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quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Mitologia dos Orixás


Livro conta sobre Mito dos Orixás
Seitas, religiões e mitos são temas correntes das obras do sociólogo e professor da USP Reginaldo Prandi que lança pela Companhia das Letras Mitologia dos Orixás

Através de contos curtos, sem autor, protagonizados por deuses e deusas, semideuses e heróis divinizados, Reginaldo Prandi conta sobre as origens da religião dos orixás no livro Mitologia dos Orixás, lançado na semana passada pela Companhia das Letras. O livro é uma coleção de 301 relatos mitológicos. As histórias são acompanhadas por ilustrações do artista
plástico Pedro Rafael e por fotos de todos os orixás que se manifestam em cerimônias do candomblé no Brasil

Ao narrar episódios com Exu, Ogum, Iemanjá e Iansã, Mitologia dos Orixás chama a atenção para o vasto patrimônio cultural deixado pelos negros iorubás ou nagôs. O culto aos deuses negros que sobreviveu e prosperou em países da América - em particular no Brasil e em Cuba -, nos últimos anos, tem chegado até a Europa. A obra ainda traduz o que os orixás fazem, querem e prometem. Na sociedade tradicional dos iorubás, é pelo mito que se alcança o passado, se interpreta o presente e se prediz o futuro.

Seitas, religiões e mitos são temas correntes das obras do sociólogo e professor da USP. Prandi recentemente lançou os livros Caminhos de Odu, Um sopro do Espírito: a renovação conservadora do catolicismo carismático, que foi traduzido para o italiano.

Mitologia dos Orixás, de Reginaldo Prandi, 642 págs., editora Companhia das Letras

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Lobisomem



Lenda brasileira
No Brasil existem muitas versões dessa lenda, variando de acordo com a região. Uma versão diz que a sétima criança em uma sequência de filhos do mesmo sexo tornar-se-á um lobisomem. Outra versão diz o mesmo de um menino nascido após uma sucessão de sete mulheres. Outra, ainda, diz que o oitavo filho se tornará a fera.
Em algumas regiões, o Lobisomem se transforma à meia noite de sexta-feira, em uma encruzilhada. Como o nome diz, é metade lobo, metade homem. Depois de transformado, sai à noite procurando sangue, matando ferozmente tudo que se move. Antes do amanhecer, ele procura a mesma encruzilhada para voltar a ser homem.
Em algumas localidades diz-se que eles têm preferência por bebês não batizados. O que faz com que as famílias batizem suas crianças o mais rápido possível. Já em outras diz-se que ele se transforma se espojando onde um jumento se espojou e dizendo algumas palavras do livro de São Cipriano e assim podendo sair transformado comendo porcarias até que quase se amanheça retornando ao local em que se transformou para voltar a ser homem novamente. No interior do estado de Rondônia, o lobisomem após se transformar, tem de atravessar correndo sete cemitérios até o amanhecer para voltar a ser humano. Caso contrário ficará em forma de besta até a morte. O escritor brasileiro João Simões Lopes Neto escreveu assim sobre o lobisomem: "Diziam que eram homens que havendo tido relações impuras com as suas comadres, emagreciam; todas as sextas-feiras, alta noite, saíam de suas casas transformados em cachorro ou em porco, e mordiam as pessoas que a tais desoras encontravam; estas, por sua vez, ficavam sujeitas a transformarem-se em Lobisomens…" [1]
Há também quem diga que um oitavo filho que tem sete irmãs mais velhas se torna lobisomem ao completar treze anos. Também dizem que o sétimo filho de um sétimo filho se tornará um lobisomem.
A lenda do lobisomem é muito conhecida no folclore brasileiro, e assim como em todo o mundo, os lobisomens são temidos por quem acredita em sua lenda. Algumas pessoas dizem que além da prata o fogo também mata um lobisomem. Outras acreditam que eles se transformam totalmente em lobos e não metade lobo metade homem.

Algumas lendas também dizem que se um ser humano for mordido por um lobisomem, e não o encontrar a cura até a 12ª badalada desse mesmo dia, ficará lobisomem para toda a eternidade. No interior do estado de São Paulo, divisa com Minas Gerais, está localizada a cidade de Joanópolis, capital mundial do Lobisomem, com o maior número de avistamentos da fera registrados em uma só cidade até hoje e quando se questionava acerca da razão da existência de tal coisa, as respostas eram algo unânimes: "As palavras dos batizados eram outras..." e mencionava-se as razões já ditas na lenda brasileira. Por vezes, quando as pessoas vinham de uma festa ou convívio, ou simplesmente vinham da horta, a pé ou de carroça, e estamos a falar há 30 ou 40 anos atrás (ou mais), não raras vezes era ouvido um som repetitivo, como um trovão constantemente a tronar, de longe e associava-se isso aos lobisomens.
Desde há alguns anos para cá que não se ouve falar de um caso desses, mas ainda perduram na memória as histórias que nos contavam em pequenos, como a do homem que conversava com os seus amigos no café, e deixa escapar: "Como me custa subir a serra da Ladeira de noite, com pés de porco…".
Há referências muito antigas ao lobisomem em Portugal. Aparece no Rifão de Álvaro de Brito (Cancioneiro Geral):
Sois danado lobishomem,
Primo d’Isac nafú;
Sois por quem disse Jesus
Preza-me ter feito homem.
(Garcia de Resende, Excertos, por António Feliciano de Castilho, Livraria Garnier, Rio de Janeiro, 1865, p. 24).
É também mencionado no Vocabulario Portuguez e Latino de Rafael Bluteau (tomo V, p. 195) e nos sonetos de Bocage:
Profanador do Aónio santuário,
Lobisomem do Pindo, orneia ou brama,
Até findar no Inferno o teu fadário!
(Bocage, Obras Escolhidas, primeiro volume, p.122).
http://pt.wikipedia.org/

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Crer ou não crer: eis a superstição


Mito, crença religiosa, fantasia popular. Não importa. Na dúvida, é bom fazer figa quando um gato preto cruzar na nossa frente

Stelio Marras*

Não há como ignorá-las. Superstições são antigas, têm história documentada, sobrevivem e revivem, despertam a curiosidade, provocam ironias, interessam a vários domínios de conhecimento. No Brasil, constam no rol da chamada tradição popular, antiga e rústica, temperada no permissivo catolicismo "mole" e "adocicado", como assim denominou Gilberto Freyre, ensaísta da formação social e cultural da colônia portuguesa na América, aí onde as superstições encontraram campo fértil para difusão e criação. Certa porosidade entre tradições africanas, indígenas e européias, certo distanciamento da população em relação aos ritos oficiais da Igreja em tão vasta e dispersa colônia continental formaram o caldo histórico e sociológico que irrigou o imaginário das superstições. Mário de Andrade nelas tropeçou em suas andanças pelos interiores brasileiros. Rendeu-lhes conta, por exemplo, em seu Namoros com a medicina. Mas basta um lance de olhos em Macunaíma para logo flagrarmos um tanto delas ali salpicadas.

Luís da Câmara Cascudo as documentou e sobre elas versou em toda a sua obra dedicada à chamada cultura popular. Folclorista, como então se denominava, Câmara Cascudo dedicou um livro ao assunto: Superstição no Brasil. Em seu Folclore do Brasil, de 1967, por exemplo, Cascudo demora-se em superstições sobre o poder contagiante, purificador e rejuvenescedor da água e dos banhos. Escreve sobre os afamados banho-de-cheiro, banho-do-mato, banho-de-ervas ou as técnicas de ramalhete, todos recursos de defesa mágica, "com feição terapêutica contra a má sorte, reincidência de acasos infelizes, negócios falhados, assuntos de amor impossível, sonhos econômicos", que povoavam e povoam os recantos de um Brasil nem tão antigo assim. De uso generalizado nas festas joaninas, havia arruda, alecrim, manjericão e outra infinidade de ervas aromáticas. Havia os banhos sanjoanenses, de origem portuguesa, preparados contra mau-olhado, azar, moléstias de pele, "porque têm o condão de conservar a felicidade, afastar o caiporismo, destruir o enguiço, ou readquirir os favores da sorte". Essa botânica que se chamaria hoje de popular, mas que foi medicina de uso geral na colônia, também se surpreende nos ritos e festas de candomblé, como em "feituras das filhas-de-santo e mesmo para fixar o santo".

Quanta magia de contágio e simpatia na historiografia sagrada e pagã das águas! Quanta, diríamos, superstição. Não é assim com a água benta ou santa? Antiga era a água lustral que gregos e romanos fumigavam com folhas de louro ou aspergiam em cerimônias de purificação. Pagãs, é verdade, mas serão transformadas na água batismal do cristianismo, utilizada pelo método seja da ablução, da imersão, da aspersão ou da efusão. Águas que purificam. Função que a água-de-oxalá também presta nos candomblés, água que se troca cerimonialmente para purificar o terreiro. Todas as águas que carregam semelhante princípio simpático do contágio, essa ação mágica indutora de efeitos, atraindo ou repulsando propriedades das coisas umas com as outras. Purificam, consagram. Dita o catolicismo popular brasileiro que "cuspir na água é cuspir na cara de Nosso Senhor". A incursão de Mário de Andrade nos assuntos de medicina destacou a recorrência dessa imagem imaculada, pura e sagrada da água:

Em Portugal é pecado urinar n'água, só se livrando da culpa quem diz, ao mesmo tempo: "Morra o diabo, viva o menino Jesus". Na Alemanha, explicam a proibição como delito contra o céu que se espelha nas águas. Ainda no Brasil amazônico, as mães proíbem aos filhos urinar n'água porque o terrível do peixinho candiru sobe por ela e entra na bexiga do mijador. Otoniel Mota, nas Horas Filológicas, provavelmente colhendo a tradição aqui em São Paulo, diz que o povo a explica afirmando que "a água é nossa mãe", e quem nela urina vai pagar no inferno esse desrespeito. É uma tradição linda brasileira a que proíbe defecar a beira-rio, porque jamais nunca as águas se dignarão atingir esse lugar, para sempre abjeto.

Sagrada e terapêutica como a popular água-dormida, aquela que se deixa ao sereno a fim de ganhar mais forças para ser ministrada como remédio no dia seguinte. Mágica e contagiosa como a "água da lavagem da camisa de uma mulher, dada a beber a um rapaz (que o faz) deixar outros amores e apaixonar-se pela dona da camisa", conforme relatos que Câmara Cascudo colheu. Aí a água aparece como substância, diríamos, própria de carrego, uma virtude conservacionista, mas, simetricamente, própria também ao descarrego, porque ela dissolve forças. Por isso os despachos das religiões de origem afro-americana terem a um só tempo suas forças conservadas ou dissolvidas conforme a espécie de rito que se apropria do elemento.

