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segunda-feira, 18 de março de 2013

Hieróglifos bagunçam história da escrita na América

Encontradas inscrições com 2250 anos de idade em templo maia na Guatemala

Júlio Molica


O desenho reproduz os dez símbolos presentes no hieróglifo achado na Guatemala (arte: D.Stuart / Science ).
Em uma sala subterrânea de um templo maia na América Central, pesquisadores coordenados pelo antropólogo Willian Saturno, da Universidade de New Hampshire (EUA), acharam dez dos mais antigos hieróglifos da América, datados de 250 a.C. Os símbolos descobertos sugerem que a escrita pode ter surgido simultaneamente em dois locais no continente, ao contrário do que se pensava anteriormente.

Até então, a região de Oaxaca, no México, era considerada o berço da escrita na América. Nessa localidade, que foi habitada por povos da cultura olmeca, foram encontradas evidências de formas primitivas de escrita datadas de 300 a.C., mas há vestígios que sugerem uma origem até três séculos antes.


Bloco em que foram encontrados os hieróglifos em templo maia na Guatemala – clique na foto para ampliá-la 
(foto: B. Beltrán / Science )

Os hieróglifos encontrados na cidade de San Bartolo, na Guatemala, foram gravados em uma pedra com tinta preta aplicada sobre uma base branca. A rocha estava em uma sala nas profundezas do templo, construído entre 300 e 200 a.C. Os dez símbolos foram desenhados em forma de coluna e, segundo os pesquisadores, a seqüência parece ser o final de uma série de símbolos.

“O primeiro hieróglifo está incompleto, ao menos sua outra metade está faltando, mas é possível que um número considerável de símbolos tenha precedido o fragmento de texto que temos”, disse Saturno, em entrevista à CH On-line .

Em estudo publicado na revista Science de 6 de janeiro, os cientistas traduziram completamente um dos hieróglifos – o sétimo da seqüência reproduzida no desenho acima . Trata-se de uma versão primitiva de um símbolo maia que significa ‘Deus nobre’ ou ‘soberano’. Os pesquisadores destacam também as características pictóricas de alguns símbolos, tais como o segundo da série, que se assemelha a uma mão segurando um pincel.

Os hieróglifos são talvez o tipo organizado de escrita mais antigo do mundo. As primeiras inscrições encontradas são de 3000 a.C. e foram descobertas na ilha de Philae, no Egito. O termo, de origem grega, significa escrita ( glyphós ) sagrada( hierós ). Apenas os egípcios criaram cerca de 6900 diferentes símbolos, um dos fatores que tornou impraticável o uso dos hieróglifos.
De acordo com Saturno, a descoberta pode ajudar nos estudos sobre a evolução da escrita nas Américas. “O achado tem uma enorme importância, pois restringe a época histórica na qual a escrita se originou no território maia, o que permite direcionar os estudos”, explica o coordenador da pesquisa que, no mês passado, descobriu no mesmo templo maia diversas pinturas sobre as paredes. Os murais contavam a história da criação e continham explicações sobre os motivos do poder e do direito de um rei.

Júlio Molica 
Revista Ciência Hoje

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Saiba como surgiu a profecia do fim do mundo

Segundo interpretações de símbolos em monumentos maias, o mundo acabaria na próxima sexta-feira, dia 21 de dezembro. Entenda por quê



Segundo interpretações da "profecia maia", o fim do mundo está previsto para a próxima sexta-feira, dia 21 de dezembro. A ideia de que uma hecatombe mundial de grandes proporções se abateria sobre a raça humana na entrada do equinócio de inverno, que ocorre na mesma data, vem sendo alimentada pelo menos há quatro décadas.

Mas foi nos últimos três anos que a previsão ganhou força, polarizando aqueles que acreditam piamente no fim dos tempos e os mais céticos. A BBC Mundo, o serviço em espanhol da BBC, decidiu investigar a polêmica. Confira.

De onde vem as profecias? 

As interpretações de que o fim do mundo ocorreria no dia 21 de dezembro de 2012 partiram de dois monumentos maias: a Estela 6 (uma espécie de totem), do antigo assentamento de Tortuguero (no Estado de Tabasco, no sul do México) e a Estela 1 de Cobá, em Quintana Roo.

Além disso, a próxima sexta-feira é o último dia do calendário criado pelos maias. Ou seja, não há registro do que viria depois disso.

Na antiga civilização maia, as chamadas 'Estelas' são colunas nas quais se marcavam as datas de eventos importantes.

Os monumentos também serviam como método de propaganda da elite política e religiosa.

No caso da Estela 6 e da Estela 1, o objetivo era associar datas "míticas" aos sucessos e governos da época para criar coesão e controle social.

Monumento 6 de Tortuguero 

O monumento Estela 6 foi descoberto em 1957-58. Também é conhecido popularmente como "a Estela do fim de uma era", e registra o nascimento e entronização de Apho Bahlam, governador da cidade maia no século VII.

Há também referência à data "baktún 13 4 Ahau 3 Kankin" que, traduzida para o calendário gregoriano, seria equivalente ao dia 21 de Dezembro de 2012 e corresponde ao fim de um ciclo de 5.126 anos registrados na "longa contagem" do calendário maia.

"Isso não significa que o mundo vai acabar nesta data, a única coisa é que esta data vai significar o fim do ciclo baktún 13 do calendário maia", disse à BBC Mundo o arqueólogo Daniel Juárez Cossío, responsável pela ala dedicada à civilização maia no Museu Nacional de Antropologia do México.

"Ou seja, simplesmente, estamos falando do final do baktún 13 para que se comece uma nova etapa. Trata-se, no fim das contas, de um caminho novo".

O sítio arqueológico de Tortuguero foi roubado ao longo do tempo, o que dificultou seu estudo e a interpretação completa e contextualizada da Estela 6.

O Calendário Maia 

Trata-se de uma combinação de datas e fatos de batalhas míticas e desastres naturais que marcaram o desenvolvimento da cultura, com base em ciclos agrícolas e movimentos de estrelas como o Sol e Vênus.

O calendário não determina apenas a ordem dos dias. Em torno dele foram organizados feriados religiosos, períodos de cultivo e colheita, a escolha de nomes para recém-nascidos, sacrifícios humanos e outros aspectos importantes da cultura maia.

Cossío diz que o fim da "contagem de tempo" é simplesmente "o fim de um ciclo de pouco mais de 5 mil anos".

"Mas os maias não têm uma visão linear da história, onde há um fim irrefutável. Sua visão é cíclica, ou seja, algo termina para o início de outra coisa."

Estela 1 Cobá 

Estela 1 é localizada em Cobá, uma cidade no norte de Quintana Roo, no México, que já foi uma próspera cidade maia. Este monumento, com inscrições em todos os quatro cantos, conta a história de seus governantes.

