Mostrando postagens com marcador Brasilia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Brasilia. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 11 de março de 2011

Brasilia - O cenário infinito baniu a multidão

O problema é que as ruas sempre terão a cara que
tinham ao nascer, sem povo. O Homo brasiliensis, se
é que um dia existirá, é personagem em gestação


Augusto Nunes

Fotos divulgação e Salomon Cytrynowicz
FUNERAL E MISSA
O féretro de Juscelino na Esplanada dos Ministérios, em agosto de 1976 (no alto), e a visita de João Paulo II, em junho de 1980: dezenas de milhares de pessoas engolidas pelo horizonte

A cidade que nasceu sem habitantes e estava pronta quando foi fundada nunca viu a multidão por ter espaços demais. Brasília viu muita gente duas vezes: em agosto de 1976, na partida de Juscelino Kubitschek, e em junho de 1980, na chegada do papa João Paulo II, quando dezenas de milhares de brasileiros se juntaram num mesmo ponto do Plano Piloto. Mas muita gente só vira multidão quando se acotovela em lugares com limites definidos, faz o chão desaparecer e ameaça derramar-se pelas bordas das fotografias. Isso Brasília não sabe o que é. Nem saberá, por falta de cenário com fundo. Cenários infinitos engolem até multidões chinesas.

Se o corpo de JK fosse velado na Cinelândia, no Rio, por exemplo, uma multidão teria protagonizado o que hoje se chamaria de O Adeus dos Trezentos Mil. Recortado contra as imensidões do cerrado, o cortejo em Brasília não pareceu mais impressionante que qualquer comício estrelado pelo presidente morto numa cidade de tamanho médio. Se os que recepcionaram o papa na Praça dos Três Poderes fossem dar-lhe boas-vindas no Rio, a multidão transbordaria da Sapucaí e não caberia no Maracanã. Mas não existe nada em Brasília parecido com o templo dos deuses da bola ou com a passarela do samba.

A capital do País do Futebol não tem campo nem time de futebol. (Os estádios onde jogam o Brasiliense e o Gama ficam fora do Plano Piloto.) E a capital do País do Carnaval não tem carnaval de rua. (As aparições anuais de alguns blocos apenas realçam a inexistência de escolas de samba.) O esporte preferido e a festa mais popular dão sinais de vida nas cidades-satélites, que não têm parentesco com Brasília. Nasceram juntas, mas não são gêmeas em nada. São extremos que, por se completarem, até agora têm convivido sem conflitos.

Foto: Carlos Menandro/Jornal de Brasília

PÃO E CIRCO
Na perspectiva da foto, de 1985, o circo substitui a cúpula do Senado. Ulysses Guimarães, presidente da Câmara, lança um alerta contra "a campanha de calúnias e difamação contra o Congresso Nacional"
Brasília – 5 | 9 | 1985

Esses aglomerados urbanos que Lucio Costa não planejou e Oscar Niemeyer não decorou com monumentos tão belos quanto inabitáveis contrastam pedagogicamente com o espanto futurista da metrópole que rodeiam. A contemplação do conjunto informa que Brasília não tem povo – como se referem os políticos à massa informe e anônima de viventes com pouquíssimas chances de algum dia perguntarem a alguém se sabe com quem está falando. Esses são vistos no Plano Piloto durante o dia. No começo da noite, terminada a jornada de trabalho, voltam para a babel periférica e dormem em casa. Vivem em ruas comuns, com nomes comuns e carências comuns. Nada a ver com a vizinha também cinquentona mas proibida de envelhecer. Brasília terá sempre a cara que tinha ao nascer. Chegou ao berço com tudo o que não há nos arredores. Só faltava gente morando lá.

Em 1970, a escritora Clarice Lispector impressionou-se com a supremacia da cidade sobre seus habitantes. "Brasília é tão artificial quanto devia ter sido o mundo quando foi criado", escreveu numa crônica. Como acontece a onze em cada dez visitantes na primeira viagem, Clarice estranhou a troca de ruas e praças por superquadras, tesourinhas, eixinhos e eixos. Ficou insone com o silêncio ensurdecedor, descobriu que a infinitude da paisagem torna a solidão mais aflitiva e, sobretudo, desconcertou-se por não encontrar alguém que reproduzisse a cara do lugar.

"Quando o mundo foi criado, foi preciso criar um homem especialmente para aquele mundo", lembrou. "Nós todos somos deformados pela adaptação à liberdade de Deus. Não sabemos como seríamos se tivéssemos sido criados em primeiro lugar; e depois o mundo deformado às nossas cidades. Brasília ainda não tem o homem de Brasília." Inaugurada dez anos antes, a cidade descrita por Clarice era a reprodução miniaturizada do mosaico brasileiro, formado por migrantes que tinham acabado de chegar.

