Há mais de cinco séculos, o mundo tenta abolir restrições ao livre trânsito de mercadorias. Foram vários os momentos de liberalização, mas também muitos os de retrocesso, com potências elaborando discursos e promovendo ideologias ao sabor de suas necessidades de momentopor Christophe Courau
Biblioteca Nacional da França, Paris / (C) Visioars / AKG Images / Latinstock![]() Aquarela do século XVIII mostra chineses vendendo chá a comerciante europeu ![]()
Foi preciso chegar ao século XXI, mais especificamente ao ano de 2001, para que os países membros da Organização Mundial do Comércio (OMC) aprovassem a entrada da China, com seu 1,3 bilhão de potenciais consumidores, na instituição que rege as trocas comerciais do planeta.
A OMC não é bem-vista por todos. Alguns movimentos, hoje, atribuem à maior comunidade reguladora mundial de trocas de produtos o nefasto papel de promotora do livre comércio como norma superior àquelas que regem a proteção e a independência cultural, ambiental, científica e política dos países.
De outro lado estão os que acreditam no poder da organização de permitir uma concorrência saudável e a neutralidade das negociações, assim como a elevação do nível de vida dos consumidores graças à queda dos preços de todos os bens de consumo.
Essa peleja não tem, contudo, a atualidade que aparenta. Muito antes de a globalização se tornar assunto, as nações se envolviam em disputas sobre temas comerciais, oscilando entre o liberalismo e o protecionismo, a depender do interesse de momento.
Na Idade Média, o comércio terrestre era difícil, com péssimas estradas, ameaça de roubos e pilhagens e crescente número de pedágios típicos do sistema feudal – por exemplo, chegaram a 70 entre Roanne e Nantes, cidades francesas que distam cerca de 500 km.
Assim, o primeiro grande desenvolvimento do comércio mundial se deu por mar, graças às viagens marítimas dos séculos XV e XVI e à formação dos impérios coloniais, como Espanha e Portugal.
Nessa dinâmica mundial, o mar Mediterrâneo perdeu o protagonismo nas trocas mercantis, enquanto a Inglaterra e os Países Baixos criaram poderosas estruturas comerciais. Os holandeses desenvolveram esse sistema à perfeição com a Companhia das Índias Orientais e a das Índias Ocidentais.
Essa primeira fase é definida como mercantilismo, uma doutrina de “guerra econômica” que concebia o comércio como a maior acumulação possível de metais preciosos. O Estado deveria esforçar-se para aumentar as exportações e limitar o máximo possível suas importações de bens de consumo.
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Operários em Londres no século XIX: pioneiros da Revolução Industrial, os britânicos defenderam o fim das barreiras alfandegárias
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A economia colonial foi reduzida à produção de matérias-primas e ao monopólio do transporte marítimo; os países aceitavam apenas embarcações próprias em seus portos; os bens estrangeiros tinham tarifas aduaneiras exorbitantes ou simplesmente eram proibidos.
Foi dessa forma que a Inglaterra atingiu com força o comércio dos Países Baixos com seu Ato de Navegação de 1651, que proibia quase totalmente a circulação de produtos holandeses na França.
“Apenas a força das armas é capaz de romper as barreiras do protecionismo”, assinala o historiador francês Michel Mourre (1928-1977) em seu Dicionário da história. “Como as colônias eram fechadas para outros países, a única solução para ampliar o comércio de um país era conquistar as colônias dos adversários: o primeiro império colonial francês passou às mãos da Inglaterra em 1763, da mesma forma que o Império Português na Indonésia foi anexado pelos holandeses no início do século XVII, e que os britânicos e americanos favoreceram a independência das antigas colônias espanholas na América no início do século XIX”.
A partir de 1750, houve uma reação intelectual contra o mercantilismo. Os fisiocratas, que defendiam a ordem da natureza na filosofia e o livre comércio no plano econômico, lançaram a fórmula “laissez faire, laissez passer”, símbolo do liberalismo: “deixe fazer, deixe passar”.
Justamente nessa nova etapa da história, a Inglaterra entrava na Revolução Industrial e via o mundo abrir-se para suas manufaturas. Em 1786, foi dado um primeiro passo em direção à livre troca com o tratado de comércio franco-inglês. O acordo igualava as tarifas do vinho francês importado pela Inglaterra às do vinho português.
As taxas sobre os tecidos de algodão e lã inglesa não ultrapassavam os 12% na França, enquanto as de alguns bens de consumo não chegavam a 10%. O comércio entre França e Inglaterra triplicou em três anos, embora milhares de franceses vissem as medidas como a ruína da indústria nacional.
O período de prosperidade comercial não durou muito. Com o Bloqueio Continental, Napoleão Bonaparte retomou as políticas protecionistas. Exigiu o fechamento de todos os portos ao comércio inglês. Depois de 1815, os grandes proprietários de terra e indústrias impuseram uma tarifa alfandegária proibitiva à importação de fibras e tecidos de algodão e uma taxa de 50% sobre o ferro.
A Inglaterra, ainda sim, seguiu no caminho da liberalização do comércio. Sob pressão de militantes agrupados em campanhas de barateamento de alimentos, os britânicos aboliram as taxas de importação sobre o trigo. É verdade que em 1850 o Reino Unido respondia por 18% das trocas comerciais do mundo, como observa o estudioso da história econômica Michel Rainelli, em seu livro A organização mundial do comércio: “O país dominante tem todo o interesse no livre comércio com a finalidade de importar produtos por preços baixos e assegurar a exportação de seus produtos à maior fatia do mercado possível”.
Esse contexto perdurou até que, contra os industriais franceses, Napoleão III assinou o acordo de livre comércio com a Inglaterra, em 1860 – o primeiro na história a conter a seguinte cláusula: quando um país faz um novo acordo comercial, este beneficia também as nações que possuíam tratados com esse país. Essa disposição tornou-se uma tendência em poucos anos e regulou acordos entre outros países europeus no século XIX.
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Wall Street, 1929: a quebra da bolsa americana levou a uma retomada do velho protecionismo alfandegário lidderada pelos EUA
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Novamente, o livre comércio teve vida curta. Entre 1880 e 1913, houve um retorno geral ao protecionismo, à exceção da Grã-Bretanha, Holanda e Dinamarca. Os Estados Unidos quiseram incentivar o crescimento de suas próprias indústrias, ideia clamada de forma profética pelo presidente americano Ulysses Grant e citada no primeiro volume de A mundialização da economia, de Jacques Adda: “Durante séculos, a Inglaterra pôde beneficiar-se de um regime de proteção. Esse país reconsiderou seu sistema e adotou o livre comércio, pois o protecionismo não lhe servia mais. Então, o que sei sobre meu país me faz deduzir que daqui a dois séculos, quando os Estados Unidos terão aproveitado tudo o que puderem de um sistema de proteção, adotarão o livre comércio”.
As tarifas aduaneiras, semelhantes às que hoje conhecemos, foram instauradas em 1890. Na França, a pressão veio dos agricultores, ameaçados pelas importações provenientes dos Estados Unidos, Canadá e Rússia. Às vésperas da Primeira Guerra Mundial, a Inglaterra, 12º parceiro da Alemanha em importações e exportações, permanecia como a maior potência comercial do mundo, mas nos primeiros anos do século XX a Alemanha quase a alcançou nas exportações de produtos manufaturados.
De 1880 a 1913, o comércio britânico aumentou em cerca de 100%, o americano, 189%, e o alemão, 266%, como observa o historiador Michel Mourre. No fim da guerra, não houve armistício aduaneiro. Apesar do terceiro dos 14 pontos do presidente dos Estados Unidos Woodrow Wilson, que previa “a suspensão mais completa possível das barreiras econômicas e o estabelecimento de condições de igualdade comercial entre todas as nações”, os países nascidos do desmantelamento dos antigos impérios da Europa central pelo Tratado de Versalhes, como Iugoslávia e Polônia, se protegeram atrás de barreiras aduaneiras.
Uma conferência da Sociedade de Nações de 1927 recomendava a diminuição das tarifas alfandegárias e a abolição de cotas restritivas, mas tudo isso foi abalado pela crise de 1929, quando os americanos, seguidos dos franceses e ingleses, aumentaram os impostos aduaneiros, enquanto o sistema monetário global vinha abaixo.
“Foi preciso esperar o fim da Segunda Guerra Mundial – quando os Estados Unidos se tornaram hegemônicos – para que as nações se preocupassem com o restabelecimento do sistema econômico mundial e a ideia de cooperação internacional ganhasse espaço”, explica Rainelli.
(C) Andy Clarck / Reuters / Latinstock![]()
Protestos em Seatlle contra a reunião da OMC em 1999: instituições hoje criticadas já foram consideradas a salvação para crises do passado
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As grandes instituições, hoje criticadas, nasceram naquele momento. Em julho de 1944, em Bretton Woods, um centro de convenções de New Hampshire a alguns quilômetros da fronteira canadense, 44 nações criaram o Fundo Monetário Internacional (FMI), encarregado de zelar pelas moedas. O Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento (Bird, atual Banco Mundial) tinha como incumbência financiar as economias devastadas pela guerra.
Então, começou-se a projetar o que seria a Organização Internacional do Comércio, integrada às Nações Unidas: 23 países se reuniram em Genebra em outubro de 1947 e estabeleceram um acordo geral sobre as tarifas aduaneiras e o comércio mundial (o Gatt, na sigla em inglês). Em 38 artigos, o documento reduziu os obstáculos às trocas internacionais.
Regras de “boa conduta” foram então decretadas. O dumping e as cotas de exportação foram condenados. As subvenções, regulamentadas. Os serviços e os produtos agrícolas e têxteis, entre outros, ganharam regimes especiais. Em casos de desacordo, especialistas passaram a propor arbitragens, em geral acatadas.
O Gatt organizou ciclos de negociações. O primeiro round, em Genebra, em 1947, resultou em 45 mil reduções tarifárias. Em Annecy, entre abril e agosto de 1949, 13 países chegaram a um novo acordo com outras 5 mil reduções. Em Torquay, Inglaterra, de setembro de 1950 a abril de 1951, 38 nações reduziram os impostos alfandegários em 25% se comparados aos de 1948.
E assim se seguiram novas liberações, com um número cada vez maior de países. Até que no dia 1o de janeiro de 1995, o Gatt foi substituído pela OMC.
Bretton Woods e a engenharia da crise
Fundo Monetário Internacional, Washington![]()
O encontro: as potências ocidentais lançaram as bases de órgãos como o FMI e o Banco Mundial
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Um ano antes do fim da Segunda Guerra Mundial, em julho de 1944, a aliança de países em guerra contra Alemanha, Itália e Japão se reuniu na pequena cidade de Bretton Woods, nos Estados Unidos, para tentar dar novo rumo às suas economias, desorganizadas pela sucessão de conflitos e crises da primeira metade do século XX.
Até então, os países trabalhavam com o padrão-ouro, já mitigado desde a Primeira Guerra, mas ainda válido para as instituições financeiras, em associação com políticas cambiais. Em Bretton Woods, o desafio era criar instituições internacionais que regulassem esses sistemas, com regras comuns aos 44 países participantes do encontro, todas negociadas.
Um dos muitos aspectos diferenciados dos acordos firmados foi justamente restringir, na prática, a soberania das nações envolvidas – nunca antes tantas diferentes nacionalidades haviam se mostrado dispostas a sofrer, voluntariamente, alguma forma de controle.
Sob a inspiração das ideias do economista John Maynard Keynes, a conferência teve uma segunda marca: a liderança dos Estados Unidos, já muito clara em todo o mundo, como resultado dos negócios gerados pela guerra e do senso de oportunidade dos americanos, enquanto a Europa era destroçada nos confrontos com o nazismo.
Bretton Woods não teve resultados práticos tão ambiciosos quanto as ideias lá apresentadas, que influenciariam toda a economia do século XX e uma parte do século XXI – a busca de pleno emprego, de crescimento contínuo, de reconstrução e de relações internacionais orquestradas por órgãos multilaterais, visando objetivos comuns. Tudo por medo da repetição do quadro de depressão pós-crise de 1929.
Mas desse colóquio resultaram organismos como o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Mundial (Bird) e um esboço da futura Organização Mundial do Comércio (OMC), depois de apenas três semanas de debates – embora muitas negociações tenham se travado nos meses anteriores, preparatórios da conferência.
