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domingo, 19 de janeiro de 2014

Coréia do Norte - O reino da Família Kim

Em novembro último, o Exército da Coréia do Norte bombardeou uma ilha ocupada pela vizinha Coréia do Sul. O episódio seria apenas mais um na tensa rotina de convivência entre os dois países, não fosse a suspeita de que o ataque tenha sido ordenado por Kim Jong-un, o sucessor do atual Líder nacional, Kim Jong Il. Na Coréia do Norte é assim: o Poder passa de pai para filho, como se a nação não passa
Morgana Gomes



A primeira dinastia socialista
Três anos depois, em 1948, quando a União Soviética estabeleceu a República Democrática Popular na Coreia do Norte, como líder oficial do Partido dos Trabalhadores Coreano, Kim Il-Sung passou a ter um poder quase que total sobre o país, ao exercer um papel similar ao que Mao Tsé Tung (1893 – 1976) desempenhou na China. Entre 1950 e 1953, liderou os nortecoreanos na guerra contra a Coreia do Sul, na época, protegida pelos Estados Unidos e Nações Unidas. Após o acordo de paz entre as duas Coreias, intensificou seu governo ditatorial, tendo como base o culto à personalidade. Desde então, passou a ser tratado como "Grande Líder". Ao mesmo tempo, seu filho Kim Jong-il (1942), ao ganhar o atributo de "Estimado Líder", acabou designado à sucessão. Embora houvesse pleitos eleitorais na Coreia do Norte, antes de morrer de parada cardíaca em 1994, aos 82 anos, Kim Il-Sung conseguiu empossar seu filho no cargo de secretário-geral do Partido dos Trabalhadores da Coreia, partido que governa de fato a República Popular Democrática da Coreia do Norte, assegurando a sucessão familiar. Embora, haja quem diga que essa situação tenha sido decidida de forma quase que ditatorial, o certo é que Kim Jong-il foi preparado, desde cedo, para substituir o pai.

Retratos oficias de Kim Sung Il e Kim Jong Il presentes em cada vagão do metrô de Pyongyang


A segunda dinastia socialista da família Kim
Ao longo de sua vida escolar, Kim Jong-il foi preparado para atuar na política, tanto que participou de grupos de estudo de teoria política marxista e, ao entrar na universidade, dedicou-se a economia política marxista. Em 1961, juntou-se ao Partido dos Trabalhadores da Coreia, ao mesmo tempo em que começou a acompanhar o pai em tours de orientação em fábricas, fazendas e outros locais de trabalho. Nessa época, ele ainda era chamado de playboy, por gostar de mulheres, bebidas e filmes de faroeste. Contudo, após graduar-se em 1964, deu inicio à própria ascensão na hierarquia do poder. Como instrutor chefe do Comitê Central do Partido, trabalhou para que as atividades da entidade não se afastassem da linha ideológica definida por seu pai. Ele também colocou em prática medidas para garantir o sistema ideológico do Partido, atuando sobre os meios de comunicação, escritores e artistas, enquanto supervisionava as atividades de propaganda.