Nesta pedra, há quatro referências ao Calendário de Contagem. Uma delas é uma inscrição mencionando o dia de 21 de dezembro de 2012. No entanto, o monumento está bastante danificado, o que impede a observação de quaisquer fatos que teriam ocorrido depois dessa data.

Quando começou a profecia?

Interpretações das "profecias maias" começaram a se tornar populares nos anos 70 entre pequenos grupos europeus e americanos, que, no calor do movimento nascente da Nova Era, se aproveitaram das recentes descobertas na zona maia da península de Yucatán para criar uma filosofia de vida e, em muitos casos, um negócio lucrativo.

De um lado da moeda, vários grupos dizem que o dia 21 de dezembro vai registrar um movimento especial de planetas, mudanças na forma em que o homem se relaciona com o seu ambiente e uma transformação mental e espiritual da raça humana, que vai alcançar seu auge nesse dia.

No outro extremo, estão aqueles que dizem que, na data, desastres naturais, crises políticas e econômicas e as guerras travadas ao redor do globo causarão a derrocada da civilização moderna. Para eles, os maias teriam deixado suas marcas para nos alertar sobre tais eventos.

Grupos como o Ascensión Nueva Terra e Cambio Nueva Consciencia asseguraram que os maias previram que um raio de luz do centro da galáxia irá impactar o sol no dia 20 de dezembro de 2012, mudando sua polaridade, o que terá efeitos devastadores sobre a Terra.

Os entusiastas do fim do mundo sugerem, ainda, uma série de medidas para se preparar para "enfrentar o caminho final para a nova luz".

Essa série de previsões levou muitas pessoas ao redor do mundo a estocar alimentos, construir refúgios e dirigir-se a terras que pertenceram à civilização mesoamericana.

O que dizem os especialistas? 

Segundo arqueólogos e cientistas que trabalham no estudo de civilizações antigas, os maias não faziam profecias e muito menos queriam deixar previsões para gerações futuras.

Os maias apenas determinavam o destino de uma pessoa ou de uma cidade com base no seu calendário e em suas crenças religiosas.

Nesse sentido, Cossío acredita que o dia 21 de dezembro de 2012 "não é uma profecia". "É completamente e totalmente falsa essa tese de que o mundo vai acabar com base em algo que estaria disponível. Não há nenhuma base científica e epigráfica que diz que o mundo vai acabar nesta data."

O que aconteceu com os maias? 

Outra parte importante desta lenda é que, quando os exploradores europeus e conquistadores chegaram ao território dos maias, encontraram muitos assentamentos e cidades antigas abandonados.

Isso criou uma falsa visão de que o povo maia desapareceu sem deixar vestígio, aumentando o mistério e especulação sobre essa civilização.

A verdade é que os herdeiros diretos da cultura maia ainda existem, vivendo na mesma terra que os seus antepassados.

Muitas vezes, vivem em condições de marginalização e pobreza no sul do México, Guatemala, Honduras e Belize.
Jornal O Estadão

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Basquete Maia


Disputado durante três milênios pelas civilizações mesoamericanas, o juego de pelota é um dos esportes mais antigos e radicais do mundo. Perder significava ser sacrificado num ritual em que a morte perpetuava a vida.


Por Fabíola Musarra
O México que acabou de sediar os Jogos Pan-Americanos, em Guadalajara, é o berço de uma das mais antigas competições do mundo: o jogo da pelota, uma intrigante disputa na qual o vencido era sacrificado. Sua origem remonta a 1.400 a.C. Vestimentas, pinturas, bolas de látex e canchas descobertas por arqueólogos revelam que o jogo era disputado pelos olmecas, zapotecas, maias, astecas, toltecas e outras civilizações que habitaram a Mesoamérica pré-colombiana, do México até a Costa Rica.

Ao longo de três mil anos, o juego de pelota manteve conotações religiosas e rituais. “As evidências indicam que, ao término da partida, o capitão da equipe perdedora era ritualmente sacrificado”, diz Michael Coe, professor de antropologia da Universidade de Yale (EUA) e autor do best-seller The Maya. Coe baseia-se nas pinturas e esculturas de ruínas mexicanas como Yaxchilan, El Tajín e Chichén Itzá que retratam os sacrifícios. “Talvez o governante de uma cidade, ao ser capturado, fosse obrigado a disputar o jogo, no qual sua vida só seria poupada se vencesse o time adversário.”

O anel de pedra no alto da cancha de Chichén Itzá era a “cesta” do jogo.
As regras variavam de acordo com o período histórico, o lugar e a civilização. Em linhas gerais, a competição era disputada entre duas equipes, de um a sete jogadores. Os times se enfrentavam em um campo em forma de I ou T, medindo aproximadamente 37 m por 9 m, com paredes laterais inclinadas. No centro havia dois anéis redondos (ou armações quadradas), um em frente ao outro, com um buraco de 20 cm de diâmetro, por onde os jogadores tentavam passar uma bola de látex maciça de 10 cm de diâmetro. “Entre os maias parecia uma forma de basquete”, diz Coe. Nas extremidades das canchas havia “arquibancadas” onde o público assistia ao jogo.
O detalhe é que, diferentemente do basquete, o uso das mãos era proibido. Para manter a bola em movimento e quicando, e arremessá-la para a “cesta”, os jogadores empregavam as costas, as nádegas, os antebraços e os ombros. Como a pelota era pesada e veloz, usavam proteções na cintura e nos joelhos (“joelheiras”). Muitas cestas eram feitas por “bundadas” certeiras.



Pintura em vaso maia do ano 650 mostra o jogo em andamento. O jogador à esquerda ajoelhou-se para golpear a bola (em preto) com as cadeiras. Todos usavam cangas e joelheiras protetoras.

Quanto aos critérios da vitória, ainda hoje são desconhecidos, pois os marcadores de pedra nas laterais só apareceram, arqueologicamente, depois de 800 d.C. Um dos raros relatos sobre o placar é a descrição de um jogo maia em Chichén Itzá pelo bispo espanhol de Iucatã, Diego de Landa Calderón (1524- 1579), autor de Relación de las Cosas de Yucatán. Segundo a narrativa, quando uma equipe acertou a bola através do círculo, a partida acabou. Uma versão light do jogo, chamadaulama, ainda é jogada – sem sacrifícios humanos – no Estado de Sinaloa, no noroeste do país.

