações chegadas às suas mãos nos Estados Unidos, em 1943, sobre Auschwitz. Ela associou o mal radical aos campos de concentração, base de sustentação da nova forma de governo em gestação. Isso faz o assunto ultrapassar a questão judaica, embora seja incompreensível sem ela. Holocausto é pouco para captar o que surgiu, pois não se trata apenas da execução de judeus. Esse algo a mais faz sua obra dizer coisas relevantes para todos nós. O mal radical está associado ao totalitarismo, organização governamental e sistemática da vida dos homens prescindindo do discurso e da ação, considerando-os meros animais, controláveis e descartáveis. É uma forma de governar sustentada, explicitamente, no pressuposto do extermínio de setores da população e não apenas na sua opressão ou instrumentalização. Isso não diz respeito apenas à exclusão sócio-política do criminoso, nem à eliminação do opositor ou inimigo, mas a atualização da lógica da descartabilidade humana inerente àquelas formas de governo.
Ao considerar a população apenas do ponto de vista biológico, laborante, o governo total tratou de eliminar qualquer instituição ou vínculo humano que pudesse dar abrigo à solidariedade, à ação e à diferenciação entre os indivíduos. Destruindo o mundo comum (partidos, família, arte, religiões, sindicatos, justiça e outras formas de organização), no qual as pessoas poderiam ser amparadas e respeitadas, os governos totalitários constituíram-se baseados na propaganda, na espetacularização, na atomização, na solidão, na padronização, na coletivização das massas e na redução do homem a animal, ocupado exclusivamente com a sua reprodução biológica. Os regimes totais conceberam os homens apenas como seres vivos e prolongaram esse critério na escolha dos merecedores da vida. O grande temor, presente nos textos da pensadora, é que o extermínio, a nova terapia contra os humanos considerados impuros e indignos, inerente aos governos totalitários, viesse a constituir-se em elemento imanente aos governos e sociedades contemporâneas. Isso levou Arendt a afirmar: “talvez os verdadeiros transes do nosso tempo somente venham a assumir a sua forma autêntica – embora não necessariamente a mais cruel – quando o totalitarismo pertencer ao passado”.
Cumprir o seu dever
A questão do mal retorna, em Arendt, quando ela aceita o convite de uma revista americana para fazer a cobertura do julgamento de Eichmann ocorrido em Jerusalém, em 1962. As questões jurídicas e filosóficas envolvidas nesse caso foram muito bem debatidas no livro Justiça em tempos sombrios de Christina Ribas (Ed. UEPG). Se, ao mal radical, Arendt associa o surgimento e a prática da violência extremada e sistemática contra setores da população por parte de uma nova forma de governo, ao mal banal, ela vai relacionar a prática dos agentes encarregados de executar as ordens governamentais. Quem foi Eichmann? Trata-se do principal responsável pelo envio dos judeus aos campos de concentração. Em todos os relatos de Arendt, verificamos uma profunda perplexidade com a forma de Eichmann falar das suas atividades como carrasco nazista. Ele usava clichês, palavras de ordens e a moral da obrigação do bom funcionário para justificar o seu comportamento. Para ele, em nenhum momento, podia ser enquadrado como criminoso, pois apenas cumpria a sua obrigação, o seu dever. Eichmann era um ser humano normal, bom pai de família, não possuía nenhum ódio ao povo judeu e não era motivado por uma vontade de transgredir ou por qualquer outro tipo de maldade. No entanto, viabilizou o assassinato de milhões de pessoas. Foi justamente isso que levou Arendt a usar o termo banalidade do mal. Estamos diante de um tipo de mal sem relação com a maldade, uma patologia ou uma convicção ideológica. Trata-se do mal como causa do mal, pois não tem outro fundamento. O praticante do mal banal não conhece a culpa. Ele age semelhante a uma engrenagem maquínica do mal. O mal banal parece ser um fungo, cresce e se espalha como causa de si mesmo, sem raiz alguma e atinge contingentes enormes das populações humanas em diversos lugares da terra.
A pergunta de Arendt, ao se deparar com os depoimentos de Eichmann, foi: “o que faz um ser humano normal realizar os crimes mais atrozes como se não estivesse fazendo nada demais?” A resposta está no mal banal. Trata-se de uma prática do mal promissora nas sociedades massificadas, possuidoras de organizações econômicas, políticas e sociais potentes, nas quais os seres humanos tendem a se sentir sem poder, solitários, submissos e quase condicionados. Vivendo apenas como animal laborante, os homens tecnificam e burocratizam as suas obrigações e se tornam, desse modo, incapazes de pensar as conseqüências das ordens dadas pelos seus superiores ou grupos. Eichmann, segundo Arendt, agiu igual ao cão de Pavlov, que foi condicionado a salivar mesmo sem ter fome. Ele não praticou o mal motivado pela ambição, ódio ou doença psíquica. Nada disso foi encontrado em Eichmann. A única coisa que chamou atenção de Arendt foi a sua incapacidade de pensar. Ao renunciar ao pensamento, Eichmann destituiu-se da condição de ser dotado de espírito que lhe possibilitaria o descondicionamento e, assim, dizer: não, isso eu não posso.
O mal como renúncia à capacidade de julgar
O mal banal caracteriza-se pela ausência do pensamento. Essa ausência provoca a privação de responsabilidade. O praticante do mal banal submete-se de tal forma a uma lógica externa que não enxerga a sua responsabilidade nos atos que pratica. Age como mera engrenagem. Não se interroga sobre o sentido da sua ação ou dos acontecimentos ao seu redor. Buscar o sentido não é apenas se informar, não é algo da ordem do conhecimento nem da aferição da eficácia. Trata-se de medir e buscar a estatura do que está acontecendo a partir do crivo da dignificação dos envolvidos. Quem pensa resiste à pratica do mal. A busca da significação encontra muita dificuldade quando a pressa, os mecanismos e procedimentos técnicos, burocráticos e os processos econômicos auto-propelidos engolfam tudo. O praticante do mal banal renuncia à capacidade pertencente aos humanos de mudar o curso das ações rotineiras através do exercício da vontade própria. Repete heteronomamente o seu comportamento. Não se reconhece dotado de vontade, capaz de iniciar, fundar e começar. Ele também não exercita a habilidade, peculiar aos homens, de falar e comunicar o que está vendo e sentindo. Vive sem compartilhar o mundo com os outros. Renuncia, desse modo, à faculdade do julgamento. Em suma, recusa-se a viver com os dons provenientes das suas faculdades espirituais: pensar, querer e julgar.
Ao relacionar o mal ao vazio reflexivo, Arendt aponta para uma possível compreensão da violência nas sociedades contemporâneas. Nessas sociedades, o mal realiza-se na banalidade, na injustiça e nas radicais práticas de violência contra apátridas, imigrantes, mulheres, desempregados, índios, negros, crianças, idosos e a natureza.
A partir dessas teses, vemos emergir, na autora, formas de contraposição ao mal radical e ao mal banal. Na primeira, a autora propõe a recuperação da política, do mundo comum, principalmente, em A condição humana (1958); na segunda, aponta a retomada da dimensão ética em A vida do espírito (1971). Pensar, julgar e querer desembocam no cuidado com o mundo comum, no amor mundi, para usar a terminologia de Arendt, no respeito aos espaços onde os homens podem circular e se sentirem amparados pela presença dos iguais e dos diferentes. Nesse mundo comum os homens mostram que nasceram para começar e não para morrer.