Mapa da Coréia, dividida em Norte e do Sul, pelo paralelo 38

Entre 1967-1969, voltou sua atenção para os militares, por acreditar que os burocratas do Exército do Povo Coreano oprimiam organizações políticas do Exército. Por conseguinte, durante a Quarta Reunião Plenária do Comitê, expôs certos oficiais que foram posteriormente expulsos. Em 1973, tornou-se encarregado de assuntos de organização e, simultaneamente, de propaganda e assuntos do partido, posição que lhe permitiu se firmar como intérprete oficial de Kim Il-sung. e de suas ideias. Em 1974, foi eleito para o Comitê Político do Partido, período em que lançou um novo método de guiar a revolução que, por sua vez, ofereceu formação política, científica e técnica em cursos de curta duração. No final da década de 1970, já estava envolvido no planejamento econômico e em várias campanhas para desenvolver rapidamente determinados setores da economia, ao mesmo tempo em que trabalhava em iniciativas destinadas a construir uma massa de movimentos políticos dentro das Forças Armadas. Também foi ativo nos esforços para criar uma campanha para a reunificação da Coreia. Em paralelo, o governo começou a construir o culto de sua personalidade e Kim Jong-il passou a ser regularmente aclamado pela mídia como o "destemido líder" e "o grande sucessor à causa revolucionária”. Surgiu, então, a figura mais poderosa por trás de Kim Il-Sung. No final de 1991, foi nomeado comandante supremo das forças armadas norte- coreanas. Considerando que o exército é a base real de poder na Coreia do Norte, este foi um passo fundamental para a ascensão política, planejada pelo pai que, em 1992, declarou publicamente que seu filho estava no comando de todos os assuntos internos da Coreia do Norte. Logo em seguida, as transmissões de rádio começaram a se referir a Kim Jong-il como o "Querido Pai", já sugerindo uma promoção. Com a morte de Kim Il-Sung, o filho Kim Jong-Il que já ocupava o cargo de secretário-geral do Partido dos Trabalhadores da Coreia desde 1997, também assumiu a presidência da Comissão Nacional de Defesa. Em 1998, quando sua colocação foi declarada como sendo "o mais alto cargo do Estado", ele passou a ser considerado o líder máximo da República Democrática Popular da Coreia do Norte, posição que ocupa até hoje.

A futura terceira dinastia dos Kim
Em junho de 2009, como já era esperado, Kim Jong-il também nomeou o seu filho Kim Jong-un para a sucessão. O jovem que também é conhecido como Kim Jong-woon ou Kim Jung Woon é o terceiro e mais jovem filho do atual líder coreano com sua última esposa Ko Young-hee (1953 – 2004). A informação se tornou pública por meio do impresso JoongAng Daily. Porém, pouco se sabe de Kim Jong-un.

Provavelmente, ele nasceu em 1983 ou no principio de 1984. Por muito tempo, apenas uma fotografia, de quando tinha 11 anos, confirmava sua existência. É certo que estudou na Suíça, época em que usou um pseudônimo para fingir ser filho de um motorista, embora estivesse sob a tutela de Ri Tcheul, embaixador norte-coreano no país. Sabe-se que, ao retornar à sua terra natal, renunciou às influências ocidentais. Somente em 28 setembro de 2010, sua imagem oficial foi divulgada. Fisicamente, o jovem general de quatro estrelas do Exército Popular da Coreia do Norte, é bem parecido com o pai; inclusive, ambos partilham de alguns problemas de saúde idênticos, como coração e diabetes. A imprensa noticia que parte dos preparativos para a consagração de Kim Jong-un, como sucessor de seu pai, já começou. No entanto, analistas de política internacional acreditam que, diante de uma morte inesperada de Kim Jong-il, devido a inexperiência do jovem para liderar o país de imediato, seu tio, Chang Sung-Taek (1946), vice-presidente da Comissão de Defesa Nacional, poderá atuar como regente da Coreia do Norte. De qualquer forma, no momento que Kim Jong-un se tornar lider da Coreia do Norte, seu país e o Nepal serão as únicas duas monarquias comunistas do mundo...
Kim Jong-un sucessor do trono

Manutenção do poder pelo culto à personalidade

Na história, os monarcas sempre procuraram ser cultuados de diversas maneiras. Na China Imperial, no Antigo Egito, no Japão, no Tibete, no Império Romano, entre outros, eles eram considerados deuses. Já os reis europeus afirmavam governar por vontade de Deus e, em consequência, exerciam o direito divino sobre a Terra. Com o posterior desenvolvimento da fotografia, da gravação sonora, do cinema e da comunicação de massa, bem como da educação pública e das técnicas de publicidade, os líderes políticos puderam projetar uma imagem positiva de si mesmos, como nunca antes fora possível. Nessas circunstâncias, no século XX, surgiram os recentes cultos à personalidade, cuja estratégia é a propaganda política baseada na exaltação das virtudes (reais ou supostas) e na figura do governante, que passa a se destacar em cartazes gigantescos, que impregnam a mente do povo que é incitado, pelos meios de comunicação, a bajulá-lo como um ser perfeito, protetor da nação.

