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quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Ascensão e queda do Muro de Berlim

Caricatura: a longínqua União Soviética se transformou em cenário para turistas (Foto: João Correia)


Ascensão e queda do Muro de Berlim
Assim como a Primeira Guerra, o Muro de Berlim mudou o mapa-múndi. Hoje, sabe-se que as aristocracias anteriores a 1918 desapareceram na história. Mas, se os ideais de uma sociedade igualitária ainda vão retornar renovados, é questão para o futuro

Por: Flávio Aguiar Fotos: João Correia

Publicado em 07/10/2009

Até hoje ninguém sabe com absoluta certeza quem foi o pai da ideia, se o premiê soviético Nikita Krushev (1894-1971), o premiê da então Alemanha Oriental, Walter Ulbricht (1893-1973), ou se Erich Honecker (1912-1994), na época secretário de Segurança do Comitê Central do Partido Comunista Alemão. Dos três, o menos provável é Ulbricht, que nem sequer seria simpático à ideia, embora tenha assinado a ordem de fechar a fronteira. E o mais é Krushev, convicto de que a Guerra Fria seria decidida em Berlim. Honecker foi o encarregado de torná-la realidade. Ele assinou a ordem de fechar as fronteiras entre a Alemanha Oriental e Berlim Ocidental num sábado, 12 de agosto de 1961.

No dia seguinte, cercas de arame começaram a ser reforçadas e a estabelecer a separação física em torno da parte ocidental da cidade. O muro envolveria, ao longo de 163 quilômetros, o lado então administrado pelas potências ocidentais, Estados Unidos, Grã-Bretanha e França. E faria de Berlim, no dizer do escritor Ignácio de Loyola Brandão, que lá esteve naquela época, a última cidade medieval da Europa: cercada por um muro que de fato funcionava.

Havia meios de comunicação com a Alemanha Ocidental. O mais importante era um corredor rodoviário que podia ser percorrido até a fronteira entre as duas Alemanhas. Os cidadãos do lado ocidental e turistas ocasionais podiam visitar o lado oriental mediante a concessão de vistos de entrada – os de 24 horas eram concedidos com alguma facilidade. Já as visitas do leste para o lado ocidental eram mais complicadas. De 1961 a 1964 foram totalmente interditadas; daí para diante a proibição foi parcialmente relaxada, até um ponto de equilíbrio em que cidadãos aposentados de mais de 65 anos, mais quem comprovasse uma necessidade familiar ou profissional relevante, podiam passar sem problemas.

Misturados a restos do muro,cartazes e outdoors tomam a cidade Os que tentassem cruzar a fronteira sem autorização podiam até ser alvejados. Assim mesmo, muitos iam em frente. Saltar era o meio mais comum, e o mais complicado. Houve fugas em balão, em ultraleve, em carros jogados contra as barreiras, em porta-malas de carro. Estima-se um total de 5 mil fugas bem-sucedidas. E em até duas centenas os mortos na tentativa. Oficialmente, são136, relembrados por cruzes dispostas nas imediações do local onde foram abatidos.
No começo era um correr de arames. A partir de 1965 começou a parecer muro mesmo. E de 1975 em diante tomou sua forma definitiva: uma sucessão de placas de concreto de três metros de altura, encimadas por canos redondos para dificultar a escalação, num conjunto reforçado por muros suplementares, barreiras aquáticas, cercas de arame, cães de guarda, soldados, mais de uma centena de torres de observação equipadas com holofotes e metralhadoras. Tudo isso custou na ocasião a bagatela de US$ 3,6 milhões. As justificativas para a construção do muro iam desde impedir o contrabando até dificultar a espionagem. Mas no centro da ideia estava a competição entre o regime capitalista e o comunista, a Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética.

Frentes e símbolos
Havia a frente militar. O incidente mais grave ocorreu em 22 de outubro de 1961. Em Checkpoint Charlie, uma das passagens por onde estrangeiros podiam atravessar, armou-se uma discussão sobre se um diplomata norte-americano podia ser revistado ou se devia mostrar seu passaporte. A discussão degenerou tanto que em poucos dias dez tanques norte-americanos e dez soviéticos estavam frente a frente, a menos de 100 metros uns dos outros. Outros 30 tanques soviéticos tinham tomado posição de ataque em frente ao Portão de Brandemburgo, não muito longe. A coisa ferveu, e só terminou com um telefonema do presidente John Kennedy ao premiê Nikita Krushev, pedindo que os soviéticos dessem o primeiro passo no recuo. Assim foi.

