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quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Para acabar com o mito da 'Idade das Trevas'


Para acabar com o mito da 'Idade das Trevas'
Efervescência cultural medieval fincou alicerces da ciência moderna, mostra livro

Bernardo Esteves

Se você considera os dez séculos da Idade Média um período de estagnação do conhecimento, a leitura do primeiro volume da coleção Breve história da ciência moderna deve lhe surpreender. O livro aponta justamente os avanços das ciências nesse momento histórico e mostra como eles foram cruciais para a revolução científica dos séculos seguintes.

Para entender como os alicerces da ciência moderna se fincaram na Idade Média, no entanto, é preciso voltar alguns séculos no tempo e entender a filosofia natural estabelecida na Grécia antiga por pensadores como Platão e Aristóteles. Por isso, o livro dedica um capítulo ao pensamento grego e mostra como ele inaugura a reflexão sobre temas que seriam o objeto da ciência moderna.

O saber grego chegou à Europa medieval trazido pelos árabes, que constituíram nos séculos 7 e 8 um império que abrangia o norte da África, a Península Ibérica e toda a região do Oriente Médio até a fronteira com China e Índia. Esse império foi o palco de uma intensa efervescência intelectual: estavam localizadas ali a cidade de Alexandria, centro de conhecimento do Egito antigo, a Síria e a Pérsia, que tinham centros de investigação importantes em campos como astronomia ou medicina, e a capital Bagdá, um grande pólo cultural.

O livro mostra como os árabes foram muito mais que simples mediadores do conhecimento helênico, como se apontou durante muito tempo. Além de comentar e expandir os textos que traduziram, eles contribuíram com estudos originais em campos como álgebra ou astronomia, além de terem levado à Europa inovações técnicas na engenharia e novos campos do conhecimento, como a alquimia.

A obra ajuda a desmontar ainda o mito da 'Idade das Trevas' ao mostrar que esse período conheceu avanços técnicos consideráveis em campos como a produção de relógios, a engenharia das catedrais ou a compreensão do movimento. "Esse longo período da história produziu uma grande diversidade de visões de natureza que se confrontaram em múltiplas discussões e embates", afirma o livro.

Os autores -- Marco Braga, Andreia Guerra e José Claudio Reis -- são todos físicos com formação em história e filosofia da ciência e membros do Grupo Teknê, projeto educacional que tem entre seus objetivos a reflexão sobre o fazer científico e a divulgação desse conhecimento.

Convergência de saberes é apenas o primeiro volume de uma coleção que pretende, em cinco livros, abordar a evolução da ciência até os dias de hoje. Os próximos volumes estão em fase de preparação pelos autores: o segundo deve contemplar a consolidação da ciência moderna (séculos 15 a 17), e os demais vão tratar respectivamente dos séculos 18, 19 e 20.

O primeiro livro foi escrito em linguagem ágil e instigante. Conciso e ilustrado, ele deve agradar ao público leigo jovem interessado por história da ciência. E quem quiser ir além das cerca de cem páginas do livro leva, de brinde, uma bibliografia comentada para maior aprofundamento e dicas de livros de ficção, filmes e quadros que dialogam com os temas apresentados.

Breve história da ciência moderna
Volume 1: Convergência de saberes (Idade Média)
Marco Braga, Andreia Guerra e José Claudio Reis
Rio de Janeiro, 2003, Jorge Zahar Editor
101 páginas


Revista Ciência Hoje

quinta-feira, 19 de maio de 2011

O revolucionário projetista do exército de Napoleão

No final do século 18, o Exército Francês era o único que dispunha de métodos de cálculo para determinar as melhores posições para escapar do fogo da artilharia inimiga. Para fugir dos complicados cálculos usualmente empregados nesse e em outros problemas da engenharia militar, o matemático Gaspard Monge (1746-1818) desenvolveu uma técnica tão simples que não recebeu atenção dos superiores. Assim começou a geometria descritiva, que hoje se aplica não só a desenhos ou projetos técnicos, mas também nas artes e na fotografia.

Ainda adolescente, após fazer um mapa elogiado por especialistas, Monge foi incentivado a ingressar na escola militar, onde desenvolveu sua técnica para representar no papel as manobras militares, de tal forma que nada ficasse sob a mira do inimigo.

Ao perceberem a genialidade e a importância bélica do novo método, os militares o mantiveram em segredo por 15 anos. Só era permitido ensiná-lo aos futuros engenheiros militares. Somente em 1794, em plena Revolução Francesa, Monge pôde divulgar sua invenção em escolas civis de Paris.

A idéia da geometria descritiva é notável e elegante pela simplicidade. Basicamente é a representação ou projeção (perspectiva) de sólidos e figuras tridimensionais sobre um plano. Por esse método, uma figura é projetada inicialmente em um plano vertical, em retas perpendiculares a ele e em um plano horizontal (veja ilustração à direita).

Assim, todo objeto ou figura no espaço é representado por duas projeções em um plano só, colocando em uma folha de papel plana o que visualizamos no espaço de três dimensões. Com um pouco de prática, pode-se facilmente ler essa representação - ou épura - e reconstituir o objeto real que deu origem a ela. Assim, o Exército Francês colocava no papel as armas e suas peças e componentes para serem especificadas geometricamente aos fornecedores.

A geometria descritiva de Monge é hoje estudada nos primeiros anos de todas as áreas de engenharia. Vários projetos são baseados nela. É também estudada nas escolas de artes porque tem aplicação no estudo das perspectivas das pinturas dos quadros. Pode ser empregada também na análise da veracidade de fotografias, para saber se são montagens ou não. Quadros e fotografias são projeções, e geometria descritiva é o estudo das projeções.

Como era comum aos cientistas da época, Monge pesquisou várias áreas do conhecimento. Tomou parte na Revolução, assumiu a liderança na produção de munição e ocupou um cargo público em uma época arriscada, quando correu o risco de ser morto, mesmo participando do lado dos revolucionários. Na era napoleônica, foi amigo íntimo do imperador, chegando a acompanhá-lo na invasão ao Egito e na tentativa de impor ao país os moldes da cultura dominante européia. Quando Monge morreu, a monarquia tinha sido restaurada na França e o rei não permitiu que alunos da Escola Politécnica de Paris, que o matemático havia ajudado a fundar, participassem da cerimônia fúnebre.

Talvez pela característica secreta, prática e não teórica de sua matemática, além de ter morrido inimigo do rei, Monge seja pouco conhecido ou lembrado hoje. Mas ele está por trás de quase todos os projetos de engenharia e de todos os livros e trabalhos de geometria descritiva.

Revista Galileu

sexta-feira, 18 de março de 2011

A verdadeira dimensão do homem

Felizmente ou infelizmente, considerando algumas variáveis estatísticas, parece que estamos mesmo sós, nessa imensidade assombrosa. Para existir vida é necessário que haja uma conjunção de fatores, da qual a Terra é um exemplo único conhecido

Pintura: O geógrafo, de Jan Vermeer

Por que Deus — se existe — se ocupa com um ser tão ínfimo na escala universal quanto o homem? A desproporção parece ridicularizar a Bíblia e outros livros sagrados. Faz sentido? Faz, e a resposta não é necessariamente religiosa. É também científica.

A física é a ciência capaz de conferir ao homem sua verdadeira dimensão, na natureza. De acordo com ela, faria sentido um Deus tão grande dedicar seu tempo a uma criatura tão pequena, por duas boas razões. Primeiro, porque nosso tamanho físico não traduz nossa estatura intelectual. Segundo, porque a probabilidade de sermos únicos no Universo é bastante apreciável. As duas questões relativizam, de saída, o que entendemos por grandeza e mediocridade. Está certo que devemos — e a física paradoxalmente reforça essa postura — devemos ser humildes. Se o homem é maior do que parece, sua casa, a Terra, é por outro lado bastante pequena e frágil. Pode acabar num simples e inesperado evento cósmico, como a colisão com um asteróide (infelizmente, não é ficção científica). De forma que não temos nenhuma garantia de futuro.

Feita a advertência, podemos nos reconfortar. O principal desafio da física, hoje, é confirmar a existência de uma partícula conhecida como bóson de Higgs. Para obtê-lo os cientistas construíram o LHC, que é o maior acelerador de partículas do mundo (um corredor circular de 27 quilômetros de extensão, onde prótons se chocarão entre si a uma velocidade próxima à da luz). Mas, o que é o bóson de Higgs? A menor partícula existente, o tijolo com o qual foi erguido todo o resto. Inclusive o homem. Daí que a chamaram, também, de “a partícula de Deus”. Comparado a esse tijolinho — muitíssimo menor que um átomo -, o homem é uma grandeza. Já o é, se comparado à menor estrutura orgânica conhecida, o DNA, que é igual a 2 x 10 elevado à nona potência. O é, também, se comparado aos seres unicelulares, milhares dos quais habitam o nosso organismo, que podemos imaginar como um universo à parte. Faz sentido, também, nos concebermos como um universo à parte.

Graficamente, o desenho de muitas estruturas microscópicas que compõem os nossos órgãos parece ser análogo ao das estruturas macroscópicas que existem no firmamento. A grande “teia cósmica”, que corresponde ao maior aglomerado de galáxias observável, é semelhante por exemplo aos nossos neurônios. Existe, assim, em escalas muito diferentes, certos padrões gráficos que fazem confundir aquilo que somos com aquilo que está acima — muito acima - de nós. É como se nos repetíssemos, em tamanho e complexidade, ao infinito. Deus, quem sabe, seria o limite extremo desse processo. Voltando aqui à primeira questão — a relatividade de nosso tamanho -, pode-se dizer que o que nos faz muito maiores do que o nosso corpo é a capacidade de conceber o Universo. Há formas poéticas e mitológicas de fazê-lo, como a religião. Mas há, também, uma forma verificável, que é a científica. E a física é o caminho, o método, para traçarmos já o seu esboço. Nem mesmo os céticos podem resistir ao encanto dessa capacidade.

Um homem normal olha para o céu, durante o dia, sem o auxílio de uma telescópio e do conhecimento da natureza acumulado nos últimos 6 mil anos, e enxerga apenas uma porção da atmosfera terrestre. Uma profundidade de, no máximo, 15 ou 20 quilômetros. À noite, pode ver muito além, de sorte que enxergaria as estrelas. Vai uma enorme distância, porém, entre essa capacidade ocular natural e as possibilidades da especulação e experimentação intelectual. E é nesse ponto que o homem começa a se redimensionar, deixando para trás a condição de simples animal proporcional ao seu organismo. É aí que, apesar de sua escala física relativamente minúscula, ele se torna um gigante, capaz de mapear o Universo como um cartógrafo debruçado sobre seu objeto de estudo — portanto localizado, imaginariamente, num ponto externo, à maneira daquele cientista pintado por Jan Vermeer, em 1668. Sim, o homem, amparado pela ciência, goza desse privilégio. Como assim, considerá-lo pequeno?

O mais impressionante dessa capacidade de se colocar como um observador externo — apesar de estar dentro — é que não é exatamente com o auxílio da visão que o faz. É o fato justamente de ser “cego” que aumenta a magia. Todas as conclusões a que tem chegado a física, inclusive a das proporções descomunais do cosmo, se dá por intermédio da inteligência, da capacidade humana de se fazer cúmplice da Natureza. Se as leis se inscrevem nos fenômenos, o homem vai lá e as descobre, com imaginação e raciocínio. É assim que pode chegar a uma conclusão impressionante: o Universo observável pelo homem, a parede contra a qual se choca nossa capacidade, chega a mais de 13 bilhões de anos-luz! Uma vez que o que enxergamos é o passado, essa profundeza abissal é quase o ponto de origem de tudo o que conhecemos. Convenhamos: é algo mais do que aqueles 20 quilômetros que podemos ver todo dia, ao abrir a porta de nossa casa e olhar para o céu. Devemos isso a gênios como Copérnico e Galileu, Newton e Einstein, ou seja, devemos a nós mesmos, humanos. Sob essa perspectiva, Deus não se ocuparia, ao se ocupar de nós, com uma criatura que ridicularizaria sua grandeza.