A genialidade de Keynes se deve, entre muitas outras coisas, a seu senso de oportunidade. Ele se dedicou a formular um conjunto de medidas de reconstrução no pós-guerra ainda durante o conflito, vinculando políticas e reformas institucionais internas dos países que lutavam contra o eixo nazifascista a organismos reguladores globais, capazes de direcionar o desenvolvimento a um conjunto de objetivos ao qual nação alguma do bloco capitalista poderia se opor, sob risco de perder oportunidades de negócios e cair no isolamento em termos de comércio e transações financeiras – ou ficar sem apoio e ajuda em caso de crises de liquidez e outras relacionadas ao delicado momento vivido pelo mundo na década de 1940.
Seu plano original sofreu transformações e reduções, como fruto da delicada negociação. E o cenário político de desigualdade de força dos países envolvidos – os Estados Unidos foram líderes absolutos nesse processo – deixou cicatrizes e desigualdades. De tempos em tempos, como nos atuais, o mundo questiona estatutos, prescrições, dinâmicas, legitimidade, representatividade e interesses das instituições mundiais, que carecem de independência, políticas claras e capacidade de formulação para além dos receituários do século XX, em geral contracionistas.
Christophe Courau é historiador e jornalista.
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| Revista História Viva |
sexta-feira, 30 de novembro de 2012
Uma pequena história do comércio planetário
terça-feira, 27 de setembro de 2011
Guerra dos Boxers

Rainer Gonçalves Sousa
sábado, 26 de março de 2011
As origens do mal
Edilson Adão Cândido da Silva9 de fevereiro de 2011Carta na Escola
sexta-feira, 5 de novembro de 2010
O Imperialismo, Hoje

Pablo González Casanova
Ex-reitor da Universidade Nacional Autônoma do México.
No fim do século XX, o imperialismo, que é a formação mais avançada do capitalismo, domina no mundo inteiro, com exceções como Cuba, muito pouco explicadas na teoria das alternativas.
Desde os anos 1970 e 1980, as redefinições ou reestruturações do imperialismo deram uma força especial ao processo conhecido como “globalização”.
Sob esse processo se delinearam as novas formas de expansão das grandes potências, em particular dos Estados Unidos.
Na década de 1970, os Estados Unidos tomaram a ofensiva no controle mundial ao impor o dólar em vez do ouro, que até então tinha sido o referente de todas as moedas. Os Estados Unidos, juntamennte com a Europa e o Japão, formaram uma Tríade (que o primeiro país encabeçou) e com ela promoveram uma política de endividamento interno e externo dos governos que enfrentavam uma crise fiscal crescente ou uma crise na balança de pagamentos.
Suas principais vítimas foram os governos dos países dependentes,
incapazes de alterar a relação de intercâmbio desfavorável, ou o sistema tributário regressivo, e coagidos ao mesmo tempo a satisfazer demandas populares mínimas para manter sua precária estabilidade. A política global de endividamento dos poderes públicos e nacionais renovou o velho método de submissão dos devedores pelos credores, e ocorreu em nível macroeconômico mundial, incluindo muitos governos das cidades metropolitanas. O processo de endividamento correspondeu ao desenvolvimento de um capitalismo tributário e à submissão financeira renovada dos países dependentes. Com taxas de juros móveis, que podiam aumentar à discrição do credor, a política de globalização impôs um sistema de renovação automática de uma dívida crescente e impagável que fez da dependência um fenômeno permanente de colonialismo financeiro, fiscal e monetário.
Desde 1973, após o golpe de Estado de Pinochet, implantou-se no Chile o neoliberalismo. Desde os anos 1980, o neoliberalismo se converteu na política oficial da Inglaterra, com Thatcher, e dos Estados Unidos, com Ronald Reagan. As forças dominantes enalteceram o neoliberalismo como uma política econômica de base científica e de aplicação universal, reafirmando e renovando a ofensiva anglo-saxã, que desde o século XVII impulsionara a Inglaterra, sob o manto do liberalismo clássico, a aproveitar as vantagens que o fato de ser o país mais industrializado lhe dava no comércio mundial.
A globalização neoliberal iniciada no fim do século XX também teve como objetivos centrais: a privatização dos recursos públicos; a desnacionalização das empresas e patrimônios dos Estados e povos; o enfraquecimento e a ruptura dos compromissos do Estado social; a “desregulagem” ou supressão dos direitos trabalhistas e da previdência social dos trabalhadores; o desamparo e a desproteção dos camponeses pobres em benefício das grandes companhias agrícolas, particularmente as dos Estados Unidos; a mercantilização de serviços antes públicos (como a educação, a saúde, a alimentação, etc.); o depauperamento crescente dos setores médios; o abandono das políticas de estímulo aos mercados internos; a instrumentação deliberada de políticas de “desenvolvimento do subdesenvolvimento” com o fim de “tirar do mercado” globalizado os competidores das grandes companhias.
O neoliberalismo globalizador exportou a crise para as periferias do mundo ao mesmo tempo em que se apropriou dos mercados e meios de produção e serviços que tinham sido criados no pós-guerra, substituindo os que não fossem rentáveis e estabelecendo um neocolonialismo cada vez mais acentuado e repressivo, em que compartilhou os lucros com as oligarquias locais, civis e militares, e negociou com elas privatizações e desnacionalizações para associá-las ao processo.
A negociação, como concessão, cooptação e corrupção, adquiriu características macroeconômicas e esteve constantemente vinculada a novos fenômenos de paternalismo, de humanitarismo caritativo, de cooptação e corrupção de líderes e clientelas, fenômenos que abarcaram até mesmo as populações mais pobres e castigadas, contra as quais se preparou um novo tipo de guerra chamada de baixa intensidade, com o emprego de contingentes militares e paramilitares, e com as mais variadas formas de terrorismo de Estado por conta das “forças especiais”, encarregadas de “operações encobertas” realizadas por agências governamentais, ou por agentes subsidiados e contratados pelas mesmas. Os negócios da droga aportaram contribuições milionárias na montagem de um teatro de confusões e à perda de sentido das lutas alternativas. Também serviram para consegur a criminalização, real ou fingida, de líderes e movimentos populares, sistêmicos e anti-sistêmicos.
Nos anos 1990, a guerra econômica entre as grandes potências substituiu o projeto de governabilidade do mundo pela Trilateral. Os Estados Unidos subjugaram em poucos anos o Japão e os Tigres Asiáticos. O grande capital impôs uma política de apoio fiscal, político e militar crescente aos contribuintes mais ricos, muitos deles possuidores dos bancos e das megaempresas, amiúde também integrantes dos altos cargos públicos e das velhas e novas elites dominantes. Os privilégios para o grande capital legalizaram formalmente a apropriação de recursos públicos e privados no centro e na periferia do mundo capitalista, incluindo o direito a especulações gigantescas como a que esteve a ponto de falir o Banco da Inglaterra.
Passados pouquíssimos anos do início do processo, o complexo militar-empresarial dos Estados Unidos, expressão máxima do capitalismo organizado dominante, confirmou que suas mediações, instituições e recursos de dominação ideológica, política e econômica tinham chegado a um ponto de crise ameaçadora ao seu domínio e interesses. Isso o levou a endurecer sua política e empreender novas ações que lhe permitissem se manter na ofensiva e ampliar sua situação de privilégio.
A crise das mediações do capitalismo organizado se manifestou: em um crescente desprestigio de seu projeto de democracia de mercado; nos graves escândalos de corrupção de que foram atores os principais gerentes e proprietários das megaempresas – supostamente mais honrados do que os funcionários populistas e socialdemocratas dos governos dos Estados “minimizados”; no insuportável mal-estar de uma cidadania sem opções, aprisionada entre os mesmos programas e políticas de democratas e republicanos, e vítima da insegurança social e do desemprego em ascensão; da deterioração e da insuficiência das escolas públicas; da falta de serviços médicos e de remédios; da criminalidade generalizada em zonas urbanas e rurais. As eleições fraudulentas e elitistas em que Bush perdeu a presidência dos Estados Unidos por 500.000 votos e pouco depois a ganhou pela decisão de uma minoria de quatro juizes a favor e três contra, foram o ponto de partida de um processo de lógica totalitária em que as mentiras não são ditas para que se acredite nelas mas, sim, para que sejam obedecidas. E como à crise de instituições e de mediações se somou o perigo de uma recessão que não cedia, os Estados Unidos levaram a Europa à guerra econômica com a qual já tinham controlado o Japão. Ao mesmo tempo, aceleraram uma ofensiva geopolítica mundial que já tinham iniciado anos antes. Com a invasão do Iraque culminaram suas intervenções na Europa Central (Kosovo), na Ásia Central (Afeganistão) e no Oriente Médio, esta última por conta de Israel, um elemento da estratégia militar do “Ocidente” cada vez mais instrumentalizado pelos Estados Unidos. Dez anos de bombardeios contra o Iraque, apoiados pelas próprias Nações Unidas, após debilitar e empobrecer terrivelmente este país, facilitaram a ocupação de seu território e, sobretudo, de suas imensas riquezas petrolíferas. Os Estados Unidos mostraram cada vez mais estar na posição de líder da globalização neoliberal e inclusive fizeram gestos simbólicos e prepotentes que confirmaram seu caráter de “Soberano” que pode estar acima das Nações Unidas para declarar a guerra, da Suprema Corte da Justiça para violar os direitos humanos, dos acordos de Kioto para não assinar um compromisso que os obrigasse a tomar as medidas necessárias para a preservação da Terra.
Revista Tempo
sexta-feira, 30 de julho de 2010
Herbert Spencer - O ideólogo da luta pela vida
Márcio Ferrari (Márcio Ferrari)
Foto: Hulton Archive/Getty Images
Tendo vivido num tempo de grandes avanços científicos, o filósofo inglês Herbert Spencer (1820-1903) foi o principal representante do evolucionismo nas ciências humanas. Ele intuiu a existência de regras evolucionistas na natureza antes de seu compatriota, o naturalista Charles Darwin (1809-1882), formular a revolucionária teoria da evolução das espécies. É ele o autor da expressão "sobrevivência do mais apto", muitas vezes atribuída a Darwin.
O filósofo aplicou à sociologia idéias que retirou das ciências naturais, criando um sistema de pensamento muito influente a seu tempo. Suas conclusões o levaram a defender a primazia do indivíduo perante a sociedade e o Estado, e a natureza como fonte da verdade, incluindo a verdade moral. No campo pedagógico, Spencer fez campanha pelo ensino da ciência, combateu a interferência do Estado na educação e afirmou que o principal objetivo da escola era a construção do caráter (leia quadro na página 58). "Ele dizia que os conhecimentos úteis, que serviriam para formar os homens de negócios e produzir o bemestar pessoal, eram desprezados em favor do ensino das humanidades, que davam mais prestígio", diz a professora Maria Angélica Lucas, da Universidade Estadual de Maringá.
Para Spencer, havia uma lei fundamental da matéria, que ele chamou de lei da persistência da força. Segundo ela, a tendência natural de todas as coisas é, desde a primeira interação com forças externas, sair da homogeneidade rumo à heterogeneidade e à variedade. À medida que as forças vindas de fora continuam a agir sobre o que antes era homogêneo, maior se torna o grau de variedade.
Biografia
Herbert Spencer nasceu em Derby, Inglaterra, em 1820, e desde a adolescência mostrou ter uma personalidade anticonformista. Aos 13 anos, tentou fugir da educação oferecida por um tio que era pastor protestante, mas teve que voltar à escola, onde se manteve até os 16. Depois disso, deu continuidade sozinho a sua formação, com leituras que se concentraram acima de tudo em ciências. Queria ser inventor e acabou, pelo conhecimento que adquiriu sozinho, trabalhando como engenheiro ferroviário. Paralelamente, começou a publicar artigos em que já defendia idéias liberais, argumentando que a ação dos governos não deveria ir além de garantir os direitos naturais dos cidadãos. Em 1848, tornou-se subeditor da revista The Economist, onde trabalhou até 1853, quando recebeu uma herança do tio e passou a se dedicar apenas a escrever livros – atividade que manteve até a morte, em 1903. Spencer relacionou-se com os principais intelectuais ingleses de seu tempo e manteve um romance com a escritora George Eliot (pseudônimo de Marian Evans). Sua obra teve enorme repercussão dentro e fora da Grã-Bretanha. Alguns dos principais livros de Spencer são: Filosofia Sintética (que publicou em série, com pagamento de assinatura antecipada por seus admiradores), O Homem contra o Estado, Educação Intelectual, Moral e Física e Autobiografia.