A cancha de Monte Albán foi feita pelos zapotecas. No detalhe, o disco de Chinkultik, do ano 591, mostra um jogador, com penas na cabeça, golpeando a bola com as cadeiras.
Honra e sacrifício
“O jogo da pelota era o ritual religioso mais importante dos astecas e maias”, afirma a antropóloga Maria Ângela Barbato Carneiro, da PUC-SP. De acordo com Maria Ângela, os marcadores ficavam presos ao lado da figura de um ídolo. O campo era, portanto, um local de sacrifício e de ressurreição. O jogador que “encestasse” a bola no marcador era premiado com um convite para frequentar a casa dos dirigentes, conquistando riqueza e prestígio. A equipe vencedora ganhava o direito de se apossar de todos os objetos que conseguisse da plateia. Quanto ao capitão do time derrotado, era honrado com a morte.

É difícil compreender todo o significado do jogo. Para que disputar uma partida para ser sacrificado? A sociedade contemporânea considera essa lógica inaceitável. Para a civilização pré-hispânica, porém, a morte por sacrifício perpetuava a vida. O arqueólogo francês Michel Graulich, diretor de estudos religiosos na Escola de Altos Estudos de Paris, explica que na concepção de vida e morte maia todos deviam e pagavam aos deuses com autossacrifício ou com sangue.
“O sacrifício era praticado como oferenda aos deuses, na tentativa de amenizar a fúria de fenômenos cósmicos, como secas e inundações. Seu propósito era manter o equilíbrio do universo”, diz Graulich. O México abriga mais de 1,5 mil campos do jogo da pelota. Eles são testemunhas da complexidade das civilizações précolombianas da América Central.
Revista Planeta

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Notícias História Viva


Arqueólogos encontram barragem maia de 80 metros

Represa feita de pedras, cascalhos e areia podia abastecer uma população de quase 100 000 pessoas da antiga cidade de Tikal, na atual Guatemala

Imagem mostra camadas de pedras da barragem feita pelos antigos maias em Tikal, atual Guatemala, detalhe em vermelho mostra o que um dia foi uma eclusa e, agora, está coberto por detritos
Imagem mostra camadas de pedras da barragem feita pelos antigos maias em Tikal, atual Guatemala. Detalhe em vermelho mostra o que um dia foi uma eclusa (University of Cincinnati)
Pesquisadores encontraram na antiga cidade de Tikal, na atual Guatemala, uma barragem feita pelos maias de quase 80 metros de comprimento e 10 metros de altura, com capacidade de armazenar 75,7 milhões de litros de água, ou 30 piscinas olímpicas. É a maior represa maia já descoberta. Sua descrição será publicada nessa semana no periódico PNAS (da sigla em inglês para Anais da Academia Nacional de Ciências).
A represa foi construída entre os anos de 250 e 800 para abastecer uma população de quase 100.000 pessoas, número muito maior do que o ambiente poderia suportar se não fosse a intervenção do homem.
Os maias ergueram a barragem usando pedras, cascalhos e areia e a dotaram até de um sistema de purificação da água, feito de caixas de areia de quartzo. Esse minério não é abundante na região e o uso dele mostra o grande esforço na construção e a importância que os maias davam ao armazenamento da água.

Liwy Grazioso, pesquisadora que particpou do estudo, em barragem construída pelos maias sob estrada
As pesquisas em Tikal foram feitas por várias universidades, lideradas pela de Cincinnati, de Ohio, Estados Unidos. Vernon Scarborough, autor do artigo da PNAS, disse que o objetivo geral das escavações era descobrir como os maias conseguiram manter em Tikal, onde há secas periódicas, uma população de 60.000 a 80.000 pessoas.
“Era um número muito maior do que o ambiente poderia suportar”, disse Scarborough . “Mas eles conseguiram manter uma complexa sociedade por mais de 1.500 anos. Os recursos eram abundantes, mas as ferramentas eram rudimentares”, falou.
Os maias criaram um complexo sistema de coleta e armazenamento de água para manter a população na época de seca. As construções – grandes praças, estradas, prédios e canais – eram construídas de modo inclinado. Assim, toda a água escoava para o sistema de armazenamento de água – como a barragem.
Dupla função - A barragem foi encontrada sob uma estrada comumente usada por turistas que visitam a região. Por um longo período essa construção foi considerada apenas uma estrada. Mas as pesquisas mostraram que ela tinha uma dupla função. Tikal foi um dos maiores centros populacionais da civilização maia e é hoje considerada patrimônio mundial da Unesco.

Notícias História Viva


Arqueólogos encontram barragem maia de 80 metros

Represa feita de pedras, cascalhos e areia podia abastecer uma população de quase 100 000 pessoas da antiga cidade de Tikal, na atual Guatemala

Imagem mostra camadas de pedras da barragem feita pelos antigos maias em Tikal, atual Guatemala, detalhe em vermelho mostra o que um dia foi uma eclusa e, agora, está coberto por detritos
Imagem mostra camadas de pedras da barragem feita pelos antigos maias em Tikal, atual Guatemala. Detalhe em vermelho mostra o que um dia foi uma eclusa (University of Cincinnati)
Pesquisadores encontraram na antiga cidade de Tikal, na atual Guatemala, uma barragem feita pelos maias de quase 80 metros de comprimento e 10 metros de altura, com capacidade de armazenar 75,7 milhões de litros de água, ou 30 piscinas olímpicas. É a maior represa maia já descoberta. Sua descrição será publicada nessa semana no periódico PNAS (da sigla em inglês para Anais da Academia Nacional de Ciências).
A represa foi construída entre os anos de 250 e 800 para abastecer uma população de quase 100.000 pessoas, número muito maior do que o ambiente poderia suportar se não fosse a intervenção do homem.
Os maias ergueram a barragem usando pedras, cascalhos e areia e a dotaram até de um sistema de purificação da água, feito de caixas de areia de quartzo. Esse minério não é abundante na região e o uso dele mostra o grande esforço na construção e a importância que os maias davam ao armazenamento da água.

Liwy Grazioso, pesquisadora que particpou do estudo, em barragem construída pelos maias sob estrada
As pesquisas em Tikal foram feitas por várias universidades, lideradas pela de Cincinnati, de Ohio, Estados Unidos. Vernon Scarborough, autor do artigo da PNAS, disse que o objetivo geral das escavações era descobrir como os maias conseguiram manter em Tikal, onde há secas periódicas, uma população de 60.000 a 80.000 pessoas.
“Era um número muito maior do que o ambiente poderia suportar”, disse Scarborough . “Mas eles conseguiram manter uma complexa sociedade por mais de 1.500 anos. Os recursos eram abundantes, mas as ferramentas eram rudimentares”, falou.
Os maias criaram um complexo sistema de coleta e armazenamento de água para manter a população na época de seca. As construções – grandes praças, estradas, prédios e canais – eram construídas de modo inclinado. Assim, toda a água escoava para o sistema de armazenamento de água – como a barragem.
Dupla função - A barragem foi encontrada sob uma estrada comumente usada por turistas que visitam a região. Por um longo período essa construção foi considerada apenas uma estrada. Mas as pesquisas mostraram que ela tinha uma dupla função. Tikal foi um dos maiores centros populacionais da civilização maia e é hoje considerada patrimônio mundial da Unesco.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

