
segunda-feira, 18 de março de 2013
Hieróglifos bagunçam história da escrita na América

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012
Saiba como surgiu a profecia do fim do mundo

segunda-feira, 23 de julho de 2012
Basquete Maia
Por Fabíola Musarra
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O anel de pedra no alto da cancha de Chichén Itzá era a “cesta” do jogo.
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Pintura em vaso maia do ano 650 mostra o jogo em andamento. O jogador à esquerda ajoelhou-se para golpear a bola (em preto) com as cadeiras. Todos usavam cangas e joelheiras protetoras.
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A cancha de Monte Albán foi feita pelos zapotecas. No detalhe, o disco de Chinkultik, do ano 591, mostra um jogador, com penas na cabeça, golpeando a bola com as cadeiras.
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quarta-feira, 18 de julho de 2012
Notícias História Viva
Arqueólogos encontram barragem maia de 80 metros
Represa feita de pedras, cascalhos e areia podia abastecer uma população de quase 100 000 pessoas da antiga cidade de Tikal, na atual Guatemala


Notícias História Viva
Arqueólogos encontram barragem maia de 80 metros
Represa feita de pedras, cascalhos e areia podia abastecer uma população de quase 100 000 pessoas da antiga cidade de Tikal, na atual Guatemala


quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
O Caracol dos Maias
O Caracol dos MaiasConstruído em 850, ajudava a determinar o início das estações do ano.
Ronaldo Rogério de Freitas Mourão
A Astronomia desenvolveu-se desenvolveu-se entre os maias por ser um dos elemen¬tos fundamentais na prática dos rituais religiosos que, na maioria das vezes, se realizavam à noite. Uma prova disso está numa das gravuras que aparecem em seus manuscritos (chamados Código de Mendoza), na qual um sacerdote toca um instrumento enquanto outro observa as estrelas para determinar a hora do início das cerimônias. Os elevados monumentos piramidais maias eram, na verdade, observatórios ideais para a pesquisa noturna e diurna do céu. As construçôes orientavam-se nesse sentido e delas podiam ser estimadas com precisão a passagem do Sol pelo zênite - o ponto do céu que está diretamente acima da cabeça do observador - e as épocas em que se iniciavam as estações do ano.
Em suas observações, os maias usavam alguns instrumentos primitivos semelhantes às balestilhas - duas hastes cruzadas -, com as quais os astrônomos-navegantes do século XVI observavam a altura dos astros. Um exemplo típico de construção maia com fins de observação astronômica é o chamado Caracol de Chichén-Itzá, cidade situada nas planícies do Yucatán. próximo à Mérida. no México.
Essa edificação está intimamente ligada às civilizações maia e tolteca - esta última, contemporânea da primeira. O monumento foi chamado de EI Caracol pelos espanhóis. porque sua escada interior, em espiral. lembra a concha de um caramujo. Nesse edifício circular encontram-se aberturas orientadas de modo a permitir a determinação dos solstícios de inverno e verão (dias que marcam o início dessas estações) e da mesmo forma dos equinócios de primavera e outono.
O Caracol, cujo início da construção data de 850, tem uma torre de 12 metros de altura, erguida sobre uma dupla plataforma retangular de 9 metros. A plataforma inferior parece ter sido situada e orientada astronomicamente: sua parte anterior era dirigida para Vênus. que alcança seus maiores afastamentos norte e sul no horizonte em intervalos regulares. ao longo do calendário maia. Na plataforma superior, a parede frontal tem como perpendicular a direção que corresponde àquela do nascer do Sol no dia de sua passagem zenital em Chichén-Itzá no ano 1000.
