
domingo, 19 de março de 2023
Cinco dias de fúria: Revolta da Vacina envolveu muito mais do que insatisfação com a vacinação

terça-feira, 10 de janeiro de 2023
Revolta da Vacina
O que foi a Revolta da Vacina, e quais suas semelhanças com o mundo de 2020
Charge contra Oswaldo Cruz Imagem:
A luta contra uma epidemia, uma sociedade em plena reforma de costumes, guerra entre informação verdadeira e fake news, negacionistas em polvorosa e até rumores de golpe de Estado. Parece 2020, mas é 1904. A Revolta da Vacina, motim popular ocorrido no Rio de Janeiro, guarda evidentes semelhanças com o mundo de hoje. Mas não vale repetir o chavão de que a história sempre se repete: o evento teve causas, efeitos, dimensão e localização diferentes dos que ocorrem atualmente.
https://tab.uol.com.br/
domingo, 17 de junho de 2012
sexta-feira, 19 de agosto de 2011
O herói negro em seu labirinto
O herói negro em seu labirinto
sábado, 23 de abril de 2011
Malandro é o gato

domingo, 27 de março de 2011
O Brasil e suas epidemias

Moacyr Scliar
O Brasil e suas epidemias
terça-feira, 30 de março de 2010
UMA REVOLTA POPULAR CONTRA A VACINAÇÃO

No início do século XX, o Rio de Janeiro já era lindo, mas a falta de saneamento básico e as péssimas condições de higiene faziam da cidade um foco de epidemias, principalmente febre amarela, varíola e peste. Estas pragas tropicais deram à capital do país o triste apelido de "túmulo de estrangeiros". Com medidas impopulares e polêmicas, Oswaldo Cruz, além de ter sido o responsável pela estruturação da saúde pública no Brasil, foi quem saneou o Rio, apesar da oposição da mídia e da manifestação popular, que ficou conhecida como "Revolta da Vacina".
A população da cidade revoltou-se contra o plano de saneamento, mas, sobretudo, com a remodelação urbana feita pelo presidente Rodrigues Alves (1902-1906), que decidiu modernizar a cidade e tomar medidas drásticas para combater as epidemias. Cortiços e casebres, que compunham inúmeros quarteirões dos bairros centrais, foram demolidos, e deram lugar a grandes avenidas e ao alargamento das ruas, seguindo o modelo de urbanização dos grandes bulevares parisienses. A população local foi desalojada, refugiando-se em barracos nos morros cariocas ou em bairros distantes na periferia. As favelas começaram a se expandir.
Nesse cenário, há exatos cem anos, Oswaldo Cruz assumia a Diretoria Geral de Saúde Pública (DGSP), cargo que, na época, equivalia ao de ministro da Saúde. Enquanto o prefeito Pereira Passos realizava o "Bota Abaixo", como ficou conhecida a reforma da cidade, Oswaldo Cruz transformou o Rio em um gigantesco laboratório de combate às doenças, implantando métodos revolucionários.
Em 1904, a cidade foi assolada por uma epidemia de varíola. Oswaldo Cruz mandou ao Congresso uma lei que reiterava a obrigatoriedade da vacinação, já instituída em 1837, mas que nunca tinha sido cumprida. Ciente da resistência da opinião pública, montou uma campanha em moldes militares. Dividiu a cidade em distritos, criou uma polícia sanitária com poder para desinfetar casas, caçar ratos e matar mosquitos.
Com a imposição da vacinação obrigatória, as brigadas sanitárias entravam nas casas e vacinavam as pessoas à força. Isso causou uma repulsa pela maneira como foi feita. A maioria da população ainda desconhecia e temia os efeitos que a injeção de líquidos desconhecidos poderia causar no corpo das pessoas. Setores de oposição ao governo gritaram contra as medidas autoritárias. Quase toda a imprensa ficou contra Oswaldo Cruz, ridicularizando seus atos com charges e artigos.
A indignação levou ao motim popular, que explodiu em 11 de novembro de 1904, conhecido como a "Revolta da Vacina". Carroças e bondes foram tombados e incendiados, lojas saqueadas, postes de iluminação destruídos e apedrejados. Pelotões dispararam contra a multidão. Durante uma semana, as ruas do Rio viveram uma guerra civil. Segundo a polícia, o saldo negativo foi de 23 mortos e 67 feridos, tendo sido presas 945 pessoas, das quais quase a metade foi deportada para o Acre, onde foi submetida a trabalhos forçados.
Para o historiador Sérgio Lamarão, da Universidade Federal Fluminense, "conduzida de forma arbitrária, sem os necessários esclarecimentos à população, a campanha da vacina obrigatória canalizou um crescente descontentamento popular. Deve ser entendida como uma conseqüência do processo de modernização excludente concentrado, no tempo e no espaço desencadeado pela reforma do prefeito Passos e não, como foi considerada pelas autoridades, como uma reação explosiva da massa ignorante ao progresso e às inovações".
Mayla Yara Porto
SBPC
sexta-feira, 19 de março de 2010
Revota da Chibata - Os marinheiros que resistiram
Há cem anos um marujo comandou a revolta que aboliu o castigo das chibatas
CECILIA PRADA
Era uma noite de grandes festas de gala, a de 22 de novembro – o marechal Hermes da Fonseca, empossado presidente da República no dia 15, após derrotar em acirrada campanha seu oponente, o senador Ruy Barbosa, ainda tinha como única preocupação esgotar os eventos sociais em sua homenagem, jantares, espetáculos, recepções. Enquanto a bordo das belonaves estrangeiras fundeadas na baía da Guanabara, portuguesas e americanas, o oficialato recebia com banquetes os colegas brasileiros, o próprio presidente, acompanhado de todo o seu ministério, comparecia a uma deslumbrante recepção que lhe fora oferecida no Clube da Tijuca e entregava-se ao prazer de ouvir a ópera Tannhäuser, de Wagner. Um tiro de canhão subitamente cortou seu enlevo, e o de toda a cidade, seguido cinco minutos depois de outro, que deixaria vidraças quebradas, em Copacabana e no centro. “Há uma revolta na marinha”, foi o que se espalhou logo entre a população, trazendo de volta o histórico pavor de ser bombardeada do mar.
Várias vezes, desde sua fundação em 1565, o Rio de Janeiro correra esse risco. Basta lembrar que os corsários franceses Jean-François Duclerc e René Duguay-Trouin, apoiados pelo rei da França, tentariam, em 1710 e 1711 respectivamente, a aventura de invadir o Rio. O segundo deles chegou a instalar-se na cidade e pilhá-la durante dois meses, até o governador Francisco de Castro ser obrigado a negociar sua retirada mediante o pagamento de vultoso resgate em ouro. Em 1893/94 a Revolta da Armada chefiada por Custódio de Melo, contra o governo do marechal Floriano Peixoto, manteve pesado tiroteio com a artilharia dos fortes, em poder do exército. Houve uma sangrenta batalha na ponta da Armação, em Niterói, e em 1894 a capital do estado do Rio teve de ser transferida, até 1903, para Petrópolis.
Punidos os líderes da Revolta da Armada com rigor, o Marechal de Ferro tratou logo, porém, de apaziguar o brio da classe com a reestruturação da frota de guerra, sucateada após a Guerra do Paraguai. Em uma transação comercial de grande vulto, muito onerosa para o Tesouro Nacional, encomendou no exterior a chamada “frota de papel” – que de papel nada tinha (a ironia era com o papel-moeda) –, e contaria dali por diante com navios de vários portes, entre eles os maiores dreadnoughts (encouraçados) do mundo, o Minas Gerais e o São Paulo. Manobra surpreendentemente diplomática em governo de tão férreo militar, convenhamos – repetida também com muito êxito pelo presidente Juscelino Kubitschek em 1956, quando comprou, sob críticas acerbas, um caríssimo porta-aviões britânico (rebatizado justamente de Minas Gerais), um “brinquedinho de luxo” para mais uma vez calar a boca descontente dos oficiais linha-dura da marinha e da aeronáutica.
Naquela noite de novembro de 1910, podemos imaginar como teriam se levantado às pressas de seus banquetes e espetáculos os ministros, militares, parlamentares, diplomatas, e todas as suas emplumadas consortes, entreolhando-se desconfiados, estranhando o que pensavam ser mais uma vez o descontentamento eterno de oficiais da marinha. Então o orgulho da corporação ainda não estava satisfeito com o fato de o Brasil ter-se tornado a terceira potência naval do mundo?