Na Coreia da Norte, por volta de 1950, Kim Il-Sung começou tirar proveito desse recurso, de início para si próprio, depois para promover a sucessão de seu filho que, por sua vez, também vem empregando a mesma estratégia para se consagrar como lider e projetar seu jovem sucessor. No caso do “eterno” Presidente da Coréia do Norte, o culto à personalidade lhe rendeu mais de 500 estátuas, nas quais os cidadãos ainda depositam tributo anual por ocasião do aniversário oficial ou de morte. Sua imagem também aparece associada ao transporte público. Cartazes e fotos se destacam em cada estação de trem, nos aeroportos e nas passagens fronteiriças que levam a China. Se não bastasse, seu retrato ainda estampa as notas de 100 norte won. Portanto, fica difícil esquecê-lo, diante do bombardeio visual que, de forma direta ou indireta, induz ao culto de sua imagem.
Revista Leituras da História

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Por que a Coreia se dividiu? Há chances de reunificação?



Morte do ditador Kim Jong-Il reacende incertezas quanto ao futuro da Coreia do Norte: o regime comunista vai se fechar ainda mais ou se abrir para uma reconciliação?

Paula Sato

A história da divisão das duas Coreias remonta ao fim da Segunda Guerra Mundial. Desde 1910, o território era ocupado pelos japoneses, que se renderam após a explosão das bombas atômicas. Com a derrota, a Coreia foi dividida entre soviéticos e americanos, exatamente no paralelo 38. A parte que ficava acima da linha imaginária ficou a cargo da União Soviética. Já os coreanos que viviam abaixo da linha passaram para as mãos dos norte-americanos. Em 1948, foram instaurados novos governos nos dois países. Porém, nenhum dos territórios estava feliz com a divisão e ambos queriam controle sobre o país. Em 1950, China e União Soviética ajudaram os norte-coreanos a invadir a Coreia do Sul. Tropas americanas enviaram socorro ao seu território de influência, dando início à Guerra da Coreia. O conflito durou até 1953, quando foi assinado um armistício.
De 1948 até 1994, a Coreia do Norte foi comandada pelo militar Kim Il-Sung (1912-1994), quando o general passou o controle do país a seu filho Kim Jong-Il (1942-2011). Sob seu comando, a Coreia do Norte permaneceu como um país socialista dos mais fechados e repressivos do mundo. O governo controla a mídia (o que ajuda a explicar, por exemplo, porque o país não sofreu onda de manifestações semelhantes às que abalaram e derrubaram regimes totalitários no mundo árabe em 2011), restringe o acesso a internet e a celulares (que fazem apenas chamadas locais) e impede até que seus cidadãos saiam do país. Hoje, a economia da Coreia do Norte é desastrosa. Com o fim da União Soviética e a falta de parceiros comerciais, o país entrou em uma grave recessão.
O sucessor de Jong-Il é Kim Jong-Un, filho mais novo do ditador. Com apenas 29 anos, Jong-Un estudou na Suíça e apenas recentemente passou a ocupar cargos importantes no governo - apesar da falta de experiência militar, foi nomeado general. As Forças Armadas, por outro lado, são dominadas por militares bem mais velhos. Não se sabe ao certo o grau de apoio que Jong-Un obterá deles, fator crucial para sua legitimação. 

Enquanto isso, a Coreia do Sul passou por regimes militares ditatoriais por 20 anos e, atualmente, novamente uma república democrática, é um país em rápido desenvolvimento. Apesar de terem se tornado dois países tão diferentes, a separação das Coreias ainda é recente e, para a população civil, o sonho é de um país unificado. "Muitas famílias foram separadas com a divisão do país, mas há um interesse das pessoas em se reaproximar. Desde 2002, os dois governos fizeram acordos que permitiram a viagem de algumas pessoas entre os dois países para se reencontrar", conta Alexandre Uehara, professor de relações internacionais das Faculdades Integradas Rio Branco e membro do Grupo de Análise da Conjuntura Internacional da USP. 

