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terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Não faça como Santos Dumont

 
Santos Dumont em seu voo pioneiro: sem patente / Foto: Iconographia

REGINA ABREU

Ninguém duvida que o brasileiro é criativo e tem imaginação de sobra. Desde Santos Dumont, que criou o avião e o relógio de pulso, até os inventores da urna eletrônica, do motor flex – que funciona tanto com álcool quanto gasolina –, do biocombustível, do bina (aquele aparelho identificador de chamadas telefônicas) e até do espaguete de espuma, que serve como boia de piscina, não faltam exemplos da criatividade dos nossos compatriotas.

Mas não basta inventar, é preciso registrar a patente. Esse cuidado não teve, por exemplo, Santos Dumont, que nunca se preocupou em patentear seus inventos, ao contrário dos irmãos Wright, dos Estados Unidos, que foram mais espertos: eles trabalhavam num projeto semelhante e tiveram a iniciativa de registrar a patente.

Então, se é imprescindível registrar os inventos, por que o Brasil concede tão poucas patentes? Segundo o último relatório da Organização Mundial da Propriedade Intelectual (Ompi), com dados de 2012, em pesquisa realizada entre 20 países, o Brasil só ganha da Polônia, ocupando o modestíssimo 19º lugar, com 41.453 patentes válidas, apenas 211 a mais que a nação do leste europeu. Perdemos até para o minúsculo principado de Mônaco, que aparece com 42.001 patentes, e estamos a anos-luz dos Estados Unidos, que conquistaram o primeiro lugar, com, pasmem, 2,2 milhões de registros.

O órgão responsável pela concessão de patentes em nosso país é o Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi), com sede no Rio de Janeiro. Trata-se de uma autarquia federal, criada em 1970, vinculada ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC). Sua finalidade principal, segundo a Lei da Propriedade Industrial, é executar, em âmbito nacional, as normas que regulam a propriedade industrial, tendo em vista sua função social, econômica, jurídica e técnica. Criado em substituição ao antigo Departamento Nacional da Propriedade Industrial, o Instituto acrescentou às tarefas tradicionais de concessão de marcas e patentes, também a averbação dos contratos de transferência de tecnologia e, posteriormente, o registro de programas de computador, contratos de franquia empresarial, registro de desenho industrial e de indicações geográficas.

Um dos motivos para o baixo número de patentes no Brasil, segundo os especialistas do setor, é a demora na concessão, que desanima e desestimula os inventores: nunca menos de cinco e até 14 anos para obter o registro. Essa demora vem aumentando: em 2003 a média era de cerca de seis anos para a concessão de patente de invenção; em 2008 passou para nove anos e em 2013 para 11 anos. Os setores mais penalizados com essa demora são os de telecomunicações, alimentos e plantas, biologia molecular, física e eletricidade, bioquímica, computação e eletrônica, farmácia e agroquímicos. Uma das causas para prazos tão longos é o baixo número de examinadores em relação à quantidade de pedidos na fila para exame. No último cálculo, de 2013, eram 980 pedidos por examinador, enquanto na nação de Barack Obama, no mesmo ano, cada examinador tinha apenas 77 pedidos sob sua responsabilidade.

O diretor de patentes do Inpi, Júlio César Moreira, explica que o Brasil está entre os 15 escritórios do mundo considerados autoridades de referência. “Nossos números não são pequenos, mas baixos em relação ao tamanho de nossa economia. Poderíamos estar melhor”, observa. De fato, o órgão está com um atraso muito grande na concessão de registros. A quantidade de pedidos, o chamado backlog, se acumulou ao longo dos anos. “Estamos hoje na era do conhecimento e mais do que nunca é preciso investir em inovação e na proteção dessa inovação”, ressalta, explicando que o Inpi está se fortalecendo com qualidade. Para ser examinador é preciso ter pelo menos mestrado – são biólogos, químicos, engenheiros, médicos, arquitetos, farmacêuticos. Havia 200 examinadores e em março/abril deste ano entraram mais cem concursados. O número total deve chegar a 700 examinadores. Além disso, de acordo com Moreira, o Instituto precisa de mais informatização, mais pessoal, mais infraestrutura, acesso a banco de dados, internet rápida etc.

Valores acessíveis

Moreira explica ainda que, até 2008, houve um aumento de 10% no número de pedidos de patente no mundo, inclusive no Brasil. A crise chegou um pouco mais tarde aqui, mas nos últimos três anos houve uma estabilização na quantidade de solicitações. É importante prestar atenção nesses números porque eles refletem o grau de interesse de outros países em investir no Brasil e a capacidade que o Brasil tem de inovar. Inovar mesmo, não apenas usar uma inovação que só é nova aqui.

Por enquanto, outra explicação que o diretor do Inpi dá para o ainda pequeno volume de patentes no país é que as pequenas e médias empresas, e as pessoas de modo geral, têm pouco conhecimento sobre a necessidade de patentear – por isso estão fragilizadas em relação às concorrentes no mundo. Ele explica que é necessário registrar porque o inventor tem um gasto e esse investimento precisa ter retorno. Esse retorno vem com a patente, impedindo que outros se apropriem daquele bem.

É importante a disseminação da propriedade intelectual – isto é, a noção de que aquilo que a pessoa inventa ou aperfeiçoa tem valor. Ao contrário do que se imagina, patentear não é custoso: o preço para dar entrada no pedido é de R$ 1.000, incluindo anuidade, com financiamento do governo federal – pequenas empresas têm até 60% de desconto.

Para Moreira, é necessário ter gente nas empresas com essa visão de dar valor às ideias e inovações. Nesse sentido, o Inpi tem conseguido muito sucesso em algumas escolas superiores, casos da Universidade de São Paulo (USP), Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Para esclarecer o assunto, é bom lembrar que patente é um monopólio de exclusividade, concedido pelo Estado, para o criador de um produto que possa ser fabricado em escala industrial. Ou seja, é um privilégio legal concedido pelo estado aos autores de invenções de produtos, de processos de fabricação ou de aperfeiçoamento de produtos e processos já existentes. Essa permissão especial é reconhecida por meio de um documento chamado carta patente, uma instituição econômica e jurídica, destinada a definir a propriedade tecnológica. A obtenção da patente permite ao respectivo titular a reserva de mercado pelo período de sua validade.

Assim, por exemplo, a máquina de lavar, quando foi inventada, recebeu uma patente; depois, quando foi aperfeiçoada e ficou digital, recebeu outra patente, de modelo de utilidade. A Lei de Propriedade Industrial estabelece ainda a concessão de certificado de adição de invenção, como um acessório da patente de invenção, e a concessão de registro de desenho industrial.

A carta patente assegura ao seu titular a exclusividade de exploração do objeto da patente, por um período determinado de anos. Dentro desse tempo, o titular pode industrializar o produto que inventou e também pode vender ou transferir a terceiros, temporária ou definitivamente, os respectivos direitos. Ao final do prazo estipulado, a invenção cai em domínio público, podendo ser livremente explorada por qualquer pessoa.

A primeira lei brasileira sobre patentes data de 28 de agosto de 1830, oferecendo proteção a uma descoberta, a uma invenção ou a um aperfeiçoamento pelo prazo de cinco a 20 anos. Atualmente, no Brasil, o direito do inventor ao usufruto de sua criação está garantido pela Constituição Federal de 1988, devidamente regulamentado pela chamada Lei da Propriedade Industrial.

É importante destacar que a patente é válida apenas nos países onde foi requerida e concedida essa proteção. E mais: quando o interessado deposita um pedido de patente, passa a usufruir uma expectativa de direito – o direito exclusivo do titular começa a existir apenas com a concessão da chamada carta patente. Só a partir dessa concessão o titular poderá impedir que alguém não autorizado se aproprie de sua invenção. Ficou confuso? É mesmo complicado, e é por isso que o inventor precisa de orientação profissional que lhe pavimente o caminho das pedras.