Não podiam nem imaginar o outro espetáculo, de feitio muito mais popular, que acabara de ser encenado na baía da Guanabara: os quatro colossos de ferro, Minas Gerais, São Paulo, Deodoro e Bahia, posicionados em desafio perante a cidade, ofuscando-a com seus holofotes, atroando-a com intermitentes uivos de suas sirenes, anunciando que após breve luta em que alguns oficiais e o comandante Batista das Neves, do nosso maior encouraçado, tinham sido mortos, 2.379 marinheiros haviam decidido pôr um fim na situação de aviltamento em que viviam.
O movimento estava previsto para o dia 24 ou 25, mas teve um estopim inesperado: ao raiar da madrugada anterior, o marinheiro Marcelino Rodrigues Menezes recebera 250 chibatadas perante a tripulação formada no convés do Minas Gerais, ao rufar dos tambores que abafavam seus gritos. Em meio ao castigo, desmaiou. Mas a punição foi executada até o fim.
Tradições aviltantes
A prática dos castigos corporais e até mesmo da pena de morte era prevista nos estatutos da marinha de guerra das potências europeias e foi praticada até o final do século 19. Em 1910, ela só persistia na marinha brasileira. As terríveis condições de vida dos marujos foram expostas na literatura e no cinema – a obra-prima realizada em 1925 por Eisenstein, O Encouraçado Potemkin, retrata um episódio ocorrido em 1905 na Rússia czarista, semelhante em tudo à rebelião brasileira de 1910.
Na literatura, o tema aparece em obras notáveis, como as do polonês naturalizado britânico Joseph Conrad (1857-1924), e em Billy Budd, do americano Herman Melville (1819-1891), que foi também marinheiro. Por ter matado, acidentalmente, um contramestre, o belo jovem Billy Budd, da marinha real inglesa, é condenado e enforcado no próprio navio. A obra retrata os problemas de tensão emocional, violência e homossexualismo habituais na vida marítima, e o navio é tomado como um símbolo da sociedade da época e da própria condição humana – já foi adaptada para o cinema e o teatro, e tornou-se tema de uma ópera de Benjamin Britten. No Brasil, o romancista Adolfo Caminha (1867-1897), um dos principais autores do Naturalismo e ele próprio oficial da marinha, publicou na ocasião da revolta dos marinheiros artigos e um conto, “A Chibata”, que lhe valeram críticas ferozes e punições. No romance Bom Crioulo (1895), retrata um marinheiro negro a quem a paixão por um belo grumete acaba levando ao crime.
Em todas as nações, foi sempre na marinha que se revelou a maior diferenciação entre classes sociais – na brasileira, a um oficialato exclusivamente composto por brancos provindos das famílias mais aristocráticas, garbosos rapazes em uniformes impecáveis, bem nutridos e formados em escolas altamente especializadas, correspondia uma multidão de praças broncos, recrutados à força, na grande maioria negros ou mulatos, sujeitos a maus-tratos, mal alimentados, cevados no ódio de seus superiores, impossibilitados de fundar sua própria família e melhorar de vida.
No Brasil de 1910, o recrutamento baseava-se ainda no velho sistema do tempo do Império, o de uma verdadeira caçada entre as populações pobres, principalmente no nordeste do país, “a cargo de desumanas criaturas” que amontoavam homens como gado nos porões de navios equiparados aos dos “negreiros”, mal alimentados e sem condições de higiene. Em consequência, uma porcentagem alta deles morria até antes de chegar ao Rio de Janeiro – como descrevia o historiador cearense Ismael Pordeus já em 1825, pouco tempo depois de criada nossa marinha, sob o comando do almirante escocês lorde Cochrane. Tendo participado das lutas de independência, ele recebeu o título de marquês do Maranhão e aqui permaneceu por dois anos, estruturando a instituição pelos moldes britânicos. Cochrane recomendava que se recrutassem de preferência rapazes de 14 a 20 anos, mas autorizava o rebaixamento da idade mínima para 12, ou até mesmo 10 anos, “em caso de necessidade”. Numerosos eram também os embarques forçados de pais de família, e até de mais velhos. O tempo mínimo de serviço era de 15 anos, sendo as baixas extremamente dificultadas mesmo ultrapassado o prazo, devido à carência de praças.
João Cândido, um negro nascido em Encruzilhada do Sul (RS) em 1880 ou 1882 – as fontes divergem quanto à data –, fora uma exceção à regra: amava sua profissão e fora estimulado a alistar-se na marinha aos 13 anos por um oficial conhecido de sua família e seu protetor, o então capitão de fragata Alexandrino de Alencar, que mais tarde, como almirante, seria ministro da Marinha por três períodos. Tinha uma excelente folha de serviço, com promoções por mérito até o posto de praça de primeira, e integrou o grupo de pessoal escolhido para estagiar na Inglaterra durante a construção do Minas Gerais, para aprender seu manejo.
Quanto à chibata, não era um relho comum, desses que abusivamente se usam com animais. Era um requinte da maldade humana: uma corda mediana de linho atravessada por pequenas agulhas de aço das mais resistentes e colocada de molho para que inchasse, pois assim as agulhas nela se entranhavam e somente suas pontas apareciam. As 25 chicotadas estabelecidas como castigo máximo no regulamento naval costumavam ter seu número aumentado à vontade, chegando a 250 como no caso já descrito de Marcelino Menezes, que teve as carnes retalhadas – em A Revolta da Chibata, Morel transcreve depoimento ao Congresso do deputado federal comandante da marinha José Carlos de Carvalho, encarregado na época de averiguar como se processara a rebelião no Minas Gerais: “Mandaram vir à minha presença um praça que tinha sido castigado de véspera. Examinei esse praça e trouxe-o comigo para terra, para ser recolhido ao Hospital da Marinha. Senhor presidente, as costas desse marinheiro assemelhavam-se a uma tainha lanhada para ser salgada”.
No dia seguinte à proclamação da República, um decreto abolira a aplicação de castigos corporais, permitida durante o Império. Mas novo decreto, logo em abril de 1890, restabeleceu-os e criou uma Companhia Correcional cujo objetivo seria “submeter a um regime de disciplina especial os praças que forem de má conduta habitual e punir faltas em casos que não exijam conselho de guerra”. As faltas “leves” seriam punidas com solitária por três dias, a pão e água, as “leves repetidas”, da mesma forma, por seis dias, e as faltas “graves” com 25 chibatadas. O decreto foi assinado pelo ministro da Marinha, Eduardo Wandenkolk, cuja opinião pessoal era que “mais valia a chibatada como castigo ao réu confesso do que os maçantes e delongados conselhos de guerra”. E referendado – segundo documentação idônea levantada por Morel – pelo próprio Ruy Barbosa, então ministro da Fazenda, que em 1910, como senador, se arvoraria em paladino dos rebeldes e visceralmente contrário à “aviltante prática da chibata”.
Anistia e traição
Foram aqueles dias de grande tensão e de medidas urgentes: os canhões dos navios rebelados mantinham-se em riste, sob uma incômoda bandeira vermelha hasteada, apontados para a linda cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Mas João Cândido, que se tornou um herói popular, conhecido como “o homem que não quis bombardear o Rio de Janeiro”, soube negociar com tranquilidade e sensatez com o governo e acabou por conseguir seus objetivos – a abolição da chibata e a anistia total para os revoltosos. Isso aconteceu logo no dia 25 de novembro, por um decreto do presidente da República, obtido pela pressão de congressistas que haviam inclusive usado de alguns artifícios para ganhar o apoio de quem realmente mandava no país, o cacique político Pinheiro Machado, que dirigia o Partido Republicano Conservador.
Às 13 horas do dia 26, João Cândido ordenou a entrada na baía da pequena frota que comandava e que trazia ainda a bandeira vermelha arvorada. A um sinal do Minas, as bandeiras foram arriadas e substituídas pelo pavilhão nacional, em funeral – um clarim executou o toque de silêncio e, enquanto João Cândido fazia uma ligeira oração, foram prestadas homenagens aos mortos da insurreição, de ambos os lados. No dia 27, os novos comandantes designados assumiram seus postos, na mais completa ordem, nos quatro navios.
No dia seguinte, 28 de novembro, o governo fraudava já o acordo da anistia, com outro decreto que forçava a baixa da marinha, por exclusão, “dos praças cuja permanência se torna inconveniente à disciplina”. Alarmados, os marinheiros formam uma comissão para falar com os políticos que na véspera os apoiavam – os senadores Ruy Barbosa e Pinheiro Machado não os recebem. Ingênuo, João Cândido insistia para que seus companheiros se mantivessem tranquilos: “Fomos anistiados, somos cidadãos livres...”