Dez anos depois da fundação, os cearenses continuavam cearenses, os gaúchos continuavam gaúchos, todas as peças escancaravam na estampa e no sotaque o local de fabricação. A identidade não sofrera mudanças por falta de tempo e, sobretudo, de referência: como o brasiliense nasceu depois da cidade, os que chegaram não dispunham de um modelo a copiar. Quando a crônica foi publicada, a primeira geração de nativos nem atingira os 10 anos de idade. O homem de Brasília não existia. Pode ainda estar em gestação.

Talvez seja um quarentão de classe média, diplomou-se pela UnB, é funcionário público, combina ternos cinza ou azul-escuro com gravatas de desenho sóbrio, mora em apartamento, conhece meio mundo mas convive estreitamente com poucos. Ao contrário dos deputados, dos senadores, dos ministros e do presidente da República, não viaja para longe da capital nos fins de semana. Frequenta com assiduidade o clube de que é sócio, circula todo o tempo de carro e caminha bastante, mas nunca anda à toa. Sair por aí exige as ruas e as esquinas que não há. Porque não existem cruzamentos, os brasilienses se cruzam nos restaurantes e nos bares. Que nunca ficam na esquina. Que nunca fez falta ao Homo brasiliensis, juram todos os nativos do lugar.

Foto: arquivo Bloch Editores

FORÇAS OCULTAS
"Renunciei para ficar longe daquele lugar maldito", disse Jânio Quadros para definir seu desagrado pouco antes de ir embora
Brasília – 25 | 8 | 1961

Tampouco lhes fazem falta ruas e praças semelhantes às do resto do país. Basta a Praça dos Três Poderes e sua extraordinária polivalência, que lhe permite hospedar manifestantes que cobram por hora ou circos cuja única atração é a chance de zombar do Congresso. Não há casas com quintal antigo e numeração convencional nem outro sinal de parentesco arquitetônico com as demais cidades brasileiras. Os nascidos e criados em Brasília não veem nada de errado nas singularidades e inovações com as quais convivem desde o berço. Da mesma forma que um inglês recém-chegado ao continente considera pura esquisitice trafegar pela mão direita, aos olhos dos brasilienses o que parece espantoso é a existência de ruas batizadas como se fossem pessoas, que mudam de identidade sem mudar de rumo. Não compreendem por que tantos brasileiros passam parte da vida imobilizados em congestionamentos de trânsito, embora isso também já ocorra na capital federal.

Forasteiros se perdem regularmente na selva de prédios indistintos, consoantes misteriosas e palavras que, em brasiliês, têm outro sentido. "Vou até a pequena zona de comércio de uma superquadra para comprar cigarro e na volta me perco numa floresta de edifícios absolutamente iguais uns aos outros", escreveu o cronista Fernando Sabino, mineiro e ipanemense honorário. "Não hei de conseguir achar nunca mais o apartamento de meu amigo onde estou hospedado. SQS – 307 – Bloco F – Apto. 502, leio na minha caderneta."

"Vó! Olha lá o Jornal Nacional!" No livro ainda inédito Brasília e Eu – Uma Reportagem, Maria Elisa Costa, filha de Lucio Costa, comprova a reciprocidade da estranheza com exemplos ligeiros e divertidos. Num deles, a neta de 3 anos que levou para conhecer Brasília descobriu que já tinha visto em algum lugar a paisagem formada pela Esplanada dos Ministérios, com o prédio do Congresso ao fundo: "Vó! Olha lá o Jornal Nacional!",exclamou a carioquinha. Que não reconheceu no restante da incursão nada parecido com o que já viu. Em outro episódio, uma sobrinha de 8 anos hospedada no apartamento de cobertura em frente à Praia de Ipanema olhou do terraço para a Avenida Delfim Moreira e quis saber da tia: "Como é o nome desse eixo?".

Outra menina ficou intrigada ao descobrir que as ruas do Rio têm nome e sobrenome. "Como é que a gente pode saber onde é que fica?", perguntou a Maria Elisa. "Em Brasília a gente sabe." A filha de Lucio Costa conta que as marcas de nascença que assustaram Fernando Sabino foram concebidas "para impedir que a nova capital, mesmo em seus primórdios, tivesse qualquer conotação de cidade do interior". A imaginação do pai urbanista acabou tornando a criatura muito diferente também de qualquer capital. "As superquadras, com seus blocos de seis andares, os pilotis abertos, a entrada única para os carros, cercadas por uma faixa arborizada em todo o perímetro, introduziram um novo modo de convívio urbano", diz Maria Elisa na abertura do capítulo "206-Sul". Fernando Sabino chamaria um tradutor ao ler esse título. Qualquer brasiliense adivinha o que lerá.