Mas a frente mais importante era a simbólica. Havia uma competição entre os dois lados para mostrar melhor padrão de vida. Do lado oriental para o ocidental havia – alegavam os comunistas – uma permanente evasão de cérebros e trabalhadores mais qualificados. E a proximidade entre familiares, amigos, conhecidos, de ambos os lados de Berlim, era um atrativo muito sedutor. Daí, dizem muitos, nasceu a “ideia” do muro, um dos maiores erros da Guerra Fria, símbolo palpável de opressão e restrição de movimentos. Os cercados eram os habitantes de Berlim Ocidental; mas os confinados eram os do leste.

Se hoje se pode dizer que começou a cair a partir de sua construção, atitude política que se provou insustentável, não era essa a impressão de seus contemporâneos. No começo de 1989, Honecker, já premiê da Alemanha comunista no lugar de Ulbricht, deu uma declaração de que o muro poderia existir por mais um século. Era um sentimento geral. Naquele ano, em que se discutiam o futuro e o século 21, falava-se de tudo, menos da queda. Foi a insolvência dos regimes comunistas que solapou os alicerces do Muro de Berlim. Além disso, o desejo de reunificação das Alemanhas tocava todos os setores do país que saíra dividido e devastado da loucura nazista: cultural, familiar, político, social e econômico, pois a reunificação, na época, era vista quase como sinônimo de “prosperidade” para o lado oriental, o que não se provou verdade, com o declínio do emprego e dos indicadores sociais.

A primeira jabuticaba


Ane-Sofhie é berlinense e declara-se “oriental”. Passou pelo Chile e está hospedada em São Paulo desde o início de setembro, onde presta serviços voluntários numa associação que acompanha a vida de bolivianos do ramo de tecelagem no bairro do Bom Retiro. Tem 19 anos e estava na barriga da mãe quando o muro foi demolido. Seu avô paterno era membro da polícia secreta. O pai, funcionário do Estado, ainda mantém distância do lado ocidental. A mãe, professora de inglês e literatura, se encantou com a quantidade de livrarias a que teve acesso. Ane-Sofhie diz que seus amigos vivem debatendo vantagens e desvantagens, os colegas ocidentais ainda criticam a falta de liberdade no leste; e os orientais reclamam do nariz empinado do outro lado. “Apoiamos a derrubada porque somos jovens, queremos viajar. Mas as Alemanhas não estão reunificadas”, completa. (Paulo Salvador)

O muro começou a cair naquele ano com uma série de manifestações “pela liberdade”. Alguns dias antes da queda, 1 milhão de pessoas se concentraram na Alexanderplatz, perto do Portão de Brandemburgo, reivindicando a livre passagem. No dia 9 de novembro o governo da Alemanha Oriental autorizou a passagem de um lado para o outro mediante a facilitação da concessão de vistos no local. Mas o que era para ser um fluxo controlado logo se tornou uma torrente impetuosa. Na madrugada de 9 para 10 o muro foi abolido como fronteira; e os regimes comunistas do Leste Europeu, inclusive o da União Soviética, ruíram. Alguns de forma mais pacífica, como a hoje também extinta Tchecoslováquia; outros de forma sangrenta, como a Romênia.

Assim como na Primeira Guerra Mundial, a ascensão e a queda do Muro de Berlim representou muito mais do que hoje se pode imaginar: o apogeu de um mundo (o da Guerra Fria) e a derrota e o desaparecimento dos regimes comunistas na Europa. Também como naquele conflito, o mapa-múndi mudou de forma palpável. Ao fim de 1918, impérios como o Austro-Húngaro e o Otomano e a monarquia alemã passavam a ser parte da história pregressa. Todo um mundo remanescente das oligarquias aristocráticas seculares, seus valores, seus costumes, desapareciam. Mas com o Muro de Berlim o que soçobrava era uma forma de futuro, pois viam-se os regimes comunistas – com desprezo e terror ou com admiração e esperança, conforme as opções ideológicas – como uma forma possível e provável de futuro da humanidade.

Basta rever os filmes engajados de esquerda daquela época ou, do outro lado, muitos dos filmes de ficção científica em que sociedades opressivas e controladoras, com tecnologia avançada mas hábitos medievais, eram confrontadas por sucessivos “punhados de bravos” dispostos a conquistar a liberdade. As velhas aristocracias não têm volta. Mas, se os ideais de uma sociedade igualitária, como no começo se propunha a comunista, vão retornar renovados, essa é uma questão para o futuro. Esperemos que retornem, mas sem muros, como o de Berlim.