Na madrugada de 4 de dezembro foram presos 22 marujos acusados de conspiradores. Na noite de 9 para 10 de dezembro os fuzileiros do Batalhão Naval, sediado na ilha das Cobras, sublevaram-se, mas sem ter ligação alguma com a revolta de João Cândido. Foram dominados, sofrendo um grande massacre, empreendido tanto por tropas legalistas como pelas próprias belonaves que 18 dias antes estavam rebeladas – a bordo do Minas Gerais tudo se mantinha em ordem, servindo João Cândido de elemento de ligação entre o oficialato e os praças. O “Diário de Notícias” informava que o forte da ilha das Cobras se transformara em um monte de ruínas, sepultando centenas de cadáveres – dos 600 soldados da guarnição só restavam 60. O restante do contingente morrera ou fugira. O governo pressionava a Câmara para impor o estado de sítio.
No próprio dia 10 João Cândido foi preso, com mais 17 marinheiros. No dia 24 foram todos lançados nas masmorras da ilha das Cobras, encaminhados por um ofício do Quartel-General da Marinha, que recomendava fossem postos “em prisão segura e separados dos demais, por serem elementos perigosos”. O grupo foi atirado em um minúsculo compartimento denominado “Prisão Solitária”, que, abafado e terrivelmente quente, não dava aos prisioneiros nem condições de respirar; além disso, os soldados jogavam de quando em quando cal virgem no local, a pretexto de desinfecção. Dentro de pouco tempo estavam todos mortos. Somente dois deles conseguiriam sobreviver: João Cândido e outro marujo, apelidado Pau da Lira. A cena dantesca da morte dos companheiros, forçados a beber a própria urina por causa da sede, lutando inutilmente para não sufocar com a poeira cáustica da cal, foi um pesadelo constante pelo resto da vida de João Cândido – que viveria até 1969. Ele só conseguiu sobreviver na masmorra por encontrar um orifício em um encanamento, ao qual se colou para respirar.
Mais um episódio da Rebelião da Chibata ocorreu na noite de Natal de 1910: no navio Satélite, do Loide Brasileiro, que zarpou do porto do Rio de Janeiro com uma carga de 293 detentos deportados para trabalhos forçados nos terríveis seringais da Amazônia, de onde quase ninguém conseguia voltar vivo, o governo incluíra muitos rebeldes tanto dos vasos de guerra como do Batalhão Naval. Nove deles, cujos nomes haviam sido previamente assinalados em vermelho, foram sumariamente fuzilados pela tripulação, e seus corpos lançados ao mar. Outros tombariam também assassinados mais tarde, envoltos no impenetrável mistério cúmplice das selvas.
Quanto a João Cândido, louco e tuberculoso, foi encaminhado ao Hospital dos Alienados da Praia Vermelha, em abril de 1911 – onde contou com a atenção especial do diretor da instituição, o pioneiro da psiquiatria brasileira professor Juliano Moreira. Durante o tratamento começou a ditar suas memórias a um companheiro do asilo. Mas quando, após três meses, um laudo dos médicos deu-o como indivíduo calmo, de memória bem conservada, perfeita faculdade de julgamento e consciente de seu estado, o governo resolveu devolvê-lo à prisão, onde permaneceu até novembro de 1912 – quando por fim foi submetido a um conselho de guerra que o absolveu e libertou.
Autor perseguido
Jornalista cearense que se destacou na reportagem investigativa e em denúncias de impacto, Edmar Morel (1912-1989) atuou em vários órgãos de imprensa dos Diários Associados e também no “Jornal do Brasil” e em “O Globo”. Foi um dos fundadores da “Última Hora” e durante quatro décadas foi dirigente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI). Recebeu vários prêmios importantes de jornalismo. Sofreu implacável perseguição da marinha por seu livro A Revolta da Chibata, e após o golpe de 1964 teve seus direitos políticos cassados. Foi impedido de continuar a trabalhar na grande imprensa e exonerado do cargo público concursado que exercia.
Revista Problemas Brasileiros
segunda-feira, 7 de setembro de 2009
O Rio de Janeiro em pé de guerra
por Moacyr Scliar
A imprensa ridicularizava Oswaldo Cruz e a vacinação obrigatória.Caricatura de Vasco Lima, 1904
Há um século, o povo do Rio de Janeiro pegou em armas contra o projeto de vacinação obrigatória proposto pelo sanitarista Oswaldo Cruz. A resistência popular, quase um golpe militar, teve o apoio de positivistas e da Escola Militar.
Seria preciso não conhecermos a vida da cidade do Rio de Janeiro, mesmo nos seus dias anormais, para não compreendermos os acontecimentos de ontem que encheram de pânico e pavor toda a população.
Houve de tudo ontem. Tiros, gritos, vaias, interrupção de trânsito, estabelecimentos e casas de espetáculos fechadas, bondes assaltados e bondes queimados, lampiões quebrados à pedrada, árvores derrubadas, edifícios públicos e particulares deteriorados." - Gazeta de Notícias, 14 de novembro de 1904.
Tudo começou no dia 10 de novembro de 1904 com uma pequena manifestação: estudantes - não raro são eles que começam estes movimentos - saíram às ruas, gritando lemas de protesto, entoando canções satíricas. Houve confronto com a polícia, violência, prisões. No dia seguinte, novas manifestações, agora com troca de tiros, a indicar que o conflito se ampliava. No dia 12 o número de pessoas nas ruas cresceu consideravelmente. Em passeata, os manifestantes dirigiram-se ao Palácio do Catete, sede do Governo Federal.
Tiros foram disparados contra o carro do comandante da Brigada Policial, o general Piragibe. O Exército entrou de prontidão. No domingo, dia 13, estava caracterizada a rebelião. O centro da cidade do Rio de Janeiro e os bairros adjacentes, Tijuca, Gamboa, Saúde, Laranjeiras, Botafogo, Rio Comprido, Catumbi e Engenho Novo transformaram-se em campo de batalha. Bondes eram virados e incendiados, os lampiões de gás eram quebrados e começavam a surgir barricadas.
Cem anos depois dessas manifestações de violência, o modo costumeiro de explicá-las ainda é a rejeição popular à vacina contra a varíola. Como veremos, porém, essa interpretação é no mínimo simplista. Sim, a denominação de Revolta da Vacina ficou na história. Sim, havia resistência contra a vacina. Mas, a Revolta foi mais, muito mais do que isto.
EPIDEMIAS
Em nosso país as epidemias eram muito freqüentes. A febre amarela, por exemplo, ocorria desde o século dezessete. Trata-se de uma doença viral, como a varíola, mas transmitida por picada de mosquito, que ataca vários órgãos, entre eles o fígado, fazendo com que componentes da bile entrem no sangue e dêem à pele uma coloração amarelada; daí o nome. O número de casos chegou a diminuir, mas a febre amarela foi reintroduzida em 1849 quando um navio americano, ironicamente chamado Brazil, chegou a Salvador, procedente de New Orleans e Havana.
A epidemia que então eclodiu resultou em cerca de 2800 óbitos. Em 1895, aconteceu o contrário: a tripulação do navio italiano Lombardia, então em visita ao Rio de Janeiro, foi acometida de febre amarela. Dos 340 homens a bordo 333 adoeceram e 234 morreram, fato que teve repercussão internacional, e que representava um sério problema para o Brasil.
O Rio de Janeiro tornou-se o cenário preferencial para as mudanças que ocorriam no país.
A então capital federal estava longe de ser a Cidade Maravilhosa, mais tarde cantada em prosa e verso. Apesar da beleza natural, a infra-estrutura sanitária era precaríssima; o lixo acumulava-se nas ruas, sempre cheias de gente, o abastecimento de água era precário, esgoto praticamente inexistia. Por toda a parte encontrava-se os quiosques, pequenos estabelecimentos de rua que vendiam alimentos sem nenhuma condição de higiene.
A população vivia em cortiços, imensas habitações coletivas. Um deles tinha a entrada decorada com grotescas cabeças de suíno, de onde veio a expressão "cabeça de porco". Nesta época também surgia a favela. Este era o nome de um arbusto muito comum na região de Canudos. Os veteranos dessa campanha, regressando ao Rio, foram morar em um morro que ficou conhecido exatamente por essa denominação, Favela.