O Caracol dos Maias

O Caracol dos Maias
Construído em 850, ajudava a determinar o início das estações do ano.
Ronaldo Rogério de Freitas Mourão


A Astronomia desenvolveu-se desenvolveu-se entre os maias por ser um dos elemen¬tos fundamentais na prática dos rituais religiosos que, na maioria das vezes, se realizavam à noite. Uma prova disso está numa das gravuras que aparecem em seus manuscritos (chamados Código de Mendoza), na qual um sacerdote toca um instrumento enquanto outro observa as estrelas para determinar a hora do início das cerimônias. Os elevados monumentos piramidais maias eram, na verdade, observatórios ideais para a pesquisa noturna e diurna do céu. As construçôes orientavam-se nesse sentido e delas podiam ser estimadas com precisão a passagem do Sol pelo zênite - o ponto do céu que está diretamente acima da cabeça do observador - e as épocas em que se iniciavam as estações do ano.
Em suas observações, os maias usavam alguns instrumentos primitivos semelhantes às balestilhas - duas hastes cruzadas -, com as quais os astrônomos-navegantes do século XVI observavam a altura dos astros. Um exemplo típico de construção maia com fins de observação astronômica é o chamado Caracol de Chichén-Itzá, cidade situada nas planícies do Yucatán. próximo à Mérida. no México.
Essa edificação está intimamente ligada às civilizações maia e tolteca - esta última, contemporânea da primeira. O monumento foi chamado de EI Caracol pelos espanhóis. porque sua escada interior, em espiral. lembra a concha de um caramujo. Nesse edifício circular encontram-se aberturas orientadas de modo a permitir a determinação dos solstícios de inverno e verão (dias que marcam o início dessas estações) e da mesmo forma dos equinócios de primavera e outono.

O Caracol, cujo início da construção data de 850, tem uma torre de 12 metros de altura, erguida sobre uma dupla plataforma retangular de 9 metros. A plataforma inferior parece ter sido situada e orientada astronomicamente: sua parte anterior era dirigida para Vênus. que alcança seus maiores afastamentos norte e sul no horizonte em intervalos regulares. ao longo do calendário maia. Na plataforma superior, a parede frontal tem como perpendicular a direção que corresponde àquela do nascer do Sol no dia de sua passagem zenital em Chichén-Itzá no ano 1000.
Construída pelos toltecas, a torre tem dois andares. Com 11 metros de diâmetro e paredes muito grossas, dispõe de quatro portas muito, estreitas. No centro. uma grossa coluna sustenta a rampa - a célebre escada em caracol - por meio da qual se chega à câmara retangular do andar superior. Trata-se de uma tarefa difícil. já que a escada não começa no nível do solo e sitl) no princípio da abóbada. A câmara é pequena e grande parte de seu piso está destruído. Mas do que restou é possível deduzir que ela também tinha paredes espessas, uma porta e sete aberturas retangulares muito estreitas que serviram - pelo que se conclui de sua orientação - para determinar os solstícios e equinócios.

Para isso, os maias deviam observar o horizonte por uma linha de visada tangente - que sai do olho e tangencia o lado interior direito e exterior esquerdo de cada uma das aberturas. Desse modo conheciam a direção do pôr-do-sol no solstício de verão (o dia mais longo do ano) e a dos equinócios da primavera e do outono (quando dia e noite têm a mesma duração). Algumas dessas aberturas davam as direções do ocaso de Vê nus em suas máximas declinações norte e sul. Da mesma forma que os astecas, os maias também tinham sua atenção voltada para as estrelas e costumavam levantar-se durante a noite para observer o céu. Eles acreditavam que o firmamento noturno reunia dois dos seus grandes deuses: Tezcatlipoca, que simbolizava o céu. à noite, e a serpente Quetzalcóatl, que representava o zodíaco, o criador do calendário. Além da cobra zodiacal da noite, criou-se mais tarde a figura de Xiucoatl, a cobra azul— zodíaco imaginário do dia e que se encontra lindamente esculpido no calendário asteca.
Revista Superinteressante

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Notícias História Viva




Cientistas desvendam profecia maia do 'fim do mundo em 2012'
Especialistas se reúnem no México para discutir teorias apocalípticas geradas a partir da filosofia do tempo de antiga civilização.

Arqueólogos de diversos países se reuniram no Estado de Chiapas, uma área repleta de ruínas maias no sul do México, para discutir a teoria apocalíptica de que essa antiga civilização previra o fim do mundo em 2012.

A teoria, amplamente conhecida no país e contada aos visitantes tanto no México como na Guatemala, Belize e outras áreas onde os maias também se estabeleceram, teve sua origem no monumento nº 6 do sítio arqueológico de Tortuguero e em um ladrilho com hieróglifos localizado em Comalcalco, ambos centros cerimoniais em Tabasco, no sudeste do país.

O primeiro faz alusão a um evento místico que ocorreria no dia 21 de dezembro de 2012, durante o solstício do inverno, quando Bahlam Ajaw, um antigo governante do lugar, se encontra com Bolon Yokte', um dos deuses que, na mitologia maia, participaram do início da era atual.

Até então, as mensagens gravadas em "estelas" - monumentos líticos, feitos em um único bloco de pedra, contendo inscrições sobre a história e a mitologia maias - eram interpretadas como uma profecia maia sobre o fim do mundo.

Entretanto, segundo o Instituto Nacional de Antropologia e História (Inah), uma revisão das estelas pré-hispânicas indica que, na verdade, nessa data de dezembro do ano que vem os maias esperavam simplesmente o regresso de Bolon Yokte'.

"(Os maias) nunca disseram que haveria uma grande tragédia ou o fim do mundo em 2012", disse à BBC o pesquisador Rodrigo Liendo, do Instituto de Pesquisas Antropológicas da Universidade Autônoma do México (Unam).

"Essa visão apocalíptica é algo que nos caracteriza, ocidentais. Não é uma filosofia dos maias."

Novas interpretações

Durante o encontro realizado em Palenque, que abriga uma das mais impressionantes ruínas maias de toda a região, o pesquisador Sven Gronemeyer, da Universidade australiana de Trobe, e sua colega Bárbara Macleod fizeram uma nova interpretação do 6º monumento de Tortuguero.

Para eles, os hieróglifos inscritos na estela se referem à culminação dos 13 baktunes, os ciclos com que os maias mediam o tempo. Cada um deles era composto por 400 anos.

"A medição do tempo dos maias era muito completa", explica Gronemeyer. "Eles faziam referência a eventos no futuro e no passado, e há datas que são projetadas para centenas, milhares de anos no futuro", afirma.