Porém, apesar da vontade popular, hoje os dois países estão mais próximos de um conflito do que de uma aproximação. Isso por que, no momento, a Coreia do Norte ameaça toda a comunidade internacional com testes de armas nucleares e mísseis balísticos. "O governo de Pyongyang é muito isolado e hoje não há nenhum interlocutor que possa negociar com o país. Muitos analistas descartam essa possibilidade por acreditarem que é insano para a Coreia do Norte entrar em um conflito que não pode sustentar. Porém, não se pode descartar essa possibilidade", afirma Alexandre Uehara. O cientista político ainda explica que o governo norte-coreano está usando seu arsenal bélico para ganhar poder na região e que pode tentar exigir mais regalias nas negociações com outros países. "O país é muito pobre, sua população passa fome. Por isso, a Coreia do Norte depende muito da ajuda internacional, principalmente da China e do Japão. E é possível que a nação tente usar seu poder nuclear para barganhar por mais privilégios e até pela possibilidade de negociar diretamente com os Estados Unidos", diz. Porém, se as conversações não trouxerem resultados e os norte-coreanos inciarem uma guerra, o perigo é que ele não fique restrito apenas à Ásia. "Se houvesse o conflito, a China provavelmente se colocaria ao lado do norte, enquanto os Estados Unidos defenderiam o Sul. Seria a terceira maior economia do mundo enfrentando a primeira, o que traria consequências para todo o mundo. Além disso, poderiam se envolver também Rússia, Índia e Paquistão, colocando o Oriente Médio dentro do conflito", diz Alexandre Uehara. 

Apesar de tudo isso, será possível imaginar que um dia as Coreias possam se reunificar? No momento, não há nenhum indício de que isso venha a acontecer, mas se a divisão chegasse ao fim, traria vantagem para os dois países. Na conjuntura atual, quem ganharia mais seria a população norte-coreana. "Para se ter uma ideia da diferença econômica entre os dois países, a renda per capita do sul é de 16 mil dólares ano ano. No norte, está em apenas 600 dólares ", explica Alexandre Uehara. Ou seja, para uma nação em dificuldades, unir-se a uma economia emergente poderia ser a salvação. Por outro lado, para os sul-coreanos a unificação significaria paz e maior representatividade na região. "Atualmente, a Coreia do Sul e os países da região vivem sob o perigo constante de um ataque norte-coreano. Se Seul conseguisse eliminar essa ameaça, conquistaria um status mais interessante frente à comunidade internacional", afirma o professor.


Revista Nova Escola

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

A dura vida no país mais fechado do planeta


A dura vida no país mais fechado do planeta
Enquanto espalha tensão pela Ásia, Coreia do Norte sustenta um regime de adoração pelo presidente atual
por Maria Beatriz Mussnich Pedroso
Quando morreu, em 1994, o ditador norte-coreano Kim Il-sung foi levado para o céu sobre as asas de centenas de cegonhas. Dez dias depois, as aves, impressionadas com as lágrimas dos cidadãos, devolveram o líder ao povo. Acabou sucedido por seu filho, Kim Jong-il, cujo nascimento foi saudado por dois arco-íris. Certa vez, Jong-il estava num campo nevado quando ganhou um buquê. Começou a agitar as flores até que a neve derretesse.

Essas histórias fictícias são narradas a todas as crianças norte-coreanas em idade escolar. E o povo as repete como verdades. No país mais fechado do mundo, os dois Kim, pai (o "grande líder", que depois de morto ganhou o título de "presidente eterno da nação") e filho ("o líder querido"), são tratados como heróis sobre-humanos. Aos 68 anos, Kim Jong-il parece novamente disposto a desestabilizar o relacionamento com os vizinhos Coreia do Sul, China e Japão. Em um prazo de poucos dias, o presidente lançou mísseis balísticos, realizou dois testes nuclea­res e declarou que não se obriga a cumprir o cessar-fogo em vigor com a Coreia do Sul desde 1953 (quando os dois paí­ses interromperam uma guerra de três anos e criaram na fronteira uma zona desmilitarizada).