Grassavam doenças como a febre amarela, a peste, a varíola. O que também tinha graves conseqüências econômicas. O Brasil era considerado um país perigoso, não por causa de violência, mas das enfermidades infecciosas. As agências européias anunciavam viagens de navio direto para Buenos Aires, sem escala no Brasil. Privado do transporte marítimo, o Brasil não conseguia exportar café, principal fonte de divisas.
DÍVIDA EXTERNA
Não havia dinheiro para pagar a enorme dívida externa, contraída sobretudo com bancos ingleses. O governo inglês chegava a falar em intervenção militar. A cafeicultura também era prejudicada em termos de mão-de-obra: os emigrantes eram particularmente vulneráveis à febre amarela.
O governo federal resolveu agir, então, em duas frentes: reforma urbana e combate a doenças. O presidente Rodrigues Alves, que assumiu o cargo em 1902, entregou a prefeitura da capital, então cargo de confiança, a Francisco Pereira Passos. Filho de um rico proprietário rural, Pereira Passos estudara engenharia e fora nomeado adido da legação brasileira em Paris, onde completara seus estudos e observara a reforma empreendida na capital francesa por Georges Eugène, barão Haussmann: bairros inteiros eram arrasados para dar lugar a largas avenidas e praças - o que facilitava o trânsito e evitava a formação das barricadas, que então caracterizavam as revoltas populares. Para implantar o modelo haussmaniano, Pereira Passos recebeu do governo amplos poderes.
Como em Paris, casas foram demolidas, ruelas estreitas foram alargadas, amplas avenidas foram construídas. Mas Pereira Passos tomou outras medidas contra "velhas usanças": por exemplo, lojas não poderiam mais pendurar artigos em umbrais de portas, teriam de exibi-los em vitrines (como em Paris). Uma verdadeira guerra foi movida contra os quiosques. Era proibido, por decreto, urinar e cuspir nas ruas. Até o candomblé e a capoeira foram severamente reprimidos, por causa da "imoralidade". O Rio civilizava-se, dizia o cronista João do Rio, mas nem todos estavam felizes com o processo civilizatório em curso, sobretudo com o "bota-abaixo". Houve protesto, houve revolta. O proprietário de um casebre que ia ser demolido recusou-se a deixar o local. A demolição foi feita com o homem lá dentro.
Rodrigues Alves estava particularmente atento aos problemas de saúde pública. Rico fazendeiro de café, sabia da ameaça representada pela febre amarela aos emigrantes que trabalhavam na lavoura. Ele mesmo tinha perdido uma filha vítima da doença. Além disso, tinha interesse pessoal nas questões de saúde e de doença, chegando a freqüentar reuniões científicas. Mas o presidente não poderia, claro, assumir o comando da luta contra as doenças. Alguém deveria cuidar disso. Mas, naquela época não havia ainda Ministério da Saúde. As ações de saúde pública estavam a cargo do Ministério da Justiça e Negócios Interiores, cujo titular era J.J.Seabra. Para o cargo de diretor de Saúde Pública, equivalente ao do atual ministro, Seabra convidou seu médico particular e amigo, Sales Guerra. Que não aceitou, mas indicou o seu colega e também amigo, Oswaldo Cruz. E assim entrou na história do nosso país um personagem fascinante.
Surge a ciência brasileira
Em seu livro Gênese e evolução da ciência brasileira, a historiadora e brasilianista norte-americana Nancy Stepan vê em Oswaldo Cruz o pioneiro da ciência no Brasil, o que chama a atenção: na Europa, ciência estava associada à astronomia, à física, à química, com nomes como os de Galileu, Newton, Lavoisier. No Brasil a ciência surgiu de maneira diferente, por causa de Oswaldo Cruz. Mas quem era ele?
Oswaldo Gonçalves Cruz nasceu a 5 de agosto de 1872 na pequena cidade paulista de São Luís do Paraitinga, onde seu pai, Bento Gonçalves Cruz, trabalhava como médico.
O doutor Bento era um homem disciplinador, autoritário mesmo. Uma vez mandou chamar o filho na escola porque Oswaldo tinha ido para a aula sem arrumar a cama, como era sua obrigação. Essa obsessão pela ordem, pela organização, seria incorporada por Oswaldo. Que, no entanto, não era submisso. Anos depois, Bento surpreendeu o filho fumando e repreendeu-o. "Mas o senhor também fuma", retrucou Oswaldo. Uma resposta assim, altiva, poderia ser motivo de castigo. Bento, porém, reconheceu que Oswaldo tinha razão. A partir de então, não fumou mais. Honra, trabalho, dever: esses eram seus valores. Figurariam em seu testamento como diretrizes morais para os filhos.
O doutor Bento decidiu deixar o interior para morar no Rio de Janeiro. Lá conseguiu um emprego, que Oswaldo herdaria, como médico de uma fábrica de tecidos. Mais tarde, foi nomeado pelo imperador membro da Junta Central de Higiene Pública, um órgão federal que fiscalizava coisas como alimentos e condições de habitação. Progrediu na carreira, chegando ao cargo de inspetor-geral. Oswaldo freqüentou bons colégios e, seguindo o exemplo do pai, estudou medicina. Não era um aluno brilhante: não gostava muito de clínica.
No decorrer do curso, porém, fez uma descoberta que mudou não apenas a sua carreira, mas toda sua vida. Como ele próprio conta na sua tese de doutoramento sobre doenças transmitidas pela água (grafia da época): "Desde o primeiro dia em que nos foi facultado admirar o panorama encantador que se divisa quando se colloca os olhos na ocular dum microscópio; desde que vimos, com o auxilio desse instrumento maravilhoso os numerosos seres vivos que povoam uma gotta d\\'água; desde que aprendemos a lidar com o microscopio, enraizou-se em nosso espírito a idéia de que os nossos esforços intelectuaes d\\'ora em diante convergiriam para que nos instruissemos, nos especialisassemos numa sciencia que se apoiasse na microscopia."
Oswaldo não era exceção: todo estudante de medicina fica maravilhado quando olha pela primeira vez ao microscópio. Em primeiro lugar, é um mundo novo e fascinante que se descortina. Depois, trata-se de tecnologia, e tecnologia, na medicina moderna, representa um forte apelo. À época em que Oswaldo Cruz cursou a Faculdade de Medicina, a tecnologia ainda se reduzia a uns poucos recursos, entre eles o microscópio, que tinha atrás de si a figura gigantesca e já quase lendária de Louis Pasteur (1822-1895), cujo instituto era visto por muitos médicos como o "santuário" da medicina. Ali foram identificados germes causadores de muitas doenças. Para estas eram preparados soros e vacinas.
Nessa época foi também introduzida a antissepsia, que consiste em usar substâncias contra os germes. Tudo isso seria completado, já no século XX, com o desenvolvimento dos antibióticos. A admiração de Oswaldo pela microbiologia era explicável.
Em 1893 casava-se com a namorada de infância Emília, com a qual teria seis filhos. Ao mesmo tempo via-se diante de um desafio: que rumo tomar na profissão? Emprego ele tinha, mas não lhe satisfazia. Decidiu aperfeiçoar-se em microbiologia em Paris; afinal, lá ficava o Instituto Pasteur, lá estavam as grandes cabeças da especialidade. Problema: o sustento na Europa era caro; naquela época bolsas de estudo praticamente não existiam. O sogro, homem rico, dispôs-se a ajudar. Em 1896 Oswaldo seguia com a família para Paris.
Lutando contra a peste
Oswaldo estagiou em vários lugares, incluindo o Instituto Pasteur. Regressando ao Brasil, tentou ganhar a vida com o que aprendera. Abriu um serviço de urologia e um laboratório de análises. Também voltou para o emprego na fábrica de tecidos, no qual substituíra o pai. E ainda trabalhava, junto com outros médicos, numa policlínica. Mas em outubro de 1899 foi convidado a formar, junto com dois famosos cientistas de São Paulo, Adolpho Luz e Vital Brazil, uma comissão encarregada de investigar casos suspeitos de febre bubônica em Santos.
Esse convite representava um reconhecimento oficial de suas qualificações. Oswaldo não hesitou em aceitá-lo. Fez os exames laboratoriais e concluiu que se tratava mesmo de peste. Seu relatório, porém, foi posto em dúvida. Peste era um diagnóstico sombrio, e as atividades do porto ficariam prejudicadas: muitos capitães de navios se recusariam a atracar ali. Por causa disso o material foi enviado à Europa. Os laboratórios europeus confirmaram as conclusões de Oswaldo cujo prestígio, evidentemente, cresceu.