Efeito silencioso

Diz o diretor de patentes do Inpi: “Se você inventar algo, deve primeiro se certificar de que não há nada igual ou parecido no mundo, por intermédio de pesquisa; depois, procurar um profissional especializado que o oriente e faça o acompanhamento do processo de solicitação de patente”. Não faltam pessoas sérias e competentes que atuam na área, que fazem, inclusive, a pesquisa prévia. Calcula-se que haja cerca de 500 escritórios no Brasil fazendo a ponte entre inventores e Inpi.

Um desses profissionais é o engenheiro, advogado e analista de patentes Alexandre Fukuda Yamashita, sócio responsável pelo setor de patentes do escritório Müller Mazzonetto, em São Paulo. Ele comenta que é comum a ideia de que não é eficaz a aplicação dos direitos das patentes no Brasil, porque os resultados não são imediatos. Além disso, há empresários que investem na proteção de suas tecnologias, mas usam essa patente apenas quando há litígios judiciais por violação dos direitos, quer dizer, quando um concorrente passa a explorar tecnologia idêntica ou similar à protegida, sem autorização. Mas é um engano: a patente é capaz de gerar efeitos silenciosos.

O efeito mais óbvio é quando os concorrentes simplesmente respeitam a patente, evitando a exploração indevida do produto patenteado. Outro efeito silencioso a que se refere Yamashita é o seguinte: normalmente, antes do lançamento, avalia-se se determinado produto é viável comercialmente. Quando se identificam patentes, há a mudança de planos e até a suspensão de projetos, de modo a evitar as sanções legais. Do mesmo modo, quando uma empresa tem um bom portfólio de patentes, protegendo toda e qualquer tecnologia passível desse resguardo, cria uma imagem de usuária do sistema de propriedade industrial e adquire um rótulo de empresa inovadora. Resultado: os concorrentes passam a ter mais cautela na eventual imitação ou reprodução de produtos dessa empresa.

Por tudo isso, Yamashita afirma que é eficaz a aplicação dos direitos das patentes no Brasil, o sistema funciona e a cultura da propriedade intelectual está crescendo. Naturalmente, há uma inevitável burocracia, um grande volume de documentos e prazos que precisam ser respeitados – por isso mesmo, mais um motivo para escolher uma boa assessoria.

Outro registro concedido pelo Inpi é o da marca. Paula de Araújo Formigoni, advogada do departamento jurídico da Assessoria Brasileira de Marcas (ABM), esclarece que são duas patentes diferentes: a do produto e a da marca. E dá um exemplo: a fórmula do refrigerante Coca-Cola é um segredo industrial patenteado; a marca Coca-Cola, o nome, também é registrada e vale nada menos que US$ 5 bilhões.

É através da marca que o produto fica conhecido. A marca registrada impede que outros usem sua imagem sem ter investido. Evita ainda golpes e ações que possam denegrir a empresa. Registrar a marca permite também processar outros por imitação ou reprodução. Marcas identificam produtos e serviços e há marcas para tudo. Mas elas só podem ser requeridas por quem – pessoa física ou jurídica – exerce atividade compatível com o produto que elas assinalam. Quer dizer: se a empresa fabrica macarrão, não pode requerer marca de roupa.

Podem ser registrados como marca os sinais distintivos visualmente perceptíveis (letras, palavras, nomes, imagens, símbolos, cores, formas gráficas ou uma combinação desses elementos). Mas isso não é tudo. A advogada da ABM destaca que, quanto à sua apresentação, a marca pode ser nominativa (composta por letras ou sinais gráficos e de pontuação), figurativa (formada por desenhos ou letras de outros alfabetos), mista e tridimensional.

Vale lembrar também do registro de desenho industrial, que protege a forma externa ornamental de um objeto ou o conjunto de linhas e cores, aplicado a um produto, desde que apresentem um resultado novo e original e que seja possível sua produção em escala industrial. Poucas pessoas conhecem o registro de indicação geográfica. Algumas cidades ou regiões ganham fama por causa de seus produtos ou serviços. Quando certa qualidade ou tradição de determinado produto ou serviço pode ser atribuída à sua origem, a indicação geográfica (IG) garante sua proteção e diferenciação no mercado. Por exemplo: o champanhe é um vinho que só pode ser designado por esse nome se vier da região de Champagne, na França; todos os outros são “vinhos espumantes”.

Não pode deixar de ser citado ainda o registro de direito autoral, que cobre obras intelectuais, artísticas, literárias e científicas. Quanto aos programas de computador, sua proteção está na expressão e não na solução alcançada.

Museu para a invenção

Carlos Mazzei, presidente da Associação Nacional dos Inventores (ANI) e autor do livro Inventei! E Agora? Como Ganhar Dinheiro com uma Boa Ideia, relata que sua empresa oferece suporte e auxílio aos que têm “uma ideia na cabeça” e não sabem como fazer para viabilizá-la no mercado. “Aos criadores que inventam alguma coisa e querem fabricá-la, um conselho: não façam isso. O melhor a fazer é procurar por quem fabrique”, diz. Focando essencialmente as pessoas físicas, a ANI incentiva e orienta contatos entre inventores e empresários, com o objetivo de viabilizar comercialmente a invenção. Quanto à demora para o registro no Inpi, ele garante que isso não deve ser encarado como problema: dada a entrada no pedido, já é possível dar início à manufatura do produto.

Anos atrás, Mazzei abriu o Museu das Invenções, nas dependências da ANI, estabelecida em São Paulo, cujo acervo compreende desde utilidades para o dia a dia até dispositivos úteis para a saúde, passando por objetos de fazer inveja a qualquer cientista maluco. Eis alguns exemplos de inventos, um verdadeiro banho de criatividade:

Óculos com uma lente só – útil para mulheres com dificuldade de visão, mas que querem maquiar o olho sem borrar.

Óculos com visão retroativa – bom para quem tem mania de perseguição, porque permite ver por trás da cabeça.

Cadeira que vira tábua de passar roupa – e vice-versa.

Chuveiro de canequinha – para quando faltar água.

Escovas de dentes em variados formatos – inclusive para escovar a língua sem ter ânsia de vômito.

Rosas de madeira – lindas flores artificiais, feitas com rebarbas de marcenaria.

Rasteirinha 3 em 1 – um único solado e três tiras diferentes para visuais distintos.

Espaguete de espuma para piscina – todo mundo brinca, todo mundo se diverte.

Furou, vedou – se o pneu furar, nada de trocar no meio da rua ou no meio da noite – basta tapar o furo com o produto, continuar rodando e só depois ir atrás do borracheiro.

Chinelo lustrador – passeie pela casa e lustre o chão ao mesmo tempo.

Vaso sanitário ecológico – separa os dejetos, aplica cal e recolhe em caixa. Bom para acampamento.

Sistema inteligente – sem interruptor, basta aproximar a mão da chapa metálica que a luz acende.

Teclado enrolável – teclado de piano que toca de verdade e pode ser enrolado como se fosse de pano, ocupando um espaço mínimo.