Construída pelos toltecas, a torre tem dois andares. Com 11 metros de diâmetro e paredes muito grossas, dispõe de quatro portas muito, estreitas. No centro. uma grossa coluna sustenta a rampa - a célebre escada em caracol - por meio da qual se chega à câmara retangular do andar superior. Trata-se de uma tarefa difícil. já que a escada não começa no nível do solo e sitl) no princípio da abóbada. A câmara é pequena e grande parte de seu piso está destruído. Mas do que restou é possível deduzir que ela também tinha paredes espessas, uma porta e sete aberturas retangulares muito estreitas que serviram - pelo que se conclui de sua orientação - para determinar os solstícios e equinócios.
Para isso, os maias deviam observar o horizonte por uma linha de visada tangente - que sai do olho e tangencia o lado interior direito e exterior esquerdo de cada uma das aberturas. Desse modo conheciam a direção do pôr-do-sol no solstício de verão (o dia mais longo do ano) e a dos equinócios da primavera e do outono (quando dia e noite têm a mesma duração). Algumas dessas aberturas davam as direções do ocaso de Vê nus em suas máximas declinações norte e sul. Da mesma forma que os astecas, os maias também tinham sua atenção voltada para as estrelas e costumavam levantar-se durante a noite para observer o céu. Eles acreditavam que o firmamento noturno reunia dois dos seus grandes deuses: Tezcatlipoca, que simbolizava o céu. à noite, e a serpente Quetzalcóatl, que representava o zodíaco, o criador do calendário. Além da cobra zodiacal da noite, criou-se mais tarde a figura de Xiucoatl, a cobra azul— zodíaco imaginário do dia e que se encontra lindamente esculpido no calendário asteca.
Revista Superinteressante
quarta-feira, 4 de janeiro de 2012
Notícias História Viva



Cientistas desvendam profecia maia do 'fim do mundo em 2012'
terça-feira, 8 de dezembro de 2009
Os astrônomos maias

Os astrônomos maias
Eles conheciam tudo sobre o movimento dos astros. Mas, pelo que se sabe, nunca viram uma luneta. Como seria possível?
por Thiago Lotufo
Os maias sabiam tudo de astronomia. Sabiam mais do que os chineses no mesmo período (300 d.C. a 900 d.C.) e com uma exatidão que os europeus só foram alcançar no século 18 com o uso de telescópios. Exemplo disso foram os cálculos feitos por eles que estabeleceram o ciclo solar em 365,2420 dias e o lunar em 29,53086 dias. Para se ter uma idéia da exatidão desses números, apenas há pouco tempo cientistas constataram, com o auxílio de computadores e cálculos refinados, que o ano solar é de 365,2422 dias e o ciclo lunar de 29,54059 dias. Assombroso, não? Os maias calcularam também o ciclo de Vênus em relação à Terra e chegaram a 583,935 dias (atualmente, estima-se que ele fique entre 583,920 e 583,940). Acredita-se que Vênus, aliás, era tão ou mais importante para os maias do que o próprio sol. A Via Láctea também era bastante venerada e eles a chamavam de “Árvore do Mundo”.
Por serem um povo essencialmente agrícola, além de observar os corpos celestes que afetavam o plantio, os maias tinham também uma enorme preocupação em medir o tempo. Criaram diversos sistemas de calendários que de alguma maneira se mostravam interligados. Os mais conhecidos eram: o tzolkin (calendário ritual), formado por 13 números e 20 signos criando um ciclo de 260 dias; o tun (calendário civil), dividido em 18 meses de 20 dias (360 dias); e o haab, estabelecido no formato de 365 dias que conhecemos, sendo que os cinco últimos dias eram considerados extras e um período de azar.
Todos esses conhecimentos astronômicos e matemáticos só chegaram até nós graças a um manuscrito conhecido por Código Dresden, um dos poucos documentos maias que resistiram à ocupação espanhola. Nele, no entanto, não há nenhuma indicação de como essa civilização obtinha o conhecimento. Sabe-se, por exemplo, que em cidades maias, como Chichen-Itzá, havia construções que funcionavam como observatórios astronômicos e templos que respeitavam alinhamentos com os astros. Mas que instrumentos eles usavam para observar e medir? De que eram feitos? Não se sabe. Uma hipótese é a de que esses objetos eram confeccionados em madeira e por isso não teriam sobrevivido ao tempo.