Naqueles banhos com águas mágicas, naquilo que hoje denominaríamos de superstições, podemos ainda ver coincidir medicina, magia e religião. Uma trova popular recolhida por F. A. Pereira da Costa e publicada em 1908 na Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, lembra o "banho na Cruz do Patrão", de encantos e virtudes mágico-religiosas, a que os foliões se apegavam para, associado ao favor do santo, dissolver mazelas e atrair felicidade e boas venturas.

Nessa noite é benta a água
Para tudo tem virtudes.

Em Fora de Portas
Eu vou me lavar,
Se eu cair no fundo
Mandai-me tirar.

Meu São João,
Eu vou me lavar,
E as minhas mazelas
Irei lá deixar.

Oh meu São João,
Eu já me lavei;
E as minhas mazelas
No rio deixei

Narrado e versado, o tema dá testemunho da história da cultura brasileira. Concedamos que as superstições assumem o mesmo estatuto de patrimônio cultural.

Podemos reencontrar imemoriais lendas nórdicas e recuar à Idade Média se seguirmos a genealogia histórica dos azares e infortúnios atraídos pelo número 13 ou pelo gato preto que cruza o caminho. Quem inventou isso de bater na madeira três vezes para isolar e afastar notícias ou pensamentos ruins? E os possíveis infortúnios trazidos pelo guarda-chuva aberto dentro de casa? De onde o mau-agouro de um espelho partido? E quanto às desditas por passar debaixo de uma escada? Desde quando vestir branco na virada do ano para atrair boa sina? Coisa de supersticioso? Por via das dúvidas, mesmo aqueles que se acreditavam incrédulos e céticos acabam com uma taça de champanhe à mão enquanto engrossam o coro da contagem regressiva nos ritos de passagem do ano. Confessos ou não, eles estarão devidamente paramentados com uma roupa de baixo tão alva como a própria esperança. Mas, para além de seus registros históricos, encaremos a pergunta: por que as superstições continuam entre nós, no presente? Que papel jogam no seio da mentalidade moderna, esta que, ao contrário, se brinda com a razão natural e a verdade científica? O que as superstições nos evocam? A que atendem? Exorcizariam algo?

Nós modernos, que cremos bem separar fatos da cultura e fatos da natureza, aceitaríamos de bom grado o valor cultural das superstições. Apoiado na razão e nas ciências naturais, porém, não é preciso muito para que o mesmo moderno logo ironize as pretensões de verdade e razão nas superstições. Não temos razão? Ora, é precisamente de razão que se trata. Nos dicionários, superstição aparece como antípoda da razão. Uma e outra se situam em posições diametralmente opostas. A negação de uma consiste na afirmação da outra.

Causalidade enganosa, agravo às verdades naturais, desvirtuamento do real. As superstições guardam a potência de ofender o saber científico, ilustrado, esclarecido. Terapêuticas supersticiosas, por exemplo, foram historicamente acusadas de charlatãs pela medicina oficial. Feitiçaria, paganismo, charlatanismo, irracionalidade - eis algumas das categorias que acompanham as superstições. Mesmo hoje, mesmo diante do saber científico já devidamente estabelecido na oficialidade, mesmo com todas as terapêuticas contrárias e heréticas já devidamente compartimentadas no cantão da cultura e destituídas do valor de conhecimento sobre a natureza não é impossível que a mentalidade moderna siga acusando nelas alguma espécie de degenerescência psicopatológica, como Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC), mania, obsessão. Sem ônus ou constrangimentos, a classificação médica e científica bem poderia enquadrá-las aí.

Por outro lado, é também verdade que a ciência moderna, em seu braço médico e acadêmico, deve conceder o valor de eficácia terapêutica que as superstições podem operar. Nesse caso, dir-se-ia tratar-se de eficácia simbólica, nessa expressão consagrada pelo antropólogo Claude Lévi-Strauss, que sugeriu assim compreender a solução de um parto embaraçado que arriscava a vida de uma indígena cuna (população do Panamá) e de seu bebê natalício. A solução consistiu em organizar, através do canto de centenas de versos míticos pelo xamã ou pajé, essa desordem (a um só tempo mental e orgânica) experimentada pela parturiente indígena. A criança finalmente veio à luz.

Não raramente minoritário, esse reconhecimento terapêutico é chancelado pelas ciências da natureza quando estas reconhecem nas superstições benesses aparentadas do efeito sugestão. Benefícios psicossomáticos, diremos. A desordem da doença substituída pela ordem da saúde restabelecida. Desequilíbrios que se curam. Mas, ainda aí, efeito placebo ou sugestão não passaria de subproduto terapêutico que as superstições surtiriam engendrar. Não por acaso aparecem como uma "má razão", conforme jargão tecnocientífico, contra a qual se erguem os laboratórios não por acaso denominados contra-placebo. Como sugestão, placebo ou superstição, trata-se de razões fracas perante as fortes das ciências, estas baseadas num tribunal da razão supostamente imparcial.

Como crença, as superstições refletiriam um fundo religioso, mas não por isso podem pretender escapar das acusações. Bem ao contrário, também aqui sua existência reforça suas forças opostas: as de uma religiosidade depurada de atos mágicos e ritos de simpatia. Se tanto, a religiosidade a que as superstições remetem aparece de certa forma pífia, não compõe sistemas morais, como normalmente presentes nas grandes religiões. Resquícios de sistema religioso, elas ecoariam um indesejável e incômodo fundo pagão e de feitiçaria.

Qual primitivo poder contagioso de um copo de água sobre um televisor a exibir preces e encantamentos? Num contexto contemporâneo de modernidade e ciência, as grandes religiões tradicionais que vingaram no solo histórico do Ocidente já não podem, não sem mais, ratificar oficialmente o ato de abrir, ao acaso, uma página da Bíblia atrás de respostas para aflições. Também aqui as superstições vão se prestar, não raro, a objeto de ironia, como não passassem de bizarras e exóticas sobrevivências de um misticismo difuso, de uma religiosidade mágica que outrora se servia, sem pudor, de semelhantes atos e representações em suas liturgias, ritos e ofícios, mas que agora talvez as prefira deixar esquecidas em seu passado obscuro. Convém mesmo esquecer sua etimologia.

O certo é que invariavelmente topamos com esse conjunto bem articulado de acepções negativas, testemunhas das acusações disparadas pelas forças bem estabelecidas da ciência e da religião. Crença em falsas razões, temores infundados, confusão sobre causalidade, percepções enganosas, fetichismo, fantasia. Face às superstições, ciência e religião dão-se os braços para se oporem ao charlatanismo e ao paganismo que pressupõem nesses sortilégios, nessas que seriam muletas destinadas a exorcizar, como magicamente, o medo e a insegurança. Fonte de irreflexão e imprudência, arcaísmo da natureza, atavismo da cultura, abastardamento da religião - eis a pecha das superstições.

Geneticamente ligadas ao que se convencionou denominar de tradições populares, as superstições marcam o conflito - histórico, sociológico, político, cultural - com os poderes espirituais e temporais que se forjaram negando terapias mágicas e feitiçarias mestiças. Mas um domínio revela o outro, eles se correspondem. A história das superstições é a história das acusações que receberam. Mas, ora, não é como categoria de acusação que as superstições revelam o moderno ele mesmo? Pela negativa, elas nos dão conta de nós mesmos. É que, contrapondo-se à religião oficial, aos métodos racionais de terapia e cura, ao saber das ciências bem firmadas e instituídas, sorrateiramente as superstições denunciam no moderno tudo que nele aparece como dado e universal: tudo que é diametralmente oposto ao absurdo e inverossímil, ao fantasista e irracional. Mas não será que ganharíamos mais se deixássemos, por assim dizer, passar os mistérios e as ambigüidades das superstições?

É certo que, opostamente ao programa fechado das ciências e suas certezas prometidas, nas superstições o acaso e as incertezas insistem em permanecer. Mais: seu programa aberto permite operar com os mesmos elementos para ativar forças ora atrativas ora repulsoras, ora o semelhante causando o semelhante, ora causando seu contrário. Se elas não fossem logo de saída barradas, proibidas ou desdenhadas pelo senso comum da ciência e da modernidade, que maiores efeitos experimentaríamos das rivalidades que as superstições instauram? Decerto que por ameaçar nossos mais cavados fundamentos é que sempre incomodaram tanto.

Ainda que acantonadas no cômodo domínio quase exótico da cultura, mesmo sendo objeto de desconfiança e até zombaria dos modernos quanto à lógica e eficácia de suas poções e mezinhas, além de distorção do verdadeiro espírito religioso, as superstições contudo seguem e insistem. O caso é que, se as ignoramos, junto deixamos no irrefletido todas as condições que, touché, permitem nossas reflexões - racionais e escrupulosas, experimentais e reprodutíveis, científicas e reais. Aí certamente o poder das superstições entre nós modernos. Fundo de resistência à unanimidade e ao consenso, as superstições desestabilizam as evidências e o evidente. Melhor crer nelas. Nem que seja por superstição.

DEFINIÇÕES
Superstição: substantivo feminino
1. Crença ou noção sem base na razão ou no conhecimento, que leva a criar falsas obrigações, a temer coisas inócuas, a depositar confiança em coisas absurdas, sem nenhuma relação racional entre os fatos e as supostas causas a eles associadas; crendice, misticismo.
Ex.: por segurança, vários hotéis nos Estados Unidos não possuem o 13º andar.

2. Crença em presságios e sinais, originada por acontecimentos ou coincidências fortuitas, sem qualquer relação comprovável com os fatos dos quais se acredita sejam prenúncio.

3. religião primitiva, em que se cultuam basicamente espíritos que se crê estarem presentes nas coisas e nas forças da natureza; paganismo, magia, feitiçaria.

4. Derivação por extensão: crença cega, arraigada e exagerada em alguma coisa, alguma regra ou algum princípio, que se adora ou se segue sem questionar. Do latim superstitìo, ónis 'superstição; observação escrupulosa; objeto de terror religioso; culto religioso, veneração; adivinhação, profecia', do v. lat. supersto, as, stìti, státum, áre 'estar sobre ou acima de; estar apoiado ou firmado sobre'.