Extrator de ar – extrai o ar da garrafa, conservando o suco de fruta por mais tempo.
Revista Problemas Brasileiros

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

A Máquina de Escrever



A Máquina de Escrever
Silvio Atanes

Em 17 de agosto de 1714, a rainha Anne da Grã-Bretanha concedeu ao engenheiro Henry MiIl a primeira patente de que se tem notícia para uma máquina de escrever. Nesse momento, abria-se um caminho até então inexplorado: o da aplicação da mecânica à escrita que desde os sumérios, precursores do alfabeto, cerca de 5 mil anos atrás, era feita somente com o uso das mãos. A idéia de MiIl era construir uma engenhoca capaz de imprimir letras isoladas ou em grupo, em papel, pano ou pergaminho, tão ní¬tidas quanto as de imprensa. Não teve sorte, porém: seu projeto, de tão complicado, jamais saiu do papel.
A idéia, contudo, não se apagou. Durante o século XIX, muita gente tentou aperfeiçoar a máquina que não escrevia de Mill. Todas as alternativas eram grandes e desajeitadas, algumas parecendo um piano. E tinham em comum um grande defeito: eram mais lentas que a escrita a mão. Somente em 1867 o tipógrafo americano Christopher Latham Sholes (1819-1890), de Milwaukee Wisconsin, fabricou a primeira máquina de escrever que realmente funcionava. A idéia surgiu quando ele estava lendo um artigo sobre uma recém-criada máquina inglesa que numerava páginas de livros.
Sholes gostou do invento e resolveu aperfeiçoá-lo. Para começar, pediu ajuda a seus sócios Carlos Glidden e Samuel W. Soule. Eles perceberam que, com algumas adaptações, a máquina poderia imprimir facilmente também conjuntos de sinais gráficos, letras e números, sendo muito útil nas repartições públicas e escritórios em geral, que àquela época mais pareciam escolas de caligrafia, tamanho o número de penas e tinteiros em uso. Assim, naquele mesmo ano, Sholes lançou o seu primeiro escreve dor de tipos. Era um modelo de madeira, com porta-tipos independentes, presos a hastes de metal, acionadas por arames e teclas. O teclado foi disposto de modo que as hastes não se prendessem umas às outras. Por isso, as letras que mais aparecem juntas, em inglês, foram colocadas longe. Mesmo assim, as hastes embolavam constantemente, por mais devagar que se escrevesse.

O segundo modelo, patenteado em 1868, incorporava algumas melhorias mecânicas, além de permitir uma escrita mais veloz que a pena. A máquina, que só escrevia maiúsculas, chamou a atenção do comerciante James Densmore, que comprou a patente de Sholes em 1872. Com uma idéia na cabeça e a máquina nas mãos. Densmore foi até Ilion, no Estado de Nova York. propor a produção em larga escala à fábrica de armas Remington.
Philo Remington, presidente da firma, gostou da idéia. Afinal. A Guerra de Secessão tinha acabado fazia cinco anos e, desde então, a venda de rifles diminuíra sensivelmente. A máquina de escrever seria a salvação de Remington, que já tinha tentado construir máquinas de costura.
Assim, em 1873, Densmore e Remington assinaram contrato, para aperfeiçoar, junto com Sholes, o projeto original. Somando o pioneirismo de Sholes, que não tinha tino comercial, com dois especialistas no ramo, o negócio começou a dar certo: as máquinas passaram a ser produzidas em série e postas à venda. As primeiras já exibiam várias características das máquinas atuais - exceto, é claro, a montagem em móveis de máquinas de costura -, como o arranjo das barras de tipo para atingir o papel no mesmo lugar e a impressão com fita umedecida de tinta. O pedal e a correia da máquina de costura serviam para movimentar o carro.

Apesar das inovações, as maquinas só ficaram conhecidas para valer na Exposição Cenária de 1876, realizada na Filadélfia. O problema de imprimir maiúsculas e minúsculas foi resolvido por Sholes de maneira simples e engenhosa: duas letras ou caracteres em cada barra de tipo; cada letra numa das extremidades superior e inferior da barra. Para trocar as letras bastava apertar uma tecla que, abaixando o cilindro, determinava qual extremidade da barra atingiria o papel.
Para persuadir os ainda céticos consumidores, Remington arquitetou um golpe de mestre de marketing: cedeu as máquinas a mais de cem firmas. O sucesso foi total e logo foi partilhado pelas pessoas físicas. Mark Twain (1835-1910), por exemplo, foi o primeiro escritor a datilografar seus originais. Nem o inconveniente de pedalar - como se estivesse costurando - tirava o bom humor do autor de As aventuras de Tom Sawyer. Outra coisa que aborrecia os datilógrafos era não poderem ver o que escreviam, porque o papel ficava por trás do rolo – uma inconveniência que seria superada em 1882.

Sholes, muito tímido, sumiu de vista assim que sua máquina se popularizou. Estava em todo caso orgulhoso de ter colaborado com a emancipação feminina, como afirmou certa vez, pois ajudou a criar a profissão de secretária. De fato, quando a máquina de escrever entrou nos escritórios americanos, encontrou forte resistência dos' homens - então, a grande maioria dos funcionários. Temerosos de perder o emprego, obtido graças ao domínio da caligrafia, diziam que a máquina não prestava. Foi inútil: as mulheres demonstraram que escrever com cinqüenta teclas era tão fácil quanto costurar.

Mais de um século depois de sua invenção e de se incorporar em toda a parte à paisagem cotidiana, pouca coisa mudou na máquina de escrever, como a alavanca de retomo do carro. Thomas Alva Edison, o genial inventor americano, para poupar esforços de sua secretária, projetou em 1872 a primeira máquina elétrica. Baseada num rolo impressor, a máquina não fez sucesso, talvez pelo perigo de choque. Anos mais tarde, em compensação, originaria a impressora de teletipo. Em 1914, outro americano, James Field Smathers, criou a primeira máquina com motor elétrico, que começou a ser produzida regularmente seis anos depois.
O salto seguinte na evolução foi a máquina de escrever eletrônica, nascida no início dos anos 60. Nela, o carro permanece parado, enquanto um cilindro ou disco giratório que contém os tipos se movimenta ao longo do papel. Circuitos eletrônicos selecionam letras e calculam o avanço do elemento único, conhecido como "bola de golfe", no caso do cilindro, ou "margarida", correspondente aos discos que têm as letras nas pontas de pétalas. As máquinas de última geração literalmente escrevem sozinhas: têm memória, recursos de programação e, acopladas a microcomputadores, transformam-se em impressoras. Embora sem a velocidade das impressoras matriciais, que imprimem a partir de uma programação, cerca de vinte vezes mais rápidas, as máquina eletrônicas mantêm o charme da boa datilografia e proporcionam a ilusão do texto personalizado, contra os frios sinais de computador.
Revista Superinteressante

