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segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Guerra dos Cem Anos - A mais longa batalha da história

Uma sucessão de conflitos com mais de um século de existência foi um dos fatores responsáveis pelo término do sistema feudal que já agonizava há muitos anos

Rose Mercatelli



Apesar do nome, a Guerra dos Cem Anos, como ficou conhecida a disputa entre França e Inglaterra, as duas maiores potências europeias do século 14, durou 116 anos. Segundo os historiadores, começou em 1337 e terminou em 1453. Mas não foi uma luta ininterrupta. Na verdade, aconteceram vários confrontos entre as duas monarquias com vitórias e derrotas para ambos os lados.

De acordo com os dados históricos, o pavio para o início do conflito foi aceso quando, em 1328, o rei francês Carlos IV morreu sem deixar herdeiros. Eduardo III, então rei da Inglaterra, achou-se no direito de reivindicar para si o trono vago. Além de súdito, ele era sobrinho do rei morto, por parte de sua mãe.

Entretanto, nobres franceses também queriam o mesmo. Sob a alegação de que o trono francês só poderia ser herdado por um homem (ou por um pretendente oriundo de uma descendência masculina), a assembleia francesa acabou escolhendo o conde Filipe de Valois, que se tornou Filipe VI (1328 a 1350).

O rei Eduardo não gostou de ser preterido, justo ele que já era dono por herança das regiões da Gasconha (no sudoeste da França, faz divisa com o norte da Espanha), de sua vizinha Guiana (atual território da Aquitânia) e do condado de Ponthieu (ao norte da França). Mas o inglês não discutiu a decisão, reconhecendo Filipe VI como rei da França em 1329 em Amiens e prometendo- lhe obediência.
Ilustração representando a batalha de Azincourt que aconteceu em 25 de outubro de 1415 (Dia de São Crispim), no norte da França

Interesses comerciais 
Ainda havia outra zona de atrito entre os dois países. A região de Flandres, a nordeste da França, (atual Bélgica e Países Baixos) era um rico entreposto comercial. Afora seu intenso comércio, Flandres ainda era um importante centro produtor de tecidos, que comprava grande parte da lã produzida na Inglaterra. Ainda que a região fosse politicamente subordinada à França, os produtores flamengos, por interesses comerciais, posicionaram-se a favor dos ingleses, fato que desagradou a Coroa francesa.

Apesar do nome, a Guerra dos Cem Anos, como ficou conhecida a disputa entre França e Inglaterra, as duas maiores potências europeias do século 14, durou 116 anos: de 1337 até 1453

A situação piorou quando o conde de Nevers, regente de Flandres, prestou juramento de obediência ao recém-coroado Filipe VI. Com medo que a economia da região entrasse em colapso, os flamengos reagiram. O rei francês, em apoio ao Conde Nevers, interveio no território. Em represália, Eduardo III suspendeu as exportações de lãs inglesas. Sem sua principal matéria-prima, os flamengos resolveram apoiar o monarca inglês que, novamente reivindicava o trono francês, repudiando o juramento de obediência que fez em Amiens. A partir desse ato, não havia outra saída entre os dois monarcas a não ser declararem guerra um contra o outro.

Primeiro período (1337 e 1364) 
Vitórias inglesas 
A França tinha uma população quatro vezes maior do que a Inglaterra. Em compensação, a monarquia inglesa era mais forte. Em 1337, Filipe VI começou o conflito ao atacar a Guiana (que pertencia legitimamente a Eduardo III) e exercer um intenso assédio ao litoral inglês até ser derrotado em 1340.
A cavalaria francesa sofreu em Aljubarrota (1385) outra pesada derrota contra as táticas de infantaria, depois de Crécy e Poitiers

Entre 1346 e 1353, uma epidemia de peste bubônica aniquilou aproximadamente um terço da população europeia. Com os exércitos reduzidos, as batalhas tiveram de ser interrompidas

As Batalhas de Crécy (1346) e de Calais (1347) foram as mais importantes do período. Contando com o apoio financeiro dos mercadores de Flandres, os ingleses levaram a melhor nas duas batalhas, o que permitiu à Inglaterra manter o controle sobre importantes posições ao norte da França, inclusive sobre o Canal da Mancha. O avanço sobre o território inimigo só não foi maior porque os dois países estavam sendo duramente castigados por uma doença mortal.
Ilustração representando a batalha de Azincourt que aconteceu em 25 de outubro de 1415 (Dia de São Crispim), no norte da França

Entre 1346 e 1353, uma epidemia de peste bubônica (chamada de peste negra) aniquilou aproximadamente um terço da população europeia. Tantas mortes fizeram com que a produção agrícola e as atividades comerciais tivessem uma queda abrupta. Com os exércitos reduzidos, as batalhas entre os dois países tiveram de ser interrompidas por conta da situação caótica.

Batalha de Poitiers (1356) 
Quando os combates reiniciaram anos depois, Eduardo III pode contar com a inestimável ajuda militar de seu filho Eduardo, o príncipe de Gales. Em agosto de 1356, aos 26 anos, o príncipe Negro, como era conhecido pela cor de sua armadura, mostrou ser um comandante competente ao invadir a região de Aquitânia (Guiana), para preservar suas bases avançadas.

Eduardo não encontrou resistência por parte dos súditos do rei francês João II, o Bom (1350 a 1364). Os ingleses e seus aliados da Gasconha devastaram e queimaram cidades e campos, deixando o inimigo enfrentar não só a escassez de soldados como também a falta de comida.

João II, entretanto, conseguiu reunir um exército de 20 mil homens e ordenou que empurrassem as tropas inimigas em direção ao mar. Em um primeiro momento, os ingleses realmente bateram em retirada em direção ao sul. Porém, próximo à cidade de Poitiers, o Príncipe Negro conseguiu virar o jogo e capturar João II. Conta a lenda que, durante o cerco, o monarca francês tirou suas túnicas reais, anéis e colares, e se misturou à multidão. Entretanto, apesar do disfarce, foi capturado minutos depois até porque João era a única pessoa que estava de coroa no meio da confusão.

Eduardo logo exigiu um resgate de 3 milhões de coroas para libertá-lo, uma soma colossal que deveria ser paga em prestações. Cinco anos depois, João foi solto mediante o pagamento de apenas parte do seu resgate.

Exército atolado 
Na batalha de Poitiers, o rei João mostrou ser um dirigente atrapalhado, titubeante em suas decisões e pouco hábil ao comandar seus exércitos. Além disso, parte de sua derrota também pode ser creditada ao tamanho de seus exércitos, enormes e lentos, com uma grande quantidade de homens armados com bestas (ou balestras) vestindo pesadas armaduras e montando cavalos protegidos por chapas de ferro.

Todo esse arsenal atrapalhava a mobilidade de seus soldados. Como se não bastasse, durante a batalha, João levou seus cavaleiros em direção a um pântano. Com o peso todo, os cavaleiros franceses ficaram presos no atoleiro e acabaram dizimados pelas flechas inglesas.

O Príncipe Negro, pelo contrário, apostava tudo na velocidade e mobilidade de suas tropas. Sem armadura e levando o arco longo no lugar da pesada besta, um soldado inglês conseguia se mover rapidamente, o que se transformou em uma grande vantagem. Apesar de não terem os efeitos devastadores das balestras, as setas disparadas pelos arqueiros tinham um poder de fogo cinco ou seis vezes superior. O resultado foi mais uma vitória para os ingleses.


A donzela de Orleans

É provável que Joana D'Arc tenha nascido em 1412, em Dómremy, na região de Lorena, na França. Filha mais nova de um casal de camponeses pobres e analfabetos, desde cedo se revelou muito religiosa. Com 13 anos, dizia ouvir vozes de São Miguel, Santa Catarina de Alexandria e Santa Margarida que lhe aconselhavam a rezar muito e ir para Orleans para combater os ingleses.

Aos 16 anos, acompanhada de seis cavaleiros, foi ao encontro do Delfim, atravessando o território dominado pelos partidários do conde de Borgonha, aliado da Inglaterra. Portando roupas masculinas, Joana finalmente se encontrou com Carlos VII. Desconfiado, o Delfim, a princípio, não quis atendê-la. Mas depois, convencido de seu discurso, o Delfim lhe entregou a espada, a bandeira e um exército de 4 mil homens que, comandados por ela, libertaram Orleans em 9 de maio de 1429. Joana ainda venceria mais três batalhas: Jargeau, Meung-sur-Loire e Beaugency, nos dias 16 e 17 de junho do mesmo ano.

Na primavera de 1430, Joana D'Arc, ao tentar libertar a cidade de Compiègne, foi capturada pelos aliados do conde de Borgonha. Depois de interrogada e torturada inúmeras vezes, Joana, com apenas dezenove anos, foi queimada viva em Rouen, no dia 30 de maio de 1431, acusada de heresia e bruxaria. Foi o fim da grande heroína francesa da Guerra dos Cem dias.