O surto de peste gerou um enorme problema. O único e duvidoso tratamento para a doença era o soro antipestoso, preparado com a inoculação das bactérias causadoras da peste em animais (cavalos, geralmente), que fabricavam anticorpos como defesas. Além de não funcionar muito bem, tal soro tinha de ser importado da Europa. O governo federal decidiu, então, fabricá-lo no Brasil. Para isso criou dois institutos, um em São Paulo outro no Rio.
Este último era dirigido pelo barão de Pedro Afonso, médico de grande clínica, professor da Faculdade de Medicina e aristocrata conhecido pela arrogância. O barão queria contratar, para diretor-tecnico, um cientista estrangeiro. Para isso, pediu a Émile Roux, diretor do Instituto Pasteur, que lhe indicasse um nome. Roux ponderou que o Brasil já contava com um grande cientista: Oswaldo Cruz. O barão procurava longe o que estava perto.
Oswaldo Cruz trabalhou dois anos no Instituto Soroterápico. As desavenças entre ele e o barão eram freqüentes. Oswaldo, embora mais moço e menos famoso, não levava desaforos para casa. Acabaram saindo os dois. Só que Oswaldo voltou. Como diretor. E aí foi indicado para o cargo de Diretor de Saúde Pública, com amplos poderes para enfrentar as pestilências no Rio de Janeiro.
Oswaldo enfrentou a tarefa com extrema competência. Era um notável cientista e um grande administrador, e capaz de muito autoritarismo. As primeiras campanhas foram dirigidas à febre amarela. Havia controvérsias acerca dessa doença: muitos médicos, inclusive professores da Faculdade de Medicina, achavam que a causa seria um hipotético bacilo transmitido pelos alimentos ou pelo solo. Oswaldo, baseando-se em trabalhos feitos em Cuba, defendia a hipótese da transmissão por mosquitos, e organizou brigadas de mata-mosquitos, para - dentro do espírito de campanha, um termo militar - combater os focos dos insetos.
Apesar do ceticismo da imprensa - ele era um alvo predileto para os caricaturistas e humoristas - e de boa parte da população, a campanha teve êxito: os casos de febre amarela diminuíram consideravelmente. A seguir, voltou sua atenção para a peste bubônica. Tratava-se de desratizar a cidade e, para isso, Oswaldo lançou mão de um expediente: assim como a recente campanha contra armas, ele pagava por ratos mortos. De novo, a gozação foi enorme - e aumentou quando apareceu um cidadão chamado Amaral, que criava ratos para vender ao governo. Mas, de novo, a campanha teve êxito.
A Revolta da Vacina
VARÍOLA
O alvo seguinte seria a varíola, para a qual já existia, há mais de cem anos, uma vacina, introduzida por um médico inglês chamado Edward Jenner. Segundo a tradição, quem deu à Jenner a idéia da vacina foi uma camponesa: ela afirmou ao médico que não teria varíola porque ordenhava vacas portadoras de uma doença chamada vaccinia, a varíola das vacas. As lesões da vaccinia eram leves e, de fato, imunizavam contra a varíola.
Hoje se sabe que os vírus dessas doenças são parecidos, mas à época sequer se suspeitava da existência deles. Mesmo sem conhecer a causa da doença, Jenner teve então a idéia de extrair o líquido das lesões da vaccinia e aplicar em pessoas, conseguindo assim imunizá-las. A vacina anti-variólica foi o primeiro imunizante a ser utilizado pela saúde pública. Mas, para funcionar, era necessário que um número grande de pessoas fosse vacinada.
Por meio de um novo regulamento sanitário, logo apelidado de "código de torturas", Oswaldo Cruz tornou a vacinação obrigatória. Esta medida foi muito mal recebida pela população. Dizia-se que a vacina poderia matar ou, no mínimo, deixar a pessoa com cara de bezerro. Também corria o rumor de que as vacinas eram feitas com sangue de rato - aqueles mesmos que o governo comprara na campanha contra a peste.
Mais ainda: a vacina era aplicada com uma espécie de estilete, nos braços ou nas pernas. Isso, para mulheres, configurava uma ofensa ao pudor, coisa que os vacinadores, às vezes pessoas grosseiras, não levavam em conta. Dizia uma canção da época: "Chega o tipo e logo vai/ enfiando aquele troço,/ lanceta e tudo mais(...)/ A lei manda que o povo,/ o coitado do freguês,/ vá gemendo pra vacina,/ ou então vá pró xadrez./ Eu não vou neste arrastão/ sem fazer o meu barulho."
Como se tudo isso não bastasse, havia ainda uma importante questão trabalhista: para conseguir emprego, era necessário o atestado de vacinação, fornecido por médicos particulares, que cobravam pelo documento.
Isso deixava indignado o nascente movimento sindicalista brasileiro. O Centro da Classe Operária, formado sobretudo por marítimos, e dirigido por Vicente de Souza, organizou um abaixo-assinado contra a obrigatoriedade da vacina, que foi assinado por mais de 15 mil pessoas, incluindo muitos militares.
Também se opunham à medida os positivistas, que valorizavam a ciência, mas viam na vacinação um atentado contra a liberdade individual, um "despotismo sanitário", nas palavras do líder positivista Teixeira Mendes, ele próprio um médico. Finalmente havia a oposição política, que incluía os monarquistas, ainda instatisfeitos com a proclamação da República.
Com tanta gente contra a vacinação, não é de admirar que em 10 de novembro de 1904 tenha eclodido uma revolta, a Revolta da Vacina. Durou cerca de duas semanas e transformou o Rio de Janeiro num cenário de guerra. Atrás de barricadas, os insurgentes enfrentavam as tropas do governo, que teve de mobilizar até a Marinha. Vários líderes surgiram então, o mais conhecido deles foi um capoeira conhecido como Prata Preta, que se destacou pela coragem e pela astúcia. O bairro que mais resistia era o da Saúde, no centro velho do Rio, e que ficou conhecido pelo apelido de Porto Arthur, este o nome de uma cidade que, na guerra russo-japonesa então em curso, era foco de ferozes combates.
Quase um golpe militar
Positivista destacado era também o paraense Lauro Sodré, general, senador e líder de grande prestígio, considerado o herdeiro de Floriano Peixoto. Ferrenho opositor do governo, Sodré não atacava apenas a vacinação obrigatória: denunciava o domínio do país pela oligarquia cafeeira da qual Rodrigues Alves era representante. Era preciso, argumentava, diversificar a agricultura e estimular a industrialização.
Sodré assumiu a presidência da Liga contra a Vacinação Obrigatória, fundada a 5 de novembro de 1904, no Centro da Classe Operária. Em seu discurso, fez um protesto veemente: "... esse governo só tem o rótulo de republicano, porque isto que nós temos como forma de governo é uma república falsificada.
À nação assiste o direito de repelir a força pela força ... Essa lei iníqua, arbitrária e deprimente provoca a reação, que deve ser feita por todos os meios, inclusive a bala."
Tão logo começaram os protestos de rua e os choques com a polícia, o senador Lauro Sodré e o general Silvestre Travassos dirigiram-se à Escola Militar, na Praia Vermelha, e prenderam o seu comandante, general Alípio de Macedo Costallat, obtendo adesão em massa dos cadetes, cerca de trezentos deles. Marcharam para o Palácio do Catete, entrando em choque, na Rua da Passagem, com as tropas do 1º Regimento de Infantaria e da Brigada Policial, à frente das quais estava o general Carlos da Silva Piragibe. No combate, de resultado indefinido, Sodré e Travassos foram feridos.
No dia 15, feriado nacional, operários de fábricas do Jardim Botânico fizeram barricadas. Batalhões de Minas e São Paulo chegaram para reforçar as tropas federais. Barricadas apareceram também nos bairros do centro da cidade. A batalha final deu-se no bairro da Saúde, onde as barricadas, com bandeiras vermelhas, estavam montadas ao longo de toda a Rua da Harmonia. Precariamente armados com garruchas e navalhas, os rebeldes recorriam a truques - como um simulacro de canhão, feito com um poste de iluminação.
O ataque, iniciado pela polícia e pelo Exército - depois apoiados pela Marinha - encontrou forte resistência. O saldo da revolta foi 30 mortos, 110 feridos e 945 prisioneiros, dos quais 454 enviados para o Acre. O General Travassos morreu dos ferimentos recebidos; Lauro Sodré ficou detido 10 meses em um navio de guerra. Os cadetes da Escola Militar foram desligados e o estabelecimento passou a funcionar no Realengo.