O fim de uma fronteira
Por Ute Hermanns


Na noite de 9 de novembro de 1989, eu estava com muito sono e demorei para me dar conta do que acontecia. Na manhã seguinte eu tinha um compromisso com o escritor Rubem Fonseca, bolsista do Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico. Encontraríamos o casal Engler em Berlim Oriental, em frente à estação de metrô Friedrichstrasse. Erhard Engler era uma instituição. Todos os escritores brasileiros que chegavam a Berlim queriam conhecê-lo. Tinha traduzido para o alemão Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, e contos de vários autores. Editou um livro de ensino de língua portuguesa, tinha textos sobre Jorge Amado, Loyola Brandão, entre outros. Lecionava na Universidade Humboldt e era intérprete de conferências, até que sua primeira mulher fugiu para o lado ocidental. Então, Erhard Engler não mais recebeu a permissão para viajar. Felizmente encontrara Christina, simpaticíssima, também tradutora de português.

Pelo barulho das buzinas, comecei a me dar conta de que algo extraordinário acontecia. Rubem Fonseca e eu fomos de metrô até a fronteira com Berlim Oriental. Vagões e estações estavam lotados. Passamos pelo controle e vimos o casal na multidão. Engler acenava. Rubem e eu tínhamos combinado convidá-los para um passeio no lado ocidental. Mas ambos temiam não poder voltar. Atravessar sem permissão era temerário. Não havia mais volta. Era exílio permanente, pois as pessoas achavam que o muro era eterno. Abordei um guarda da fronteira e ele afirmou que agora quem quisesse podia passar de um lado para o outro e voltar.

Atravessamos. Compramos champanhe e brindamos no apê do Rubem Fonseca às possibilidades que se abriam. Engler e Christina quiseram conhecer a biblioteca do Instituto Ibero-Americano, uma das maiores do mundo para pesquisadores lusófonos e hispanofônicos. Almoçamos num restaurante italiano. Vimos a igreja erguida em honra ao imperador Guilherme, um dos pontos mais conhecidos de Berlim, e seu ar de ruína da Segunda Guerra. Eles não queriam saber de compras. “Basta ter liberdade”, sussurrava Engler. A noite caía quando vimos o casal regressar a Berlim Oriental.

No domingo, 12, estava prevista a abertura do muro na Potsdamer Platz. Quando chegamos, os guardas tinham acabado de abrir um pedaço do muro. Os carros do lado oriental entravam buzinando, com as pessoas alegres; as do lado ocidental aplaudiam, moças entregavam rosas, caminhões da empresa de biscoitos Bahlsen distribuíam confeitos. Também apareceram caminhões para presentear os recém-chegados com bananas, fruta exótica que conheciam apenas pela televisão ocidental.

Conversávamos em português. Um jornalista se aproximou e perguntou: “Vocês são brasileiros?” Era Luiz Carlos Azenha, da TV Manchete. Rubem Fonseca, famoso por nunca dar entrevistas, puxou o boné sobre o rosto e comentou: “Meu nome é José Rubem Fonseca, sou brasileiro. Estamos presenciando um evento histórico. Hoje não temos ideia de como vai mudar o futuro do mundo, mas será uma mudança severa. É com grande alegria que temos de encarar essa transformação histórica”.

Menti: “Meu nome é Clara Maria da Silva, sou de Blumenau, Santa Catarina”. Estava aflita, pressentia uma profunda mudança para os alemães do ocidente e não sabia que rumo ia ter a vida no futuro. Mas admirei o comentário de Rubem e muito depois fui entender todo o significado das suas palavras. Minha mentira foi logo descoberta. Azenha perguntou se eu conhecia alguém disposto a acompanhar a equipe a locais interessantes e para traduzir entrevistas. Dei meu telefone. Rubem disse: “Bem, acho que você pode fazer esse trabalho. Só não pode falar que a gente se conhece. Diz que me conheceu por acaso na multidão”. No dia seguinte, o jornalista me ligou aflito: “Você sabe onde mora aquele homem que a gente entrevistou ontem?” O jornalista ficou em apuros por não ter reconhecido o peixe grande que lhe caíra na rede e se fora.

Todos intuíamos que não voltaríamos mais ao passado, um mundo ruía e outro surgia, de contornos indefinidos. O escritor brasileiro deu uma explicação que se revelou sábia sobre o momento histórico. A revista Veja de então relatou o episódio. Publicou uma foto do Rubem acompanhado por Clara Maria da Silva, numa página junto com a foto do Gorbatchev e sua esposa Raissa e a foto do George Bush, o pai, que perturbou a vida dos mortos praticando jogging num cemitério.

Hoje é bom não mais ter o muro separando a cidade. Convivemos, ex-orientais e ex-ocidentais, e acho que ainda temos de trabalhar muito para nos compreendermos. Em todo caso, é maravilhoso. Ter acesso à natureza ao redor, coisa que os ex-ocidentais não tínhamos, é um privilégio. Viver nessa nova cidade em constante processo de transformação vale a pena, apesar dos engarrafamentos, que também não tínhamos, e agora temos.