A paz forçada
A Batalha de Poitiers se tornou o momento mais delicado para a França durante a Guerra dos Cem Anos. Sua derrota resultou no Tratado de Brétigny, que impunha pesadas sanções ao país. Derrotada e sem rei, a França não tinha nenhum poder de negociação e acabou abrindo mão de Calais, Aquitânia e Gasconha para a Inglaterra. No total, perdeu cerca de um terço de seu território.

Em troca, Eduardo III, da Inglaterra, desistia do trono da França e os direitos às regiões da Normandia e Bretanha. No dia 24 de outubro de 1360, foi paga a primeira parcela de 600 mil coroas. O restante seria dividido em prestações a serem saldadas a cada seis meses. Como garantia, 40 nobres franceses ficaram reféns dos ingleses para serem libertados, aos poucos, a cada fatura liquidada.

Mas ficava cada vez mais difícil para o governo francês honrar sua dívida. Quase cinco anos se passaram quando João II finalmente conseguiu voltar para casa em 1364 para morrer quatro meses depois, sendo substituído por seu filho Carlos V. Apesar de sua conhecida generosidade para com os pobres, João passou à história como um rei atrapalhado na política e sem nenhuma capacidade para liderança.

Segundo período (1364-1380) 
Ordem na casa 
Carlos V se negou a pagar a conta exorbitante aos ingleses e, ao mesmo tempo, resolveu dar um jeito na própria casa. Unificou seus exércitos e graças a um notável cavaleiro francês, Bertrand Du Guesclin, organizou seus homens para combaterem em um sistema de guerrilhas. Assim, conseguiu recuperar parte de seu território perdido.

As vitórias permitiram que o rei centralizasse o poder. Dessa maneira, Carlos V, o Sábio, controlou melhor seus nobres, aumentou a arrecadação tributária e organizou o Estado, colocando homens capazes, vindos da burguesia, em altos cargos de confiança.

Em 1377, na Inglaterra, com um pequeno intervalo de meses, morreram Eduardo III e seu filho, o Príncipe Negro. O sucessor foi o neto do monarca falecido, Ricardo II, com apenas dez anos. A morte de Carlos V, em 1380, esfriou o ânimo dos franceses pela guerra.

Terceiro período (1380-1422) 
Tempos de trégua 
No fim do século 14 e nas décadas seguintes, franceses e ingleses se viram às voltas com revoluções internas que exigiam mais atenção do que a guerra entre eles. Dessa forma, começou uma fase de paz não declarada, rompida de quando em quando.

Os franceses enfrentaram problemas muito mais complexos. Em 1380, com a morte de Carlos V e com a ascensão do herdeiro Carlos VI, de doze anos, houve a cisão da nobreza francesa. Os partidários dos duques de Borgonha, considerando Carlos VI incapaz, tentaram tomar o poder várias vezes, mas perderam. Daí resolveram se aliar aos ingleses.

A Batalha de Poitiers se tornou o momento mais delicado para a França durante a Guerra dos Cem Anos. Sua derrota resultou no Tratado de Brétigny, que impunha pesadas sanções ao país

Por sua vez, Ricardo II, então com 22 anos, enfrentou graves distúrbios sociais e oposição de grande parte da nobreza. Dez anos depois, foi sucedido por Henrique IV em 1399. Anos depois, a loucura do rei Carlos VI mais a guerra civil entre os franceses animou o novo rei inglês Henrique V (1413) a reivindicar de novo o trono francês para a Inglaterra. Em 1415, o monarca desembarcou na Normandia, tomando Harfleur.
Os comandantes 
Quem reinou durante o período da Guerra dos Cem anos:

Filipe VI, o Afortunado (r. 1328-1350) * 
João II, o Bom (r. 1350-1364) * 
Carlos V, o Sábio (r. 1364-1380) * 
Carlos VI, o Louco (r. 1380-1422) * 
Carlos VII, o Delfim (r. 1422-1461) *

Eduardo III de Inglaterra (1327-1377) *
 Ricardo II de Inglaterra (1377-1399)* 
Henrique IV de Inglaterra (1399-1413) * 
Henrique V de Inglaterra (1413-1422) * 
Henrique VI de Inglaterra (1422-1461)*
*Datas de início e fim do reinado

Carlos V unificou seus exércitos e graças a um notável cavaleiro francês, Bertrand Du Guesclin, organizou seus homens em um sistema de guerrilhas: conseguiu recuperar parte de seu território perdido

Batalha de Azincourt 
"Aquele que sobreviver esse dia e chegar à velhice, a cada ano, na véspera desta festa, convidará os amigos e lhes dirá: 'Amanhã é São Crispim.' E então, arregaçando as mangas, ao mostrar-lhes as cicatrizes, dirá: 'Recebi estas feridas no dia de São Crispim.'" (A Vida do Rei Henrique V, ato IV, cena III - Shakespeare)

No dia de São Crispim, a 25 de outubro de 1415, a chuva torrencial transformou o campo de guerra em um atoleiro o que, mais uma vez, foi providencial para os exércitos ingleses. A diferença numérica era gritante: 50 mil franceses contra 15 mil arqueiros ingleses e galeses. Mesmo assim, mais uma vez a orgulhosa cavalaria francesa foi arruinada. Alguns historiadores calculam que na Batalha de Azincourt morreram 10 mil franceses contra apenas 1.600 ingleses.

A nova ascensão inglesa impôs, em 1420, o Tratado de Troyes que garantia à Inglaterra todo o norte da França, inclusive Paris. E mais, forçou Carlos VI a deserdar seu filho, o Delfim Carlos VII do trono. Como se não bastasse, o louco rei francês ainda teve de aceitar o casamento de Henrique V com sua filha, a princesa Catarina. Depois do enlace, Henrique V da Inglaterra finalmente tomou posse do trono francês por direito.
Pintura francesa do século XV retratando a Batalha de Crécy, de 1346

Quarto período (1422-1453)
Ajuda vinda dos céus
Em 1422, Henrique V da Inglaterra e Carlos VI da França morreram e os dois tronos, oficialmente, se destinariam a Henrique VI, um bebê recém-nascido. Seu tio, o Delfim Carlos VII (deserdado anteriormente por seu avô,) finalmente foi coroado em 1429, mas ficou apenas com uns poucos territórios do sul da França, enquanto o norte estava nas mãos de Filipe III, o Bom, um fantoche comandado pelo reino da Inglaterra.

Depois de coroado, o Delfim Carlos se dirigiu ao Vale do Loire para comandar resistência francesa. Foi quando surgiu em sua vida uma camponesa que, disposta a lutar por sua pátria, trouxe à França e ao Delfim uma vitória importante ao vencer a Batalha de Orleans. (veja box na página 42).

A última batalha 
Porém, o fim da guerra ainda teria de esperar mais 24 anos. Nesse meio tempo, ingleses e franceses ainda se enfrentaram em mais três combates em 1429: Jargeau, Meung-sur-Loire e Patay. Em 1450, o campo de luta foi em Formigny.

Até que, em 1453, na Batalha de Castillon, os franceses conseguem recuperar a cidade de Bordeaux, o último reduto inglês. Nenhum tratado foi assinado para declarar oficialmente o fim das hostilidades. No entanto, a rivalidade anglo-francesa ainda perduraria por muito mais tempo.
Saiba +
Cawthorne, Nigel. As Maiores Batalha da História - Estratégias e Táticas de Guerra que Definiram a História de Países e Povos. Editora M. Books. 
Spoto, Donald. Joana D'Arc. Editora Planeta. 
Beaune, Colette. Joana D'Arc. Editora Globo. 
Barker, Juliet. Agincourt - O Rei, a Campanha, a Batalha. Editora Record. 
Perroy, Edouard. La Guerra de Los 100 anos. Editora Akal Ediciones. 
As Grandes Batalhas da História. Larousse Editorial. Larousse do Brasil.
Revista Leituras da História

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Notícias História Viva

Bactéria da peste negra quase não mudou em mais de 600 anos
Estudo sequenciou código genético da bactéria por completo e constatou que ela é quase idêntica à bactéria dos dias de hoje
iG Brasil 

Cientistas sequenciaram o código genético da peste negra e descobriram que a bactéria Yersinia pestis do século 14 é quase idêntica à versão moderna . Pouca coisa mudou. Há apenas uma dúzia de mudanças entre os mais de 4 milhões de blocos de construção do DNA, de acordo com um estudo publicado online na quarta-feira da revista Nature.

O estudo mostra que a Peste Negra foi mortal por razões além de seu DNA. Tinha a ver com as circunstâncias do mundo naquela época. Com o avanço da ciência e da sociedade hoje é possível combater a peste com um antibiótico. No século XIV, ela dizimou um terço da população europeia.