O segundo ponto é a probabilidade de sermos realmente únicos, no Universo. Muitos cientistas acreditam nessa possibilidade. Em sendo verdade, seríamos literalmente um milagre. Tanto melhor se encontrássemos outros seres semelhantes a nós, e que fossem pacíficos. Isso tiraria nosso brilho, mas diminuiria nossa solidão excruciante. Porém as evidências não são animadoras. Se há vida além da nossa, no Sistema Solar, tudo indica que não passaria de bactérias, em Marte ou Titã, satélite de Saturno. A outra possibilidade considerada está fora de nosso sistema, e bem longe, a 20,5 anos luz de distância, onde poderia existir uma civilização complexa. Trata-se de um planeta, o GL 581c. Porém, um simples contato a essa distância, à velocidade da luz (quase 300 mil quilômetros por segundo) levaria 40 anos para obter resposta. Mas não se trata de distância, antes de condições efetivas para a manifestação da vida.

Felizmente ou infelizmente, considerando algumas variáveis estatísticas, parece que estamos mesmo sós, nessa imensidade assombrosa. Para existir vida é necessário que haja uma conjunção de fatores, da qual a Terra é um exemplo único conhecido. Contam desde a distância relativa de uma estrela que gere calor até a composição atmosférica de um planeta. E mesmo que haja tais condições em algum outro lugar, elas por si sós não garantem a manifestação de vida inteligente. Mesmo na Terra, ambiente inteiramente favorável, há milhares de formas de vida, mas apenas uma espécie, a humana, evoluiu sua capacidade cognitiva. Em quanto tempo? É outra variável: mais ou menos 1,7 milhão de anos, a idade do homem. Cada uma dessas variáveis elimina a chance de estarmos acompanhados, tornando-nos hipoteticamente a única companhia inteligente de Deus, em todo o Universo. Então, faria sentido que ele se revelasse para as únicas criaturas capazes de admiti-lo: nós.

Sem outros seres, seríamos uma preciosidade sem par, o que nos imporia uma reavaliação ética radical. Tal reavaliação importaria em repensar atos e atitudes, para nos fazermos jus à nossa estatura e verdadeira importância na criação, seja lá o que isto significa. Não nos arrogaríamos, longe disso: tornarmos-íamos mais prudentes e responsáveis. Nós e nosso mundo são minúsculos, mas, e daí? Nós — e apenas nós, em certo sentido — justificamos o empreendimento de Deus.

É inevitável, por fim, voltar ao passado, aos gregos. Não convém ceder à tentação depreciativa de nossas mazelas, tantas que assustam. Protágoras de Abdera (480 a.C.) tinha mesmo razão: “O homem é a medida de todas as coisas”.

Revista Bula

sexta-feira, 5 de março de 2010

Galileu, dos céus à Inquisição


Galileu, dos céus à Inquisição
A saga do italiano marqueteiro que usou o telescópio para revolucionar nossa visão do Universo, cutucou a Igreja com vara curta e quase foi executado por isso
por Reinaldo José Lopes
Faz 400 anos que Galileu Galilei, então professor da Universidade de Pádua, na Itália, apontou seu recém-montado telescópio na direção de Júpiter e viu o que, de acordo com a tradição científica dominante na época, deveria ser impossível. Havia três "estrelas" desconhecidas perto do planeta - mais tarde percebeu uma quarta. Os objetos pareciam bem menores que o astro e realizavam uma dança periódica em torno dele. Embora muita gente ainda defendesse que a Terra era o centro do Universo, em torno do qual todos os outros corpos giravam, as "estrelas" na órbita de Júpiter sugeriam que a realidade era bem mais complicada. Com essas observações, Galileu inaugurou o jeito moderno de fazer ciência. Cruzando dados do telescópio com modelos matemáticos rigorosos para tirar conclusões sobre como o Universo funcionava, criou um padrão de trabalho seguido por todo cientista até hoje. Para ele, os satélites de Júpiter, bem como a presença de montanhas e outras irregularidades na superfície da Lua, indicavam que os corpos celestes não eram imaculados e imutáveis, e que a própria Terra girava em torno do Sol. Os achados foram descritos no livro Sidereus Nuncius (A Mensagem das Estrelas), sucesso que atraiu a atenção de muita gente - inclusive os olhares indesejáveis da Inquisição.

Para azar de Galileu, seu trabalho pisou nos calos de uma Igreja Católica insegura e paranoica, que tentava se reerguer do baque provocado pela Reforma Protestante. É fato que a personalidade do pesquisador também não ajudava muito: marqueteiro e turrão, fazia questão de que suas ideias chegassem ao maior número de pessoas e sempre tentava achar brechas nas limitações impostas por Roma. O resultado foi a condenação do gênio, um marco negativo das relações entre ciência e religião.

A paixão de Galileu pelos números parece ter vindo do berço. Parte do estímulo partiu do pai, o músico Vincenzo Galilei, o qual, apesar da pouca instrução formal, tinha ideias inovadoras sobre teoria musical, que pode ser encarada como um ramo da matemática. Galileu, filho mais velho de Vincenzo e Giulia, nasceu em Pisa, em fevereiro de 1564, e começou seus estudos num monastério perto de Florença. Os primeiros anos de escola fizeram o menino se interessar pela vida religiosa, mas o pai, que tinha uma visão muito crítica da Igreja, não quis que ele se tornasse padre. A família, então, decidiu matriculá-lo no curso de Medicina, em Pisa.

A universidade local era considerada de segundo escalão, e as disciplinas médicas não empolgaram Galileu. Mas ele foi fisgado pelas aulas do professor de matemática Filippo Fantoni. O rapaz passou a cabular as disciplinas que não tivessem a ver com números. Isso enfureceu o velho Vincenzo, que o tirou do curso de Medicina. Com o tempo, porém, o aspirante a matemático conseguiu convencer o pai de que podia ter futuro como professor universitário.

Na época, o jeito de obter esse tipo de cargo envolvia impressionar as pessoas certas e esperar que elas o indicassem. Enquanto ganhava uns trocados dando aulas particulares de matemática, Galileu fazia amizade com nobres da Toscana (sua região natal). O jovem causou ótima impressão em 1588, ao dar uma palestra na Academia Florentina a respeito do... tamanho do Diabo, segundo a descrição de Dante Alighieri em A Divina Comédia. Sim, o tema parece bizarro, mas era levado muito a sério pelos literatos do Renascimento. De acordo com os cálculos do moço, Lúcifer tinha 1800 metros de altura. A conferência fez tanto sucesso que, no ano seguinte, ele foi nomeado professor de matemática em Pisa.


Aristóteles

Galileu, porém, nunca foi muito querido entre os novos colegas. Isso porque passou a unir o rigor matemático a experiências cuidadosamente projetadas para tentar verificar se as concepções tradicionais sobre o movimento dos corpos na Terra e no céu, derivadas da obra de Aristóteles, realmente valiam. Isso equivalia a comprar briga, e das feias.

O filósofo grego era pagão, mas seus estudos tinham sido incorporados aos ensinamentos da Igreja no fim da Idade Média. A união entre a filosofia aristotélica e a teologia católica era tão estreita que, em muitos pontos, questionar as teses de Aristóteles significava pôr em dúvida a fé. Mesmo os filósofos naturais (nome dado então aos cientistas) que não pertenciam à Igreja eram, em sua maioria, apegados a essas concepções, embora muitos deles também fossem religiosos. "Havia uma estrutura acadêmica que o trabalho de Galileu afrontou - professores e estudiosos de formação aristotélica para os quais o estudo da natureza não se articulava com a matemática e com a experiência da maneira como Galileu o concebia", diz Júlio Vasconcelos, físico e filósofo da Universidade Estadual de Feira de Santana (BA). "O status quo científico era dos aristotélicos, em particular dos jesuítas. Eles tentaram atacar Galileu inicialmente por suas ideias contrariarem Aristóteles, e não a Bíblia", afirma Marcelo Gleiser, físico do Dartmouth College (EUA).

O problema é que muitas das ideias do grego sobre física e astronomia eram, digamos, esquisitas. Aristóteles achava, por exemplo, que objetos mais pesados caem mais depressa que os mais leves. Sua cosmologia punha a Terra no centro imóvel do Universo, cercada de esferas concêntricas correspondentes ao Sol, à Lua, aos planetas e às estrelas conhecidas na época. Nessas regiões celestes, nada mudava ou saía da ordem - corpos como cometas e meteoritos seriam fenômenos da atmosfera, como a chuva.

Os experimentos de Galileu começaram a derrubar esses pressupostos, a começar pela descrição da queda de objetos. Resumindo: a massa deles não tem nada a ver com a velocidade em queda livre. Ele também estudou o movimento de pêndulos e se viu às voltas com a dificuldade de conseguir medições exatas do resultado de seus experimentos - durante muito tempo, o pesquisador precisou improvisar, acompanhando o próprio pulso para estimar a duração de uma queda, por exemplo.

O interesse de Galileu em novas ideias acabou por queimá-lo de vez em Pisa, e seu contrato deixou de ser renovado em 1592. Mas ele conseguiu que a Universidade de Pádua, bem mais prestigiosa e liberal, aprovasse seu nome como docente, e para lá partiu, no mesmo ano. Como o salário de professor não era lá essas coisas, tentava complementar a renda e ampliar sua reputação - fiel a seu estilo marqueteiro - bolando novos aparelhos (leia abaixo). Um deles fez sucesso: a bússola geométrica e militar. Na verdade, era um protocomputador que ajudava no cálculo de juros ou a determinar o ângulo correto de um canhão para acertar o alvo, por exemplo.

Não é de estranhar que ele tivesse boa cabeça para tecnologia. "Essa relação entre ciência e técnica na obra de Galileu é inovadora. Na época, os filósofos e os artistas ocupavam nichos distintos - os pintores e escultores eram também arquitetos e o que hoje chamamos engenheiros. Eram considerados trabalhadores braçais e, por isso, um grupo menos digno que o dos filósofos. Mas Galileu sempre teve um relacionamento íntimo com artistas e artesãos", diz Marcelo Moschetti, filósofo e professor da Universidade Estadual de Santa Cruz (BA).

E foi a aptidão tecnológica que catapultou definitivamente Galileu ao estrelato. Aperfeiçoando ideias sobre como ampliar objetos distantes, que, aliás, já andavam circulando há tempos na Europa, ele montou seu telescópio (cujo modelo mais avançado produzia uma ampliação de 30 vezes) e o apresentou ao governo de Veneza, seu patrono na época, já que Pádua era dominada pelos venezianos. Os líderes concederam-lhe um belo aumento, mas ele ansiava por novos ares. Ao dedicar o Sidereus Nuncius a Cosimo II de Médici, grão-duque da Toscana, e ao batizar os satélites de Júpiter de "estrelas mediceanas" para homenagear a família nobre, Galileu conseguiu ser nomeado matemático e filósofo da corte dos Médici e voltou para sua terra natal.

Tudo parecia indicar que o cientista passaria o resto da carreira sossegado e bem pago em Florença, se não fosse por um detalhe crucial: no livro, ele declarara seu apoio às ideias do astrônomo polonês Nicolau Copérnico (1473-1543), segundo as quais a Terra e os demais planetas giravam em torno do Sol, e não o contrário. É provável que Galileu Galilei já acreditasse nisso há muito tempo, tendo apenas "saído do armário" com a obra.

Na época, a Igreja Católica não havia condenado formalmente as teses de Copérnico, embora elas não pudessem ser conciliadas com uma interpretação literal da Bíblia. No Antigo Testamento, por exemplo, um trecho do livro de Josué diz que o Sol "parou" de girar em torno da Terra.