Revista Superinteressante
quarta-feira, 7 de outubro de 2009
OS ÍNDIOS E OS SONHOS NO ROMANCE DE FRANCES BROOKE

Os índios conservam a maior parte de suas antigas supertições. Eu assinalaria sua fé nos sonhos, loucura da qual não podem se curar apesar das repetidas decepções... Um selvagem nos estava contando um sonho profético, que, segundo ele, anunciava a morte de um oficial inglês, e eu não pude conter um riso.
"Vocês, europeus", me disse, "são a gente menos razoável do mundo. Caçoam de nossa fé nos sonhos e, no entanto, esperam que nós acreditemos em coisas que são mil vezes mais incríveis."
Londres - 1769
Memória de Fogo - Eduardo galeano
Sacramentos

Os índios não cumprem os rituais da Pascoá se estes não coincidem com dias de chuva, de colheita ou de plantio. O arcebispo da Guatemala, Pedro Cortés Larraz, dita um novo decreto ameaçando quem se esquece, assim, da salvação da alma.
Tampouco os índios vão à missa. Não respondem ao chamado nem ao sino; é preciso ir buscá-los a cavalo por aldeias e plantações e arrastá-los à força. A falta é castigada com oito chibatadas, mas a missa ofende os deuses maias e isso pode mais que o medo de apanhar. Cinquenta vezes por ano, a missa interrompe o trabalho agrário, cotidiana cerimônia de comunhão com a terra. Acompanhar passo a passo os ciclos de morte e ressurreição do milho é, para os índios, uma forma de rezar; e a terra, templo imenso, lhes dá provas, dia a dia, do milagre da vida que renasce. Para eles, toda terra é igreja e todo bosque, santuário.
Para fugir do castigo no pelourinho da praça, alguns índios se aproximam do confessionário, onde aprendem a pescar, e se ajoelham diante do altar, onde comungam comendo o deus de milho. Mas só levam seus filhos à pia batistal depois de tê-los levado, monte adentro, para oferecê-los aos antigos deuses. Ante eles, celebram as alegrias da ressurreição. Tudo que nasce, nasce de novo.
Cidade da Guatemala - 1775
sexta-feira, 26 de junho de 2009
O destino dos maias

O destino dos maias
Nova e polêmica teoria sobre o desaparecimento dos maias reacende o mistério em torno da mais avançada civilização da América pré-colombiana
por Lia Hama
No seu auge, a civilização maia chegou a ter mais de 40 cidades espalhadas numa região que hoje inclui a península de Yucatán, um pedaço do estado de Chiapas, no México, e partes de Belize, Guatemala e Honduras. Uma área de cerca de 325 mil quilômetros quadrados, o que equivale, mais ou menos, ao tamanho do estado do Maranhão. Nesse período, entre os séculos 3 e 9, os maias dominavam a astronomia, a matemática, a escrita, norteavam-se por um preciso sistema de calendários e eram sofisticados construtores. Formavam a civilização de tecnologia mais avançada do mundo, à frente das maiores potências européias. Por volta do século 9, no entanto, os maias experimentaram um colapso súbito. Os centros urbanos densamente povoados foram abandonados e a civilização, da forma como até então era conhecida, simplesmente desapareceu. Um fim tão misterioso que até hoje provoca polêmica.