Na terra de Kim Jong-il, o metrô da capital, Pyongyang, tem as estações "glória" e "paraíso". Uma estátua de bronze de 15 metros de altura, que homenageia seu pai, é passagem diária de peregrinos. O ano zero do calendário é 1911, data de nascimento do líder anterior. As praças são ocupadas com treinamentos de evacuação ou por crianças ensaiando danças para as festividades nacionais. Nas madrugadas, o silêncio é interrompido de hora em hora por canções patrióticas. Enquanto isso, na falta de comida, famílias do interior cozinham cascas de árvore com argila.

A Coreia é habitada há 5 mil anos e já foi território dos maiores impérios asiáticos. Desde 1945, a península está rachada em duas. A nova onda de agressividade pode esconder uma transição. Kim Jong-il está doente e tem um sucessor: Kim Jong Un, seu filho de 26 anos. "O regime prega a coletividade, mas mantém a mesma família no poder", diz Luis Rebelo Fernandes, professor de Relações Internacionais da PUC-RJ.

Fome, frio e armas
A rotina do país de Kim Jong-il é marcada pelas dificuldades

• 23 milhões de habitantes (pouco mais que em Minas Gerais) vivem em...

• 120 mil Km2 de território (pouco menos que o Amapá)

• 1700 dólares é a renda per capita anual dos norte-coreanos (6 vezes menor que a brasileira)

• 1,2 milhão de militares formam o quarto maior Exército do mundo

• 44% das crianças são subnutridas

• 20ºC negativos é a temperatura mínima no inverno

• 2 milhões morreram em uma crise de fome nos anos 90

• 9 milhões de pessoas estão separadas da família desde a Guerra da Coreia, interrompida em 1953

• 3790 sul-coreanos foram sequestrados e levados em segredo à Coreia do Norte nos últimos 30 anos. A maioria é forçada a viver e trabalhar no vizinho do norte

Revista Aventuras na História

domingo, 31 de maio de 2009

Coreia do Norte: a republica ermitã

O isolamento internacional e o militarismo norte-coreano tem profundas raízes no passado
por Christophe Courau
©NOBORU HASHIMOTO/CORBIS SYGMA – STOCK PHOTOS

Desfile militar na Coreia do Norte em 10 de outubro de 1995 comemora os 50 anos do fim da dominação japonesa

Han-ung, filho do deus do céu, sente-se aborrecido no paraíso. Ele desce, então, à Terra e surge ao pé de uma árvore de sândalo, sobre o monte Taebaek. Alguns animais, entre os quais uma ursa, pedem a ele que lhes concedam forma humana. O novo rei ordena: Façam um retiro de cem dias no fundo de uma caverna, levando como alimento 20 dentes de alho e um buquê de artemísia. Só a ursa segue as suas instruções e é, assim, transformada em mulher. Han-ung casa-se com ela e lhe dá um filho: Tan-gun, que se torna o primeiro coreano. Este evento é datado com precisão, 2333 a.C., e ainda é comemorado na Coreia com o nome de festa da abertura do Céu.

Esta é a lenda. A realidade é menos poética. Desde o fim da II Guerra mundial, a Coreia dividiu-se em dois países: uma ditadura ao Norte e uma democracia ao Sul. Há mais de 50 anos, o regime despótico estabelecido – com a ajuda da China de Mao – por Kim Il-sung e prolongado por seu filho, Kim Jong-il, não deixou de oscilar entre posições opostas. O último avatar dessa política é a chantagem nuclear, com o anúncio do relançamento de uma central nuclear e de ameaças diretas contra os Estados Unidos. Antes de a Coreia tornar-se um país, a China esteve presente nesta península da Ásia oriental quando, em 108 a.C., o imperador Wou-ti, da dinastia Han, invadiu a região. Wou-ti funda no oeste e no centro da região quatro prefeituras, com o núcleo político em Loiang (perto da atual Pyongyang). Este protetorado chinês não impediu, entretanto, os coreanos de constituir, entre o século I e o início do século IV, o país dos Três Reinos: o Koguryo, ao norte, o Paikche, a sudoeste e o Silla, a sudeste. Esses reinos rivalizaram entre si até o século VII. A supremacia passa de Koguryo para Silla, que atinge o apogeu entre 670 e 780. Fundada em 918, na Coreia Central, a dinastia de Koryo submete o reino de Silla, e unifica a Coreia. A capital passa a ser Songdo (atual Kaesong).