Puxão de orelhas

Há indícios de que acadêmicos ridicularizados por Galileu por causa das crenças aristotélicas se puseram a difamar o pesquisador no Vaticano, tentando obter uma declaração de que o copernicanismo era herético. Sabedor dessa oposição, Galileu, que nada tinha de ingênuo, tentou se proteger. Declarando-se bom católico (coisa que realmente era, até onde se sabe), ele divulgou publicamente o conteúdo de uma carta que trocou com a grã-duquesa Cristina da Toscana, na qual argumentava que a Bíblia "não ensina como vai o céu, mas sim como se vai para o céu", e só tratava de "verdades de fé". Para ele, a matemática era a língua na qual Deus tinha escrito o livro do Universo, e ler esse livro também era adorar a Ele. A carta, porém, piorou a situação: muitos clérigos consideraram que o leigo queria propor interpretações teológicas.

Ela ainda procurou uma prova irrefutável do movimento da Terra, apostando que as marés podiam ser a resposta. Foi sua maior mancada científica: o fenômeno tem mais a ver com a atração gravitacional da Lua. "Ainda que tenha apresentado evidências empíricas e argumentos de peso, ele não provou a rotação da Terra. A última pedra nesse processo foi posta por Léon Foucault, já no século 19", diz Eduardo Rodrigues da Cruz, físico e teólogo da PUC-SP. Galileu teria sido afoito ao afirmar o movimento da Terra? "Afoito não, mas ousado, como todo gênio", diz o filósofo Eduardo Iamundo, da PUC-SP.

O fato é que ele recebeu um puxão de orelha considerável. Embora tratado de maneira cortês pelo cardeal Roberto Belarmino, o pesquisador foi advertido de que não poderia mais defender as ideias de Copérnico. E, pela primeira vez em mais de meio século, a obra copernicana foi impedida de circular pela Inquisição.

O matemático sentiu o baque, mas dias melhores viriam - ao menos aparentemente. Um amigo e fã, o cardeal florentino Maffeo Barberini, foi eleito papa em 1623: Urbano VIII. Galileu dedicou seu novo livro, O Experimentador, ao pontífice, e obteve autorização para debater em outra obra as ideias de Copérnico, desde que as apresentasse só como hipóteses.


Abusado?

A mesma discussão foi tema de seu livro seguinte, Diálogo sobre os Dois Máximos Sistemas do Mundo, de 1632. Logo ficou claro que Galileu tinha deixado de cumprir sua promessa ao papa. A obra traz uma conversa entre três personagens, Sagredo, Salviati (ambos velhos amigos do matemático, já mortos, então) e Simplício. O que acontece é que os dois primeiros se mostram convencidos das ideias de Copérnico no decorrer do diálogo, enquanto apenas Simplício (nome que pode ser interpretado como "simplório, bobalhão") se agarra ao velho modelo geocêntrico. Pior ainda, ele usa os argumentos mais fracos da obra - e são muito parecidos com os que o próprio papa já tinha usado antes.

Esse talvez tenha sido o erro crucial de Galileu. Acredita-se que o personagem Simplício não foi uma provocação deliberada ao pontífice. Mas o pesquisador teimoso pecou por excesso de confiança: achava que o papa deixaria tudo por isso mesmo. Se pensava assim, enganou-se: Urbano VIII parece ter se sentido traído pelo cientista, e os inimigos do matemático no Vaticano não perderam tempo em explorar essa brecha.

Ele foi obrigado a comparecer diante da Inquisição, em Roma. Não foi torturado ou mandado para a prisão, mas ficou detido meses sob vigilância na embaixada romana de Florença, e depois em aposentos do palácio do Santo Ofício. Perto dos 70 anos de idade, ele teve de ficar de pé durante todas as sessões de inquérito e não teve direito a advogado.

As obras de Copérnico foram declaradas heréticas e Galileu, em 1633, teve de jurar nunca mais mencioná-las, sob risco de morte. Foi condenado à prisão perpétua, logo comutada para domiciliar. Era uma pena leve comparada à do filósofo Giordano Bruno, queimado vivo em 1600. Mas além de se recusar a abandonar suas ideias científicas (dizia que o infinito Universo tinha muitas outras Terras), ele defendia teses contrárias à Igreja, como negar que Jesus fosse divino.

A derrota arrasou Galileu, mas não acabou com sua determinação para fazer ciência. Ele conseguiu publicar mais um livro na Holanda (país protestante onde, claro, o papado não tinha força) - fingiu que o manuscrito fora obtido sem seu consentimento. Totalmente cego por causa de uma infecção, morreu em 1642. "Coube a Galileu a afirmação de uma nova concepção de ciência, na qual uma hipótese comprovada passa à condição de descrição do mundo", diz Iamundo.

É o tipo de triunfo que os tribunais não têm como anular, e que a própria Igreja acabou reconhecendo. Em 1992, o papa João Paulo II admitiu: "Graças à sua intuição como físico brilhante, Galileu entendeu por que apenas o Sol podia funcionar como centro do mundo então conhecido. O erro dos teólogos da época foi pensar que nosso entendimento do mundo físico era imposto pelo sentido literal da Sagrada Escritura".


Pagando bem, que mal tem?

Galileu transformou descobertas em fonte de lucro


A imagem do cientista como o sujeito avoado que só consegue pensar nas grandes questões sobre a vida, o Universo e tudo o mais definitivamente não combina com Galileu Galilei. Em muitos aspectos, seu estilo de trabalho está bem mais próximo do que se vê entre os cientistas-empreendedores do século 21 - gente que conhece a importância da inovação tecnológica para a economia e a sociedade e está preparada para transformar suas descobertas em fonte de lucro.

"Expressões como marketing e inovação tecnológica são meio anacrônicas quando aplicadas à época de Galileu, mas a visão geral que elas sugerem está correta. Basta ver a construção do telescópio e a oferta para a República de Veneza, em 1609", diz o físico Júlio Vasconcelos. Nesse episódio, Galileu usou a invenção do aparelho tanto para garantir um aumento no seu salário como professor quanto como propaganda para os telescópios que ele mesmo fabricava e comercializava. E, assim como Leonardo da Vinci cerca de um século antes, o pesquisador não tinha problemas em propagandear as aplicações militares do que descobria, o que aumentava o interesse de possíveis patronos. "Galileu sabia da importância de agradar esses patrocinadores, tal qual hoje tentamos obter bolsas de pesquisa do governo", afirma o físico Marcelo Gleiser. De olho na reputação de inovador, o matemático adotou uma regra que ainda é seguida pelos cientistas: os louros vão para quem demonstrar primeiro a paternidade de uma descoberta. Isso vale para o telescópio: embora o holandês Hans Lippershey tenha criado o formato original, sobre o qual Galileu tinha ouvido falar, ele fez questão de vender seu artefato como criação única para os venezianos. "Para garantir a prioridade sobre uma descoberta antes de completar seu trabalho, ele chegou a divulgar anagramas para esclarecê-los posteriormente", diz o filósofo Marcelo Moschetti.


De olho no céu

Os objetos mais importantes da história da astronomia


2500 a.C. - Pirâmide de Quéops

Os lados dessa maravilha arquitetônica do antigo Egito seguem com grande precisão a direção dos pontos cardeais. Além disso, pequenas aberturas na estrutura de pedra, partindo de uma câmara nas profundezas da pirâmide, estão alinhadas com a posição que a constelação do Cinturão de Órion ocupava na época.


2300 a.C. - Stonehenge

Uma das hipóteses favoritas para explicar a função do mais famoso monumento de rocha da Europa pré-histórica diz que os antigos habitantes da Inglaterra o usavam para acompanhar os grandes ciclos astronômicos. Os principais pilares de pedra estão alinhados de acordo com a posição do Sol no início do verão e do inverno.


150 a.C. - Mecanismo de Anticítera

Construído por astrônomos gregos, o aparelho pode ser considerado o mais antigo computador do mundo. Com uma série de mostradores acionados por manivelas, ele podia ser usado para prever eclipses do Sol e da Lua e também servia para indicar a data em que cairiam competições como os Jogos Olímpicos.


1428 - Observatório de Ulugh Beg

As instalações, localizadas em Samarcanda, no atual Uzbequistão, foram idealizadas pelo astrônomo islâmico Ulugh Beg, descendente do conquistador mongol Tamerlão. Com a ajuda de grandes trincheiras escavadas no alto de um monte, os pesquisadores do local traçaram catálogos precisos das estrelas visíveis a olho nu.


1609 - Telescópio de Galileu

Após fazer uma série de experimentos, Galileu chegou a um design que usava dois tipos de lentes para produzir imagens aumentadas. A ampliação máxima era de cerca de 30 vezes - um prodígio para a época. O sistema era superior a outros, mas só conseguia obter imagens de um pedaço pequeno do céu. E, quanto maior a capacidade de aumento, menores eram as dimensões passíveis de observação. De início, ele mirou a Lua e comprovou que nela havia crateras e montanhas, ao contrário do dogma aristotélico de que era uma esfera perfeita.

• A segunda lente, de formato côncavo, ficava na ponta do instrumento na qual o candidato a astrônomo olhava. Ela fazia com que a imagem "coletada" pela lente convexa chegasse ampliada ao olho do observador.

• A primeira lente, de formato convexo, era disposta na ponta do telescópio mais distante do olho do observador. Essa lente captava a luz do objeto observado, fazendo os raios luminosos convergirem para um ponto próximo.

• O corpo do telescópio era feito de madeira e couro. O modelo maior, mais potente, tinha 120 centímetros. Antes de chegar a esse formato, Galileu testou vários, a partir da ideia original de holandeses. Ao governo de Veneza, o artefato interessava mais como luneta para vigiar o mar do que para observar o espaço.


1917 - Telescópio Hooker

Com um espelho de 2,5 metros de diâmetro, instalado no observatório do monte Wilson, na Califórnia, o Hooker foi o maior telescópio do mundo durante três décadas. Graças a observações feitas nele, o astrônomo americano Edwin Hubble conseguiu demonstrar que o Universo estava em expansão.


1990 - Telescópio Espacial Hubble

Principal telescópio criado para funcionar na órbita da Terra, o Hubble atravessou uma série de problemas técnicos, mas sempre pôde ser recauchutado, e ainda funciona. Suas imagens ajudaram a mostrar que a expansão do Universo estava acelerando e trouxeram dados sobre buracos negros.


2009 - Kepler

Lançado ao espaço em março, o Kepler tem uma missão para lá de ambiciosa: obter as primeiras pistas sobre a existência de outras Terras. Monitorando estrelas próximas, ele está buscando diminuições do brilho desses astros que correspondam à passagem de planetas pequenos e rochosos na frente deles.


2020? - Terrestrial Planet Finder

O objetivo da missão projetada pela Nasa, mas ainda sem financiamento garantido, é dar continuidade aos achados do Kepler, porém com mais detalhamento. Usando técnicas para minimizar a luz das estrelas e ampliar a dos planetas, o TPF conseguiria ver detalhes da atmosfera das "novas Terras" em busca de sinais de vida.


Saiba mais

LIVROS

Galileu Anticristo, Michael White, Editora Record, 2009

O autor é especialista em biografias de cientistas e contesta os motivos usualmente atribuídos para que a Igreja condenasse o pesquisador.


A Mensagem das Estrelas, Galileu Galilei, Editora do Museu de Astronomia e Ciências Afins, 1995

Lançado em 1610, é um dos livros mais marcantes da carreira do matemático, onde ele relata as observações feitas com seu telescópio.