Para a jornalista Laura Castellanos, autora do livro "2012, Las Profecias del Fin del Mundo", o sucesso da teoria apocalíptica junto à cultura ocidental se deve a uma "onda milenarista" que, segundo ela, "antecipa catástrofes ou outros acontecimentos cada vez que se completam dez séculos".

Para Castellanos, esse tipo de efeméride é reforçada por uma "crise ideológica, religiosa e social".

Ela observa que as profecias sobre 2012 não têm somente uma "vertente catastrófica", mas também uma linha que "prognostica o despertar da consciência e o renascimento de uma nova humanidade, mais equitativa".

Crença no final

A asséptica explicação científica e histórica vai de encontro à crença popular no México, um país onde há quem procure adquirir os conhecimentos necessários para sobreviver com seu próprio cultivo de alimentos em caso de uma catástrofe mundial.

Muitos dos que vivem fora procuram regressar ao país porque sentem que precisam estar em casa em 2012, e há empresas que oferecem espaço em bunkeres subterrâneos, com todas as comodidades.

Afinal, o possível fim do mundo também é negócio. O próprio governo mexicano lançou uma campanha para promover o turismo no sudeste do país, onde estão localizados os sítios arqueológicos maias.

Muitos governos dos Estados onde existem ruínas da antiga civilização maia já estão registrando aumento na chegada de turistas. BBC Brasil

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Os astrônomos maias


Os astrônomos maias
Eles conheciam tudo sobre o movimento dos astros. Mas, pelo que se sabe, nunca viram uma luneta. Como seria possível?
por Thiago Lotufo
Os maias sabiam tudo
de astronomia. Sabiam mais do que os chineses no mesmo período (300 d.C. a 900 d.C.) e com uma exatidão que os europeus só foram alcançar no século 18 com o uso de telescópios. Exemplo disso foram os cálculos feitos por eles que estabeleceram o ciclo solar em 365,2420 dias e o lunar em 29,53086 dias. Para se ter uma idéia da exatidão desses números, apenas há pouco tempo cientistas constataram, com o auxílio de computadores e cálculos refinados, que o ano solar é de 365,2422 dias e o ciclo lunar de 29,54059 dias. Assombroso, não? Os maias calcularam também o ciclo de Vênus em relação à Terra e chegaram a 583,935 dias (atualmente, estima-se que ele fique entre 583,920 e 583,940). Acredita-se que Vênus, aliás, era tão ou mais importante para os maias do que o próprio sol. A Via Láctea também era bastante venerada e eles a chamavam de “Árvore do Mundo”.

Por serem um povo essencialmente agrícola, além de observar os corpos celestes que afetavam o plantio, os maias tinham também uma enorme preocupação em medir o tempo. Criaram diversos sistemas de calendários que de alguma maneira se mostravam interligados. Os mais conhecidos eram: o tzolkin (calendário ritual), formado por 13 números e 20 signos criando um ciclo de 260 dias; o tun (calendário civil), dividido em 18 meses de 20 dias (360 dias); e o haab, estabelecido no formato de 365 dias que conhecemos, sendo que os cinco últimos dias eram considerados extras e um período de azar.

Todos esses conhecimentos astronômicos e matemáticos só chegaram até nós graças a um manuscrito conhecido por Código Dresden, um dos poucos documentos maias que resistiram à ocupação espanhola. Nele, no entanto, não há nenhuma indicação de como essa civilização obtinha o conhecimento. Sabe-se, por exemplo, que em cidades maias, como Chichen-Itzá, havia construções que funcionavam como observatórios astronômicos e templos que respeitavam alinhamentos com os astros. Mas que instrumentos eles usavam para observar e medir? De que eram feitos? Não se sabe. Uma hipótese é a de que esses objetos eram confeccionados em madeira e por isso não teriam sobrevivido ao tempo.

Revista Superinteressante

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

OS ÍNDIOS E OS SONHOS NO ROMANCE DE FRANCES BROOKE


Os índios conservam a maior parte de suas antigas supertições. Eu assinalaria sua fé nos sonhos, loucura da qual não podem se curar apesar das repetidas decepções... Um selvagem nos estava contando um sonho profético, que, segundo ele, anunciava a morte de um oficial inglês, e eu não pude conter um riso.
"Vocês, europeus", me disse, "são a gente menos razoável do mundo. Caçoam de nossa fé nos sonhos e, no entanto, esperam que nós acreditemos em coisas que são mil vezes mais incríveis."
Londres - 1769
Memória de Fogo - Eduardo galeano

Sacramentos


Os índios não cumprem os rituais da Pascoá se estes não coincidem com dias de chuva, de colheita ou de plantio. O arcebispo da Guatemala, Pedro Cortés Larraz, dita um novo decreto ameaçando quem se esquece, assim, da salvação da alma.
Tampouco os índios vão à missa. Não respondem ao chamado nem ao sino; é preciso ir buscá-los a cavalo por aldeias e plantações e arrastá-los à força. A falta é castigada com oito chibatadas, mas a missa ofende os deuses maias e isso pode mais que o medo de apanhar. Cinquenta vezes por ano, a missa interrompe o trabalho agrário, cotidiana cerimônia de comunhão com a terra. Acompanhar passo a passo os ciclos de morte e ressurreição do milho é, para os índios, uma forma de rezar; e a terra, templo imenso, lhes dá provas, dia a dia, do milagre da vida que renasce. Para eles, toda terra é igreja e todo bosque, santuário.

Para fugir do castigo no pelourinho da praça, alguns índios se aproximam do confessionário, onde aprendem a pescar, e se ajoelham diante do altar, onde comungam comendo o deus de milho. Mas só levam seus filhos à pia batistal depois de tê-los levado, monte adentro, para oferecê-los aos antigos deuses. Ante eles, celebram as alegrias da ressurreição. Tudo que nasce, nasce de novo.
Memórias de Fogo - Eduardo Galeano
Cidade da Guatemala - 1775

sexta-feira, 26 de junho de 2009

O destino dos maias


O destino dos maias
Nova e polêmica teoria sobre o desaparecimento dos maias reacende o mistério em torno da mais avançada civilização da América pré-colombiana
por Lia Hama
No seu auge, a civilização maia chegou a ter mais de 40 cidades espalhadas numa região que hoje inclui a península de Yucatán, um pedaço do estado de Chiapas, no México, e partes de Belize, Guatemala e Honduras. Uma área de cerca de 325 mil quilômetros quadrados, o que equivale, mais ou menos, ao tamanho do estado do Maranhão. Nesse período, entre os séculos 3 e 9, os maias dominavam a astronomia, a matemática, a escrita, norteavam-se por um preciso sistema de calendários e eram sofisticados construtores. Formavam a civilização de tecnologia mais avançada do mundo, à frente das maiores potências européias. Por volta do século 9, no entanto, os maias experimentaram um colapso súbito. Os centros urbanos densamente povoados foram abandonados e a civilização, da forma como até então era conhecida, simplesmente desapareceu. Um fim tão misterioso que até hoje provoca polêmica.

