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segunda-feira, 28 de novembro de 2016

A História de Deus: Maomé espalha a palavra


A vida de Muhammad se divide em antes e depois da Revelação (Retrato do profeta Maomé montado no Burak, guache em papel com folha de ouro, anônimo, séc. XVIII)

Mahmoud Hussein

O leitor ocidental que aborda a vida de Muhammad (Maomé) tem de tentar fazer um esforço de desenraizamento cultural. Aventura-se em um espaço e um tempo inabituais. É preciso, em primeiro lugar, livrar-se do hábito de pensar que só existe uma única figura de fundador de religião possível, a de Jesus. Renunciar a julgar o primeiro por referência ao segundo. Aceitar a diferença que separa não somente suas duas personalidades, mas também as circunstâncias em que eles pregavam. Só assim para acolher Muhammad ibn’Abdallah ibn’Abd al Muttalib – seu nome completo – em sua própria verdade.

Como seu sermão se desenvolve em uma sociedade de tradição oral, os testemunhos escritos de que dispomos para traçar seu perfil são de duas ordens. De uma parte, o Alcorão, que contém muitos versículos a seu respeito. Ele nos fornece informações confiáveis sobre diferentes eventos de sua vida, mas esparsas e lacônicas. E, de outra, os hadiths – os preceitos do profeta – e a sira – os testemunhos de seus companheiros sobre seus feitos e gestos. Esses dois corpora são infinitamente mais ricos em informações sobre ele, porém mais problemáticos, visto que só foram transcritos muito tempo mais tarde.

Há um antes e um depois na vida de Muhammad. Antes e depois da Revelação. Antes, Muhammad era um homem sem história. No âmbito social, ele vivia em harmonia com o mundo tribal que o cercava. Nascido em Meca, no ano 570, pertencia ao clã dos Banu Abd al-Muttalib, guardiães do santuário pagão da Caaba (Ka’ba, o Cubo), venerado em grande parte da Arábia. Mas a fortuna desse clã estava em declínio. Aos 25 anos, casou-se com uma rica viúva, Kadidja, 15 anos mais velha que ele. Ela o protegeria das necessidades e, sobretudo, o apoiaria durante as provas que teria de enfrentar. No plano pessoal, ele se distinguia por disposições intelectuais que o levavam a retiros solitários para reflexões, e também por uma curiosidade que o levou a procurar a companhia dos “detentores do saber” com que ele cruzava, principalmente durante seus périplos em caravanas.

Por volta do ano 610, ele recebeu a Revelação. Deus lhe anuncia que o havia escolhido como seu último mensageiro. Sua vida entra, então, em uma fase radicalmente nova, em que ele lança um desafio frontal a alguns fundamentos da sociedade tribal da qual ele provinha e revela qualidades pessoais até então despercebidas, como para se colocar à altura da missão que lhe cabia. A Revelação se manifestou muitas vezes seguidas, para guiá-lo, revelando-lhe a Palavra de Deus sob a forma de versículos reunidos após sua morte em um livro, o Alcorão.

Leia este artigo na íntegra na História Viva Volume III à venda nas bancas, livrarias.
Mahmoud Hussein, doutor em filosofia política, é autor da série televisiva francesa L’âge d’or de l’Islam
Revista História Viva

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Islã em perspectiva

A historiadora e cientista política Beatriz Bissio, autora do livro 'O mundo falava árabe', apresenta uma visão sem simplificações da rica cultura islâmica e resgata parte de sua história a partir da obra de dois autores clássicos do século 14.

Henrique Kugler


A pesquisadora da UFRJ Beatriz Bissio oferece ao leitor um olhar refinado e profundo sobre o florescer do islã, bem diferente da visão simplificada que costuma deturpar essa cultura. (foto: divulgação)


Primeiros séculos da era cristã, Europa em ruínas. Enquanto o velho continente agonizavaem crises profundas, o Império Islâmico vislumbrava um esplendor civilizatório semprecedentes. Não apenas pela conquista de vastos territórios – que se estendiam da península ibérica à Índia –, mas também por reunir os mais sofisticados conhecimentos disponíveis então. Foram os árabes os grandes herdeiros da sabedoria grega.

Também foram eles os compiladores e tradutores das principais obras persas, mesopotâmias, egípcias e hindus. Para os estudiosos, o islã é muito mais do que sugere a fugacidade noticiosa de nossos dias. “Temos em geral uma visão distorcida do islamismo, originada em uma simplificação que deturpa completamente o que é essa civilização e essa cultura.”
“Temos em geral uma visão distorcida do islamismo, originada em uma simplificação que deturpa completamente o que é essa civilização e essa cultura”

São palavras da historiadora e cientista política Beatriz Bissio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Em outubro, ela lançou o livro O mundo falava árabe [Civilização Brasileira] durante o 36º Encontro Anual da Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs), emÁguas de Lindoia (SP) (ver ‘Diálogos e reflexões’, nesta edição).

É uma elegante narrativa sobre a história doislã a partir de dois autores clássicos do século 14: Ibn Khaldun (1332-1406), destacado historiador que, para alguns, inaugurou o pensamento sociológico islâmico, e Ibn Battuta (1304-1368), viajante que percorreu longas distâncias do norte da África à Ásia e registrou em detalhe o que viu em suas andanças. Da comparação entre esses dois registros – do historiador e do viajante – Bissio oferece ao leitor um olhar tão refinado quanto profundo acerca do florescer da civilização islâmica.


No Brasil, poucos são os escritos sobre o islã. Qual foi sua motivação para lançar O mundo falava árabe? 
Escrevi o livro porque quis aprofundar meus conhecimentos sobre o assunto. Sou também jornalista, e por duas décadas viajei para cobrir a realidade do Oriente Médio e do norte da África. Vivenciei as guerras do Líbano e do Iraque, a questão Israel-Palestina, entre outros temas, na Argélia, Líbia e Egito. Fui uma das fundadoras da revista Cadernos do Terceiro Mundo, em Buenos Aires, em 1974, e sediada no Brasil a partir de 1980. Viajava regularmente ao Oriente Médio e à África, e o islã era sempre um dado da realidade sobre a qual escrevia.

Admirava profundamente a cultura, mas, por nunca tê-la estudado em profundidade, sentia que a minha visão ficava muito restrita aos fatos do cotidiano, nem sempre compreensíveis sem a perspectiva da história. Iniciei um estudo mais sistemático, e disso resultou minha tese de doutorado, defendida na Universidade Federal Fluminense [UFF], posteriormente adaptada em livro.

Por que escolheu Ibn Khaldun e Ibn Battuta como personagens centrais de seu estudo? Quem são esses autores? 
Quis estudar a civilização islâmica a partir do olhar de seus próprios autores, e a obra de Ibn Khaldun, historiador que nasceu em Túnis (atual Tunísia) no século 14, não pode ser ignorada. Ele foi provavelmente o autor islâmico mais representativo de seu tempo. Minha orientadora [Vânia Leite Fróes, da UFF] foi quem sugeriu estabelecer uma espécie de contraponto entre os escritos de Ibn Khaldun e os relatos de seu contemporâneo Ibn Battuta, um viajante que ao longo de quase 40 anos percorreu longas distâncias pelos vastos domínios do Império Islâmico.

Por que Khaldun é considerado tão importante? 
Suas reflexões, traduzidas em vários trabalhos, são extremamente complexas e sofisticadas. Sua obra-prima, os Prolegômenos (Muqaddimah), é considerada o momento fundacional do pensamento sociológico islâmico. Não é uma obra tradicional de história, como as que eram comuns até então, limitadas a narrar cronologias de dinastias. Ibn Khaldun inaugura um estudo que visa o entendimento das causas dos fenômenos históricos e, mais do que isso, os estudos sobre a sociedade humana. Moderno para a época, não? Extremamente moderno.



Uma estátua de Ibn Khaldun na Tunísia e uma ilustração de Ibn Battuta, autores clássicos do islamismo. (imagens: Wikimedia Commons)

É uma descoberta para o Ocidente que um pensador islâmico, no século 14, tenha trabalhado questões que vieram a ser estudadas, no mundo ocidental, somente dois séculos depois. Ao teorizar sobre estado, autoridade e poder, Ibn Khaldun antecipa [Thomas] Hobbes [1588-1679] e [Jean-Jacques] Rousseau [1712-1778]. Fez também descrições detalhadas da relação entre o ser humano e os demais seres vivos. Uma riqueza é a obra de Ibn Khaldun.

E quanto a Ibn Battuta? 
Viajou durante quase 40 anos, por um território equivalente ao que hoje seriam 46 países. O mundo islâmico era alicerçado pela língua árabe; o viajante poderia sair do Marrocos, percorrer toda a Ásia central e chegar à China falando árabe! Era a língua franca da época (daí o título de meu livro).
Ávido por incorporar a sabedoria da valiosa fonte de informações que era Ibn Battuta, o califa encomendou um relato escrito dessas viagens. Assim nasceu aRihla, uma obra fascinante

Ibn Battuta era juiz em Tanger (atual Marrocos) e iniciava sua viagem de peregrinação à Meca, obrigação de todo bom muçulmano. Mas, ao se desprender de seu país e de seu entorno, descobre que tem uma paixão pela aventura, pelo conhecimento, por desvendar os mistérios do mundo – e vai sempre acrescentando novos desafios à sua jornada. Acaba fazendo três vezes a peregrinação. Quando retorna à sua terra, depois de décadas, já havia uma espécie de lenda em torno dele, o viajante que nunca aparece. Pensavam que tinha morrido.

A corte o recebeu muito bem, e o califa estava interessadíssimo em conhecer o mundo pelos relatos daquele viajante que percorrera, por tanto tempo, os domínios daquele que fora o maior império na época medieval. Ávido por incorporar a sabedoria da valiosa fonte de informações que era Ibn Battuta, encomendou um relato escrito dessas viagens. Assim nasceu a Rihla [em tradução livre, ‘jornada’], uma obra fascinante.