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

A dor ensina a gemer


A dor ensina a gemer
Crises e guerras devastaram exércitos e mergulharam impérios na recessão e no caos. Mas também serviram de estímulo para inventos que mudaram a história da humanidade
por Bianca Nunes
Louis Braille (1809-1852) tinha só 3 anos quando, brincando na oficina do pai artesão, cortou o olho direito com um furador de couro. A família tratou o machucado em casa - eles moravam num pequeno vilarejo da França de 1812. Logo o ferimento infeccionou e passou para o outro olho. Dois anos mais tarde, Louis estava completamente cego. A deficiência não impediu que ele fosse educado. Tão logo aprendeu a ler com o tato, Louis foi enviado a uma escola para cegos de Paris - a primeira do tipo na época. Aluno dedicado, impressionou-se quando, em uma das aulas, aprendeu um código sem som criado no Exército para comunicação de soldados durante a noite. Louis gostou da ideia e incrementou o código, que tinha pontos em alto relevo. Até então, quase tudo na escola era feito por memorização.Aos 15 anos, ele criou um sistema que é usado até hoje por cegos de qualquer país para se comunicarem com o mundo. A invenção que levou seu nome veio de uma necessidade pessoal de Louis: ele queria aprender de uma forma simples. A angústia e a dedicação fizeram com que o jovem descobrisse um jeito de melhorar sua própria vida e a dos deficientes que viviam como ele, no escuro. Muitas outras descobertas também ocorreram durante crises, em momentos sofridos e cruciais para seus inventores, quando o mundo exigia deles uma saída. Às vezes para sua própria sobrevivência e conforto. "A crise provoca a mudança, que pode ser ‘boa’ ou ‘má’ para a humanidade. Algumas pessoas se adaptam aos momentos difíceis ou têm habilidades específicas que ajudam a fazer da crise algo positivo. Em muitas ocasiões críticas, como a situação econômica atual, há oportunidades que podem beneficiar alguns", afirma Lisa Rosner, professora de história da ciência da Universidade de Stockton (EUA), pesquisarora e autora de The Technological Fix: How People Use Technology to Create and Solve Problems ("O Conserto Tecnológico: Como as Pessoas Usam a Tecnologia para Criar e Resolver Problemas", sem tradução para o português).Quem dá outro exemplo de superação em tempos de turbulência é Edward Tenner, especialista em história da tecnologia. "Com certeza, a Dinamarca, após perder a Noruega, a Islândia e a região de Schleswig-Holstein, se tornou mais próspera do que nunca. Criou novas indústrias que incluíam a produção de manteiga e queijo, móveis de madeira e turbinas eólicas. Eles passaram de uma cultura hierárquica, que vivia como satélite da aristocracia do norte da Alemanha, para uma sociedade que era capaz de exportar produtos de maneira igualitária e atingiu níveis de vida ótimos. Hoje, os dinamarqueses são, de acordo com pesquisas, as pessoas mais felizes da Europa - em um paradoxal resultado por terem perdido muitas guerras." Mas por que isso acontece? Como momentos dramáticos podem despertar soluções inovadoras? Historiadores chegaram a algumas conclusões estudando esse comportamento. Primeiro: "ideias brilhantes" não surgem do nada. Segundo Lisa Rosner, "elas acontecem porque os inventores entendem a necessidade que passam e pesquisam sobre o assunto. Eles têm acesso às soluções propostas por outros e eles tentam muito".Traumas criativos e invenções Necessidades que levaram a grandes soluções Feridas abertasAssombrado pelas cenas terríveis que testemunhou como voluntário num centro médico do Exército britânico durante a Primeira Guerra Mundial, o pesquisador Alexander Fleming (1881-1955) procurou outras formas de tratar ferimentos infeccionados. Até então, não era possível curar as feridas mais graves sem remover pelo menos parte do tecido atingido das vítimas. Ao ver de perto o sofrimento dos doentes, se dispôs a buscar um tratamento eficaz. Descobriu a penicilina, o primeiro antibiótico, em 1928.Sangue no armárioA falta de sangue para transfusões durante a Segunda Guerra levou o médico americano Charles Drew a encontrar um modo de transportar o material por longas distâncias sem que se estragasse. Ele separou o sangue entre plasma (a parte líquida) e células vermelhas, o que permitia o armazenamento prolongado. No início dos anos 1940, a Inglaterra pediu ajuda aos EUA para atender vítimas civis e militares. Drew coordenou um projeto da Cruz Vermelha para coletar e enviar o sangue salvador à Grã-Bretanha.Na falta de cão acaba o sabãoA base dos detergentes sintéticos apareceu na Alemanha, em 1917, quando os suprimentos de gordura animal estavam em falta por causa das batalhas da Primeira Guerra Mundial. A gordura era, então, a principal matéria-prima do sabão. Chamado de Nekal, o produto desenvolvido pelos químicos H. Gunther e M. Hetzer, a partir de uma ideia original do fim do século 19, só circulou nos tempos de guerra, mas foi um sucesso comercial. Aprimorado, está hoje em todas as cozinhas. E os cães agora podem perambular tranquilos.A imprensa e a peste negraHá quem diga que a peste negra, no fim da Idade Média, ajudou no desenvolvimento do Ocidente. Os historiadores David Herlihy e Samuel Cohn argumentam que a pandemia que dizimou quase um terço da Europa deu início a uma onda de descobertas tecnológicas que levaram à Revolução Industrial. Um dos exemplos citados é a invenção da prensa de Gutenberg, em 1453. Eles sugerem que os tipos móveis vieram a substituir o exército de monges copistas que teriam sido mais rapidamente atingidos pela peste do que o resto da população.O rádio é do povoAs primeiras transmissões de rádio são do século 19, mas só depois da Primeira Guerra a radiodifusão chegou, de fato, à população civil. A Westinghouse, empresa americana que fabricava aparelhos para as tropas europeias, se viu com um excedente encalhado. A fim de evitar o prejuízo, a empresa instalou uma grande antena no pátio da fábrica e transmitiu música para os moradores de um bairro de Pittsburgh. O golpe de marketing funcionou e os aparelhos foram vendidos. Blues para amenizar a dorO blues nasceu no Mississippi (EUA), no delta do rio Yazoo, uma região de inundações, própria para a plantação de algodão. Lá viviam escravos negros, que cantavam para aliviar o sofrimento do trabalho. Eram lamentos em forma de gritos melancólicos. Como os escravos eram proibidos de usar instrumentos, a voz era o único recurso musical. Depois veio o ritmo sincopado, a marcação nos pés, o falsete nos vocais e, claro, a marcação típica do violão. O primeiro blues - gíria da época para definir a tristeza - foi gravado em 1914. A explosão dos FertilizantesO uso de substâncias para adubar o solo data dos primórdios da agricultura. Os fazendeiros da Antiguidade sabiam que a terra envelhecia. Em vez de buscar novas áreas de cultivo, eles passaram a incrementar o terreno. Os egípcios espalhavam cinzas de sementes, e há relatos de que gregos e romanos fertilizavam a terra com excremento animal. A indústria de fertilizantes sintéticos surgiu depois da Primeira Guerra, para dar fim ao excedente de explosivos de nitrogênio (TNT) que já não tinham serventia. Mais forte que a sedaDevido às dificuldades no comércio mundial depois da quebra da bolsa de valores, em 1929, o preço da seda disparou. O Japão era, naquele momento, o principal exportador para os Estados Unidos e um dos maiores fabricantes mundiais do produto. Em busca de um tecido leve, resistente e mais barato, a empresa DuPont decidiu investir no desenvolvimento de uma fibra sintética que substituísse a seda. Foi assim que o funcionário Wallace Carothers produziu uma fibra forte e elástica que não derrete a menos de 195 graus Celsius. Criado em 1930, o náilon não é só usado para fazer roupas. Serve para fabricar linhas de pesca, tapetes e carpetes, entre outras utilidades.
Sem gasolina? Vai de álcool Crise do petróleo abriu espaço para outros combustíveis Em 1973, a decisão de alguns países de diminuir a produção de petróleo e aumentar seu preço foi catastrófica para o resto do mundo. Não havia alternativa viável, e as pesquisas sobre outros tipos de combustíveis estavam engatinhando. Em apenas três meses, o preço de um barril passou de US$ 2,90 para impressionantes US$ 11,65 e as vendas para a Europa e os EUA foram embargadas por causa do apoio a Israel na Guerra do Yom Kippur (1973). A oferta do produto despencou e alguma coisa precisava ser feita.O Brasil inovou. Em 14 de novembro de 1975, o governo assinou um decreto implantando o Programa Nacional do Álcool, o Proálcool, que estimulava a produção do etanol para a substituição de combustíveis fósseis. "O Proálcool foi implantado quando o Brasil gastava, anualmente, mais de US$ 10 bilhões na importação de petróleo e derivados. Foi a única nação que encontrou um substituto adequado e menos poluente para o petróleo", diz Luiz Gonzaga Bertelli, autor de Crise Energética. Segundo ele, hoje, o volume do etanol de cana comercializado já é superior ao da gasolina automotiva. "O programa colaborou, decisivamente, para o desenvolvimento sustentável do Brasil. Mais de 1 milhão de empregos diretos e 4 milhões de indiretos dependem da indústria sucroalcooleira. Se considerarmos todo o petróleo e a gasolina que deixamos de queimar desde 1977, quando ocorreu o início da efetiva produção do etanol no país, economizamos US$ 234 bilhões em valores atualizados."
Saiba mais LIVROSThe Technological Fix: How People Use Technology to Create and Solve Problems, Lisa Rosner, Routledge, 2004Ensaios sobre a necessidade de o homem recorrer à tecnologia para enfrentar desafios.A Vingança da Tecnologia, Edward Tenner. Campus, 1997As irônicas consequências das inovações mecânicas, químicas, biológicas e médicas.