Finalmente, sufocou-se o movimento com muitos mortos e dezenas de prisioneiros. O governo recuperou o controle da situação, mas a verdade é que a imagem de Oswaldo estava muito prejudicada. Sua demissão do cargo parecia questão de tempo. A vacinação obrigatória foi suspensa (com resultado desastroso: em 1908 eclodiu novo surto, com quase 10 mil casos). Estava claro que Oswaldo Cruz já não teria o mesmo poder, ainda que posteriormente, e graças a um prêmio internacional, houvesse recuperado o prestígio. Acabou deixando o cargo de Diretor de Saúde Pública, para fundar o instituto de pesquisas que hoje leva o seu nome. Participou ainda de viagens pelo interior do Brasil, sempre ligadas a problemas de saúde pública; e foi nomeado prefeito da cidade de Petrópolis, RJ, onde teve muitas desavenças com proprietários locais. Faleceu em fevereiro de 1917.
Pode-se extrair da Revolta da Vacina uma lição até hoje válida: não dá para fazer saúde pública sem o público, sem a população, devidamente motivada e mobilizada. Vacinar pessoas não é a mesma coisa que vacinar gado. É preciso levar em conta fatores psicológicos, sociais e culturais. Na Inglaterra e nos Estados Unidos, até médicos manifestavam-se contra a vacinação. Num artigo do New York Journal of Medicine, em julho de 1899, dizia Charles Rauta, professor de Higiene:
"A vacinação é uma monstruosidade." Palavras que encontaram eco em Barata Ribeiro, médico, senador, professor da Faculdade de Medicina do Rio que declarava: "Prefiro morrer a me vacinar."
Seria, portanto, necessário comunicar-se com a população, informá-la e esclarecer suas dúvidas. Mas isso Oswaldo Cruz não chegou a fazer. Em parte, talvez, por causa do autoritarismo então comum entre médicos, sobretudo os sanitaristas. Em parte, também, porque não contava com meios de comunicação de massa adequados. Na época, aquilo que hoje conhecemos como mídia, restringia-se aos pasquins e aos jornais - que eram, em sua maioria, contra o governo e que, além disso, não tinham muitos leitores, numa época em que a maioria da população era analfabeta.
Mas a saúde pública brasileira aprendeu, sim, esta lição. Informar as pessoas faz parte de qualquer programa de controle de doenças. As vacinas, devidamente aperfeiçoadas, são hoje bem aceitas; mães e pais acorrem em massa aos postos de vacinação, trazendo seus filhos. Oswaldo Cruz lidaria hoje com um país diferente. Mas a verdade é que Oswaldo Cruz, hoje, também seria um homem diferente.
Moacyr Scliar é médico, escritor e membro da Academia Brasileira de Letras
Revista Historia Viva
domingo, 16 de agosto de 2009
Combata às Pragas Urbanas
POR SUCENA SHKRADA RESK

Foto da Avenida Rio Branco, no Rio de Janeiro, na década de 1930: condições sanitárias das grandes cidades brasileiras eram precárias no início do século XX
Um novo cenário social surgiu no Brasil após a abolição da escravatura (1888) e da instituição da República (1889). Nessa época, no final do século XIX, o processo imigratório, que ocorria principalmente por meio dos portos da então capital Rio de Janeiro e de Santos, em São Paulo, deflagrou um quadro preocupante de saúde pública e de crescimento desordenado dos centros urbanos.
Epidemias de peste bubônica, varíola e febre amarela vitimaram centenas de cidadãos. O auge dessa crise sanitária ocorreu na primeira década do século XX, quando as autoridades públicas deram início a políticas contundentes e polêmicas de saneamento e prevenção vacinal. Com essas medidas, foi instituído um verdadeiro plano de guerra.
Em 1903, o presidente Rodrigues Alves, que governou o Brasil de 1902 a 1906, empossou o cientista e sanitarista paulista Oswaldo Cruz (1872-1917) no cargo de diretor-geral de saúde pública (equivalente à função atual de ministro da saúde). Formado na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, Oswaldo Cruz havia feito um estágio no Instituto Pasteur de Paris, onde se especializou em bacteriologia. A tarefa dele era controlar e erradicar as epidemias e restabelecer um quadro mínimo sanitário na capital.
O porto de Santos (foto de 1870) era uma das principais portas de entrada de novas doenças e infecções, trazidas pelos imigrantes europeus. Apesar da varíola ser a peste principal, as aglomerações favoreciam todo tipo de epidemia
Como retaguarda técnica, tinha a estrutura do Instituto Soroterápico Federal, criado em 1899, sob a direção do Barão de Pedro Aff onso, cuja direção-técnica estava sob sua responsabilidade. A unidade de Manguinhos, em Inhaúma, no Rio de Janeiro, havia sido inaugurada para auxiliar na produção do soro antipestoso, que até então só era elaborado pelo Instituto Pasteur para dar conta da peste bubônica, que estava descontrolada mundialmente.
A cidade do Rio de Janeiro, desde o final do século XIX, sofria um processo de urbanização descontrolado. "Muita gente que havia combatido em Canudos foi morar no Morro da Providência (um dos primeiros a ser ocupado na cidade). Existia uma quantidade grande de cortiços, famílias morando em poucos cômodos e praticamente não havia iluminação. As pessoas adoeciam em decorrência da febre amarela, da peste bubônica, da varíola, da tuberculose. Essas doenças se propagavam devido à umidade e à deficiência sanitária", diz a pesquisadora Ana Luce Lima, do Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz, no Rio de Janeiro.
Com o desafio de colocar a saúde pública da capital do País em ordem, Oswaldo Cruz adotou medidas que causaram alvoroço principalmente entre as classes mais populares, que repercutiram nos tablóides da época. Como a cidade estava infestada de ratos, vetores da peste bubônica, o médico chegou a instituir recompensa de "um tostão" para quem conseguisse capturar um rato e o entregasse ao Serviço Sanitário.

Da esquerda para a direita: sobreviventes da guerra de Canudos, na Bahia; imigrantes portugueses, recémchegados ao Brasil; cortiço no Rio de Janeiro - população que se amontoava nos centros urbanos
Operação Mata-Mosquito
Para colocar seu plano em prática, Oswaldo Cruz iniciou uma campanha de saneamento com as chamadas "brigadas mata-mosquitos", que ainda hoje são realizadas, como no caso de combate à dengue. "Oswaldo Cruz trouxe o modelo de combate à doença adotado pelo exército americano em Cuba", conta Ana Luce. Os funcionários do serviço sanitário visitavam as casas para verificar e exigir o fim de poças d'água, que eram os criadouros das larvas dos mosquitos. Quando os moradores não permitiam a visita, os inspetores invadiam as casas com o aval de policiais.
Oswaldo Cruz instituiu a obrigatoriedade da vacinação e causou uma revolta popular
O objetivo das operações sanitárias era destruir tudo que pudesse ser foco de vetores das doenças, de insetos a ratos. Os cortiços e as casas mais modestas em estado precário eram postos abaixo e seus moradores tinham de buscar outras alternativas de residência. "Pereira Passos, que era o prefeito do Rio de Janeiro e responsável pela remodelação arquitetônica da capital, tinha um projeto de habitação popular, na época, mas que não vingou", afirma Ana Luce. A reforma urbana de Pereira Passos ficou conhecida como bota-abaixo.
Em apresentação ao 4º Congresso Médico Latino-Americano de 1909, Oswaldo Cruz falou que a grande dificuldade da campanha pela profilaxia da febre amarela, iniciada em 20 de abril de 1903, é que nessa época o Rio de Janeiro já contava com uma população de mais de 800 mil pessoas, além do relevo acidentado. Esse grande número de habitantes dificultou a tarefa das autoridades sanitárias.
Para dar conta das operações, a cidade foi dividida em zonas, onde as equipes realizavam o trabalho de isolamento dos pacientes em hospitais ou domicílios, e expurgo com gás sulfuroso. Outra tarefa era fazer o policiamento dos focos dos criadouros do mosquito e destruir as larvas, desde o interior dos imóveis até calhas, telhados, córregos e vasos.
A Revolta da Vacina
Foi com a reformulação do código sanitário, em 1904, quando Oswaldo Cruz instituiu a obrigatoriedade da vacinação contra a varíola, que se desencadeou uma reação em massa, em 9 de outubro do mesmo ano, que ficou conhecida como Revolta da Vacina. Segundo registros históricos, a obrigatoriedade da vacinação já constava em uma lei de 1837, mas que nunca havia sido colocada em vigor. De acordo com essa norma, qualquer pessoa que se candidatasse a uma função pública, se matriculasse em uma escola ou tivesse de viajar, deveria se vacinar.