Na época já havia uma tradição de literatura de viagens – que se tornou um gênero literário nas letras árabes. Isso se deu principalmente em função da obrigatoriedade da peregrinação à Meca. Onde pernoitar? Que cuidados tomar? Que alimentos serão encontrados pelo caminho? Como planejar o retorno? Naquele tempo, criou-se uma tradição literária em torno dessas questões. No caso de Ibn Battuta, porém, o relato ganhou dimensões muito mais expressivas, pois sua viagem foi a jornada de toda uma vida.

Mas ele percebeu que não teria condições de produzir um texto com a beleza estilística que esse tipo de depoimento exigia. Então ditou suas memórias a um poeta, que deu forma definitiva ao livro. O resultado é muito interessante: um verdadeiro relato etnográfico. Descreve a estrutura social dos locais por onde passou, as vestes, a culinária, os hábitos, as relações de poder, as interações entre homens e mulheres, as formas de se pensar e viver a religião... Trata-se de um documento histórico e antropológico da maior importância.
Revista Ciência Hoje

terça-feira, 9 de outubro de 2012

OS DEMÔNIOS DO DEMÔNIO

Eduardo Galeano
Esta é uma modesta contribuição à guerra do Bem contra o Mal. Entre os diversos semblantes do Príncipe das Trevas, só estão os demônios que existem há muito, muito tempo, e que há séculos ou milênios continuam ativos no mundo

A experiência prova que a ameaça do inferno é sempre mais eficaz que a promessa do Céu. Benditos sejam os inimigos

O Demônio é mulçumano

Dante já sabia que Maomé era terrorista. Por alguma razão o colocou em um dos círculos do inferno, condenado à pena de prisão perpétua. “O vi partido”, celebrou o poeta em A Divina Comédia , “desde a barba até a parte inferior do ventre...”. Mais de um Papa já tinham comprovado que as hordas muçulmanas, que atormentavam a Cristandade, não eram formadas por seres de carne e osso, eram um grande exército de demônios que aumentava quanto mais sofria com os golpes das lanças, das espadas e dos arcabuzes.

Hoje em dia, os mísseis fabricam muito mais inimigos que os inimigos das entranhas. Porém, que seria de Deus, afinal de contas, sem inimigos? O medo impera, as guerras existem para desbaratar o medo. A experiência prova que a ameaça do inferno é sempre mais eficaz que a promessa do Céu. Benditos sejam os inimigos. Na Idade Média, cada vez que o trono tremia, por bancarrota ou fúria popular, os reis cristãos denunciavam o perigo muçulmano, desatavam o pânico, lançavam uma nova Cruzada, o santo remédio. Agora, há pouco tempo, George W. Bush foi reeleito presidente do planeta graças o oportuno aparecimento de Bin Laden, o grande Satã do reino, que as vésperas das eleições anunciou, pela televisão, que ia comer todas as crianças.

Lá pelo ano de 1564, o especialista em demonologia Johann Wier teria contado os demônios que estavam trabalhando na terra, a tempo integral, a favor da perdição das almas cristãs. Eram sete milhões quatrocentos e nove mil cento e vinte sete, que agiam divididos em setenta e nove legiões.

Muita água fervente passou, depois daquele censo, debaixo das pontes do inferno. Quantos são, hoje em dia, os enviados do reino das trevas? As artes do teatro dificultam as contas. Estes falsos continuam usando turbantes, para ocultar seus cornos, e longas túnicas tampam os rabos do dragão, suas asas de morcego e a bomba que carregam debaixo do braço.

A colossal carnificina organizada por Hitler culminou uma longa história de perseguição e humilhação


O Demônio é judeu

Hitler não inventou nada. Há mil anos, os judeus são os imperdoáveis assassinos de Jesus e os culpados de todas as culpas. Como? Jesus era judeu? E judeus eram também os doze apóstolos e os quatro evangelistas? O que você disse? Não pode ser. As verdades reveladas estão além das dúvidas e não exigem mais evidências do que a própria existência. As coisas são como se diz que são, e se diz porque se sabe: nas sinagogas o Demônio dá aulas, e os judeus desde há muito se dedicam a profanar hóstias e a envenenar águas bentas. Por causa deles aconteceram bancarrotas econômicas, crises financeiras e derrotas dos militares; são eles que trouxeram a febre amarela e a peste negra e todas as outras pestes.

A Inglaterra os expulsou, nenhum escapou, no ano de 1290, porém isso não impediu Chaucer, Marlowe e Shakespeare, que nunca tinham visto um judeu, fossem obedientes à caricatura tradicional e reproduzissem personagens judeus segundo o modelo satânico de parasita sanguessuga e o avaro usurário. Acusados de servir ao Maligno, estes malditos andaram durante séculos de expulsão em expulsão e de matança em matança. Depois da Inglaterra foram sucessivamente expulsos da França, Áustria, Espanha, Portugal e de numerosas cidades suíças, alemães e italianos. Os reis católicos Izabel e Fernando expulsaram os judeus e também os muçulmanos porque sujavam o sangue. Os judeus haviam vivido na Espanha durante treze séculos. Levaram com eles as chaves de suas casas. Há quem as guardem ainda. Nunca mais voltaram.

A colossal carnificina organizada por Hitler culminou uma longa história de perseguição e humilhação. A caça aos judeus tem sido sempre um esporte europeu. Agora, os palestinos, que jamais a praticaram, pagam a culpa.

“Toda a bruxaria provém da luxúria carnal, que nas mulheres é insaciável”

O Demônio é mulher

O livro Malleus Maleficarum, também chamado O martelo das bruxas, recomenda o mais ímpio exorcismo contra o demônio que tem seios e cabelos compridos.

Dois inquisidores alemães, Heinrich Kramer e Jakob Sprenger, o escreveram, a pedido do Papa Inocêncio VIII, para enfrentar as conspirações demoníacas contra a Cristandade. Foi publicado pela primeira vez em 1486 e até o final do século XVIII foi o fundamento jurídico e teológico dos tribunais da Inquisição em vários países.

Os autores afirmavam que as bruxas, do harém de Satanás, representavam as mulheres em estado natural: “Toda bruxaria provém da luxúria carnal, que nas mulheres é insaciável”. E demonstravam que “esses seres de aspecto belo, cujo contato é fétido e a companhia mortal” encantavam os homens e os atraíam com silvos de serpentes, rabos de escorpião, para aniquilá-los. Os autores advertiam aos incautos: “A mulher é mais amarga que a morte. É uma armadilha. Seu coração, uma rede; e correias, seus braços”.

Esse tratado de criminologia, que enviou milhares de mulheres às fogueiras da Inquisição, aconselhava que todas as suspeitas de bruxaria fossem submetidas à tortura. Se confessassem, mereceriam o fogo. Se não confessassem também, porque só uma bruxa, fortalecida por seu amante, o Demônio, nos conciliábulos das bruxas, poderia resistir a semelhante suplício sem soltar a língua.

O papa Honório III sentenciara que o sacerdócio era coisa de machos: - As mulheres não devem falar. Seus lábios têm o estigma de Eva, que provocou a perdição dos homens.

Oito séculos depois, a Igreja Católica continua negando o púlpito às filhas de Eva.

O mesmo pânico faz com que os mulçumanos fundamentalistas as mutilem o sexo e lhes cubram a cara.

E o alívio pelo perigo conjurado leva os judeus mais ortodoxos a começar o dia sussurrando: “Graças, Senhor, por não me ter feito mulher”.

Em nenhum lugar do mundo se levou em conta os muitos homossexuais condenados ao suplício ou a morte pelo delito de sê-lo

O Demônio é homossexual

Desde 1446, os homossexuais iam para a fogueira em Portugal. Desde 1497 eram queimados vivos na Espanha. O fogo era o destino merecido pelos filhos do inferno, que surgiam do fogo.

Na América, ao contrário, os conquistadores preferiam jogá-los aos cachorros. Vasco Núnez de Balboa, que entregou muitos deles para a refeição dos cães, acreditava que a homossexualidade era contagiosa. Cinco séculos depois, ouvi o Arcebispo de Montevidéu dizer o mesmo. Quando os conquistadores apontaram no horizonte, só os astecas e os incas, em seus impérios teocráticos, castigavam a homossexualidade com a pena de morte. Os outros americanos a toleravam e em alguns lugares a celebravam, sem proibição ou castigo.

Essa provocação insuportável devia desencadear a cólera divina. Do ponto de vista dos invasores, a varíola, o sarampo e a gripe, pestes desconhecidas que matavam índios como moscas, não vinham da Europa, mas sim do Céu. Assim, Deus castigava a libertinagem dos índios que praticavam a anormalidade com toda a naturalidade.

Nem na Europa, nem na América, nem em nenhum lugar do mundo se levou em conta os muitos homossexuais condenados ao suplício ou a morte pelo delito de sê-lo. Nada sabemos dos longínquos tempos e pouco ou nada sabemos dos tempos de agora.

Na Alemanha nazista, estes “degenerados culpados de aberrante delito contra a natureza” eram obrigados a exibir a estrela amarela. Quantos foram para os campos de concentração? Quantos lá morreram? Dez mil? Cinqüenta mil? Nunca se soube. Ninguém os contou, quase ninguém os mencionou. Tampouco se soube quantos foram os ciganos exterminados.

No dia 18 de setembro de 2002, o governo alemão e os bancos suíços resolveram “retificar a exclusão dos homossexuais entre as vítimas do Holocausto”. Levaram mais de meio século para corrigir essa omissão. A partir dessa data os homossexuais que tinham sobrevivido em Auschwitz e em outros campos, se é que ainda haja algum vivo, puderam reclamar uma indenização.