Post-Scriptum

Ciência x Religião: relendo Galileu

Muito além do famoso conflito que marcou o século 17


Há muitas décadas, as complexas relações entre ciência e religião são tema de estudos para a história da ciência. Aquilo que parecia um quadro bicolor, de duas partes competindo frente a frente, aparece agora multicolor, mesclando tonalidades. Os séculos 17 e 18 sempre mereceram especial atenção, pois então se estabelecem, na Europa, as bases para o processo que deu origem à ciência moderna. Articulado com as revoluções tecnológica e industrial, o estudo sobre as origens dessa nova ciência lança luzes para conhecermos as bases das modernas sociedades tecno-científicas.

A disputa de Galileu Galilei com setores da Igreja Católica serve de exemplo para contemplar a complexidade de caminhos que se apresentavam para a relação entre a ciência e a religião nas origens do moderno conhecimento científico. Veremos que esse conflito nem sempre é um momento de exclusão.

A tradicional produção de Imagens Maravilhosas (os efeitos da luz ao atravessar cristais ou vidro) dirigiu-se, a partir do século 17 e da invenção do telescópio, à aproximação do objeto observado, e a geometria vem explicar precisamente o que ocorre ao dirigirmos as lentes a objetos distantes. Nesse contexto de transformações práticas (novos usos para os cristais e vidros) e teóricas (a matemática explicando os acontecimentos), Galileu começa a enxergar, entre outras coisas, as luas de Júpiter. Essas visões serão enquadradas no horizonte copernicano, com o Sol no centro do Universo. Inicia-se, aí, o conflito entre ele e a Igreja, que, a partir das escrituras, entendia a Terra como o centro .

Ao dialogar com Galileu, o clero apresentaria uma visão instrumentalista da ciência, reservando para a teologia o encontro da verdade. As ideias dele, então, seriam só hipóteses matemáticas. Mas o pesquisador não via seus estudos apenas como modelos a serem comprovados. O neoplatonismo renascentista que o influenciou usava e abusava da matemática, confiante de estar utilizando uma linguagem divina - com a qual Deus desenhou o Universo - que revelaria verdades sobre a natureza essencial do mundo. Para Galileu, as escrituras serviam para atrair fiéis, não para explicar a natureza das coisas.

Poucas décadas se passaram desde a condenação do matemático pela Inquisição quando comentaristas começaram a transformá-lo em mártir da nova ciência. Esse conflito entre Galileu e a Igreja foi um dos principais combustíveis para o debate que, por séculos, colocou ciência e religião em lados opostos. Além disso - ou talvez por isso -, o Vaticano reviu a questão recentemente. Historiadores também têm revisto o episódio e enxergado esse campeão da ciência moderna com olhos menos benevolentes. Estudos como os de D. Garber e M. Finocchiaro mostram a prepotência, o dogmatismo e a falta de tato com que Galileu guiou o debate, transformando seus melhores aliados em inimigos.

O século 17 parece ter sido um período de águas turvas, inclusive nas esferas religiosa e científica. E tudo indica que Galileu, embora atrevido e brilhante, não foi um navegador muito hábil em nenhuma delas. Vale lembrar que o jovem pesquisador contou inicialmente com a boa vontade da poderosa Companhia de Jesus. Envolvidos com refinados debates intelectuais do período, padres jesuítas como Cristóvão Clavius trabalharam de perto a questão das chamadas "matemáticas mistas", que incluíam a mecânica e implicavam um novo papel para a matemática na árvore do conhecimento. Galileu manteve com eles uma discussão profícua, fundamental em sua formação.

Garber mostra que o acirramento desses debates (em que Galileu era capaz de qualquer coisa para sair vencedor) levaria o pesquisador a tomar atitudes cada vez mais exaltadas e arrogantes frente aos jesuítas, transformando-os em inimigos perigosos no processo inquisitório.

As tonalidades de conflito e harmonia que utilizamos para debater o caso Galileu devem ser revistas, dando lugar a um quadro bem mais colorido do que as imagens em preto-e-branco às quais nos acostumamos.


*José Luiz Goldfarb - Professor de pós-graduação em História da Ciência, PUC-SP. Ana é sua mulher, colega e autora de O que É HIstória da Ciência (Brasiliense)

Colaborou Ana Maria Alfonso-Goldfarb

Revista Aventuras na História

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Evolução da evolução


Evolução da evolução
Uma idéia simples resolveu o mais complexo dos mistérios: o sentido da vida. Agora cientistas usam Darwin para desvendar mistérios maiores: da mente à origem do Universo. E o que eles encontraram é assustador.
por Texto Alexandre Versignassi e Rodrigo Rezende
E Charles Darwin criou o homem. Ou, pelo menos, inventou o que hoje nós conhecemos como homem. Antes dele, éramos o centro do Universo, a obra sublime da criação. Agora somos apenas mais uma entre milhões e milhões de espécies, um bicho de origem nada especial. Nada mesmo: a Teoria da Evolução deixou claro que todas as formas de vida que já pisaram na Terra são filhas da mesma tataravó – a história de como essa senhora, uma simples molécula, virou tudo o que existe hoje você vê no infográfico que começa aqui ao lado.

Assim, mostrando como a vida evolui, Darwin dispensou Deus do cargo de criador. E agora seus seguidores do século 21 querem fazer algo ainda mais chocante: mostrar que não passamos de escravos a serviço dos verdadeiros donos deste planeta. Ah, tem mais: a teoria de Darwin pode ter desvendado o segredo dos buracos negros. E mostrado não só que deve haver vida fora da Terra mas em universos paralelos também. Quer saber como? Então vamos embarcar no velho Beagle. Primeira escala: o inferno.

O inferno de Darwin

O solo repleto de lava negra estava coberto de lagartos e tartarugas mons­truosas. Caranguejos escarlates corriam por todos os lados. O calor era tão forte que atravessava as botas e queimava os pés. Cercado por uma vegetação composta de cactos de 3 metros de altura, girassóis do tamanho de árvores e arbustos desfolhados, Darwin escrevia em seu diário: “A superfície seca e crestada, aquecida pelo sol do meio-dia, deixava o ar abafado, quente como em um forno. Tínhamos a impressão de que até os arbustos cheiravam mal”.

“Esse lugar é o inferno!”, dizia Robert FitzRoy, capitão do navio de pesquisas Beagle, que levara o jovem Charles Dar­win às Galápagos, um arquipélago no oceano Pacífico. FitzRoy queria um cavalheiro a bordo para lhe fazer companhia. E o abonado Darwin, de 22 anos, acabou escolhido, principalmente porque estava estudando para virar padre – mas também porque FitzRoy gostou do formato do nariz dele, que “sinalizava profundidade de caráter”. O capitão tinha dois objetivos para a viagem. Um a serviço do Império Britânico: mapear a costa da Patagônia. Outro, pessoal: encontrar provas científicas de que o mundo tinha sido criado de acordo com o que está na Bíblia. Mal sabia ele que o assassino de Deus estava a bordo.

A paisagem infernal das Galápagos, onde aportaram em 15 de setembro de 1835, após quase 4 anos de expedição, era um paraíso para Darwin. Ele pintou e bordou com tudo o que pôde naquele lugar perdido no tempo. Pegou carona nas tartarugas (“Era difícil manter o equilíbrio.”), tirou onda com as iguanas (“Ela ficou olhando para mim como se quisesse dizer: Por que você puxou a minha cauda?”) e encheu o bucho de iguarias exóticas (“Tatu é um prato excelente quando assado em sua carapaça.”). De quebra tirou de lá a inspiração para a idéia mais importante e assustadora da história da ciência.

O gatilho para esse pensamento veio quando ele percebeu diferenças instigantes entre os bicos de uma espécie de passarinho das Galápagos, os tentilhões. Em uma ilha eles tinham bicos grossos, bons para quebrar nozes. Em outra, longos e finos, ideais para arranjar comida em frestas. Darwin imaginou que aquelas aves deviam ter se adaptado de algum jeito. Por mágica? Não: por um processo de seleção que levou gerações. Em ambas as ilhas teriam nascido pássaros de bico fino e de bico grosso. Naquela onde havia nozes para comer, só estes últimos teriam sobrevivido. A partir desse raciocínio simples, nascia um monstro.

De volta à Inglaterra, aos 27 anos, Dar­win estudou a fundo as 5 436 carcaças, peles e ossos que colecionara na viagem do Beagle e concluiu que TODAS as espécies do mundo tinham passado por processos de adaptação equivalentes ao dos tentilhões. Bem devagarzinho.

Imagine as asas dos pássaros, por exemplo. Pela lógica de Darwin, elas não nasceram prontas. Em algum ninho dos ancestrais dos pássaros, que não voavam, surgiu um mutante, um “patinho feio”, com uma pequena membrana que lhe permitia planar de vez em quando. Essa característica deu-lhe alguma vantagem na luta pela sobrevivência. E o bicho deixou mais descendentes que seus irmãos. A prole dele, que carregava a mesma mutação, também fez mais filhos, e por aí foi. Com o tempo, novos mutantes, novos patinhos feios, foram nascendo com asas cada vez melhores. E no fim das contas um novo tipo de animal se consolidava no planeta: os pássaros. Tudo às custas da extinção de outros bichos parecidos, só que menos adaptados à dureza da vida. “A produção de animais superiores é conseqüência da natureza, da fome e da morte”, escreveu Darwin.

Nós mesmos, imaginou o inglês, não podíamos estar de fora. A diferença é que a evolução para a forma que temos hoje foi a partir de “macacos” (na verdade, animais parecidos com macacos) que foram desenvolvendo cérebros cada vez maiores, do mesmo jeito que os pássaros fizeram com as asas. E esses “macacos” vieram de outros bichos... Hoje sabemos de quem: de peixes mutantes que nasceram com a capacidade de respirar fora da água – nossos pulmões, por exemplo, vieram direto desses animais, que viviam em pântanos lamacentos.

Aí não tinha mais jeito. Darwin já sabia que não éramos “a imagem e semelhança de Deus”. Agora responda: o que você faria ao perceber que na sua cabeça existe uma idéia que pode abalar as crenças mais profundas de quase toda a humanidade? Darwin sentiu o peso, e ficou aterrorizado. Demorou mais de 30 anos para publicar a idéia em seu livro A Origem das Espécies, de 1859. E ainda assim o livro só saiu quando ele leu um artigo de Alfred Russel Wallace, um biólogo inglês. O texto continha uma teoria bem similar à da seleção natural, porém menos abrangente. Com medo de ser passado para trás, Darwin autorizou seu amigo Thomas Hux­ley a expor a Teoria da Evolução ao mundo científico, pois ele mesmo não teve coragem. “Foi como confessar um assassinato”, escreveu.

Por isso mesmo a teoria demorou para virar unanimidade entre os acadêmicos. Ela só foi aceita para valer quando outros cientistas, já no século 20, a refinaram com base na genética – a forma como os pais transmitem suas características aos filhos. Esse renascimento deu um gás novo à Teoria da Evolução. E na década de 1930 começava uma nova revolução: o neodarwinismo. Com ele, uma idéia aterradora começou a sair do forno: a de que você não passa de um robô. Era a Teoria do Gene Egoísta, que ganhou corpo nos anos 70. Para entendermos melhor essa história, vamos fazer outra viagem no tempo. Desta vez para uma época bem anterior à do Beagle. Mas com um destino igualmente infernal.

Origem das espécies 2.0

Planeta Terra, 4 bilhões de anos atrás. Um mundo adolescente, infestado por vulcões, meteoritos e tempestades violentas. No mar desse inferno, moléculas de carbono encontraram um porto seguro. E começaram a se juntar, formando cadeias cada vez mais longas e complexas. Uma hora, como quem não quer nada, apareceu um estranho nesse ninho. Um acidente da natureza. Era uma molécula capaz de se replicar, de sugar matéria orgânica do ambiente e usar como matéria-prima para produzir cópias dela mesma. Motivo? Nenhum: ela fazia réplicas por fazer e pronto. Vai entender...