Revista Aventuras na História

terça-feira, 30 de março de 2010

Pitágoras, Mercator, Franklin, Gutenberg...Invenções perdidas


Pitágoras, Mercator, Franklin, Gutenberg...Invenções perdidas
Pitágoras não foi o primeiro a perceber a relação entre os lados do triângulo reto. Nem foi Gutenberg quem inventou a tipografia. Conheça alguns dos verdadeiros pais de descobertas universais com quem a história não foi justa
por Tatiana Bonumá
A idéia de que as invenções e descobertas científicas podem alterar o rumo da história é apenas parte da verdade. De fato, os instrumentos, materiais e técnicas que o homem descobriu e dominou lhe deram condições para superar limites, impor-se diante da natureza e dos outros homens. Porém uma olhada mais atenta revela que o que muda tudo é o uso que determinado povo emprega à sua descoberta. Muito do que hoje é creditado aos vitoriosos gregos e romanos, já havia sido experimentado pelos extintos babilônicos e algumas das descobertas comemoradas pelos europeus, eram velhas conhecidas dos chineses.

O que é mais importante: a invenção ou seu uso? O que é mais revolucionário? O que muda, de fato, a história? “A utilização do conhecimento está ligada com o momento histórico e com aspectos culturais do povo que a absorve. Exprime a maneira como ele vê o mundo, o entende e o interpreta”, diz Ana Maria Alfonso-goldfarb, especialista em história da ciência e autora do livro Da Alquimia à Química.

Por isso, para ela, não faz muito sentido dizer quem inventou o quê e sim acompanhar o processo pelo qual o conhecimento gerou invenções e descobertas diferentes em cada local, em cada época.

Os triângulos da Babilônia

Recupere seus cadernos do primeiro grau, consulte os livros de geometria. Em todos eles vai encontrar o Teorema de Pitágoras, que de tão importante mais parece um mantra da trigonometria. Ele emana a seguinte verdade: em um triângulo com ângulo de 90 graus, o quadrado do lado maior é sempre igual à soma dos quadrados dos outros dois lado. Porém, antes mesmo de entender a equação, você saberá responder quem a desenvolveu. Como o próprio nome diz, Pitágoras, um filósofo e matemático grego fez o teorema por volta de 550 a.C.. “Pitágoras e seus discípulos formavam uma fraternidade esotérica, que se dedicava não só ao estudo da matemática, mas também ao ascetismo, que buscava a harmonia do cosmos baseada nas premissas de que tudo existe em conformidade com os números, sendo que a matemática é o princípio de todas as coisas”, explica Walter Carnielli, professor de história da ciência, da Universidade Estadual de Campinas, em São Paulo.

Assim, a equação vai além do triângulo e, na época, era mais um exemplo de harmonia entre os elementos. Tudo muito coerente, explicado e comprovado. Segundo Walter, esse é a afirmação matemática que mais recebeu demonstrações, foram feitas 370 provas. Porém, justamente o que parece mais óbvio – o teorema de Pitágoras é de Pitágoras – é o X da equação. “O filósofo grego não foi o primeiro a perceber a relação. Indianos, egípcios e babilônios já usavam essas triplas de números (que formam um triângulo retângulo) há pelo menos mil anos”, afirma o historiador Dick Teresi, em seu livro Lost Discoveries (Descobertas Perdidas, sem tradução em português). Os hindus, por exemplo, os utilizavam entre 800 e 600 a.C., para desenhar triângulos e trapézios, consideradas figuras nobres, nos altares de cemitérios, em reverência aos deuses.

Mas, a prova definitiva de que o teorema era conhecido antes de Pitágoras vem dos babilônios e data de 1800 a.C. “É um pedaço de barro conhecido por Plimpton 322, mantido na Universidade de Columbia, nos Estados Unidos. Ali, estão gravados centenas de números alinhados três a três. Para entender a relação entre os números, basta aplicar o teorema do triângulo reto. Um deles, é sempre o quadrado da soma dos quadrados dos outros dois”, afirma Walter.

Os segredos da Terra plana

Poucas descobertas deram ao homem tanta sensação de domínio do planeta como o mapa-múndi. Porém, para chegar a um resultado eficaz, estudiosos tiveram que desvendar um enigma: como representar num plano a Terra que é esférica? Gerhard Kremer Mercator, matemático e geógrafo flamengo, ofereceu uma boa resposta, com o método de representação cilíndrica, em 1569. Para entender como ele fez isso, imagine uma luz que parte do centro de um globo colocado dentro de um canudo de papel. A imagem projetada do globo (Terra) no cilindro (mapa) permitiu, pela primeira vez, representar continentes, oceanos e meridianos numa superfície. Foi uma festa para a indústria da navegação.

O método, como não poderia deixar de ser, ganhou o sobrenome de seu inventor e ficou conhecido nos quatro cantos do mundo como “Projeção de Mercator”. Procure nas enciclopédias e nos livros didáticos. Mercator será sempre indicado como um importante nome na cartografia (o que realmente ele é!), aquele que deu um passo indispensável para se chegar ao mapa moderno (verdade!) e o primeiro a trabalhar com a projeção cilíndrica (aí o bicho pega!).

Os chineses, ótimos navegadores e acostumados a vencer longas distâncias, já haviam elaborado e aplicado o mesmo conceito há exatos 629 anos. A prova está arquivada na Biblioteca Britânica, em Londres. Um documento chinês de 940 d.C. mostra a esfera terrestre projetada sobre uma superfície, conseguida por meio da mesma técnica de projeção cilíndrica. Quanto ao impulso de desenhar mapas, pode-se afirmar que ela é quase tão antiga quanto o homem. Babilônios, egípcios, gregos e árabes esboçaram o mundo, cada um a sua maneira. O mapa mais antigo que se tem conhecimento é o Mapa de Ga-Sur, de 2500 a.C., encontrado na Mesopotâmia, que representa o Rio Eufrates e os acidentes geográficos ao redor, numa pequena placa de barro que cabe na palma da mão.

As misteriosas águas penetrantes

Atualmente, os ácidos preparados a partir de minerais, como o nítrico, o clorídrico e o sulfúrico, são de extrema importância. Esse último, por exemplo, é normalmente usado como índice para avaliar o grau de industrialização de um país. Eles são vastamente utilizados nas produções de plástico, borracha e fertilizantes, entre outras coisas. “Grande parte dos historiadores da química atribui a descoberta dos ácidos minerais a Geber, um lendário alquimista que teria vivido no século 13”, afirma Maria Helena Roxo Beltran, professora de história da ciência, da Pontifícia Universidade Católica (PUC), de São Paulo. Mas a referência mais antiga dos tais ácidos foi escrita por Vanoccio Biringucci, um artesão de Siena (na atual Itália). Em 1540, ele publicou um livro chamado De La Pirotechia, em que fornece uma descrição detalhada de como obter o que chamou de “águas penetrantes”, utilizadas na época para corroer metais.

No entanto, hoje se sabe que os árabes já utilizavam os ácidos minerais no século 9 e, antes ainda, eles já eram conhecidos na Mesopotâmia, em 1700 a.C. “Antigas gravações em pedra mostram que os assírios fabricavam um tipo especial de vidro vermelho que só é possível com a utilização de pequenas quantidades de ouro dissolvido em água-régia, uma mistura dos ácidos minerais nítrico e clorídrico”, afirma Ana Maria Afonso-goldfarb.

Onde os raios vão parar?

As pesquisas arqueólogicas em Pueblo, no deserto no Novo México, Estados Unidos, já revelou muita coisa importante e polêmica sobre os antigos moradores daquela região, os anasazi. Em 1997, pinturas rupestres datadas do século 7 indicaram que podem ter sido eles os primeiros inventores do pára-raios. Uma técnica extremamente simples, utilizada pelos antepassados dos índios americanos atraía as descargas elétricas, preservando suas cidades de prejuízos. “Eles não colocavam objetos pontiagudos, como altas lanças de madeira, em locais elevados e de grande incidência de raios, como forma de impedir sua propagação”, conta Amaury Carruzo, meteorólogo e diretor-científico do Instituto Ciênciaonline de Educação e Cultura.