A partir de 1231, inicia-se uma guerra de 30 anos contra os mongóis de Gengis Khan, que dominam os coreanos. Os mongóis estimulam os coreanos a conquistar o Japão, mas duas tentativas nesse sentido, em 1274 e 1281, fracassam. Em 1364, um jovem guerreiro coreano, Li Song-gye, aproveita-se do declínio dos mongóis, expulsa-os da península, e restabelece a unidade coreana. Coroado rei, funda, em 1392, a dinastia Li (ou Yi), que reinará na Coréia até 1910. Conforme explica André Fabre em sua História da Coreia , o país torna-se Choson, ou país da manhã fresca, expressão que uma tradução errônea transformou em país da manhã calma. O poder de Li não mais se apóia no budismo, mas no confucionismo. A nova capital passa a ser em Seul. Desde 1401, o governo emite papel-moeda, abre cinco escolas na capital e institui novo alfabeto de 28 letras, empregado até hoje. Mas a renovação coreana não teve tempo para se desenvolver: os japoneses, em 1592 e 1598, e depois os manchus, em 1627 e 1638, invadem o país. Choson não consegue se restabelecer após essa dupla invasão. A Coreia isola-se do mundo e torna-se o reino eremita que não pode ser visitado por nenhum ocidental.



©KIM KYUNG-HOON - REUTERS NEWMEDIA INC./CORBIS – STOCK PHOTOS

Em agosto de 2003, em Seul, manifestante sul-coreano queima a bandeira da Coreia do Norte em protesto contra o programa nuclear do país.

Um primeiro contato, porém, ocorre em 1653, quando um navio holandês afunda em suas costas. Os marinheiros são bem tratados, mas aprisionados. Em 1668, oito desses marinheiros conseguem escapar e chegar ao Japão. Entretanto, apenas no século XIX outros ocidentais interessaram-se pelo reino eremita. Em 1816, 1832 e 1833, os ingleses propõem o estabelecimento de relações comerciais aos coreanos, que recusam.

O perigo vem também do interior. Uma religião, o catolicismo, importada pelos chineses, ganha adeptos entre os letrados do reino. Chamada de a ciência do Senhor do céu, a nova crença é mal vista pelas autoridades. As obras católicas são confiscadas na fronteira. Em 1791, dois cristãos são executados por terem queimado as inscrições de seus ancestrais, crime supremo aos olhos do confucionismo, explica André Fabre. Em 1801, há nova repressão aos católicos, com 300 mortos. Em 1837, um missionário, o padre Philibert Maubant, é o primeiro estrangeiro a entrar na Coreia e inicia clandestinamente a catequização. Mas, descoberto em 1839, é executado. O governo francês exige justificativas da Coréia, mas não é atendido. Em 1866, ocorre um grave incidente. Uma navio americano, o General Sherman, aparece na embocadura do rio Taedong. Depois de alguns incidentes com a população local, o navio é incendiado e a tripulação assassinada.

No mesmo ano, o almirante francês Roze embarca para a Coreia com sete navios e desembarca na ilha de Kanghwado em 13 de outubro. A fortaleza e a cidade são tomadas após fraca resistência, e, alguns dias mais tarde, os franceses decidem atacar o mosteiro situado numa colina da ilha. Os comandados do almirante Roze não sabem que o mosteiro é ocupado por uma guarnição de caçadores. Os 170 franceses avançam a descoberto e são recebidos por fogo cerrado. Vinte e quatro horas mais tarde abandonam a ilha.