Revista CULT

Pensar e agir em tempos sombrios

Pensar e agir em tempos sombrios
14 de março de 2010
Nem liberal, nem marxista ou conservador, o traço do pensamento arendtiano assumiu a insígnia do amor mundi, do amor pelo mundo
André Duarte
Hannah Arendt nasceu em Linden, subúrbio de Hannover, Alemanha, no dia 14 de outubro de 1906. Sua infância transcorreu em meio à classe média judaica assimilada e profundamente mesclada à cultura alemã. Apesar de protegida do anti-semitismo pelo ambiente familiar, desde pequena Arendt sentia-se diferente das outras crianças. Já adulta, costumava referir-se a si própria citando um poema de Schiller (1759-1805), Das Mädchen aus der Fremde, a menina vinda do estrangeiro, do desconhecido. Esse contínuo sentimento de estranhamento a levou a pensar que apenas os parias conscientes de sua diferença representam a verdadeira humanidade, de maneira que a condição primeira de todo intelectual deveria ser o inconformismo social.
Aos 18 anos, decidiu cursar filosofia e foi então que conheceu pessoalmente Heidegger, na Universidade de Marburg. O encontro foi fulminante e os dois se apaixonaram, envolvendo-se numa relação amorosa secreta e impossível. Com a ascensão dos nazistas ao poder em 1933, Arendt abandonou a filosofia e engajou-se no grupo sionista liderado por um antigo conhecido de sua família, Kurt Blumenfeld. Em pouco tempo, foi presa e teve de fugir do país, sem documentos, rumo a Paris. Lá, tornou-se amiga de Walter Benjamin e de outros refugiados alemães, em sua maioria judeus e comunistas, entre os quais conheceu Heinrich Blücher (1899-1970), com quem viveria até a morte dele.
Apátrida
Superadas as dificuldades de adaptação após sua chegada aos Estados Unidos em 1941, como exilada e apátrida, Arendt começou a elaborar As origens do totalitarismo. Nesse livro de 1951, atesta-se o impressionante esforço intelectual de Arendt para compreender o incompreensível, fazendo de seu próprio destino uma história na qual as análises do anti-semitismo e do imperialismo culminam na investigação do totalitarismo. A análise arendtiana dos governos totalitários se tornou célebre ao propor a seguinte tese: a de que o nazismo e o stalinismo, a despeito de inúmeras e importantes diferenças entre si, constituíam variantes de uma mesma forma de dominação sem precedentes históricos.
Para Arendt, o totalitarismo não poderia ser comparado a outras formas de dominação já conhecidas e catalogadas pela filosofia política, como tiranias, despotismos ou ditaduras, das quais ele não seria apenas uma versão mais violenta. Arendt compreendeu que em sua pretensão de subordinar a liberdade humana e a totalidade da vida privada, social e política aos seus imperativos ideológicos, os governos totalitários não deixavam de pautar suas ações pelas leis que promulgavam, isto é, não pretendiam governar para além dos limites da lei. Antes, o totalitarismo altera radicalmente o próprio conceito tradicional de lei ao compreendê-la em termos das leis gerais de desenvolvimento da Natureza ou da História, extraindo-se desse suposto fundamento incontestável a própria legislação positiva.
Arendt também descobriu que os dois pilares de sustentação dos regimes totalitários são o terror e a ideologia, os quais se articulam de maneira complementar: ao mesmo tempo em que a ideologia justifica e demonstra a necessidade do emprego da violência terrorista contra todos os que estorvam o desenvolvimento histórico das classes sociais progressistas ou o desenvolvimento natural das raças mais evoluídas, é também por meio do terror que se criam e se reproduzem as condições sociais e políticas que, em concordância com a ideologia totalitária, transformam os supostos inimigos do regime em seres humanos degradados e perigosos, os quais precisam ser aniquilados. Por isso, as principais instituições dos governos totalitários são fábricas da morte, os campos de concentração e extermínio nos quais se testa a possibilidade de reduzir os seres humanos à condição da vida nua e supérflua que pode ser eliminada sem mais.
Crítica à divisão esquerda-direita
Ao confrontar-se com os horrores da dominação totalitária, Arendt descobriu que as questões políticas cruciais do presente não mais podiam elucidar-se por meio do recurso a conceitos tradicionais como esquerda ou direita e, desde então, manteve uma atitude crítica em relação à tradição do pensamento filosófico-político ocidental. Nem liberal, nem marxista ou conservador, o traço característico do pensamento arendtiano assumiu a insígnia do amor mundi, amor pelo mundo. Essa foi a perspectiva teórica a partir da qual Arendt deu início à compreensão dos desvarios políticos de nosso tempo, o absurdo totalitário e o fenômeno da moderna despolitização liberal-tecnocrática. Para Arendt, o século 20 testemunhou o obscurecimento da experiência democrática radical, caracterizada pelo envolvimento coletivo dos cidadãos nas questões políticas por meio de seus atos e palavras, tanto em função da burocratização e do crescente emprego da violência por parte do Estado, elevado ao paroxismo no fenômeno totalitário, quanto em função do processo histórico de privatização do espaço público, isto é, pela sua transformação estrutural no espaço social das trocas econômicas de uma sociedade constituída por indivíduos reduzidos à função de trabalhadores-consumidores. Tal fenômeno acarretou a crescente perda de autonomia do político em relação ao âmbito das necessidades econômicas e seus imperativos estratégicos e privatizantes.
Por certo, Arendt jamais afirmou que totalitarismo e democracia liberal fossem idênticos. O problema é que a novidade totalitária só foi possível na medida em que ali se radicalizaram e se cristalizaram elementos históricos e sociais próprios da modernidade tardia, os quais também são comuns às democracias liberais parlamentares de massa e mercado, tais como: racismo, xenofobia, apatia política decorrente do processo de isolamento dos cidadãos, atomização e massificação dos indivíduos, imperialismo econômico, emprego da mentira e da violência para a ‘resolução’ de conflitos, multiplicação das minorias, dos apátridas e refugiados, crescente superfluidade de massas humanas desprovidas de cidadania e de ocupação social digna, etc. Se no totalitarismo a liberdade fora totalmente aniquilada, nas democracias liberais representativas, fundadas no sistema de partidos políticos, a liberdade tenderia a se restringir ao mínimo instante do voto.