Nas últimas décadas, pesquisadores têm procurado algo grande que pudesse acabar com uma civilização que, à época do seu ocaso, já durava bem mais de 20 séculos: um cataclismo, uma prolongada seca, uma guerra sangrenta, uma catástrofe de dimensões continentais. E até agora nada. Mas é possível que aí esteja o erro. Se Clifford Brown, da Atlantic University da Flórida, e Walter Witschey, do Museu de Ciência de Virgínia, nos Estados Unidos, estiverem certos, todo mundo andou procurando no lugar errado. Segundo eles, os maias estavam fadados a desaparecer devido a características endógenas ligadas ao modo como suas cidades se desenvolveram e algo sutil, realmente muito pequeno, pode ter levado toda a civilização ao colapso. Brown e Witschey, cuja tese foi publicada em artigo da revista New Scientist em janeiro de 2004, acreditam que podem provar isso a partir das construções das antigas cidades maias. De acordo com eles, as cidades maias teriam evoluído de uma forma particular, que seguiria um padrão fractal. Fractais são aquelas figuras geométricas que repetem o mesmo desenho em escalas cada vez menores. Aplicados aos fenômenos naturais, os fractais estão na base da teoria do caos, onde uma ocorrência aparentemente insignificante, se repetida em escala cada vez maior, gera desequilíbrio. Incêndios em florestas, avalanches, terremotos e até as contrações de uma mulher que dá à luz têm dimensão fractal.
Segundo Brown e Witschey, o padrão fractal das cidades maias indicaria uma organização crítica, onde qualquer instabilidade poderia crescer progressivamente até forçar uma reorganização em configuração mais estável. “Não é preciso identificar uma grande mudança para explicar por que a civilização maia acabou. Uma perturbação menor pode ter sido tudo o que foi necessário”, afirma Brown. Para ele, um fato comum – como uma guerra (fato corriqueiro entre os maias), a morte de um rei ou uma crise na agricultura – pode ter provocado o fim de toda a civilização.
Mas a teoria dos padrões fractais está longe de ser um consenso. Fome, epidemias, mudanças climáticas, guerras, invasões e até suicídio em massa já foram hipóteses levantadas para explicar o fim da civilização maia. O único consenso entre os estudiosos, no entanto, é que para chegar à solução desse mistério será preciso compreender melhor como viviam, o que comiam e em que acreditavam os maias.
“Os maias não formavam um povo único”, diz Marcia Arcuri, pesquisadora do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP. “Eles eram uma reunião de diversos grupos étnicos, como os huastecas, quiche-maia, tzental-maia e tzotzil.”
No século 9, quando a civilização atingiu o apogeu, eles viviam basicamente da agricultura. Plantavam milho, feijão, algodão e tabaco. Quando as colheitas eram boas, dedicavam o excedente ao comércio. A sociedade era fortemente hierarquizada, dividida entre a nobreza (governantes, sacerdotes e guerreiros) e a classe baixa (camponeses e artesãos), obrigada a trabalhar e a pagar impostos. Por último, havia os cativos, em geral destinados aos sacrifícios humanos em honra aos deuses. A religião ocupava um espaço enorme na vida dos maias. Os sacerdotes controlavam a escrita e o calendário, um objeto dedicado a uma função muito, mas muito mais importante que o mero contar dos dias. O calendário dizia quando plantar e quando colher – e havia os dias malditos, quando nenhum empreendimento deveria ser tentado e não se devia fazer nada.
Durante boa parte do século 20, a imagem que se tinha dos maias era de um povo pacífico, governado por sacerdotes e voltado apenas para atividades religiosas e de observação dos astros. Um contraste em relação aos impérios guerreiros e sanguinários do México central. A decifração de hieróglifos maias, no entanto, forneceu um retrato completamente diferente desse povo. Descobriu-se que muitos deles contavam a história de governantes em guerra com cidades rivais e obcecados por sacrifícios humanos (no quadro abaixo). “O sangue era a argamassa da sociedade dos antigos maias”, afirma a arqueóloga Linda Schele, no livro The Blood of Kings (“O Sangue dos Reis”, inédito no Brasil).
Essa nova visão dos maias, um povo guerreiro e adepto de rituais sangrentos, foi formada a partir das descobertas em sítios arqueológicos na selva da Guatemala e do México, onde foi encontrado, por exemplo, um mural que mostra prisioneiros sendo exibidos a um rei vitorioso após uma batalha. Na cena, os capturados têm as unhas arrancadas durante um ritual.