Os ocidentais recuaram, mas a determinação dos japoneses será incansável. Em 1875, um navio japonês ancora perto de Icheon e os tripulantes são atacados pelos habitantes. Um ano depois, os japoneses retornam, mais bem preparados, e obrigam os coreanos a assinar um tratado de comércio. Em 1822, porém, uma insurreição popular os expulsa. Quando os japoneses voltam, a Coréia aceita pagar uma indenização e concede a Tóquio o direito de dispor de uma guarnição militar em Seul. O Império do Sol Nascente afirma, assim, sua presença no “país da manhã fresca”. O Japão apóia o partido reformista, ao passo que a China apóia os conservadores. Após a guerra sino-japonesa de 1894-1895, o Japão, pelo tratado de Shimonoseki, de 1895, afasta a China, que é obrigada a reconhecer a independência da Coreia. Resta ainda um obstáculo para a expansão nipônica: a Rússia. É acordada uma partilha provisória russo-nipônica em 1896, mas, em 1904, as duas potências entram em guerra. O Japão é vencedor e, no tratado de Portsmouth, vê reconhecido seu predomínio na Coreia. Em 1907, os japoneses assumem o controle da administração e, em 1910, pura e simplesmente anexam o país.


©RYKOFF COLLECTION/CORBIS – STOCK PHOTOS

Conflitos entre Japão, Rússia e China: militares do Japão e da China esmagam representante da Coreia, observados por soldado russo (caricatura/1904)

O período da dominação japonesa (1910-1945) é marcado pelo desenvolvimento econômico da Coreia. As elites coreanas, entretanto, são excluídas dos cargos de direção e formam, a partir de 1919, um movimento de resistência nacional. Em conseqüência, criam um governo provisório no exílio, primeiro em Xangai e, depois, em Washington, sob a presidência do Dr. Syngman Rhee. Em plena II Guerra Mundial, durante a Conferência do Cairo (1943), os aliados decidem restaurar a independência da Coreia, projeto executado após a derrota do Japão. Mas a Coreia é dividida em duas zonas de ocupação, uma soviética, ao norte, e outra americana, ao sul, delimitadas pelo paralelo 38.

Assim, o verão de 1948 assiste à criação de dois Estados coreanos antagônicos: ao sul, a República da Coreia, presidida por Syngman Rhee; ao norte, a República Democrática Popular da Coreia, presidida pelo comunista Kim Il-sung. Após a evacuação simultânea das tropas soviéticas e americanas (1948-1949), a Coreia do Norte tenta reunificar o país pela força. Em 25 de junho de 1950, os norte-coreanos iniciam as hostilidades. Obrigados a abandonar Seul no dia 28, os sul-coreanos obtêm a intervenção dos Estados Unidos e de uma força das Nações Unidas, composta essencialmente por americanos. A contra-ofensiva empurra as tropas da ONU para a fronteira com a China. Os chineses contra-atacam e obrigam as forças da ONU a recuar novamente para além de Seul. Progressivamente, os americanos vão ganhando terreno e estabilizam a fronteira no paralelo 38, o que significa o retorno ao ponto de partida. O armistício de Panmunjon (27 de junho de 1953) restabelece a divisão da Coreia em dois Estados separados pela linha de cessar-fogo.

Ao norte, a ditadura comunista retoma a tradição do reino eremita. O déspota Kim Song-ju decidiu trocar seu nome pelo de Kim Il-sung, evocando a figura de um resistente dos primeiros anos da guerrilha contra o Japão. Mais tarde, Kim Il-sung propagará a história de que seu avô estava entre os combatentes que expulsaram a tripulação do General Sherman, assinala Pierre Rigoulot, autor de Coreia do Norte, Estado Rebelde (Buchet Chastel, 2003). Kim Il-sung, o Grande Líder, inspira nova ideologia, a djoutché que, em novembro de 1970, substitui o marxismo-leninismo. Conforme esclarece Pierre Rigoulot, a filosofia da djoutché consiste em afirmar o domínio de si, a independência em relação às influências estrangeiras, a auto-suficiência, mas o país é, nesta época, totalmente dependente da China e da URSS; essa filosofia exalta ainda o ser coreano e a vontade humana, mas acrescenta imediatamente que esta vontade exprime-se por meio do líder.