Busca do novo no passado
Tais dilemas ainda se fazem acompanhar pela transformação histórica do próprio espaço público em um livre mercado de trocas econômicas destinadas ao incremento e manutenção das necessidades vitais do homem contemporâneo. A tese arendtiana é a de que a partir do século 19 cada vez mais a política foi sobredeterminada por interesses sócio-econômicos privados e pelo saber técnico e burocrático que transformou o político num tecnocrata. Sob o impacto dessas transformações históricas, operou-se a liberação e a promoção da vida e da felicidade do animal laborans, isto é, o homem reduzido ao seu papel de produtor-consumidor, ao estatuto de valores e ideais políticos inquestionáveis. Para a autora, o problema residia em que os ideais mais caros do animal laborans, isto é, os ideais da abundância e do consumo desenfreado, do crescimento ilimitado, da contínua acumulação da riqueza a qualquer preço reduzem a humanidade ao ciclo repetitivo do seu próprio funcionamento vital, ao mesmo tempo em que impõem o esgarçamento das possibilidades políticas genuinamente democráticas e não violentas.
Face a esse diagnóstico sombrio, tanto em A condição humana quanto nos demais textos da segunda metade dos anos 1950 e dos anos 1960, Arendt dedicou-se a pensar o sentido das experiências políticas genuínas e originárias da polis e da res publica romana, que a tradição filosófica teria legado ao esquecimento. Ao desenvolver uma inovadora fenomenologia da liberdade, da ação política e do espaço público, Arendt procurou trazer à luz do presente as determinações democráticas e republicanas essenciais da política. No entanto, não se tratava de retornar ao passado para transformá-lo em modelo a ser repetido no presente, pois o que ela buscava na história não era algo pretérito ou já reconhecido enquanto tal. Pelo contrário, ela buscava no passado algo novo, isto é, um conjunto de experiências políticas voltadas para a felicidade pública e para o prazer da ação e do discurso em comum, experiências com as quais ela poderia iluminar o significado de certas manifestações políticas da modernidade e do nosso tempo. Não por acaso ela se interessou pelo fenômeno revolucionário, entendendo-o como uma série de repetidas tentativas populares para restabelecer formas participativas de envolvimento dos cidadãos na política. A insurreição húngara de 1956, em particular, pareceu-lhe reveladora: contra o poder opressivo da polícia e da burocracia soviética, o povo organizou-se em conselhos autônomos e tentou revolucionar as estruturas de poder vigentes, sendo, contudo, massacrado com violência.
Entre o poder constituinte e o poder constituído
Em Sobre a revolução, de 1963, Arendt refletiu sobre as diferenças entre as revoluções russa, francesa e americana, enxergando provocativamente nesta última o intento mais bem acabado do projeto revolucionário, a fundação de um novo espaço público orientado por uma constituição consensualmente pactuada. Daí também adveio seu interesse pelos movimentos políticos de defesa e ampliação dos direitos civis, bem como pela desobediência civil, tema de um importante ensaio publicado na coletânea Crises da república, de 1969, na qual ela também discutiu os fenômenos da violência contemporânea na política, da guerra do Vietnã e da proliferação da mentira na política. Sem ser uma ativista política, Arendt engajou seu pensamento na tarefa de compreender a crise política da modernidade, ao mesmo tempo em que buscava as brechas que poderiam revolucionar a política do presente. O problema com o qual Arendt se enfrenta em suas investigações dos eventos políticos genuínos da modernidade e do presente é o de como articular o poder constituinte, gerado por meio das ações e palavras dos cidadãos, e o poder constituído, que precisa se cristalizar em determinadas estruturas jurídico-políticas que garantam a estabilidade e a renovação do corpo político por meio do exercício coletivo da liberdade participativa. Seu pensamento político procura encontrar uma delicada solução de continuidade entre poder constituinte e poder constituído, entre as instâncias do político e do jurídico, entre democracia radical e democracia representativa, em suma, entre a criatividade imprevisível da ação política e a necessidade de se estabelecer limites normativos de caráter político, que detenham a disseminação da violência e da arbitrariedade sem domesticar a originalidade intrínseca de toda ação política genuinamente democrática.
Eros da amizade
Sua última obra, A vida do espírito, deixada incompleta por motivo de sua morte em 4 de dezembro de 1975, testemunha seu contínuo interesse pela interface entre filosofia e política. Neste livro publicado postumamente, Arendt analisou as atividades do pensar, do querer e do julgar, ao mesmo tempo em que discutiu suas implicações éticas e políticas. A despeito do volume sobre o Juízo não ter sido escrito, restaram, contudo, as notas do seminário proferido na New School for Social Research em 1970, em que Arendt propunha a inventiva e polêmica tese de que a filosofia política de Kant deveria ser buscada na sua análise do juízo reflexionante estético da Crítica do juízo. O pensar ao qual Arendt se refere não se confunde com especulações teóricas, pois é uma atividade dedicada à busca do sentido, da compreensão e reconciliação com o mundo. Enquanto busca do significado, tal pensamento é um diálogo silencioso entre eu e mim mesmo. Quando interrompo minhas ações no mundo e, a sós, paro para pensar minha conduta e julgar os eventos do mundo, não me encontro efetivamente sozinho. Quando penso, estou na companhia do amigo que me habita, do outro que trago junto a mim e com o qual estabeleço um diálogo silencioso; quando julgo, me encontro na companhia de todos os demais cuja posição eu possa representar por meio de minha imaginação. Em outros termos, ao pensar e julgar reconhecemos implicitamente a pluralidade humana que constitui a própria lei da Terra.
No elogio fúnebre prestado à amiga, o filósofo Hans Jonas (1903-1993) recordou que Hannah Arendt fora agraciada não apenas com uma inteligência excepcional, mas também pelo Eros da amizade, pois tinha o dom de reunir e associar aqueles que estivessem à sua volta.