Os conquistadores cumpriram a missão de devolver a Deus o ouro, a prata e outras várias riquezas que o Demônio havia usurpado

O Demônio é índio

Os conquistadores descobriram que Satã, quando expulso da Europa, tinha encontrado refúgio na América. Nas ilhas e nas praias do mar do Caribe, beijadas dia e noite por seus lábios flamejantes, habitadas por seres bestiais que andavam nus, tal como o Demônio os havia colocado no mundo, que cultuavam o sol, a terra, as montanhas, os mananciais e outros demônios disfarçados de deuses, que chamavam de jogo ao pecado carnal e o praticavam sem horário nem contrato, que ignoravam os dez mandamentos e os sete sacramentos e os sete pecados capitais, que não conheciam a palavra pecado nem temiam o inferno, que não sabiam ler nem tinham nunca ouvido falar do direito de propriedade, nem de nenhum direito e que, como se tudo isso fosse pouco, tinham o costume de comerem uns aos outros. E crus.

A conquista da América foi uma longa e difícil tarefa de exorcismo. Tão arraigado estava o Demônio nestas terras, que quando parecia que os índios se ajoelhavam devotamente ante a Virgem, estavam na realidade adorando a serpente que ela amassava com o pé; e quando beijavam a Cruz não estavam reconhecendo ao Filho de Deus, mas estavam celebrando o encontro da chuva com a terra.

Os conquistadores cumpriram a missão de devolver a Deus o ouro, a prata e outras várias riquezas que o Demônio havia usurpado. Não foi fácil recuperar o tesouro. Ainda bem que de vez em quando recebiam alguma pequena ajuda de lá de cima. Quando o dono do inferno preparou uma emboscada em um desfiladeiro, para impedir a passagem dos espanhóis em busca da prata de Cerro Rico de Potosi, um arcanjo baixou das alturas e lhe deu uma tremenda surra.

Supunha-se que a leitura da Bíblia podia facilitar a viagem dos africanos do inferno para o paraíso, mas a Europa esqueceu de ensiná-los a ler

O Demônio é negro

Como a noite, como o pecado, o negro é inimigo da luz e da inocência.

Em seu célebre livro de viagens, Marco Pólo fala dos habitantes de Zanzibar. “Tinham uma boca muito grande, lábios muito grossos e nariz como o de um macaco. Caminhavam nus, totalmente negros e para quem de qualquer outra região que os visse acreditaria que eram demônios”.

Três séculos depois, na Espanha, Lúcifer, pintado de negro, trepado numa carroça em chamas, entrava nos pátios das comédias e nos palcos das feiras. Santa Tereza de Jesus, que viveu para combatê-lo, apesar disso nunca pode entendê-lo. Uma vez ficou ao lado e viu “um negrinho abominável”. Outra vez ela viu que do seu corpo negro saía uma chama vermelha, quando se sentou em cima de seu livro de orações e queimou os textos do ofício religioso.

Uma breve história do intercâmbio entre África e Europa: durante os séculos XVI, XVII e XVIII, a África vendia escravos e comprava fuzis. Trocava trabalho pela violência. Os fuzis punham ordem no caos infernal e a escravidão iniciava o caminho da redenção. Antes de serem marcados com ferro quente, na cara e no peito, todos os negros recebiam uma boa unção de água benta. O batismo espantava o demônio e dava alma a esses corpos vazios. Depois, durante os séculos XIX e XX, a África entregava ouro, diamantes, cobre, marfim, borracha e café e recebia Bíblias.Trocava produtos por palavras. Supunha-se que a leitura da Bíblia podia facilitar a viagem dos africanos do inferno para o paraíso, mas a Europa esqueceu de ensiná-los a ler.

O Demônio é estrangeiro
O imigrante está disponível para ser acusado como responsável pelo desemprego, a queda do salário, a insegurança pública e outras temíveis desgraças

O “culpômetro” indica que o imigrante vem roubar-nos o emprego e o “perigosímetro” acende a luz vermelha. Se for pobre, jovem e não for branco, o intruso, que veio de fora, está condenado, a primeira vista, por indigência, inclinação ao tumulto ou por ter aquela pele. De qualquer maneira, se não é pobre, nem jovem, nem escuro, deve ser mal recebido, porque chega disposto a trabalhar o dobro em troca da metade.

O pânico diante da perda do emprego é um dos medos mais poderosos entre todos os medos que nos governam nestes tempos de medo. E o imigrante está sempre disponível para ser acusado como responsável pelo desemprego, a queda do salário, a insegurança pública e outras temíveis desgraças.

Em outros tempos, a Europa distribuía para o mundo soldados, presos e camponeses mortos de fome. Estes protagonistas das aventuras coloniais passaram à história como agentes viajantes de Deus. Era a Civilização lançada nos braços da barbárie.

Agora a viagem se faz na contramão. Os que chegam, ou tentam chegar do sul em direção ao norte, não trazem nenhuma faca entre os dentes nem fuzil no ombro. Vêm de países que foram oprimidos até a última gota de seu sugo e não têm a intenção de conquistar nada além de um trabalho ou trabalhinho. Esses protagonistas das desventuras parecem, muito mais, mensageiros do Demônio. É a barbárie que toma de assalto a Civilização.

Os bens de poucos sofrem a ameaça dos males de muitos

O Demônio é pobre

Se lambem enquanto você come, espiam enquanto você dorme: os pobres espreitam. Em cada um se esconde um delinqüente, talvez um terrorista. Os bens de poucos sofrem a ameaça dos males de muitos. Nada de novo. Tem sido assim desde quando os donos de tudo não conseguem dormir e os donos de nada não conseguem comer.

Submetidas a um acossamento durante milhares de anos, as ilhas da decência estão encurraladas pelos turbulentos mares da vida desgraçada. Rugem as ondas sucessivas que forçam viver em sobressalto perpétuo. Nas cidades de nosso tempo, imensos cárceres que prendem os prisioneiros ao medo, as fortalezas dizem ser casas e as armaduras simulam ser trajes.

Estado de sítio. Não se distraia, não baixe a guarda, desconfie: você está estatisticamente marcado, mais cedo ou mais tarde terá que sofrer algum assalto, seqüestro, violação ou crime. Nos bairros malditos espreitam, ocultos, remoendo invejas, tragando rancores, os autores de sua próxima desgraça. São vagabundos, pobres diabos, bêbados, drogados, carne de cárcere ou bala, pessoas sem dentes, sem rumo e sem destino.

Ninguém os aplaude, porém os ladrões de galinha fazem o que podem imitando, modestamente, os mestres que ensinam ao mundo as fórmulas do êxito. Ninguém os compreende, porém eles aspiram serem cidadãos exemplares, como esses heróis de nosso tempo que violam a terra, envenenam o ar e a água, estrangulam salários, assassinam empregos e seqüestram países.