Fonte: Dicionário Eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa. Versão 1.0.5, Agosto de 2002.
Revista Brasileiros

terça-feira, 27 de setembro de 2011

SERES SOBRENATURAIS: TUTU


Entidade com que se mete medo às crianças quando choram. É roncador. A forma em que o idealizam na Bahia é a de um catitu ou porco do mato. Deste primeiro nome talvez se originasse o termo Tutu, que é popular em todo o Brasil. Ouvi porém dizer que é voz africana e que era usada pelas amas negras. Na Bahia também Tutu-cambê: Olhe o Tutu!... E vem ele! Quando os meninos choram o Tutu vem comer eles... não chore não!

O Tutu-Cambê é um bicho muito feio e só come os meninos bonitos... Aé vem o Tutu!...

Às vezes o Tutu-Cambê, fazendo a devida roncaria, aparece. Para isso cobre-se uma pessoa com um pano andando devagar e roncando.

O Tutu com facilidade se enxota: basta bater-se com o pé no chão e dizer-se: Xô!... Tutu, vai-te embora que o menino não chora mais.

No sul da província de Minas Gerais o Tutu anda oculto atrás das portas e a sua voz é de trovão. Aí é frase popular: "Oia Tutu qui vem comê minino... não como meu fio não, não leva meu fio não, Tutu!...

O Tutu do povo brasileiro é idêntico ao Papão e à Coca de Portugal.

Nas cantigas com que as amas costumam acalentar às crianças quase sempre entra o Tutu. São elas as mais das vezes cantadas de improviso e por isso em muitas nota-se-lhes os defeitos da rima. A seguinte é popular na Bahia; dou-o como documento, porque se refere principalmente ao Tutu-Zambê ou Cambê:

Tutu Zambê

Vem papá sinhazinha;
Tutu vá s’imbora
Sinhazinha ‘stá dormindo.

Tutu Zambê
Vem papá iaiazinha,
Bébe, aí, boi,
Iaiazinha ‘stá dormindo,
Tutu vá ‘s’embora.

Evem o Tutu
Por detrás do murungu,
Pra comer sinhazinha
C’um pedacinho de angu.

Cala a boca, Iaiazinha,
Que seu pai já vem já,
Foi buscar timão de seda,
Forrado de tafetá.

No interior da província do Rio de Janeiro cantam monotonamente as pretas, umas quadrinhas para fazerem as crianças dormir. Uma delas diz assim:

Tutu vá s’embora
Pra cima do telhado,
Deixa o nhonhô
Dormir sossegado.

O senhor doutor Sílvio Romero nos seus Cantos populares do Brasil, v. 1, sob nº 181, coligiu no Rio de Janeiro uma canção que termina com a seguinte estrofe:

Tu-tu-ru-tu-tu
Lá detrás do murundu...
Teu pai e tua mãe
Que te comam com angu.

Também a ouvi cantar no Rio de Janeiro desgarrada da estrofe que a antecede na coleção do senhor doutor Sílvio Romero apenas com variante no segundo verso, que diz:

- Por detrás do murundu...

Na província do Rio de Janeiro igualmente coligi a canção do Tutu, que é muito popular entre as amas negras para acalentar as crianças e que apenas se reduz a estes versos:

Tu-ru-tu-tu
Do velho murundu,
Agarra este menino
Comei-o com angu.

Em Campos, ainda na província do Rio de Janeiro, são populares estas duas estrofes:

Tu-tu-ru-tu
Senhor Capitão,
Pegai este menino
Comei com feijão.

Tu-tu-ru-tu
Por detrás do murundu,
Pegai este menino
Comei com angu.

Ora, como se vê na Bahia diz-se murungu que rima perfeitamente nas canções com "angu", voz africana, e no Rio de Janeiro, murundu, que dão como significação de um pequeno monte, por detrás do qual se acha o Tutu.

Murungu é palavra guarani ou tupi e nome de árvore natural do país, da família das leguminosas (Erythrina corallodendron, Linn). Na Bahia é este o nome que lhe dão; mas no Rio de Janeiro, Maranhão, Pernambuco e Alagoas - o de mulungu. Como o tijim ou jequiriti, a semente desta árvore é muito popular entre as crianças pela beleza de sua cor vermelha. Ainda na farmácia brasileira o murungu é empregado. Trata-se pois de uma árvore cujo nome é constantemente pronunciado com a maior clareza.

Entre os brasileiros é freqüente, como lapso de língua, ouvir-se a transformação do l em r e vice-versa. Se porém a palavra murungu da canção da Bahia é brasileira ou corrupção de murundu das do Rio de Janeiro e esta mulundia africana (mbunda ou angolense), que significa exatamente monte, segundo Cannecattin no Dicionário da língua bunda ou angolense, é o que não posso resolver.

Entretanto se na Bahia é realmente palavra Zambê que aduzem ao Tutu e não Cambê (que pode também ser voz africana ou tupi ou ainda corrupção de "comer" português) e se o murungu da canção é a voz mbunda mulundu alterada, é provável o Tutu brasileiro, mas herdado da raça africana.

Zambê será corrupção de Zambi, palavra angolense que significa Deus? ou de Zumbi, voz também angolense que quer dizer alma do outro mundo? Cambé pode talvez ser corrupção do Tambi, que segundo Batista Caetano significa pêlo erguido; e como na Bahia dão ao Tutu a forma de porco do mato, é natural que o seu cabelo seja erguido, eriçado, como o tem o catitu quando está zangado. Em umas notas que possuo tomadas pelo doutor Batista Caetano do velho caboclo Pedro João Vieira, na antiga aldeia de São José dos Campos, acham-se as palavras Cambê (kamby, ort. de Bat. Caet.) significando leite, e Cambu, mamar. No Vocabulário impresso de Batista Caetano encontra-se além de cambi, leite e cambu, mamar, o verbo cambi, que significa magoar, ofender, machucar, etc. Não se deve ainda esquecer dizer que Camba, voz angolense, significa amigo.

De parte a parte, das raças indígenas e africana, apareciam objetos, trajes, costumes e crenças novas que não tinham equivalente na linguagem dos invasores. A língua dos indígenas de todo o litoral era o tupi, mas a dos negros compreendia diversos grupos formados por idiomas particulares. Daí era grande a confusão de línguas africanas para poder entrar com mais facilidade maior número de palavras, na formação da linguagem brasileira. É costume nosso dizermos de qualquer palavra dos negros da Africa – É voz africana, sem contudo procurarmos designar ou indagar a que língua ou idioma pertence ela. É o mesmo que se dizer - É voz americana, referindo-se a algum termo dos povos indígenas da América, expressão vaga e que não se aplica senão ao continente a que ela se filia. Assim nos primeiros tempos da introdução dos negros as diversas línguas africanas andavam muito em voga, juntamente com o tupi, de modo que a linguagem falada era quase sempre mesclada de vozes que só os naturais e habitantes da terra compreendiam. Muitos desses vocábulos, como se sabe, ainda hoje permanecem; outros porém desapareceram de todo e de alguns que vão aparecendo nos documentos manuscritos até se desconhece o sentido. Não havia dicionaristas da língua portuguesa que o fosse coligindo, só mais tarde o brasileiro Morais e Silva foi que recolheu alguns para o seu dicionário. Aí estão por exemplo as produções do poeta Gregório de Matos, em parte publicadas ultimamente, em que se deparam dezenas de vocábulos por ele empregados, que hoje não se sabe qual a sua origem e o seu verdadeiro sentido. Apesar disso o poeta baiano como lingüista presta auxilio poderoso à linguagem brasileira. É o escritor que nos dá a idéia mais exata do modo de falar e escrever no Brasil no XVII século. O seu vocabulário é riquíssimo, principalmente em locuções e termos populares da Bahia e de Pernambuco, sem excetuar, já os de origem guarani, já os derivados das línguas africanas, e é o único documento daquele século que possuímos neste gênero de estudos.

É pois constante a dúvida de se saber ao certo a língua a que pertence esta ou aquela voz alterada que se encontra na escrita antiga ou mesmo muito popularizada na linguagem da família brasileira.

Hoje é que se discute a procedência das palavras mazombo, mameluco, emboaba, cafuz, cabo-verde, curiboca, carioca e outras muitas. O doutor Batista Caetano, o nosso saudoso Mestre, cuja perda será sempre lamentada por todos os que se interessam por estes assuntos, descobriu visos que a palavra carapuça era abañeênga ou guarani, procurando dar-lhe a etimologia; mas quando leu na carta de Vaz de Caminha que a tripulação da armada de Cabral, que descobriu o Brasil, distribuiu carapuças aos naturais da terra, antes que tivessem os portugueses qualquer contato com eles, viu que tinha caído em erro, erro que o Mestre muito se doía.

A que língua pois pertence a voz Tutu, se de origem africana ou tupi, ou se inteiramente brasileira, e o que não se sabe por ora.


(Vale Cabral. Alfredo do. "Achegas ao estudo do folclore". Em Cascudo, Luís da Câmara. Antologia do folclore brasileiro)

O passeio da peste


Viriato Padilha
Estamos em uma aldeia de índios batizados, situada à margem do rio Tieté.

Administra-a o venerando jesuíta, padre Domingos Salazar, homem dos seus cinqüenta anos, e que há vinte se ocupa na árdua missão da catequese, segregado da sociedade civilizada e do convívio dos seus irmãos da Ordem.

O sol começa a afundar-se por detrás das serranias azuis que se empinam ao longe; chilram cigarras no arvoredo de folhagem amarelada pela canícula; e a caboclada, que já terminou nesse dia os trabalhos a que a obriga o severo jesuíta, estira-se nas redes de tucum, a bocejar, enlanquecida pelo fortíssimo calor do dia.

O padre Domingos Salazar, com as mãos cruzadas sobre o peito magro, de fisionomia carrancuda, a remoer no cérebro um pensamento que, pelas rugas fundas da fronte, parece aflitivo, passeia vagarosamente na frente do seu ranchinho, um pouco afastado dos da tribo, e de vez em quando levanta os olhos para o céu onde leves nuvens se esgarçam, varridas por brisas altíssimas.

Já há um mês que não chove: o milho plantado pelos bugres está torcendo as folhas e secando o pendão, antes que o pólen se tenha derramado sobre a boneca e gerado o fruto; vão escasseando as águas correntes e as dos charcos começam a apodrecer, exalando emanações pestilenciais.

O padre Domingos Salazar sente-se incomodado com a prolongação da seca; o calor tornou-se insuportável; a colheita do milho e da mandioca está irremediavelmente perdida, e, o que é mais grave, anuncia-se a invasão de uma epidemia qualquer no aldeamento.