Essa aparição foi algo tão improvável quanto se esta revista (que também é feita de cadeias de carbono) comesse seus dedos agora e, a partir dos átomos da sua carne, pele e ossos, construísse uma cópia dela mesma. Improvável, mas foi exatamente o que aconteceu naquele dia. E não havia nada ali para conter o apetite da monstruosa molécula.

Ainda mais porque arranjar matéria-prima, ou seja, “comida”, nesse oceano primitivo era fácil: bastava “pescar” nutrientes na água. Assim ela cresceu e se multiplicou. Mas tinha um problema: nem sempre as réplicas saíam perfeitas. Às vezes acontecia um erro de cópia aqui, outro ali. Surgiam aberrações. “Um livro e tanto escreveria o capelão do Diabo sobre os trabalhos desastrados, esbanjadores, ineficientes e terrivelmente cruéis da natureza!”, escreveria Darwin sobre esse processo bilhões de anos depois.

Esses erros aconteciam bem de vez em quando: um a cada milhão de réplicas. Mas tempo é o que não falta nesse mundo. Então eles foram se acumulando mais e mais. Só que alguns não davam em aberrações. Muito pelo contrário. Algumas réplicas nasciam com uma mutação que as fazia se multiplicar mais em menos tempo. E não demorou para essas mutantes mais férteis dominarem o mar. Só isso já é um tipo de seleção natural. Mas a regra de Darwin só deu as caras para valer quando aconteceu o inevitável: o mundo ficou pequeno para tantos replicadores. Com a superpopulação, os ingredientes de que eles precisavam para fazer suas cópias rarearam. Era a primeira crise de fome no planeta.

A saída? Ir para a briga. Mas estamos falando de moléculas, que não têm lá muito poder de decisão. Foi aí que provavelmente surgiu uma mutação inédita, que permitia a algumas moléculas comer outros replicadores. Assim elas conseguiam eficiência total: arranjavam almoço e eliminavam rivais ao mesmo tempo. Mas o domínio não duraria para sempre. Com o tempo surgiram mutantes com capa protetora natural. Com essa armadura, dava para comer os rivais sem o risco de ser comido. Nasciam as primeiras células do mundo. “Os replicadores deixavam de meramente existir e começavam a fazer contêineres para eles, veículos para que pudessem continuar vivos. Os que sobreviveram foram os que construíram ‘máquinas de sobrevivência’ para si”, escreveu o mais notório dos neodarwinistas, o zoólogo Richard Dawkins, da Universidade de Oxford, na Inglaterra.

Não demorou para virem células mutantes ainda mais terríveis contra as rivais. Elas tinham o poder de juntar forças com outras células e atacar unidas. E de fazer cópias de si mesmas numa tacada só, como se todas fossem uma única molécula. Surgiam os primeiros seres multicelulares.

E eles ficaram cada vez mais complexos: suas células passaram a assumir funções distintas para operar sua máquina de sobrevivência. Faziam como soldados num tanque de guerra: umas ficavam a cargo da locomoção, na forma de nadadeiras; outras, dos “satélites” para encontrar comida (visão, olfato).

E o progresso nunca parou. Tanto que hoje boa parte dos replicadores vive em “robôs” imensos, feitos de milhares de trilhões de células. Agora os chamamos de genes, e eles estão dentro de nós. Somos sua máquina de sobrevivência.

O sentido da vida

Genes mutantes e as pressões da seleção natural fizeram essa obra esplêndida que você vê no espelho todas as manhãs. Uma caminhada e tanto. Mas uma coisa não mudou desde os tempos da primeira molécula replicadora. Aquele objetivo irracional continua intacto: tudo o que os genes querem é fazer cópias de si mesmos. Foi para isso que eles criaram nosso corpo e nossa mente. E agora nos comandam lá de dentro, por controle remoto, para que trabalhemos em nome de sua preservação. A razão da existência? Lutar para que os genes façam cópias deles mesmos do melhor jeito possível.

E, para os neodarwinistas, esse egoísmo dos genes é a chave para descobrir como a nossa mente funciona. O próprio Darwin tinha escrito, no final de A Origem das Espécies: “Agora a psicologia se assentará sobre um novo alicerce”. Demorou, mas aconteceu. Uma nova ciência da mente ganhou terreno no final do século 20. Foi a psicologia evolucionista, que usa Darwin e a mecânica dos genes para entender o que se passa aí dentro da sua cabeça.

Premissa número 1 dessa ciência: a mente já nasce quase pronta. Ela não é uma folha em branco, em que qualquer coisa pode ser “escrita”, como muitos filósofos e cientistas sociais defendem. Do ponto de vista da psicologia evolucionista, não faz sentido dizer que a cultura molda o nosso comportamento. Ela afirma que sua mente foi forjada ao longo de toda a evolução. E que você vem ao mundo com todos os “softwares” instalados no “hardware” da sua cabeça. Seus desejos, sua personalidade e tudo o mais dependem desses programas mentais. Nossa margem de manobra é pequena. E tem outra: a mente humana ganhou os soft­wares que tem hoje nos últimos 200 000 anos, quando nossa espécie, o Homo sapiens, veio ao mundo. Passamos 97% desse tempo em bandos nômades, que viviam da caça e da coleta. Nossa mente, então, não passa de uma ferramenta da Idade da Pedra tentando se virar num mundo que não existe mais. Do ponto de vista dos nossos genes, ainda estamos no Paleolítico, uma época sem faculdade, carreira, dinheiro ou anticoncepcionais. Uma época em que só duas coisas realmente contavam:

Sexo e violência

Se ainda sobrou alguma coisa que você queria saber sobre sexo, mas não tinha coragem de perguntar, talvez a resposta dos evolucionistas sirva: ele é a forma que os genes arrumaram para melhorar as defesas da sua máquina de sobrevivência. Por exemplo: se você tem um sistema imunológico que não sabe se defender de algum vírus, e tudo o que você sabe fazer para se reproduzir são cópias de si mesmo, como aquelas primeiras células, seus rebentos vão ter esse problema. E o clã inteiro vai mor-rer no caso de um ataque.

Agora, se você combina seus genes com o de um ser imune ao tal vírus, a história é outra: teo-ricamente, só uma parte do clã morreria. E o resto continuaria passando seus genes adiante como se nada tivesse acontecido.

Ao criar esse tipo inovador de reprodução, a seleção natural tratou de dividir o trabalho entre dois tipos de fun­cionários especializados. Um teria a função de tentar pôr seus genes em qualquer máquina de sobrevivência que cruzasse seu caminho. O outro selecionaria entre esses primeiros quais têm os melhores genes para compartilhar e cuidaria da cria que os dois tivessem juntos. Em outras palavras, o mundo se dividia entre machos e fêmeas (em algumas espécies, os papéis se invertem: os filhotes ficam a cargo dos machos, então eles é que são os mais paquerados).

Enfim, ao ganhar o poder de decidir quais machos terão filhos e quais ficarão na prateleira, as fêmeas assumiram o controle da evolução na maioria das espécies. E, para a psicologia evolutiva, é isso que determina aquilo que mais importa na vida: a propagação dos nossos genes, coisa também conhecida como vida afetiva e sexual.

O sexo, hoje, tem pouca relação com o ato de fazer filhos. Você sabe. Nenhum adolescente pensa em engravidar 10 meninas quando vai viajar para o Carnaval. Mas os genes dele não fazem idéia de que existem camisinhas e tudo o mais, então deixam o rapaz com vontade de transar com 10 garotas e pronto. Se tudo der certo, esses genes poderão instalar-se no útero de um monte de meninas e construir um monte de bebês (várias máquinas de sobrevivência novinhas em folha!).

Do ponto de vista das fêmeas a história é outra: transar com 10 sujeitos num feriado não vai “render” 10 filhos para os genes dela se instalarem. Vai dar é uma baita dor de cabeça. Os contraceptivos poderiam deixá-las livres para fazer sexo só pelo prazer com um monte de seres do sexo oposto, como qualquer homem faz (ou tenta fazer). Mas não. O cérebro delas evoluiu para selecionar os melhores parceiros, ter poucos (e bons) filhos, não para tentar a sorte com qualquer um. Sem falar que, do tempo dos nossos ancestrais caçadores-coletores até o século 20, sexo casual para elas era correr o risco de acabar com um bebê indesejado. Aí não tem ideologia liberal nem pílula que dê conta de superar esse “trauma” evolutivo.

Psicólogos da Universidade Stanford, nos EUA, checaram isso com uma experiência simples. Contrataram homens e mulheres atraentes para abordar estudantes e dizer: “Você gostaria de ir para a cama comigo hoje?” Nenhuma mulher aceitou. Já as garotas tiveram resultados melhores: 75% dos homens toparam no ato. Dos 25% restantes, a maioria pediu desculpas, explicando que tinha marcado de sair com a namorada. Pois é: do ponto de vista da seleção natural, uma bela fêmea disponível é um bem valioso demais para ser desperdiçado. Nenhum homem se surpreende com isso (o pessoal da obra não está só brincando quando diz “ô, lá em casa!”), mas para as mulheres a verdade da psicologia evolucionista pode soar assustadora: “O desejo de variedade sexual nos homens é insaciável. Quanto maior for o número de mulheres com quem um homem tiver relações, mais filhos ele terá [pelo menos é o que “pensam” os genes]. Então demais nunca é o bastante”, escreveu outro guru do neodarwinismo, o psicólogo Steven Pinker, da Universidade Harvard, nos EUA.

Esse apetite todo também ajuda a explicar as raízes de outro comportamento ancestral: a violência. Os despojos de guerra mais comuns nos conflitos tribais sempre foram as mulheres. Não é à toa que uma das lendas sobre a fundação de Roma, que aconteceu no século 8 a.C., celebra o dia em que os primeiros romanos atacaram uma tribo vizinha, a dos sabinos, e raptaram as mulheres deles para começar sua civilização. Não dá para não dizer que deu certo.

E esse é o ponto: às vezes a violência é, sim, o melhor jeito de conseguir alguma coisa. Então não há mistério para a psicologia evolucionista: como a violência funcionou ao longo da história, está impregnada nos nossos genes. “Os bebês só não matam uns aos outros porque não lhes damos acesso a facas e revólveres”, disse o pediatra e psicólogo Richard Tremblay, da Universidade de Montreal, em uma entrevista à revista americana Science. A grande questão, ele completa, não é como as crianças aprendem a agredir, mas como elas aprendem a não fazer isso.

Intrigante, mas o psicólogo evolucionista Eduardo Ottoni, da USP, tem a resposta na ponta da língua: “A coisa mais complicada na vida de um primata é a capacidade de se virar em sociedades complexas. E se dar bem socialmente não é dar bifa em todo mundo”. Então nada melhor que um pouco de altruísmo com alguns para ficar bonito na foto. Os morcegos que o digam: entre as espécies que se alimentam de sangue, a vida não é fácil. Nem sempre dá para voltar pra caverna com o almoço na barriga. Mas os que conseguiram sangue durante o dia dão uma força aos malsucedidos, oferecendo a eles o sangue que sobrou na boca. Mas não tem conversa: quem não retribuir a oferta quando a situação for inversa fica com a reputação manchada e é banido do almoço grátis.

Mas em alguns casos somos altruístas sem querer nada em troca, nem inconscientemente. Isso acontece quando se trata das nossas famílias. E é aí que, para os neodarwinistas, fica mais clara a forma como os genes nos dominam.

Sangue do meu sangue

Você é uma máquina de sobrevivência dos seus genes, que o usam para se reproduzir. Ok. Mas o que aconteceria se esses genes tivessem construído um cérebro capaz de detectar cópias deles em outro corpo? O seguinte: eles também lutariam pela sobrevivência desse corpo. Fariam você se sentir aliviado com bem-estar dele.

O fato é que os genes construíram esse sistema de detecção. Todos os cérebros têm isso em algum grau. E o altruísmo puro é exatamente o que acontece quando dois animais são parentes próximos.