Testemunha privilegiada da gestação apaixonante, a carioca Maria Elisa pertence a uma espécie rara: o anfíbio que se sente à vontade e feliz em ambas as cidades. A tribo parece à beira da extinção se confrontada com a composta de nativos que defendem Brasília apaixonadamente ou com a formada por forasteiros que perdem o humor e o eixo quando topam com o Eixo Monumental. Num Planalto Central ainda deserto e desprovido de âncoras naturais como o Corcovado ou o Pão de Açúcar, conta Maria Elisa, a arquitetura teve de inventar referências. Há a Praça dos Três Poderes, a Esplanada dos Ministérios, são dezenas os cartões-postais sinalizadores. Mas há sobretudo o Eixo Monumental, que está para Brasília como o Viaduto do Chá está para São Paulo.

Seria temerário evocar o paralelo perto de inimigos juramentados da capital – o presidente Jânio Quadros, por exemplo. "Renunciei para ficar longe daquele lugar maldito", exagerou na resposta ao neto Jânio John, também interessado em descobrir as razões reais da deserção. O instável presidente repetia que "Brasília não tem gente". Sempre teve. Foi por causa de gente inimiga, aliás, que Jânio decidiu sair para voltar com poderes superlativos. O que não tem é multidão – e sem multidão à vista não havia Jânio. "Se eu ficar cinco minutos batendo lata no Viaduto do Chá, junto mais de 5 000 pessoas", gabava-se o grande palanqueiro. Nunca se arriscou a estrelar um comício em Brasília.

Jânio passou sete meses queixando-se da ausência de plateias que os políticos federais preferem ver pelas costas. A capital dos escândalos nunca viu um vigoroso protesto dos escandalizados. De terça a sexta-feira, tanto os delinquentes da semana como os veteranos pecadores circulam sem perigo pelos mesmos restaurantes. Os parlamentares sabem mais do que dizem, os jornalistas sabem mais do que publicam, os brasilienses sabem mais do que comentam. Nelson Rodrigues achava que, se todos conhecessem a vida sexual de todos, ninguém cumprimentaria ninguém. Os que frequentam a Praça dos Três Poderes conhecem o que se passa nas alcovas alheias e o que se passa além delas. Todos se cumprimentam.

Os nativos rechaçam com veemência o codinome Ilha da Fantasia. O complemento talvez seja incorreto: os pais da pátria que andam fazendo coisas que parecem ficção sabem o que fazem, e sabem também que os homens de bem sabem disso. Mas a soma de coisas que só existem em Brasília confirma que o Plano Piloto é uma ilha, sim. Cercada de outro Brasil por todos os lados.

REVISTA VEJA
http://veja.abril.com.br

terça-feira, 23 de março de 2010

O Brasil de JK - Brasília, a meta-síntese

Juscelino Kubitschek e João Goulart na inauguração de Brasília. 21 abr. 1960(Arquivo Público do Distrito Federal/Novacap)
Cartão postal do Palácio da Alvorada. 1960.(CPDOC/FGV/Arquivo Nelson de Melo/2ª rem.) Detalhe de uma coluna do Palácio da Alvorada, revestida de mármore. Reproduzido da Revista Brasília, jan.(CPDOC/FGV/R 511)

O Brasil era apresentado, nos anos 1950, como um país diante de uma encruzilhada histórica. De um lado, estava o mundo rural, que representava o passado. De outro, a atividade industrial, que apontava para o futuro. O passado era visto como imobilismo e atraso, e para vencer esse peso, a industrialização era o único caminho. A criação do novo, do moderno, fundaria um processo de mudança na sociedade brasileira capaz de fazer o país deixar de ser subdesenvolvido. A suposição de que as forças do novo seriam vencedoras fazia parte da cultura que tomava corpo naqueles anos. Não por acaso os movimentos culturais mais relevantes da década estavam atrelados às idéias de moderno e de novo: arquitetura moderna, bossa nova, cinema novo.

Na segunda metade da década, depois do trauma do suicídio de Vargas, o país assistiu à posse do governo JK e acompanhou, entre incrédulo e assustado, a construção de uma nova capital federal. Como explicar que a meta-síntese do governo JK tenha sido Brasília, se ela sequer existia originalmente no Plano de Metas? O programa cobria ao todo 30 metas, e Brasília só entrou no final, como um acréscimo, passando a ser a meta número 31. Foi ao longo do governo que ela assumiu a função de condensar o programa de JK e de simbolizar a idéia de que era possível dar um salto no tempo, realizar "50 anos em 5"...