Já dois meninos, que andavam no brejo a pescar traíras, caíram com febres de mau caráter; já vagam bugres pelo mato, colhendo a casca do pau-pereira para rebater as malignas.

Indubitavelmente as coisas iam mal, e o padre Domingos Salazar sentia-se embaraçado sobre o modo de resolver a crise com que se achava a braços.

A aldeia distava cerca de trinta léguas do primeiro povoado colonial. Não havia remédios para debelar o mal, se irrompesse, e, além disso, a caboclada era refratária, por índole e natureza, a qualquer prescrição higiênica.

– João tá com febe, – disse de repente uma cabocla que surgira no oitão da cerca, agravando assim, com anúncio tão desagradável, o desassossego do jesuíta.

A cabocla trazia ao colo um menino de quatro para cinco anos, que tinha os olhos quebrados e a pele afogueada por intensa febre.

– Com certeza deixaste que se metesse com os outros pelos brejos. Agora aí o tens com uma maligna, talvez, – observou o padre Domingos Salazar em tom aborrecido e tomando o pulso ao doentinho. "Está ardendo em febre... É isso, não fazeis caso do que digo!... "

Diversos caboclos aproximaram-se para ver a criança enferma, e o padre Salazar, entrando no seu ranchinho, de lá trouxe um cobertor de lã.

– Agasalha o menino com este cobertor e.deita-o na rede. Ao mesmo tempo faze coser estas ervas em pouca água e logo que estiverem fervendo, tira a panela do fogo e vem dizer-me.

E voltando-se para os seus administrados que o rodeavam nesse momento, exclamou em tom imperativo:

– Previnam às mulheres que enquanto não chover não consintam que a criançada se meta pelos brejais. Há muitos dias que não chove, têm morrido peixes e caranguejos em grande quantidade, e com esta soalheira apodrecem e desprendem vapores que envenenam as criaturas.

Os caboclos ouviram em silêncio, habituados como se achavam a obedecer em tudo ao austero discípulo de Loiola. Um deles, porém, já velho e que era o cacique do bando aldeia do, abanou a cabeça, como que duvidando que a causa da enfermidade que começava a declarar-se entre os seus fossem as emanações pútridas dos charcos, e disse:

– Peste vem do brejo?! Hum! Pode ser, mas não tenho fé. – E voltando-se para os caboclos: – Não se lembram daquele tupinambá que passou por aqui na lua-nova?

– Que tem o tupinambá com as febres? – interrompeu o padre Salazar contrariado.

– Desconfio que ele andava passeando a peste. Não te lembras, padre, como ele caminhava tão vergado para o chão, sendo no entanto ainda moço? E parecia tão triste, tão cansado! Andava com certeza passeando a peste. Infelizes de nós!

Todos os caboclos aprovaram o que dissera o maioral, e o padre Salazar, que percebeu naquelas palavras a revelação de uma lenda religiosa ou de um mito, mordido pela curiosidade, abancou-se em um toro de madeira que havia no terreiro, e pediu ao índio velho que lhe contasse por que forma a peste passeava.

Então, o índio, sentando-se ao lado do padre, ao passo que os outros, interessados na audição da lenda, se acocoravam no chão, contou em tom pausado e grave a seguinte história:

* * *

Era no tempo dos cajus maduros, e todo o povo dos guaianases andava na colheita dos frutos, para com eles preparar o cajuí, a excelente bebida com a qual se embriagaria no poracé, a grande festa sagrada da nação.

Isto deu-se antes que os portugueses chegassem aqui pela primeira vez, e muitas gerações já se passaram depois que tal aconteceu.

Um homem daquele povo (Irerê-una se chamava ele), saiu uma manhã para colher caju, e tendo já enchido um grande panacu, como o sol estava muito quente, e ele se sentia um tanto cansado, deitou-se à sombra da árvore e adormeceu profundamente.

Todos se recolheram às suas casas, e Irerê-una lá ficou, dormindo a sono solto debaixo do cajueiro.

Quando despertou já o sol se ia sumindo atrás das serras e Irerê-una admirou-se de ter dormido tanto.

Logo levantou-se, e preparava-se para lançar o panacu às costas, quando uma visão estranha o fez pasmar, e por tal forma o assustou que lhe tirou os movimentos.

É que lá ao longe, por entre os últimos cajueiros da praia, assomava uma mulher muito alta e de singular aspecto e feições, envolta em longo sudário branco, que, com o andar e com a aragem vinda do mar, se agitava brandamente. Os cabelos em alvoroço lhe escapavam por baixo do sudário. A fisionomia era esquálida e severa. Os braços longos e ressequidos tinha-os ela cruzados sobre o seio no qual não se viam as eminências dos peitos. A pele de seu rosto era avermelhada, sanguínea e pintalgada de manchas negras e roxas, de um roxo de gangrena. Os olhos eram fundos, sumidos nas profundidades do rosto e despediam um lampejo constante, fino como a lâmina de uma faca.

A mulher ia cada vez se aproximando mais, e já estava perto... Irerê-una teve medo, muito mêdo, e voltando as costas ao medonho fantasma, tentou fugir...

Não o pôde, no entanto: a mulher-fantasma estendeu um braço muito longo, sem fim, e pousou a mão sobre o seu ombro, fazendo o infeliz deter-se.

Irerê-una soltou um grito de pavor, e caiu de joelhos, a tremer-lhe o corpo todo. O contato da mão da mulher estranha causara-lhe o efeito de uma cobra que se lhe enroscasse ao pescoço.

– Sabes quem sou? – perguntou a medonha aparição.

– Bem te conheço, és a peste! – respondeu Irerê-una, quase a sucumbir de medo e horror. – Poupa-me, deixa-me viver!

– Sim, sou a peste! – confirmou o fantasma.

– Andava à procura de um homem! Tu me apareceste, tanto melhor! Chegou o tempo de dar o meu passeio por entre os vivos, e assim desci do céu num raio de lua cheia. Escolhi-te; vais servir-me de montaria; desde já trepo em teus ombros, e tu me conduzirás a todas as nações desta terra, a todas as tabas, a todas as ocas. Vou fazer a minha colheita de vidas. Anda, homem, caminha... caminha!... Em paga de teu serviço, não te matarei: sobreviverás a todos os homens!

E dizendo isto, a peste saltou no cangote de Irerê-una, e, aí agarrando-se, começou o pobre índio a caminhar.

Irerê-una não sentia peso algum nas costas, porém todas as vezes que levantava a cabeça dava de rosto com a medonha mulher de rosto avermelhado, pintalgado de um roxo de gangrena.

* * *

E começaram a caminhar – o homem sempre carregando a assombrosa mulher.

Irerê-una levava a peste a toda a parte.

Tudo eram alegrias e festas pelas tabas, antes da sua passagem.

Bebia-se o cajuí, dançava-se o poracé e o yeroqui, tocava-se o boré e a inubia; o maracá chocalhava. Os homens contavam uns aos outros as suas façanhas de guerra e de caça; as mulheres cantavam; as crianças folgavam, cambalhotando na areia dos regatos, ou balançando-se nas cipoadas; as velha torravam a formiga vermelha para extraírem o veneno com que se ervam as setas.

Tudo era festas: defumava-se a carne dos animais mortos pelo matos; secava-se o peixe colhido nas piracemas; 1impavam-se os caminhos para a visita solene dos pajés.

Mas para logo mudavam-se as coisas, desde que por ali passava Irerê-una com o terrível fantasma que o cavalgava. Danças, restas, cantos de moças, prosas de guerra e de caça, folguedos de crianças, trabalhos divertidos – tudo desaparecia, para dar lugar ao pranto, aos gemidos, às dores cruciantes, às longas agonias e à morte.

Por onde Irerê-una passava, ficava um longo rastro de cadáveres, pela maior parte insepultos, a apodrecerem ao sol e servindo de pasto aos corvos.

Crianças, mulheres, guerreiros valentes, pajés venerandos, tudo a peste matava. As aldeias transformavam-se em tristonhas taperas, as canoas vogavam pelo rio abaixo abandonadas pelos remadores, às vezes transportando um cadáver colhido pela peste e por ela fulminado em meio da corrente.

* * *

Irerê-una levou primeiro a peste às aldeias de seus inimigos: aos caetés do sul, aos tupinambás da margem do mar, e depois, não havendo mais taba, nem oca, nem tujupar que não visitasse, foi obrigado a levar o flagelo à sua própria nação, àqueles bons boianases, dos quais ele se orgulhava de ser membro.

Pobre Irerê-una! Quanto lhe doía na alma ver cair um por um todos os guerreiros que ao seu lado outrora combatiam com galhardia, os melhores caçadores da tribo, e as donzelas, as casadas, as velhas, os pajés reverenciados e a criançada alegre! Quanto se amargurava o seu pobre coração em ver todo aquele povo, que era o seu, fulminado pelo fantasma horrendo, e a apodrecer pelos caminhos, sem ter mais quem se ocupasse em sepultar os cadáveres!

Mas que fazer? Todas as vezes que Irerê-una estacava, o fantasma esporeava-o, obrigava-o a caminhar, e a levar por toda a parte a devastação.

* * *

Tendo final Irerê-una chegado à margem de caudalosa torrente que bramia no fundo de um medonho abismo, disse à peste:

– Deixa-me agora Peste; já mataste todos os da minha nação e os das nações vizinhas; destruíste todos os homens, todas as mulheres, todas as crianças, e não ficou taba habitada; deixa-me, pois, terrível peste, nada mais tens a fazer aqui!...

– E aquele tujupar que se vê ali, na encosta do morro, quase a desaparecer por entre as pacoveiras? – disse a peste apontando para uma pequena choupana sumida entre a folhagem. – Ali há gente, homem; leva-me lá.

– Mas aquele tujupar é o meu, peste; Ali vivem minha mulher e filhos.

– Que me importa?! Leva-me ao tujupar da encosta do morro.

– Não, peste, não posso! Como poderei ver atirados à lama do tibicoe, entes que me são tão caros?! Minha mulher é a minha ventura, minha alegria, minha melhor companheira! Meus filhos, serão os perpetuadores do meu nome, os que se encarregarão de dizer aos vindouros as minhas bravuras e as minhas virtudes!

– Leva-me ao teu tujupar, – ordenou novamente a peste.

– Não, não posso; por tal preço seria a vida para mim pesada em extremo, não poderia sobreviver ao aniquilamento de minha mulher e de meus filhos, que tanto prezo.