Nas últimas décadas, pesquisadores têm procurado algo grande que pudesse acabar com uma civilização que, à época do seu ocaso, já durava bem mais de 20 séculos: um cataclismo, uma prolongada seca, uma guerra sangrenta, uma catástrofe de dimensões continentais. E até agora nada. Mas é possível que aí esteja o erro. Se Clifford Brown, da Atlantic University da Flórida, e Walter Witschey, do Museu de Ciência de Virgínia, nos Estados Unidos, estiverem certos, todo mundo andou procurando no lugar errado. Segundo eles, os maias estavam fadados a desaparecer devido a características endógenas ligadas ao modo como suas cidades se desenvolveram e algo sutil, realmente muito pequeno, pode ter levado toda a civilização ao colapso. Brown e Witschey, cuja tese foi publicada em artigo da revista New Scientist em janeiro de 2004, acreditam que podem provar isso a partir das construções das antigas cidades maias. De acordo com eles, as cidades maias teriam evoluído de uma forma particular, que seguiria um padrão fractal. Fractais são aquelas figuras geométricas que repetem o mesmo desenho em escalas cada vez menores. Aplicados aos fenômenos naturais, os fractais estão na base da teoria do caos, onde uma ocorrência aparentemente insignificante, se repetida em escala cada vez maior, gera desequilíbrio. Incêndios em florestas, avalanches, terremotos e até as contrações de uma mulher que dá à luz têm dimensão fractal.

Segundo Brown e Witschey, o padrão fractal das cidades maias indicaria uma organização crítica, onde qualquer instabilidade poderia crescer progressivamente até forçar uma reorganização em configuração mais estável. “Não é preciso identificar uma grande mudança para explicar por que a civilização maia acabou. Uma perturbação menor pode ter sido tudo o que foi necessário”, afirma Brown. Para ele, um fato comum – como uma guerra (fato corriqueiro entre os maias), a morte de um rei ou uma crise na agricultura – pode ter provocado o fim de toda a civilização.

Mas a teoria dos padrões fractais está longe de ser um consenso. Fome, epidemias, mudanças climáticas, guerras, invasões e até suicídio em massa já foram hipóteses levantadas para explicar o fim da civilização maia. O único consenso entre os estudiosos, no entanto, é que para chegar à solução desse mistério será preciso compreender melhor como viviam, o que comiam e em que acreditavam os maias.

“Os maias não formavam um povo único”, diz Marcia Arcuri, pesquisadora do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP. “Eles eram uma reunião de diversos grupos étnicos, como os huastecas, quiche-maia, tzental-maia e tzotzil.”

No século 9, quando a civilização atingiu o apogeu, eles viviam basicamente da agricultura. Plantavam milho, feijão, algodão e tabaco. Quando as colheitas eram boas, dedicavam o excedente ao comércio. A sociedade era fortemente hierarquizada, dividida entre a nobreza (governantes, sacerdotes e guerreiros) e a classe baixa (camponeses e artesãos), obrigada a trabalhar e a pagar impostos. Por último, havia os cativos, em geral destinados aos sacrifícios humanos em honra aos deuses. A religião ocupava um espaço enorme na vida dos maias. Os sacerdotes controlavam a escrita e o calendário, um objeto dedicado a uma função muito, mas muito mais importante que o mero contar dos dias. O calendário dizia quando plantar e quando colher – e havia os dias malditos, quando nenhum empreendimento deveria ser tentado e não se devia fazer nada.

Durante boa parte do século 20, a imagem que se tinha dos maias era de um povo pacífico, governado por sacerdotes e voltado apenas para atividades religiosas e de observação dos astros. Um contraste em relação aos impérios guerreiros e sanguinários do México central. A decifração de hieróglifos maias, no entanto, forneceu um retrato completamente diferente desse povo. Descobriu-se que muitos deles contavam a história de governantes em guerra com cidades rivais e obcecados por sacrifícios humanos (no quadro abaixo). “O sangue era a argamassa da sociedade dos antigos maias”, afirma a arqueóloga Linda Schele, no livro The Blood of Kings (“O Sangue dos Reis”, inédito no Brasil).

Essa nova visão dos maias, um povo guerreiro e adepto de rituais sangrentos, foi formada a partir das descobertas em sítios arqueológicos na selva da Guatemala e do México, onde foi encontrado, por exemplo, um mural que mostra prisioneiros sendo exibidos a um rei vitorioso após uma batalha. Na cena, os capturados têm as unhas arrancadas durante um ritual.

Nos últimos anos, algumas descobertas têm modificado também a visão sobre o período pré-clássico da civilização maia, que iria de 1500 a.C. a 250. Desde 2001, arqueólogos liderados pelo professor Francisco Estrada-Belli, da Universidade Vanderbilt, dos Estados Unidos, têm explorado a antiga cidade de Cival, na região de Petén, na Guatemala. Lá, foram encontradas duas máscaras esculpidas na parede de uma pirâmide, cada uma medindo 5 por 3 metros, 120 objetos de jade, uma peça cerimonial e um pedaço de pedra esculpida de 300 a.C. “A preservação das máscaras é impressionante. É quase como se alguém as tivesse feito ontem”, diz Estrada-Belli. Acredita-se que Cival era uma das maiores cidades do período pré-clássico e teria abrigado10 mil pessoas.

O que intriga os arqueólogos é que a cidade de Cival não se encaixa no que se conhece hoje sobre os maias do período pré-clássico. A cidade era mais avançada do que se imagina que seriam as sociedades pré-clássicas. Havia reis, uma iconografia complexa, grandes palácios, escrita e cerâmica policromática: todas características do que se chama hoje de período clássico. “Está claro que pré-clássico é um nome incorreto”, afirma o professor Estrada-Belli. “É muito interessante quando revertemos algumas idéias existentes. Achávamos que o povo maia pré-clássico era uma sociedade relativamente simples, mas eles não eram”, diz o professor. “Havia toda uma civilização durante o período pré-clássico que nós estamos apenas começando a descobrir”, acrescenta.

Uma das teorias para o fim da época de ouro maia é a do professor David Hodell, da Universidade da Flórida, que defende que o clima é que seria o culpado. Ao analisar sedimentos de um lago na península de Yucatán, Hodell e um grupo de cientistas encontraram um padrão de seca se repetindo a cada 208 anos. O período mais seco da era atual teria ocorrido entre 800 e 1000, coincidindo com o fim do período clássico, no século 9. Outros períodos de seca teriam coincidido com épocas de declínio. Hodell, porém, não descarta que outros fatores tenham influenciado no desaparecimento dos maias. “Acho que a seca exerceu um papel importante, mas estou certo de que existiram outros fatores, como o aumento da população, a degradação da terra e mudanças sociopolíticas”, afirma.