Revista Cult

Arendt e o totalitarismo


Arendt e o totalitarismo
14 de março de 2010

Os estudos sobre o totalitarismo esclarecem a face trágica do século 20 e os desafios das democracias no século 21
Newton Bignotto
Hannah Arendt começou a escrever As origens do totalitarismo logo depois da guerra. Após sua chegada aos Estados Unidos em 1941, ela se dedicou, sobretudo, às questões ligadas à situação dos judeus, colaborando com várias revistas ligadas aos imigrantes europeus e participando intensamente dos debates travados por intelectuais que haviam sido obrigados a fugir de seus países de origem. A descoberta das atrocidades nazistas nos campos de extermínio conduziu-a, no entanto, aos problemas que estariam no centro de seu pensamento nos próximos anos. A obra testemunha um mergulho apaixonado na cena contemporânea e o desejo de pensar o que parecia impensável: o surgimento de estruturas de poder voltadas para uma forma total de dominação, que não se detêm nem mesmo diante da tarefa monstruosa de eliminar populações inteiras, para fazer triunfar idéias abstratas e crenças na superioridade de raças e de ideologias. A leitura do livro é ainda hoje uma experiência fascinante.
As duas partes iniciais do livro, dedicadas ao anti-semitismo, como fenômeno político, e ao imperialismo, como resultante do desenvolvimento da lógica de expansão do Estado-nação, misturam literatura, história, sociologia e economia, num esforço gigantesco para explorar os desvãos de uma época que colocou a violência no centro da política. Essa é uma das intuições geniais do texto. Ao estudar a formação e a decadência dos projetos nacionais e de suas extensões imperialistas, Arendt mostra como a experiência totalitária não surgiu como o produto da loucura de poucos, mas sim como uma possibilidade inscrita na lógica de sistemas de dominação que não hesitaram em fazer de diferenças étnicas e de classe o motor para um processo de exclusão e domínio cujos resultados desastrosos marcaram o último século.
Terra de ninguém e totalitarismo
Uma das análises mais fecundas de Arendt, que conserva uma grande atualidade, é aquela do tema dos apátridas. Tendo vivido a experiência de ser jogada no mundo sem lastro ou referência de identidade nacional, quando vagou pela Europa entre 1933 e 1941, e depois quando permaneceu sem a cidadania americana por alguns anos, ela soube fazer dessa questão um tema universal, cujas conseqüências chegam até nós. O fato de que o mundo passou a conviver com milhões de pessoas rejeitadas, sem ter um estatuto legal definido, é ao mesmo tempo uma das conseqüências da política contemporânea, que resultou na criação dos regimes totalitários, e uma de suas heranças. Ainda hoje, a figura de cidadãos sem direitos em países ditos democráticos é um alerta quanto aos riscos que corremos ao aceitar dividir o mundo entre os que têm direitos e os que vivem numa terra de ninguém onde todos os excessos são possíveis. A recente legislação européia, que permite manter presos, por até dezoito meses, indivíduos destinados à expulsão, mas que não foram julgados, assim como os campos de prisioneiros americanos, situados fora de seu território, demonstram a sobrevivência dessa terra de ninguém, para a qual são mandados os que não podem se beneficiar da proteção integral das leis vigentes nos diversos países.
Para medir o alcance dessas observações, devemos nos reportar à terceira parte de As origens do totalitarismo que, com suas análises apaixonadas e profundas, contribuiu para fazer dele um dos clássicos do pensamento político contemporâneo. O conceito de totalitarismo não foi forjado por Arendt. Já na segunda década do século 20, a palavra aparecia associada ao regime dominado por Mussolini, mas foi, sobretudo, a partir dos anos 1930, no período de ascensão e consolidação do nazismo, que o conceito ganhou forma e apareceu em estudos, como os de Raymond Aron ou de Franz Neumann, -dedi-cados a compreender as experiências ameaçadoras que ganhavam corpo na Europa. Não resta dúvida, no entanto, de que o livro de Arendt contribuiu em muito para a propagação do termo junto aos estudiosos, que se dedicaram a entender a natureza do fenômeno, que produziu uma tragédia sem precedentes na história da humanidade. Acrescia a isso, o fato de que para a pensadora o regime que vigorava na então União Soviética continha os mesmos traços fundamentais do fascismo italiano e do nazismo. Sem desconhecer as diferenças entre a experiência dos diversos países, Arendt acreditava que podíamos nos servir do conceito de totalitarismo para abordar os problemas resultantes de um regime que destruía o terreno da política e fazia do terror uma forma central do relacionamento do Estado como seus cidadãos. Mais que isso, ela mostrava que o totalitarismo era o produto de um século que havia jogado por terra as antigas teorias políticas, tornando obsoletos conceitos que antes orientavam os que se ocupavam das questões de governo e de suas formas. Uma nova barbárie havia sido gestada por um regime sem comparação com aqueles conhecidos pela tradição.
Críticas
A grande repercussão dos escritos de Arendt foi acompanhada, nos anos que se seguiram à sua publicação, por uma avalanche de críticas. Em primeiro lugar, os escritores formados na tradição marxista recusaram a aproximação do nazismo com o comunismo soviético. Para eles, havia semelhanças entre o período dominado por Stalin e o nazismo, mas essa aproximação não levava em conta os objetivos específicos de cada regime. No caso do comunismo, o fato de que ele buscava implantar uma sociedade melhor e mais igual pareceu uma razão suficiente para recusar a aproximação com outros regimes, mesmo quando se reconheciam os excessos cometidos em um período determinado da história soviética. No contexto da Guerra fria, muitos opositores da tese totalitária viam na aproximação entre os regimes nazista e comunista uma maneira de levar a cabo a luta entre os dois blocos opostos no terreno da ideologia.
Um outro conjunto de críticas veio dos historiadores, que se ocuparam tanto do fascismo e do nazismo quanto do comunismo. Para eles, o conceito de totalitarismo não precisava ser inteiramente deixado de lado, mas ajudava pouco quando se tratava de estudar no detalhe a evolução das sociedades, que viveram as experiências limites do século 20. Diante dos caminhos diferentes que seguiram o fascismo italiano, o nazismo e o comunismo soviético, o recurso a um conceito único pareceu-lhes de pouca utilidade, quando a tarefa de analisar um conjunto amplo de fontes se colocou no centro de suas preocupações.
É certo que Arendt não conhecia as entranhas do poder soviético, o que do ponto de vista da historiografia só se tornou possível depois do fim da União Soviética. Por isso, algumas de suas observações carecem de precisão, assim como é possível encontrar problemas em alguns de seus estudos referentes a acontecimentos anteriores à Segunda Guerra mundial. Mas esse não é o núcleo de seu trabalho nem a herança que nos legou. Ela nunca pretendeu escrever um livro de história tradicional e era consciente do desequilíbrio entre as partes de sua obra. O que importava, no entanto, era ir direto aos “grandes problemas”, sem se deixar iludir por falsas proximidades com o passado.
Campo de concentração como fundamento totalitário
Para recolher a herança de Arendt, em primeiro lugar, devemos estar atentos para o fato de que ela soube como poucos destacar a originalidade dos sistemas totalitários, compreendendo-os como produto de uma época que ainda não esgotou seu sentido para nós. Ao buscar suas raízes no passado, ela mostrou que o totalitarismo é filho da sociedade industrial, que combinou a crença na força das tecnociências com o desenvolvimento do racismo e da exclusão. Ao apontar para o campo de concentração como a estrutura fundamental de domínio totalitário, ela forneceu um horizonte de explicação e de identificação da natureza dos regimes extremos que ultrapassa o significado das diferenças que sempre existem entre formas históricas particulares. Esse conceito-chave é uma ferramenta preciosa para entendermos a gravidade do aparecimento de novas formas de exclusão no interior das sociedades democráticas atuais.
Um segundo aspecto importante da herança arendtiana é a capacidade que ela demonstrou de apontar os traços fundamentais que distinguem os regimes extremos do século 20. Ao analisar o papel do líder totalitário e mostrar os laços que o unem às massas desenraizadas e solitárias de nosso tempo, ela soube compreender o significado da solidão num tempo em que as comunicações aparentemente aproximaram os homens. Ao apontar para a progressiva destruição da esfera pública, que implicou o colapso do sistema partidário e em última instância da idéia mesma da pluralidade como valor primeiro das sociedades livres, ela mostrou ao mesmo tempo o lugar do qual nasce a experiência democrática e os limites de suas instituições. Finalmente, ao estudar o papel do terror na estrutura de domínio total, ela apontou para a destruição dos laços éticos entre os homens como a conseqüência necessária de uma sociedade sem política.
Se a referência aos campos de concentração, como fundamento da experiência totalitária, é um dos pilares da investigação de Arendt sobre a face trágica da política contemporânea, do ponto de vista filosófico, a referência ao mal radical – tema que perseguiu a pensadora durante toda sua vida – é o caminho para compreender como ela soube integrar a tradição filosófica de investigação da natureza do mal ao esforço de desvendamento do significado dos horrores que surgiram das entranhas da modernidade. Os estudos de Arendt sobre o totalitarismo esclarecem ao mesmo tempo a face trágica do século 20 e os enormes desafios das sociedades democráticas do século 21.