Se não fossem os anasazi, ainda assim os americanos ficariam com o crédito por livrar casas e prédios dos raios. Na Filadélfia, no fim século 18 – um período fértil nos debates sobre fenômenos atmosféricos – o físico e inventor Benjamin Franklin, ficou famoso por comprovar a natureza elétrica dos raios com uma experiência tão conhecida como perigosa, realizada em 1752. Franklin saiu no meio de uma tempestade para empinar uma pipa, com uma chave presa em sua ponta e conseguiu atrair uma descarga elétrica. Com menos sorte, poderia ter sido carbonizado. Afortunado, acabou inventando – e patenteando – o pára-raios. O instrumento é constituído de um ou mais captores (lanças) de 04 pontas, montado sobre um mastro de metal. Este modelo é utilizado até hoje e chama-se captador Franklin.

Os Bastidores da imprensa

Quando se fala em técnicas de impressão, uma associação é imediata: o nome de Johannes Gensfleisch. O.k., talvez o nome nem tanto, mas o sobrenome é inconfundível: Gutenberg, que viveu entre 1399 e 1468. Seu invento consiste em um trabalhoso e elaborado método que ficou conhecido como tipografia. Ele juntava peças de metal esculpidas com letras em relevo, que eram organizadas para formar palavras. As folhas de papel eram colocados diretamente sobre elas e comprimidas contra o metal sujo de tinta. Depois de secar, a página estava pronta. Aí, para fazer páginas diferentes, bastava trocar as letras e as palavras, é claro. O negócio dava trabalho, mas muito menos que escrever tudo à mão. “A técnica dos caracteres móveis e o livro impresso trouxeram novas possibilidades para a difusão de conhecimento numa proporção até então inédita”, afirma Maria Helena, da PUC, de São Paulo.

Mas sem desmerecer tanto suor, paciência e dedicação, Gutenberg não foi o inventor da impressão. Mais uma vez, os chineses largaram na frente. Eles dominavam várias técnicas para imprimir textos e imagens, e, desde o século 7, eram impressores compulsivos de calendários, livros sagrados e poesias. O tipo móvel foi desenvolvido pelo chinês Pi Sheng, entre 1041 e 1048, e transformou-se no método mais tradicional pela facilidade em lidar com o material. A destreza chinesa para a tipografia era impressionante, mas invento nenhum seria o bastante para o desafio que tinham pela frente: lidar com a quantidade necessária de tipos móveis para dar conta do idioma chinês. Para um texto escrito no século 12, por exemplo, foram necessários cerca de 400 mil caracteres diferentes. Comparada com a missão dos chineses, nesse aspecto braçal, a missão de Gutenberg parece fichinha.

Os caminhos do sangue

Contestar o conhecimento aceito como verdadeiro pela maioria é sempre perigoso. Durante o Renascimento, então, era um ato de muita coragem e certa dose de insanidade. A época foi marcada justamente pela veneração das doutrinas clássicas e negá-las poderia colocar qualquer um em maus lençóis. A não ser que ele fosse amigo do rei. Esse era o caso de William Harvey, médico inglês casado com a filha do fisiologista da corte, que dedicou sua vida aos estudos do sistema vascular. Em 1568, publicou no livro Exercitatio Anatomica de Motu Cordis Et Sanguinis Animalibus uma descrição precisa do fluxo sangüíneo dos seres humanos e da real função do coração no corpo. “A publicação inicia o método experimental na fisiologia e inaugura o conceito de corpo humano como uma máquina mecânica e hidráulica, concepção que teria seu auge no século 18”, diz Luzia Aurélia Castañeda, professora do Centro de História da Ciência, na PUC, em São Paulo. Suas explicações são aceitas até hoje, mas foram agressivamente rejeitadas na época. William incomodou porque desbancou as teorias de Galeno de Pérgamo (131-201 d.C), fisiologista e cirurgião dos gladiadores, que acreditava que o sangue era formado no fígado e que se movia em fluxos e refluxos.

Porém, se na Europa ocidental as idéias de William eram chocantes, na China, elas eram antigas conhecidas. “Eles foram os primeiros a executar dissecações do corpo humano e descreverem corretamente o fluxo sangüíneo em O Livro Clássico de Medicina do Imperador Amarelo, dois mil anos antes da civilização ocidental”, diz Carlos Bella, coordenador do Instituto Ciênciaonline.

E, ao contrário do que se pensa, essas teorias não se perderam ao longo da história. Os europeus provavelmente já haviam tomado conhecimento das experiências chinesas no século 13. Contudo, sob a forte influência religiosa, a sociedade européia não parecia estar aberta para novos conceitos. Por isso, apesar da descrição do fluxo sangüíneo não ser propriamente uma novidade, William teve o mérito de incorporar uma experiência alheia para criar uma teoria absolutamente em relação ao pensamento de seus pares.

Made in China
Uma sociedade pragmática e avançada, a China foi um importante pólo de novas idéias e descobertas do mundo antigo.

Há mais de 110 inventos que partiram de lá para ganhar o mundo. A seguir, alguns exemplos.

Sismógrafo

O equipamento do ano 132 indicava até a direção da qual viria o tremor. Aparelho similar na Europa, só em 1855

Dinheiro

Eles criaram o papel-moeda no século 7. Na Europa, a Suécia foi a primeira a adotá-lo, em 1661

Bússola

Na China do século 4 a.C. ela era usada para equilibrar as energias dos indivíduos. Na Europa, chegou em 1232 e virou um importante instrumento de navegação

Whisky

Chang Hua descobriu o álcool destilado em 654. Na Europa, ele surgiu na Itália, no século 12

Porcelana

No século 3 ela já era feita na China. Os europeus a conheceram em 1500, mas só 200 anos depois aprenderam como fabricá-la

Revista Aventuras na História

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Invenções: como fazíamos sem...

Dia-a-dia durante a idade Média



Invenções: como fazíamos sem...
Conforto e praticidade eram palavras quase enigmáticas para alguém que tenha nascido no começo do século 19. Saiba o que nossas bisavós faziam para se virar sem geladeira, talheres, móveis ou privadas
por Bárbara Soalheiro
Se há um cômodo imprescindível em uma casa, esse é o banheiro, certo? Não se você tiver nascido há mais ou menos 200 anos. Até a metade do século 19, nem os palácios mais luxuosos tinham privadas ou banheiras. E não era só isso que faltava. Objetos tão indispensáveis para nós, como geladeira, máquina de lavar ou camas, só se difundiram a partir do século 20. Sem esses aparatos, a rotina há até bem pouco tempo era difícil, regrada e malcheirosa.

... Banho

O costume de banhos é a prova de que não são exatamente os tempos que determinam as tradições, mas o caráter de cada povo. Já no século 19 – enquanto os europeus fugiam da água como se ela fosse praga –, os banhos públicos eram um dos programas favoritos dos japoneses. Na Europa medieval, as casas tinham tinas com água e eram usadas para a limpeza de algumas partes do corpo. A idéia de banhar-se com freqüência era tão absurda que, quando Pedro Álvares Cabral chegou ao Brasil, em 1500, ficou espantado ao ver que os índios entravam na água mais de dez vezes por dia. Até o século 19, acreditava-se na Europa que banhos facilitariam a entrada de germes, já a água quente dilatava os poros. Só no fim do século 18 é que os médicos começaram a recomendar que as pessoas se lavassem com maior freqüência. Mesmo assim, as recomendações restringiam-se a algumas partes do corpo, como as mãos e o rosto. As banheiras com escoamento de água chegaram às Américas por meio de Benjamin Franklin em 1790. Mas os banhos demoraram a tornar-se uma rotina. Quando a rainha Victoria chegou ao Palácio de Buckingham, em 1837, não havia banheira no lugar e até 1870 pouquíssimas casas dispunham do aparato.