Nos últimos anos, algumas descobertas têm modificado também a visão sobre o período pré-clássico da civilização maia, que iria de 1500 a.C. a 250. Desde 2001, arqueólogos liderados pelo professor Francisco Estrada-Belli, da Universidade Vanderbilt, dos Estados Unidos, têm explorado a antiga cidade de Cival, na região de Petén, na Guatemala. Lá, foram encontradas duas máscaras esculpidas na parede de uma pirâmide, cada uma medindo 5 por 3 metros, 120 objetos de jade, uma peça cerimonial e um pedaço de pedra esculpida de 300 a.C. “A preservação das máscaras é impressionante. É quase como se alguém as tivesse feito ontem”, diz Estrada-Belli. Acredita-se que Cival era uma das maiores cidades do período pré-clássico e teria abrigado10 mil pessoas.
O que intriga os arqueólogos é que a cidade de Cival não se encaixa no que se conhece hoje sobre os maias do período pré-clássico. A cidade era mais avançada do que se imagina que seriam as sociedades pré-clássicas. Havia reis, uma iconografia complexa, grandes palácios, escrita e cerâmica policromática: todas características do que se chama hoje de período clássico. “Está claro que pré-clássico é um nome incorreto”, afirma o professor Estrada-Belli. “É muito interessante quando revertemos algumas idéias existentes. Achávamos que o povo maia pré-clássico era uma sociedade relativamente simples, mas eles não eram”, diz o professor. “Havia toda uma civilização durante o período pré-clássico que nós estamos apenas começando a descobrir”, acrescenta.
Uma das teorias para o fim da época de ouro maia é a do professor David Hodell, da Universidade da Flórida, que defende que o clima é que seria o culpado. Ao analisar sedimentos de um lago na península de Yucatán, Hodell e um grupo de cientistas encontraram um padrão de seca se repetindo a cada 208 anos. O período mais seco da era atual teria ocorrido entre 800 e 1000, coincidindo com o fim do período clássico, no século 9. Outros períodos de seca teriam coincidido com épocas de declínio. Hodell, porém, não descarta que outros fatores tenham influenciado no desaparecimento dos maias. “Acho que a seca exerceu um papel importante, mas estou certo de que existiram outros fatores, como o aumento da população, a degradação da terra e mudanças sociopolíticas”, afirma.
Uma crise econômica como a provocada por uma seca prolongada seria potencialmente capaz de desestruturar uma sociedade baseada na agricultura e na religião e cuja organização política de cidades-estados fomentava rivalidades e conflitos pela hegemonia política. Essa competição se dava, por exemplo, arquitetonicamente. “As cidades mais poderosas construíam os maiores edifícios, o que exigia aumento de tributos, do número de trabalhadores e dos prisioneiros que eram capturados e sacrificados em homenagem aos deuses. Tudo isso pode ter gerado a pressão social necessária para que as camadas mais pobres se revoltassem e abandonassem os núcleos urbanos e seus arredores para se refugiarem na selva, onde estariam livres dessas obrigações”, diz Eduardo Natalino, da USP.
Após o abandono dos grandes centros urbanos, os maias voltaram a se reorganizar ao norte da península de Yucatán. “O fim do Império Maia não significou o fim dos maias”, afirma Eduardo. O que teve realmente um fim foi o período clássico, tido como a fase áurea da civilização. Em seguida veio o período pós-clássico, marcado por uma série de lutas internas entre as cidades-estados. Essa fragmentação facilitou o avanço dos espanhóis, que chegaram às costas da península de Yucatán em 1511 e, ao final da década de 1520, conquistaram praticamente todos os territórios de influência maia. Ainda assim, os maias sobreviveram à colonização. “A história desse povo não termina com a conquista dos espanhóis”, afirma o antropólogo Michael D. Coe, da Universidade Yale, autor do livro The Maya (“Os Maias”, sem tradução em português). Hoje os 6 milhões de descendentes dos antigos maias vivem principalmente na península de Yucatán e em parte do estado de Chiapas, no México, e na região central e leste da Guatemala.