Ute Hermanns é tradutora, professora do Instituto 
Latino-Americano da Universidade Livre de Berlim

Revista do Brasil

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Mulheres de vida nada fácil


Índias, brancas e negras não só realizavam trabalhos domésticos como, muitas vezes, eram responsáveis pelo sustento familiar

Mary Del Priori

Ao desembarcar na então chamada Terra de Santa Cruz, os recém-chegados portugueses impressionaram-se com a beleza de nossas índias: pardas, bem dispostas, com cabelos compridos, andavam nuas, "sem vergonha alguma". As tupinambás se pintavam de tinta de jenipapo, "com muitos lavores a seu gosto [...] e põem grandes ramais de contas de toda a sorte nos pescoços e nos braços", segundo informa, em 1587, Gabriel Soares de Souza, um dos primeiros cronistas a descrever a gente do Novo Mundo. Seu cotidiano era marcado por cuidados com o corpo, com os filhos e a sobrevivência.

Sua infância era passada à sombra da mãe, com quem dividiam as tarefas diárias. Entre 15 e 25 anos recebiam um convite de casamento quando seus pais não as ofereciam a um pirata francês ou a um colono português, em troca de gêneros. Depois de casadas, acompanhavam seus maridos, carregando nas costas todos os utensílios necessários ao preparo de provisões durante as longas jornadas na mata. Quando grávidas, trabalhavam até a hora de dar à luz e depois do parto prosseguiam nas suas tarefas domésticas. Fiavam algodão, confeccionavam redes, amassavam barro para fazer vasilhames e panelas, fabricavam farinhas e vinhos, cuidavam da roça e preparavam a refeição diária.

Depois dos 40 anos, consideradas "velhas" pelos cronistas que as descreviam como "enrugadas como um pergaminho", encarregavam-se de preparar o cauim e todas as bebidas fermentadas. Se vigorosas, cabia-lhes assar o corpo dos inimigos durante o banquete antropofágico, cuja gordura escorrida era cuidadosamente acondicionada para fazer posteriormente um mingau. Essas irmãs do passado foram as responsáveis por uma série de práticas apropriadas por nossos antepassados europeus, práticas que auxiliaram em muito a sua adaptação às novas terras como as do banho de rio, dos cuidados com a higiene corporal, como o uso da folha de bananeira, da utilização da farinha de mandioca na alimentação, do sono e do sexo na rede.

A esse grupo de mulheres somou-se o das recém-chegadas portuguesas. A julgar pela documentação de época, muitas delas tinham origem humilde, viviam de suas costuras, de seu comércio, de sua horta e lavouras, faziam pão, fiavam sedas, lavavam e tingiam panos, se prostituíam. Outras tantas eram proprietárias de escravos ou casadas com funcionários da Coroa portuguesa. Desde o início da colonização, todas lutavam, de uma maneira ou de outra, pela sua manutenção e a dos seus. Um dos primeiros observadores da vida ativa e independente, com que certas mulheres conduziam seus próprios negócios, foi o francês Pyrard de Laval, em passagem pela Bahia, em 1611. Ele assim anotou em seu diário:

"Travei conhecimento e fiz amizade com outra jovem portuguesa, uma nativa do Porto, chamada Maria Mena, que dirigia uma das melhores tabernas da cidade, e não me faltava comida nem bebida, pois de tudo ela me dava quando precisava, com o conhecimento do marido, suprindo-me também de dinheiro para pagar-lhe mais tarde. Chamava-me de "meu camarada" [...] Aqui as mulheres são muito mais afáveis e migáveis para com estrangeiros do que os homens, que são de hábito excessivamente ciumentos."

Nos primórdios da colonização, havia muitas mulheres ativas, como a taberneira Maria Mena. Elas se multiplicavam, circulando sem medo de ganhar sua subsistência e acompanhando seus companheiros na lida pela sobrevivência. Entre o fim do século 17 e início do 18, contudo, a migração interna abalou fortemente a estrutura familiar de muitas mulheres na região Sudeste. O ouro, então descoberto nas Minas Gerais e em Goiás, além da guerra contra os espanhóis, obrigou muitos companheiros e maridos a partir. Vivendo com seus filhos, legítimos ou ilegítimos, acomodando sob o mesmo teto velhos genitores, escravos e, às vezes, um ou outro agregado, as mulheres não apenas sobreviviam, mas proporcionavam condições de vida afetiva e familiar para seu grupo. Para além do trabalho, sua vida quotidiana era ritmada pelas atividades em torno da igreja: festas, confissões, procissões, além das práticas domésticas, tais como rezar o terço diante do oratório e ensinar aos pequeninos as primeiras orações.