Eduardo Galeano
Lê Monde Diplomatique 

sábado, 4 de agosto de 2012

O Ocidente decidiu escolher o islamismo como o anticristo

‘O Ocidente decidiu escolher o islamismo
como o anticristo da vez’
JU – A transição política nos países conflagrados pode abrir vácuos de poder capazes de permitir a ascensão de governos fundamentalistas religiosos ou esse é um receio infundado perante o vigor das demandas democráticas demonstrado pelo levante popular? Até que ponto a influência iraniana é um risco a ser considerado?
Arlene – Tal possibilidade existe e não deve ser descartada das análises políticas da região, mas ela precisa ser vista caso a caso. Nem todo partido islâmico defende a criação de um estado islâmico. O modelo da Turquia, de Estado político governado por um partido islâmico, poderia ser adotado por mais de um partido na região, caso vencesse eleições parlamentares ou presidenciais. Para eliminar esse tipo de especulação e a possibilidade de que o Ocidente utilize o argumento do “perigo islâmico” para apoiar forças conservadoras, autoritárias e antipopulares, no Egito a Irmandade Muçulmana já afirmou que não vai concorrer nas próximas eleições.
No Egito e na Tunísia, o modelo político iraniano não tem apelo nem às massas árabes –majoritariamente sunitas, inclusive – nem aos partidos políticos existentes ou em formação, até onde se sabe. O Irã por si só não exerce uma influência nesses países capaz de alterar a construção da democracia ou formação de regimes de maior representação popular. De fato, o maior risco de crescimento da influência iraniana sobre os países árabes do Oriente Médio viria de um cenário de ataque israelense ou norte-americano à república islâmica, desestabilizando a região como um todo e provocando uma resposta iraniana que talvez não se dirigisse diretamente contra Israel ou EUA, ambos muito difíceis de atacar, mas contra governos árabes aliados dos EUA na região. Nesse caso, poderíamos ver seriamente abalada a construção democrática árabe no Oriente Médio.
Mohamed – Há uma estratégia ocidental, liderada pelos EUA, de tentar caracterizar grupos religiosos muçulmanos como terroristas e amedrontar a comunidade internacional quanto ao risco de assumirem o poder. Isso não existe. O mundo árabe inteiro é de estados laicos, com a exceção da Arábia Saudita, maior aliado dos EUA no Oriente Médio. Nos episódios que estamos acompanhando, foram demandas sociais, e não questões religiosas, políticas ou ideológicas, que mobilizaram milhões de pessoas nas ruas. A completa falta de perspectivas em uma vida digna, com moradia, oportunidades de emprego e renda, levou os jovens a iniciar os levantes. Os povos árabes não querem nenhum grupo religioso para governá-los. O Ocidente, no entanto, especialista em criar estereótipos do árabe ignorante, inculto, que necessita de um pastor para guiá-lo, decidiu escolher o islamismo como o anticristo da vez, para tentar impedir o apoio da opinião pública mundial às manifestações no Oriente Médio.
Mas até o Irã está sendo questionado pela própria sociedade iraniana nas ruas hoje e mesmo a Fraternidade Muçulmana [organização criada nos anos de 1920 com a intenção de libertar o Egito do domínio britânico] declarou publicamente que não tem interesse em ocupar o poder, assim como não teve à época de sua criação. Embora não seja um grupo terrorista, foi tachado como tal pelo Ocidente. Então, não podemos cair no que os discursos ocidentais pregam, porque a história está mostrando qual é a verdade.
Nasser – Construiu-se um paradigma em que a religião assume um papel preponderante em relação ao Oriente Médio, mas essa não é a questão fundamental. O que estamos assistindo agora não tem relação com grupos religiosos. Eu diria que a influência iraniana ou a ação, não somente do Irã, mas do radicalismo islâmico, neste momento no Oriente Médio é improvável. Contudo, permanece a questão: e os outros fundamentalistas, como a Fraternidade Muçulmana, que é o grupo organizado mais antigo do Oriente Médio?
Demonstra até agora, e já demonstrou antes, uma ação extremamente sábia e moderada. Não deu início aos levantes e durante as manifestações sua atuação foi discreta, assim como está sendo neste momento de transição. Vale salientar que, como qualquer outro ator político, eles aprendem com a história. E qual é o aprendizado? Sabe-se o que o aiatolá Khomeini foi isolado da comunidade internacional por suas ações. Então, na medida em que está chegando a hora de participar do poder, eles não são irracionais ao ponto de querer confrontar a comunidade internacional, tanto que líderes da Fraternidade Muçulmana estão propondo suas ideias em grandes jornais do Ocidente.
Finalizando, faço a seguinte observação: nada melhor do que olhar para a atitude dos governantes em momentos revolucionários. O Mubarak não resistiu, resignou-se e saiu, enquanto o Kadafi decidiu lutar para ficar no poder. E tem o rei da Arábia Saudita [Adbullah al Saud], que ao voltar da Europa onde estava hospitalizado prometeu despejar 37 bilhões de dólares em medidas de seguridade social, habitação e emprego. Ele foi tomado por um surto de humanitarismo? Tratou apenas de se antecipar às demandas.
JU – O Ocidente, que colocou e manteve no poder os déspotas que agora estão sendo destronados, precisará estabelecer novas alianças com as forças políticas emergentes. Porém, se os protestos que derrubaram os ditadores podem ser interpretados também como um gesto contundente contra a histórica interferência ocidental na região, quais mudanças poderão ocorrer no tabuleiro da política externa no Oriente Médio?
Mohamed – Os EUA sustentam equivocadamente seus interesses no Oriente Médio a partir de regimes ditatoriais que eles próprios criaram e incorrem nos riscos da relação perversa que eu observei na primeira resposta. Esse modelo permitiu a um governante ditador como Mubarak tornar-se um dos homens mais ricos do planeta enquanto mais de 40% da população do Egito vive abaixo da linha da pobreza. Faço a seguinte analogia: um parasita pode matar seu hospedeiro se o explora exageradamente, mas sem este também corre o risco de morrer. O mundo árabe pede o fim desse relacionamento baseado no parasitismo e, a partir de estados democráticos, almeja por uma relação de simbiose e de parcerias de longo prazo com o Ocidente, estabelecidas no respeito mútuo, capaz de assegurar os recursos necessários ao desenvolvimento de suas sociedades.
Nasser – É bom lembrar que não se trata de ditadores apenas, mas de uma elite econômica e militar que estabeleceu laços muito próximos com o Ocidente. Isso mostra a dificuldade de se quebrar essa estrutura, porque uma coisa é a mudança de governante, outra é a de regime. Até agora os governantes estão sendo desalojados, mas o regime ainda não. Eu diria que é possível ter uma política externa autônoma, ser aliado dos EUA, sem necessariamente ser submisso. Não será o caso de romper com o Ocidente, mas de estabelecer outro patamar nas relações, o da visibilidade, de se saber efetivamente para onde vão os recursos aplicados na região. O Egito recebia um bilhão e meio de dólares anuais dos EUA não se sabe para quê. Também é possível viver em paz com Israel sem precisar fazer negociações escusas com os israelenses. Isso tudo é importante porque vamos entrar em um novo momento em que não há lugar para esses antigos líderes, o Kadafi, o Mubarak, e acredito que haverá mudanças mesmo em Israel.
Netanyahu [primeiro-ministro de Israel] é um homem deste momento; o novo vai exigir novos líderes de Israel. Esse é um desafio que a sociedade israelense já começa a discutir. Eu acho isso muito proveitoso, porque entraremos em outro estágio, acredito na própria Palestina, de sair, de um lado, da herança do peso histórico de Yasser Arafat, do Fatah, que governa a Autoridade Palestina, e de outro lado também sair do radicalismo do Hamas. Sair desses dois campos que se negam radicalmente um ao outro abrirá novas possibilidades aos palestinos nos âmbitos interno e internacional.
JU – A utilização de ferramentas disponibilizadas pela internet – Twitter, Facebook e o You Tube – é apontada como responsável pelo êxito das insurreições lideradas por jovens rebelados, pois contribuiu para fomentar, articular e propagar os protestos pelo mundo afora. Esses recursos tiveram, de fato, toda essa importância estratégica e podem explicar por que até então o clamor contra as longevas ditaduras nos países árabes não alcançara os resultados de agora?
Arlene – A comunicação via páginas de relacionamento da internet foi importante, não por si só, mas em aliança aos movimentos sociais e dos trabalhadores que há anos vinham realizando manifestações e enfrentando uma brutal repressão da polícia egípcia, para tomar o caso desse país. O Facebook ajudou a articular a manifestação do dia 25 de janeiro, contra o Dia da Polícia no Egito, e pode ser muito importante para a articulação da nova fase da revolução no Egito e na Tunísia a partir de agora. Em janeiro, o simples registro do imenso número de adesões à página, por exemplo, do “Somos Todos Khaled Said”, encheu de coragem a juventude egípcia.
Junto com isso, as televisões tiveram um papel fundamental, ao propagar a notícia das revoltas, de país a país, começando pela Tunísia. Portanto, o Facebook e o Twitter foram de fato importantes instrumentos, mas não explicam porque a revolução aconteceu agora e não há uma década por exemplo. O deflagrador imediato da revolta, que foi a imagem da autoimolação do tunisiano Mohamad Buazizi, estudante e vendedor ambulante de apenas 26 anos, difundida pela televisão, não nos deixa esquecer o sentimento de profunda angústia que atingia, em todos os oprimidos e humilhados, os limites do suportável. As massas que foram às ruas no Egito representam mais de 10% da população do país.
Ao mesmo tempo, a revolta não é inédita, como indica o nome do grupo 6 de Abril, criado a partir da manifestação de trabalhadores que nessa data, em 2008, foi brutalmente reprimida pela polícia de Mubarak. Várias outras manifestações foram abortadas pela ação da polícia. Isso indica que já havia uma revolta social sendo lentamente gestada, e tentativas de manter vivos e atuantes os movimentos sociais e de contestação ao regime. A existência desses precedentes foi fundamental para que a revolução finalmente estourasse e a população em massa tomasse as ruas das principais cidades. Por fim, penso que as redes sociais eletrônicas devem manter um papel importante, mas que as populações do Egito e da Tunísia ­– além dos demais países onde a derrubada de regimes opressores foi posta na ordem do dia –, vão precisar de bem mais do que redes como o Facebook para organizar a continuidade da revolução a partir de agora. O movimento contínuo de protestos, que não deve parar com a derrubada dos ditadores, entra em uma fase nova e mais delicada de organização política da sociedade para conseguir avançar suas reivindicações.