Museum of London Archaeology

Pesquisadores conseguiram reconstruir o genoma da bactéria original a partir de DNA extraído dos restos mortais de quatro vítimas da doençaDe acordo com a pesquisa, dirigida pelo professor Johannes Krause, da universidade alemã de Tübingen, Ele veio no pior momento possível - quando o clima foi ficando mais frio, o mundo estava no meio de uma longa guerra e da fome, e as pessoas estavam se mudando para bairros mais próximos, onde a doença pode infectá-las e se espalhar facilmente. E foi provavelmente a primeira vez que esta doença em particular, tinha atingido os seres humanos, atacando pessoas sem qualquer proteção inata.

Os pesquisadores chegaram a esta conclusão após reconstruir o genoma da bactéria original a partir de DNA extraído dos restos de quatro vítimas da doença enterradas no cemitério londrino de East Smithfield, construído entre 1348 e 1349 para abrigar vítimas da peste.

As análises indicariam que a devastadora praga do século XIV pode ser a responsável pela introdução e disseminação por todo o mundo das bactérias que ainda circulam na atualidade. 
Além disso, os pesquisadores constataram que a doença hoje em dia é influenciada por fatores ambientais e a própria suscetibilidade do portador. Acredita-se que a Peste Negra se originou em roedores na China e se propagou através das pulgas dos ratos. "É um exemplo histórico fundamental de uma infecção com rápida disseminação e alta mortandade", já que num período de cinco anos reduziu consideravelmente a população da Europa, assinala a revista Nature.

Os pesquisadores haviam publicado recentemente outro estudo com a o sequenciamento de pequenos fragmentos do DNA bactéria. Nesta análise ela parecia mais diferente da bactéria contemporânea. O estudo publicado esta semana na Nature, que contou com técnica mais apurada e o sequenciamento completo do DNA da bactéria mostrou que elas são muito parecidas. "Elas têm menos diferença do que mãe e filha”, disse Krause.

(Com informações da EFE e da AP)

Peste se propagou pelo mundo há 2.000 anos a partir da Ásia

A partir de cepas bacterianas cientistas reconstituir a origem geográfico da doença, sua idade e dispersão em sucessivas epidemias

AFP
A peste se propagou pelo mundo há mais de 2.000 anos a partir da Ásia, segundo uma equipe internacional que conseguiu fazer a reconstituição das sucessivas ondas epidêmicas através da história e cujo estudo foi publicado no site da Nature Genetics.

As informações recolhidas a partir de cepas bacterianas e de uma coleção única de quase de 300 cepas permitiram aos cientistas reconstituir a origem geográfico da doença, sua idade e dispersão em sucessivas ondas epidêmicas.

A peste é letal quando não é tratada. O agente infeccioso é uma bactéria, a Yersinia pestit, cujo reservatório natural é essencialmente composto de roedores. A transmissão acontece por meio de picadas de pulgas.

Segundo o Museu Nacional de História Natural/CNRS da França (MNHN), co-signatário do artigo (Thierry Wirth e Raphaël Leblois), os resultados significam que a peste surgiu na China há mais de 2.600 anos.

A partir desta região se expandiu em seguida para a Europa Ocidental através da rota da seda (iniciada há mais de 600 anos), para a África (sem dúvida importada no continente pelo navegador Zheng He no século XV) e mais tarde para a América do Norte e Madagascar, no fim do século XIX.

Os dados moleculares permitiram reconstituir com uma precisão surpreendente a chegada da peste aos Estados Unidos via China e Havaí e a propagação do germe a partir dos portos de São Francisco e Los Angeles para o interior do território americano. Os trabalhos demonstraram sobretudo que o conjunto das sucessivas ondas epidêmicas partiu da Ásia Central e da China.

Entre 1347 e 1351, a peste negra, que se expandiu através da Ásia, Europa e África, pode ter reduzido a população mundial de 450 a 350 milhões de pessoas, segundo o University College Cork (Irlanda).

Alemanha, China, Grã-Bretanha, Madagascar e Estados Unidos também participaram nas pesquisas.

Notícias História Viva


Estudo vincula Peste Negra da Idade Média a atual peste bubônica
Exames de DNA de vítimas inglesas mostra que bactéria contemporânea tem muito em comum com agente patogênico da doença medieval

AFP
Uma versão muito menos virulenta da bactéria que provocou a peste negra, a devastadora pandemia que matou um terço da população da Europa no século XIV, ainda existe atualmente, segundo estudo publicado.


Exames de DNA das ossadas de vítimas da terrível doença, encontradas em uma fossa comum de um cemitério medieval de Londres, revelaram parte do mesmo sequenciamento genético da peste bubônica moderna, apesar de seus atributos diferentes.

"Pelo menos esta parte da informação genética variou muito pouco nos últimos 600 anos", afirmou Johannes Krause, um dos autores do estudo, publicado nas periódico Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) dos Estados Unidos.

"Sem sombra de dúvida, o agente patogênico conhecido hoje como Yersinia pestis também foi a causa da peste (negra) na Idade Média", acrescentou.

A peste negra matou um terço da população europeia em apenas cinco anos, de 1348 a 1353, mas os surtos modernos têm sido muito menos mortais.

Um surto em Mumbai, Índia, em 1904, por exemplo, matou 3% da população, apesar de ter ocorrido antes da descoberta dos antibióticos.

Para o estudo, realizado pelo Instituto de Arqueologia Científica da Universidade de Tubingen, na Alemanha, e pela Universidade McMaster, no Canadá, os cientistas extraíram o DNA de 109 esqueletos de uma fossa comum, no cemitério de East Smithfield, em Londres.

Ao comparar o DNA com o de dez esqueletos escavados de um sítio anterior à peste negra, os cientistas puderam demonstrar que não havia sido contaminado por material moderno genético ou bactérias do solo.

Os autores sustentam que a versão da bactéria que causou a peste medieval provavelmente tenha sido extinta, mas sugerem que novas pesquisas poderiam revelar como pôde ter evoluído até se transformar em uma cepa menos virulenta.

A peste negra, que afeta tanto animais quanto humanos, é causada pela bactéria Yersinia pestis, que os roedores transmitem aos humanos através de pulgas infectadas.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Violência guerreira e cortesia - Cavalaria Medieval




O que a cavalaria medieval pode nos ensinar
a respeito das “sociedades de vingança”?
A cavalaria medieval seduz as imaginações. Ela oferece um contraste de luz às pretensas trevas medievais. Mas os dois lados dessa história não serão uma única e mesma coisa? A violência e a arrogância militar da aristocracia que participam da ideia de Idade Média não serão parte do mundo de delicadeza, proeza e justiça que caracteriza a cavalaria em nossos devaneios? Escrita pelo medievalista Dominique Barthélemy, professor da Universidade de Paris IV e diretor de estudos da École Pratique des Hautes Études, a obra A cavalaria. Da Germânia antiga à França do século XII, recentemente lançada pela Editora da Unicamp, repensa a relação entre estes extremos. Segundo o autor, os estudos antropológicos desdramatizaram as “sociedades de vingança” e dessa forma permitiram uma observação mais adequada da violência medieval. A ideia de que a Idade Média é uma sociedade marcada por uma “violência endêmica”, que sempre a ameaça de dissolução, é antiga e marcou os estudos medievais até muito recentemente. O trabalho de Dominique Barthélemy, inspirado nos estudos antropológicos, permite identificar nos registros da violência medieval instrumentos que atuam em seu controle e mecanismos de recomposição social aos quais nossos olhares não haviam sido sensíveis até há pouco.
Dessa forma, sem negar que se trate de uma sociedade submetida aos imperativos de um grupo que enaltece a violência guerreira, Barthélemy nos mostra que essa era menos praticada e menos sangrenta do que se supôs, revelando a presença de mecanismos coerentes e eficazes de instituição e coesão social.
No próximo dia 13 de maio, Dominique Barthélemy estará no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp para proferir conferência a respeito de seus estudos sobre a cavalaria e a chamada “sociedade feudal”. Na entrevista que segue, o historiador fala sobre seu livro, suas convicções a respeito de “como se faz história”, a interdisciplinaridade e o futuro dos problemas apaixonantes aos quais se dedica.
Jornal da Unicamp – A cavalaria e o feudalismo são dois domínios já bastante explorados pela historiografia, o que em princípio pressupõe dificuldades para uma abordagem inovadora. Isso se complica se pensarmos que mesmo entre não especialistas – seja por meio da escola, do cinema ou da literatura – muitos têm ideias consolidadas a respeito do que foram o feudalismo e a cavalaria, o que de certa forma coíbe a absorção das novidades. O que ainda não sabemos sobre esses dois temas e por que ainda é importante para os historiadores insistirem em sua compreensão?