Uma parte do seu tempo era dedicada à fabricação caseira de objetos de uso diário como panos, sabão, conservas e peças de barro para a cozinha. O quintal merecia especial atenção, pois concentrava frutos e remédios na sua forma fitoterápica. Muitas mulheres conheciam os segredos das plantas para curar mazelas e doenças, tornando-se prestigiadas curandeiras em suas comunidades. Censos populacionais realizados na segunda metade do século 18 desvendam o universo dessas "deixadas para trás", viúvas, solteiras ou mulheres "do mundo". A maior parte delas dedicava-se a tarefas voltadas para o comércio local ou regional. Fabricavam caprichosamente doces, vendidos nas ruas por suas escravas, agenciavam encomendas, mercadejavam produtos secos e molhados. Algumas, mais poderosas, negociavam gado e escravos que iam buscar nas cidades litorâneas, montadas em lombo de burro e escoltadas por subalternos. Esse mesmo desembaraço encontraremos entre as mulheres do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Bahia.

E as escravas? Apesar de reduzidas à condição de coisa, privadas de todos os direitos civis, sujeitas ao domínio de seu senhor ou senhora, as africanas e suas descendentes trouxeram uma contribuição inelutável para a cultura brasileira. Para conhecê-las mais de perto, vale a pena sublinhar que o tipo de exploração econômica, baseada na grande plantação agrícola, trouxe ao Brasil um número muito maior de homens do que de mulheres africanas. Há autores que apontam a proporção de dois homens para cada mulher aqui desembarcada. O trabalho feminino era considerado menos produtivo e a vida útil da mulher, menor.

Na faina agrícola, labutavam com a foice e a enxada e, desde pequenas, semeavam, catavam ervas daninhas, enfeixavam as canas. Nos engenhos, eram encarregadas de moer as canas e cozer o melado, agrupadas, como vemos nas gravuras de época, em torno de infernais panelões de cobre. Manufaturavam o açúcar, descaroçavam algodão e descascavam mandioca, base de sua alimentação. Ocupavam-se das tarefas domésticas na Casa Grande, onde cozinhavam, lavavam, coziam e arrumavam, assim como na senzala, onde se responsabilizavam pela manutenção de maridos, companheiros ou filhos. Também na senzala, algumas delas, graças aos inúmeros conhecimentos transmitidos oralmente - o chamado "saber fazer" -, tornavam-se parteiras, benzedeiras e temidas feiticeiras.

Nos centros urbanos, as escravas se destacaram no pequeno comércio de varejo. Novidade para elas? Não. Nas sociedades tradicionais africanas, as mulheres eram encarregadas das tarefas de alimentação e distribuição de gêneros de primeira necessidade. Somou-se a essa tradição a transposição para nossa terra da legislação que amparava a participação feminina no comércio de rua.

Obedientes aos seus senhores, a quem tinham que prestar contas de um "jornal" (percentual do ganho diário) sobre o dia de trabalho, as "negras de tabuleiro" - pois os produtos neles eram oferecidos - infestavam praças e vias urbanas, constituindo-se numa grande preocupação para as autoridades que viam na sua presença pública um perigo ou uma ameaça. Com razão. Em regiões de maior resistência ao regime escravista, como Minas Gerais, Rio de Janeiro e Bahia, negras vendeiras levavam recados de quilombolas, ajudavam a traficar ouro roubado e preveniam fugitivos e bandoleiros sobre os movimentos das tropas. Constituíam- se num eficaz fio condutor de notícias sobre a ação repressiva das autoridades.

Reunidas em quitandas, vendas e "casas de alcouce" - como eram denominadas pelas autoridades eclesiásticas -, muitas delas se prostituíam, maneira rendosa de botar na bolsa mais algumas patacas. Nesses espaços, também se vendia bebida, se jogava, se conspirava. Mas também se afirmava a tradição africana através da música e da dança, da conivência de gestos e palavras. O comércio ambulante foi um mecanismo de acumulação para muitas destas mulheres que acabaram economizando o bastante para comprar sua liberdade.

No século 18, o número de mulatas e de negras livres e alforriadas era bastante expressivo na região das minas. Testamentos mineiros deste período, por exemplo, revelam inclusive que muitas delas enriqueceram, legando aos seus descendentes "chãos de terra", propriedades imobiliárias, escravos e jóias de ouro e coral. Tais mulheres viviam, em sua grande maioria, no que um historiador denominou de "famílias fracionadas". Concubinatos, ligações consensuais, amasiamentos estáveis lhes permitiam criar filhos, cuidar da parentela, organizar-se como família. Laços étnicos na escolha de cônjuges eram freqüentemente respeitados. Pertencer a uma irmandade ou confraria de escravos ou negros era condição fundamental para participar da vida social que era simultaneamente religiosa.