E dizendo isso, Irerê-una, o malfadado, lançou-se de cabeça para baixo do abismo, e despedaçou-se nas pedras do fundo. A água tingiu-se com o seu sangue e os seus membros foram arrastados pela torrente.

A peste, assim que o infeliz despenhou, deixou-o, mas, como não possuía mais montaria, não pôde transportar-se ao ranchinho da encosta do morro, e despedindo-se da Terra voltou ao céu, subindo por um raio da Lua. Sacrificara-se Irerê-una para salvar sua família. Foi ela o tronco da nova nação goianaz.

* * *

O padre Salazar, com o queixo magro, sumido entre as mãos compridas, tinha ouvido atentamente toda a exposição desta lenda selvagem que para aqui transportamos, apenas alterando a linguagem do narrador. Logo que o velho cacique terminou, dirigiu-lhe a palavra:

– E assim, João Batista, desconfias daquele pobre Tupinambá que por aqui passou na lua-nova?

– De certo. Não vias, padre, como ele caminhava de cabeça tão baixa, que parecia vergado debaixo de um peso tão grande? Pode muito bem ser que o infeliz andasse a passear a peste pelo mundo.

(Padilha, Viriato. O livro dos fantasmas. Rio de Janeiro, Spiker, 1956, p.161-169)

Uma história do algodão

Jangada Brasil
Renato Almeida
Foi Heródoto, o célebre historiador grego, que viveu no século V antes de Cristo, quem se referiu a uma planta da Índia, que, em vez de fruto, produzia lã, melhor do que a do carneiro, com a qual se faziam vestimentas. Essa árvore era o algodoeiro. Ela aparece também na América, onde já era conhecida quando chegaram os conquistadores. Os indígenas o fiavam e teciam.

Contavam os índios mundurucu uma lenda, que associa o aparecimento do algodão com o dos homens no mundo. Em resumo é a seguinte - o primeiro homem, Caro Sacaibu tinha um filho Rainu, tipo inferior a quem odiava. Para livrar-se dele, imaginou um estratagema, que era fazê-lo desenterrar um tatu, o que não conseguiu, sendo assim levado pelo bicho para dentro da terra, de onde volveu não se sabe como. O certo é que disse a Caro Sacaibu que havia encontrado nas profundezas onde estivera uma grande quantidade de homens e de mulheres, que conviria de lá tirar, para lavrar a terra e fazê-la produzir. Aceita a idéia plantou Sacaibu uma semente e dela nasceu o algodoeiro. Depois que o arbusto cresceu e deu algodão, o deus tomou um pouco e fez um longo fio, a cuja ponta amarrou Rairu e fê-lo descer novamente pela terra a dentro. E de lá foi trazendo homens e mulheres, a princípio muito feios, depois mais belos e graciosos. Mas a cada descida e subida o fio ia se gastando até romper-se e assim muitas criaturas das mais perfeitas se perderam no abismo. Por isso a maior parte da humanidade é feia. Sacaibu dividiu os homens em tribos e lhes deu destino. O rebotalho, de fracos e miseráveis, transmudou em aves, e desde então os mutuns andam pelas florestas soltando gemidos plangentes.

Os cronistas e as cartas jesuíticas do primeiro século de nossa vida falam longamente do uso do algodão pelos indígenas, que o fiavam e teciam, as diversas utilidades que tinha, inclusive como arma de guerra, primitivos lanças-chamas, pois ateavam fogo em tochas de algodão na ponta das flechas incendiando aldeias inimigas, e como alimentação, cozinhando os caroços pisados, para fazer mingau.

(Almeida, Renato. Manual de coleta folclórica. Rio de Janeiro, Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro, 1965, p.106)
http://www.jangadabrasil.com.br

domingo, 17 de abril de 2011

O El Dorado

Emmanoel Gomes
Conta uma antiga lenda que bem distante, no interior da floresta, existia um reino onde seus palácios, casas e ruas eram construídas e adornadas com ouro.

Todos os dias ao amanhecer, o rei, chamado El Dorado, que significa: “aquele que é encoberto de ouro”, tomava um banho com óleos perfumados e naturais, sobre seu corpo um grupo de guerreiras lindas, jovens e virgens, sopravam uma fina camada de ouro em pó, de forma que toda a sua pele ficava revestida do precioso metal.

Após esse preparo, o mesmo, acompanhado pelas lindas jovens caminhava por seu reino, visitando os templos e as obras públicas, que eram todas feitas de ouro e adornadas com pedras preciosas, aproveitava também para cumprimentar os seus súditos.

Ao fim da tarde se encaminhava para um belo lago de águas transparentes onde se banhava, deixando lá no fundo todo o ouro que encobria o seu corpo.


Muitas expedições buscaram esse reino fantástico sem nunca encontrá-lo. O que moveu verdadeiramente a economia colonial amazônica foi a busca, exploração e coleta das drogas do sertão, que eram as especiarias regionais, como; Cacau, Castanha do Pará, Canela, Urucum, Guaraná, Salsa Parrilha e demais produtos que serviam a culinária, a indústria farmacêutica e perfumaria da época.

Entre os aventureiros que comandaram as primeiras expedições, podemos citar: Francisco de Orellana, intrépido navegador espanhol, credita-se a ele o descobrimento do grande rio Amazonas, por ele navegado, desde a nascente nos Andes, entre os anos de 1540 e 1541.

A expedição de Gonzalo Pizarro, nascido em Trujillo, Espanha, em 1502, que faleceu em Jaquijaguana, atual Peru, participou da conquista do Império Inca junto com seu irmão Francisco Pizarro, que o nomeou governador de Quito. Organizou uma grande expedição para explorar o mítico país das canelas. Durante a conquista, Gonzalo se destacou como um dos mais corruptos, brutais e cruéis conquistadores do Novo Mundo, sendo muito mais agressivo contra os nativos e os incas que seus outros irmãos.
Get Francisco de Orellana.
Francisco de Orellana

Vamos reproduzir um relato, extraído do livro “Breve História do Amazonas” Pág. 24 e 25, do Historiador Marcio Souza, que conta como foi a expedição de Gonzalo Pizarro.

Em fevereiro de 1541, Gonzalo Pizarro partiu de Quito, conduzindo 220 cavaleiros armados e encouraçados, milhares de lhamas para transporte de alimentos, 2000 porcos, 2000 cães que os espanhóis atiçavam contra os índios, dando origem a expressão “atirar aos cães”, largamente utilizada ainda hoje. A tropa era também reforçada por 4.000 índios da montanha, condenados a morrer no clima úmido e calorento da selva.

Francisco Orellana, que estava em Guaiaquil, chega depois da partida da expedição, exausto quase sem dinheiro, devido aos gastos para equipar seus 23 seguidores. Assim mesmo, embora com pouca comida e ignorando as advertências das autoridades de Quito, Orellana segue em busca de seu líder, sobrevivendo aos ataques de índios e logrando alcançar a tropa quando já estava quase passando fome. Orellana e seus seguidores estavam sem nada, apenas com suas armas, mas foram recebidos com alegria por Gonzalo, que deu a Orellana o título de comandante geral das forças combinadas.

Desde as primeiras semanas, a expedição sofre pesadas baixas. Em menos de quinze dias, mais de 100 índios já tinham morrido de frio e de maus tratos. Mas, quando entraram na selva, as coisas ficaram ainda piores. Chovia muito e a água enferrujava os equipamentos e limitava a visibilidade. O terreno era pantanoso, com lama e muitos rios para atravessar. Cavalgar num terreno como esse era impossível, o que fragilizava os espanhóis.

Quando as condições realmente se tornaram difíceis, Pizarro decidiu avançar com oitenta espanhóis a pé. Caminharam durante dois meses, com algumas baixas, e encontraram árvores de canela, mas tão afastadas umas das outras que não forneciam interesse econômico. Ao encontrar índios, Pizarro perguntava onde ficavam os vales e as planícies, mas esta era uma informação que ninguém sabia dar. Invariavelmente Pizarro atiçava seus cães contra os índios ou matava um por um com requintes de crueldade.

Finalmente, depois de muitas privações, Pizarro decidiu voltar. Mas encontraram uma tribo que lhes falou de um reino poderoso, muito rico, que existia mais abaixo do rio. Esta era uma história que qualquer um teria inventado para se ver livre daqueles arrogantes visitantes, mas os índios não contavam com a brutalidade de Pizarro. O chefe da tribo foi feito prisioneiro, e os que resistiram foram trucidados a tiros de arcabuz.

Quase dez meses depois, eles ainda estavam no rio Napo, tinham perdido praticamente todos os índios trazidos de Quinto e comido quase todos os porcos. Pizarro não tinha muitas opções e a mais razoável teria sido voltar. Mas os espanhóis não estavam no Novo Mundo para praticar a cautela e o senso comum. Por isso, quando Orellana se ofereceu para embarcar no bergantim e descer o rio em busca de comida, Pizarro aceitou, mas advertindo-o que deveria regressar em menos de quinze dias.

O bergantim foi carregado com as armas de fogo, toda a carga pesada e um pouco de comida. Orellana ia comandar sessenta homens, inclusive um cronista, frei Gaspar de Carvajal, conterrâneo de Orellana e Pizarro, que tinha vindo ao Peru para estabelecer o primeiro convento dominicano no país.

Foi o espanhol Francisco Pinzon quem batizou o atual rio Amazonas com o seu primeiro nome, Santa Maria de Mar Dulce, Santa Maria de Mar Doce, se tornando o primeiro europeu a navegar no grande rio.

Os índios chamavam o grande rio de “Pará Açu”, que significa grande lago.

Os viajantes citados não desenvolveram uma política de ocupação da Amazônia Brasileira. A ocupação e colonização do Brasil só vão acontecer a partir da expedição colonizadora de Martim Afonso de Souza em 1530.

Professor e historiador,
membro da academia vilhenense de letras
Emmanoel Gomes

quinta-feira, 17 de março de 2011

A criação do mundo

Todos os livros sagrados têm uma resposta sobre a natureza e a origem do Universo. Por que isso é tão importante para as religiões?
por Texto Tarso Araújo

No começo, era o nada. Então alguém resolveu contar a origem de tudo. E assim nasceu a tentativa do homem de explicar a origem do Universo. As civilizações mais antigas já tinham essa questão existencial. E as religiões, preocupadas em dar respostas a seus fiéis, não poderiam deixar de formular suas respostas. “Como surgiu tudo? Como é a origem do planeta, das coisas, do homem? Essas são as primeiras perguntas que o homem faz a si mesmo. Sejam indígenas, africanas, orientais, grandes ou pequenas, novas ou antigas, todas as religiões terão respostas para isso”, diz o teólogo da PUC-SP, Rafael Rodrigues, especialista no Antigo Testamento, que começa com a narrativa do livro do Gênese.