É comum recorrer, para explicar a construção de Brasília, a duas interpretações. Uma é a de que a mudança da capital já estava prevista desde a Constituição republicana de 1891, e a outra, a de que a mudança foi obra do "acaso", como disse o próprio JK. Em suas memórias, Juscelino relata que um eleitor, num comício de campanha na cidade de Jataí (GO), indagou se ele iria, de fato, cumprir a Constituição. Nesse episódio o candidato foi levado a se comprometer com a transferência da capital, já que se tratava de um dispositivo constitucional. Podem ser corretas as lembranças, mas as razões são "fracas". Quanta coisa está escrita na Constituição e não é cumprida? Quantas promessas de campanha são esquecidas? Continua sendo necessário explicar por que aquela promessa não foi abandonada e, ao contrário, foi assumindo uma dimensão cada vez maior, a ponto de se tornar a meta-síntese do governo JK. Para fazê-lo, é necessário antes de mais nada voltar aos anos 40, quando JK foi prefeito de Belo Horizonte, e observar como teve início ali a modernização da cidade, com a construção de um novo bairro, a Pampulha. Juscelino ficou conhecido como o "prefeito-furacão" pela quantidade e rapidez das obras que fez durante sua gestão. Foi também em Belo Horizonte que começou sua associação com Oscar Niemeyer, que iria se repetir em Brasília.

A idéia de mudar a capital e construir uma nova cidade já fazia parte do "inconsciente coletivo", devido não só à construção de Belo Horizonte no fim do século XIX (projeto de Aarão Reis), mas também à construção de Goiânia, inaugurada em 1940 (projeto de Attílio Corrêa Lima). Esse ciclo de construção de cidades-capitais se mantém, aliás, até hoje, como se pode notar pela construção de Palmas, capital do novo Estado do Tocantins, inaugurada em 1990. São cidades que podem ser consideradas parte da interiorização do Brasil, da civilização de seus sertões decorrente da conquista do oeste.

A construção de Brasília tem sido cantada em prosa e verso. Para uns, representou a prova do voluntarismo irresponsável de nossas elites. Para outros, foi um momento significativo de um tempo de esperança. O arquiteto Lauro Cavalcanti assim observa: "Tão importante quanto a conquista do mercado estatal na era Vargas foi a adoção do modernismo, na figura de Oscar Niemeyer, por Juscelino Kubistchek que, dos anos 40 a 60, exerceu respectivamente os cargos de prefeito de Belo Horizonte, governador de Minas Gerais e presidente do Brasil. Em termos arquitetônicos, tal trajetória permite o aparecimento de marcos como Pampulha e Brasília. Poucos políticos superpuseram, com tanta intensidade, os objetivos de renovação política e arquitetônica: a construção de uma nova estética simbolizaria a autonomia técnica, a sua gestão e um caminho exemplar para o desenvolvimento posterior do país."

A consagração de Brasília, inaugurada em 21 de abril de 1960, veio em 1987, quando a Unesco elevou a cidade à categoria de "patrimônio da humanidade".

Lúcia Lippi Oliveira

FGV-CPDOC

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Brasília - Uma ilha longe do mar




Se Brasília levou quase quatro anos para ser construída, muito mais tempo foi necessário para que se tornasse de fato a nova capital brasileira, substituindo aos poucos as funções que pertenciam ao Ri
Marly Motta

Em “Brasília, sinfonia da alvorada”, Antônio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes assim descrevem as terras escolhidas no interior do Brasil para abrigarem a nova capital do país:
No princípio era o ermo
Eram antigas solidões sem mágoa.
O altiplano, o infinito descampado
No princípio era o agreste:
O céu azul, a terra vermelho-pungente
E o verde triste do cerrado.

A “Sinfonia de Brasília,” como mais tarde passou a ser chamada, fora encomendada por Juscelino Kubitschek em 1958, dois anos antes da fundação da cidade. Dividida em cinco partes, ela seria apresentada durante os festejos da inauguração do novo Distrito Federal. Mas o trabalho dos artistas, dois verdadeiros ícones da Bossa Nova nascida no Rio de Janeiro, só viria a ser apresentado na Praça dos Três Poderes, em Brasília, 26 anos mais tarde.

A transferência da capital para o Planalto Central pode ser analisada a partir de diferentes pontos de vista. Um deles entende a nova capital como elemento propulsor de um projeto de construção nacional. Mais do que o símbolo de uma nova época, Brasília traduzia a idéia de criação dessa nova época. Inseria a sociedade brasileira em um projeto modernizador, tendo na arquitetura modernista de Oscar Niemeyer e Lúcio Costa sua face mais visível.

Sob outro olhar, a interiorização da capital é entendida a partir do discurso da nova organização espacial do território brasileiro, com destaque para a estratégia denominada “marcha para o Oeste”, região onde estaria escrito nosso destino como potência mundial. Já nos anos 1940, comissões de militares se encarregaram de delimitar o local da nova capital. A caminhada para o Oeste fez parte do projeto de ampliação das fronteiras econômicas, com o intuito de alavancar a expansão capitalista nacional. Com São Paulo à frente deste processo, não por acaso a figura do bandeirante se tornou o modelo do nosso self-made man, cidadão que vence a partir do seu próprio esforço, arrojado e progressista.