Mas essa religiosidade era, ao mesmo tempo, uma religiosidade de matriz africana. Calundus, protocandomblés, "benzeções" driblavam a presença da Igreja Católica e mesmo do tribunal do Santo Ofício da Inquisição. Ritos, como a dança de tunda ou o acotundá, realizados próximos às matas e águas, permitiam-lhes entrar em contato com seus ancestrais e resistir, através de suas crenças, à obrigatória e esmagadora cristianização. O pieguismo barroco, com suas festas e procissões, incentivou uma grande participação das descendentes de africanos que desfilavam, dançando e cantando, muitos deles vestidos "à africana" em louvor aos santos católicos.

Mary Del Priore é professora da USP e da PUC-RJ

JB 500 anos

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Muralhas que dividiram os homens


Muralhas que dividiram os homens
Muitas foram destruídas pela ação do tempo ou do próprio ser humano por não mais cumprirem seu papel original
Christophe Courau
Para se protegerem ou separarem, os homens constroem muros desde a Antigüidade. O exemplo mais ancestral é o da Grande Muralha da China, com seus 3.460 quilômetros de extensão, mais outros 2.860 quilômetros de ramificações. Formidável obra de defesa militar, em alguns pontos com 16,5 metros de altura (o que equivale aproximadamente a um prédio de seis andares) e torres invariavelmente erguidas a cada 60 metros, ela serviu de fronteira durante mil anos. Seus primeiros sinais remontam ao século VII antes de nossa era.

Segundo Pierre Colombel, pesquisador do Centro Nacional de Pesquisa Científica na França, "as primeiras muralhas foram construídas não para brecar os bárbaros do Norte, mas para proteger cada Estado de seus próprios vizinhos. As mais antigas foram edificadas entre 685 e 645 a.C., pelo Estado de Qin, em luta contra seu vizinho, o Estado de Chu, que construíra fortificações em 656 a.C. para preservar seu território das agressões de Qin". Em seguida, no período denominado "os Reinos Combatentes" (480-221 a.C.), guerras incessantes opuseram os sete reinos mais poderosos que disputavam, então, a supremacia do centro da China. Cada um, na tentativa de evitar ataques de quem vivia nas proximidades, começou a erguer fortes barreiras, a princípio de terra, conforme relata Colombel: "Assim, em meados do séc. IV a.C., o Estado de Wei construiu uma muralha de cerca de 1.000 quilômetros para se defender dos ataques de Qin e também daqueles dos cavaleiros bárbaros procedentes do Norte. Em 300 a.C., o Estado de Zhao se viu obrigado a erguer uma muralha de mais de 1.500 quilômetros de extensão, ao longo de sua fronteira norte - do noroeste de Pequim até a Mongólia - para impedir as incursões de hordas de mongóis. O rei Zhzoxiang de Qin mandou construir, em 272 a.C., várias muralhas, ao longo de 2.000 quilômetros para conter os bárbaros Hu, do leste. Ao mesmo tempo, o Estado de Yan ergueu, por volta de 250 a.C., uma muralha de mais de 1.200 quilômetros, chegando até o mar, perto de Pyongyang, na atual Coréia do Norte".

Em 246 a.C., Zheng subiu ao trono do reino de Qin. Em alguns anos, ele formou um poderoso exército e o lançou contra os seis reinos concorrentes, destruindo um a um. Em 221 a.C. foi feita a unificação em torno de Qin (do qual deriva o nome China). Zheng, com 38 anos de idade, proclamou-se imperador. Desde 220 a.C., ele decidiu construir o que na atualidade chamamos de Grande Muralha, ligando antigos trechos. Em dez anos, a obra de mais de 6.000 quilômetros estava terminada. O imenso canteiro de obras mobilizou centenas de milhares de operários em regime de trabalho forçado.

"No meio do deserto escaldante de pedras e de areia, homens rudemente tratados morriam de sofrimento e de cansaço, e muitos corpos eram abandonados sobre a muralha ou a seus pés. Numerosos textos narram o terror daqueles que partiam para tão longe e o desespero de suas famílias, que sabiam que jamais os veriam novamente", acrescenta Colombel. Se no início a Grande Muralha era uma enorme barreira contra os repetidos ataques dos cavaleiros das estepes, ela se tornou "o símbolo da ordem chinesa, um fator de unidade do país. Todo homem que vivia no interior da Grande Muralha era considerado \\'humano\\', pois além de seus limites estava o mundo dos bárbaros. Esse tipo de mentalidade explica por que um dos castigos mais temidos pelos chineses era o banimento".