Conhecer, só pela razão
Baseado nessa observação, Spencer deduziu um princípio para todo desenvolvimento, que é a lei da multiplicação dos efeitos, causada por uma força absoluta que não pode ser conhecida pelo entendimento humano. Tratase, para Spencer, de uma lei da natureza, uma vez que ele se recusava a levar em conta, para efeito científico, a possibilidade de forças sobrenaturais. O filósofo, herdeiro da linhagem empirista britânica e também influenciado pelo positivismo, era agnóstico e combatia a influência religiosa no ensino e na ciência. O próprio termo agnosticismo, para se referir a uma postura filosófica que só admite os conhecimentos adquiridos pela razão, foi criado por um amigo e defensor de Spencer e Darwin, o naturalista Thomas Huxley (1825-1895).
Período vitoriano marca fim de uma era
A rainha Vitória: governante de uma época
famosa pelo puritanismo. Foto: Time Life Pictures /Getty Images
Herbert Spencer foi, com John Stuart Mill (1806-1873), um dos dois mais importantes pensadores ingleses da era vitoriana, e o que melhor encarnou as características tradicionalmente relacionadas ao período. O reinado da rainha Vitória (1819-1901), que subiu ao trono em 1837 e governou até a morte, gerou o adjetivo "vitoriano", ao qual se associam puritanismo, austeridade, otimismo e autoridade. Politicamente, o vitorianismo costuma ser lembrado como um tempo de hegemonia do liberalismo. Na realidade, o período foi bem mais complexo, principalmente depois da década de 1880. A partir dessa época, vieram à tona os contrastes sociais, as revoltas operárias, o questionamento das religiões e do imperialismo e as idéias socialistas, antes mantidas mais ou menos na obscuridade – e que inauguraram uma nova era. O período vitoriano assistiu a um acelerado desenvolvimento científico e tecnológico, com a expansão das ferrovias e do telégrafo. Mas nada se comparou ao impacto da teoria evolucionista de Charles Darwin, que pôs em xeque tanto as explicações religiosas para a criação da vida quanto a idéia de que o ser humano ocuparia posição central no Universo. Um dos méritos do pensamento de Herbert Spencer foi propor novas posturas filosóficas com base nesse conhecimento.
De acordo com Spencer, o processo de desenvolvimento segue a mesma lei em todos os campos, da formação do universo à transformação das espécies. Seu entendimento inicial da evolução biológica se baseava na concepção errônea de que as sucessivas gerações de uma mesma espécie herdam das anteriores as características adquiridas do ambiente. Essa era a teoria do naturalista francês Jean-Baptiste Lamarck (1744-1829), derrubada por Darwin. Ele mostrou que o mecanismo da evolução é a seleção natural, pela qual sobrevivem as variedades animais e vegetais mais adaptáveis às condições ambientais. Tão logo conheceu as conclusões de Darwin, Spencer reformulou sua teoria.
Perfeição industrial
Aplicado à sociedade, o princípio evolucionista universal do filósofo o levou a perceber um processo de individuação permanente, que levaria à crescente divisão do trabalho nos agrupamentos humanos. Desse modo, hordas primitivas e indiferenciadas evoluem para se tornar civilizações cada vez mais complexas, nas quais especialização e cooperação avançam lado a lado. A história dos povos, segundo Spencer, contrapõe sociedades guerreiras, mantidas coesas à força, e sociedades industriais, fundamentadas na competição, mas também na cooperação espontânea.
Ensino dependia da iniciativa privada
Escola britânica do fim do século 19:
novidades da ciência influenciam uma nova mentalidade.
Foto: Hulton Archive/Getty Images
Ao contrário do que acontecia na Europa continental, na Grã-Bretanha do início do século 19 o ensino era um assunto privado. A primeira ingerência pública na educação foi uma resolução aprovada pelo Parlamento em 1802, pedindo aos empregadores que providenciassem instrução para seus funcionários – como não havia obrigação atrelada, o efeito foi nulo. Quando não era paga, a educação britânica dependia da filantropia. Só na década de 1830 o governo passou a reservar uma parte do orçamento para o ensino. Na virada para o século 20, no entanto, quase toda a formação elementar (equivalente ao Ensino Fundamental) já era provida pelo Estado. Herbert Spencer defendeu a escola privada até o fim da vida, porque considerava que a interferência do Estado, sendo igual para todos, poderia sustentar estudantes que não estariam, por natureza, aptos a competir em sociedade. "De acordo com a filosofia spenceriana, seria fatal se o regime da família, em que a solidariedade faz com que o mais apto ajude o menos apto, regulasse a sociedade, onde o que conta é a luta pela vida", diz a professora Maria Angélica. Seguindo outra tradição britânica, Spencer acreditava que a função principal da educação era formar o caráter. Sua defesa do ensino prioritário da ciência tinha o objetivo de fornecer aos jovens um conhecimento sobre o funcionamento da natureza que lhes desse meios de se ajustar às exigências do mundo.
Um prolongamento da dicotomia entre sociedades guerreiras e industriais, para Spencer, seria o contraste entre o despotismo, associado a estágios primitivos, e o individualismo, associado ao avanço civilizador. A sociedade industrial corresponderia, assim, a um aperfeiçoamento natural do sistema econômico e das instituições.
O pensamento de Spencer corresponde a um desejo, muito vivo em sua época, de explicações globais que organizassem os fatos de modo a simplificá-los. No período, foram produzidas numerosas teorias que hoje chamamos de deterministas, por almejarem, no campo das ciências humanas, a exatidão matemática. A noção de que tudo se encaminha para resultados previsíveis e inevitáveis, uma vez que deixadas ao sabor de seu suposto curso natural, levou Spencer e muitos de seus contemporâneos (e também alguns pensadores de outros tempos, anteriores e posteriores) a supor que esses resultados eram também moralmente desejáveis. Nasce daí a idéia, ainda hoje vigorosa, de que a interferência do Estado na vida cotidiana impede os desenvolvimentos considerados normais. "Spencer acreditava que a lei da oferta e da procura devia estender-se da esfera econômica para a esfera educacional", diz a professora Maria Angélica.
Para pensar
Nos dias de hoje, é difícil encontrar seguidores fiéis do evolucionismo de Herbert Spencer, mas muito se fala de uma tendência de pensamento bem semelhante, que é chamada, um pouco caricaturalmente, de darwinismo social. A educação voltada sobretudo para formar jovens competitivos costuma estar relacionada a essa concepção de mundo. Você já pensou até que ponto sua atuação profissional se vincula à idéia de formar jovens para a competição?
Quer saber mais?
BIBLIOGRAFIA
A História da Filosofia, Will Durant, 482 págs., Ed. Nova Cultural.
50 Grandes Educadores, Joy A. Palmer, 310 págs., Ed. Contexto.
Revista Nova Escola
sexta-feira, 14 de maio de 2010
Lobo em pele de papagaio

Lobo em pele de papagaio
O Brasil é o país do samba, do futebol e da cordialidade, certo? Não é o que pensam nossos vizinhos da América do Sul, que nos acusam de imperialismo. A análise fria da história mostra que os hermanos têm alguma razão
por Texto José Francisco Botelho
Em abril de 1866, uma coalizão de países conhecida como Tríplice Aliança invadiu a República do Paraguai e iniciou uma das ocupações mais catastróficas na história das Américas. O objetivo oficial era derrubar o ditador Solano López. Teoricamente, uma cruzada contra a tirania, em nome da liberdade e da civilização – semelhante à guerra que George W. Bush iniciou em 2003. Mas os paraguaios, como os iraquianos, penaram com as conseqüências de sua “libertação”: cerca de 70% da população morreu na guerra e sua economia ficou dependente dos conquistadores. Século e meio depois, nacionalistas paraguaios ainda reclamam que o país foi vítima da maior agressão imperialista na América do Sul. Detalhe: o país-líder da coalizão foi o Brasil.
Se você ficou surpreso ou ofendido com o parágrafo aí em cima, certamente não está só. Para a maior parte dos brasileiros hoje, “imperialista” é um rótulo que combina apenas com os EUA. Mas, entre uruguaios, paraguaios, equatorianos e outras nações vizinhas, o “país do jeitinho” é um colosso que inspira respeito. E revolta – por causa do tamanho, da economia gulosa e da projeção internacional, o Brasil às vezes é visto como um país aproveitador e prepotente. Esse antibrasileirismo tem seu quê de sensacionalista, mas também carrega algumas verdades desconfortáveis. Apesar da fama de cordial e avesso a brigas, o Brasil ganhou seu lugar no mundo, passando de colônia européia a potência emergente, da mesma forma que todos os Estados modernos: a ferro e fogo. Hoje, a projeção do país na América do Sul (e no mundo) atrai críticas ferozes ao lado de elogios entusiásticos. Nestas páginas, você vai conhecer os dois lados do império tropical.
Fronteiras de sangue
O imperialismo é a dominação política ou econômica que um Estado exerce – na marra, se necessário – sobre outros mais fracos. O termo surgiu no século 19, quando nações européias como Inglaterra e França chegaram a dominar 80% do planeta. Exemplos recentes são os EUA e a falecida União Soviética, que cimentaram sua hegemonia financiando golpes de Estado e apoiando ditaduras.
Mas o tipo mais simples e agressivo de imperialismo é mesmo a expansão de fronteiras – e, até um século atrás, o país do samba viveu num sangrento baile territorial com seus hermanos hispânicos. O racha começou antes que os Estados sul-americanos existissem: em 7 de junho de 1494, quando Portugal e Espanha assinaram o Tratado de Tordesilhas, dividindo o mundo “a descobrir” entre as duas nações. A fronteira virtual passava a 2 mil quilômetros de Cabo Verde, exatamente sobre a então inexplorada América do Sul. Após o “terra à vista” de 1500, os portugueses aumentaram sua colônia pelas armas, e o Brasil foi virando o que é hoje: uma enorme ilha lusófona num mar de fala espanhola.
Após a independência, em 1822, o Brasil virou Império até no nome, um Estado poderoso cercado por 9 repúblicas menores. Quase todas assustadas pela proximidade do gigante. Só a então próspera Argentina ousava competir: no século 19, ela disputava com o Brasil a influência sobre os vizinhos. O grande palco desse duelo, que um século depois passaria aos campos de futebol, foi o Uruguai. Em 1821, o país foi invadido pelas tropas daquilo que na época era o Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves – a mentora da operação foi a rainha Carlota Joaquina, nascida na Espanha, que sonhava com um Estado hispano-português cujas terras atingissem o rio da Prata. A independência uruguaia veio em 1828 com a ajuda nada desinteressada de exércitos mandados por Buenos Aires. Décadas depois, Solano López se meteu no tango estratégico: num desafio desastrado ao poderio de brasileiros e argentinos, o paraguaio atacou ambos em 1864. E se deu muito mal: os velhos rivais se uniram, arrastaram junto o satélite Uruguai, rechaçaram Solano e logo invadiram o Paraguai. Depois de saquear Assunção, tropas brasileiras mataram o ditador em 1870. Nesses 6 anos, a destruição foi enorme – cerca de 600 mil paraguaios morreram. “O Paraguai foi o primeiro país na região a ter telégrafos, fornos siderúrgicos e indústria pesada. A guerra destruiu tudo isso”, diz o historiador Fernando Lopez D’Alessandro, da Universidade de Montevidéu. “E não foi por acaso. A Tríplice Aliança tinha a intenção de transformar o Paraguai num exemplo a quem desafiasse sua hegemonia.”