Independentemente da visão escolhida, todas concordam em um aspecto: o Rio de Janeiro se tornara excessivamente cosmopolita e estava de costas para o resto do país. A burocracia emperrada do Distrito Federal não seria a mais adequada para liderar o processo de desenvolvimento de um mercado nacional com impulso capitalista.

Além do mais, a disposição de levar para o interior a capital teria como motivo o fato de o Rio ter sido o principal cenário da ampla mobilização popular ocorrida no último governo Vargas e da conspiração golpista que quase impediu a posse de Juscelino Kubitschek. A efervescência social e política da centenária capital não ajudaria uma condução tranqüila da administração pública. A cidade era percebida pelos governantes como insegura.

As propostas de transferência da capital para o interior não eram novidade no Brasil. Elas estiveram presentes na primeira Constituinte republicana. Uma delas foi apresentada pelo senador fluminense Quintino Bocayuva, e visava à fundação de uma nova capital, a Cidade de Tiradentes, a se localizar no Planalto Central. Segundo ele, faltava “no meio da imensa vastidão de território de nossa Pátria, com essa população disseminada em sua vasta superfície, o laço de coesão nacional, um elo patriótico, um ideal comum”. A Constituição de fevereiro de 1891, em seu artigo 3, demarcou uma área de 14.400 quilômetros quadrados no Planalto Central para que nela se estabelecesse a futura capital federal. Foi determinado ainda que, após a transferência da capital, a cidade do Rio de Janeiro se transformaria em estado.

No entanto, no início do século XX, a remodelação urbana efetuada no Rio de Janeiro sob o comando do prefeito Pereira Passos e do presidente Rodrigues Alves mostra que, em vez de transferir a capital, a República preferiu reformá-la. Talvez seja possível dizer que o Brasil mudou de capital sem sair dela. O que não significou que a proposta de mudança da capital tivesse sido enterrada.


As Constituições de 1934 e de 1946 trouxeram de volta a indicação da transferência da capital. Mas na Carta de 1937 este assunto desaparece. A reafirmação do Rio de Janeiro como capital pode ser atribuída ao projeto de Getulio Vargas de fazer da cidade o espaço por excelência da afirmação da presença do Estado, e o cenário privilegiado das cerimônias cívicas, nas quais o povo deveria manifestar seu apoio ao governo.
A Constituinte de 1946 voltou a discutir o tema da transferência da capital, inclusive com propostas de mudança de local: em vez do Planalto Central, foi indicada a região do Triângulo Mineiro, idéia defendida pelo então constituinte Juscelino Kubitschek, e derrotada por poucos votos. Posteriormente, foi criada a Comissão de Localização da Nova Capital, dirigida pelos generais Poli Coelho e José Pessoa, entre outros. Em abril de 1955, o lugar foi definido com base no relatório preparado pela firma norte-americana Donald J. Belcher.

Aprovada em 1º outubro de 1957, a Lei 3.273, de iniciativa do deputado Emival Caiado, da União Democrática Nacional (UDN) de Goiás, determinava a data exata para a transferência. No entanto, só a partir de meados de 1958 a mudança da capital se tornou irreversível, pelo rápido andamento das obras e, principalmente, pelo entendimento político promovido pelo presidente Kubitschek com setores da oposição. De olho no apoio ao seu nome como candidato de “união nacional” às eleições de 1960, o senador baiano Juracy Magalhães, que então presidia a UDN, apoiou aquela que era considerada a meta-síntese da administração JK. E, finalmente, em 21 de abril de 1960, dia consagrado a Tiradentes, patrono da nação brasileira, foi inaugurada a nova capital.

Desde novembro de 1956, quando se armaram as primeiras barracas de lona no Planalto Central, um intenso movimento migratório vinha atraindo milhares de pessoas para a região, boa parte delas voltada para a atividade da construção civil. Eram os chamados “candangos”. No entanto, se a construção de Brasília consumiu quase quatro anos, muito mais tempo seria necessário para torná-la de fato a capital do país.

Sedes da autoridade do Estado, dos órgãos do governo e da administração pública, controlando a força militar, as principais rotas de comércio e a distribuição de recursos financeiros, monopolizando a arte, a cultura e o gosto, as “cidades-capitais” sempre desempenharam um papel fundamental no processo de construção dos Estados nacionais.


Por isso, a questão central do debate sobre a mudança da capital era como substituir o Rio de Janeiro em sua função de unificação nacional e em seu papel de vitrine e espelho do país. “As grandezas do Rio são as grandezas do Brasil; as fragilidades do Rio são as fragilidades do Brasil; o calor do Rio, o calor do Brasil; a paisagem do Rio, a paisagem do Brasil”, bradava o deputado paranaense Munhoz da Rocha em discurso na Câmara dos Deputados em agosto de 1959, quando propôs a criação da Cidade Nacional do Rio de Janeiro.