Barthélemy –
 A cavalaria e a feudalidade * são efetivamente questões batidas. As duas têm contornos bem conhecidos. Mas no reino dos historiadores, esses dois grandes referenciais, em minha opinião indispensáveis, foram, infelizmente, objeto de desconstruções recentes, na maior parte das vezes devastadoras. Não serão necessários esforços para restabelecê-los? Por outro lado, a visão clássica da cavalaria, saída da própria Idade Média, oculta ou mistura muitas coisas. Por exemplo, ela ocultou as ligações entre cavalaria e senhorio [patrimônio fundiário] e misturou formas diversas de justiça. As sociedades, suas elites, têm interesse em evitar certas questões e em confundir outras. Cabe ao historiador através da crítica ir além desses artifícios!
O principal problema é que foram incorporados à cavalaria, por exemplo, por meio das injunções dos novos adubados [aristocratas que já receberam cerimoniosamente suas armas], elementos contraditórios. O cavaleiro devia ser antes de mais nada um soldado disciplinado, pronto para a morte e o sacrifício de sua vida, em uma guerra justa? Ou era um nobre narcisista, cioso em obter por meio de sua elegância a estima de seu adversário e do público – notadamente feminino –, em combates frívolos, em jogos como os torneios? Ou tratava-se ainda de um feudal desconfiado e pragmático?
JU – Sem deixar de ser tributário de uma tradição historiográfica, seu trabalho também é profundamente inovador, contribuindo tanto para a crítica ao conceito de cavalaria quanto da dinâmica histórica que lhe é comumente atribuída, já que para o senhor a cavalaria, em parte, remontaria à Germânia antiga, ou seja, a um período anterior à instalação dos bárbaros no Império Romano. Para o senhor, o que define a cavalaria?

Barthélemy – Minha definição de cavalaria é próxima daquela de Maurice Keen, em seu grande livro de 1984, Chivalry [Cavalaria]. O cavaleiro cavaleiresco [aquele que guerreia a cavalo e que também cultiva valores e práticas próprios da cavalaria] é o nobre torneador; ele quer sobrepujar o adversário de mesmo estatuto sem matá-lo, e mesmo, demonstrando em relação a ele ímpetos de generosidade. No entanto, isso não se refere a tudo que fazem os cavaleiros, nem a tudo que as fontes medievais classificam sob essa palavra – mesmo que o habitus cavaleiresco seja estabelecido em lugares outros que os torneios, isso é episódico.
Essa cavalaria que chamo de “clássica”, aparece na França do Norte no final do século XI e início do século XII, difundindo-se plenamente entre 1130 e 1180. Meu livro é consagrado à procura de sua origem – não esclarecida por Keen. Talvez meu livro devesse ter sido intitulado: “dos bárbaros à cavalaria”. Definida dessa forma, a cavalaria não teria as origens “romanas” que lhe foram recentemente atribuídas por Karl Ferdinand Werner. Nela sobrevive e se acentua mais um senso aristocrático da honra que está muito mais presente nas tradições sociais francas, “bárbaras”.
Na Germânia descrita por Tácito [historiador romano que viveu entre 55 e 120], ou por ele idealizada em uma espécie de ficção literária, os jovens guerreiros nobres, ao se engajaram no comitatus [grupo de conquista e convivência em torno de um senhor guerreiro], têm desejo de honra e de ganho que nos leva a pensar nas futuras casas principescas da França feudal [aproximadamente séculos XI a XIII]. Para ambos os grupos, a palavra de ordem se mantém inspirar no adversário e na opinião pública uma admiração misturada a medo, e realizar combates mortais: a “germanidade”, no sentido moral e social – jamais no sentido racial –, consiste em um comportamento indômito. Este ainda impregna um pouco o mundo carolíngio [região sob dominação franca entre os séculos V-X], mas então começa a se operar uma valorização da clemência nas guerras civis. E são as guerras civis “feudais” da França do século XI, que constituem o ambiente propício para a invenção da cavalaria clássica com seus adubamentos e torneios. Os ideais e as práticas dessa cavalaria clássica vêm ao mesmo tempo se opor e se sobrepor àqueles da “germanidade” mitigada que também sobrevivem na guerra feudal.
JU – A cavalaria aparece de maneira marcante em nossa imaginação heróica informada pela literatura. Artur, Tristão, Lancelote, Ivan, Perceval e Galaaz, heróis que surgem na literatura por volta do século XII, são bastante conhecidos e mesmo admirados. No século XIX, o romance histórico, notadamente com Walter Scott, multiplica essa aproximação entre o que é a cavalaria na imaginação histórica comum e a cortesia. De que maneira esses dois momentos em que os cavaleiros se projetam para a ficção interferiram na definição historiográfica da cavalaria? É possível, e mesmo necessário, separar a cavalaria de sua aparição ficcional? 

Barthélemy – O interessante na França do século XII é que nela se desenvolvem, praticamente ao mesmo tempo, duas literaturas vernáculas para a glória ou uso dos guerreiros nobres. Essas duas literaturas, antes de se misturarem um pouco uma à outra, parecem-me exprimir respectivamente os valores da germanidade persistente (é o que temos nas canções de gesta) e os valores cavaleirescos novos – apresentados nos romans, com todos os personagens que você acaba de citar. A cavalaria tem uma necessidade intrínseca de se fazer ver (pensemos no espetáculo do torneio) e também de contar – mesmo na ficção – sob a forma de esboço, uma vez que ela é em si mesmo uma idealização. As ficções por si mesmas têm uma história interessante, em contraponto com aquela das práticas reais, que elas tentam por seu lado influenciar – cruzados combatem pensando em Rolando [personagem histórico carolíngio do século VIII retratado por volta de 1090 na narrativa épica A Canção de Rolando (c.1090)] e torneios são organizados como “távolas redondas”. Esses grandes modelos sofrem evoluções e transformações, até em sua literatura de cordel. Walter Scott e o romance histórico inventam novos heróis cavaleiros, em razão das expectativas do século XIX, que cria sua Idade Média sob medida para atuar em reação às revoluções burguesas. Mas, no final das contas, a cavalaria [clássica] medieval em si não surgiu de uma espécie de valorização dos guerreiros nobres face à emergência das elites urbanas concorrentes no final do século XI?
* Em francês utilizam-se duas palavras (feudalismo e feudalidade) para descrever dimensões teóricas diferentes daquilo a que os historiadores chamam, em português, apenas de “feudalismo”. Feudalidade designa a relação social intra-aristocrática fundamentada no compromisso feudo-vassálico no qual serviços militares são oferecidos em troca da concessão de um benefício, geralmente um bem fundiário, que confere autoridade jurídica. Feudalismo, por sua vez, se refere à relação de apropriação econômica entre a aristocracia 
 ‘O historiador tem mais a tomar da 
antropologia do que a lhe dar’



JU – Sua obra faz recurso à antropologia ao procurar entender a violência medieval do ponto de vista dos estudos sobre a “faida” ou a prática da vingança. O que permite essa aproximação entre sociedades tão diferentes? Quais os frutos dessa cooperação?

Barthélemy – Estamos longe da Idade Média e não paramos de nos afastar dela. Os leitores não têm necessidade de ler Mauss e seu Ensaio sobre o dom para compreender intuitivamente os artifícios simbólicos em Paris ou São Paulo! Por outro lado, temos cada vez mais necessidade de nos impregnarmos de antropologia, que é a sociologia das sociedades distantes, inatuais, para imaginar um pouco os mecanismos funcionais – as trocas, o recurso ao sagrado–, e creio no final das contas que isso nos torna munidos de melhores ferramentas do que o século XIX. A antropologia da vingança é muito útil para nos ajudar a não dramatizar demais essas guerras feudais sobre as quais se sobrepõe a cavalaria, a reconhecer seus limites, seus códigos e a perceber nela essa forma de conivência tácita ou expressa entre adversários nobres, que está na raiz da cavalaria.
Dito isso, partilho sua inquietude, pois há um risco no uso da antropologia: isso se dá quando se procura enquadrar arbitrariamente as fontes da Idade Média em modelos exteriores. Isso acontece com muita frequência atualmente, sobretudo devido a uma valorização excessiva das “problemáticas” e “modelos” no reino dos historiadores.
JU – No que diz respeito ao estudo da violência, a história medieval pode de alguma maneira contribuir com a antropologia?

Barthélemy – Em minha opinião, muito pouco, porque um medievalista sabe bem menos coisas a respeito da sociedade que ele estuda através de fontes lacunares e aleatórias do que um antropólogo a respeito daquela no meio da qual ele viveu – mesmo que sua abordagem permaneça parcelada e parcial. Foi por isso que escrevi em meu livro Chevaliers et miracles [Cavaleiros e milagres], que os cavaleiros da Idade Média são “quase tão interessantes quanto os Nuer do Sudão, estudados por Evans-Pritchard” – mas, apenas, quase! O historiador tem mais a tomar da antropologia, a título de sugestão, do que a lhe dar. Somos grandes predadores!
JU – Essa expressão, “grandes predadores”, é perturbadora e de certa forma recomenda que voltemos a um ponto anterior. Gostaria que o senhor discutisse um pouco mais detidamente o que entende como “valorização excessiva das ‘problemáticas’ e dos ‘modelos’ no reino dos historiadores”. 