Os maias
A mais avançadacivilização pré-colombianadurou 3 mil anos
Eles ocuparam um vasto território, de cerca de 325 mil quilômetros quadrados, que hoje abrange a península de Yucatán e parte do Estado de Chiapas, no México, parte da Guatemala, de Honduras e Belize.
PERÍODO PRÉ-CLÁSSICO (1500 a.C. a 250 d.c.)
Localização:
Os principais núcleos foram La Victoria, Uaxactún e Tikal
Características:
• No início, a organização era feita em pequenos núcleos sedentários, baseados no cultivo do milho, do feijão e da abóbora.
• A cerâmica é monocromada e são feitas pequenas esculturas de figuras de pedra.
• Havia centros cerimoniais que, por volta de 200 da era cristã, evoluíram para cidades com templos, pirâmides, palácios e mercados.
ASTRONOMIA E CALENDÁRIO
Os maias conheciam profundamente os ciclos do Sol, da Lua e de Vênus. Eles calculavam o ciclo solar em 365,2420 dias. Uma exatidão assombrosa, já que só há pouco tempo os cientistas constataram, com ajuda de modernos computadores, que o ano solar é de 365,2422 dias. No calendário maia havia um ano sagrado (de 260 dias) e um laico (de 365 dias), composto de 18 meses de 20 dias, seguidos de cinco dias considerados nefastos para a realização de qualquer empreendimento.
PERÍODO CLÁSSICO (séculos 3 a 9)
Localização:
Região central de El Petén, na Guatemala. A partir do fim do século 4, há uma expansão para oeste e sudeste, onde surgem Palenque, Piedras Negras e Copán. Mais tarde, essa conquista segue para o norte, até a península de Yucatán.
Características:
• Auge da civilização, com a construção de grandes templos, como os de Tikal, Palenque e Copán. Acredita-se que as cidades-estados maias formavam uma federação de caráter teocrático e hierarquizada em classes sociais.
• Há produção de excedentes agrícolas.
• A cerâmica típica desse período é policromada e figurativa.
ESCRITA
Um avançado sistema de escrita hieroglífica foi desenvolvido pelos maias. Boa parte dos escritos, no entanto, foi destruída durante a colonização espanhola. Hoje são conhecidos apenas três livros da era pré-colombiana que sobreviveram aos espanhóis: os chamados códices de Dresden, de Madri e de Paris. Acredita-se que o apogeu cultural dos maias tenha se dado por volta da segunda metade do século 8. São desse período as estelas, placas de pedra com relevos hieroglíficos, que são uma importante fonte de informação para os historiadores.
PERÍODO PÓS-CLÁSSICO (séculos 10 a 16)
Localização:
Chichen Itzá, Uxmal e Mayapán, na península de Yucatán (sul do México), e El Petén, na Guatemala.
Características:
• Desgraças naturais como o furacão de 1464 e a peste de 1480 devastam a região.
• Começa o culto a Kukulcán (Quetzacoátl, para os toltecas), simbolizado pela figura da serpente emplumada.
• Apogeu do núcleo Mayapán, seguido de conflitos entre as cidades-estados. As disputas facilitam o avanço dos espanhóis, que chegam em 1511. Na década de 1520, quase toda a região maia é conquistada.