A discussão sobre o futuro da ex-capital mobilizou muitos setores da sociedade brasileira. Afinal, o que seria do Rio, a cidade-capital do país? É certo que interesses de partidos e políticos pesaram no debate que definiu a transformação do antigo Distrito Federal em estado da Guanabara, mas o pano de fundo era a questão da “capitalidade”. Este tema também esteve presente nas preocupações de San Tiago Dantas, vice-presidente da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, encarregado de elaborar os projetos de criação e de organização da Guanabara e do novo Distrito Federal.

Quando expôs os motivos e as justificativas para os dois projetos, San Tiago esclareceu, no entanto, que o debate parlamentar deveria se centrar na organização política e administrativa da nova capital. Entendia que isso era um elemento fundamental para a reconstrução do país em bases modernas. Seu modelo ideal de capital era o oposto do Rio de Janeiro. Por isso, defendeu a mudança do artigo constitucional que tratava da estrutura do Distrito Federal. Projetava uma capital como Washington: despolitizada, sem problemas locais nem ideais próprios, e totalmente dedicada a funções administrativas. De acordo com o projeto San Tiago Dantas, aprovado pelo Congresso, Brasília ficou sem representação legislativa e com o Poder Executivo entregue a um prefeito nomeado pelo presidente da República, mas com a prévia aprovação do Senado Federal.

Transformada em cidade-estado, sem municípios, a Guanabara, então chamada de Belacap, conservou a maior parte das funções de principal centro político do país. Seria o que se pode chamar de “estado-capital”. A “capitalidade” de Brasília, ou seja, sua condição efetiva de capital brasileira, só se concretizaria dez anos depois, por meio de um processo que exigiu um duplo investimento, no sentido de retirar do Rio de Janeiro as atribuições e os atributos de capital e de transferi-los para a nova capital.


A partir de 1968, a política de endurecimento do regime militar, além da intenção de acabar com o tradicional ímpeto oposicionista do Rio de Janeiro, teve como uma de suas expressões o reforço da “capitalidade” de Brasília. Foi a partir desse momento que a capital passou a exibir alguns marcos simbólicos e representativos do poder central. Não foi por acaso que durante o governo do general Médici, entre 1969 e 1974, se fez a transferência dos principais órgãos decisórios do Estado para o novo Distrito Federal. O chamado “Forte Apache”, edifício que abriga o Quartel-General do Exército e onde costumava reunir-se o alto comando dessa força para decidir os rumos do país, pode ser considerado um dos maiores símbolos da função de capital atribuída a Brasília.

São diversas as interpretações sobre o significado da mudança da capital brasileira. De um lado estão aqueles que relacionam o fim dos “anos dourados” do país à transferência da capital do Rio de Janeiro para uma Brasília tachada de “ilha da fantasia oculta e isolada”, o que teria favorecido tanto o fortalecimento da ditadura militar quanto os desmandos do governo Collor. De outro, os que consideram a nova capital o elemento-chave de um projeto de identidade nacional que buscou promover a ocupação do interior do país com os artefatos e as formas da modernidade. Planejada para ser modelo de integração regional e social, Brasília enfrenta o desafio, tal como o Rio anteriormente, de ser uma cidade para os seus habitantes e para todos os brasileiros.

Marly Motta é Doutora em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF). pesquisadora do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânia do Brasil da Fundação Geúio Vargas (CPDOC-FGV) e autora do livro Rio, Cidade-Capital (Rio de Janeiro: Ed. Jorge Zahar 2004).

Revista de Historia da Biblioteca Nacional

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Brasília - Uma ilha longe do mar


Se Brasília levou quase quatro anos para ser construída, muito mais tempo foi necessário para que se tornasse de fato a nova capital brasileira, substituindo aos poucos as funções que pertenciam ao Ri
Marly Motta

Em “Brasília, sinfonia da alvorada”, Antônio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes assim descrevem as terras escolhidas no interior do Brasil para abrigarem a nova capital do país:
No princípio era o ermo
Eram antigas solidões sem mágoa.
O altiplano, o infinito descampado
No princípio era o agreste:
O céu azul, a terra vermelho-pungente
E o verde triste do cerrado.

A “Sinfonia de Brasília,” como mais tarde passou a ser chamada, fora encomendada por Juscelino Kubitschek em 1958, dois anos antes da fundação da cidade. Dividida em cinco partes, ela seria apresentada durante os festejos da inauguração do novo Distrito Federal. Mas o trabalho dos artistas, dois verdadeiros ícones da Bossa Nova nascida no Rio de Janeiro, só viria a ser apresentado na Praça dos Três Poderes, em Brasília, 26 anos mais tarde.