Revista CULT

domingo, 3 de janeiro de 2010

Profissionais do Holocausto: o Khmer Vermelho, os nazistas e a banalidade do mal


Profissionais do Holocausto: o Khmer Vermelho, os nazistas e a banalidade do mal
Erich Follath
Hannah Arendt usou a frase "a banalidade do mal" para descrever Adolf Eichmann, o burocrata nazista que conduziu milhões de pessoas à morte. As semelhanças marcantes entre Eichmann e "Duch", o oficial do Khmer Vermelho que está em julgamento, indicam que a propensão ao mal é realmente universal.

No final de novembro, os argumentos finais foram apresentados no caso da comunidade internacional e da população do Camboja contra Kaing Guek Eav, mais conhecido como "Duch". Esse ex-oficial do Khmer Vermelho, de 67 anos, foi o comandante da mais famosa prisão e centro de torturas em Phnom Penh.

O veredicto desse julgamento espetacular deverá sair em breve. Quando os juízes de Phnom Penh o pronunciarem e, como se espera, Duch for condenado a várias décadas de prisão, a justiça terá sido feita. O agressor será trancafiado e um capítulo da história cambojana estará encerrado.

Mas o julgamento de Duch realmente representa um acerto de contas razoável para o passado do país, que viu quase um quarto de sua população ser vitimada pelo genocídio no terrível período entre abril de 1975 e janeiro de 1979?

Da mesma forma, há semelhanças entre os homens que mandam outros cometerem genocídio, um núcleo de mal absoluto que pode ser identificado em suas personalidades e suas carreiras? Nesse caso, os crimes contra a humanidade podem ser dissecados e classificados de modo a evitar sua recorrência?

Duch, que foi ora submisso, ora desafiador durante seu julgamento em Phnom Penh, parece depressivamente comum. Mas, examinado mais de perto, fica claro que ele realmente não é único. Na verdade, Duch parece um capanga nazista julgado em Jerusalém no início da década de 1960 por sua participação na morte de 6 milhões de judeus. De certa maneira, Duch é de fato um segundo Adolf Eichmann.

A vida desse oficial do Khmer Vermelho, os crimes que ele cometeu metodicamente, completamente despidos de compaixão, suas manobras durante o julgamento entre expressar remorso pelas vítimas e tentar escapar da responsabilidade alegando que não passou de um "dente na engrenagem" - tudo isso lembra muito o comportamento de Eichmann.

E, como o julgamento em 1961 do tenente-coronel das Stradivari - que, apesar das melhores intenções da promotoria e da grande atenção que provocou entre os afetados -, foi uma oportunidade histórica perdida, o julgamento de Duch em Phnom Penh em 2009 também ameaça terminar em fracasso.

Antigos paralelos
Kaing Guek Eav, filho de um agricultor, sempre foi um estudante modelo. Ele valorizava a precisão e a lógica; sua matéria preferida era a matemática. Para ele, a clara distinção que os ideólogos do Khmer Vermelho faziam entre uma vida útil e uma que merecia ser destruída era perfeitamente racional.

Uma geração antes, Adolf Eichmann exibia traços de personalidade parecidos. Filho de um contador da cidade de Solingen, no oeste da Alemanha, Eichmann não era um intelectual. Na verdade, deixou a escola cedo e depois abandonou um curso de mecânica. Mas foi esperto o suficiente para compreender que sua ascensão ao poder dependia de uma instituição - o "seu" Partido Nazista - que cuidava dele e à qual se dedicou incondicionalmente.

Nem Eichmann nem Duch jamais conheceram seus respectivos líderes supremos. Duch não conheceu Pol Pot, ou "o irmão número 1", e Eichmann nunca se encontrou com Hitler. Eles galgaram os degraus até atingir cargos de responsabilidade. Duch subiu de pequenos postos administrativos para se tornar comandante da prisão de Tuol Sleng, a principal prisão e centro de torturas do Khmer Vermelho depois de 1975.

Eichmann começou sua carreira como atendente de assuntos judeus, depois subiu na hierarquia e registrou os minutos da conferência de Wannsee em 1942; finalmente tornou-se o administrador técnico da "solução final" na Hungria. Nenhum lugar nos registros meticulosos mantidos pelos dois existe a menor evidência de que eles abrigavam dúvidas sobre seus atos. Ambos tinham certeza de estar cumprindo seu dever.

Paralelos tardios
Os paralelos entre os dois são espantosos. Mesmo quando seus respectivos mundos se desintegravam, eles continuaram se comportando como haviam feito enquanto cometiam assassinatos em massa: com sangue-frio, sem emoção e sistematicamente pesando suas opções.

Em janeiro de 1979, quando os vietnamitas invadiram o Camboja e puseram fim ao reinado de terror do Khmer Vermelho, Duch conseguiu escapar à captura. Então desapareceu e se converteu ao cristianismo. Mas parece muito improvável que estivesse realmente comprometido com sua nova fé. Na verdade, é mais plausível que estivesse usando sua conversão apenas como uma maneira de desorientar os juízes que viesse a encontrar neste mundo.