Barthélemy – As doutrinas de Alain Guerreau sobre o “feudalismo”, repercutidas em A civilização feudal de Jérôme Baschet com mais tato, é verdade, são um bom exemplo de modelização excessiva. Ambos vêem na Igreja “a instituição dominante no feudalismo” – em detrimento da cavalaria, que para mim, teria mais direito ao título de instituição dominante! O que para mim é interessante na relação entre a Igreja e a cavalaria, não é reduzi-la a este modelo expedito, mas ver como sua conivência, que é frequentemente patente, por outro lado, nunca pode ser completa. Pode-se e deve-se, portanto, escrever uma história cheia de tensões e de compromissos, marcada por homens e grupos de homens, com seus afetos e estratégias...
JU – As teses que atribuem uma “violência endêmica” à idade Média normalmente advogam a existência então de uma sociedade politicamente invertebrada e carente de mecanismos de justiça pública. Sem aderir à tese da “violência endêmica”, seu livro apresenta a aristocracia guerreira dotada, até o século XII, de um caráter largamente arredio em relação aos poderes superiores, sem que chegue a contestá-los. A ideia de que a violência medieval tem mecanismos reguladores permite discutir algo a respeito da existência de formas eficazes de justiça e de poderes públicos? Como o senhor vê esse problema que praticamente é um divisor de águas na historiografia medieval?

Barthélemy – Saber se é preciso falar de Estado nesta ou naquela etapa da história sócio-política pode se tornar uma questão um pouco acadêmica. Penso concretamente que, na alta Idade Média, ainda que uma justiça coercitiva continue por vezes a se aplicar aos servos, aos camponeses, a aristocracia franca que tem comportamentos guerreiros e funções diversas – aí compreendidas as judiciárias –, é bastante autônoma em relação aos reis (que por seu turno ela serve e apoia na defesa da região) na resolução de seus conflitos internos. Assim, ela tem uma experiência com normas e limites da violência intrasocietária.
Essa experiência, se é preciso defini-la, me parece mais “germânica” que “romana”, e eu prefiro as intuições – e mesma aproximações – do século XIX às atuais experimentações romanistas – historiadores que advogam forte continuidade entre Antiguidade e Idade Média. Os historiadores das instituições, no século XIX, evocaram de maneira um pouco vaga o “espírito germânico” onde quer que eles sentissem que havia qualquer conceito ou prática muito diferentes das suas, mas funcionais: em suma, eles lançavam mão dessa etiqueta tantas vezes quanto nós utilizamos hoje em dia as sugestões da antropologia – vingança, propriedade, sacralidade, ritos “germânicos”.
JU – O problema da ruptura, ou não, entre Antiguidade e Idade Média é um divisor de águas entre os medievalistas que efetivamente produz visões de Idade Média muito diferentes. Seu trabalho de fato evita questões academicistas investindo fortemente na leitura documental. Que dados concretos dessa documentação, que o senhor conhece tão bem, o convenceram de que a perspectiva romanista é mais problemática do que as intuições germanistas? 

Barthélemy – Há verdadeiras heranças da administração romana nos reinos bárbaros e no mundo carolíngio, frequentemente subestimadas pelo século XIX (embora não por Fustel de Coulanges), mas como não notar que a sociedade mudou? Na Gália do norte, os romanos ricos se fizeram francos depois do batismo de Clóvis: o duque Lupo, evocado por Gregório de Tours e por Fortunato, é um exemplo muito interessante disso. Ele adotou usos de tipo germânico, isso é, uma moral da honra vindicativa e um ideal de liberdade aristocrática. Chamo isso de “germânico” mas em um sentido muito amplo, aplicável a todas as sociedades de honra aristocrática e de vingança que os romanos acham “bárbaras”.
Haveria nesse sentido uma germanidade dos árabes do tempo do Profeta –que seus descendentes chamaram de “tradição cavaleiresca dos árabes”. E nos mitos de origens troianas dos francos, a partir do século VII, se exprime um ideal germânico – sempre no sentido amplo. Talvez eu esteja errado em manter esse termo “germânico”, que pode se prestar à confusão. Na verdade, eu o utilizo, sobretudo, a exemplo de Jean Flori e de Régine Le Jan, para polemizar contra o romanismo integral de Karl Ferdinand Werner, que para defender seu ponto de vista chega a deslegitimar Gregório de Tours [escritor galo-romano do século VI], dizendo que sua obra não é uma fonte fiável!
É muito importante para a história ulterior da cavalaria o fato de que os termos miles e militia sejam traduzidos e compreendidos, na maior parte de suas ocorrências entre Carlos Magno e meados do século XI, como vassalo e vassalidade, e não como soldado e milícia. Sonho fundar uma associação para a defesa da vassalidade e da cavalaria em história medieval. Você me concederia a honra e o favor de sua participação?
JU – De bom grado! Depois de atribuir à cavalaria uma origem muito antiga, seu estudo se interrompe no século XII. Algo da cavalaria persiste para além deste século?

Barthélemy – De fato, meu ensaio tem por objeto apenas a gênese da cavalaria clássica, para a qual o lugar e o momento de referência são a França do norte, com a Lorena, entre 1130 e 1180, onde ela é abraçada por príncipes. As práticas cavaleirescas sobrevivem muito vigorosamente nos séculos XIII e XIV e vigorosamente até os séculos XV e XVI. Mas essa longa vida da cavalaria clássica já teve excelentes historiadores, especialmente Maurice Keen. Não retiro de meu horizonte, no entanto, acrescentar a meu ensaio de 2007 um segundo volume consagrado apenas à cavalaria clássica. Nesse caso eu trataria, em particular, da maneira como a Igreja e os Estados monárquicos engendraram, desde o século XIII, esforços de cooptação da cavalaria.
JU – O senhor fala em cavalaria dentro do território que corresponde, aproximadamente, à França atual. Há cavalaria em outras partes da Europa cristã ou o que temos nestas regiões deriva da adoção de fantasias literárias provenientes das cortes de língua “francesa”? 

Barthélemy – Seria preciso também neste segundo volume observar a adoção e adaptação dos ideais e práticas dessa cavalaria a quase todo o ocidente cristão. Trata-se de um aspecto daquilo que Robert Bartlett chama com humor e pertinência, de “europeização da Europa”! Mas para voltar à alta Idade Média e ao ensaio A cavalaria, aparecido na França em 2007, é certo que eu poderia ter-lhe dado uma orientação mais europeia se tivesse, por exemplo, nele introduzido páginas da História dos Lombardos de Paulo Diácono [monge beneditino, membro da corte de Carlos Magno que viveu no século VIII]. Mas, de toda forma, os elementos que integram o perfil da cavalaria clássica se encontram no império de Carlos Magno, ou seja, no império dos francos, da aristocracia franca.
Dessa maneira, a honra e o livre-arbítrio são amplamente preservados face ao governo carolíngio. E, sendo dado que é dos códigos e limites da guerra intrasocietária e não da guerra nas fronteiras culturais e sociais (face aos pagãos, aos muçulmanos, aos cristãos celtas) que pode surgir a cavalaria clássica, isso se dá na França capetíngia e principesca no século XI. Com efeito, este é o reino mais central no ocidente, o mais marcado pelas guerras civis e suas civilidades e, por outro lado, um dos mais ricos em aveia e um dos melhores herdeiros da civilização carolíngia.
JU – Seu estudo sobre a cavalaria tem um domínio contíguo do qual o senhor se ocupou em outra obra, os poderes locais. Este me parece um tema da maior importância, sempre latente nos estudos medievais, mas pouco desenvolvido devido às dificuldades de documentação. O que sabemos de fundamental hoje sobre os poderes locais na “França” medieval? De que maneira a cavalaria está aí implicada?