Mohamed – Tentativas anteriores falharam porque, diferentemente das manifestações de agora, caracterizadas pela espontaneidade, foram concebidas e organizadas com antecedência por grupos de ativistas. Essa preparação era monitorada por três instituições de espionagem em conjunto: CIA, Mossad e a inteligência egípcia. Antes que fossem capazes de deflagrar seus planos, as lideranças eram capturadas, presas e até mortas, o que desarticulava todo o movimento. Então, o êxito das mobilizações atuais se deve à reação espontânea dos jovens, que surpreendeu até mesmo os serviços de inteligência, e não às novas tecnologias de comunicação.
Nasser – Como qualquer tecnologia, dado o seu contexto, ela não é capaz de criar movimentos, ela é capaz de canalizar, de potencializar ações. Foram e são importantíssimas, assim como o jornal tornou-se um instrumento revolucionário nos séculos 19 e 20. Mas o sucesso dos levantes depende das necessárias condições sociais e políticas para isso. Havia insatisfação e um sentimento de integração. Então, a comunicação proporciona mais eficiência a esse princípio de comunidade, porém dizer que gera insatisfação seria tomar a consequência pela causa. Mas isso também está traduzindo o crescimento de uma camada urbana muito importante. Fala-se na importância das tribos, mas veja que na Líbia a revolta começou em Bengasi, cidade com 1,5 milhão de habitantes, e depois foi para Trípoli; no Egito os protestos eclodiram no Cairo.
Então, essa é uma questão maior que a internet, é a questão das classes urbanas, é o fato de o desemprego atingir 90% dos jovens, que respondem por 30% da população. Nesse aspecto, o homem da rua árabe é como o homem da rua ocidental: ele quer trabalhar, estudar. Não existe aquela imagem vulgar que aparece toda hora, em que todo mundo ou fica rezando ou jogando bomba. Isso é da cabeça de Hollywood, dos neoconservadores. As tecnologias colaboram para dar vazão a isso e, num regime ditatorial, em que não há meio de expressão, elas se qualificam mais ainda. Existiram mobilizações anteriores, mas os objetivos eram outros. Na década de 1960 esteve no auge o chamado nacionalismo árabe, mas era um movimento para fazer guerra a Israel, e não para derrubar ditador.
JU – Como fica a situação de Israel diante do aparentemente irrefreável movimento libertário em curso no mundo árabe? Não seria este o momento propício e estratégico de rever a sua política de assentamento nos territórios ocupados em Gaza e na Cisjordânia e a sua postura contrária à criação do Estado palestino?
Arlene – Uma grande manifestação está prevista para o dia 15 de março na Cisjordânia e se a revolta de fato tomar as ruas dos Territórios Palestinos Ocupados, o seu primeiro alvo poderá ser a própria Autoridade Nacional Palestina, cada vez mais apontada pela população como a “administradora” dos guetos palestinos. A liberação, pela Al Jazeera, de 1.600 documentos secretos demonstrando como a ANP vinha abandonando, nas negociações com o governo de Israel, as reivindicações históricas e de justiça para com o povo palestino, apenas aumentaram a desmoralização dessa liderança há muito acusada de corrupta e incapaz de sustentar a implementação dos direitos palestinos mínimos, assegurados, por exemplo, em resoluções do próprio Conselho de Segurança da ONU.
Seria muito difícil para os palestinos derrotar o exército israelense, pois não possuem força militar ou sequer verdadeiras organizações guerrilheiras para isso. Mas estão bastante revoltados com o papel que a ANP vem exercendo, denominada por muitos como “o braço administrativo da ocupação militar israelense”. Para entender essa afirmação, teríamos que voltar aos Acordos de Oslo e à história palestina desde a década de 1990, mas vale lembrar que o sentimento contrário à ANP e a setores da OLP tem crescido muito.
Mohamed – Israel incorre no mesmo equívoco do Ocidente de acreditar que seus interesses só podem ser assegurados a partir de povos oprimidos por regimes ditatoriais ou de parcerias com ditadores. Ao longo do tempo essa situação torna-se insustentável. Seria muito melhor se pudessem se relacionar com os vizinhos por meio de governos democráticos, pela via do diálogo e com a participação da sociedade civil. Portanto, a revisão de sua atual política seria a decisão inteligente e eu espero por isso. Nem é preciso respeitar a deliberação da ONU de 1947 [sobre a partilha da Palestina que destinou 56,47% do território para os judeus e 43,53%, para os árabes]. Mas pelo menos deixem o povo palestino numa área única contígua onde possa criar seu Estado, sem a presença militar de Israel, e não mais separadamente, de um lado na Faixa de Gaza e de outro na Cisjordânia, tendo entre eles território israelense, sem esse queijo suíço, cheio de assentamentos israelenses conectados por estradas e avenidas que o palestino não consegue atravessar.
A qualidade de vida do povo de Israel não depende só de dinheiro e de tecnologias. É preciso haver também uma cultura de paz, e esta depende de uma harmonia com os vizinhos. Esses indicadores têm de ser levados em consideração pelos governantes de Israel, mas infelizmente a extrema direita israelense se sustenta pelo ambiente de terror criado na região. Vai chegar o dia em que a democratização no Oriente Médio alcançará Israel e se o governo israelense não mudar sua política, também sofrerá levantes dentro de seu território. Os motivos são diferentes, mas há esse risco.
Nasser – Israel vai rever isso, não tenho dúvida. Setores liberais de Israel estão gostando muito desse momento, porque questionam até que ponto é válido manter a paz com o Egito a custa de negociatas, ou seja, à custa de uma triangulação com os EUA, que dão milhões de dólares para um tipo de governante corrupto como o Mubarak. Para eles, estabilidade é quando há um acordo reconhecido como legítimo e justo para ambas as partes; para eles, a paz se alcança de forma legítima, assentando o povo no território em condições de vida. Então, acho que vai ganhar força um questionamento dos grupos políticos existentes, acredito que haverá debate interno em Israel. Essas discussões precisam ser colocadas em outro plano que não é o religioso, étnico ou político. Há também as questões relacionadas aos atos de Israel para com os palestinos que não podem continuar.
Algumas pesquisas de opinião pública no mundo árabe mostram que a maioria é contra os atos de Israel, poucos são os que negam a sua existência. Mas não nos enganemos: os radicais dos dois lados vão reagir, porque nesse momento eles estão obscurecidos. Quem fala no Osama? Cadê o Netanyahu? Cadê a direita de Israel? Sumiram, porque eles só têm algo a dizer quando tem bomba. Os movimentos radicais estão atentos, aguardando qualquer circunstância de instabilidade para favorecê-los. Portanto, é preciso paciência e saber o momento de lidar com as adversidades, porque senão vem a explicação básica: está vendo, esse pessoal só vive no caos. E se a chamada comunidade internacional quer mesmo a estabilidade, agora é o momento de ajudar, de dar dinheiro para a reconstrução social e não para comprar armas.
JU – Às preocupações do Ocidente com o terrorismo e com o petróleo soma-se agora uma outra, particularmente dos países da União Europeia, acerca da fuga em massa de imigrantes ilegais líbios e de países em conflito para o outro lado do Mediterrâneo. Que impactos sociais e econômicos um fenômeno dessa magnitude pode ter no continente, lembrando que países europeus estabeleceram rigorosas restrições à imigração?
Arlene – Há muita confusão e, de fato, xenofobia, sendo veiculada sobre a questão. Por um lado, a imigração de trabalhadores árabes ou islâmicos na Europa foi severamente restringida e em alguns casos já se tornou quase impossível. Tal restrição ajudou a estrangular a situação econômica, a eliminar válvulas de escape da miséria e a contribuir para o estopim da revolução, não o contrário. Embarcações continuam tentando chegar ilegalmente, mas em menor número. No caso da Líbia, durante as últimas semanas o principal movimento de fuga tem se dirigido aos países árabes vizinhos, inclusive porque muitos dos que estão fugindo já são trabalhadores egípcios imigrantes. Além de voltar-se contra os trabalhadores miseráveis e imigrantes dos países árabes, o discurso xenofóbico poderá facilmente ser empregado para tentar enfraquecer os movimentos de trabalhadores e jovens da Grécia, Irlanda e Espanha, absolutamente locais e autóctones, criando o mito de que seriam infiltrados e permeados por influências islâmicas estrangeiras.
Mohamed – A questão migratória dos norte-africanos e dos subsaarianos tem de ser analisada a partir de sua causa. Eles buscam na Europa o emprego e o sustento que não encontram em sua própria terra. Essa situação é resultado do humilhante processo de desrespeito dos direitos humanos e de exploração de riquezas naturais protagonizado pelos europeus na África. Sem alternativas desenvolvimentistas suficientes para manter essa massa em seus territórios de origem, a migração vai continuar e a Europa não tem como adotar medidas restritivas eficientes.
A democratização do Oriente Médio e do Norte da África tende a estimular a criação de projetos voltados ao desenvolvimento de seus países e capazes de absorver muitos desses movimentos migratórios, já que hoje o africano deixa a terra amada somente porque ela não lhe proporciona condições minimamente dignas de sobrevivência. Depois, podem ser firmados acordos para que a Europa aproveite determinadas capacidades e habilidades da mão de obra africana conforme as suas necessidades. Mas essas mudanças passam pelo respeito à soberania e à autonomia dos países africanos e pelo reconhecimento por parte do Ocidente da importância de sua democratização.
Nasser – Na perspectiva europeia, esse fato é mais ameaçador do que qualquer atentado terrorista, devido à questão do desemprego, devido às manifestações desses grupos que estarão no continente europeu. Por isso é que agora resolveram ficar seriamente preocupados com a situação da Líbia. O Ahmadinejad [presidente iraniano] pode ser louco, menos bobo. O que é que ele disse: faremos a próxima revolução dentro da Europa. Eu não concebo que isso seja verdade, as pessoas estão indo para lá em busca de emprego. Mas ele quer acirrar conflitos e sabe onde está cutucando. É um problema que vai agravar a questão social, aumentar a xenofobia, porque na mesma proporção a direita na Europa está crescendo em função disso. E vai crescer ainda mais.
 Jornal da Unicamp

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Notícias História Viva


Arábia Saudita estará finalmente se interessando por seu próprio legado?

JASON BURKE

A Arábia Saudita vem há anos obliterando qualquer evidência de seu passado de politeístas moradores no deserto. Agora, porém, essa maré pode estar começando a mudar, aos poucos.

Diga a pessoas em Riad, a capital saudita, que você está partindo para a província de al-Qassem, e elas reagirão com expressões de espanto. Al-Qassem é um lugar profundamente conservador, mesmo pelos padrões deste país profundamente conservador. Fica a duas ou três horas de distância de Riad pela rodovia principal em direção oeste, bem no meio do interior árido. Nas últimas décadas, várias cidades de al-Qassem foram palco de revoltas contra a autoridade da família real saudita, lideradas por clérigos que denunciaram os líderes sauditas como reformadores e moderados perigosos. Há poucos turistas na Arábia Saudita e menos ainda em al-Qassem.

Ibrahim Darwish, estudioso religioso e sociólogo que comanda um instituto de estudos em Rass, a terceira maior cidade da província, descreve uma sociedade "fechada e sólida" que é "tradicional, hospitaleira, generosa e de fala direta, sem rodeios".

É também uma sociedade que vem mudando muito rapidamente --mesmo em uma região em que é comum falar sobre a rapidez das transformações. Na Arábia Saudita, onde uma população desértica sem o legado cultural de outros Estados da região, como o Egito, Irã ou Turquia, foi beneficiada por riqueza excepcional, a vida de seus pais é irreconhecível para os jovens --o que dirá as de seus avós ou bisavós.

Assim, em Rass, as autoridades locais ergueram um museu dedicado ao passado. Ele ocupa a esquina de um dos shopping centers modernos que, ao lado das mesquitas, concentram a maior parte da vida pública na Arábia Saudita. O museu não é muito grande. Uma sala é ocupada por uma reconstrução de uma moradia rural, completa com poço e tubulação engenhosa de barro que permitia aos agricultores se banharem. Outra é repleta de fuzis e espadas. Uma terceira sala é ocupada por teares e têxteis.