Em todo caso, Duch nunca considerou a possibilidade de se entregar às autoridades. Em 1999, um jornalista descobriu o ex-comandante quase por acaso. Confrontado com evidências de seu passado, Duch sabia que o jogo tinha terminado. Mas mesmo nos momentos em que sua verdadeira identidade foi revelada ele já depositava as bases para sua estratégia de defesa, dizendo: "Eu não queria ser nada além de um bom comunista".

Então Duch tornou-se um prisioneiro modelo. Passaria mais uma década antes que o primeiro-ministro cambojano Hun Sen, ele também ex-membro do Khmer Vermelho, abrisse caminho para um julgamento apoiado pela ONU.

Em 1945 Eichmann escapou de um campo de internamento americano e, com identidade falsa, trabalhou como madeireiro na região de Lüneburg, no norte da Alemanha. Com a ajuda de padres católicos, conseguiu escapar pela chamada "trilha dos ratos" para a Argentina.

Não havia dúvida de que o Vaticano sabia quem estava ajudando. Para Eichmann, a simples idéia de se entregar deve ter parecido absurda. Agentes israelenses finalmente o localizaram em 1960 em Buenos Aires, onde ele trabalhava como operário na Mercedes-Benz. Em uma operação secreta ousada, eles o sequestraram e o levaram para Israel.

Homens e monstros de família
Com suas próprias palavras, Eichmann descreveu uma noite com colegas de trabalho em 1944: "Fizemos uma refeição modesta, bebemos um copo de vinho húngaro com a comida e, durante a conversa, eu lhes disse que Himmler gostaria que os judeus de Budapeste fossem colocados em guetos e depois levados para Auschwitz".

Da mesma forma, graças a registros de vigilância de espiões israelenses, sabemos como era uma noite na casa de Eichmann na Argentina. O homem que mandou centenas de milhares de pessoas para a morte com um golpe de caneta tornou-se pai mais uma vez. Seu quarto filho era um menino, que ele aparentemente mimava.

"Ele levantou o menino, o girou no ar e depois engatinhou ao lado dele, de quatro. Os dois riram", disse Peter Malkin, um ex-agente do Mossad, o órgão de inteligência estrangeira de Israel que se envolveu na missão. Eichmann conseguia separar as coisas com grande precisão: em um momento podia ser um carinhoso homem de família; no próximo, uma máquina de aniquilar judeus.

Duch também teve quatro filhos. Sua filha mais jovem nasceu em 1978 - exatamente quando o pai ordenava que os últimos 14 mil prisioneiros de Tuol Sleng fossem executados nos campos da morte do Camboja. As crianças eram atiradas de cabeça contra árvores, enquanto os adultos eram espancados até a morte com barras de ferro. Duch queria economizar balas.

Sua vida de trabalho cotidiano também era semelhante à de Eichmann, mas Duch tinha contato mais próximo com suas vítimas e até fechava suas janelas para afastar os gritos das pessoas que eram torturadas. E as responsabilidades profissionais de Duch, como as de Eichmann, envolviam uma quantidade considerável de papelada - catalogar os nomes de suas futuras vítimas e escrever a ordem de "exterminar" em vermelho na margem da ficha de cada prisioneiro.

Como eram as noites de Duch em casa com sua família? Um dia ele ordenou que Nhem En, o fotógrafo do campo de concentração, registrasse como sua família era feliz depois do nascimento de sua filha. A mulher de Duch trabalhava em um hospital perto da prisão, onde sua função era salvar vidas. O trabalho de seu marido como diretor de um centro de tortura era dar fim a elas. Se o relato de En for correto, o casal passava suas noites em um aconchego sobrenatural, cuidando dos filhos.

Paralelos no banco dos réus
Nada é mais revelador que o comportamento dos dois homens no tribunal. Ambos apenas admitiram coisas que não podiam ser negadas. Ambos definiram sua culpa como no máximo marginal, argumentando - através de seus advogados - que eram meros burocratas que agiam sob ordens de cima, as quais lhes eram impostas como alguma lei da natureza. Ambos não quiseram admitir que tinham sangue nas mãos.

"Eu nunca matei um judeu ou mesmo um não-judeu - nunca matei um ser humano ... Todo o nosso trabalho era burocrático ... eu tinha de obedecer", disse Eichmann durante seu depoimento, sentado em uma gaiola de vidro em um tribunal de Jerusalém, onde se declarou "inocente" de todas as acusações feitas contra ele.

É claro que as transcrições do tribunal também mencionam que ele testemunhou execuções em Minsk - e até ficou ligeiramente abalado. Mas não processou a experiência. De fato, o gerente do extermínio em massa negou qualquer responsabilidade pelo Holocausto, alegando que foi responsabilidade de outros, dos que estavam no topo da cadeia de comando, e que ele havia apenas cumprido seu dever. "Arrependimento não serve de nada. Arrepender-se das coisas é inútil.

O remorso é para criancinhas", ele disse em um interrogatório. Eichmann se ofereceu para enforcar-se em público e notou - em um tom um tanto macabro - que esse seria "um ato maior de expiação". Para evitar que nazistas recalcitrantes transformassem o túmulo de Eichmann em local de peregrinação, os israelenses espalharam suas cinzas pelo Mediterrâneo em 1º de junho de 1962.

O comportamento de Duch diante do tribunal de Phnom Penh no recente julgamento não foi mais esclarecedor. Dizendo que "lamentava profundamente" as atrocidades do regime do Khmer Vermelho, ele de vez em quando enxugava lágrimas nos olhos enquanto pedia perdão. E até tentou atrair os favores de uma testemunha, Bou Meng, que foi um dos menos de dez sobreviventes de Tuol Sleng e que perdeu sua mulher na prisão, quando lhe disse: "Eu envio meus respeitos ao espírito de sua esposa".

Falando quase casualmente, Duch convidou as famílias de suas vítimas a visitá-lo na prisão, para conhecer o "verdadeiro eu". Aparentemente, não tinha consciência de que sua proposta deve ter sido ultrajante para as famílias das vítimas. Estava lhes pedindo para confirmar o que ele acreditava sobre si próprio: que havia se tornado uma pessoa limpa.

"Eu recebi ordens para limpar o partido - o mal devora até o mal", ele disse ao tribunal. Eichmann, o modelo de mediocridade, teria gostado de ouvir Duch dizer: "Fui um instrumento da liderança do Khmer Vermelho, tão dedicado aos meus superiores quanto um cão pastor-alemão a seu dono". Em sua declaração final ao tribunal, Duch pediu para ser libertado.

Buscando as raízes do mal
Como uma pessoa pode se tornar tão sangue-frio quanto Duch, que escreveu sete linhas em seu diário para expressar arrependimento diante da morte despropositada de algumas galinhas, mas apenas duas linhas para admitir a tortura de 14 prisioneiros até a morte? Do mesmo modo, o que tornou um homem como Eichmann tão insensível ao sofrimento de seus semelhantes?