Na falta de referências, os homens costumam usar como matéria-prima dos mitos o mundo real para responder essas perguntas transcendentais. Por isso, a cosmologia de cada grupo social é um reflexo da cultura e do momento histórico de quem a inventa. “Os mitos colocam o que é mais importante na cultura local com uma importância proporcional nos mitos de criação”, diz Rodrigues. Logo o sol e a água, essenciais para a produção agrícola e a sobrevivência, sempre ocuparam lugar de destaque na mitologia das civilizações antigas. Muitas histórias sobre a origem do mundo começam contando como esses recursos foram criados ou controlados pelo homem.

Segundo a mitologia iorubá, no início dos tempos havia dois mundos: Orum, espaço sagrado dos orixás, e Aiyê, que seria dos homens, feito apenas de caos e água. Por ordem de Olorum, o deus supremo, o orixá Oduduá veio à Terra trazendo uma cabaça com ingredientes especiais, entre eles a terra escura que jogaria sobre o oceano para garantir morada e sustento aos homens. Para a tradição religiosa chinesa, o caos inicial era como um ovo no qual entraram em equilíbrio os princípios opostos, yin e yang. Desse equilíbrio nasceu Pangu, gigante de cujo corpo se formou a água, a terra e o Sol.

Às vezes os mitos de criação são verdadeiros tratados políticos de sua época. “Só compreendemos o 1º capítulo do Gênese se entendemos a catástrofe dos povos que o escreveram”, diz Rodrigues. A cosmologia judaico-cristã foi escrita por povos dos antigos territórios de Israel e Judá, levados à força para a Babilônia, onde pagavam tributos. “Quando dizem que ‘antes a terra estava vazia e sem forma’, eles não se referem ao planeta, mas ao território deles, que ficou devastado e abandonado após a invasão dos povos assírios.” A ordem de criação das coisas no mito é uma provocação ao poder local. A primeira frase dop Gênese diz que Deus fez a luz. Só no 4º dia Ele criaria o Sol, contrariando a cosmologia dos opressores babilônios, para quem Marduk, o Sol, era o deus supremo e criador de todas as coisas, inclusive da luz.

Ainda contando a tragédia dos povos de Israel e Judá, os capítulos 2 e 3 do Gênese mostram o que acontece quando um camponês perde aquilo que é mais primordial para sua sobrevivência: a horta. “O sentido da palavra que traduzimos para jardim, em hebraico, é horta”, diz Rodrigues. Ao ser expulso do Éden e perdê-la, Adão comerá “o pão com o suor do rosto” e Eva sentirá aumentar “as dores do parto” porquê, em vez de ter filhos de 7 em 7 anos, como era o hábito, terá de engravidar mais vezes para o casal ter mais filhos e mão-de-obra. Trabalhando para os babilônios, eles precisavam produzir mais para pagar impostos. “O mito nasce como uma crítica ao sistema produtivo da época. É um texto antitributarista”, afirma Rodrigues.

A versão de quem lê

A cosmologia das religiões geralmente é elaborada a partir de mitos mais antigos. Ao se apropriar deles, elas se alimentam do mito e ao mesmo tempo o fortalecem. Afinal, elas transformam as lendas em algo mais que a realidade: a verdade de Deus. E é nesse processo de assimilação que geralmente os mitos são organizados em livros sagrados, quando também entram em jogo as interpretações e tradições orais e escritas que vão orientar sua leitura pelos fiéis.

Os mitos do Gênese, por exemplo, foram escritos entre os séculos 8 e 5 a.C., mas a organização deles numa Torá só começaria no século 2 a.C. Nessa época, é provável que o texto tenha sofrido mudanças e adaptações, segundo os ideais do judaísmo nascente. A própria escolha dos textos também obedece os critérios da religião que o organiza, como aconteceria com o Novo Testamento, no início do cristianismo.

Mesmo fora dos livros sagrados, as tradições e interpretações dos mitos de criação fundamentam valores, regras morais e de comportamento para seus seguidores. “Há textos rabínicos que interpretam cada linha do Gênese para mostrar que a mulher não pode dar testemunho em público. Porque, quando ela tomou alguma decisão, levou o homem ao erro e ao pecado. A partir daí aparece toda a questão da sujeição da mulher”, diz Rodrigues. As tradições construídas a partir do texto às vezes se tornam mais fortes no imaginário do que os originais. Quando lembramos de Adão e Eva no paraíso, é comum pensarmos na maçã, como retratado na imagem da página anterior. Apesar de a palavra maçã não aparecer no texto do Gênese.

A cosmologia do hinduísmo também explica, além da origem do mundo, sua organização social. Segundo os Vedas, 3 divindades são responsáveis pelos ciclos de criação e destruição do Universo: Brahma cria, Vishnu preserva e Shiva o destrói para que o ciclo recomece. Para criar o mundo e os humanos, Brahma fez dois deuses de si: Gayatri e Purusha, o homem cósmico de onde foram feitas todas as coisas. Mas, enquanto alguns homens nasceram da boca de Purusha, e se tornaram sacerdotes, outros nasceram dos pés, e se tornaram os escravos da sociedade indiana.

O exemplo da sociedade hindu é apenas mais um exemplo de como os mitos sobre a criação do Universo fazem bem mais que resolver questões existenciais ao estabelecer relações de poder e detalhar códigos de conduta. O que faz deles ferramentas importantes para a coesão social, como parte indispensável da cultura e da identidade de um povo.

Revista Superinteressante

segunda-feira, 7 de março de 2011

Hades mitológico: o Príncipe das Trevas

Tereza Kawall


Quando descoberto, Plutão recebeu um dos epítetos atribuídos a uma importante divindade greco-romana, o deus Hades. No panteão da mitologia geco-romana, Hades era divindade misteriosa e temida. “Príncipe das Trevas”, “Deus do Mundo Subterrâneo”, destino final da sombra dos mortos. Seu nome significa “o invisível”. Era também conhecido por Plutão, que significa “rico”, pois era proprietário de todas as riquezas que existem sob a Terra.

Hades era filho de Cronos (o Tempo) e de Réia (deusa da Terra), e irmão de Zeus (rei dos deuses) e de Posêidon (deus do mar). Acredita-se que durante a titanomaquia recebeu dos ciclopes um capuz ou capacete que tornava seu portador invisível. Na partilha que se seguiu à luta, coube-lhe o controle do mundo subterrâneo e dos mortos.

Hades aparece raramente nas lendas, embora seja muito mencionado. Os principais episódios de que participa são o do rapto de Perséfone, filha de Demeter (deusa da fecundidade), com quem mais tarde se casou.
De Hades, nenhum favor ou benefício era esperado. Assim, ele não tinha templos e nenhum culto específico lhe era dedicado. Seu nome não era pronunciado, e a ele se referiam por meio de eufemismos. Era, também, raramente representado. Quando isso ocorria, mostravam-no com um cetro e, às vezes, com uma cornucópia, símbolo da fartura e da riquesa.
REVISTA PLANETA
EDIÇÃO 409

sexta-feira, 30 de julho de 2010

ENTENDENDO O FOLCLORE


ENTENDENDO O FOLCLORE
Maria Laura Cavalcanti*
março/2002


A palavra Folclore provém do neologismo inglês folk-lore (saber do povo) cunhado por Williem John Thoms, em 1846, para denominar um campo de estudos até então identificado como "antigüidades populares" ou "literatura popular".
Nesse sentido amplo de "saber do povo", a idéia de folclore designa muito simplesmente as formas de conhecimento expressas nas criações culturais dos diversos grupos de uma sociedade. Difícil dizer onde começa e onde termina o folclore, e muita tinta já correu na busca de definir os limites de uma idéia tão extensa. É o frevo, o chorinho, o xote, o baião, a embolada, mas será também o samba, o funk, o rock? É o natal, a páscoa, o Divino, o Boi-Bumbá, mas será também o desfile das escolas de samba? É o artesanato em barro, madeira, trançado, mas será também a arte de Louco ou de Geraldo Teles de Oliveira?
Pensamos e pesquisamos um bocado sobre o assunto. Chegamos à conclusão de que mais importante do que saber concretamente o que é ou não folclore é entender que folclore é, antes de qualquer coisa, um campo de estudos. Isso quer dizer que a noção de folclore não está dada na realidade das coisas. Ela é construída historicamente, e portanto a compreensão do que é ou não folclore varia ao longo do tempo. Para se ter uma idéia, aqui no Brasil, no começo do século, os estudos de folclore incidiam basicamente sobre a literatura oral, depois veio o interesse pela música, e mais tarde ainda, lá para meados do século, o campo se amplia com a abordagem dos folguedos populares. Para entender o folclore é preciso conhecer um pouco de sua história.

I
Os estudos de folclore são parte de uma corrente de pensamento mundial, cuja origem remonta à Europa da segunda metade do século XIX. Ao mesmo tempo em que procuravam inovar, esses estudos são herdeiros de duas tradições intelectuais que se ocupavam anteriormente da pesquisa do popular: os Antiquários e o Romantismo.
Os Antiquários são os autores dos primeiros escritos que, nos séculos XVII e XVIII, retratam os costumes populares. Colecionam e classificam objetos e informações por diletantismo, e acreditam que o popular é essencialmente bom.
O Romantismo, poderosa corrente de idéias artísticas e literárias, emerge no séc. XIX em associação com os movimentos nacionalistas europeus. Em oposição ao Iluminismo, caracterizado pelo elitismo, pela rejeição à tradição e pela ênfase na razão, o Romantismo valoriza a diferença e a particularidade, consagrando o povo como objeto de interesse intelectual. O povo, para os intelectuais românticos, é puro, simples, enraizado nas tradições e no solo de sua região. O indivíduo está dissolvido na comunidade.
A trajetória dos estudos de folclore no Brasil mantém relações com os debates do contexto intelectual europeu. Essas duas tradições são incorporadas pelos estudiosos brasileiros que procuram também conferir cientificidade a seus trabalhos. Entre os pioneiros desses estudos no país, estão autores como Silvio Romero (1851-1914), Amadeu Amaral (1875-1929) e Mário de Andrade (1893-1945). Sílvio Romero é célebre pelas coletas empreendidas na área da literatura
oral e pelo desejo, de origem positivista, de uma visão mais científica e racional da vida popular. Amadeu Amaral enfatiza a necessidade de uma coleta cuidadosa das tradições populares, e empenha-se pelo desenvolvimento de uma atuação política em prol do folclore, visto como depositário da essência do "ser nacional".
Mário de Andrade procura conhecer e compreender o folclore em estreito diálogo com as ciências humanas e sociais então nascentes no pais. Para ele, o folclore, expressão da nossa brasilidade, ocupa um lugar decisivo na formulação de um ideal de cultura nacional.