Hoje, muitos historiadores brasileiros acham que a invasão foi uma resposta legítima à agressão de Solano. Os paraguaios, claro, discordam. “O que a Tríplice Aliança cometeu foi um genocídio”, diz o sociólogo Enrique Chase, diretor do Instituto de Comunicação e Artes de Assunção. Após a guerra, o Brasil anexou pedaços do país derrotado e o ocupou até 1876. A economia local nunca se recuperou e até hoje muitos culpam o Brasil pelo subdesenvolvimento do país. Em 2004, grupos paraguaios de extrema esquerda invadiram dezenas de fazendas na fronteira leste do país – propriedades compradas por imigrantes brasileiros, que hoje somam cerca de 500 mil pessoas. O grito de guerra dos invasores não incluía chavões marxistas. Eles gritavam “Brasileños, fuera!”
Nova potência
A hegemonia brasileira foi eclipsada no século 20 pela política externa dos EUA, que engolfou as Américas após a 2ª Guerra. E, por décadas, as reclamações contra o imperialismo verde-amarelo ficaram ralas (exceto no Paraguai, onde o Brasil nunca perdeu a fama de vizinho abusado). Nos anos 80 surgiram novos pólos de força no chamado terceiro mundo. A diplomacia brasileira impôs respeito em 1991, impulsionando a criação do Mercosul, o tratado de livre comércio que inclui Argentina, Uruguai e Paraguai. Foi uma tentativa de desfazer o tal racha sul-americano – e uma jogada esperta contra a supremacia dos EUA, acostumados a tratar a América Latina como seu quintal estratégico.
Por pensar assim, o Brasil era visto como um paladino internacional do terceiro mundo – até o início do século 21. Daí por diante, segundo os críticos, nossas ambições de potência tropical subiram à cabeça. Sintoma disso seria o discurso de Lula ao tomar posse do Planalto em janeiro de 2001: o novo presidente afirmou que o Brasil era o “líder natural” dos vizinhos, espalhando acusações de arrogância aos quatro ventos do Mercosul. Outro argumento para o antibrasileirismo veio no ano seguinte, quando o Brasil se candidatou a um assento no Conselho de Segurança da ONU: oficialmente responsável por manter a paz no mundo, o órgão é acusado de defender só os interesses das grandes potências. E para abrilhantar sua campanha, o Brasil aceitou o comando das tropas da ONU enviadas ao Haiti, sacudido por conflitos civis em 2004. Hoje, muitos analistas vêem na “missão de paz” uma interferência indevida das potências graúdas no pequeno país caribenho – e o Brasil, para fúria dos detratores, está bem no meio da confusão.
Mas as maiores reclamações antitupiniquins pipocam mesmo na arena da economia globalizada. “Com a estabilização da economia nos anos 90, nossas empresas passaram a investir no exterior, principalmente na América Latina e na África”, diz o cientista político Ciro Torres, do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase). Hoje, estamos entre as 12 nações que mais investem lá fora: só em 2006, transnacionais verde-amarelas aplicaram impressionantes US$ 28 bilhões em países estrangeiros. É claro que essa pujança traz suas benesses a regiões pobres – a companhia de construção pesada Odebrecht, por exemplo, emprega hoje mais de 12 mil pessoas em Angola e investe milhões em projetos sociais. Mas, junto à expansão, vêm as críticas. “Em alguns lugares, companhias brasileiras são acusadas de se comportar como as multinacionais americanas, cometendo abusos contra a natureza e os direitos humanos”, diz Torres, que coordena um mapeamento de impactos positivos e negativos de companhias brasileiras no exterior. “Muito disso pode ser boato, mas temos de monitorar a nós mesmos para não ganhar fama de vilões.”
A mais incendiária dessas polêmicas envolve a presença da Petrobras na Amazônia equatoriana. Em junho, a estatal brasileira ganhou uma concessão para extrair petróleo no Parque Nacional de Yasuní, que abriga diversas nações indígenas e é uma das regiões de maior biodiversidade do planeta segundo a ONU. O projeto de abrir estradas e cavar poços no santuário ecológico despertou a ira de ambientalistas e indígenas. Em outubro, dezenas de índios vestindo cocares de plumas marcharam em frente ao palácio do governo, em Quito, exigindo que a petroleira canarinho volte para casa. A Petrobras disse à Super que o local é mesmo uma jóia ecológica e que tecnologias de ponta serão usadas para não prejudicá-lo – mas esses argumentos não aplacam os críticos. “A lei brasileira proíbe a exploração de petróleo em reservas indígenas – ou seja, a Petrobras está fazendo aqui o que não pode fazer aí”, diz o equatoriano Javier Leon, da ong Acción Ecológica. “A concessão só ocorreu porque a influência do governo brasileiro é muito forte. O Brasil está criando sigilosamente um pequeno império no hemisfério sul”, acusa Leon. Mas será o impávido colosso tão malvado como pintam? Na dúvida, leia os exemplos a seguir.
O malandro, o caubói e o caudilho
Em 2006, o recém-eleito Evo Morales nacionalizou o gás boliviano e ocupou com soldados as plantas da Petrobras no país. Em vez de chiar, o Brasil deu tapinhas malandros no ombro do enfezado vizinho – e, em 2007, o ministro brasileiro das Relações Exteriores foi negociar um acordo mais favorável à Bolívia. Tudo resolvido com jeitinho. Já em 1953, quando um primeiro-ministro iraniano expulsou do país uma petroleira ocidental, a CIA organizou um golpe de Estado, acabou com a nascente democracia do país e colocou no poder um ditador-fantoche, acendendo o estopim do antiamericanismo no Oriente Médio. E o resto você sabe.
Aliás, para encontrar imperialistas mais truculentos que o Brasil, nem é preciso ir à América do Norte. O venezuelano Hugo Chávez, que hoje batalha um lugar no Mercosul, cultiva tentáculos políticos nada sutis. Um exemplo: em outubro, o embaixador da Venezuela em Buenos Aires foi acusado de financiar grupos chavistas, que, segundo a mídia argentina, somam 30 mil militantes no país. A Venezuela, por sinal, tem disputas territoriais com o Suriname e a Guiana – em novembro, o exército venezuelano foi acusado de atravessar a fronteira e disparar tiros contra navios guianeses. Até 2020, o governo de Chávez planeja investir US$ 60 bilhões nas Forças Armadas, o que tornaria a Venezuela a maior potência militar da América Latina. “Chávez não é de esquerda nem de direita. É um caudilho”, opina o historiador Marco Villa, da Universidade Federal de São Carlos. Caudilhismo alimentado pelos lucros do petróleo – afinal de contas, a Venezuela é um dos maiores exportadores do mundo. Por isso, a descoberta em novembro das mirabolantes jazidas de Tupi, com seus estimados 8 bilhões de barris de petróleo tinindo de fresco, lança uma sombra na camaradagem entre os governos brasileiro e venezuelano. Com Tupi na manga, o Brasil em alguns anos pode ser não apenas um dos maiores produtores das Américas mas do mundo.
Tudo isso acaba numa pergunta: o Brasil pode ser uma “potência não imperialista”? “Sim. Se o Brasil fosse mesmo imperialista, é claro que não teria tratado a Bolívia com tanta brandura em 2006”, responde o geógrafo Diego Pautasso, do Núcleo de Estudos de Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Ele está entre os estudiosos que apontam na potência tupiniquim o sintoma de uma nova e bem-vinda ordem mundial. “O modelo da superpotência global, que impõe sua vontade a todos, está obsoleto. O futuro será das potências regionais, que servem de carro-chefe a suas regiões e negociam em vez de mandar. Se ganharmos um assento no Conselho de Segurança da ONU, a América Latina pela primeira vez terá voz ativa na política internacional.” Lá em Montevidéu, o historiador Fernando Lopez D’Alessandro escutou a mesma pergunta e opinou: “A projeção do Brasil pode ser bem-vinda, desde que não seja egoísta e arbitrária”. Ou seja, desde que o Brasil não seja um caudilho. Ou um caubói.
Liderança gente fina na África
Se os sul-americanos nos olham com desconfiança, os africanos que falam português adoram tudo o que é brasileiro
Se entre os vizinhos sul-americanos o Brasil amarga fama de imperialista, a situação é bem outra na África lusófona – que inclui Moçambique, Angola, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Guiné Bissau, países colonizados por Portugal. “Nessa região, o Brasil tem uma imagem muito positiva. É um país de economia forte o bastante para ajudar os mais pobres e, por outro lado, nunca colonizou nem explorou a África. Por isso os africanos preferem ajuda e investimentos brasileiros no lugar dos europeus”, diz o historiador Fernando Seffner, da UFRGS, que viajou 12 vezes a Moçambique em projetos de cooperação acadêmica entre o Brasil e seus primos africanos. O império verde-amarelo está deixando sua marca não apenas nas empresas brasileiras que investem nesses países mas também no idioma. Até o início do século 21, o português falado na África era muito semelhante à versão européia. Mas isso está mudando – nos últimos 7 anos, os moçambicanos substituíram palavras como “autocarro” e “telemóvel” por “ônibus” e “telefone celular”. Tudo graças às novelas brasileiras que dominam a programação das televisões locais: a Record, por exemplo, têm 9 retransmissoras espalhadas pela África. E o maior mercado público de Luanda, capital de Angola, foi batizado em homenagem a um clássico das telinhas tupiniquins: chama-se Roque Santeiro.
A conquista do oeste
Nosso mapa triplicou desde 1500. E não foi na base da amizade
Séc. 16
O Tratado de Tordesilhas, de 1494, traçou um meridiano dividindo o mundo entre os portugueses (que teriam África e Ásia) e os espanhóis, que seriam donos de toda a América, menos este pedaço: o Brasil.
Séc. 18
Os colonos luso-brasileiros empurraram a fronteira para o oeste. Os espanhóis só resistiram de fato no sul do país, área que até hoje é meio “castelhana”.
1822
Em 1821, o Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves incorporou o território ao sul do Rio Grande. Com a Independência, um ano mais tarde, a região passou a ser conhecida por província Cisplatina ou Oriental (por ficar a leste do rio Uruguai). A guerra de emancipação do Uruguai terminou em 1828.
1889
À época da Proclamação da República, o Brasil havia conquistado do Paraguai parte do que é hoje o estado do Mato Grosso do Sul. O oeste de Santa Catarina (e parte do Paraná), entretanto, permaneceria uma área de litígio com a Argentina até a década de 1940, quando foram definidas as fronteiras dessa região.
2008
No mapa atual do Brasil, há o aumento do Amazonas e a incorporação do estado do Acre, que antes pertencia à Bolívia. Essa anexação, por sinal, foi uma exceção pacífica na expansão territorial brasileira: foi pago um bom dinheiro (e não um cavalo, como disse Evo Morales) pelo território.
sábado, 1 de maio de 2010
Civilizados, Bárbaros, Europeus Três homens de letras em face do inimigo - 1914-1925

Yaël Dagan
EHESS- CRN (Centre de Recherche Historique). Boulevard Raspail 105, 75 014 - Paris, France. yaeldagan@pobox.com
Em um discurso pronunciado em Paris, diante da Academia de Ciências Morais e Políticas, em 8 de agosto de 1914, o filósofo Henri Bérgson deu sua versão da guerra que se desencadeava: "a luta engajada contra a Alemanha é a própria luta da civilização contra a barbárie".2 Esta fórmula estabeleceu o eixo principal do discurso dominante sobre a Grande Guerra, na França. Se o ódio ao inimigo é constitutivo de uma situação de conflito, a representação do inimigo como bárbaro, ameaçando a civilização, leva à sua desumanização radical, e sublinha o car áter total que a Grande Guerra teria, desde o princípio.3
A história cultural, ao contrário da antiga história das idéias, se interessa pelos sentimentos, e tenta lhes restituir o justo lugar no conhecimento do passado.4 A história dos intelectuais, ao contrário da história intelectual, se interessa pela vida dos "profissionais da manipulação dos bens simbólicos",5 em todas as dimensões, partindo do princípio de que "as idéias não passeiam nuas pela rua".6 A Grande Guerra é um excelente laboratório para o estudo dos sentimentos dos escritores, um período que a posteridade muitas vezes ocultou, por considerá-lo apenas um parêntesis.