Existe uma chance em duas de que qualquer um dos seus genes esteja no seu irmão ou no seu filho. E 1 em 8 de que esteja em um primo. Sendo assim, o que o neodarwinismo diz é: você não “ama” seus filhos e irmãos. São seus genes que vêem neles maneiras de se perpetuar. E é por isso que você os ajuda. O geneticista John Haldane (1892-1964), um dos pioneiros do neodarwinismo, quis deixar isso claro quando lhe perguntaram se ele daria a vida por um irmão. A resposta: “Não. Mas daria por 2 irmãos ou 8 primos”.

O mesmo vale para quando nos apaixonamos. Se você ama alguém, quer ter filhos com essa pessoa, quer colocar seus replicadores ali e se esfolar para cuidar dos rebentos. Aí, para o futuro dos genes, sua vida só faz sentido se aquela pessoa existir. E o sentimento é tão poderoso que parece eterno enquanto dura.

Outra coisa que determina a hierarquia entre parentes é a expectativa de que eles se reproduzam. Daí os pais se sacrificarem mais pelos filhos do que os filhos pelos pais. Responda rápido: se você tivesse que decidir entre a morte de 20 estranhos e a vida do seu filho, ficaria com qual opção? Ou melhor: existe algum número de pessoas que valha a vida de um filho? Para a psicologia evolucionista, não. Para o Zé Mané do boteco e a dona Cleide da quitanda também não. O egoísmo dos genes aí dentro é maior do que tudo o que tem do lado de fora.

A evolução do Universo

Falando em lado de fora, e o lado de fora? A evolução seria um fenômeno circunscrito à vida na Terra ou algo universal, como as leis da física? O físico Lee Smolin, do Perimeter Institute, no Canadá, fica com a opção número 2.

Smolin mandou as regras de Darwin para o espaço. Literalmente: criou uma teo­ria que aplica a seleção natural ao Universo inteiro. E foi além. Para ele (e outros físicos), nosso Universo é só mais um entre bilhões e bilhões. Todos juntos num Cosmos imensurável que podemos chamar de Multiverso. Nesse cenário, os universos são os indivíduos, os replicadores. Cada um lutando para fazer mais e mais cópias de si mesmo.

Bom, este Universo aqui começou quando toda matéria, tempo e espaço que conhecemos estavam espremidos em algo infinitamente pequeno. Esse pontinho explodiu no “dia” do big-bang, há 13,7 bilhões de anos, e agora estamos aqui. Mas tem uma coisa: existem alguns lugares no Universo em que tudo também está espremido desse jeito agora mesmo. São os buracos negros, que sugam tudo o que está à volta deles, inclusive tempo e espaço. Por isso, Smolin imagina que dentro de cada buraco negro há um big-bang acontecendo. E os buracos seriam como “gametas” cósmicos: dariam à luz novos universos, parecidos com o “pai”. Então Smolin considera que as “espécies” mais bem-sucedidas no Multiverso são justamente as que produzem mais buracos negros – a “prole” delas vai ser seguramente maior.

Lembre-se que buracos negros são estrelas mortas. E daí? Daí que, quanto maior for o número de estrelas, maior vai ser o de “gametas”. Mais: as nuvens de matéria onde as estrelas nascem precisam ser bem frias (por motivos que só teríamos como explicar com uma página inteira, e bem chata). Bom, e sabe que tipo de coisa é o que há de melhor para esfriar essas nuvens cósmicas? Moléculas de carbono. Elas mesmas, as que deram o pontapé inicial na vida por aqui. Quanto mais delas houver por aí, mais “filhos” um Universo vai gerar. E nós, os descendentes dessas moléculas, seríamos um mero subproduto da verdadeira seleção natural, a do Cosmos. Parece desolador, mas, se for isso mesmo, podemos nos orgulhar de saber que as leis de Darwin governam tudo isso.

Ou até mais do que isso. Baruch Spinoza, um filósofo holandês do século 17, defendia que Deus e Universo são apenas dois nomes para uma coisa só; que o Criador não é exatamente um criador, mas a grande regra que move o Cosmos. Se você gosta desse ponto de vista (Albert Einstein gostava) pode dizer tranqüilamente: Charles Darwin não matou Deus. Só descobriu onde ele estava.

Três fatos sexuais da evolução que nunca ensinam na escola:

1. Os macacos bonobos têm testículos gigantes. É que as fêmeas deles transam com todo mundo, então a competição acontece dentro dos testículos: quem faz mais espermatozóides consegue se reproduzir.

2. Os homens de todas as culturas preferem as mulheres com “corpo de violão”, também conhecidas como gostosas. É que quadris largos, cintura fina e seios generosos são sinais de que a moça é bem fértil.

3. Em algumas espécies de aves monogâmicas um terço dos filhotes nasce de casos extraconjugais – a fêmea busca os genes de machos mais fortes e faz o dedicado marido cuidar de rebentos que não são dele. Nota: isso também acontece com humanos.

Gênesis: a jornada da evolução dá a largada - 3,9 bilhões a 2,1 bilhões de anos atrás
Aqui começa a história da vida na Terra. No centro, está o ancestral comum de todas os seres vivos, que viveu há 3,9 bilhões de anos. Foi uma mera molécula de carbono e suas 3 filhas que deram o pontapé inicial na jornada da vida.

1. Molécula mãe

No princípio, há uns 4 bilhões de anos, eram moléculas de carbono que aprenderam a fazer cópias de si mesmas. Cerca de 100 milhões de anos depois surgiam moléculas com uma armadura de proteína. Eram as primeiras células, que dariam origem a tudo o que existe de vivo hoje.

2. Pioneiras bem-sucedidas

Há 3,9 bilhões de anos, as células não passavam de um pacote de DNA protegido por uma capa – sem “órgãos internos”, como a mitocôndria. Até hoje há muitas bactérias assim. Muitas mesmo: se juntarmos só as que vivem hoje debaixo da terra, elas cobririam o planeta todo com uma camada de 15 metros de espessura.

3. Células 2.0

Num dia qualquer, há pouco mais de 2 bilhões de anos, uma célula bacteriana entrou em outra. Foi o princípio de um casamento duradouro e feliz. A invasora foi a mitocôndria, uma bactéria que passou a funcionar como um turbo para a célula invadida, fornecendo energia em quantidades colossais. Deu tão certo que até hoje elas vivem juntas: todas as células de plantas e animais (as chamadas eucariontes) são formada por esse par.

4. Herói da resistência

Há cerca de 3,5 bilhões de anos, surgiu um parente das bactérias: a arquea. Ela tem características corporais que garantem o título de campeã da resistência entre as formas de vida. Chega a morar até em lugares como gêiseres, onde suporta temperaturas superiores a 100 0C.


Explosão de vida - 2,1 bilhões a 500 milhões de anos atrás
Plantas e fungos separam-se de nós e seguem seu caminho. No reino animal, a variedade aumenta: surgem os primeiros animais com cérebro, olhos e exoesqueleto. Entre eles, nosso tataravo

1. Fábricas de oxigênio

Algumas células desenvolvem uma nova habilidade: passam a comer o carbono das moléculas de CO2. E o que sobra como “fezes” nesse processo é outro gás, o oxigênio. Era a fotossíntese das primeiras plantas da Terra, as algas, que encheria a atmosfera com o gás essencial para a vida.

2. Vida simples

As células eucariontes fundavam mais dois ramos: o dos fungos, que são parecidos com plantas, mas não fazem fotossíntese, e o dos protozoários, os animais unicelulares. Mas quem daria o que falar seria outro ramo, o do item 3.

3. Vida complexa

Depois de mais de 1 bilhão de anos com as algas produzindo oxigênio a rodo, as células, que usam o gás para produzir energia, ganham força e surgem seres complexos, multicelulares. É a explosão de vida que aconteceu entre os Períodos Vendiano e Cambriano. Surgiam ali os ancestrais diretos dos animais de hoje.

4. Escafederam-se

Mas a maior parte da exuberância surgida no Cambriano ficou por lá mesmo e não deu em nada. Uma grande extinção matou quase todos os bichinhos. Os poucos que sobraram deram origem a todos nós.

5. Primeiros olhos

Com as formas de vida ficando mais variadas, a natureza começa a fazer experiências que se consagrariam: as primeiras cabeças e olhos surgem em vermes como os platelmintos.

6. Seu tataravô

No meio dessa gangue de invertebrados apareceu um bichinho besta parecido com os girinos de hoje. Ele é seu ancestral direto. O rabinho atrás dele foi o que deu origem a nossa coluna vertebral.


Apocalipse(s) - 500 milhões a 250 milhões de anos atrás
Frio destrói o planeta. Depois o calor faz a mesma coisa. Mesmo assim, a vida segue firme, com plantas e insetos gigantes. E chega o bisavô da gente, dos dinossauros e dos sapos

1. Resfriamento global

Uma extinção há cerca de 450 milhões de anos varreu 85% das espécies – sorte sua que nossos ancestrais se safaram. A provável causa é irônica para nós, que tememos o efeito estufa: um resfriamento global.

2. 3 peixes e 1 destino

Nosso ancestral sobrevivente é o peixe sem mandíbula, pai dos peixes comuns e dos que dariam origem a nós: os de nadadeiras grossas. Essas nadadeiras, por sinal, logo mostrariam a que tinham vido. Veja no item 5.

3. Ar anabolizado

No início do Carbonífero, o clima quente e úmido oferecia condições ideais para o crescimento de árvores gigantes, com mais de 30 metros. A fotossíntese delas fez o oxigênio compor 35% da atmosfera – hoje, por exemplo, esse nível é de apenas 20%.

4. Fuga para a terra

O mar estava superpopulado. Fugir para a terra firme virou a alternativa para alguns invertebrados. Deles viriam os insetos modernos.

5. Peixe fora d’água

Peixes que viviam em pântanos transformaram aquelas nadadeiras grossas em 4 patas. E originaram os vertebrados terrestres.

6. Invasão dos insetos

O ar cheio de oxigênio foi um baita negócio para os bichos mais energéticos, como os insetos: alguns chegaram a medir quase 1 metro.

7. Efeito estufa

Há 250 milhões veio a maior extinção da história: 95% das espécies. Motivo provável: erupções vulcânicas teriam aumentado a concentração de CO2 , elevando a temperatura além da conta. As maiores perdas foram no mar.


Ascensão e queda dos dinos - 250 milhões a 65 milhões de anos atrás
Uma extinção abre caminho para os dinossauros dominarem a Terra. Outra os manda embora de uma vez só. Enquanto isso o mundo fica mais colorido e surge nosso avô, um “quase-ratinho”.

1. Rei morto, rei posto

Há 230 milhões de anos um grupo de répteis dominava a Terra. Dinossauros? Não: os terapsídios, ancestrais dos mamíferos. Mas uma extinção os varreu do planeta há 200 milhões de anos. E deixou o caminho livre para os dinos.

2. Era das flores

As florestas ficavam mais coloridas. As plantas com flores inventaram um novo método de reprodução: usar insetos para transportar seu gametas, em vez de atirá-los no ar. E logo elas dominariam 80% da vegetação.

3. Dinos aquáticos

O mar não estava só para peixe, estava também para plesiossauros e ictiossauros, os dinos aquáticos. Eles morreram milhões de anos antes dos terrestres. Suspeita-se que foi por falta de comida depois que um tipo de lula, seu prato favorito, extinguiu-se.

4. Come-quieto

Os primeiros mamíferos eram menores que ratos e viviam de comer insetos – embora alguns chegassem a 1 metro de comprimento. Mesmo assim, se esses pioneiros não tivessem se escondido dos dinos, você não estaria aqui.

5. Impacto profundo

Há 65,5 milhões de anos, um asteróide acertou a Terra. Resultado: tsunamis de 150 metros, terremotos colossais e uma onda de choque que ensurdeceu os sobreviventes. Mais de 70% dos animais pereceram. E não sobrou dino algum.