II
A década de 1950 transforma o patamar em que se encontravam até então esses estudos. Ela marca o início de uma ampla movimentação em torno do folclore reunindo a sua volta nomes como Cecília Meireles, Câmara Cascudo, Gilberto Freire, Artur Ramos, Manuel Diégues Júnior.
Institucionalmente, essa movimentação é articulada pela Comissão Nacional do Folclore, do Ministério do Exterior, e vinculada à UNESCO (organismo da Organização das Nações Unidas). A Comissão é liderada por Renato Almeida, diplomata e estudioso da música popular. No contexto do pós-guerra, a preocupação com o folclore enquadra-se na atuação em prol da paz mundial. O
folclore é visto como fator de compreensão entre os povos, incentivando o respeito das diferenças e permitindo a construção de identidades diferenciadas entre nações que partilham de um mesmo contexto internacional. O Brasil de então orgulhava-se de ser o primeiro país a atender à recomendação internacional no sentido da criação de uma comissão para tratar do assunto.
O conjunto das iniciativas desenvolvidas era designado pelo nome de Movimento Folclórico. A Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro (CDFB), criada em 1958 no então Ministério da Educação e Cultura, é o apogeu dessa movimentação.
A Campanha é um organismo nacional destinado a "defender o patrimônio folclórico do Brasil e a proteger as artes populares". Ela traz uma proposta de atuação urgente: no folclore se encontram os elementos culturais autênticos da nação, porém o avanço da industrialização e a modernização da sociedade representam uma séria ameaça. Por essa razão, a cultura folk deve ser intensamente divulgada e preservada.
A Campanha participa dos debates intelectuais do país em intercâmbio com as ciências sociais que se institucionalizam no mesmo período. Fomenta pesquisas sobre o folclore em diferentes regiões, bem como sua documentação e difusão através da constituição de acervos sonoros, museológicos e bibliográficos. Data dessa época o embrião do que viria a ser mais tarde o Museu de Folclore Edison Carneiro e a Biblioteca Amadeu Amaral, do atual Centro Nacional de Folclore
Cultura Popular.

III
De lá para cá, os processos de modernização da sociedade se aprofundaram, a televisão entrou decisivamente no cotidiano nacional, e ao contrário do que supunha a Campanha em seus primórdios, o folclore não acabou. O país transformou-se econômica e politicamente. Mudaram também os ideais de conhecimento.
Como já diziam alguns folcloristas, o folclore nasce e cresce também nas cidades: é dinâmico, transforma-se o tempo todo, incorporando novos elementos. O campo dos estudos de folclore transforma-se também acompanhando a evolução do conhecimento no conjunto das ciências humanas e sociais. A noção de cultura não é mais entendida como um conjunto de comportamentos concretos mas sim como significados permanentemente atribuídos. Uma peça de cerâmica é mais do que o material de que é feita, e a técnica com que é trabalhada. Uma festa é mais do que a sua data, suas danças, seus trajes e suas comidas típicas. Elas são o veículo de uma visão de mundo, de um conjunto particular e dinâmico de relações humanas e sociais. Não há também fronteiras rígidas entre a cultura popular e a cultura erudita: elas comunicam-se permanentemente. O compositor erudito Heitor Villa Lobos reelaborou musicalmente cantigas de ninar tradicionais. Muito freqüentemente, o enredo do desfile carnavalesco de uma escola de samba elabora numa outra linguagem temas eruditos. Na condição de fato cultural, o folclore passa a ser compreendido dentro do contexto de relações em que se situa.
Essa abordagem contextualizadora, que faz do objeto um veículo de relações humanas, é a proposta do Museu de Folclore Edison Carneiro, cuja exposição permanente, inaugurada em 1994, se pretende uma pequena mostra do que está vivo e se transformando no dia-a-dia.


*A antropóloga Maria Laura Cavalcanti, Profª Drª do Depto. de Ciências Sociais/IFCS/UFRJ, ex-pesquisadora do Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular, participa atualmente da Associação de Amigos do Museu de Folclore Edison Carneiro.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Xamanismo


Xamanismo
por Pedro de Niemeyer Cesarino (2009)


"Xamanismo" é algo que não se reduz a uma só definição ou explicação. Religião, crença, ritual, sistema de pensamento, ontologia, configuração de mundo: tais são algumas das categorias polêmicas que surgem à mente quando se trata de fazer uma breve apresentação sobre o assunto. O termo, genérico e mal compreendido, é empregado para designar um sistema ritual dos mais antigos da humanidade, partilhado por povos que se estendem da Ásia até o extremo sul da América. "Xamã" parece derivar de çaman, palavra empregada pelos Evenks siberianos para designar os seus especialistas rituais. É análoga a "pajé", derivada por sua vez de termos das línguas tupi-guarani também utilizados na referência a tais especialistas. Cada uma das línguas ameríndias possui seus termos equivalentes, em qualquer parte dos três continentes.

O xamanismo representa, assim, uma base comum aos povos autóctones da Ásia e das Américas, já que este continente foi ocupado por sucessivas migrações provenientes do primeiro. Mais antigo, o xamanismo foi sobreposto por grandes religiões tais como o budismo, o confucionismo, o taoísmo, o cristianismo e o islamismo. Algo análogo ao que ocorre no Brasil, quando os xamanismos indígenas passam a se defrontar com o credo católico ou protestante. Esta é, aliás, uma boa maneira para se compreender um dos traços essenciais do fenômeno: o xamanismo nem sempre desaparece no enfrentamento com grandes sistemas religiosos. Talvez porque não possa ser compreendido exatamente como uma "religião", ele acaba por se infiltrar, por subverter ou por sobreviver às tentativas de conversão que, no Brasil por exemplo, são realizadas desde a invasão européia.

Tratamos, afinal, de uma certa organização ou configuração de mundo que não possui um dogma estabelecido, um conjunto de doutrinas ou alguma escritura sagrada, uma liturgia fixa, um corpo de sacerdotes organizado em torno do Estado e, mais importante, uma fé em alguma divindade única. Difícil, portanto, definir o xamanismo como uma crença. Tais ausências são especialmente válidas para os povos indígenas das terras baixas da América do Sul, ou seja, para aqueles que não viveram sob o domínio de organizações estatais, tais como o império Inca. A mediação exercida pelos xamãs amazônicos tem mais a ver com uma certa diplomacia, uma forma de traduzir e de conectar os humanos viventes à multidão de espíritos, de almas de mortos e de animais que constituem as cosmologias indígenas. Nestas, não há exatamente deuses que encarnam ou que detém poderes sobre fenômenos naturais, para os quais são erguidos templos e oferecidos sacrifícios (como no caso dos Aztecas ou dos Mayas). As entidades com as quais os xamãs indígenas se relacionam são de outra ordem. Ao invés de despachar uma vítima sacrificial como intermediária entre deuses e humanos, os xamãs vão em pessoa encontrar os espíritos e demais sujeitos que habitam os seus mundos.

Xamanismo sem xamãs
O xamanismo, aliás, não se concentra tanto em cargos definidos, tal como no caso dos sacerdotes, mas sim em processos de transformação e de transporte para as moradas destas entidades outras. Não por acaso, algumas sociedades indígenas, tais como os Parakanã do Xingu, possuem um xamanismo sem xamãs. Na ausência de um especialista ritual determinado, são as pessoas comuns que, em sonho, encontram espíritos e trazem deles os cantos que serão executados mais tarde na aldeia, quando o sonhador já estiver desperto. É como se todos fossem de alguma forma um pouco pajés e pudessem, ao seu modo, estabelecer contato com a multidão de entidades invisíveis. O surgimento súbito de um xamã é também algo possível: em um momento de crise, em geral caracterizado por uma grave doença, um sujeito pode começar a estabelecer contato com "pessoas outras" que renovam seu corpo, trocam seu sangue, introduzem elementos mágicos em sua carne, ensinam-lhe cantos. Diz-se então que a pessoa "empajezou", transformou-se em uma pessoa outra. Agora será dotada de "um outro olho", capaz de enxergar o que é invisível às pessoas comuns (ao menos em seu estado desperto).

Todos esses fenômenos estão relacionados a uma composição básica da pessoa nos mundos indígenas. Há sempre uma divisão entre o corpo e ao menos duas almas ou duplos – uma que se transformará em fantasma ou espectro após a morte, outra que terá um destino especial, celeste em muitos casos. O corpo, porém, não é um feixe fisiológico tal como o concebido pelos médicos ocidentais, mas uma espécie de invólucro, de envelope, carcaça, pele ou roupa que abriga as almas de aparência humana. Em estados liminares tais como sonhos, doenças, ou ingestão de substâncias psicoativas, a alma sai de seu corpo/roupa e perambula por aí. Vai encontrar outras aldeias, espíritos, homens e mulheres que os olhos "do corpo" não conseguem enxergar. É nesse ponto que mito e xamanismo se relacionam.

O que é um mito?
Em uma entrevista, fizeram a Claude Lévi-Strauss a seguinte pergunta: "O que é um mito?". E o antropólogo assim respondeu: "Se você perguntasse a um índio americano, é muito provável que ele respondesse: é uma história do tempo em que os homens e os animais ainda não se distinguiam. Esta definição me parece muito profunda"1. As narrativas míticas ameríndias de fato giram em torno deste tema: houve um tempo em que a imagem geral do cosmos era uma imagem "humana", todas as espécies partilhavam uma forma humana genérica, até que algum evento de ruptura interrompeu tal estado primeiro, instaurando os limites, as diferenças e o problema da invisibilidade. Daí em diante, os animais, frequentemente por conta de algum erro que cometeram nos tempos míticos, ganham corpos/roupas de onça, anta, porco do mato ou de outros bichos, mas continuam com a mesma alma humana que sempre possuíram. Os humanos, por sua vez, são os únicos que mantém o seu corpo à semelhança desta alma genérica, ainda partilhada por todas as entidades que compõem isso que chamamos de "natureza". Veja o que diz o xamã yanomami Davi Kopenawa:

"No começo do tempo, quando nossos antepassados ainda não tinham se transformado em outros, éramos todos humanos: as araras, os tapires, os queixadas, eram todos humanos. Depois, esses antepassados animais se transformaram em caça. Para eles, porém, somos sempre os mesmos, somos animais também; somos a caça que mora em casas, ao passo que eles são os habitantes da floresta. Mas nós, os que ficamos, nós os comemos, e eles nos acham aterrorizantes, pois temos fome de sua carne"2.