O maior espaço é uma reprodução de um café, com tapetes no chão e persianas pintadas. É o lugar onde Suleiman Mohammed al'Dubayan, 56 anos, geralmente pode ser encontrado. Soldado aposentado, ele é empregado pela prefeitura local para vestir roupas tradicionais e fazer café para os visitantes, da maneira tradicional.

Al'Dubayan conta que vê até cem pessoas por dia, em sua maioria "rapazes que vêm para cá em busca de algo. Eles querem saber como eram as coisas no passado. Me perguntam sobre como se fazia o café, sobre os velhos tempos. Então conto a eles."

O museu em Rass faz parte de um fenômeno mais amplo na Arábia Saudita: a redescoberta do passado do reino. Ninguém prestou muita atenção à preservação durante as primeiras décadas da consolidação do país, que tem 79 anos de idade, ou durante a corrida instigante do desenvolvimento e enriquecimento estupendo vivida desde o início da década de 1970. Há muito poucas construções que tenham mais de 30 ou 40 anos.

Em Riad, há o "masmak" --o forte antigo que foi usado pelos governantes da cidade no século 19, perto do quartel-general da polícia religiosa_ e há um labirinto de casas velhas de adobe no centro da cidade, onde trabalhadores migrantes da Índia e do Oriente Médio vivem no meio da sujeira. E há o palácio restaurado do século 19, a pouca distância de carro da cidade, onde você pode ver bengaleses mal-pagos, com vistos de trabalho temporários, representando o papel de moradores de vilarejos sauditas "dos velhos tempos". Mas quase todo o resto é sistematicamente demolido para dar lugar ao mais recente arranha-céus ou prédio de apartamentos.

O museu em Rass é um dos muitos sinais de que isto está mudando. Hoje existem no país dois sítios tombados pelo Unesco --as ruínas da cidade de Ad-Dir'iyah e os resquícios antigos do oásis Al-Hijr, no noroeste, e espera-se que a cidade velha de Jedá, porto no mar Vermelho, se junte a eles em breve.

Há mais em jogo, contudo, que um novo interesse pelo passado ou um desejo de atrair turistas, como parte dos esforços do reino para diversificar sua economia, predominantemente dependente do petróleo. Como é o caso em outros lugares, controlar a história é a chave do poder. A Casa de Al'Saud só vem podendo governar seu reino com a colaboração e o apoio do clérigo, em grande medida ultraconservador. É possível promulgar reformas --como a introdução do ensino para as mulheres, que na década de 1960 provocou tumultos em al-Qassem, mas apenas com o consentimento da maioria dos clérigos.

Para os conservadores religiosos no reino, qualquer resquício físico da história, até mesmo da história dos primeiros muçulmanos, desvia a atenção de Deus e levanta o espectro do politeísmo. Assim, há anos vêm sendo destruídos todos os traços de religiosidade passada no reino, o que dirá qualquer coisa que possa ser considerada anti-islâmica. Dezenas de santuários, cemitérios e sítios históricos foram demolidos, danificados, ou construiu-se em cima deles. Isso aconteça até mesmo nas cidades sagradas de Meca e Medina --na realidade, talvez aconteça especialmente lá.

Logo, preservar qualquer coisa que restou do passado constitui resistência religiosa --e, portanto, política.

Não apenas Deus, mas também o dinheiro exerce um papel na nova disputa pela história do país. Mais recentemente surgiu uma disputa entre construtoras que querem erguer apartamentos com vista da grande mesquita de Meca --imóveis que renderiam valores astronômicos-- e, por outro lado, conservacionistas locais. Como o conflito mais amplo em torno do "legado", essa discussão não será resolvida em pouco tempo.
Seu resultado --ou, melhor, sua evolução-- será uma janela fascinante para ter uma visão de uma sociedade extremamente conservadora que, por uma série de razões, ainda está engajada em obliterar todos os traços de um passado mais pobre.

"Eu não gostaria de viver no Ocidente", me diz um burocrata enquanto dirigimos pela rodovia de seis pistas que faz as vezes de rua central de Riad, passando por enormes arranha-céus novos, shopping centers em sequência e quilômetro após quilômetro de apartamentos com fachada de concreto. "Nunca estive lá, mas olho para a vida no Reino Unido, França ou América e acho que o problema é que vocês perderam todas suas tradições."

Tradução de Clara Allain

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Islã - A valorização do saber

O Islã abriga e torna-se o guardião da cultura da An tiguidade clássica

Taj Mahal
Mausoléu em Agra, na Índia(1632 a 1654), é exemplo de arquitetura

Na Síria, no início do século 13, um médico cristão de origem árabe é chamado, por um destacamento de cruzados francos para tratar duas pessoas. Pedem ao médico que cuide de um cavaleiro, que estava com um grande e feio abscesso na perna, e uma mulher que ardia em febre. No caso do cavaleiro, o médico aplica uma cataplasma no abscesso, que abre e melhora; na mulher, ele a refresca e determina uma dieta com restrição de alguns alimentos.

Chega depois um médico franco, que desdenha do tratamento. Determina a um guerreiro que corte a perna do cavaleiro enfermo com golpes de machado. Após a segunda machadada, a medula escorre e o cavaleiro morre. Em seguida, o médico franco examina a mulher, afirma que ela está sob possessão demoníaca e manda que raspem a sua cabeça e que ela coma alho e sementes de mostarda. A mulher volta a ter febre. 'É porque o demônio lhe penetrou a cabeça', diz o médico franco que, em seguida, faz na cabeça da mulher dois profundos cortes em cruz, fragilizando os ossos do crânio, e aplica sal na área afetada. A mulher morre e o médico árabe é dispensado pelo franco.

O episódio acima foi relatado por Guillaume de Tyr (1184-1277), cronista das cruzadas. É um exemplo da profunda diferença entre a medicina cristã européia e a árabe islâmica durante quase toda a Idade Média. Apesar de cristão, o primeiro médico convocado pelos francos tinha a mesma origem cultural dos islâmicos, inimigos dos cruzados.

Enquanto o mundo cristão vivia o obscurantismo e a submissão da razão aos dogmas da Igreja no plano do conhecimento da natureza, o mundo islâmico preservava e aprimorava a medicina, a matemática, a astronomia e outras ciências surgidas na Antiguidade clássica.

O livro que contém tudo

O corpo humano
O cânone de Avicena cobria todos os aspectos da saúde

No século 10, as cidades islâmicas de Córdoba, na Espanha, e de Bagdá, na Mesopotâmia, possuíam hospitais, farmácias. Aplicavam-se os conhecimentos adquiridos pelos sábios árabes com a tradução de obras gregas e a absorção de conhecimentos de outras culturas, especialmente a hindu, no diagnóstico de enfermidades, nos tratamento e na produção de diversos tipos de medicamentos, como inalantes, pomadas, supositórios e até de pílulas.

A arte da tradução já havia sido objeto da atenção especial do califa al Ma'mun. Ele fundou em Bagdá, no início do século 9º, a Casa da Sabedoria, uma espécie de escola de tradutores. Foi nesse ambiente cultural que surgiram obras como O Livro que Contém Tudo, do médico persa Muhammad Ibn Zakariya al-Razi (864-930). Al Razi foi diretor de um hospital em Bagdá. Sua obra, que compreendia 23 volumes, era o trabalho mais extenso dos cerca de 50 que escrevera. Consistia em uma enciclopédia médica com descrições de várias doenças e comentários sobre cada uma delas compilados de textos gregos, sírios, indianos, persas e árabes. Outro clássico da época foi o Cânone da Medicina, de Avicena, ou Ibn Sin (980-1037). A obra, que foi referência tanto no Oriente como no Ocidente, abordava os fundamentos e a prática médica.

Esses são exemplos na medicina, mas a ciência árabe era mais do que isso. No século 9º, Muhammad al Khwarizmi (780-850), cujo nome deu origem ao termo 'algarismo', produziu as tabelas trigonométricas que chegaram ao Ocidente em 1126, e também utilizou uma letra para representar a incógnita de uma equação.

Naquela época e nos séculos seguintes, o Islã desenvolveu estudos e traduções em química e astronomia. A física teve implicações na medicina, graças aos estudos de óptica e oftalmologia de Abu Zayd Hunayn Ibn Ishaq (808-873). Produziu monumentos como o Taj Mahal, na Índia, e o Alhambra, na Espanha, consideradas até hoje entre as mais belas construções do mundo.

Revista Galileu

OS POVOS - O c não é só árabe

Religião abrange diversas etnias em todo o mundo

Boa parte da população ocidental acredita que o mundo islâmico é aquela porção de países do Oriente Médio que têm como idioma oficial o árabe. Por isso, são indevidamente considerados árabes alguns países de maioria islâmica, mas que têm outros idiomas, como Turquia (línguas turca e curda), Irã (persa), Afeganistão (pashtu e dari) e Paquistão (urdu e punjabi).

Existem atualmente cerca de 1,3 bilhão de muçulmanos no mundo, como são denominados os adeptos do islamismo. A maioria vive na Ásia, onde essa religião nasceu e ganhou o mundo há cerca de 1.400 anos. Da Ásia, os muçulmanos passaram para o norte da África - onde foram chamados de mouros - e parte da Europa (veja a cronologia ao lado). Integraram-se com populações locais, miscigenando-se com africanos, europeus das penínsulas ibérica e itálica e outros povos. Hoje eles estão presentes também entre europeus, norte-americanos e até brasileiros.

O islamismo cresceu em número de adeptos muito mais fora do mundo árabe do que no local em que a religião nasceu. Basta fazer uma comparação: os países islâmicos mais populosos, como a Indonésia (com 'apenas' 228 milhões de habitantes), o Paquistão (145 milhões), Bangladesh (131 milhões) e Nigéria (127 milhões) têm contingentes humanos muito maiores que o Egito (70 milhões), país de maior população entre os árabes, seguido de longe pelo Sudão (36 milhões). Até a Índia, majoritariamente hindu, tem aproximadamente 100 milhões de muçulmanos.