Durante séculos, diferentes imperadores ampliaram seu território, empurrando sempre para mais adiante suas fronteiras e as muralhas que as protegiam. Assim, em 130 a.C., a nova dinastia Han recuperou a Grande Muralha dos Qin na Mongólia, depois a prolongou até a fronteira do Deserto de Gobi. Em 102 a.C., foi a vez de o sul da Manchúria e uma parte da atual Coréia do Norte se verem protegidos. Em seguida, foi levantada uma dupla muralha contra os mongóis. A leste, em princípios do século I de nossa era, os Han reergueram mais uma vez a Grande Muralha. Uma nova barreira de 1.000 quilômetros surgiu, na atual Mongólia Interior, para resistir à pressão dos nômades do norte. Finalmente, em 446, 100 mil homens ergueram outra, de 500 quilômetros, na região de Datong até o norte de Pequim. "De 534 a 618, data da fundação da dinastia Tang, várias muralhas foram ainda construídas, ou reforçadas pelos reinos do norte, fosse para se proteger dos bárbaros, fosse para defender suas fronteiras, uns contra os outros.
O imperador Wen, da dinastia Sui, que reunificou a China, também se viu obrigado a aumentar e construir vários trechos, enviando 110 mil homens às fronteiras do norte", continua o historiador.

Com a dinastia Tang (618-907), a China, potência econômica e militar incomparável, não tinha mais necessidade de se proteger por trás dessas obsoletas muralhas, pois suas fronteiras já as ultrapassavam em muito. Elas permaneceram, contudo, sem serventia para impedir os Yan, mongóis descendentes das hordas de Gengis Khan, de tomar o poder na China (1276-1368). Eles foram expulsos do trono, em 1368, pela dinastia Ming. E foi nesse período que a Grande Muralha retomou sua função de fronteira. Foi palco, em seguida, de um poderoso movimento militar, quando um exército de 1 milhão de soldados acampou ao longo de seu traçado até destruir os Ming, em 1644. Sob a última dinastia, os Qing, de origem manchu, a Grande Muralha perdeu sua utilidade. Não evitou as invasões "bárbaras", vindas do leste ou do norte. Mas seu significado, ao criar um universo chinês civilizado, perdurou por longos séculos.

Os romanos também construíram uma fronteira estanque. O imperador Adriano visitou a Bretanha durante o verão de 122 de nossa era. Uma revolta havia eclodido no norte, após sua ascensão ao trono e, para reprimi-la, o exército romano sofreu pesadas perdas. Adriano decidiu, então, adotar uma solução radical: construir uma muralha para separar "os romanos dos bárbaros", o que de fato ocorreu, seccionando o norte da Inglaterra da Escócia.

A muralha de Adriano tinha altura inicial de 3 a 5 metros. Para protegê-la, 14 fortes foram posicionados em toda sua extensão, além de 80 torres militares. Ao longo de uma linha de colinas e penhascos ligando o mar do Norte ao mar da Irlanda, de Newcastle a Carlisle, a muralha de Adriano, guardada por 9 mil homens, provou sua eficácia durante mais de três séculos. Assim foram repelidos os ataques dos "bárbaros" escoceses em 180, 196 e 197. Mas, no início do século V, o Império Romano em declínio negligenciou essa fronteira longínqua. Relegada ao abandono, a obra virou um gigantesco depósito onde as pessoas iam recolher pedras para a construir suas casas ou igrejas.

Concreto em vez de corpos
A noção de muralha-fronteiriça reapareceu bem mais tarde, já em pleno século XX. A primeira delas foi obra de um ministro da Guerra francês, André Maginot. "Qualquer que seja a concepção que se possa ter de uma guerra futura, a necessidade que se revela imperiosa é impedir a invasão do território.

Nós sabemos que desastres isso pode gerar e de tamanha envergadura que a própria vitória não chega a compensar, em seguida, os irreparáveis danos", ele declarou, tão logo assumiu o posto no interregno entre a Primeira e a Segunda Guerra Mundial. "As organizações defensivas das fronteiras, cuja execução pretendemos, não têm outro objetivo senão barrar a rota de invasão sempre possível. O concreto tem mais serventia, nesse sentido, e custa mais barato do que a muralha de corpos humanos", garantiu o antigo herói, combatente entre 1914 e 1918. Em 14 de janeiro de 1930, Maginot determinou que fosse votada uma lei com vistas à construção da linha fortificada que seria batizada com seu nome.

Originalmente, os trabalhos deveriam estar concluídos em três anos. Na realidade, duraram dez.
Essa impressionante linha de defesa não impediu, porém, o avanço dos tanques blindados do general Guderian. Eles a contornaram e atravessaram a região das Ardenas, na Bélgica, em 1940, causando a derrota mais acachapante que a França conheceu. A lição não serviu de exemplo para os alemães. Eles teriam, em pouco tempo, de desguarnecer a frente ocidental, em razão da resistência da União Soviética a leste.