Proponho-me, aqui, a seguir três homens de letras, escritores e críticos literários - André Gide, Jean Schlumberger, e Jacques Rivière -, durante o período menos conhecido de suas vidas: o da Primeira Guerra Mundial, e o do imediato pós-guerra. Entre os três, somente André Gide é hoje reconhecido como um grande escritor, que marcou seu tempo. Schlumberger e Rivière se ligam a Gide por um projeto comum: La Nouvelle Revue française (La NRF), uma revista literária que atingiu, no entre- guerras, um status hegemônico no mundo literário francês.7 A revista foi fundada por Gide e cinco outros escritores, em 1908; Schlumberger foi um dos "pais-fundadores". Rivière, o mais novo, se juntou ao grupo, em 1909, começando sua carreira literária como crítico. A partir de 1912, ele foi secretário da redação da revista.8 A revista pára de ser publicada em 1914, e, quando ela reaparece, em 1919, Rivière se torna seu diretor. No entre-guerras, o espírito de Gide continua pairando sobre a revista, onde ele é um de seus escritores mais venerados, e um colaborador importante. Schlumberger continua, também, a fazer regularmente notas críticas e textos literários. Esses últimos são, ao mesmo tempo, acionistas da sociedade que edita a revista, da qual Gaston Gallimard é o gerente. Gide, Schlumberger e Rivière formam o núcleo duro da revista, e encarnam a continuidade entre o pré e o pós-guerra, a despeito da interrupção de 1914 a 1919.
A questão do ódio ao inimigo e de suas representações, no percurso desses três escritores, será examinada no período de 1914 a 1925. Esse decênio se distingue por duas comoções: a passagem da paz à guerra, em agosto de 1914, que foi brusca e dramática; e, com a vitória, a passagem da guerra à paz. Esta segunda comoção não foi menos profunda que a primeira. Nessa dupla passagem - da paz à guerra, e depois, da guerra à paz -, a representação do inimigo nacional foi o elemento central do sistema de representações do período. O estudo do modo com que essa construção coletiva se inscreveu concretamente na biografia desses três escritores pode esclarecer não somente a história de La NRF, a despeito da interrupção da guerra, mas, também, o mecanismo de mobilização e desmobilização culturais (que se encontram no coração da Primeira Guerra Mundial, e até de outros conflitos contemporâneos), no qual o ódio ao inimigo aparece como um elemento constitutivo.9
Mobilizações e brutalizações, 1914-1918
NA mobilização, em corpo e espírito, dos intelectuais para a guerra é um fenômeno bem conhecido pelos historiadores da Grande Guerra. Ela é conhecida, sobretudo, sob o ângulo da contribuição à propaganda e, na retaguarda, pela manutenção da moral.10 Menos conhecida é a mobilização silenciosa de numerosos escritores que apoiavam a guerra, seja como soldados, seja na retaguarda.11 Gide, Schlumberger e Rivière entram nessa categoria, pois, quando sua revista deixa de existir, eles são privados de tribuna. Contudo, seus escritos íntimos - diários, cadernos e correspondências - trazem o traço de sua mobilização patriótica.
Gide: a busca da ordem
Os leitores de André Gide, muitas vezes, se surpreendem quando ficam a par da maneira como ele recebeu a guerra. Autor libertário de L'immoraliste, inimigo da família e da ordem, Gide atravessa a guerra do modo mais conformista, e não resiste à agitação nacionalista. Tendo 45 anos, em 1914, ele não é mobilizável. Esta posição lhe é, moralmente, muito desconfortável: "sem dúvida, àqueles que estão mobilizados, o porte dos trajes militares autoriza uma enorme liberdade de pensamento. Em nós, que não podemos vestir o uniforme, é o espírito que se mobiliza";12 reconhece ele, em seu diário. Ele procura, portanto, se engajar civilmente, e, de outubro de 1914 a março de 1916, passa seus dias na co-direção do Foyer franco-belga, constituído, em Paris, para acolher os refugiados franceses e belgas, que fugiram das zonas ocupadas pelos alemães. "Eu compreendo pouco a pouco aqueles que, durante essa crise extraordinária, preocupam-se em desarrumar o menos possível a sua vida. Não duvido que os acontecimentos não os eliminem, como aos elementos não assimilados",13 escreveu Gide a Schlumberger, no início de 1915. Durante esse período, Gide confidencia, em seu diário, sua visão exaltada de uma guerra regeneradora, que ele cria estar vivendo. A guerra é descrita como uma "chance imensa, essa vantagem. que se é necessário agarrar "intrepidamente"; ela seria o "cataclisma" que, "no secreto de nossos corações, desejamos"; vinda "do profundo da humanidade, ela seria o grande golpe de vento que varreria a impureza".14
A "guerra regeneradora" deita suas raízes no tema da decadência, muito divulgado no fim do século XIX, e ao qual Gide retornou, às vésperas da guerra.15 Essa visão de uma decadência nacional, que somente a guerra poderia frear, é um dos fios condutores que ligam o pré-guerra à guerra, que explicam porquê a guerra foi amplamente aceita pelos escritores. Ela se inscreve em um movimento paradoxal de idéias e de sentimentos que caracterizariam os anos 1910, nos quais La NRF exerceu o papel tanto de reveladora, quanto de incitadora.16
Mas, essa visão sofre uma erosão, à medida que a guerra se prolonga. O que ocorre, sem dúvida, por ela contrastar com a experiência cotidiana de Gide, que consiste em levar auxílio aos infelizes que perderam tudo, em razão da invasão; um trabalho paciente e sem glória. O otimismo que o dominou, no início da guerra, não resiste à prova de uma guerra longa e mortífera. Assim, Gide começa a desenvolver, em seu diário, uma "teoria" da superioridade alemã. Com efeito, a guerra seria regeneradora para a França, na medida em que ela a forçaria a se rejuvenescer, a se modernizar. A ação, a juventude, a virilidade são os valores que a França deveria seguir, para se salvar. Indo ao mais fundo dos seus sentimentos, ao admitir viver uma guerra que dá a luz à "modernidade", Gide é forçado a reconhecer os méritos desta na Alemanha, e não na França. Pois, segundo ele, é justamente a Alemanha que dá, na guerra, a demonstração das forças da modernidade, da juventude, e da virilidade. Daí, a passagem à valorização do país inimigo é lógica: "Parece-me, também, que o massacre não tem a mesma significação para o povo que se rarefaz, que para um povo muito prolífico. A Alemanha que sangra uma aldeia sabe que pode repovoá-la; o excesso de população convida ao massacre; é necessário criar" um lugar "diante de si mesmo".17 A França, em compensação, devastada pelo alcoolismo, é um "país que não sabe mais se defender". Esta é a razão pela qual Gide pode se apresentar como favorável à "idéia germânica do golpe de charrua: supress ão dessa população corrompida, incurável, intratável - não resta mais que a suprimir. Chamamos de crueldade essa medida de ordem sanitária. (...) Nesse caso, vale mais se deixar invadir: ser salvo".18 Ainda que essa germanofilia se aproxime, ás vezes, do derrotismo, ela não é o fruto de um pacifismo, mas de uma admiração das virtudes dos alemães:
No passo em que vamos, se formará, dentre em pouco, um partido germanofilico na França, que de modo algum será recrutado entre os anarquistas e os internacionalistas, mas sim entre aqueles que se virão forçados a reconhecer a constante superioridade da Alemanha. Eles julgarão, com razão, que é bom, que é natural, que esta superioridade governe.19
Essas reflexões vão à contra-corrente do discurso dominante da guerra, que faz da Alemanha a encarnação do mal; uma equação várias vezes apresentada e repetida, na qual a França representa a civilização, e a Alemanha, a barbárie. São estas proposições que Gide confidencia apenas a seu diário, não aparecendo em nenhuma de suas cartas. Elas não passariam pelo crivo da censura, caso se tornassem públicas, durante a guerra. Evidentemente, elas são de uma natureza chocante, e podem parecer subversivas. Mas, ao se observar de perto, Gide não faz mais que inverter a equação, ao atribuir um valor positivo à Alemanha, e um negativo à França, inscrevendo-se diretamente nesta linha de representa ção binária. Em seu diário, encontramos, repetidas vezes, a reprodu ção desses lugares comuns mais banais sobre a França e a Alemanha. Da comparação entre as duas culturas nacionais, resulta que os alemães pecam pela "falta de contorno", o que explica ausência de uma pintura digna sobre o outro lado do Reno. Mas, essa falta de contorno é o que lhes dá uma extraordinária capacidade de expansão:
Ela é da família dos fícus, e comparável ao banian (figueira da índia), sem tronco principal, sem definição, sem eixo, mas na qual os raminhos menores (e até mesmo separados do tronco) brotam mais vivos, onde quer que seja, no alto dos braços, embaixo das raízes; e vivem, crescem, prosperam, se desenvolvem e se tornam, por sua vez, uma floresta.20
Sua admiração pela brutalidade e pelas técnicas inspiradas no darwinismo social, aliadas à idéia "germânica", encontra uma justificativa no seu contato com os infelizes do Foyer:
Confesse que, se você estiver tomado pela idéia fixa de uma melhoria possí- vel da raça humana, uma melhoria prática e quase imediata, você não procuraria insanamente prolongar a vida dos malformados, dos corrompidos, dos indesejáveis, etc., nem encorajaria, ou mesmo, simplesmente, permitiria sua reprodução! Para permitir aqui, e se sacrificar ali. Nada mais lógico. Uma vez mais, se procura saber quem merece triunfar.
Quantas vezes, no foyer, cuidando, consolando, protegendo estes pobres farrapos humanos, capazes somente de gemer, enfermos, sem sorrisos, sem ideal, sem beleza, senti se erguer em mim a angustiante dúvida: Merecem eles serem salvos? A idéia de os substituir por outros mais bem sucedidos faz, certamente, parte da filosofia germânica. Esta lógica é, portanto, monstruosa. 21
Este texto extremamente duro ilustra o processo de "brutalização", indicado por George Mosse; segundo este a brutalidade começa pela indiferença crescente com respeito à morte em massa.22 Esse processo de endurecimento, de desumanização, ao longo da guerra, é perceptível em nossa amostragem. No discurso de Gide, a "brutalização" se exprime na desumanização de si mesmo.
Levado por sua admiração pela ordem e pela brutalidade, desencorajado por uma guerra longa e que não traz a vitória, Gide se inquieta, pouco a pouco, com a ameaça da guerra civil e da desagregação interna: "Ai! Vê-se, à hora do perigo, que o edifício inteiro, de alto a baixo, está carunchado, que a sociedade inteira... Mas, para onde eles dirigem os olhos, para não terem que ver a seu redor? Não há um andar do edifício social em que não se constate a insubmissão de alguém",23 exclamou ele em novembro de 1915. Gide se consterna com Romain Rolland, e com a agitação anti-militarista que se forma em torno dele: "Tudo isso trabalha deploravelmente a favor da guerra civil".24 Mais tarde, assim que a Revolução Russa passa à sua fase bolchevique, é o socialismo quem ameaça suscitar a guerra civil.