Barthélemy – Sim, os poderes são bastante locais: depois do final do século IX, a França erige castelos em que estão assentados senhores e vassalos, “barões” e “vavassalos de castelos”. No entanto, parece-me que exageraram sua autarquia e autonomia. Na verdade, há verdadeiras redes de castelos, entre as mãos dos príncipes regionais, grandes barões e de alguns prelados ou mantenedores de seu feudo. E em sua recomposição dos principados pós-carolíngios, portanto vassálicos, em minha opinião, é preciso seguir, com alguns reparos, a obra de Karl Ferdinand Werner.
Provavelmente é na casa dos grandes condes – e do próprio rei – que se difunde o ritual de adubamento e é seguramente nas guerras de príncipes que surge o torneio cavaleiresco, pois nelas se encontram adversários que são próximos o bastante para se compreenderem, se estimar mutuamente (e desprezarem juntos a canalha), e que são próximos o bastante para alimentar, entre si, ódios mortais ou querelas de herança. Assim, os torneios dão lugar a um espetáculo e também a um – relativo – fair play!
JU – Uma corrente de estudos sobre a cavalaria advoga que esta surge de uma classe social nova, em ascensão por volta do ano mil, que se consolida por volta do século XII por meio do apoio ideológico recebido da Igreja, que lhe confere legitimidade na medida em que aponta os cavaleiros como praticantes e defensores de ideais cristãos. O resultado mais evidente desse processo teriam sido as cruzadas. Como o senhor vê essas teses a respeito da cavalaria? Que lugar o senhor atribui à Igreja na história da cavalaria?
Barthélemy – Essa questão tem dois aspectos. Primeiramente, você evoca a teoria da ascensão de uma classe nova no século XI. Contra os teóricos da mutação do ano mil, à frente dos quais se encontra Georges Duby, “rompi lanças” na década de 1990, em um “torneio” mais cortês que destrutivo, mas de qualquer forma, o fiz com firmeza, pois, em minha opinião, essa tese é um erro completo. Ela me parece mesmo devastadora, pois, com essa ideia de uma classe ascendente carente de legitimação por volta de 1100, perdemos de vista a emergência de uma classe burguesa urbana, rival dos cavaleiros, face à qual eles se sobrevalorizam elaborando a cavalaria clássica com o apoio real – embora limitado e ambivalente – de seus príncipes.
No que diz respeito à Igreja, penso que ela não participa de nada concernente à mutação cavaleiresca [aquela que dá origem à “cavalaria clássica”] propriamente dita. Ela desaprova os combates frívolos dos torneios – sempre perigosos, a despeito do desejo de não se matarem entre si das pessoas de “boa extirpe” – e ela não toma parte nos adubamentos antes do final do século XII. A ideia e a prática da cruzada, que é uma guerra séria e autoqualificada de justa, assassina e sacrificial, estão em verdadeira antítese com o torneio e portanto com a cavalaria tal como a definimos – e tal como a amamos um pouco –, Maurice Keen e eu. É verdade, no entanto, que uma vez que desenvolveu a cruzada no mesmo momento em que viceja o torneio, a Igreja pode contribuir para a manutenção da presença da aristocracia: é uma outra sobrevalorização, concorrente e, logo, complementar da sobrevalorização propriamente cavaleiresca.
JU – Um certo discurso difundido por vários meios procura estabelecer a história como testemunho de uma longa inamistosidade entre cristãos e muçulmanos. Embora a historiografia comprove amplamente que essa visão é equivocada, ela é forte. Do ponto de vista das relações conflituosas entre cristãos e muçulmanos, a Idade Média pode nos ensinar algo?

Barthélemy – A guerra santa cristã e a dos muçulmanos se parecem como irmãs, com a diferença de que nesta última os religiosos não enquadram o jihad tão estreitamente como acontece com a cruzada. Acontece que, no enfrentamento, os inimigos se compreendem. Um autor árabe faz o elogio dos mamelucos chamando-os de “Templários do Islã” – mas, em princípio, os Templários não são cavaleiros cavaleirescos mas, sobretudo, soldados e milicianos, termos nos séculos XII e XIII que cabem a eles mais do que a quaisquer outros.
Dos dois lados, não é raro que, a despeito dos princípios, se misture um vivo desejo de glória e de lucro. Acontece por outro lado que na Síria e na Palestina, entre 1100 e 1140, as relações entre os senhores francos e os senhores árabes ou turcos sejam coloridas por negociações, resgates, enfrentamentos lúdicos. Elas lembram mais a guerra feudal do que a guerra santa, e pode-se ter a impressão ao ler Usama ibn Munqidh, de um encontro e de uma conivência entre as duas cavalarias. Isso se mantém, no entanto, uma tendência limitada e passageira, sobre o fundo da guerra intersocietária, bem mais dura que as guerras feudais.
A conivência com os adversários muçulmanos é, em compensação, muito presente – ao lado do ódio pelo outro – no imaginário cristão. Em muitas canções de gesta, o adversário sarraceno é admirado, admirativo, com ele se compactua, mais, ou menos. Veja também tudo o que se escreveu de positivo a respeito de Saladino na Europa do século XIII sem que se encontre algo de comparável no imaginário arabe-muçulmano.
JU – Seu livro começa com uma breve referência às cruzadas que, ao lado dos torneios, concentram as atenções daqueles que pensam em qualificar as ações guerreiras propriamente cavaleirescas, como marcadas pelos ideais da cortesia e da abnegação. As cruzadas são um fenômeno para o qual as explicações ainda me parecem largamente insatisfatórias. O estudo da cavalaria de alguma maneira o ajudou a ter uma visão particular a seu respeito?
Barthélemy – A época das cruzadas corresponde àquela dos torneios, àquela em que a Igreja reprova e interdita formalmente estes últimos – tratando por meio de indulgências o caso dos cavaleiros mortos em torneio. Inicialmente opostas, essas duas práticas acabam por funcionar para a cristandade do século XII e do século XIII, como nossos músculos antagonistas. O torneio treina os cavaleiros para, entre outras guerras, a cruzada. E, mais do que isso, ele os coloca em pecado, ou seja, na necessidade de terem de se resgatar participando das cruzadas.
A ideia de cruzada contra os “infiéis” de fora (muçulmanos) e também de dentro (hereges) contribui muito para essa inflexão do ideal cavaleiresco ainda mais na direção do recrutamento ao serviço da Igreja e das monarquias nacionais, da qual eu falava há pouco.
JU – O cerne de seu estudo a respeito da cavalaria é devedor à antropologia, mas também a um procedimento metodológico típico dos estudos históricos, que é a forte crítica documental. É sempre por meio dela que o senhor estabelece o diálogo com as teses de seus colegas do presente e do passado o que dá uma grande força argumentativa a seu texto. O senhor consegue fazer um balanço do futuro da história? Acredita que ela se manterá uma área de produção do conhecimento autônomo? Continuará fortemente interdisciplinar? 

Barthélemy – Não sei se a história vai manter sua autonomia em relação às ciências sociais, mas eu gostaria! Seria melhor que a antropologia, ou a linguística, ou outras ciências, permanecessem para a história, disciplinas auxiliares. A “problemática” é estimulante, ela protege contra muita ingenuidade e contrassenso, mas é preciso que ela não eclipse todo o resto, que venha a dissuadir os historiadores de observarem bem os textos (ou outras fontes), seus detalhes, suas dificuldades e de buscar neles o novo, o inatingido, tudo o que surge nos documentos cada vez que estes são lidos sob a injunção dos interesses de cada novo momento social, sob a pressão daquilo que lhe é importante e que constitui um novo valor.
A história é feita para que nos desprendamos de nós mesmos nos confrontando com a alteridade do passado, a seu desafio e não para nos confortar. Ela é feita também para nos ensinar a complexidade das sociedades e a dificuldade de seu estudo. Ela é feita, enfim, para nos lembrar do trágico, ou o sabor do destino humano. Gostaria muito que meu livro sobre a cavalaria tivesse contribuído para isso. Será que consegui?
A CavalariaDa Germânia antiga à
França do século XII
Autor: Dominique Barthélemy

Tradução: 
Néri de Barros Almeida e Carolina Gual

Páginas: 
624 páginas

Área de interesse:
 História

Sinopse: O que foi historicamente a Cavalaria? Seus registros na documentação medieval não estão limitados às narrativas ficcionais, e é legítimo perguntarmos que ligação a literatura cortês, que nos fascina com Lancelote, Ivan e Tristão, tem com a Cavalaria tal como nos surge a partir de um quadro documental mais vasto. Em nossa memória, entram em acordo e, por vezes, se diluem em dado comum os conceitos de Cavalaria e cortesia. No entanto, ambos merecem tratamento histórico diferenciado. O que, portanto, define a Cavalaria? Dominique Barthélemy discute essas questões com profundidade e convence-nos do quanto nossa imaginação da Cavalaria é quixotesca e quão mais antiga e complexa é sua realidade documental. (Néri de Barros Almeida)

Néri de Barros Almeida - é professora de História Medieval da Unicamp e coordenadora associada do Laboratório de Estudos Medievais (Leme), que reúne professores e pesquisadores da área atuantes na Unicamp, USP, Unifesp, UFMG e UFG

Jornal UNICAMP

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Fé e Razão no Ocidente Medieval


VOLTAIRE SCHILLING
Durante os primeiros séculos da ascensão do Cristianismo como religião oficial do Império Romano e depois dos Reinos Bárbaros, a apologia da fé foi o principal motor da Patrística, a teologia da nova crença. Formou-se então um campo próprio: o campo da fé. Com o tempo, e com a consolidação do poder da cruz, um novo território se fez necessário abrir, o do campo da razão.

O Campo da Fé
O desabamento do Reino dos Césares e a 'pavorosa revolução' que se seguiu a partir do século V, provocaram profunda e radical mudança nos costumes dos homens e mulheres daquela época. Um querer afastar-se de tudo, um sincero desejo de renuncia da vida tomou conta de boa parte da antiga elite do Império Romano, atitude que contaminou inclusive os germanos recém chegados e recém convertidos ao cristianismo. Multiplicaram-se então os mosteiros e os conventos, considerados como os únicos espaços adequados ao que restava da existência de um cristão na Terra.