... Geladeira

Estocar carnes e frutas era uma tarefa árdua até o século 19. Na Europa, para aumentar a validade desses alimentos, os homens salgavam as carnes, secavam as frutas e deixavam-nos em um quartinho escuro, longe da luz e do calor. Já no Brasil, a abundância de frutas frescas tornava o estoque desnecessário. Quanto às carnes, em vez de guardá-las em locais escuros, os brasileiros deixavam-nas expostas ao sol. O costume deu origem à carne-de-sol, tão comum no Nordeste do país. No século 18, os ricos europeus criaram as primeiras geladeiras: um buraco em alguma parte da casa, cheio de gelo ou neve e palha. Havia até mesmo um profissional, responsável por buscar a neve nas montanhas, os “geladeiros”. Eles recolhiam neve no inverno e estocavam em poços escavados em partes altas das cidades, para vender no verão. “A comida durava de um inverno a outro”, diz Raffaella Sarti, professora de história da Universidade de Urbino, na Itália. Foi só no século 19 que apareceram as primeiras geladeiras. O inventor americano Jacob Perkins patenteou, em 1834, a primeira máquina refrigeradora que usava éter em um ciclo de compressão de vapor (mais tarde, o líquido foi substituído por amônia e hidrogênio). As geladeiras eram restritas aos ricos até a metade do século 20, quando começaram a se popularizar.

... Móveis

As casas européias comuns, até o século 16, pareciam salões de festas: sem divisões de cômodos e com os pouquíismos móveis que existiam até então. As roupas e os raros objetos pessoais da gente comum eram guardados em cestos. No século 19, esses cestos foram substituídos por baús, que também serviam de assentos. Mesas e cadeiras só tornaram-se comuns durante o século 18. As camas, que existiam desde a época grega, eram um luxo para poucos e, aqui no Brasil, chegavam a fazer parte do dote de moças. Pobres e ricos dormiam no chão, sobre um pouco de palha, mas visitantes tinham que ser recebidos em leitos. No Brasil, sob influência dos costumes indígenas, escravos e empregados dormiam em redes feitas de palha.

... Calefação

A falta de calefação nunca foi um problema brasileiro, mas para os países europeus, obrigados a enfrentar invernos rigorosos, era necessário arrumar maneiras de manter os ambientes e o corpo quentes. Antes do surgimento da eletricidade e do gás, as pessoas usavam lenha, carvão e palha para esquentar as casas. Os mais pobres chegavam a usar esterco, que queimava muito bem, mas obviamente exalava um cheiro detestável. A lareira foi inventada no século 12, na Itália, enquanto em países do norte da Europa as pessoas dormiam perto dos fogões a lenha. Ricos usavam um tipo de cobertor de metal, que era recheado com brasas e colocado entre os lençóis antes que a pessoa fosse dormir. Os mais pobres dormiam, muitas vezes, nos estábulos e nas estâncias com animais, para esquentar-se.

... Sabão e máquina de lavar

Sabão foi um produto caro durante séculos. Para lavar roupas, mulheres utilizavam uma mistura de água com urina, já que essa continha amoníaco que clareava a roupa. No século 13, a indústria de sabão chegou à França, vinda da Itália e da Espanha, com sabões feitos de gordura de cabra e cinza de plantas. Depois de muito tempo, a gordura animal foi substituída por azeite de oliva. Mas, na hora de lavar roupa, sabão não era o único problema em um mundo sem água corrente. Era quase impossível lavar qualquer coisa em casa. O mais comum é que mulheres fossem até os chafarizes, no centro da cidade, ou até os rios (um costume ainda comum no interior do Brasil). No século 19, apareceram as primeiras lavadoras manuais, que lavavam e escorriam a roupa. E foi só no século 20 que apareceram as lavadoras elétricas. Mais precisamente, em 1910, quando o americano Alva Fischer patenteou uma máquina com um motor que fazia girar um tambor onde se colocava água e sabão.

... Privadas

Pode parecer estranho, mas os maiores beneficiados com a invenção de privadas não foram aqueles com vontade de usar o toalete, mas os transeuntes das ruas das capitais. Antes de o utensílio ser inventado, homens e mulheres faziam suas necessidades em baldes e despejavam o conteúdo nas ruas. Em Paris, para alertar os que passavam, gritavam “Água vá!” antes de jogar fezes e urina pela janela. No Rio de Janeiro ou em Salvador, nem isso. Os nobres tinham lacaios ou escravos para segurar os urinóis e as latrinas. Mas muita gente virava-se como podia. Crianças, por exemplo, iam até a porta de casa e faziam xixi na rua, tranqüilamente. Em 1597, John Harington inventou o primeiro WC (water closet ou armário de água) de que se tem notícia: um assento de madeira, uma caixa-d’água e uma válvula de descarga. Ele instalou sua obra prima para a rainha Elizabeth I no palácio de Richmond. O aparelho era caro e a maioria das pessoas tinha de esperar pela fila em banheiros públicos. Na segunda metade do século 19, começaram a funcionar os sistemas de encanamento subterrâneos que permitiam o escoamento dos dejetos. “As galerias subterrâneas são os órgãos da cidade grande e vão trabalhar da mesma maneira que os órgãos humanos, mas sem serem reveladas”, teria dito o prefeito francês Georges-Eugène Haussmann em 1858.

... Fósforos

O palito de madeira com cabeça química não parece uma invenção das mais modernas. Mas é. Até o acendedor de fogão alimentado com álcool, criado em 1823, surgiu antes. Foi em 1827 que o químico John Walker criou os fósforos de fricção. Mas o uso do instrumento só popularizou-se depois da segunda metade do século 19, quando o sueco Johan Edvard Lundstrom patenteou palitos mais seguros. Antes disso, acender o fogão dava um trabalho pré-histórico e, exatamente por isso, era uma tarefa de empregados. Além de um bocado de material extremamente seco (palha, feltro ou outro retalho) e de duas pedras, eram necessários paciência e destreza. O interessado em ver qualquer coisa pegar fogo tinha de esfregar as pontas dos pedaços de pedra bem perto do material que servia de pavio. Depois de muitas tentativas, alguma faísca prendia-se ao material seco. Nessa hora, era preciso aumentar o volume de palha e torcer para que o fogo se espalhasse. Com tanto trabalho, não é de se estranhar que, já no século 20, o inglês Maurice Baring tenha escrito, por meio de seu personagem Jean François, a Balada do Paraíso Imaginário, com o verso Remember this, the worst of human ills: life without matches is a dismal thing (Lembre-se disso, a pior doença humana: a vida sem fósforos é uma coisa fúnebre). Achou que a pior parte de um guisado era descascar as cebolas?

... Cuecas e calcinhas

Até o século 19, a maioria das mulheres não usava nenhum tipo de roupa íntima. Quando vestiam algo por baixo da roupa comum, eram peças largas. As roupas íntimas ajustadas ao corpo, como conhecemos hoje, são um invento bastante recente. No século 18, calcinhas eram consideradas vestes de prostitutas e atrizes (palavras que, na época, eram quase sinônimo). Já a cueca é um costume antigo: desde o século 6, influenciados pelos celtas, homens vestiam cueca de diversos tipos, justa, larga, curta ou comprida. No século 14, as favoritas eram compridas e usadas por cima da roupa comum, demarcando a genitália. Quando os espartilhos se popularizaram, a partir do século 18, eram tão apertados que faziam as mulheres desmaiar. Em, 1859 um jornal parisiense relata a morte de uma jovem, da qual todas as rivais admiravam a cintura fina e conta que, durante a necrópsia, se verificou que o fígado estava perfurado por três costelas. “Eis como se pode morrer aos 23 anos, não de tifo nem de parto, mas por causa de um espartilho”, concluía o artigo.