Após anos de constantes incidentes na linha de demarcação, as duas Coréias decidem cessar as hostilidades. Em 1972, os dois países assinam um acordo pelo qual renunciam a qualquer provocação. Entretanto, em 1987, os norte-coreanos derrubam um avião civil da Korean Airlines ocasionando 117 mortos. Pierre Rigoulot lembra que não foi apenas uma primeira tentativa: em 9 de outubro de 1983, uma bomba explode em Rangun, na Birmânia, na comitiva sul-coreana liderada pelo presidente do Sul, em visita oficial. Vinte e uma pessoas morrem, dentre elas quatro ministros.

Outra particularidade da Coreia do Norte é o culto à personalidade. Quando Kim Jong-il sucede seu pai, morto em 1994, a propaganda continua. A agência de imprensa oficial, a Korean Central News Agency, relata que, em 24 de novembro de 1996, o Bem-Amado Dirigente encontra-se em Panmunjon, a algumas centenas de metros das forças sul-coreanas e americanas. A região, então, é envolvida por espesso nevoeiro, o que permite ao Querido Líder transitar pelas posições inimigas sem ser observado.

Desde o fim da ajuda chinesa e, depois, da soviética, a economia norte-coreana está decadente. A fome teria provocado, em 1995, a morte de 3 milhões de pessoas. O único setor em desenvolvimento é a indústria militar. Em agosto de 1998, o Japão constatou o lançamento de um míssil norte-coreano, cuja trajetória passava através do espaço aéreo japonês e terminava no Pacífico. Pierre Rigoulot aponta que a arma, com alcance de 2.000 km, era, provavelmente, um Taepodong 1, embora a Coreia do Norte tenha dito que se tratava de um lançador de satélites. A partir de então, os especialistas têm certeza de que esses mísseis poderão, em breve, atingir a costa oeste dos Estados Unidos.

E quanto à carga lançada? Os norte-coreanos assinaram, em 1985, o tratado de não-proliferação nuclear; e até aceitaram, em 1994, desativar duas centrais nucleares em troca do fornecimento, pelos Estados Unidos, de 500 mil toneladas de petróleo por ano. Mas, em dezembro de 2002, Pyongyang enviou de volta os inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica, alegando que a ajuda era insuficiente: Em 2001, a Coreia do Norte, embora tenha ameaçado regularmente os seus vizinhos de mergulhá-los em um ‘oceano de chamas’, é o país que mais recebe ajuda em todo o mundo. A chantagem funciona a contento. No final de fevereiro, Washington anunciou o envio de 100 mil toneladas de alimentos para Pyongyang.


OS EUA AO ALCANCE DOS MÍSSEIS
©KRIKA/ARTES MAPAS

Desde 1986, a Coreia do Norte fabrica mísseis. Segundo os especialistas, os lançadores Taepodong 3, disponíveis antes de 2015, poderão atingir os EUA. O que é confirmado por Ri Kwang-hyok, alto funcionário norte-coreano de Relações Internacionais: “Em caso de medida de autodefesa, o ataque pode atingir qualquer comando militar dos Estados Unidos no mundo”.


DOS TEMPOS DE SILLA À ERA DAS CENTRAIS NUCLEARES
©KRIKA/ARTES MAPAS

50 ANOS DE DIVISÃO
Em 1953, após a guerra (3,5 milhões de mortos, entre coreanos, chineses e americanos), a divisão da Coreia é oficializada.

O MATERIAL NUCLEAR CIVIL E MILITAR
A unidade de Yongbyon é capaz de produzir urânio militar. Segundo o diretor da CIA americana, a Coreia do Norte dispõe de uma ou duas bombas. O secretário de Defesa americano anuncia cinco ou seis para antes do verão.
Christophe Courau é historiador e jornalista.

Revista Historia Viva