Sangue sagrado
Sacrifícios humanosfizeram parte do dia-a-diados maias
Com uma faca de pedra, o sacerdote abre o peito de uma vítima e retira o coração ainda batendo. Línguas, orelhas e genitais são furados com ferrões de arraia e o sangue recolhido é queimado, como uma oferenda aos deuses. Rituais assim eram comuns entre os maias e eram realizados em homenagem a Chac, provedor da vida e deus da chuva. Em Chichen Itzá as vítimas eram lançadas – junto com cobre, ouro e jade – para morrer em poços e cavernas. Os maias tinham um panteão de deuses associados à natureza, como a chuva, o solo, o Sol e a Lua. O milho, principal fonte de alimento dos maias, ocupava um lugar especial na religião. Segundo ela, o homem teria sido criado da massa de milho, depois que os deuses fracassaram em tentar criar gente a partir do barro e da madeira. Assim como outros povos da Mesoamérica, os maias dividiam o mundo em direções, cada uma associada a um deus, a uma cor (centro, verde; leste, vermelho; norte, branco; oeste, preto; sul, amarelo), a uma árvore e a um pássaro. O céu era dividido em 13 estratos e abaixo da terra existiriam outros nove estratos. O tempo era considerado cíclico. De acordo com os maias, antes deste mundo teriam existido outros e a destruição deste mundo daria início a um novo ciclo.
Maias resistem
Cultura sobreviveno sul do México ena Guatemala
Hoje, uma das mais famosas descendentes dos maias é Rigoberta Menchú, ganhadora do Prêmio Nobel da Paz em 1992, por defender seu povo do extermínio de que foi vítima nos últimos 20 anos. Rigoberta, ela também uma sobrevivente, nasceu em 1959 em Laj Chimel, na Guatemala, uma pequena comunidade seguidora das tradições maias-quiché. Perdeu o pai assassinado num confronto com fazendeiros e sua mãe e seu irmão desapareceram, provavelmente seqüestrados e mortos pelo Exército. Calcula-se que existam hoje de 4 milhões a 6 milhões de maias, que vivem principalmente na península de Yucatán, no sul do México, e nas regiões central e oeste da Guatemala. “Mais do que descendente genético dos antigos maias, esse povo manteve vivos os mitos, a visão de mundo, as línguas e crenças que têm raízes na América pré-colombiana”, diz a arqueóloga Linda Schele. Entre as principais atividades econômicas dos grupos remanescentes estão o cultivo do milho e do feijão e a produção de artesanato. Eles falam cerca de 20 línguas diferentes, como o quiche, o iucateco, o tzeltal e o chol. Apesar da forte influência do cristianismo, as crenças tradicionais foram mantidas, num processo típico de sincretismo religioso. A deusa Lua, por exemplo, é associada à Virgem Maria. O antigo calendário maia sobreviveu e ainda é bastante utilizado.
Saiba mais
Livros
A Civilização Maia, Paul Gendrop, Jorge Zahar, 1987 - Um dos poucos livros em português sobre o assunto, traz informações didáticas sobre o tema
Deuses do México Indígena, Eduardo Natalino dos Santos (Palas Athena, 2002) - Trata do universo cultural dos povos mesoamericanos
The Blood of Kings, Linda Schele e Mary Ellen Miller, Thames and Hudson, 1992 - Livro repleto de fotos, ilustrações e dados sobre a arte maia
Site
www.uady.mx/sitios/mayas - Site da Universidade Autônoma de Yucatán, com informações sobre cultura maia
Revista Aventuras na Historia
segunda-feira, 16 de março de 2009
Chichén Itzá, a meca do povo maia
A arquitetura da cidade privilegia o movimento e a reunião de multidões. O mais notável não é o tamanho dos edifícios, mas o dos espaços que os separam
por Claude- François Baudez
A primeira impressão e a última lembrança de quem conhece Chichén Itzá costumam coincidir e se resumem numa palavra: monumentalidade. De fato, mesmo imponentes cidades do período maia clássico (300 a 900 d.C.), como Tikal, Copan, Palenque e Uxmal, perdem o viço em uma eventual comparação.
O mais notável não é o tamanho dos edifícios, mas o dos espaços que os separam. Turistas chegam a ficar perdidos na grande praça, no imenso campo de jogo de bola ou na ampla via que leva ao cenote sagrado, o poço natural no qual era atirado o corpo das vítimas de sacrifícios humanos e que atraía peregrinos maias de toda parte.