Preconceito ocidental

O islamismo, a segunda maior religião do mundo, é pouquíssimo conhecida fora da multidão de seus adeptos. Ela surgiu no século 7º, com a pregação de Muhammad (570-632), mais conhecido em português como Maomé, embora os que conhecem a língua árabe protestem, pois essa é uma transliteração inadequada do original.

Ultimamente, uma outra palavra árabe chama a atenção: Jihad. Ela é conhecida no Ocidente como 'guerra santa' e está normalmente associada ao esforço de expansão desencadeado pelos muçulmanos para levar sua crença aos povos 'infiéis'. O termo foi empregado com esse sentido pelo governo britânico, no relatório que atribuiu ao extremista saudita Osama bin Laden a responsabilidade pelos atentados de 11 de setembro nos Estados Unidos.

O uso da palavra com esse significado é muito restritivo, contrapõe Helmi Nasr, professor-titular de língua árabe da USP (Universidade de São Paulo). 'A palavra 'Jihad' tem um sentido mais abrangente. Ela refere-se à luta, tanto para ganhar dinheiro, como para fazer o Bem, ou até mesmo guerrear', explica o professor.

'Turcos' no Brasil

Segundo a Federação Islâmica Brasileira, o Brasil abriga cerca de 1,5 milhão de muçulmanos. É um número expressivo. No entanto, a ignorância sobre sua religião persiste. Sírios e libaneses, que vieram em grande número durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), foram chamados de 'turcos', pois eram súditos do Império Otomano, que foi derrotado e extinto naquele conflito. Grande parte desses emigrantes vieram para o Brasil por serem contrários ao domínio turco e também para não serem recrutados pelo exército do império. Serem chamados de 'turcos', para eles, era uma ofensa. Mesmo assim, o rótulo ficou e foi assimilado. Chegou a ser aplicado aos judeus, por quem mal conhecia as diferenças entre todos esses povos.

Além dos que fugiram do regime otomano, muitos sírios e libaneses emigraram no fim do século 19 e início do século 20 por causa da pobreza e da falta de oportunidade de trabalho em sua terra natal. Não eram majoritariamente muçulmanos, mas cristãos. Hoje, a comunidade islâmica brasileira é mais expressiva no Rio Grande do Sul e no Paraná, mas há também adeptos em outros Estados, como São Paulo e Mato Grosso do Sul. A exemplo do que acontece em países como os Estados Unidos, no Brasil também existem muçulmanos convertidos do cristianismo, que nem sempre são descendentes de árabes.
Revista Galileu

quarta-feira, 6 de abril de 2011

O Islamismo


reprodução



Geograficamente, o Islamismo, religião fundada pelo profeta Maomé, é uma fé que predomina nos países do sol, aclimatizando-se melhor na longa faixa de terra que, partindo das praias africanas do Atlântico, segue para o Leste pela borda meridional do mar Mediterrâneo, inclinando-se depois em direção à Mesopotâmia, passando pela Península Arábica, alcançando o noroeste da Índia. Dali chega, pelo Oceano Índico, até as ilhas tropicais da Indonésia e das Filipinas. Outro dos seus longos braços avançou célere para a Ásia Central, afastando os ritos fetichistas e pagãos, realizando conversões em massa. Nos seus 1400 anos de existência, o islamismo conseguiu a façanha de converter 1/5 da humanidade a sua fé. Trata-se de uma religião que abriga todas as raças e todas as línguas. Talvez, exatamente por esse seu ecumenismo, por essa tentativa de abraçar o mundo inteiro, é que ela terminou por conflitar-se com o cristianismo, que também nasceu no mesmo espaço geográfico e igualmente abriga o desejo de salvar e converter todos a fé de Cristo.

Maomé

Ao contrário de tantos outros profetas, que só conseguiram sedimentar sua mensagem por meio de apóstolos, muito tempo depois da morte, Maomé viu ainda em vida sua obra ser consagrada. Em 630, depois de vinte anos de pregação, ele entrou em Meca como um vitorioso.


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O arcanjo Gabriel aparece para Maomé

Conseguira converter ao Islã, a nova fé anunciada por ele, não só a cidade principal da Arábia, como toda a grande península da qual ela fazia parte. Nascido em Meca em 570, durante anos ele viajara como mercador pelas rotas dos desertos Saarinos, atividade que permitiu-lhe juntar um bom patrimônio, especialmente devido ao seu casamento com a rica viúva Cadija. Com o tempo, ele sentiu-se cada vez mais envolvido por preocupações religiosas, entregando-se à meditação em breves retiros que começou a fazer. Somente aos 40 anos, ao redor de 610, ele teve por fim uma revelação, quando o arcanjo Gabriel fez-lhe ver que o Todo-Poderoso o escolhera como o seu mensageiro. Retirado para uma gruta no Monte Hira, Maomé terminou por confirmar a aparição, dedicando-se então a pregar a boa nova. Só havia um Deus! Era Alá, e todos deveriam resignar-se perante ele (islam).

A revelação do Monte Hira

A escolha dele como "apóstolo de Alá" deu-se sob duas formas: uma intelectual e outra emocional. A primeira delas, a revelação propriamente dita (tanzil), fez dele o redator da Escritura Sagrada, do Corão (recitação) trazida a ele por um anjo. A outra parte da revelação ocorreu em forma de uma inspiração (nahyi, ilman), responsável pela conversão do coração do Profeta, passando a regular a sua conduta e servindo como exemplo aos fiéis. Maomé confiou a sua visão a sua mulher Cadija, que tornou-se sua primeira seguidora, convertendo a seguir os seus próximos. A sua tentativa de ganhar o coração dos corachitas, tribo em que nascera, porém, trouxe-lhe os primeiros dissabores. Maomé, como a maioria dos profetas, demorou para ser bem aceito na sua cidade, mas mesmo assim ele não esmoreceu em fazer da nova crença um poderosos instrumento para estabelecer novas bases sociais para os povos do deserto. O ponto da discórdia entre Maomé e os principais de Meca, foi justamente a condenação dele à adoração dos ídolos.


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Caligrafia árabe em estilo thuluth

Já naquela época, Meca, por ser o local onde se encontrava o sagrado poço de Zem-zém (do qual o avô de Maomé foi zelador), de onde, desde tempos imemoriais, jorrava água, era uma cidade que acolhia peregrinos vindos dos diversos cantos do deserto. Os comerciantes da praça, e toda aquela chusma que vivia ao redor da Caaba, a pedra negra sagrada, (depois designada como Baitullah, a Casa de Alá na Terra) temiam que a pregação contra a idolatria afastasse os visitantes, estragando-lhes o negócio. O desentendimento deles com Maomé, fez com que o profeta se retirasse para a cidade vizinha de Medina. Este movimento, chamado Hégira (retiro), assinalou a data da Nova Era (16 de julho de 622), ano um do calendário muçulmano. Entrementes, o número de seguidores (muhadjirun) aumentava, opondo-se aos que se negavam à conversão, os munafiqun (os hipócritas, os que não aceitavam a nova fé).

O embate final deu-se na "batalha do fosso" em Medina, quando a cavalaria enviada de Meca fracassou em tomar de assalto as posições do Profeta. Esta vitória, ocorrida em 627, abriu caminho para o Tratado de Hodaibyia, de 629, que assinalou a capitulação dos habitantes de Meca, permitindo que o Maomé retornasse vitorioso a sua própria casa.

Neste espaço de tempo, o profeta passara por três fases distintas: inicialmente, numa época entremeada por meditações e dúvidas, ele fora o eleito por Alá como o seu Anunciante, depois revelou-se um comandante de homens, um general, um estrategista, para finalmente terminar os seus dias como um conquistador e um estadistas, aquele que lançaria as bases de um estado islâmico.

O cenário histórico

A região da Arábia na época de Maomé, isto é entre os séculos VI e VII, pertencia a periferia do Império Romano do Oriente (Bizantino), também considerada área de interesse marginal pela outra potência daquela época, o Império Persa ( Sassânida).


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Maomé na gruta do Monte Hira junto aos primeiros fiéis

A Arábia por sua vez, uma península de mais de 3 milhões de km2, nada mais era do que um imenso deserto, habitado aqui e ali por pequenas tribos beduínas que, com suas caravanas de camelos, cortavam suas areias, dunas e montanhas, em todos as direções daquele mundo desolado. Elas viviam em intermináveis conflitos, travando guerras entre si, ou pela posse dos oásis ou para vingar um saque a que foram submetidas. Cada uma das tribos tinha um culto em torno dos seus ídolos particulares. Maomé, importando o monoteísmo de suas viagens, também trouxe na bagagem a idéia de um império da lei e da ordem. O resultado disso foi o Islã, a fusão de um mística religiosa baseada num deus único, omnisciente e omnipresente, com um estado de lei e ordem comum a todos habitantes do deserto. O seu objetivo era estabelecer a paz entre eles, sendo que o sentimento de fraternidade islâmica deveria superar os códigos limitados dos clãs e das tribos, convertendo-as numa Umma, isto é a imensa comunidade dos crentes em Alá.

Os preceitos da nova fé

O Islamismo é uma religião que chama a atenção por sua absoluta simplicidade.


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Interior da Mesquita de Córdoba, Espanha

Talvez por ter nascido no deserto e não ter encontrado de imediato nenhum império poderoso que o acolhesse, como ocorreu com o cristianismo em Roma (tornado religião oficial em 390) e com o zoroastrismo no Reino da Pérsia, o Profeta dispensou os aparamentos litúrgicos mais rebuscados, bem como um cerimonial solene e pomposo, tão comuns às outras religiões. Se bem que aceita a existência de alguns mensageiros divinos, não há santos nem outros intermediários significativos entre o muçulmano (aquele que se submete a Deus, o crente) e o Único (Alá). O fiel comunica-se diretamente com o Todo-Poderoso, perante quem todos são iguais, sem distinção de qualquer espécie. Frente a Alá, não há ricos nem pobres, nem nobres nem parias. Na sua época, o islamismo foi o mais poderoso instrumento de igualitarismo entre os homens, pois a pregação da caridade e da fraternidade tornou-se uma ponte que ligava os extremos sociais e aplainava os preconceitos contra os pobres.