6. Casa nova

O meteoro que matou os dinossauros fez a alegria dos anfíbios. Ao destruir os dinos herbívoros, facilitou o crescimento de selvas, que serviram de lar para eles. Na época, as 5 espécies sobreviventes deram à luz 86% das espécies de sapos e 95% das de salamandras atuais.


Para saber mais
Tábula Rasa

Steven Pinker, Companhia das Letras, 2004.

O Relojoeiro Cego

Richard Dawkins, Companhia das Letras, 2001.

A Vida no Cosmos

Lee Smolin, Unisinos, 2004.


O nosso mundo, por enquanto - 65,5 milhões de anos atrás até a semana passada
Estima-se que haja 10 milhões de espécies hoje, embora só 1,4 milhão estejam catalogadas. Mesmo assim, é a ponta do iceberg: 99% das formas de vida que já passaram pela Terra não estão mais entre nós. E as extinções continuam.

1. Mundo mamífero

Com a Terra livre dos dinossauros, aqueles mamíferos do tamanho de ratinhos ficaram com o terreno livre para crescer e se multiplicar.

2. Quem dera ser um peixe

Não só os mamíferos se deram bem na época. Alguns peixes tiveram um upgrade, que lhes deu mais agilidade e força. Resultado: viraram o grupo dominante dos vertebrados, com 50% das espécies.

3. Nem macaco nem homem

Há 6 milhões de anos nascia o último ancestral comum de homens e chimpanzés, um ser ainda desconhecido do ramo dos primatas. Um milhão de anos depois ele evoluiria para o australopiteco. E dele para nós foi um pulo, pelo menos do ponto de vista do planeta.

4. E chega o homo sapiens

O australopiteco gerou o Homo erectus, que gerou o Homo heidelbergensis, que teve dois gêmeos há 200 000 anos: o Homo neanderthalensis e o Homo sapiens. Aí fizemos o que Caim fez com Abel na Bíblia: os matamos. E há 30 000 anos somos a única espécie humana na Terra.

5. Extinção artificial

Agora nós é que promovemos extinções em massa. Sete em cada 10 das principais espécies de peixes marinhos – que juntas somam 30% de tudo o que se pesca – já foram superexploradas. Quer dizer: se a predação humana continuar como está, elas devem se extinguir nas próximas décadas.

Revista Superinteressante

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Qual foi a primeira civilização que se dedicou ao estudo do sistema solar?

Há referências a estudos de fenômenos astronômicos na China, na Índia e no Egito, mas não se sabe exatamente quando teve início a astronomia. Um pesquisador da UFPR fala sobre as observações dos astros feitas pelas civilizações antigas em resposta à dúvida de nossa leitora.
História da Ciência Astronomia

Publicado em 05/01/2010 Atualizado em 05/01/2010

O zigurate de Ur, com aproximadamente 11 m. Construído entre 2113 e 2096 a.C., é o mais bem conservado dos zigurates da Mesopotâmia
Pergunta de Viviane de Lima Noronha, por correio eletrônico.

Não se sabe exatamente quando a astronomia começou, mas existem referências a estudos de fenômenos astronômicos na China, na Índia e no Egito. Na cidade de Ur, às margens do rio Eufrates (em torno do qual surgiu a primeira civilização de que se tem notícia, há aproximadamente 3000 a.C.), os sumérios erigiram um zigurate (torre com várias plataformas) dedicado ao deus da Lua, Nanna, e à sua esposa, Ningal. Os babilônios conheciam seis astros importantes: Sol, Lua, Vênus, Mercúrio, Marte e Júpiter. Mas como, para eles, o sete era um número sagrado, deveria haver sete astros no céu, além das estrelas fixas. Eles fizeram observações até descobrir o planeta (‘estrela errante’) Saturno. Em todas as civilizações antigas, havia relações entre os astros e a religião.

Na civilização grega, surgiram problemas astronômicos que não haviam sido estudados por outros povos. Os gregos queriam saber o tamanho real do Sol; a que distâncias estariam o Sol e a Lua da Terra; qual o movimento dos planetas e a que distâncias estariam uns dos outros etc. Por volta de 250 a.C., Eratóstenes mediu indiretamente a circunferência da Terra. Aristarco de Samos (320-250 a.C.) tentou determinar a relação entre as distâncias da Terra à Lua e da Lua ao Sol. O coroamento da astronomia grega deu-se com o trabalho de Ptolomeu (85-165 d.C.). Em sua obra principal, o Almagesto, ele fornece uma grande quantidade de dados empíricos.

A grande influência dos gregos não é ter feito descobertas ou resolvido problemas astronômicos úteis nos dias de hoje, mas tê-los criado. Eles provocaram o início da grande aventura: explicações racionais para os fenômenos naturais, que, em pouco mais de dois milênios, transformariam a espécie humana mais radicalmente do que havia sido feito pela evolução nos 200 milênios anteriores. No prefácio do seu livro Sobre a revolução das esferas celestes, publicado em 1543, Nicolau Copérnico (1473-1543) cita Plutarco (45-125?) e outros autores gregos ao se referir à mobilidade da Terra em torno do Sol.

Jair Lucinda
Departamento de Física,
Universidade Federal do Paraná

Revista Ciência Hoje

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Alfredo Tolmasquim - Historiador conta como o humor de Eisenstein foi se alterando durante a viagem à América do Sul

Historiador conta como o humor do cientista foi se alterando durante a viagem à América do Sul
Neldson Marcolin - Dezembro 2008
Edição Impressa - Especial Einstein
Pesquisa FAPESP - © Marcia Minillo

Tolmasquim: anúncio de 1919 foi grande evento de mídia

A comprovação da teoria geral da relatividade na cidade de Sobral, no Ceará, e na ilha de Príncipe, no golfo da Guiné, em 1919, fez mais pela fama de Albert Einstein do que todos os artigos revolucionários publicados entre 1905 e 1916. O resultado foi anunciado por pesquisadores ingleses em uma sessão solene da Academia de Ciências de Londres e noticiado como de grande importância para a ciência primeiramente no jornal The Times e depois pela imprensa de todo o mundo. “Foi um dos primeiros grandes eventos de mídia no século XX”, contou o pesquisador em história da ciência e diretor do Museu de Astronomia e Ciências Afins (Mast), Alfredo Tiomno Tolmasquim. Ao se tornar uma celebridade mundial, o cientista alemão começou a viajar pelo mundo para divulgar suas idéias científicas, receber homenagens e defender o pacifismo e o sionismo. “Foi dentro deste contexto que ele visitou o Brasil, em 1925.” Tolmasquim falou no Parque do Ibirapuera na agenda cultural paralela à exposição Einstein, com o tema “Um cientista nos trópicos: a viagem de Einstein à América do Sul”, no dia 9 de novembro.

Para entender melhor as motivações do cientista em visitar países sem muita expressão em um lugar distante, Tolmasquim lembrou que o reconhecimento pelos artigos de 1905 ocorreu muito lentamente. Foi apenas em 1914, aos 35 anos, que ele recebeu e aceitou um convite atraente para trabalhar na Universidade de Berlim: não precisaria dar aulas, apenas seminários e palestras. O salário era confortável e incluía uma vaga na Academia Prussiana de Ciências e a diretoria do instituto de física que viria a ser criado. Quando pensou que finalmente teria tempo e tranqüilidade financeira para trabalhar, quatro meses depois que chegou a Berlim eclodiu a Primeira Guerra Mundial e, pela primeira vez, Einstein começou a se envolver em questões políticas.

Os intelectuais e cientistas da época se engajaram diretamente na polêmica sobre o conflito. “Para os não-alemães existiam duas Alemanhas: a do Kaiser, beligerante, e a da ilustração, do conhecimento, da cultura, da ciência”, contou o diretor do Mast. Os principais cientistas e intelectuais alemães reagiram a essa posição e fizeram o “Manifesto dos 93”, em que diziam que a Alemanha era uma só, a do Kaiser. Ocorre que Einstein não assinou o manifesto porque acreditava que os cientistas não deveriam se envolver na questão. Para ele, ciência e cultura teriam de estar acima das fronteiras nacionais. Essa posição o levou a escrever um contramanifesto, conclamando “os bons europeus” a se unirem contra a guerra, algo imediatamente considerado uma espécie de ato de traição. Foi nesse período que Einstein assumiu de vez o pacifismo e passou a apoiar o sionismo, movimento de criação de um Estado judaico na Palestina.

Personalidade mundial
Mesmo com o envolvimento político, ele continuou dando palestras e trabalhando na teoria geral da relatividade, que publicou em 1916. Uma das idéias básicas da teoria diz que um corpo de grande massa, como o Sol, deforma o espaço em torno de si e qualquer objeto que passar na região vai seguir essa deformação, inclusive a luz. Como se poderia comprovar a hipótese? Observando a luz de uma estrela passando perto do Sol. “Você olha a luz da estrela perto do Sol, depois olha a luz da estrela longe do Sol e vê se houve alguma mudança”, explicou Tolmasquim. A única maneira de fazer a observação seria no momento do eclipse do Sol – quando a Lua encobre a luz solar e é possível ver as estrelas que estão próximas. No artigo de 1916 Einstein previu qual seria a deflexão da luz de uma estrela próxima calculando pela massa do Sol. Para fazer a comprovação da teoria saíram as duas expedições britânicas, para o Ceará e para o golfo da Guiné, na África, que comprovaram a deflexão prevista pelo físico.

“Aí sim vai acontecer o que não aconteceu em 1905”, disse o pesquisador. A imprensa faz uma cobertura enorme e transforma Einstein em uma personalidade mundial. Se por um lado ele era muito festejado, por outro ficou na berlinda e começou a receber muitas críticas de alemães nacionalistas contra a posição que tomou durante a guerra. Nessa época também foi lembrado o fato de ele ter abdicado da nacionalidade alemã, ainda muito jovem. Além disso, era judeu e os nacionalistas alemães consideraram que houve uma conspiração dos judeus para derrubar o imperador alemão. Quando acabou a guerra, o Kaiser abdicou e foi proclamada a República de Weimar. Não bastasse tudo isso, existiam setores que não concordavam com a teoria geral da relatividade. Começou uma campanha chamada por Einstein de campanha anti-relatividade, que envolvia nacionalismo, anti-semitismo e divergências científicas.

No centro de todas essas questões, Einstein pensou em ir embora para outro país e deixar as polêmicas para trás, mas foi convencido por alguns colegas a ficar – a Alemanha, afinal, era o centro da física no mundo. “Foi naquele momento que ele decidiu começar a se manifestar com mais ênfase e usar sua voz para divulgar suas idéias científicas e pacifistas”, disse Tolmasquim. Começou, então, a dar muitas palestras, não só divulgando a relatividade e a nova física, como interagindo com os cientistas. Foi a Holanda, Noruega, Dinamarca, Praga, Viena, Estados Unidos, Inglaterra, França, Japão, Palestina e, em 1925, Argentina, Uruguai e Brasil.

viagem começa pela Argentina, na época um país muito diferente do Brasil, então extremamente agrário. A Universidade do Rio de Janeiro, a primeira do Brasil, havia sido criada em 1922. Na Argentina, porém, existiam cinco universidades no mesmo ano, além de alguma pesquisa em física. Havia também a presença relativamente alta e organizada de imigrantes alemães. Eles criaram a Instituición Cultural Argentino-Germana, que reunia cientistas alemães e argentinos interessados na ciência e cultura germânicas. Um dos objetivos era trazer pesquisadores importantes para dar palestras e um dos primeiros nomes citados foi o de Einstein. Mas o convite não se concretizou de imediato porque existia entre seus integrantes a mesma divergência no âmbito da instituição que já ocorrera na Alemanha sobre as posições políticas de Einstein.