A busca da "superioridade", da "força", acrescida ao receio de uma guerra civil, o conduz diretamente à Ação Francesa. Durante a guerra, Gide admira nos alemães, e em Maurras, a mesma coisa: a força. "Essa guerra inteira parece uma dar o exemplo disto: que mesmo com as mais belas virtudes do mundo, não se consegue nada sem método. É o que ensina Maurras; e o que a Alemanha põe em prática".25 E, 1917, ele adere ao jornal da liga de extrema direita, e troca elogios com Maurras.26 A adesão provisória de Gide à Ação Francesa ilustra o sucesso do movimento, durante a Grande Guerra, sendo um de seus apogeus.27
Schlumberger: do patriotismo ao nacionalismo
Sofrendo de insuficiência cardíaca, Schlumberger foi reformado, em 1914, aos 37 anos de idade. Levado pela onda solidária de agosto de 1914, ele chegou a se alistar como voluntário, passando os primeiros anos da guerra numa bateria pesada comandada por seu irmão. No início da guerra, seu discurso permanece moderado: confrontado com a realidade do campo de batalha (ele permanece em um posto de retaguarda, mas, não obstante, próximo da linha de frente), ele observa o absurdo da morte em massa e recusa a mistificação da guerra. Contudo, em 1916, ele muda seu sentimento, ao se tornar oficial no centro de informa ções de Réchésy, na fronteira franco-suíça. O contato com os nacionalistas causa o endurecimento de sua postura. Ele se dá conta, em uma carta a Gide, datada de 27 de janeiro de 1917: "Sob a uniformidade do trabalho de cada dia, a vida que levamos aqui continua a ser rica e comovente. No fundo, é a primeira vez que mantenho um contato prolongado com os espíritos nacionalistas (no sentido mais amplo)". Esse contato, admite ele, o comove:
Eu mentiria se quisesse negar que, no mais profundo de mim, se passa uma grande comoção. Meus amigos se aproveitam de meu estado de paixão, de minha ira, do meu desejo de causar dano, para atacar meu ponto de vista tucidiano! Talvez, a formação protestante torne particularmente difícil a ren úncia ao universal... Mas, em que embarco?Quero dizer, é teoricamente difícil, pois praticamente tudo isso foi varrido.28
A referência a "um ponto de vista tucidiano" remete a um ensaio que ele redigiu pouco antes da guerra, Enlisant Thucydide, no qual Schlumberger, sendo "totalmente inapto a reações patrióticas", segundo suas próprias palavras, veria a imparcialidade de Tucídides com uma admiração sem reservas. "A legitimidade desse assentimento total não tinha sido, até o agora, posto à prova", explica ele, em suas memórias. "No entanto, o que a guerra me trouxe de mais positivo foi a descoberta de uma certa fraternidade, nas emoções coletivas. Ela me revela o que se pode ter de salutar nas cóleras nacionais, e de estreito nos julgamentos" acima do conflito...29
Pode-se perceber o endurecimento de Schlumberger através do aumento de sua ira contra a Alemanha. Gide, que, no entanto, está convencido da pertinência dos caracteres nacionais, não chegaria a imaginar um pós-guerra sem a continuação das relações franco-alemãs. Em 1917, ele escreveu a Schlumberger que, depois da guerra, as relações intelectuais entre os dois países prosseguiriam "mais belas e com uma maior" consideração "por parte da Alemanha para conosco, reflexo de uma admiração que nós os constrangeremos a ter por nossas armas. Eles desde já se persuadem de que um povo que os resiste tão heroicamente não é simplesmente o povo superficial que eles gostariam crer".30 Mas, essa carta encontrou Schlumberger com uma disposição totalmente diferente:
Meu velho, (...) encontrei milhares de coisas belas para lhe dizer, em particular para combater esta idéia de que conquistar a Alemanha com nossa arte seja o mesmo que a conquistar. Não, nós a conquistaremos quando vendermos a ela couro e minério; nós a forçamos a passar em nosso caixa, mas, quando a fazemos participar de nossa arte, a convidamos à nossa mesa. É bem diferente. É um ato de polidez e cortesia. No entanto, estamos, atualmente, envolvidos numa vida em que não há outra salvação que uma luta a todo custo. É pouco provável que a paz nos coloque em uma situação assaz brilhante, para que possamos nos permitir a esta sorte de elegâncias. Certamente, importa que traduzamos as obras alemãs sobre metalurgia e química; pois podemos tirar proveito delas; mas, não faremos mais que dar satisfação ao orgulho teuto, quando fazemos conhecido um Dhmel ou um George. A cordialidade artística desempenhou um papel muito sinistro no pré-guerra. Ela foi uma bucha de clorofórmio, destinada a nos adormecer. Não nos exporemos uma segunda vez. Os alemães se aproveitam de nossa arte, como de nossas prostitutas. Mas, se, precisamente todos os nossos esforços tenderem a nos endurecer contra a invasão?.31
O antagonismo anti-alemão de Schlumberger traduz uma lógica defensiva, que está no coração do discurso da guerra de 14-18, na França. Os inimigos são compreendidos como uma ameaça contra os civis, os soldados e, até mesmo, a civilização.32 Assim, ele se opõe categoricamente a todo diálogo com a Alemanha, notadamente no domínio cultural. A luta a todo custo, na qual ele se empenha, implica na manutenção das hostilidades no plano cultural, mesmo após o fim da guerra. Nesse momento, em que Gide vê na guerra uma ocasião para se reabilitar a honra francesa, para, em seguida, se estabelecer um diálogo francoalemão, sobre bases favoráveis à França, Schlumbeger exclui toda possibilidade de reconciliação futura entre os povos.
Rivière: da humilhação ao ódio
Ao contrário de Gide e Schlumberger, Jacques Rivière, com 28 anos em 1914, se mobilizou desde os primeiros anos da guerra, e partiu para o fronte, como sargento de um regimento de reserva da infantaria. No momento da mobilização, ele é arrebatado por um espírito patriótico, e exprime seu consentimento para com o sacrifício. Em 25 de agosto, após apenas três dias de combate, ele é feito prisioneiro, e passa cerca de três anos em um campo de prisioneiros, na Alemanha. Este destino é, para ele, o cúmulo da humilhação, e suas cadernetas de cativeiro portam o traço dessa experiência humilhante, e de seu diálogo com Deus. Em 1° de julho de 1917, liberto, ele se encontra só, em Engelberg, na Suíça, sem sua mulher e sua filha; com as quais, em breve, viria a se reencontrar. Ao sair da missa de domingo, sua primeira enquanto homem livre, ele se comove:
Que Deus me preserve de semear o ódio! Que Deus me preserve de aumentar, o mínimo que seja, a soma do ódio, o capital do ódio! "Semeemos o ódio!", disse um jornal, que li com meus olhos.
Não; mas abafemos o ódio, ajudemos, com todas as nossas forças, a findá-lo. Se eu conhecer qualquer fato que possa contribuir a reinflamá-lo, o calarei cuidadosamente. Se eu tiver qualquer motivo para o sentir, eu o esquecerei. 33
Cristão, o ódio lhe é interdito. Mas, ele reconhece haver sido posto à prova: "Eu conheci o ódio, algumas raras vezes; e cedi a ele, porque acreditei que estaria bem assim, e que esse seria o preço de se ser um homem. Mas, hoje, sei que o ódio é mal, e que não se é homem senão ao preço de não o sentir".34 Pode-se acreditar que Rivière teria dito isto de boa fé, posto que, em 5 de julho, ele escreve a Jacques Copeau:
Pois então, J.[ean] Sch.[lumberger] me escreveu, essa manhã, uma carta que me deu muito prazer, mas onde há alguma coisa que me escandaliza, ou que, ao menos, me intriga fortemente. Ele fala do ódio. É possível possuí-lo ainda? Não sei por mim, e pergunto. Em todo caso, no que me concerne, não sinto mais nenhum. Pelo menos, acho. Ou ele terá dormido, como o resto?35
Mas, a guerra não terminara, e Rivière ainda não está curado de suas seqüelas. Durante o verão de 1917, ele escreve dois textos pacifistas, mas, no início de 1918, ele decide classificá-los como indignos, diante da paz de Brest-Litovsk, firmada entre a Alemanha e a Rússia.36 Como muitos de seus contemporâneos, ele passa, durante o ano de 1918, por uma "remobilização",37 e, retornando à França, em junho de 1918, termina seu livro L.Allemand, souvenirs et réflexions d'un prisonnierde guerre. Esse livro - inscrito na tradição da "psicologia das nacionalidades", muito em voga neste período"38 apresenta o conflito entre a França e a Alemanha como uma luta entre dois temperamentos antagônicos: o Francês, herdeiro de uma tradição clássica; e o alemão, definido por sua "ausência".
No início do livro, Rivière anuncia sua idéia principal. Os alemães são, com certeza, bárbaros, mas não "ao modo dos Hunos". O que os caracteriza não é a violência extrema, mas "a falta de topete: Tome-os bem no início de si mesmos, antes que sua formidável vontade tenha tido tempo de intervir: eles não são nada; eles não desejam, não esperam, não pretendem nada".39 Esta "falta de crista", que Rivière chama também de "indiferença" radical, não é o "fatalismo" eslavo ou oriental, o qual é resignação: "O alemão não curva seus desejos e sonhos diante de um incidente considerado insuperável. A verdade é que eles não têm, de início, nem desejos, nem sonhos; nem amor, nem ódio; nem prazer, nem desgosto; nem paixão de qualquer tipo".40
Deste defeito resulta a incapacidade alemã de distinguir entre o bem e o mal, o verdadeiro e o falso. Paradoxalmente, o alemão se distingue, contudo, por uma extraordinária força de "vontade", posto que o "dever" substitui, neles, a inteligência. Se a primeira parte do livro se apóia sobre anedotas tiradas da experiência de cativeiro de Rivière, na segunda parte, ele reafirma estas observações, e as confronta com uma série de artigos do ensaísta alemão Paul Natorp, acerca do destino nacional da Alemanha, publicados em 1915, na revista Deutscher Wille des Kunstwarts. A impotência analítica da Alemanha produz "o espírito de síntese universal" e "a incapacidade para a contemplação". Daí, Rivière chega à constante da "barbárie alemã":
Podemos ver, nisso tudo que precede, que não me agradam muito as injúrias. Eu tomei, especialmente, o cuidado evitar, pelo maior tempo possível, a grosseira palavra barbárie. Eu mesmo condenei o emprego que dela, correntemente, se tem feito, para estigmatizar certos defeitos dos alemães, que creio terem sido mostrados de uma forma totalmente diferente. Mas, enfim, chegou o momento no qual não posso mais me impedir de soltá-la. Sim, tudo bem refletido, mesmo se o triunfo da Alemanha, mesmo se a revolução do mundo pela Alemanha, viessem representar um progresso material positivo, eu afirmo que isso não poderia ser ao preço de um retorno à mais assustadora barbárie intelectual.41
Certamente, Rivière reconhece as virtudes dos alemães, e, notoriamente, seu talento para a inovação técnica, que se inscreve em sua aptidão para a revolução. Mas, Rivière recusa o vocábulo "civilização" para esse mundo à moda alemã; pois, "se haja, ali, civilização, é necessário, antes de tudo, que haja preferência e cortesia, e que elas sejam definitivas".42
Ao contrário, os franceses são, segundo Rivière, um povo conservador: "É inútil dissimularmos que somos um povo nenhum pouco progressista. (...) O passado nos tem, e nos comanda".43 Seu amor pela França é o amor pelo imobilismo e pelos valores "garantidos".44 Como para Gide, a Alemanha representa a modernidade e a juventude, mas, ao contrário de Gide, Rivière delata estes atributos. O alemão é um ser se formando, uma eterna juventude, e a juventude não é "interessante":
Mas, ninguém pode ser menos interessante. O que há, talvez, de mais terrível para se dizer sobre os alemães, é justamente que eles não são interessantes. E, como se ligar a esses seres em perpétua formação? 'Nós somos jovens', gritam eles. Vocês não percebem isso? Infelizes! Como se, assim, pudessem nos seduzir! E, o que têm eles de menos interessante que a juventude? É possível se comover acerca das possibilidades infinitas que ela guarda. Pode-se fazer lirismo disso. Mas, quem quer que seja que tenha gosto pela realidade psicológica, volta sua atenção para os seres acabados, completos. Em se falando de humanidade, eu conheço, eu amo, aquele que é, aquele que resiste, aquele que pensa, e sente, e vive como tal, e não de outra maneira. A deutsche Jüngling me aborrece. Se ao menos eu sentisse que eles envelheceriam! Mas, não. Eles serão jovens para sempre, er ist jung in Ewigkeit. Eles serão sempre em potencial. E eu, justamente, não me apaixono senão pelo que é de fato.45
Graças à sua paixão "insana para chegar ao ponto",46 dispomos de fontes suplementares que nos esclarecem sobre a gênese de L'Allemand. Os rascunhos indicam claramente que a redação desse livro foi, para Rivière, uma maneira de fazer face ao trauma:
Eu escrevi, então, o que será seguido apenas pelo vomitar a Alemanha e os alemães. Uma simples operação higiênica. Eu quero retomar meu fôlego; eu quero ser eu mesmo, de novo, todo inteiro. Eu não sei muito bem o que vou dizer. Mas, em todo caso, direi que os alemães não são eu, e que eu não sou os alemães; direi que eles são a coisa menos suportável que foi lançada ao mundo, para o meu temperamento; eu os sacudirei de mim (se eles, talvez, estiverem um pouco pendurados), como o objeto mais inoportuno, o mais ofensivo ao meu gosto e aos meus instintos, que senti pesar sobre meus ombros.47
Este livro violento é, portanto, uma resposta a uma experiência violenta. Um outro texto ligado a este livro esclarece mais sobre que tipo de traumatismo que o perturba. Retirado de seus rascunhos, este extrato foi publicado pela La NRF, por ocasião do terceiro aniversario de morte de Rivière, em fevereiro de 1928. Este texto descreve sua confusão, no momento em que ele se encontra só, em sua cela, onde foi castigado:
... Tão logo me vi só, bem recolhido em minha sepultura, sob o triplo segredo da fechadura, como uma garrafa que ainda não está em tempo de ser bebida - as noites são tão frias, a fome tão grande, que nos damos por satisfeitos com tão pouco que um certo desespero se apodera de mim. Penso em tudo o que me hão roubado; estou humilhado, envergonhado, horrivelmente despojado. Por mais que eu faça, eu conto os dias que restam para me libertar. E, ainda que toda minha vontade se tensione neste sentido, não fico mais tão certo de chegar até o fim. Esta lenta miséria se utiliza mais do que de grandes provações. Tenho o coração fechado e infeliz.