Obrigações do crente

Maomé nunca se viu como divino, dotado com uma outra natureza que não fosse a humana. O Corão, livro sagrado do islamismo, composto de suras (capítulos) e versículos, foi-lhe inspirado por Alá, não se trata de um testemunho como os Evangelhos cristãos, mas sim as lições do próprio Único as quais o fiel deve recitar. Maomé considerava-se o derradeiro profeta de uma linhagem que começara com Moisés (que trouxe a Torá), passara por Davi (que escrevera os Salmos), Jesus (que aparece nos Evangelhos) e ele, Maomé, autor do Corão. Justamente por isso, por ele ser o último dos profetas históricos, ele os superou. A adesão do crente ao Islã verifica-se pela obediência e o comprometimento com o que denominou-se os cinco pilares do muçulmanismo:
1) a declaração de fé em Alá (shahada);
2) a oração diária (salat);
3) a peregrinação à Meca (hajj ou Hégira);
4) a prática do jejum religioso (no mês do Ramadã);
5) e, finalmente, o compromisso com a caridade (em forma do dízimo, o zakat). Alguns supõem que também faz parte das obrigações, entrando como o 6º pilar, a adesão à jihad, a guerra santa na defesa do Islã.


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Interior da mesquita

A mesquita e a prece

Tal como o judaísmo ensejou a sinagoga e o cristianismo a igreja, o islamismo também criou o seu próprio templo: a mesquita (do árabe mosqe, derivada de masjid, lugar onde se prostra). A primeira delas foi fundada por Maomé em pessoa, na época em que esteve exilado na cidade de Medina. No chão dela encontram-se espalhados, em linha, os tapetes sobre os quais os fiéis fazem a prostração e rezam as orações, sempre voltados em direção ao mihrab, um nicho fixado na parede que indica a direção de Meca. É obrigatório aos que a freqüentam, retirar o calçado em sinal de respeito como um gesto de purificação (deixa-se a poeira da rua na entrada). As preces são presididas por um imã, do alto de um minbar (púlpito), que também é o responsável pelo khutbah (o sermão), não havendo porém um corpo oficial de sacerdotes responsáveis pela liturgia. Na mesquita não devem existir reproduções de figuras humanas ou animais, pois esta foi um proibição expressa pelo Profeta. Em compensação ela pode ser decorada com passagens do Corão, escritas em bela caligrafia, ou ainda profusamente decorada com arabescos. Para chamara o povo às preces, instalou-se no alto dos minaretes que cercam a mesquita, o muezim, que lá de cima avisa, com voz forte e ondulada, a hora da salaah (oração) que se divide ao longo do dia em cinco momentos: a fajr (ao amanhecer); a zuhr (ao meio-dia); a asr (durante a tarde); magrib (ao entardecer); e a ishha (à noite). Em cada uma delas a recitação é:

Allaabu Akbar (recitar 4 vezes: "Alá é o maior").
Ash'hadu an laa ilaaha illallaah (recitar 2 vezes: "Sou testemunha de que não há nada senão Alá")
Ash'hadu anna Muhammadar-rasulullaah ("Sou testemunha de que Maomé é o mensageiro de Alá").
Haya 'alas-salaah ( recitar 2 vezes: "Venham rezar").
Ilaya 'alal falaah (recitar 2 vezes: "Venham para Deus").
Allaaku Akbar (recitar 2 vezes: "Alá é o maior").
Laa ilaaha illallaah ( e uma vez: "Não há nenhum Deus senão Alá").

O Corão, livro sagrado do Islã

O Qu´ram (O Corão), livro sagrado dos muçulmanos, é um conjunto notável de ensinamentos de Alá transmitidos ao profeta Maomé ao longo da sua existência.


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Mesquita de al-Hakim, no Cairo

Supõe-se que a maioria das 114 suras (capítulos), de que ele é composto, foram-lhe inspirados em Medina e Meca, sendo imediatamente registradas, copiadas e recitadas, pelos seus seguidores, entre os anos de 610, ano da conversão de Maomé, até a morte dele em 632. Provavelmente outras passagens foram-lhe acrescentadas até o ano de 650. Como a linguagem de Alá nem sempre é facilmente entendida, suas alusões foram motivo do surgimento de uma ciência de interpretação, feita pelos doutores corânicos, os teólogos islâmicos. O Corão é um imenso tratado moral e ético que serve para orientar o crente a encontrar o bom caminho, tentando fazer com que os homens reprimam os seus instintos piores, que resistam à maldade e à perversão, encontrando consolo e apoio nas palavras enviadas do além diretamente por Alá. Escrito em árabe, a língua preferida pelo Todo-Poderoso, as cópias do Corão vão estimular várias escolas de caligrafia, cada uma delas procurando esmerar-se em tornar o texto uma obra de arte. Por organizar-se ao redor de um só livro é que o islamismo terminou por considerar os outros "Povos do livro", como os judeus e os cristãos, como aparentados ao maometanismo, todos filhos de Abraão.

Estrutura religiosa e civil


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Os fiéis ao redor da Caaba em Meca

A sucessão do Profeta

Quando Maomé morreu em Meca, em 632, provavelmente aos 62 anos de idade, ele não deixara nenhuma determinação quanto a sua sucessão. Seus herdeiros, Abu Bekr e Omar, pertenciam ao seu círculo familiar, e decidiram-se autodenominar-se de califas (os sucessores), acumulando funções religiosas e seculares, sem porém ter a pretensão de acrescentar seja o que for à palavra e à obra do Profeta, preocupando-se mais em preservar e em difundir seus ensinamentos.


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A não existência de um corpo sacerdotal separado do estado, não gerou no mundo muçulmano o conflito tão comum na cristandade entre o poder temporal ou secular (exercido pelo imperador ou pelo rei) e o poder espiritual (representado pelo papa ou pelo sacerdote). Desconhece o Islã, a não ser recentemente, a independência dos poderes. Em geral, num país muçulmano, religião e estado encontram-se misturados, fundidos numa coisa só - a ordem islâmica. Os principais califados, sucessores do Profeta após a sua morte, foram o Califado de Abu Bekr (632-634), o Califado de Omar (634-644, o Califado de Otman (644-656), o Califado de Ali (656-661) e o Califado de Moawiya I (661-680), enquanto as principias dinastia que dividiram o vasta império maometano entre si foram a dos Ominadas (Império Árabe), a dos Abássidas ( Império Muçulmano) e a dos Fatímidas (o Reino do Egito).

A expansão

Nenhuma das grande religiões universais conheceu uma expansão tão acelerada como o Islamismo. Tendo como seu berço geográfico a Península Arábica, mais precisamente a cidade de Meca, no final do século VII ela já havia conquistado ou convertido a maior parte das cidades do Oriente Médio, expulsando facilmente o domínio cristão-bizantino de lá. Em 711, o general Tárik, chefe de tribos berberes do norte da África, desembarcou no sul da Península Ibérica, dando início a sua submissão. Só não conseguiram tomar a França porque foram derrotados por Carlos Martel em Poitiers em 732. Detidos ao ocidente, o fluxo islâmico voltou-se para o oriente. Em 751, um exército árabe derrota os chineses no Turquestão, implantando lá a bandeira do Profeta (verde com a lua crescente em seu meio). Outra onda de expansão parte de Bagdá, na Mesopotâmia, e, atravessando o Golfo Pérsico, alastra-se em direção ao Irã, ao Afeganistão e ao norte da Índia. Dali, retomando forças, desloca-se para a Malásia, para a Indonésia, chegando até a ilha de Mindanao no sul das Filipinas. Em apenas quatro séculos, de 650 a 1050, considerados a Idade de Ouro do Islã, uma impressionantes extensão de terra, com milhões de habitantes, convertera-se à religião do Profeta Maomé.


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O Domo da Rocha, mesquita de Jerusalém

A reação ao islamismo

Para o historiador Henri Pirenne foi o império árabe, surgido assim quase do nada, quem forçou a Europa, num gesto defensivo, a tentar restaurar a antiga grandeza do império romano do Ocidente, pelas mãos de Carlos Magno, rei dos francos, que, em 800, foi proclamado em Roma Imperador do Ocidente. As Cruzadas, conclamadas pelo papa Urbano II, em 1095, nada mais foram do que uma grande contra-ofensiva cristã para aliviar o sufoco que a gente do Profeta submetera a cristandade oriental e ocidental. O esfacelamento do império muçulmano em vários califados e emirados é atribuído a um contradição típica dos povos nômades. Sendo gente do deserto, vagando de um lado para o outro, as tribos nômades que formavam a massa das tropas islâmicas dessa primeira fase, se bem que vocacionadas para a guerra de conquista, terminavam por debilitar-se ao dominar os povos sedentários. Além disso, os califas não conseguiram manter uma unidade de comunicações, como as estradas e as rotas navais foram para os romanos, nem criar uma burocracia universal que servisse como elo de ligação entre o todo e as partes, como por exemplo, foram os mandarins no Império da China. Com o tempo, as províncias (Córdoba na Espanha, Damasco na Síria, Bagdá, no Iraque) formaram califados independentes, enfraquecendo o império. Mas isso deu-se no campo da política, porque no que toca a religião, o islamismo, tendo por base a Mesquita e o Corão, continuou ativíssimo e altamente sedutor, convertendo milhares de homens e mulheres à fé do Profeta, atuando num arco que se estendeu do oceano Atlântico até o Mar da China, do coração da África Negra, no Sudão, até as estepes asiáticas da Eurásia.


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A península arábica, berço do islamismo

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