A transferência da capital para o Planalto Central pode ser analisada a partir de diferentes pontos de vista. Um deles entende a nova capital como elemento propulsor de um projeto de construção nacional. Mais do que o símbolo de uma nova época, Brasília traduzia a idéia de criação dessa nova época. Inseria a sociedade brasileira em um projeto modernizador, tendo na arquitetura modernista de Oscar Niemeyer e Lúcio Costa sua face mais visível.

Sob outro olhar, a interiorização da capital é entendida a partir do discurso da nova organização espacial do território brasileiro, com destaque para a estratégia denominada “marcha para o Oeste”, região onde estaria escrito nosso destino como potência mundial. Já nos anos 1940, comissões de militares se encarregaram de delimitar o local da nova capital. A caminhada para o Oeste fez parte do projeto de ampliação das fronteiras econômicas, com o intuito de alavancar a expansão capitalista nacional. Com São Paulo à frente deste processo, não por acaso a figura do bandeirante se tornou o modelo do nosso self-made man, cidadão que vence a partir do seu próprio esforço, arrojado e progressista.


Independentemente da visão escolhida, todas concordam em um aspecto: o Rio de Janeiro se tornara excessivamente cosmopolita e estava de costas para o resto do país. A burocracia emperrada do Distrito Federal não seria a mais adequada para liderar o processo de desenvolvimento de um mercado nacional com impulso capitalista.

Além do mais, a disposição de levar para o interior a capital teria como motivo o fato de o Rio ter sido o principal cenário da ampla mobilização popular ocorrida no último governo Vargas e da conspiração golpista que quase impediu a posse de Juscelino Kubitschek. A efervescência social e política da centenária capital não ajudaria uma condução tranqüila da administração pública. A cidade era percebida pelos governantes como insegura.

As propostas de transferência da capital para o interior não eram novidade no Brasil. Elas estiveram presentes na primeira Constituinte republicana. Uma delas foi apresentada pelo senador fluminense Quintino Bocayuva, e visava à fundação de uma nova capital, a Cidade de Tiradentes, a se localizar no Planalto Central. Segundo ele, faltava “no meio da imensa vastidão de território de nossa Pátria, com essa população disseminada em sua vasta superfície, o laço de coesão nacional, um elo patriótico, um ideal comum”. A Constituição de fevereiro de 1891, em seu artigo 3, demarcou uma área de 14.400 quilômetros quadrados no Planalto Central para que nela se estabelecesse a futura capital federal. Foi determinado ainda que, após a transferência da capital, a cidade do Rio de Janeiro se transformaria em estado.

No entanto, no início do século XX, a remodelação urbana efetuada no Rio de Janeiro sob o comando do prefeito Pereira Passos e do presidente Rodrigues Alves mostra que, em vez de transferir a capital, a República preferiu reformá-la. Talvez seja possível dizer que o Brasil mudou de capital sem sair dela. O que não significou que a proposta de mudança da capital tivesse sido enterrada.


As Constituições de 1934 e de 1946 trouxeram de volta a indicação da transferência da capital. Mas na Carta de 1937 este assunto desaparece. A reafirmação do Rio de Janeiro como capital pode ser atribuída ao projeto de Getulio Vargas de fazer da cidade o espaço por excelência da afirmação da presença do Estado, e o cenário privilegiado das cerimônias cívicas, nas quais o povo deveria manifestar seu apoio ao governo.
A Constituinte de 1946 voltou a discutir o tema da transferência da capital, inclusive com propostas de mudança de local: em vez do Planalto Central, foi indicada a região do Triângulo Mineiro, idéia defendida pelo então constituinte Juscelino Kubitschek, e derrotada por poucos votos. Posteriormente, foi criada a Comissão de Localização da Nova Capital, dirigida pelos generais Poli Coelho e José Pessoa, entre outros. Em abril de 1955, o lugar foi definido com base no relatório preparado pela firma norte-americana Donald J. Belcher.

Aprovada em 1º outubro de 1957, a Lei 3.273, de iniciativa do deputado Emival Caiado, da União Democrática Nacional (UDN) de Goiás, determinava a data exata para a transferência. No entanto, só a partir de meados de 1958 a mudança da capital se tornou irreversível, pelo rápido andamento das obras e, principalmente, pelo entendimento político promovido pelo presidente Kubitschek com setores da oposição. De olho no apoio ao seu nome como candidato de “união nacional” às eleições de 1960, o senador baiano Juracy Magalhães, que então presidia a UDN, apoiou aquela que era considerada a meta-síntese da administração JK. E, finalmente, em 21 de abril de 1960, dia consagrado a Tiradentes, patrono da nação brasileira, foi inaugurada a nova capital.