A entrada dos Estados Unidos na guerra, em dezembro de 1941, fez com que os alemães temessem um desembarque a partir da Inglaterra, a médio prazo. Em dezembro de 1941, Hitler decidiu, portanto, reforçar suas defesas no litoral, ordenando a construção da muralha do Atlântico. O trabalho colossal, efetuado pela organização Todt, começou em 1942. Eram nada menos de 15 mil obras ao longo do mar do Norte, do Canal da Mancha e do Atlântico. Foram mobilizados 450 mil operários, entre voluntários e recrutados. As estruturas consumiram 11 milhões de toneladas de concreto e 1 milhão de toneladas de aço.
Por trás dessa "muralha", mais de 700 mil soldados alemães esperavam pelos Aliados. A obra não foi completamente acabada em 1944, apesar dos esforços do marechal Rommel, que no final de 1943 tornou-se responsável por todo o setor que ia dos Países Baixos à região do Loire, na França. Esse imenso reforço do litoral francês não impediu os Aliados de desembarcarem na Normandia, em 6 de junho de 1944.

A guerra terminara. Com a Alemanha vencida e dividida em República Federal e República Democrática, cidadãos de ambos os lados veriam a edificação de um muro, em Berlim, nos anos 60. Após o bloqueio dos setores ocidentais da cidade pelos soviéticos, em 1948, as três áreas controladas pela França, pelo Reino Unido e pelos Estados Unidos foram de fato incorporadas à Alemanha Ocidental. Em um primeiro momento, os berlinenses foram autorizados a se deslocar livremente de um lado para outro, mas, em 1952, em plena Guerra Fria, as fronteiras entre as duas Alemanhas foram fechadas.

Não obstante, 2,5 milhões de alemães orientais passaram para o lado ocidental, entre 1949 e 1961.
Uma afronta para o bloco comunista. No dia 13 de agosto de 1961, teve início a construção de um muro isolando os três setores do lado ocidental. Durante esses trabalhos, soldados foram alinhados e tinham ordem de atirar em todos os que tentassem atravessar.

A princípio tratava-se de uma cortina de arame farpado, rapidamente substituída por placas de concreto.
O muro separava fisicamente a cidade e contornava completamente a parte oeste de Berlim. Para a Alemanha Oriental, era uma proteção "antifascista", com o objetivo de evitar uma invasão por parte dos países ocidentais. Do lado oeste, respondia-se que o muro havia sido criado para impedir os cidadãos da Alemanha do leste de entrar em Berlim oeste, e portanto na Alemanha Ocidental.
O muro se estendia por aproximadamente 150 quilômetros. Ele foi sendo regularmente melhorado. Em junho de 1962 começaram as obras de uma segunda linha, paralela à primeira. Uma quarta geração do muro teve início em 1975, com 3,6 metros de altura e custo estimado em 16 milhões de marcos alemães orientais. O conjunto da fronteira foi igualmente protegido por cercas de ferro, alarmes, barreiras antiveículos, arame farpado, bem como por mais de 300 postos de vigilância e observação e 30 bunkers, mantidos pelos Vopo, os policiais do leste alemão. Apesar de tudo, cerca de 5 mil pessoas conseguiram passar para Berlim Ocidental.

Em 1989, em plena glasnost de Gorbatchev, a Hungria decidiu abrir sua fronteira com a Áustria. Aproveitando essa primeira brecha na chamada Cortina de Ferro, muitos estrangeiros da Alemanha Oriental fugiram, buscando refúgio em embaixadas. Em seis meses, 220 mil alemães orientais passaram para o lado ocidental. Em 7 de outubro, por ocasião das comemorações do 40o aniversário da Alemanha do leste, a festa virou contestação. Em seguida ocorreu a queda do Muro de Berlim e, em 1990, a reunificação das Alemanhas.

Entrincheirar-se tem sido uma constante na humanidade. Mas a longo prazo essas muralhas não resistiram à pressão dos homens, das idéias e das armas. É e sempre será possível contornar um muro, por mais alto e perfeito que seja. Uma esperança para os cipriotas, turcos e gregos, divididos desde 1963, assim como para os irlandeses do Norte, católicos e protestantes, desde o fim dos anos 60, ou ainda para os coreanos do Norte e do Sul, eles também separados por um muro de arame farpado desde o armistício de 1953.

Cronologia
685 a.C.
Início da construção da
Grande Muralha da China

122 d.C.
Muralha de Adriano na Inglaterra

1940-1944
Linha Maginot e muralha do Atlântico

1961
Berlim dividida em dois setores,
Leste e Oeste

2004
"Barreira de segurança" entre a
Cisjordânia e Israel

Christophe Courau é historiador e jornalista.
Revista Historia Viva