"Nessa época, saíram muitas caricaturas nos principais jornais, ora ridicularizando, ora enaltecendo a iniciativa de Oswaldo Cruz. Os positivistas eram contra a intervenção do Estado no corpo das pessoas, e alguns ocupavam, inclusive, postos do Governo", explica Ana Luce. O slogan do governo era: "Se não vacinar, morre!". Já a população revoltada rebatia: "Se vacinar, mato!". Assim se instituiu a Liga contra a Vacina Obrigatória, que tinha como sustentação políticos da oposição.
O historiador Nicolau Sevcenko, no livro A Revolta da Vacina, de 1993, expõe que nessa mobilização, a mídia teve um papel significativo, pois o jornal do Rio, A Notícia, publicou na seqüência um esboço do decreto elaborado por Oswaldo Cruz, e a partir de então o pânico e a indignação tomaram conta de toda a cidade.

O caráter autoritário das medidas de Oswaldo Cruz violava a privacidade do lar, considerada tradicionalmente sagrada. Caricaturas da época mostram a reação popular à obrigatoriedade da vacina e às inspeções sanitárias
O Rio de Janeiro virou palco de conflitos, com barricadas formadas pela população contra as autoridades públicas. Durante essa manifestação, repartições públicas foram depredadas, houve saques em estabelecimentos comerciais e bondes foram incendiados. O confronto foi tão sério que chegou ao ponto de deixar vítimas fatais. O quadro político entrou em estado de instabilidade, porque a oposição confabulava a derrubada do governo de Rodrigues Alves.
Quatro dias depois do início da revolta, a Escola Militar também se rebelou. O governo tomou medidas logo em seguida, conseguiu controlar os manifestantes e as forças legalistas ocuparam o comando da unidade militar. Por causa de todo esse reboliço, Oswaldo Cruz acabou voltando atrás quanto à obrigatoriedade da vacina, mas continuou com o seu plano de ação sanitário. "A obrigatoriedade da vacinação foi revogada, mas em 1908 surgiu um novo surto e as pessoas iam espontaneamente se vacinar no Rio de Janeiro. Somente em 1970 houve a erradicação mundial da doença", diz Ana Luce. Segundo a pesquisadora, a Revolta da Vacina foi um fenômeno complexo que envolveu também questões políticas, com a tentativa de um golpe de Estado, na fase da política do café-com-leite (que intercalava gestores de São Paulo e Minas Gerais no poder).
Com a reformulação do código sanitário, em 1904, o cerco também se fechou para as instituições de saúde privadas, porque exigia a obrigatoriedade da notificação dos casos de febre amarela. Até então, só havia registro da população mais carente que era atendida nos hospitais públicos. "Além de se colocar filós em volta das casas, como forma de proteção contra os insetos, muitas pessoas ficavam isoladas no Hospital São Sebastião do Caju (1903 a 1907), quando foi erradicada a febre amarela do Rio de Janeiro", explica Ana Luce. Tomadas essas medidas, outro surto da doença na cidade ocorreu apenas 21 anos depois.
A desconfiança da população com o governo republicano, empossado há pouco mais de uma década, somou-se ao fato de a biologia microbiana ser ainda uma ciência de vanguarda, sem o mínimo de divulgação entre as camadas populares. Abaixo, bonde tombado por manifestantes na Praça da República, no Rio de Janeiro, em 1904
Os Esforços de Oswaldo Cruz
O projeto do governo de Rodrigues Alves era estabelecer que o Rio de Janeiro seguisse os moldes europeus de Paris. "Para isso, a urbanização contemplava o aumento dos sistemas viários dos bondes, e uma cidade mais organizada e bonita esteticamente", diz Ana Luce. Os prédios centenários do centro do Rio de Janeiro, que ainda hoje podem ser vistos na cidade, começaram a ser construídos nesse período.
Oswaldo Cruz foi empossado como diretorgeral de saúde pública para auxiliar nesse novo conceito da capital e tinha também como atribuição a fiscalização dos portos de todo o Brasil. A tarefa não era nada fácil, pois exigia longos deslocamentos, que o cientista realizou com freqüência, principalmente entre os anos de 1905 e 1906, quando liderou expedições para vigiar as condições sanitárias de 23 portos brasileiros.
Os relatos sobre essas viagens, que o médico fez à esposa Miloca, a quem tratava carinhosamente de "Miloquinha", são verdadeiras peças históricas. Além das informações sobre a situação sanitária e cotidiana dessas localidades, os depoimentos dele revelam como eram as belezas naturais e ambientais. Quando foi a Vitória, no Espírito Santo, por exemplo, Oswaldo Cruz contou em um dos trechos de sua carta de outubro de 1905: "...Às 12h do dia 30, entrávamos a barra da Victoria passando ao lado do pharol de Moreno e junto ao lindo convento da Penha. Não podes imaginar que bello espectáculo se divisa então: o mar deita um braço de 300 a 400 metros de largura pelo interior da terra, inummeras ilhas verdejantes com bellas edificações são dispostas, formando um bello canal, ao fundo do qual, e à direita de quem entra, está a cidade de Victoria, disposta em amphitheathro, pequena illuminada pelo sol e cuja vista encheume da mais justificada alegria..."
De julho a setembro de 1910, Oswaldo Cruz empenhou-se em erradicar a malária das frentes de trabalho da construção da estrada de ferro Madeira-Mamoré, na Amazônia (imagem acima)
Rodrigues Alves quis reformar a cidade do Rio de Janeiro de acordo com os moldes europeus
Ao mesmo tempo em que se deparou com um cenário belíssimo, Oswaldo Cruz observou um quadro sanitário deficiente: "...Passei depois a visitar a cidade: um verdadeiro chiqueiro: não há a minima hygiene, não há exgottos: os despejos são feitos no mar por meio de barris, de modo que às 10h da noite ninguém mais pode approximar-se das praias. Não há água, a não ser de uns poços immundos: há perto da cidade duas fontes de boa água, mas onde para recolher uma lata de Kerosene são necessárias cerca de 5 horas! E ainda assim são precisas três pessoas: uma para apanhar a água e duas para proteger esta contra o ataque dos outros que estão à espera!..".
Oswaldo Cruz sozinho e com sua turma do Instituto Pasteur. O sanitarista era abertamente apaixonado pela arte da fotografia e chegou a receber o apelido de "Dr. Fotógrafo"
De julho a setembro de 1910, o cientista enfrentou um novo desafio: erradicar a malária das frentes de trabalho da então vigorosa e controvertida construção da estrada de ferro Madeira- Mamoré, no coração da Amazônia. Contratado pelas companhias Madeira-Mamoré Railway e Port of Pará, o médico foi trabalhar em Porto Velho. Segundo relatos da época, a situação na região era preocupante devido à grande quantidade de trabalhadores no local: apenas durante a construção dos primeiros 90 quilômetros da ferrovia, estimava-se que 88 mil operários participaram da obra.
Em seu relato à esposa, ele disse o quanto fi- cou assombrado com as condições sanitárias em que os trabalhadores viviam: "...São verdadeiramente inhospitas! O impaludismo reina aqui de maneira assombrosa. Visitamos hontem a cidade de Santo Antonio. Não podes imaginar o que seja. Qualquer descripção por mais pessimista ficaria aquém da realidade. Basta que te diga que na cidade não há um só habitante filho do lugar. Todas as crianças que ali nascem morrem infallivelmente e as poucas ahi nascidas estão de tal modo doentes que fatalmente morrerão breve. A immundicie é incrível. Para dar uma idéia pallida do que é ella basta que te diga que matam os bois nas ruas e ahi abandonam as vísceras, cabeça, etc. que deixam apodrecer em plena rua, e o máo cheiro é de tal ordem que quase se fica suff ocado..." (Dossiê Miloca, carta 11/07/1910, Porto Velho/Santo Antônio).
Oswaldo Cruz também foi ao Estado do Pará com o intuito de eliminar a febre amarela de Belém
Em outubro de 1910, Oswaldo Cruz seguiu com sua equipe de médicos e da brigada matamosquito para o Pará com a incumbência de também erradicar a febre amarela de Belém. Lá coordenou o planejamento da campanha, que foi iniciada em novembro do mesmo ano. A liderança ficou por conta do membro de sua equipe, João Pedroso. Em seis meses, o grupo conseguiu eliminar a doença com as mesmas medidas adotadas no Rio de Janeiro, desde o combate ao mosquito, desinfecções e isolamento dos infectados.