Desde novembro de 1956, quando se armaram as primeiras barracas de lona no Planalto Central, um intenso movimento migratório vinha atraindo milhares de pessoas para a região, boa parte delas voltada para a atividade da construção civil. Eram os chamados “candangos”. No entanto, se a construção de Brasília consumiu quase quatro anos, muito mais tempo seria necessário para torná-la de fato a capital do país.

Sedes da autoridade do Estado, dos órgãos do governo e da administração pública, controlando a força militar, as principais rotas de comércio e a distribuição de recursos financeiros, monopolizando a arte, a cultura e o gosto, as “cidades-capitais” sempre desempenharam um papel fundamental no processo de construção dos Estados nacionais.


Por isso, a questão central do debate sobre a mudança da capital era como substituir o Rio de Janeiro em sua função de unificação nacional e em seu papel de vitrine e espelho do país. “As grandezas do Rio são as grandezas do Brasil; as fragilidades do Rio são as fragilidades do Brasil; o calor do Rio, o calor do Brasil; a paisagem do Rio, a paisagem do Brasil”, bradava o deputado paranaense Munhoz da Rocha em discurso na Câmara dos Deputados em agosto de 1959, quando propôs a criação da Cidade Nacional do Rio de Janeiro.

A discussão sobre o futuro da ex-capital mobilizou muitos setores da sociedade brasileira. Afinal, o que seria do Rio, a cidade-capital do país? É certo que interesses de partidos e políticos pesaram no debate que definiu a transformação do antigo Distrito Federal em estado da Guanabara, mas o pano de fundo era a questão da “capitalidade”. Este tema também esteve presente nas preocupações de San Tiago Dantas, vice-presidente da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, encarregado de elaborar os projetos de criação e de organização da Guanabara e do novo Distrito Federal.

Quando expôs os motivos e as justificativas para os dois projetos, San Tiago esclareceu, no entanto, que o debate parlamentar deveria se centrar na organização política e administrativa da nova capital. Entendia que isso era um elemento fundamental para a reconstrução do país em bases modernas. Seu modelo ideal de capital era o oposto do Rio de Janeiro. Por isso, defendeu a mudança do artigo constitucional que tratava da estrutura do Distrito Federal. Projetava uma capital como Washington: despolitizada, sem problemas locais nem ideais próprios, e totalmente dedicada a funções administrativas. De acordo com o projeto San Tiago Dantas, aprovado pelo Congresso, Brasília ficou sem representação legislativa e com o Poder Executivo entregue a um prefeito nomeado pelo presidente da República, mas com a prévia aprovação do Senado Federal.

Transformada em cidade-estado, sem municípios, a Guanabara, então chamada de Belacap, conservou a maior parte das funções de principal centro político do país. Seria o que se pode chamar de “estado-capital”. A “capitalidade” de Brasília, ou seja, sua condição efetiva de capital brasileira, só se concretizaria dez anos depois, por meio de um processo que exigiu um duplo investimento, no sentido de retirar do Rio de Janeiro as atribuições e os atributos de capital e de transferi-los para a nova capital.


A partir de 1968, a política de endurecimento do regime militar, além da intenção de acabar com o tradicional ímpeto oposicionista do Rio de Janeiro, teve como uma de suas expressões o reforço da “capitalidade” de Brasília. Foi a partir desse momento que a capital passou a exibir alguns marcos simbólicos e representativos do poder central. Não foi por acaso que durante o governo do general Médici, entre 1969 e 1974, se fez a transferência dos principais órgãos decisórios do Estado para o novo Distrito Federal. O chamado “Forte Apache”, edifício que abriga o Quartel-General do Exército e onde costumava reunir-se o alto comando dessa força para decidir os rumos do país, pode ser considerado um dos maiores símbolos da função de capital atribuída a Brasília.

São diversas as interpretações sobre o significado da mudança da capital brasileira. De um lado estão aqueles que relacionam o fim dos “anos dourados” do país à transferência da capital do Rio de Janeiro para uma Brasília tachada de “ilha da fantasia oculta e isolada”, o que teria favorecido tanto o fortalecimento da ditadura militar quanto os desmandos do governo Collor. De outro, os que consideram a nova capital o elemento-chave de um projeto de identidade nacional que buscou promover a ocupação do interior do país com os artefatos e as formas da modernidade. Planejada para ser modelo de integração regional e social, Brasília enfrenta o desafio, tal como o Rio anteriormente, de ser uma cidade para os seus habitantes e para todos os brasileiros.

Marly Motta É Doutora em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF). pesquisadora do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânia do Brasil da Fundação Geúio Vargas (CPDOC-FGV) e autora do livro Rio, Cidade-Capital (Rio de Janeiro: Ed. Jorge Zahar 2004).

Revista de Historia da Biblioteca nacional