Nestas condições, o cúmulo da humilhação reside, de fato, no sentimento de uma perda total de identidade:
pouco a pouco a febre me ganha: parece-me que eles irão voltar, que escuto seus passos. Dos quatro pontos cardinais, tenho a impressão de que podem marchar sobre mim, entrarem em minha casa, em mim, a todo instante, arrancarem- me o que ainda resta, e me deixarem ali, uma vez mais, como uma coisa da qual não se precisa, roubado, violado. Não conheço nada mais desmoralizante que a espera do mal que podem lhe fazer, somada à perfeita impossibilidade de lhes escapar.48
Rivière admite, aqui, ter passado ele próprio por um processo de "desumanização", resultante, ao mesmo tempo, da "penetração" do inimigo até em seu corpo, e de sua redução ao estatuto de um simples objeto. Este ponto revela uma verdade essencial da guerra 14-18 (e, sem dúvida, uma generalidade das experiências da violência extrema): o ódio ao inimigo aparece como um mecanismo psíquico que visa ao reencontro da própria identidade, em um contexto onde todos as referências se embaralham. Em se desumanizando o inimigo, pode-se esperar re-humanizar a si mesmo, e se redesenhar os contornos da própria identidade.
Desmobilização e re-humanização: 1919-1925
O texto precedente mostra como três experiências diferentes da guerra levaram a formas diferentes de se relacionar com o inimigo. A violência que caracteriza as representações do inimigo junto a cada um de nossos protagonistas é um produto da situação de guerra: ela é construída historicamente, e está intimamente mesclada às questões de identidade, que se encontram perturbadas em tempos de guerra. Mas, podese prever, como disse John Horne, que uma tal divisão identitária e "uma formulação tão cruel do Outro nacional dificilmente sobrevivem nas condi ções ambíguas da paz, se desagregando, em seguida".49
Rivière: da culpabilidade à desmobilização
Em Rivière, esta passagem foi mais rápida. Assim que o livro é impresso, ele já sente remorsos, e exprime a defasagem entre o conteúdo do livro e seus sentimentos. Em 30 de outubro de 1918, algumas semanas antes da impressão, ele escreve à sua mulher:
É meu pobre livro [...]. Eu o detesto, eu o execro, se eu tivesse apenas um pouquinho de coragem, pararia a impressão, pois sei que, assim que ele for publicado, o lamentarei, e que este será um remorso para toda minha vida. Os escrúpulos que confesso em meu prefácio eram legítimos, eu deveria tê-los escutado.
Mas, te poupo dos meus remorsos antecipados, pois bem sei que serei covarde o bastante para deixar que o assunto chegue ao fim. É necessário, ao menos, que eu aceite francamente minha própria infâmia.50
Motivado por sua culpa, ele anuncia, a partir 1919, um giro em seu pensamento, como se pode ler em sua carta a Jules Romains, na qual responde suas críticas contra L'Allemand:
Meu destino é totalmente desfavorável. Estou mais consciente que você de nossos imensos defeitos, e de que os alemães podem ter qualidades. Esforçarei-me, agora, para lhe dizer isto. Minha única covardia é, talvez, ter que começar por isto que, em meu pensamento, poderia ser o mais lisonjeiro para a opinião mediana entre nós.51
Sendo o diretor da La NRF, de 1919 a 1925, ano de sua morte súbita, aos 39 anos de idade, Rivière publicou na revista inúmeros artigos políticos que exprimem este "destino". Em maio de 1921, nas Notes sur un événement politique, ele se propõe a ler o fracasso das negociações de Londres52 à luz do abismo psicológico que se abre entre os diplomatas franceses e alemães; os quais representam, precisamente, as mentalidades de seus respectivos povos. Neste ensaio, Rivière mantém a oposição irredutível entre o caráter francês e a sua "falta" nos alemães, tal como havia desenvolvido em seu L'Allemand; mas, desta vez, mostrando todos os defeitos que a rigidez francesa comporta, e as virtudes da plasticidade e da flexibilidade alemãs. Ao passo que os franceses estão presos ao passado, os alemães não querem mais que esquecê-lo. No entanto, para se construir a paz, sustenta Rivière, a memória se torna um obstáculo: "Nós somos iguais a estes doentes a quem falta de sono os torna incapazes; nós precisamos, antes de tudo, de um pouco de esquecimento".53 A mania dos franceses de querer sempre "ter razão" é contra-produtiva, segundo Rivière: "Passando por cima de algumas avers ões, e da amargura de nossas lembranças, não poderíamos tirar proveito, desta vez, daquele "vir a ser", do qual a Alemanha superabunda, e que a sorte nos pôs à disposição?". 54
Um ano mais tarde, ele torna a atacar, esta vez acerca do fracasso da Conferencia de Gênova.55 Em Les dangers d'une politique conseqüente, ele culpa Poincaré, com o título indica, pelo desfecho e pela "conseqüência" restritos de sua política: "Estamos bem satisfeitos com as injustiças que podemos provar que somos vítimas. Ao passo que seria preciso refletir e trabalhar".56 Enfim, em plena crise de Ruhr,57 Rivière se torna a expressão mais nítida do fracasso do projeto de paz. É agora a mentalidade francêsa que se torna o obstáculo:
Nossa concepção de paz, se não é muito jurídica, permanece militar. Nós nos preparamos para ver a paz nascer miraculosamente de nossa constância. Nós não nos ocupamos da vontade do adversário, nem em descobrir seu significado, e se ela pode se unir à nossa: nós não sonhamos com nada mais que quebrantá-la.58
É, agora, o esquecimento que Rivière exalta:
Quatro anos se passaram, após a guerra. Os culpados são culpados: é facultado a cada um nomeá-los, e os detestar, em seu coração. Busca-se, hoje, a paz. A paz que falta. É preciso retomá-la. É preciso concebê-la como um organismo, e não decretá-la, mas, sim, dar-lhe vida. [...] é preciso instituir o esquecimento.59
A paz será construída graças a um acordo comercial com a Alemanha, mais importante e mais provável, segundo ele, que um acordo intelectual ou cultural. A prosperidade produzirá a paz:
Não posso deixar de crer que a Alemanha, no fundo, pode facilmente se desinteressar pela guerra. Estou convencido que ela não tem um gosto profundo pela guerra, e que uma prosperidade bem regulada, na qual eles teriam uma boa chance de cumprir com as condições fundamentais, os dissuadir á, por um longo tempo, de recorrer.60
Quando se pensa no "milagre alemão", que se seguiu ao pré-guerra, e na pacificação da Alemanha antes do nazismo, esta idéia parece muito correta, embora avançada para sua época.
A insistência de Rivière acerca do esquecimento parece ir à contracorrente da tendência atual de transformar a memória no novo imperativo categórico das sociedades ocidentais.61 Contudo, no contexto de uma situação pós-conflito, e quando se pretende que a memória de um povo seja, ao mesmo tempo, vencedora e penetrada por um sentimento de vítima, mais que memória, arrisca-se a produzir uma fixação narcisista coletiva, impedindo a sociedade de olhar para o futuro.62 A política do esquecimento, ou ao menos aquela que não cultiva uma memória vitimista obsessiva, não seria uma condição necessária para se virar a página?
Se Rivière continua convencido da pertinência dos "caracteres nacionais", a transformação no uso que ele faz desta teoria é, contudo, espetacular. Ela não deixa de intrigar seus contemporâneos. Um leitor, escrevendo-lhe após seu artigo sobre L'entente économique, se espanta: "Acabo de ler seu artigo, publicado na NRF de maio. E, me pergunto se é você o autor de L'Allemand, quem o escreveu".63 A este propósito, Alfred Fabre-Luce, crítico e escritor (ao qual, retornaremos), disse, em uma homenagem a Rivière: "Em pouco tempo, Rivière se viu censurado pelos alemães, por conta da antiguidade de seus preconceitos; pelos franceses, pela novidade de suas idéias conciliadoras".64
Gide: a continuação do diálogo
A reação de Gide aos artigos políticos de Rivière é entusiástica. A propósito dos "perigos de uma política conseqüente", Gide escreveu a Rivière:
No fundo, não lhe escrevi para lhe contar do prazer, do contentamento, do encantamento que tive, ao reler seu artigo. Meu velho, ele é excelente - excelente. E quanto me apraz a linha sutil, exata e torsa da frase! Eu gostaria de lhe fazer alguma crítica, para reafirmar meu elogio - mas não encontro nenhuma. Excellentíssima, murmura Madame Théo, perto de mim.65
Em Gide, também, a desmobilização se deu muito rapidamente, mas de uma outra maneira. Ao fim da guerra, depois de um breve momento de remobilização, no qual se diz a favor da punição da Alemanha, Gide se afasta da visão essencialista das duas identidades nacionais, a francesa e a alemã.
Os partidos nacionais, de um e do outro lado da fronteira, exageram na porfia das diferenças de temperamento e de espírito que, segundo eles, tornariam impossível qualquer acordo entre franceses e alemães. Estas diferenças, é certo, existem (...). Acredito, no entanto, que elas são menos essenciais e nativas, que exaltados com cobiça pela educação familiar, pelo ensino nas escolas, depois, pela imprensa. (...) No terreno da cultura, tanto no das ciências, quanto no das letras e das artes, os defeitos e as qualidades de uma parte e da outra são a tal ponto complementares, que não se poderia tirar mais proveito deles em um acordo, que prejuízo, em um conflito.
Eu não posso esquecer, ai!, que o problema atual não concerne simplesmente às relações diretas entre indivíduos. Um escritor não tem, certamente, compet ência para estabelecer as condições precisas de um acordo político entre Estados, mas ele tem o direito e o dever de afirmar o quanto este acordo lhe parece desejável; digamos mais: indispensável, na situação atual da Europa. Não há, atualmente, um erro mais funesto para os povos e para os indivíduos, que crer que se possa passar uns sem os outros. Tudo o que se oponha aos interesses da França e da Alemanha é nefasto para os dois países, simultaneamente; benéfico é tudo aquilo que leva à satisfação dos interesses mais solidários.66
Esta rápida desmobilização se explica, no caso de Gide, pelo fato de que seu antagonismo anti-alemão, durante a guerra, foi, em parte, superficial; e, de outra, incoerente. Para um homem que deu sua aprovação à guerra, sob a perspectiva da ameaça existencial, a suspensão da ameaça leva, naturalmente, ao caminho de volta aos princípios da paz. Mas, publicamente, ele permanece reticente quanto a expressar posições muito conciliadoras frente à Alemanha, e trata desse tema com muita prudência. Em 1921, sente, por exemplo, que os alemães não têm tato, e decide não responder a um convite para ir à Alemanha, feito por Franz Blei, seu tradutor alemão, com quem manteve "relações literárias muito boas, antes da guerra". Esta foi a primeira carta do outro lado do Reno que ele recebeu, depois da guerra; e a qual ele cita em seu diário:
Porque você não vem à Munique? - me perguntou ele. Você será recebido com braços abertos; e experimentaria, seguramente, ao deixar a França por um instante, o mesmo alívio que nós, alemães, experimentamos quando, na Suíça, por exemplo, escapamos à terrível opressão que pesa sobre nossa pátria.... O que responder a isto?, [acrescenta Gide]. Nada, não é? Eu não respondi.67
Estas hesitações terão fim em novembro de 1921, em um breve artigo, intitulado Les rapports intellectuels entre la France et l'Alemagne. Ele denuncia "este isolamento no qual se pretende, às vezes, manter a Alemanha, que poderia, ao fim das contas, se virar contra nós".68 Seus encontros com Walter Rathenau e Ernst Robert Curtis, em 1921, o convenceram da importância desta retomada de relações; com Curtis, Gide manterá uma amizade que durará mais de trinta anos.69 No caso de Gide, pode-se constatar que um ódio menor, em tempos de guerra, permite uma desmobilização rápida.