Essas empreitadas se tornam rotineiras, tanto que em 1911, Oswaldo Cruz foi contratado pela empresa de distribuição de energia elétrica Light para tratar da questão da malária. O motivo era a ação que pesava sobre a empresa canadense à época, quando foi responsabilizada pela epidemia da doença, entre 1908 e 1909, na região de João Marcos, devido ao revolvimento de terra realizado durante a construção do reservatório da hidrelétrica no ribeirão das Lages.
A conclusão do cientista foi que as inúmeras quantidades de brejos locais já propiciavam a presença do mosquito-vetor da doença de forma endêmica há muito tempo, só que havia sido agravada para epidemia, por não terem sido adotadas medidas preventivas. Segundo ele, a Light não era responsável pela propagação da malária, e sim havia auxiliado na diminuição de casos de mortes, justamente pelo revolvimento das terras. Apesar da polêmica que girou em torno de seu parecer, a questão foi ratificada pelas Comissões da Sociedade de Medicina e Cirurgia e pela Academia Nacional de Medicina.
Abaixo, as fotos mostram as ações dos sanitaristas no Rio de Janeiro, que visavam principalmente exterminar mosquitos e roedores. O governo chegou a oferecer um tostão por cabeça de rato capturado

Esse cenário preocupante nas áreas urbanas e portuárias, que vinha se arrastando desde o fim do século XVIII, foi um dos principais motivos para a criação do Instituto Soroterápico Federal, com o objetivo de desenvolver soros, vacinas e apoiar as campanhas de saneamento promovidas pelo cientista, em 1899. Na década de 1970, o espaço foi denominado Instituto Oswaldo Cruz, hoje conhecido por Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), localizada no bairro de Manguinhos, na zona norte do Rio de Janeiro.
Vital e os Trabalhos em São Paulo
Quase ao mesmo tempo em que Oswaldo Cruz realizava seus trabalhos no Rio de Janeiro, o governo do Estado de São Paulo inaugurava, em 1901, o Instituto Butantan, que tinha à frente o cientista Vital Brazil (1865-1950). A intenção do Butantan era a mesma que do Instituto Soroterápico: melhorar as condições sanitárias locais.
Em 1898, a convite de Adolfo Lutz, diretor do Instituto Bacteriológico de São Paulo, Vital Brazil começou a trabalhar ao lado de Oswaldo Cruz com a identificação e prevenção do surto epidêmico da peste bubônica, em Santos, cidade do litoral paulista. O desafio era preparar o soro antipestoso contra a doença, na Fazenda Butantan, que deu origem ao Instituto. Em 1901, o Instituto produziu a primeira remessa do soro. "A peste bubônica era uma pandemia mundial e chegou ao Brasil pelo porto de Santos. Cruz, junto com o cientista Adolfo Lutz e Vital Brazil, adotaram a soroterapia e a vacina produzida pelo Instituto Pasteur, de Paris, no combate à doença", conta Ana Luce.
Cartas Médicas
O médico Vital Brazil, em foto tirada no ano de 1898
Mensagens que Vital Brazil escreveu para Oswaldo Cruz revelam como era desafiador vencer as doenças e criar vacinas
Em seus relatórios e cartas pessoais, Oswaldo Cruz e Vital Brazil demonstraram que cada pequena conquista no combate às doenças tinha um significado importante para eles. Vital Brazil escreveu a Oswaldo Cruz, em 20 de novembro de 1899, as primeiras experiências na batalha contra a peste bubônica, que demonstram o quanto era difícil e desafiador erradicar a enfermidade. Seguem alguns trechos da carta:
"... Regressei, como deves ter sabido, para S. Paulo, no dia 4 do corrente, trazendo algumas das minhas culturas, que pareceram-me em melhores condições. Aqui chegando meti-me logo em um trabalho insano e cruel, mui pouco apropriado ao meu estado de fraqueza. Foi uma imprudência de que me arrependo, porquanto o resultado foi ter de enfermar- me de novo por alguns dias. Hoje, felizmente, já estou melhor e desde ontem estive trabalhando..."
"... Fiz experiências, em pequenos animais, ratos e cobaias, com as culturas que trouxe de Santos. Resultados magníficos. Ainda não concluí, entretanto, o estudo das culturas..."
"Como já deves saber, o Governo adquiriu a fazenda do Butantan, destinando-a para o Instituto Serumtherapico do Estado. Soube pelo Ribas, que vistes e apreciastes muito aquele local para instalação do Instituto, o que muito agradou-me pela autoridade de tua opinião."
"Sou o encarregado do preparo do serum e quiçá da instalação do Instituto. Não sei se poderei com tamanha responsabilidade. Comecei a immunização de 4 cavallos pela injeção endovenosa de culturas mortas, até conseguirmos uma cocheira-enfermaria para os cavallos pestosos. Empregaremos então culturas virulentas..."
"A 1a injeção nos 4 cavallos correu bem. Apresentaram alguma reacção que não durou muito tempo. Hoje, porém, ao fazermos a 2a injeção perdemos subitamente um dos animaes, ao que parece de uma embolia."
"Como vae o teu Instituto? Contame as tuas esperanças e auxilia-me com os teus sábios conselhos. Peçote, com o maior empenho, que com a possível brevidade, me mandes a relação completa dos apparelhos, pequenos objetos e todo o material necessário para a installação de um Instituto serumtherapico..."
(Dossiê Vital Brazil - 1899/1914 - Acervo Biblioteca Virtual Oswaldo Cruz - Fundação Oswaldo Cruz - Casa de Oswaldo Cruz - DAD)
Acima: Oswaldo Cruz no Instituto Pasteur, à esquerda, e no laboratório do Instituto, à direita. Abaixo, o Instituto Butantan, em São Paulo, que tinha à frente o cientista Vital Brazil
As epidemias e as dificuldades sanitárias acabavam prejudicando o comércio externo brasileiro, que tinha como destaque a ascensão da área agrícola. Outro ponto era a questão da imigração que substituía a mão-de-obra escrava. Com as epidemias, os governos queriam impedir a vinda de pessoas ao Brasil, para não contraírem as doenças. A cidade do Rio de Janeiro chegou a ser conhecida como "túmulo dos estrangeiros". Estima- se que, entre 1897 e 1906, tenham morrido cerca de 4 mil imigrantes, em conseqüência da febre amarela.
Com a bagagem de todas essas experiências, os cientistas Oswaldo Cruz, Vital Brazil e suas equipes marcaram de forma significativa um importante capítulo da história sanitária brasileira. A prevenção por meio das vacinas constituiu um papel importante para a erradicação de surtos e epidemias, que vitimaram milhares de pessoas nos primeiros tempos da República. Até hoje, as ações que foram utilizadas naquele período servem de referência às políticas públicas do setor, pois foram os primórdios também da chamada medicina experimental.
Referências
MEIHY, José Carlos Sebe Bom e Filho, Claudio Bertolli. Revolta da Vacina. Editora Ática. 1995. SEVCENKO, Nicolau. A Revolta da Vacina. São Paulo, Editora Scipione. 1993. Dossiês Miloca/ Vital Brazil - 1899/1914 - Biblioteca Virtual Oswaldo Cruz - Fundação Oswaldo Cruz - Casa de Oswaldo Cruz - DAD Resumo da Memória Apresentada pelo Delegado do Brasil à 3a Convenção Sanitária Internacional reunida na Cidade do México de 2 a 7 de dezembro de 1907 e texto Prophylaxia da Febre Amarella - Memória apresentada ao 4º Congresso Médico Latino-Americano pelo Sr. Dr. Oswaldo Cruz - 1909. Material integra acervo "OSWALDO Gonçalves Cruz: Opera omnia. [Rio de Janeiro: Impr. Brasileira], 1972. 747p" - Acervo Fundação Oswaldo Cruz - Casa de Oswaldo Cruz Relatório Madeira-Mamoré Railway Company - 1910 - Considerações Gerais sobre as Condições Sanitárias do Rio Madeira - Oswaldo Cruz (http://www2.prossiga.br/Ocruz/textocompleto/ madeira_mamore/OpOm35-1.htm) Site Casa de Oswaldo Cruz: http://www.coc.fiocruz.br Monumenta Histórica - Tomo I - A Incompreensão de uma época - Oswaldo Cruz e a caricatura. Brasiliensia documenta (Acervo Instituto Butantan)
Revista Leituras na Historia