O monaquismo se espalhou pela Europa bárbara como fogo em palha Entenderam aqueles edifícios, imponentes construções de pedra que dominavam os altos das colinas e das montanhas de boa parte da Europa, como os únicos habilitados, graças ao ambiente angélico, a promoverem a entrada de um crente no Reino dos Céus.
O mosteiro ou o convento era a Cidade de Deus aqui na Terra, o protótipo humano do mundo da perfeição que certamente os bem-aventurados encontrariam no Além. Chateaubriand, um apologista do Cristianismo, os denominou como 'espécies de fortalezas que a civilização se abrigou sob o pendão de qualquer santo(...) sem a inviolabilidade do claustro, os livros e as línguas da Antiguidade não nos teriam sido transmitidas..'(cit. por Daniel-Rops, pág.407).

Apesar de dotados de farta livralhada, códices, rolos e pergaminhos antigos, as bibliotecas monacais não estavam voltadas para o conhecimento mas para a exaltação e celebração de Deus. Em suas mesas debruçavam-se os copistas, monges laboriosos e pacientes que reproduziam uma a uma, com caligrafia finamente trabalhada, as páginas dos Livros Sagrados ou as dos sábios e literatos pagãos. Impediram assim com seu dedicado labor que os memoráveis preceitos e os diversos estilos do passado viessem a cair no esquecimento, preservando-os para o futuro.

As Ordens Religiosas
Surgem então as primeiras Ordens Religiosas (*): em Montecassino fundou-se a Abadia dos Beneditinos, no ano de 529, por iniciativa de Bento de Núrsia, o prior responsável pela fixação das famosas Regula Benedicti que serviriam de modelo para as demais constituições monacais que iriam se formar posteriormente. Entre elas a famosa Ordem Cluniacense ou de Cluny fundada por S.Bernardo na Abadia de Clarivaux, o 'Vale da Luz', na Burgúndia, no ano de 1115. Em 1209 foi a vez de Alberto de Jerusalém legar regras para a Ordem dos Carmelitas, monges que moravam no Monte Carmelo, na Terra Santa.

Neste mesmo ano, Francisco di Boldone, um filho de um bem sucedido comerciante de tecidos da Úmbria que abandonara a família para dedicar-se aos pobres e aos desvalidos, também estabelece as regras para os seus companheiros, os irmãos franciscanos, os Penitentes de Assis, a quem, repetindo o Evangelho de Mateus, teria dito 'todo aquele que quiser seguir-me, renuncie a si mesmo e tome a sua cruz'.

Dois anos depois da morte dele, seus seguidores da Ordem dos Irmãos Menores, providenciaram a edificação da monumental Basílica de Assis, em 1228. A Ordem dos Irmãos Pregadores, por sua vez, mais conhecida como Dominicana, autodesignada como a 'Milícia de Cristo', bem mais intelectualizada do que a dos franciscanos, foi fundada pela mesma época ,em 1217 em Toulouse, na França por S.Domingos de Gusmão, o seu primeiro Mestre-Geral. Ainda que sua intenção era combater a heresia dos cátaros, não se descuidou de estar presente em Roma por meio dos conventos de São Sisto e de Santa Sabina.
(*) Ordem, para os romanos chegou a designar um corpo privilegiado isolado do resto e investido de responsabilidades particulares. Também foi percebida como uma organização justa e boa do universo, aquilo que a moral, a virtude e o poder têm como missão conservar. Entenderam-na por igual como 'um exército que lutava contra o mal', com diferentes tarefas e diferentes ofícios hierarquizados.(ver G.Duby - Los tres órdenes.... pág. 99-102)

sábado, 7 de novembro de 2009

Europa, ano 1000


Europa, ano 1000
Na passagem do primeiro para o segundo milênio da era cristã, o Ocidente vivia mergulhado em guerras, terrores e superstições: o fim do mundo estava próximo.
Na passagem do primeiro para o segundo milênio da era cristã, o Ocidente vivia mergulhado em guerras, terrores e superstições: o fim do mundo estava próximo.

Era um tempo de medo. Há mil anos, na mesma Europa que agora se prepara para ingressar, próspera e unida como nunca, no terceiro milênio do calendário cristão, os homens viviam o pior dos mundos. O irreversível desmoronamento, século após século, do que ainda restava da civilização greco-romana, depois do fim do Império Romano do Ocidente, no século V, transformara o território europeu em campo de batalha onde gerações sucessivas se guerreavam interminavelmente — visigodos e vikings, bretões e saxões, vândalos e ostrogodos, magiares e eslavos,um sem-fim de povos que não por acaso entraram para a História sob a denominação coletiva de "bárbaros". Além da violência, a miséria, a ignorância e a superstição recobriam a Europa na marca do ano 1000.

A centralização política abençoada pela Igreja na virada do século IX, com a coroação de Carlos Magno, rei dos francos e dos lombardos, no trono do Sacro Império Romano, em 800, produziu um lampejo de renascimento cultural ao redor de sua corte em Aix-la-Chapelle (ou Aachen, na atual Alemanha). O que pudesse haver de paz e progresso, porém, não sobreviveria muito tempo ao imperador, falecido em 814. Fragmentada em reinos cada vez mais fracos, apesar da tentativa de restauração imperial, em 962, comandada pelo rei germânico Otto, o Grande, a Europa Ocidental se converte numa colcha de retalhos de governos locais. Papas e imperadores, uns e outros invocando direitos divinos, competiam pelo poder, celebrando alianças movediças com príncipes, duques, condes, bispos que também acumulavam títulos de nobreza e ainda uma vasta gama de barões da terra. Tudo isso só fez apressar a pulverização do continente em feudos.

Os proprietários de terras transformavam seus domínios em unidades autônomas, territórios com fortificações feitas de árvores e espinheiros e com habitações cercadas de paliçadas. Registrou um observador do ano 888: "Cada qual quer se fazer rei a partir das próprias entranhas". A cidade, como sede da política e da administração, centro do comércio e do conhecimento, à maneira de Roma, Atenas ou Alexandria na Antigüidade clássica, virtualmente inexistia na paisagem ocidental desse período. Havia, é bem verdade, burgos descendentes dos centros fundados pelos conquistadores romanos, como também ajuntamentos de um punhado de milhares de almas, nascidos da presença, nas proximidades, de um mosteiro ou de um vale fértil, ou do fato de se situarem no centro de uma região dominada por um príncipe. Nada, porém, que se comparasse a Constantinopla (hoje Istambul), capital do Império Romano do Oriente, com suas centenas de milhares de habitantes, abastado comércio e porto movimentado.

Há cerca de mil anos, amplas extensões do continente europeu eram constituídas de florestas um mundo sombrio, estranho e ameaçador aos homens que construíam povoados, cultivavam cereais e criavam gado em grandes clareiras nas suas cercanias, numa economia de pura subsistência, da mão para a boca. A construção de castelos, abadias e mosteiros ocupava igualmente muitos braços. Mas o principal motor da atividade econômica era a guerra: a necessidade de produzir armas, acumular provisões para a tropa e pagar os mercenários em metal sonante estimulava o comércio. Perigos reais, como os animais selvagens, e terrores imaginários, como monstros e demônios, espreitavam os aldeões que adentravam a mata em busca de carne de caça e de mel, a única fonte de açúcar dos europeus de então. Vista pelos olhos de hoje, a vida cotidiana tinha tons de pesadelo.

As aldeias, com suas poucas dezenas de casas mambembes, eram de um primitivismo de dar dó—nada que pudesse lembrar nem as edificações do passado pré-cristão no Egito, Mesopotâmia, Grécia e Roma, nem as construções contemporâneas de povos tão diferentes entre si como árabes, chineses e incas. As habitações eram muito pequenas, de madeira, com coberturas de palha que chegavam rente ao chão. Janelas, quando havia, eram simples buracos. Móveis eram escassos. Animais compartilhavam o parco espaço com a família. Algumas casas eram precariamente cercadas por muros de adobe; outras, por grossas sebes de espinhos. Os germanos chamavam tais espinheiros zaun, o que daria em inglês, significativamente, thorn (espinho) e town (cidade).

Se um europeu atual caísse do céu num dia qualquer numa dessas aldeias talvez presenciasse uma cena que o deixaria escandalizado, com razão, mas cujo sentido lhe escaparia. Um homem, semidespido, corre em círculos; dois outros, tochas nas mãos, tentam queimar-lhe o traseiro, enquanto o populacho morre de rir. A grosseira palhaçada é séria: o homem está sendo castigado pelo roubo de um cachorro. O ladrão até que poderia ter se livrado do vexame se tivesse 5 soldos ou moedas de cobre para indenizar o dono do cão, mais 2 soldos de multa para o Conselho que fazia as vezes de governo do lugarejo — tão rústicos haviam se tornado a administração da justiça e o sistema de governo. A punição, em todo caso, dá idéia do valor dos cachorros em tais sociedades como auxiliares de caça freqüentemente dizimados nas incursões à floresta. Outros animais, como cervos, cavalos e falcões, eram também valorizados, com castigos à altura para os ladrões. Entre os burgúndios, povo germânico que vivia no que viria ser a Áustria, a um falcão recapturado era servido 1,5 quilo de carne crua—sobre o peito do ladrão.