... Máquina de costura

A primeira máquina doméstica foi a de costura. A idéia de que um aparato mecânico podia realizar uma tarefa tão “manual” e enfadonha dava a ela um caráter quase milagroso. A primeira patente de uma máquina de costura foi concedida em 1790, ao americano Thomas Saint, mas historiadores acreditam que ela nunca tenha saído do papel. A mais famosa máquina de costura foi patenteada pelo alemão Isaac Singer, em 1857 (tanto que seu sobrenome virou sinônimo do instrumento por muitos anos). Alguns modelos, movidos por um motor a gás, eram barulhentos e até perigosos. Ainda assim, eram preferíveis ao trabalho de coser à mão. Isso tudo num tempo que comprar roupas prontas era coisa para os ricos.

... Talheres

Facas, garfos e colheres utilizam um mecanismo tão simples que parecem terem sido inventados em um passado remoto. E foram. Mas seu uso só popularizou-se da maneira como utilizamos hoje durante o século 18. Ou seja, até bem pouco tempo atrás, os participantes de qualquer refeição (desde os almoços triviais até grandes banquetes) usavam as mãos para pegar a comida do prato. A falta de talheres influenciava também o cardápio nas mesas nobres. “Durante os séculos 18 e 19, as pessoas comuns comiam espaguete com as mãos. Quando o garfo foi inventado, massa virou comida para a realeza também, porque agora eles podiam comer sem perder a dignidade”, diz a americana Linda Stradley, especialista em culinária. Talvez tenha sido por isso que os italianos se interessaram logo por talhares. Já no século 16, eles eram os únicos na Europa que comiam com garfos e facas individuais. Na Inglaterra e França, as mesas só tinham duas ou três facas. Todos serviam-se da mesma travessa, usando as mãos. As sopas eram colocadas em uma mesma tigela, de onde bebiam duas, três ou mais pessoas. Talheres eram tão raros que apareciam em testamentos e garfos chegavam a ser malvistos pela Igreja. “Deus em sua sabedoria deu ao homem garfos naturais – seus dedos. Assim, é um insulto a Ele substituí-los por garfos de metal”, diziam os padres no século 18, segundo James Cross Giblin em From Hand to Mouth (Da Mão à Boca, sem versão em português). Apesar de ter aparecido mais cedo, guardanapos também estiveram de fora das refeições por muitos séculos. Até o ano 1400, mais ou menos, homens e mulheres assoavam o nariz ou limpavam a boca nas próprias mãos. As mesmas mãos que serviam da travessa coletiva.

... Relógio

Desde tempos remotos, o homem mede o tempo pela observação da natureza e dos planetas. Mais tarde, surgiram os relógios de sol, de areia e de água. É claro que nenhum deles marcava o tempo com muita precisão, mas a rotina de nossos antepassados tampouco exigia esse tipo de rigor. O calendário agrícola, com o calendário religioso, regia a vida nas sociedades. Foi no século 13 que apareceram os primeiros relógios mecânicos. No século 16, Galileu criou o modelo de pêndulo. Só com a revolução industrial, no século 18, e com as jornadas de trabalho rígidas é que relógios individuais passaram a ser fabricados. Mesmo assim, o uso massivo só popularizou-se durante o século 20.



O jeito brasileiro
Cada povo ou país se virava como podia antes que os aparelhos modernos se espalhassem pelo mundo. Saiba como nós, brasileiros, vivíamos sem...
... Ferro elétrico

Se lavar roupas já dava trabalho, imagine deixá-las tão esticadas quanto mandava a moda do século 19. Antes da eletricidade, a maioria dos ferros tinha uma cavidade onde se colocavam brasas quentes. Outros, nem isso, e era preciso esquentá-los direto no fogo, repetindo a operação sempre que esfriava. Para deixar a roupa mais lisa, usava-se farinha de mandioca e água para fazer uma espécie de grude fino que ficou conhecido como goma (daí a expressão “engomar a roupa”). Depois de seca, a peça era mergulhada em uma bacia que continha água e um pouco da goma e colocada ao sol novamente. Algumas mulheres também espalhavam cera de vela para dar mais brilho aos vestidos.

... Geladeira

Quando o escritor brasileiro Mário Souto Maior chegou com um refrigerador a querosene em Bom Jardim, interior de Pernambuco, a cidade parou para ver. “Foi uma loucura. Todo mundo ia lá em casa só para olhar o aparelho”, afirma Carmem Souto Maior, viúva de Mário. Ela não se lembra bem da data, mas foi só a partir da década de 30 que as famílias brasileiras começaram a comprar geladeira importada dos Estados Unidos. A principal mudança na casa foi o tamanho da despensa. “Antes, ela era enorme. Havia várias mantas de carne-de-sol e cestas cheias de ovos. Muita coisa estragava e o estoque tinha de ser maior”, diz Carmem. A outra vantagem do refrigerador foi variar o cardápio. “Finalmente, dava para guardar a carne crua. Antes, o melhor jeito de conservar era assando. E eu não agüentava mais comer carne assada!”

... Telefone

Antes de os aparelhos de telefone se popularizarem, o que só ocorreu a partir da metade do século 20, transmitir recados era penoso e demorado. Quem podia, contratava um contínuo, uma espécie de office-boy do século passado. “Quando ficava trabalhando em casa, sem aparecer na repartição, o ministro queria o contínuo perto de si, pronto para receber, introduzir ou mandar embora os visitantes, ou levar à secretaria, rapidamente, qualquer ordem de sua excelência. Naquele tempo não havia telefone”, escreveu Arthur de Azevedo no conto As Barbas de Romualdo. O primeiro aparelho telefônico brasileiro foi instalado na residência de dom Pedro II, em 1877, apenas um ano depois de a invenção ser patenteada pelo escocês Alexander Graham Bell.

... Ventilador

O calor dos trópicos deve ter sido a maior motivação para a patente que Américo Cincinatto Lopes registrou no Rio de Janeiro, em 1883: um ventilador doméstico. De acordo com o livro A Vida Cotidiana no Brasil Nacional, editado pelo Centro de Memória da Eletricidade, da Eletrobrás, o registro de Lopes chegou seis anos antes do projeto de ventilador portátil que George Westinghouse desenvolveu nos Estados Unidos. Antes disso, o jeito mais comum de refrescar-se nas casas e ruas brasileiras era usando leques ou outros materiais para abanar. Ambientes muito grandes e fechados tornavam-se um problema para arquitetos. Quando construíram o Teatro da Paz, na capital do Pará, em 1868, os responsáveis tiveram de desenvolver um sistema de ventilação especial. Sem isso, seria impossível ver ou apresentar qualquer espetáculo no teatro cheio de gente em uma cidade tão quente quanto Belém. Assim, criou-se um ventilador manual que era movido sobre o forro. As saídas de ar foram localizadas embaixo das cadeiras. Também por causa do calor, os assentos não podiam ser de couro ou tecido e, por isso, foram feitos de palha.


Saiba mais
Livros

A Vida Cotidiana no Brasil Nacional, Org. Marilza Elizardo Brito, Centro de Memória da Eletricidade, 2001 - O livro mostra como a eletricidade mudou o Brasil a partir do século 19 e reúne 225 imagens da época, entre fotos e anúncios de jornal

From Hand to Mouth, James Cross Giblin, Harper Collins Publishers, 1987 - Giblin contextualiza a invenção dos talheres, mostrando como foram inseridos na rotina de diversas sociedades

História da Vida Privada no Brasil, Volume 1, Vários autores, Companhia das Letras, 1998 - A livro é uma obra prima para quem quer entender a vida cotidiana no Brasil colonial. Cada capítulo trata um tema diferente. O terceiro, “Família e vida doméstica”, explica como índios, escravos e nobres se viravam com as tarefas do dia-a-dia

Vita di Casa – Abitare, Mangiare, Vestire nell’ Europa Moderna, Raffaella Sarti, Laterza, 2002 - Detalhes de como era a vida cotidiana na Europa, com destaque para o dia-a-dia na Itália, país de origem da historiadora.

Site

www.inventor.about.com - Organizado pela documentarista americana Mary Bellis, traz a história de invenções como geladeira e aspirador de pó, além de novas descobertas

Revista Aventuras na Historia