Uma crise econômica como a provocada por uma seca prolongada seria potencialmente capaz de desestruturar uma sociedade baseada na agricultura e na religião e cuja organização política de cidades-estados fomentava rivalidades e conflitos pela hegemonia política. Essa competição se dava, por exemplo, arquitetonicamente. “As cidades mais poderosas construíam os maiores edifícios, o que exigia aumento de tributos, do número de trabalhadores e dos prisioneiros que eram capturados e sacrificados em homenagem aos deuses. Tudo isso pode ter gerado a pressão social necessária para que as camadas mais pobres se revoltassem e abandonassem os núcleos urbanos e seus arredores para se refugiarem na selva, onde estariam livres dessas obrigações”, diz Eduardo Natalino, da USP.

Após o abandono dos grandes centros urbanos, os maias voltaram a se reorganizar ao norte da península de Yucatán. “O fim do Império Maia não significou o fim dos maias”, afirma Eduardo. O que teve realmente um fim foi o período clássico, tido como a fase áurea da civilização. Em seguida veio o período pós-clássico, marcado por uma série de lutas internas entre as cidades-estados. Essa fragmentação facilitou o avanço dos espanhóis, que chegaram às costas da península de Yucatán em 1511 e, ao final da década de 1520, conquistaram praticamente todos os territórios de influência maia. Ainda assim, os maias sobreviveram à colonização. “A história desse povo não termina com a conquista dos espanhóis”, afirma o antropólogo Michael D. Coe, da Universidade Yale, autor do livro The Maya (“Os Maias”, sem tradução em português). Hoje os 6 milhões de descendentes dos antigos maias vivem principalmente na península de Yucatán e em parte do estado de Chiapas, no México, e na região central e leste da Guatemala.

Os maias
A mais avançadacivilização pré-colombianadurou 3 mil anos
Eles ocuparam um vasto território, de cerca de 325 mil quilômetros quadrados, que hoje abrange a península de Yucatán e parte do Estado de Chiapas, no México, parte da Guatemala, de Honduras e Belize.

PERÍODO PRÉ-CLÁSSICO (1500 a.C. a 250 d.c.)

Localização:

Os principais núcleos foram La Victoria, Uaxactún e Tikal

Características:

• No início, a organização era feita em pequenos núcleos sedentários, baseados no cultivo do milho, do feijão e da abóbora.

• A cerâmica é monocromada e são feitas pequenas esculturas de figuras de pedra.

• Havia centros cerimoniais que, por volta de 200 da era cristã, evoluíram para cidades com templos, pirâmides, palácios e mercados.

ASTRONOMIA E CALENDÁRIO

Os maias conheciam profundamente os ciclos do Sol, da Lua e de Vênus. Eles calculavam o ciclo solar em 365,2420 dias. Uma exatidão assombrosa, já que só há pouco tempo os cientistas constataram, com ajuda de modernos computadores, que o ano solar é de 365,2422 dias. No calendário maia havia um ano sagrado (de 260 dias) e um laico (de 365 dias), composto de 18 meses de 20 dias, seguidos de cinco dias considerados nefastos para a realização de qualquer empreendimento.

PERÍODO CLÁSSICO (séculos 3 a 9)

Localização:

Região central de El Petén, na Guatemala. A partir do fim do século 4, há uma expansão para oeste e sudeste, onde surgem Palenque, Piedras Negras e Copán. Mais tarde, essa conquista segue para o norte, até a península de Yucatán.

Características:

• Auge da civilização, com a construção de grandes templos, como os de Tikal, Palenque e Copán. Acredita-se que as cidades-estados maias formavam uma federação de caráter teocrático e hierarquizada em classes sociais.

• Há produção de excedentes agrícolas.

• A cerâmica típica desse período é policromada e figurativa.

ESCRITA

Um avançado sistema de escrita hieroglífica foi desenvolvido pelos maias. Boa parte dos escritos, no entanto, foi destruída durante a colonização espanhola. Hoje são conhecidos apenas três livros da era pré-colombiana que sobreviveram aos espanhóis: os chamados códices de Dresden, de Madri e de Paris. Acredita-se que o apogeu cultural dos maias tenha se dado por volta da segunda metade do século 8. São desse período as estelas, placas de pedra com relevos hieroglíficos, que são uma importante fonte de informação para os historiadores.

PERÍODO PÓS-CLÁSSICO (séculos 10 a 16)

Localização:

Chichen Itzá, Uxmal e Mayapán, na península de Yucatán (sul do México), e El Petén, na Guatemala.

Características:

• Desgraças naturais como o furacão de 1464 e a peste de 1480 devastam a região.

• Começa o culto a Kukulcán (Quetzacoátl, para os toltecas), simbolizado pela figura da serpente emplumada.

• Apogeu do núcleo Mayapán, seguido de conflitos entre as cidades-estados. As disputas facilitam o avanço dos espanhóis, que chegam em 1511. Na década de 1520, quase toda a região maia é conquistada.


Sangue sagrado
Sacrifícios humanosfizeram parte do dia-a-diados maias
Com uma faca de pedra, o sacerdote abre o peito de uma vítima e retira o coração ainda batendo. Línguas, orelhas e genitais são furados com ferrões de arraia e o sangue recolhido é queimado, como uma oferenda aos deuses. Rituais assim eram comuns entre os maias e eram realizados em homenagem a Chac, provedor da vida e deus da chuva. Em Chichen Itzá as vítimas eram lançadas – junto com cobre, ouro e jade – para morrer em poços e cavernas. Os maias tinham um panteão de deuses associados à natureza, como a chuva, o solo, o Sol e a Lua. O milho, principal fonte de alimento dos maias, ocupava um lugar especial na religião. Segundo ela, o homem teria sido criado da massa de milho, depois que os deuses fracassaram em tentar criar gente a partir do barro e da madeira. Assim como outros povos da Mesoamérica, os maias dividiam o mundo em direções, cada uma associada a um deus, a uma cor (centro, verde; leste, vermelho; norte, branco; oeste, preto; sul, amarelo), a uma árvore e a um pássaro. O céu era dividido em 13 estratos e abaixo da terra existiriam outros nove estratos. O tempo era considerado cíclico. De acordo com os maias, antes deste mundo teriam existido outros e a destruição deste mundo daria início a um novo ciclo.