Nenhum dos modelos explanatórios estabelecidos se aplica aos dois: eles não foram negligenciados durante a infância nem expostos a injustiças sociais em sua juventude que pudessem ter destruído seus conceitos morais. Eichmann recebeu uma educação cristã em um ambiente de classe média, enquanto os pais simples mas corretos de Duch lhe ensinaram ideais budistas como a não-violência e o altruísmo.

Desde tempos imemoriais, todos, de filósofos tementes a Deus a cientistas agnósticos tentaram desvendar as raízes do mal. No século 4º, o teólogo Agostinho afirmou que o mal surgia em consequência do livre-arbítrio do homem.

Hoje neurocientistas procuram uma assinatura do mal no cérebro. Alguns acreditam que peculiaridades semelhantes encontradas nos cérebros de alguns criminosos violentos podem servir como evidências da inevitabilidade de uma carreira criminosa. Em outras palavras, os assassinos poderiam ser eximidos, até certo ponto, por sua genética.

Ninguém sabe realmente se alguma dessas teorias é válida. No entanto, nos casos de Eichmann e Duch, não há como atribuir sua incapacidade de expressar humanidade, sua completa falta de empatia e sua violação de todos os padrões éticos a algum defeito genético que tenha afetado seus lobos frontais. Ambos adotaram para si uma ideologia dominante. No caso de Eichmann, foi o veredicto dos nazistas contra os "subumanos"; para Duch, foram os planos do Khmer Vermelho de criar um "novo homem".

Dificilmente podem acusá-lo de ter-se conformado, como fizeram muitos vilões em sua época. Mas o fato de que esses notários da morte fizeram tudo o que puderam para garantir que a máquina mortífera operasse da maneira mais eficaz possível - e conseguiram promover suas próprias carreiras nesse processo - é imperdoável. Para Adolf Eichmann e Kaing Guek Eav, o mal foi um modelo de sucesso acima de tudo. Foi o Holocausto como carreira.

Obediência cega, mas criativa
Portanto, não há mérito no argumento de Duch no tribunal de que ele, como um capanga do sistema, não teve alternativa senão fazer o que fez. Duch sabia que o partido achava que os "adversários do regime" espreitavam em todo lugar e que o partido queria que ele fornecesse as provas de que precisava.

É claro que, se tivesse libertado muitos dos suspeitos presos em Tuol Sleng, ele mesmo poderia ter sido executado. Mas em sua pressa para obedecer às ordens o calculista Duch superou sua cota e até esboçou uma proposta para o líder do partido sobre como o "banho de sangue purificador" poderia ser intensificado. Em uma referência inconfundível à "solução final" dos nazistas, ele intitulou seu panfleto "O Plano Final".

No caso de Eichmann, afirmar que ele foi apenas um pequeno dente na engrenagem daqueles que detinham realmente o poder também falhou. O tribunal de Jerusalém conseguiu provar que ele havia interpretado as ordens da maneira mais ampla - e hedionda - possível.

O historiador Raul Hilberg descreve o papel especial do burocrata na implementação do genocídio nazista: "O processo não poderia ter chegado à conclusão se todos tivessem de esperar por instruções. Nada foi tão crucial quanto a exigência de que o burocrata devia compreender as oportunidades e 'necessidades', que devia agir de acordo com os imperativos percebidos". E isto se aplica tanto a Eichmann quanto a Duch. A obediência cega é uma exigência básica do genocídio; mas em cargos elevados devia ser uma forma criativa de obediência cega.

Confrontando o diabólico
Como modelo explanatório para o inimaginável, isto nos deixa com o que Hannah Arendt chamou de "banalidade do mal"? Enquanto escrevia sobre o julgamento de Eichmann para a revista "The New Yorker", Arendt - uma filósofa que escapou por pouco das câmaras de gás - cunhou uma das frases mais interessantes, polêmicas e incompreendidas de todos os tempos.

Os políticos israelenses ficaram fulos de raiva quando a reportagem de Arendt foi publicada. Ainda hoje, muitos acusam Arendt (que morreu em 1975) de ser uma judia antissemita - embora isso também possa ser atribuído em parte ao caso romântico que ela teve com seu professor Martin Heidegger, um filósofo que teve laços estreitos com o regime nazista.

Alguns reacenderam as antigas alegações de que Arendt tentou minimizar o Holocausto. Na realidade, porém, ela compreendia mais do que seus críticos, ou seja, que é um engano interpretar o genocídio dos judeus como uma espécie de evento metafísico e transformar Eichmann em um demônio desumano.

Ela admitia que uma pessoa podia cometer crimes monstruosos sem ser um "Übermensch" satânico e que, nesse sentido, até o crime inenarrável contra os judeus teve um contexto político e histórico.

É difícil para os parentes das vítimas aceitar que pessoas assustadoramente normais podem cometer crimes tão terrivelmente perversos. Quando os mais hediondos dos crimes são cometidos - alheios a qualquer sentido de moral, fé ou civilização -, tudo parece perder o significado.

Mas aqueles - como Arendt - que veem o regime totalitário como um ataque à natureza humana não se surpreenderão ao descobrir que, apesar de que a Shoah não se repetirá, novas variações de genocídio podem ocorrer e se repetir.

O fato de a morte não ser (somente) uma especialidade alemã não nos absolve do legado da era nazista, nem diminui aqueles crimes. No entanto, poderia nos ajudar a "enfrentar o diabólico com cabeça fria", como coloca o historiador Klaus-Dietmar Henke, de Dresden - e a desenvolver instrumentos que ajudem a evitar o genocídio.

Na opinião de Avraham Burg, um ex-presidente do Knesset, o Parlamento israelense, uma nação que alegava ser ao mesmo tempo a herdeira e a personificação das vítimas não deveria ter-se permitido assumir o papel de juiz no caso Eichmann. Burg teria preferido um tribunal com jurisdição internacional, mas isso era claramente algo que não iria acontecer.

"O Estado de Israel quis se vingar e reeducar o mundo... Nós entendemos que a Shoah nos afetava exclusivamente, e a nacionalizamos e monopolizamos", diz Burg, de maneira muito dura, em retrospectiva. Mas até ele admite que houve um aspecto libertador no julgamento. "Pela primeira vez os adultos puderam falar abertamente sobre as coisas que haviam sofrido repetidamente em seus pesadelos", ele diz.
Punir, isolar e reabilitar

Em termos morais, ao descartar a opção da pena de morte, o tribunal do Camboja se elevou acima dos culpados e seu desvario mortal. Mas existem outros reveses às "Câmaras Extraordinárias dos Tribunais do Camboja", como o tribunal é chamado.

Autoridades corruptas de Phnom Penh que serviram no tribunal tentaram limitar qualquer culpa pelo passado do Camboja a um punhado de casos, assim desviando a atenção do fato de que ex-membros do Khmer Vermelho ainda hoje ocupam cargos oficiais em Phnom Penh.