Schlumberger: o retorno de 1923
O intercâmbio cultural e universitário foi o carro chefe do novo projeto. Foram concedidas bolsas de estudo e auxílios de viagem para estudantes e profissionais hispanomericanos que desejavam ir para a Espanha. Houve custeio de missões culturais espanholas na América e estimulo à vinda de conferencistas daqueles países. Muitos Congressos foram organizados com o mesmo fim de aproximação com os hispanoamericanos.
A desmobilização de Schlumberger foi mais lenta e mais dolorosa que a de Rivière e Gide. Enquanto Rivière é posto fora de combate, no início da guerra, havendo retomado a vida civil, desde 1917; enquanto Gide está muito longe da guerra, na retaguarda; Schlumberger não estar á desmobilizado (militarmente) antes de fevereiro de 1919. Neste momento, ele não considera a guerra terminada.70 Assim que reaparece La NRF, ele se insurge contra a orientação que Rivière declara querer lhe dar. Em seu artigo-programa, publicado no início do primeiro número da revista, no pós-guerra, Rivière denuncia os males da guerra, notadamente sua violência moral sobre os espíritos, e conclama o retorno aos princípios da revista do pré-guerra: uma literatura "pura", contra todas as formas de literatura "mobilizada".71 Em resposta, Schlumberger contesta: "a guerra terminou, eu gostaria de acreditar nisso, pois me vejo desmobilizado; mas, ela nos deixou à face de perigos tais que, tão mal armados, tanto dentro quanto fora, apreciamos a felicidade da trégua, sem ousarmos nos deixar levar à despreocupação da paz".72 Esta ameaça do recomeço imediato da guerra deve, segundo ele, ditar uma postura de resguardo:
Para chegarmos a nos pôr totalmente a serviço do país, tivemos que sacrificar tanto os gostos, as preferências, os hábitos intelectuais, no esforço de sermos tão rudes que, se for necessário, em breve, recomeçar, se exigirá de nós que não percamos nosso treinamento. Em nossa idade, não somos tão flexíveis para combater e se recuperar inúmeras vezes. Durante cinco anos, nós não raciocinamos, julgamos e esperamos senão em função da França. Às vezes, nos convinha odiar, lá onde poderíamos, talvez, experimentar naturalmente a simpatia; nos convinha atar amizades às quais nosso instinto, talvez, não nos levaria. Uma vez que nos concedemos algum descanso, corrigimos aquilo que a necessidade nos impôs de muito contrário à disposição natural de nosso espírito; mas, não iremos, ao modo dos políticos, mudar de alianças, como de camisa. Nossa atitude, durante a guerra, não tem nada em comum com um gesto político; não estamos mais prontos para nos dar; não é a mesma coisa.73
Quatro anos se passaram, durante os quais Schlumberger conseguiu, não sem dano, retomar seu trabalho de escritor, e reencontrar sua rotina. Sua reviravolta ideológica aparece no momento da crise do Ruhr. Em 19 de fevereiro de 1923, ele escreveu a Gide:
É inadmissível que se pretenda nos fazer marchar por uma guerra econômica, por um apelo à dedicação que nós estávamos prontos a ter, no momento da invasão. Nossas crenças não eram nada sacras; com um pouco mais de coragem fiscal, nos abster; em todo caso, não é (ao menos por agora), uma luta de vida e morte, mas uma guerra de oportunidade, à qual nós nos recusamos, se ela não é vantajosa. No entanto, todo mundo concorda que nossas finanças sucumbiram; mas se espera dar à Alemanha um golpe ainda mais grave. É a velha política de aniquilamento.74
Em sua resposta, Gide se alegra com a reviravolta de seu amigo:
Sua carta me deu a alegria, totalmente amistosa, de ter tais pensamentos, que são igualmente meus, expressos claramente, fortemente, eloqüentemente. E isso me deixa ainda mais sensível por não termos pensado sempre assim; durante a guerra, ou, ao menos, no momento de ressurgimento da revista.75
A virada de Schlumberger aparece no seu artigo Le sommeil de l'esprit critique,76 publicado em março de 1923, no qual culpa a opinião pública francesa de haver deixado o campo livre para o governo do Bloco Nacional, abdicando-se de todo espírito crítico. O artigo clama a uma nova política, que permitiria uma reconciliação com a Alemanha. Para compreender o esforço interior, que exigiu sua mudança de atitude, basta ler o extrato abaixo, retirado de suas memórias:
Não é que eu não domine, em mim mesmo, as mais vivas repugnâncias sentimentais. Nossas catedrais bombardeadas, nossas vilas destruídas (...): estas imagens tornam-me dificilmente tolerável a idéia de uma Alemanha inviolada, duramente golpeada, mas que não traz, em sua carne, as cicatrizes de algumas réplicas a seus insultos. Apesar disto, é evidente que, na realidade, que a aspereza de nossa política (...) expressaria (...) a velha xenofobia, na qual a opinião francesa se reinstalou com satisfação (...). A parvoíce deste chauvinismo me faz tomar, rapidamente, consciência de minhas afinidades com a cultura germânica, e com tudo aquilo que lhes devo, sem falar das amizades pessoais que não irão tardar a se reatarem.77
Alsaciano, conhecendo perfeitamente a língua alemã, em 1923, no novo contexto de agressão francesa contra a Alemanha, Schlumberger consegue retomar suas raízes germânicas. A desmobilização de Schlumberger, em torno de 1923 e 1924, parece se inscrever numa atitude ideol ógica nova, ainda que ela não atinja forçosamente toda a opinião pública francesa. Compreende-se melhor que esta evolução tenha dado lugar à publicação, na La NRF de abril de 1924, à conclusão do livro de Alfred Fabre-Luce, La Victoire.78 É Jean Schlumberger quem redige a crítica do livro, na La NRF de setembro de 1924: "Livro cruel, que não se lê sem rubor nem humilhação, mas um livro salutar, pois nos arranca do pesadelo de ilusões, onde nos sentimos agitados, fazendo-nos repor os pés em terra firme".
Esse livro provocou um escândalo, pois, ao analisar as causas da Primeira Guerra Mundial, ele desmente a tese oficial, consagrada pelo Tratado de Versalhes, acerca da responsabilidade "exclusiva" da Alemanha, na explosão do conflito. Graças à sua leitura, Schlumberger reconhece, agora, a ilusão na qual acreditou, de boa fé: a da "perfeita justiça de nossa causa". Mas, esse reconhecimento, explica Schlumberger, não poderia ter ocorrido mais cedo:
Há somente um ano, o livro de Alfred Fabre-Luce se chocou contra muitas ilusões, para alcançar o brilho que dele esperamos. Ele veio a seu tempo, nesse momento em que a França começa a se enjoar das carnes escarificadas, com as quais engordou seu amor-próprio. (...) Se já não há mais tempo para a França pronunciar as grandes palavras de pacificação, que delas esperamos, logo após a guerra, as quais criariam uma situação única entre as nações, ainda não é tão tarde para se tomar a iniciativa de um movimento sincero de colaboração européia. 79
O engajamento de Schlumberger em uma perspectiva de reconciliação franco-alemã é, doravante, tão apaixonado, que ele parece levá-lo com o mesmo zelo que teve, ao sair da guerra, pelo objetivo contrário. De sorte que, em julho de 1925, Jean Palhan, o sucessor de Rivière na La NRF, recusa um artigo de Pierre Viénot,80 cuja publicação Schlumberger apoiava; uma recusa que Pullan justifica pela medíocre qualidade literária do texto. Mas, ele reconhece que sua prudência o aceita em razão da inclinação "pró-alemã" do ensaio:
Ignore, pois, as ameaças que nos fizeram, mesmo da parte de nossos assinantes mais fiéis, o artigo de Jacques [Rivière] sobre as relações francoalemãs, a campanha da Mauclair, nos acusam, em dez jornais provinciais, de tocar no dinheiro alemão? Quantas suspensões de assinaturas nos chegam, quantos amigos de província, que se ocupavam, neste momento, a organizar as conferências da La NRF, nos escreveram que não podem mais se interessar por nós? 81
E, termina esta carta com uma nota ligeiramente irônica:
Eu pergunto uma coisa: não seria você um novo converso, um neófito desse tipo de internacionalismo que representa, por exemplo,o príncipe Rohan? Você não teria voltado da guerra com um pendor totalmente diferente? Perdoe minha indiscrição. Mas, enfim, eu procuro me esclarecer, e não posso me esclarecer quanto à sua indiferença, sobre esse único ponto, pela qualidade. 82
La NRF dos anos 20 é conhecida por ser um dos escalões de uma política cultural com pretensões européias. Seus autores mais importantes participam, nas primeiras décadas do pós-guerra, do Pontigny, um "pequeno núcleo da futura Europa", segundo a expressão de seu animador, Paul Desjardins;83 como, também, do círculo do castelo de Colpach, em Luxemburgo, propriedade de Aline e Emile Mayrisch, que constituiu uma rede intelectual e industrial européia.84 As relações franco-alemãs estão no centro desta nova consciência européia. Depois da "guerra fria" de 1919-1924,85 eles buscam o mais belo na segunda metade dos anos de 1920; e é apenas em torno de 1933, que o que o sonho de uma "Europa do espírito" se parte novamente. 86
Em novembro de 1933, Albert Thibaudet, crítico literário de La Nouvelle Revue Française, propõe um balanço dos últimos vinte anos, os resumindo assim:
Os historiadores das idéias reconhecerão que, durante os quinze anos que se passaram, a partir do pós-guerra, a doutrina canônica, geradora de lugares comuns sobre o destino da civilização européia, se transformou três vezes, e que duas idéias já se tornaram ultrapassadas. Chamam-se a idéia de hegemonia européia, e a idéia de cooperação. A primeira durou até em torno de 1924. Durante a guerra, a propaganda, o mito, fizeram, do grande conflito, o conflito entre duas formas de civilização, entre duas direções do espírito, entre dois princípios contrários. (...) Quando o sistema da hegemonia, permanecendo alhures bastante teórico, teve fim (digamos em 11 de maio de 1924), seguiu-lhe a parte, ou o partido, da cooperação. A idéia de cooperação foi a conseqüência, e foi o mito, do período político no qual se tentou organizar a paz. Ela se liga ao espírito de Genebra. (...) A reintegração de valores alemães fazia par com a reintegração política da Alemanha, nos acordos da Europa e nas Assembléias de Genebra. O mito da cooperação reinou cerca de dez anos. A grosso, a bem grosso modo, pode-se dizer que as eleições hitlerianas, de 1933, marcariam seu fim, como as eleições cartelistas87 francesas, de 1924, marcaram, para nós, o fim daquela primeira idéia.88
Meu estudo parece confirmar a cronologia proposta por Thibadet: a desmobilização tomou seu caminho, na França, em torno de 1923-1924. O novo revés, de 1933, que se seguiu à tomada do poder por Hitler, na Alemanha, não fará que se esqueçam os dez anos precedentes, durante os quais uma reconciliação com o inimigo, via uma desmobilização da guerra, tomou lugar; como se vem a constatar entre a elite intelectual da França, na qual La NRF constitui o componente majoritário.
O ódio ao inimigo aparece, durante o percurso que tracei aqui, como um sentimento bem real, interiorizado pelos indivíduos que viveram a guerra como uma experiência brutal, na qual a experiência identitária determinou o olhar sobre o outro. Contudo, sendo um produto histórico, o ódio ao inimigo não é eterno; estes mesmos exemplos ilustram que, através da culpa, do distanciamento, e da revisão do exame crítico, este ódio é superável, e pode se tornar, ainda, o ponto de partida para um novo engajamento cívico.
Notas
Revista Varia História
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