Outra instituição cultural, a Associação Hebraica da Argentina, também tinha o objetivo de trazer judeus eminentes em artes e ciências. Ao tentar contatar o cientista, descobriu-se que ele só aceitava convites feitos por instituições científicas para evitar que sua imagem fosse usada de uma forma ou de outra. A Associação Hebraica sugeriu, então, que a Universidade de Buenos Aires fizesse o convite, colocaram dinheiro à disposição para ajudar nos custos e, em dezembro de 1923, seguiu uma carta para Berlim. Einstein disse que aceitava, mas apenas em 1925.

O Brasil entrou na história por iniciativa também da Associação Hebraica. Os líderes da comunidade judaica da Argentina alertaram os líderes no Uruguai, Brasil e Chile sugerindo que aproveitassem a visita de Einstein à América do Sul para convidá-lo a ir aos seus países. No Rio de Janeiro, o rabino Isaiah Raffalovich, líder judeu local, conseguiu que a Escola Politécnica o convidasse. “A carta para Einstein não saiu da universidade, mas foi feita pelo próprio rabino em nome de Paulo de Frontin, na época diretor da Escola Politécnica, e do diretor da Faculdade de Medicina, Aloysio de Castro”, contou Tolmasquim. O cientista alemão também aceitou vir ao Brasil e Uruguai.

Estado de espírito
Einstein desembarcou no Rio no dia 21 de março, ficou apenas um dia e embarcou para Buenos Aires, onde chegou dia 24. Um mês depois foi para Montevidéu, ficou uma semana e, em seguida, voltou ao Rio para ficar mais uma semana. “Ele escreveu suas impressões em um diário de viagem que indica como seu estado de espírito foi se alterando durante a estadia na América do Sul”, disse o pesquisador. “No primeiro dia achou tudo maravilhoso, mas na volta para a Alemanha, quase dois meses depois, não suportava mais o calor, a comida e as homenagens.” Uma das primeiras anotações quando ele chega ao Rio, antes de ir para a Argentina, é: “O Jardim Botânico, bem como a flora de modo geral, supera o sonho das mil e uma noites. Tudo vive e cresce a olhos vistos por assim dizer. Deliciosa mistura étnica nas ruas: português, índio, negro, com todos os cruzamentos. Espontâneas como plantas, subjugados pelo calor. Experiência fantástica! Indescritível abundância de impressões em poucas horas”.

Semanas depois, sozinho, sem muitos interlocutores científicos, assediado pela imprensa, participando de inúmeros eventos, solenidades e discursos, o humor dele foi mudando sensivelmente. “A palestra que deu no Clube de Engenharia do Rio, por exemplo, foi uma catástrofe.” O público era composto de militares e diplomatas com as esposas e filhos. O calor era grande, a sala estava superlotada e a janela teve de ser aberta. Piorou, porque havia o barulho da rua. Einstein deu a palestra em francês e desenhou uma série de fórmulas no quadro. Depois escreveu no diário: “Compreensão impossível a começar pela acústica. Pouco sentido científico. Eu sou um tipo de elefante branco para os outros, eles para mim uns tolos”. Na segunda palestra na Escola Politécnica, apesar do grande número de pessoas, restringiram a entrada e o evento foi mais agradável.

Na terceira e última palestra dada no Rio de Janeiro, na Academia Brasileira de Ciências (ABC), houve algo diferente: um artigo específico escrito por ele especialmente para a ocasião. Naquele momento, no Brasil, a teoria da relatividade ainda provocava muita curiosidade entre os poucos cientistas e intelectuais. Mas, para Einstein, em 1925, sua teoria já estava estabelecida e o que o interessava eram as questões relacionadas à constituição da luz, sobre a qual ainda havia debates no meio cientifico europeu. Ele escreveu o artigo “Observações sobre a situação atual da teoria da luz” em alemão, em papel timbrado do Hotel Glória, onde ele se hospedou, com a data de 7 de maio de 1925, e posteriormente publicado no primeiro número da revista da Academia Brasileira de Ciências, em abril de 1926. O texto original, deixado no Brasil para ser traduzido, foi achado por Tolmasquim, que tratou de divulgá-lo em congressos de história da ciência nos anos 1990.

Um cientista nos trópicos: a viagem de Einstein à América do Sul
Alfredo Tiomno Tolmasquim
, graduado em engenharia química, diretor e pesquisador titular do Museu de Astronomia e Ciências Afins (Mast) do Rio de Janeiro, autor de Einstein: o viajante da relatividade na América do Sul (Vieira e Lent)

Revista FAPESP

José Luiz Goldfarb - A trajetória do físico brasileiro Mário Schenberg

Historiador conta a trajetória do físico brasileiro Mário Schenberg, admirado pelo cientista alemão
Marcos de Oliveira - Janeiro 2009
Edição Impressa - Especial

Pesquisa FAPESP - © Folha Imagem

Schenberg: físico, político e crítico de arte

Entre as pessoas mais admiradas por Albert Einstein estava o físico brasileiro Mário Schenberg. Segundo uma possível lista elaborada pelo famoso pai da teoria da relatividade, ele foi considerado um dos dez cientistas mais representativos na ciência do século XX. “Nós não temos comprovação dessa lista, não há documentos, o que sabemos é que Schenberg não trabalhou com Einstein, eles se conheceram na Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, durante um período de estudos do brasileiro em que Einstein teria ficado muito impressionado com Schenberg”, disse o professor José Luiz Goldfarb, da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo, no dia 29 de novembro, na palestra “Albert Einstein e Mário Schenberg nas fronteiras da ciên­cia no século XX”. “Em determinado momento após essa visita, não sabemos exatamente quando, alguém pediu para Einstein fazer uma lista de dez pessoas, dez inteligências, e Schenberg estaria nessa lista. A partir daí surgiu essa história, essa lenda”, diz Goldfarb. “As salas de Einstein e de Schenberg eram pró­ximas e às vezes eles se encontravam por ali”, lembrou Goldfarb, um estudioso da vida e obra do físico brasileiro, sobre quem publicou o livro Voar também é com os homens – O pensamento de Mário Schenberg” (Edusp, 1993).

Na sua trajetória científica, Schenberg interagiu com muitos pesquisadores que deram contribuições importantes para a física. Trabalhou, por exemplo, em Roma, na Itália, com Enrico Fermi, ganhador do Prêmio Nobel de Física de 1938, e com George Gamow, um russo naturalizado norte-americano, na Universidade de Washington, nos Estados Unidos, responsável pelos estudos que resultaram na teoria sobre a grande explosão da criação do Universo, o Big Bang. Atingir esse patamar representou um grande salto para esse pernambucano nascido no Recife, em 1914, que queria estudar na Europa, mas não conseguiu logo de início porque a situação financeira de seu pai não permitia. Ele foi para o Rio de Janeiro, mas em 1930 voltou para o Recife e entrou na Escola de Engenharia, devido à crise de 1929. Em 1934, ano da fundação da Universidade de São Paulo (USP), se transferiu para a Escola Politécnica da universidade paulista, onde se formou em 1935. Licenciou-se em ciências matemáticas no ano seguinte e logo foi trabalhar na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, no Departamento de Física. Saiu do Brasil em 1938 para a Europa em uma viagem de estudos financiada pelo governo paulista que durou nove meses.

Nos estudos com Fermi, em Roma, ele menciona a possível existência do neutrino, uma partícula subatômica. “O neutrino era absolutamente uma hipótese, uma partícula que apenas nos anos 1960 é que vai ser observada, mas ela fazia parte do contexto teórico pincelado por Schenberg na Europa”, diz Goldfarb. Naquele mesmo ano, muito intuitivo, ele volta rápido ao Brasil, por ser judeu, antes do início da Segunda Guerra Mundial que estava por começar. Aqui ele concorre e consegue uma bolsa da Fundação Guggenheim dos Estados Unidos para trabalhar na Universidade de Washington para onde se transfere em 1939. Lá trabalha na equipe de Gamow, que havia conhecido em São Paulo. Schenberg começou então seus estudos sobre astrofísica, área em que acontece sua maior contribuição à ciência. É o efeito Urca, chamado erroneamente de Ultra Rapid Catastrophe em sites e enciclopédias. “Eles tinham dados empíricos sobre supernovas que eram observadas e que não batiam com a teoria existente sobre a constituição de estrelas. Schenberg, numa conversa com Gamow, disse que não se estava levando em conta a emissão de neutrinos. Gamow põe a mão na cabeça – essa é a descrição literal de Schenberg – e diz: ‘Essa é a solução’”, lembrou Goldfarb. A emissão de neutrinos esfria o centro da estrela e produz um colapso e uma expansão na parte mais externa do astro. “Eles elaboraram e recalcularam a teoria e esse efeito passou a fazer parte do estudo das estrelas até hoje.”


© Pedro Palhares Fernandes

Goldfarb: estudioso da vida e da obra de Schenberg

Gamow chama o efeito de Urca porque ele e sua esposa encontraram Schenberg no Rio de Janeiro e depois seguiram para o então cassino da Urca. “Lá a esposa de Gamow só perdeu dinheiro e então ele brincou: ‘A energia some no interior da estrela por causa da emissão dos neutrinos igual ao dinheiro da minha mulher que sumia naquela roleta no cassino da Urca’. Daí o nome”, disse Gold­farb. No Brasil, entre o final dos anos de 1950 e começo da década de 1960, o brasileiro foi fundador e chefe do Departamento de Materiais e Mecânica do Instituto de Física da USP e teve um papel de incentivador da física do estado sólido, embora não fosse sua área. “Schenberg falava que a nova revolução viria da física dos materiais com silício, cristais, que posteriormente resultou nessa sociedade da informação, e não na física nuclear como muitos acreditavam”, disse Goldfarb.

Schenberg participa de muitas contribuições à física do século XX. “Ele acha ou às vezes indica soluções. O poeta Haroldo de Campos o chamava ‘Leonardesco’, em referência a Leonardo da Vinci, porque ele tinha uma característica semelhante à do artista italiano. Às vezes, achava que já resolvera o problema e passava a trabalhar em outra questão como Da Vinci fazia com pinturas que não terminara.” O aspecto multifacetado presente no italiano também foi marca registrada de Schenberg. Além da física, o pernambucano trilhou outros caminhos, como crítico de arte, área em que cultivou muitas amizades. “Ele dizia que não era crítico, mas acabou se tornando um estudioso e, nos estudos que fiz, acabei encontrando resenhas ao longo de 40 anos, de 1944 a 1984”, lembra Goldfarb.

Aliado à física e às artes, Schenberg também tinha um profundo interesse por política e filosofia. Ele era filiado ao Partido Comunista Brasileiro – caminho de grande parte da intelectualidade das décadas de 1930 e 1940 que se engajavam no movimento social – e foi eleito duas vezes deputado estadual em São Paulo. “Política para ele era a possibilidade de as pessoas se organizarem e terem uma direção, uma bandeira, para poderem realizar o que querem, desenvolvendo suas possibilidades. Com o golpe militar de 1964, ele foi cassado, preso e aposentado da USP pelo Ato Institucional nº 5, uma situação revertida em 1979, com a anistia. Segundo Goldfarb, ele era um comunista peculiar porque teve grandes desentendimentos com o líder do partido, Luís Carlos Prestes, além de, na arte, apoiar tendências completamente diferentes do realismo socialista da ex-União Soviética. Schenberg também era muito interessado por religião. “Ele dizia que a religião tem um fundo de coisas que não entendemos mas que ainda vamos entender”, lembra Goldfarb. “Ele ia à umbanda, à sinagoga, à igreja.” No final da vida aproximou-se do budismo. Schenberg morreu em São Paulo, em novembro de 1990, aos 76 anos de idade.

Albert Einstein e Mario Schenberg nas fronteiras da ciência no século XX
José Luiz Goldfarb
, físico, historiador da ciência e professor da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo, autor de Voar também é com os homens – O pensamento de Mário Schenberg (Edusp)

Revista FAPESP