Da mesma forma, existe certa dúvida quanto a se os hoje idosos líderes do Khmer Vermelho jamais serão julgados. Estes incluem Nuon Chea, que foi o segundo no comando do regime, o ex-presidente Khieu Samphan (1976-1979) e os ex-ministros Ieng Sary e Ieng Thirith.

Depois de certa hesitação inicial, a população do Camboja começou a demonstrar interesse pelo julgamento de Duch. Mais de 50 testemunhas depuseram; cerca de 25 mil pessoas assistiram às audiências da galeria pública do tribunal; e milhões escutaram as transmissões de rádio das audiências.

"Para mim, foi uma vitória ver esse antigo oficial - que foi tão arrogante e poderoso - sentado impotente no banco dos réus", diz uma cambojana que perdeu muitos parentes durante os anos de trevas. Ela acrescentou que gostaria de ver Duch "apodrecer" na prisão e morrer atrás das grades.

Mas esse desfecho não é totalmente garantido. Uma avaliação psiquiátrica de Duch, ordenada pelo tribunal, que foi vista por "Der Spiegel", chega a conclusões surpreendentes. Segundo o relatório, Duch foi de fato responsável por seus atos; ele foi "meticuloso, consciencioso e controlado"; não obstante, conseguiu "compor poderosos mecanismos de defesa próprios, especialmente através da percepção seletiva dos fatos".

Ainda assim, os especialistas chegam a uma conclusão perturbadora: do ponto de vista dos psicólogos, o ex-comandante de Tuol Sleng poderá um dia ser ressocializado e reintegrado à sociedade. Mas se ele será libertado, continua o relatório, "depende, é claro, de mais que simples considerações médicas".

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Der Spiegel

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

ARENDT E AS REVOLUÇÕES


Hannah Arendt

Quatro anos depois da irrupção da Revolução Francesa, no tempo em que Robespierre define sua liderança como "o despotismos da liberdade". Condorcet sumarizou um conceito universal: "A palavra 'revolucionário' só pode ser aplicada a movimentos cujo objetivo é a liberdade".
Crucial à compreensão das revoluções é a justaposição do conceito da liberdade com a noção de que algo inteiramente novo está começando. E a partir do fato de que, no novo critério para avaliar constituições, tanto nossa compreensão de revoluções como nossa concepção de liberdade são profundamente revolucionárias na origem.
A palavra "revolução" não pode ser encontrada justamente onde se esperaria que estivesse mais presente —na Renascença italiana. É surpreendente que Maquiavel utiliza o conceito de "mutazioni del stato" nas suas descrições de trocas de poder. O interesse de Maquiavel nas inumeráveis "mutazioni", "variazoni" e "alterazioni" pode induzir alguns analistas a confundir suas doutrinas por uma "teoria de troca de poder". Na realidade estava interessado no imutável, no invariável e no inalterável. O que o torna importante na história das revoluções é o fato de que foi o primeiro a pensar na possibilidade de fundar um corpo politico, permanente e sólido. O que principalmente distinguiu Maquiavel dos revolucionários da sua época foi o fato de que compreendeu o conceito de "rinovazione" que, para ele, resumia-se na única alteração benéfica a ser saudada. Em suma, o "pathos" revolucionário da busca da liberdade e do absolutamente novo, do início verdadeiro de uma página nova, era totalmente desconhecido para Maquiavel.
A palavra "revolução" originou-se provavelmente da astronomia a partir da teoria de Copérnico, "De Revolutionibus Orbium Celestium". No seu uso científico o termo reteve o seu significado original latino, designando o movimento rotativo, regular e inexorável dos astros. Por ser infenso aos desígnios do homem e, portanto, irresistível, jamais se caracterizou pela novidade ou pela violência. Ao contrário, a palavra claramente indica uma tendência à recorrência, ao movimento cíclico. Se transferido para a linguagem dos negócios dos homens na terra, o termo "revolução" poderia apenas significar que as poucas e conhecidas formas de governo revolvem-se como opções aos mortais numa oferta permanente e com a mesma força que os astros obedecem nas suas precisas órbitas no espaço.
Quando a palavra "revolução" desceu dos céus e foi introduzida para descrever os acontecimentos humanos, apareceu primeiramente como uma metáfora, substituindo aquela noção do imutável e oferecendo, em troca, a noção dos altos e baixos dos destinos humanos. No século dezessete encontramos pela primeira vez a utilização política da palavra, mas o conteúdo metafórico ainda estava ligado ao sentido original, o movimento de retornar a um ponto préestabelecido. A palavra foi primeiramente usada na Inglaterra não para designar a assunção de Cromwell ao poder (a primeira ditadura revolucionária), mas ao contrário, depois da queda do despota por ocasião da restauração da monarquia.
Podemos precisar o exato instante em que a palavra "revolução" foi utilizada no sentido de mudança irresistível e não mais como um movimento recorrente. Foi durante a noite de 14 de julho de 1789 em Paris, quando Luís XVI ouviu de um emissário que a Bastilha havia caído. "É uma revolta", disse o rei. Ao que o mensageiro retrucou: "Não, majestade, é uma revolução".
Nas décadas seguintes conformou-se um quadro de que as revoluções não são feitas de homens isolados, mas resultado de um processo incontrolável do qual os homens são parte. E foi somente na metade do século dezenove que Proudhon cunhou a expressão "revolução permanente" e com ela trouxe o conceito de que não existem revoluções, mas uma só, total e perpétua. Teoricamente, a consequência mais ampla da Revolução Francesa foi o nascimento da noção de História e do processo dialético, da filosofia de Hegel. Foi a Revolução Francesa e não a Americana que incendiou o mundo e foi consequentemente dela e não do curso dos acontecimentos na América que a presente conotação da palavra ganhou o formato atual. Neste nosso século as ocorrências revolucionárias passaram a ser examinadas dentro dos padrões franceses e em termos de necessidades históricas.
O que os revolucionários russos aprenderam dos franceses foi História e não ação. Eles captaram a habilidade de desempenhar qualquer papel que o grande drama da História estava prestes a lhes confiar e se nenhum outro estava disponível a não ser o de vilão, como aconteceu, eles o aceitaram como meio de não ficarem fora do enredo.


Hannah Arendt (1906-1975), pensadora nascida na Alemanha que emigrou para os EUA quando começaram as perseguições nazistas contra os judeus. Foi uma precursora da moderna ciência política mas enfatizando sempre suas preocupações em torno dos valores humanos, notadamente a liberdade e os direitos civis. Sua mais famosa obra é "Origens do Totalitarismo" (editada em português pela Ed. Documentário). O texto acima foi extraído de seu trabalho "Sobre as Revoluções" (Vicking Press, N.I.).
terça-feira, 8 de novembro de 1977

Folha de São Paulo