Maias resistem
Cultura sobreviveno sul do México ena Guatemala
Hoje, uma das mais famosas descendentes dos maias é Rigoberta Menchú, ganhadora do Prêmio Nobel da Paz em 1992, por defender seu povo do extermínio de que foi vítima nos últimos 20 anos. Rigoberta, ela também uma sobrevivente, nasceu em 1959 em Laj Chimel, na Guatemala, uma pequena comunidade seguidora das tradições maias-quiché. Perdeu o pai assassinado num confronto com fazendeiros e sua mãe e seu irmão desapareceram, provavelmente seqüestrados e mortos pelo Exército. Calcula-se que existam hoje de 4 milhões a 6 milhões de maias, que vivem principalmente na península de Yucatán, no sul do México, e nas regiões central e oeste da Guatemala. “Mais do que descendente genético dos antigos maias, esse povo manteve vivos os mitos, a visão de mundo, as línguas e crenças que têm raízes na América pré-colombiana”, diz a arqueóloga Linda Schele. Entre as principais atividades econômicas dos grupos remanescentes estão o cultivo do milho e do feijão e a produção de artesanato. Eles falam cerca de 20 línguas diferentes, como o quiche, o iucateco, o tzeltal e o chol. Apesar da forte influência do cristianismo, as crenças tradicionais foram mantidas, num processo típico de sincretismo religioso. A deusa Lua, por exemplo, é associada à Virgem Maria. O antigo calendário maia sobreviveu e ainda é bastante utilizado.

Saiba mais
Livros

A Civilização Maia, Paul Gendrop, Jorge Zahar, 1987 - Um dos poucos livros em português sobre o assunto, traz informações didáticas sobre o tema

Deuses do México Indígena, Eduardo Natalino dos Santos (Palas Athena, 2002) - Trata do universo cultural dos povos mesoamericanos

The Blood of Kings, Linda Schele e Mary Ellen Miller, Thames and Hudson, 1992 - Livro repleto de fotos, ilustrações e dados sobre a arte maia

Site

www.uady.mx/sitios/mayas - Site da Universidade Autônoma de Yucatán, com informações sobre cultura maia

Revista Aventuras na Historia

segunda-feira, 16 de março de 2009

Chichén Itzá, a meca do povo maia

MAPA: ERIKA ONODERA

A arquitetura da cidade privilegia o movimento e a reunião de multidões. O mais notável não é o tamanho dos edifícios, mas o dos espaços que os separam
por Claude- François Baudez

A primeira impressão e a última lembrança de quem conhece Chichén Itzá costumam coincidir e se resumem numa palavra: monumentalidade. De fato, mesmo imponentes cidades do período maia clássico (300 a 900 d.C.), como Tikal, Copan, Palenque e Uxmal, perdem o viço em uma eventual comparação.

O mais notável não é o tamanho dos edifícios, mas o dos espaços que os separam. Turistas chegam a ficar perdidos na grande praça, no imenso campo de jogo de bola ou na ampla via que leva ao cenote sagrado, o poço natural no qual era atirado o corpo das vítimas de sacrifícios humanos e que atraía peregrinos maias de toda parte.

Espaços livres e edificados são testemunhos da preocupação dos homens que construíram Chichén Itzá, 1.100 anos atrás, de propiciar a reunião e a circulação de multidões, incluindo os visitantes.

Também a escultura se diferencia. Em vez da exaltação de reis e dinastias, as obras de Chichén focalizam cenas de grupos, de desfiles e de procissões. Distinguem-se nelas personagens que ocupam posições diferentes na hierarquia social. Há reis, sacerdotes, guerreiros de elite e de linhagem inferior, assim como vítimas de sacrifícios.


Teocale em Chichén Itzá, litografia, Frederick Catherwood, 1844, Biblioteca Beinecke de Livros Raros e Manuscritos da Universidade Yale

A pirâmide na visão do artista do século XIX

A construção do templo dos Guerreiros tem duas partes: uma vasta sala, precedida de três fi leiras de colunas, e uma pirâmide. À direita da escadaria de acesso, encontra-se uma banqueta e uma pedra de sacrifício de 40 cm de altura. Todos os pilares de sustentação do teto mostram, nas quatro faces, esculturas de um personagem em pé. Na sua imensa maioria, são guerreiros, mas há também cativos de mãos amarradas, membros da alta hierarquia, sacerdotes e personagens mascarados, imitando animais.

Esse conjunto arquitetônico reúne os dois momentos do sacrifício: a execução, na sala principal, e a oferenda, no templo. A prevalência de guerreiros denota a importância deles no ritual. Os homens armados são os que capturam e oferecem o sacrifício. Eles são assistentes qualificados dos sacerdotes. O ritual é ostensivo. As cenas de sacrifício humano encontram-se representadas em toda a parte na cidade.

Chichén Itzá se destaca das demais cidades maias da época pelo abandono de práticas vigentes durante séculos, como a de erguer monólitos periodicamente, e também pela adoção de traços culturais exógenos, manifestados, sobretudo, na arquitetura.

As ruínas de Chichén revelam mais. Uma organização política e social totalmente inovadora aparece, com o enfraquecimento do poder real, em proveito de uma elite de guerreiros e sacerdotes. Essa mudança profunda ainda não está bem explicada. Depende de mais estudos da história dos maias entre os séculos IX e X.



© BUFFLERUMP/SHUTTERSTOCK

Imagem atual da mesma construção; no detalhe, um relevo maia

Ao fim do século IX, Chichén foi uma cidade de perfil cosmopolita. Por mais de dois séculos, a única importante do Yucatán. Essa hegemonia não dependeu de autoridade e força do governo. Ao contrário, abertura e partilha com habitantes de cidades vizinhas foram marcas da cidade.

Nas províncias, os chefes locais eram convidados por Chichén a participar de festas, cerimônias diversas e atividades religiosas da cidade. Essa comunhão no ritual parece ter assegurado a estabilidade política local, ainda que houvesse guerras, até mesmo para capturar futuras vítimas de sacrifícios. O papel federativo da cidade foi ainda favorecido pelo cenote sagrado, visitado por milhares de peregrinos que lançavam aí suas oferendas.

O povo maia tem um histórico de abandono de suas cidades-Estado. Ao longo do século IX, as das
Baixas Terras centrais foram esvaziadas, depois de viverem o apogeu do período clássico, iniciado em 300 d.C. Nelas, o rei maia governava de maneira absoluta. Ele era assunto quase exclusivo dos textos dos hieróglifos e da arte monumental.

No século seguinte, foi a vez das cidades do Yucatán, com exceção de Chichén Itzá que, na virada do milênio, permaneceu influente na região. Acabou também abandonada em meados do século XIII.

Até a conquista espanhola, contudo, Chichén Itzá, mesmo sem a agitação e o poder de outrora, continuou a ser visitada por peregrinos, graças a seu cenote sagrado.

Claude- François Baudez antropólogo e etnólogo, é diretor de pesquisas do Centro Nacional de Pesquisa Científica (França).

Revista Historia Viva