Ora, mas os tempos míticos não se esgotaram. Para os povos indígenas, eles continuam suspensos ou paralelos à atualidade. Muitos animais seguem pensando para si mesmos que são gente, enquanto nós os enxergamos em seus corpos/roupas de bicho. Quando o duplo ou alma de uma pessoa sai para fora de seu corpo, ele pode ver aquilo que antes permanecia velado: as aldeias sub-aquáticas e suas festas; o duplo ou alma humanóide de uma arara; uma árvore que, para os olhos alterados, se mostra como uma sociedade, pois os periquitos podem muito bem se conceber como pessoas e viver, portanto, em malocas.

O antropólogo Eduardo Viveiros de Castro formulou bem o problema através de um contraste interessante: os mundos indígenas são multinaturalistas, concebem uma multiplicidade de naturezas (os diferentes corpos dos bichos) e uma unidade da cultura (a cultura humana partilhada por todas as espécies). O mundo ocidental, por sua vez, é multiculturalista, imagina uma multiplicidade de culturas (chinesa, francesa etc.) e uma só natureza. Nesta concepção, animais são radicalmente distintos dos humanos por não possuírem, precisamente, uma alma pensante análoga à nossa e, portanto, uma cultura. Aproximam-se de nós por serem mamíferos, por partilharem de uma natureza comum, enfim. O pensamento indígena pressupõe o contrário: os bichos são próximos de nós porque para si mesmos se concebem como gente e possuem, portanto, uma cultura (malocas, redes, festas, pinturas corporais, cocares e adornos) semelhante a esta visível nas aldeias. Mas os corpos são outros.

E o xamanismo?
Ora, isso tudo é o xamanismo, essa especial constituição de realidade e de ética cosmológica. Os xamãs, diplomatas ou tradutores, como diz a antropóloga Manuela Carneiro da Cunha, são os responsáveis pelo arriscado trânsito de almas para além dos corpos. Um homem comum pode, na doença por exemplo, ver a gente-sucuri em suas casas (que sadio ele veria como o rio) e ser seduzido por uma bela mulher-sucuri. Ele passaria então a viver ali com a sua família sub-aquática sem se dar conta de que, na outra aldeia, seu corpo definha e preocupa a sua família "humana". Ele está doente porque incompleto ou vazio, pois a alma ou duplo está alhures com a nova mulher-sucuri. Um xamã deverá então trazê-lo de volta ao seu corpo e, assim, resolver este problema social espalhado pelo cosmos. Situações como esta acontecem com freqüência nas aldeias indígenas. O xamã ou pajé está, a rigor, acostumado com tais trânsitos. Ele já é outra pessoa, pode ter uma família com os humanos-outros, vive sempre entre duas referências, transita entre as gentes dos animais, os espíritos, as almas dos mortos. Costuma trazer de lá notícias através de seus cantos e, assim, integra o enorme contingente de entidades invisíveis ao cotidiano das aldeias. Não por acaso, alguns índios da Amazônia costumam dizer que o pajé "é como um rádio".

Um dos grandes erros está em imaginar que o xamanismo é uma espécie de mística new age, ou então uma tradição fadada ao desaparecimento pelas transformações sociais e pela problemática idéia de aculturação. O xamanismo – esta rede ou malha de conexões entre princípios anímicos que vivem por detrás dos corpos visíveis – é algo por princípio criativo e voltado para a alteridade. Exímios negociadores das multiplicidades sociais presentes desde os tempos míticos, os pajés sabem traduzir em seus próprios termos as novidades de nosso mundo. Os Maxakali são um emblema disso. Confinados em uma terra de Minas Gerais agora repleta de capim, privados da caça e do acesso à paisagem na qual outrora viviam, não deixaram entretanto de possuir uma intensa e fascinante produção ritual. Antenados, fizeram em certa festa um telefone celular de argila, utilizado para a comunicação com os espíritos das lontras3.

Notas
1. Lévi-Strauss, Claude & Eribon, Didier. De perto e de longe – entrevista com Claude Lévi-Strauss. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1988.

2. Kopenawa apud Viveiros de Castro, Eduardo. "A floresta de cristal". Cadernos de Campo 14/15, 1998, pp. 319-338.

3. Imagens do filme Hemex e Xunin, Terra Indígena do Pradinho, 2005 (acervo de Rosângela de Tugny).

Instituto Sócio-ambiental

Mitos e cosmologias indígenas no Brasil (parte 2)

Edição a partir dos textos Mitos e cosmologias indígenas no Brasil: breve introdução (1992) e Mito, razão, história e sociedade (1995), de Aracy Lopes da Silva

Povos Jê

Tempty Suiá, retirado do mito /Como Aconteceu Antes dos Brancos Chegarem. Fonte: Livro de História / Professores Indígenas do Parque Indígena do Xingu. Vol. 1. São Paulo: Instituto Socioambiental; Brasília: MEC, 1998(p.03).

Entre povos da família lingüística Jê, o cosmos é concebido como habitado por diferentes humanidades - a subterrânea, a terrestre, a subaquática e a celeste – que existem desde sempre. O tempo das origens é o da indiferenciação e da desordem, da convivência e da interpenetração daqueles domínios. Astros, como o Sol e a Lua, são gêmeos primordiais que vivem aventuras na terra e aqui deixam o seu legado, antes de partirem para sua morada eterna. Nos mitos Jê, há referências explícitas às atividades de subsistência e às práticas sociais de modo geral. Instituições sociais – a nomeação dos indivíduos, a guerra, o xamanismo... – têm no mito descritas as suas origens e exposta a sua essência.

Povos do Alto Rio Negro

Cobra Grande pintada sobre maloca no Alto Rio Negro. Foto: Beto Ricardo

Por contraste, caberia mencionar, a região do alto rio Negro, o noroeste amazônico, morada de povos de língua Tukano. No início dos tempos, antepassados míticos criaram o mundo que, antes, não existia. Das entranhas de uma cobra grande ancestral, que fazia o percurso do rio, saíram, em pontos precisos daquele percurso, os primeiros antepassados de cada um dos vários povos da região, determinando, assim, seus respectivos territórios, suas atribuições específicas e um padrão hierarquizado de relacionamento entre eles.

Em muitas cosmologias, as relações entre humanos e os demais seres são pensadas através da idéia da predação, numa metáfora que simbólica e logicamente aproxima caça, guerra, sexo e comensalidade. Ainda no alto rio Negro, o xamã parece estar encarregado de garantir que fluxos e volumes de energia vital compartilhada por humanos e animais mantenham-se em níveis adequados. Exageros na matança de animais deflagrariam, como contrapartida, epidemias e malefícios entre os homens, provocados por espíritos protetores dos animais. Um equilíbrio vital nas lembranças e o convívio com a idéia da morte são experiências diárias na apreciação e na condução da vida.

Povos Tupi-Guarani
Desde há mais de 500 anos, os não-índios produzem análises na tentativa de compreender as práticas sociais e as concepções cosmológicas dos Tupi-Guarani. Do espanto inicial à sistematização das informações dos cronistas, realizada entre as décadas de 1940 e 1950, passando pela catequese jesuítica e pelos episódios dramáticos da Conquista, é constante a referência central a temas como a guerra, o canibalismo, a vingança da morte através de novas guerras e novas mortes e novas vinganças.

Uma compreensão destes povos, suas sociedades e suas cosmologias, adequada aos tempos recentes de amadurecimento teórico e metodológico da antropologia, revela – apesar da grande diversidade existente entre elas, tanto no plano sociológico, quanto nas variações entre suas cosmovisões respectivas – a centralidade da noção de temporalidade como eixo sobre o qual constroem-se noções fundamentais como a de pessoa e de cosmos. Temporalidade está aliada às relações de alteridade que os Tupi-Guarani buscam sistematicamente situar fora do domínio social propriamente dito, encarnadas nos inimigos, nos espíritos, nos animais, nos mortos e nas divindades.

Bibliografia citada
FAUSTO, Carlos. “Fragmentos de História e Cultura Tupinambá: da etnologia como instrumento crítico de conhecimento etno-histórico”. In: CARNEIRO DA CUNHA, M. (org.). História dos Índios no Brasil. São Paulo, Cia das Letras/Edusp/SMC, 1992
GALLOIS, Dominique. Mairi Revisitada. São Paulo, NHII-USP/Fapesp, 1993.
LALLEMAND, Suzanne. “Cosmogonia”. In: AUGÉ, M. (org.) A construção do mundo. Edições 70, Lisboa, 1978.
LEACH, Edmund. “O Gênensis enquanto um mito”. In: Edmund Leach (org. Roberto da Matta), Ed. Ática/Grandes Cientistas Sociais/Antropologia 38, 1983, pp. 57-69.
LÉVI-STRAUSS, C. “A gesta de Asdiwal”. In: Antropologia Estrutural Dois, Ed. Tempo Brasileiro, Rio de Janeiro, 1976.
LOPES DA SILVA, Aracy. “A expressão mítica da vivência histórica: tempo e espaço na construção da identidade xavante”. In: Anuário Antropológico/82, Tempo Brasileiro/Universidade Federal do Ceará, Rio de Janeiro e Fortaleza, 1984. ------. “Mitos e cosmologias indígenas no Brasil: breve introdução”. In: Índios no Brasil. Grupioni, Luís Donisete Benzi (org.). São Paulo, Secretaria Municipal de Cultura, 1992. ------. “Mito, razão, história e sociedade”. In: LOPES DA SILVA & GRUPIONI (orgs.). A Temática Indígena na Escola. Brasília, MEC/MARI/Unesco, 1995.
SAHLINS, Marshall. Ilhas de História. São Paulo, Cultrix, 1989.
VIDAL, Lux. Grafismo Indígena. Estudos de Antropologia Estética. São Paulo, Studio Nobel/Fapesp/Edusp, 1992.
VIVEIROS DE CASTRO, E. & CARNEIRO DA CUNHA, M. “Vingança e Temporalidade: os Tupinambá”. In: Anuário Antropológico/85, Ed. Universidade de Brasília e Ed. Tempo Brasileiro, Brasília e Rio de Janeiro, 1986.

Povos Indígenas no Brasil