O treinamento do homem medieval como caçador e guerreiro começava depois da barbatoria, o rito de iniciação que consistia na raspagem da primeira barba do jovem, por volta dos 14 anos. A partir de então, o rapaz deveria exercitar-se em corrida, natação, montaria (com o cavalo em movimento e sem estribo, que só apareceria em meados do século XI) e no manejo do arco, do machado e da espada. O homem passava da infância à condição adulta em pouco tempo porque pouco também era o tempo de vida. Morria-se geralmente por volta dos 30 anos, a mulher ainda mais cedo, quase sempre de parto. Os historiadores calculam que de cada 100 crianças nascidas vivas 45 morriam na infância. Diante disso, era preciso que houvesse muitas mulheres e muitas crianças para assegurar a sobrevivência das comunidades.

Por isso, conquistada uma aldeia, as mulheres e crianças pequenas eram levadas pelos vencedores como despojos de guerra. O resto da população, ou mais especificamente "todos aqueles capazes de mijar contra a muralha", segundo uma expressão da época, eram passados pelo fio da espada. Pelo mesmo motivo, entre os francos, quem batesse numa mulher grávida era condenado a pagar 700 soldos de multa; se matasse uma jovem solteira, portanto em idade fértil, pagaria 600 soldos. Mas, se matasse uma mulher idosa, só desembolsaria duzentas moedas. Morria-se com facilidade nas florestas, nos vilarejos e nos caminhos entre eles. Naturalmente, procurava-se viajar apenas de dia, calibrando o percurso de modo a se estar ao alcance de um mosteiro ao cair da noite. A hospitalidade, ao menos a dos religiosos, era algo sagrado na época. Os mosteiros costumavam ter dependências especiais para abrigar os viajantes, aos quais era praxe fornecer pão e vinho — uma frugalidade para os padrões alimentares vigentes. De fato, quem podia, como os monges, fartava-se de comer. A gula, aparentemente, não figurava entre os pecados capitais e a sabedoria convencional dizia que, quanto mais farta, gorda e pesada fosse uma refeição, mais saudável seria a pessoa e mais filhos poria no mundo.

Uma dieta diária à base de muito pão, sopa, lentilhas, queijo, e ainda vinho ou cerveja à farta, totalizava algo como 6 000 calorias, mais que o dobro do que se considera hoje necessário, em média, a um trabalhador braçal. Nos banquetes, que podiam durar até três dias, a comilança incluía também ovos, aves e carnes de caça.

A vida de todos os dias, para a mente medieval, estava tão impregnada de eventos extraordinários que não havia como separar realidade e fantasia. O europeu de mil anos atrás acreditava piamente em milagres e apocalipses. Como a Terra imaginada imóvel no centro do Universo, a Igreja era o único ponto fixo de referência para os homens da época—uma instituição segura num mundo onde o poder político não cessa de mudar de mãos ao sabor dos golpes de espada entre os senhores da terra e os príncipes leigos e clericais em seus eternos conflitos. No século X, uma das preocupações da Igreja tinha a ver com a persistência dos resquícios de paganismo nos cultos praticados pelas populações que de há muito professavam a fé cristã. A luta contra a herança pagã se dava, por exemplo, em relação à morte. A atitude das pessoas diante da morte era ambígua. Naquela sociedade tão brutal, em que a morte violenta fazia parte do cotidiano, os mortos eram especialmente temidos. Os cemitérios ficavam afastados das povoações e os túmulos cobertos de arbustos espinhosos para impedir que os cadáveres viessem atormentar os vivos. Além disso acreditava-se que os mortos precisavam ser apaziguados de tempos em tempos, o que se fazia mediante grandes banquetes funerários, nos quais as famílias dos falecidos os obsequiavam com comidas, cantos e danças — um costume que, pelo visto, não parece ter conhecido fronteiras ao longo da história humana. Condenando severamente esses rituais, os padres trataram de ocupar-se eles próprios da questão. Em conseqüência, cemitérios passaram a existir dentro das aldeias, ao redor das igrejas. Sepultados em campo-santo, os mortos ficariam em paz, não havendo mais razão para a angústia dos vivos nem para práticas reprováveis. E, realmente, o culto pagão dos mortos foi rareando até desaparecer de vez.

A Igreja concentrava toda a cultura erudita. O alto clero falava latim, língua em que também eram redigidos os raros documentos da época— textos que serviam para estabelecer direitos, como cartas de transferência de propriedades e notificações de decisões reais—, pois o uso da escrita, já muito restrito, desapareceu quase por completo depois de 860. Nos mosteiros, os monges copistas reproduziam minuciosamente os livros sagrados e as obras dos filósofos gregos, como Aristóteles, cujo pensamento era considerado compatível com a doutrina oficial do cristianismo. Um monge gastava um ano de trabalho para fazer uma cópia da Bíblia. Duro favor. "Embaralha a vista, causa corcunda, encurva o peito e o ventre, dá dor nos rins", deixou registrado um copista. "É uma rude provação para todo o corpo."

Dos mosteiros se propagava também, pela voz dos abades nos sermões que acompanhavam as missas, uma terrível profecia que submeteria os fiéis a outro tipo de provação: o fim do mundo exatamente no ano 1000, com a ocorrência, em sucessão, de incomparáveis acontecimentos, como a aparição do Anticristo, a volta de Jesus à Terra e o Juízo Final—o julgamento de todos os homens por Deus. A crença no fim do mundo no ano 1000 derivava de uma interpretação literal de um dos mais obscuros textos bíblicos, o Apocalipse de São João. De fato, ali se lê que "depois de se consumirem mil anos, Satanás será solto da prisão, saindo para seduzir as nações dos quatro cantos da Terra e reuní-las para a luta (...). Mas desceu um fogo do céu e as devorou (...) e os mortos foram julgados segundo as suas obras (...). Vi, então, um novo céu e uma nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra desapareceram e o mar já não existe". Esse "milenarismo crasso", como dizem os comentaristas do Novo Testamento, apropriou-se dos corações e mentes dos europeus.

Quanto mais se espalhava a profecia e mais próximo se estava da data fatal, mais apareciam indícios infalíveis do fim dos tempos —um eclipse, um incêndio inexplicável, o nascimento de um bebê monstruoso, uma praga agrícola, a passagem de um cometa no céu, o relato da aparição de uma baleia do tamanho de uma ilha na costa francesa, a grande epidemia de 997. Uma crônica de um certo Sigeberto de Gembloux descreve um "terrível tremor de terra" e a imagem de uma serpente vista através de uma fratura no céu. Muita gente doou todas as suas posses, muitos também se inflingiram cruéis castigos, a título de penitência. Os historiadores interpretam o "terror milenar" que se apossou dos europeus como uma expressão do caos político que se seguiu à desagregação do Sacro Império, desenhada com tintas fornecidas pelas Escrituras. Em 954, um Pequeno tratado do Anti- Cristo, de autoria de Adson, abade de Montier-en-Der, França, previa o fim do mundo depois de "todos os reinos estarem separados do Império Romano, ao qual haviam estado anteriormente submetidos".

O mundo, como se sabe, não acabou na passagem do milênio, nem no ano seguinte, nem no outro. Aos poucos, os homens começaram a suspeitar que o Apocalipse, afinal, não viria. Assim, em 1033, justamente no milésimo aniversário da Paixão de Cristo, um texto permitia-se festejar a "alegria dominante no Universo" — apesar da fome que devastava a Europa, do mau agouro representado por um eclipse solar e do desassossego causado pela revolta contra o papa Benedito IX, que ascendera ao trono com a extraordinária idade de 13 anos.

À espera do apocalipse: o continente na virada do milênio

Por volta do ano 1000, o Império Russo cobria a maior parte dos territórios europeus do leste, tendo o seu centro no principado de Kiev, na Ucrânia. População, língua e costumes eram eslavos. A dinastia tinha origem viking. A unidade do império era precária: Novgorod e Kiev eram governadas por diferentes membros da dinastia. Mesmo assim, amedrontava os povos balcânicos e servia de pára-choque entre os impérios e tribos do Oriente e os da Europa.

Entre a Rússia e a Alemanha, estavam, de um lado, os povos do Báltico, relativamente independentes das influências germânicas e cristãs; de outro, os reinos da Polônia, Hungria e Boêmia. Seus habitantes eram eslavos ou aparentados a eles no idioma e nos costumes, embora já começassem a se ocidentalizar.

Na Europa Ocidental, as populações da Alemanha, Itália, França e das llhas Britânicas eram cristãs, ou, como no caso dos vikings da Escandinávia, prestes a se converter ao cristianismo. O Império Bizantino se estendia, a oeste, até o sul da Itália. Mas o Reino da Sicília, assim como a Península Ibérica (menos o norte), fazia parte da Europa muçulmana.

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