Espaços livres e edificados são testemunhos da preocupação dos homens que construíram Chichén Itzá, 1.100 anos atrás, de propiciar a reunião e a circulação de multidões, incluindo os visitantes.
Também a escultura se diferencia. Em vez da exaltação de reis e dinastias, as obras de Chichén focalizam cenas de grupos, de desfiles e de procissões. Distinguem-se nelas personagens que ocupam posições diferentes na hierarquia social. Há reis, sacerdotes, guerreiros de elite e de linhagem inferior, assim como vítimas de sacrifícios.
Teocale em Chichén Itzá, litografia, Frederick Catherwood, 1844, Biblioteca Beinecke de Livros Raros e Manuscritos da Universidade Yale
A pirâmide na visão do artista do século XIX
A construção do templo dos Guerreiros tem duas partes: uma vasta sala, precedida de três fi leiras de colunas, e uma pirâmide. À direita da escadaria de acesso, encontra-se uma banqueta e uma pedra de sacrifício de 40 cm de altura. Todos os pilares de sustentação do teto mostram, nas quatro faces, esculturas de um personagem em pé. Na sua imensa maioria, são guerreiros, mas há também cativos de mãos amarradas, membros da alta hierarquia, sacerdotes e personagens mascarados, imitando animais.
Esse conjunto arquitetônico reúne os dois momentos do sacrifício: a execução, na sala principal, e a oferenda, no templo. A prevalência de guerreiros denota a importância deles no ritual. Os homens armados são os que capturam e oferecem o sacrifício. Eles são assistentes qualificados dos sacerdotes. O ritual é ostensivo. As cenas de sacrifício humano encontram-se representadas em toda a parte na cidade.
Chichén Itzá se destaca das demais cidades maias da época pelo abandono de práticas vigentes durante séculos, como a de erguer monólitos periodicamente, e também pela adoção de traços culturais exógenos, manifestados, sobretudo, na arquitetura.
As ruínas de Chichén revelam mais. Uma organização política e social totalmente inovadora aparece, com o enfraquecimento do poder real, em proveito de uma elite de guerreiros e sacerdotes. Essa mudança profunda ainda não está bem explicada. Depende de mais estudos da história dos maias entre os séculos IX e X.
© BUFFLERUMP/SHUTTERSTOCK
Imagem atual da mesma construção; no detalhe, um relevo maia
Ao fim do século IX, Chichén foi uma cidade de perfil cosmopolita. Por mais de dois séculos, a única importante do Yucatán. Essa hegemonia não dependeu de autoridade e força do governo. Ao contrário, abertura e partilha com habitantes de cidades vizinhas foram marcas da cidade.
Nas províncias, os chefes locais eram convidados por Chichén a participar de festas, cerimônias diversas e atividades religiosas da cidade. Essa comunhão no ritual parece ter assegurado a estabilidade política local, ainda que houvesse guerras, até mesmo para capturar futuras vítimas de sacrifícios. O papel federativo da cidade foi ainda favorecido pelo cenote sagrado, visitado por milhares de peregrinos que lançavam aí suas oferendas.
O povo maia tem um histórico de abandono de suas cidades-Estado. Ao longo do século IX, as das
Baixas Terras centrais foram esvaziadas, depois de viverem o apogeu do período clássico, iniciado em 300 d.C. Nelas, o rei maia governava de maneira absoluta. Ele era assunto quase exclusivo dos textos dos hieróglifos e da arte monumental.
No século seguinte, foi a vez das cidades do Yucatán, com exceção de Chichén Itzá que, na virada do milênio, permaneceu influente na região. Acabou também abandonada em meados do século XIII.
Até a conquista espanhola, contudo, Chichén Itzá, mesmo sem a agitação e o poder de outrora, continuou a ser visitada por peregrinos, graças a seu cenote sagrado.
Claude- François Baudez antropólogo e etnólogo, é diretor de pesquisas do Centro Nacional de Pesquisa Científica (França).
Revista Historia Viva







