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sexta-feira, 20 de novembro de 2009

O que foi a Guerrilha do Araguaia?



O que foi a Guerrilha do Araguaia?
por Danilo Cezar Cabral



Foi a tentativa de dissidentes do Partido Comunista do Brasil (PC do B) de organizar uma luta armada, a partir do campo, para enfrentar a ditadura militar que governava o Brasil em 1968. Na época, a censura barrava notícias e manifestações artísticas que o governo julgasse impróprias. Para piorar, pessoas que se opunham ao regime - ou consideradas uma ameaça - eram perseguidas, torturadas e até executadas. Quando o regime começou a endurecer ainda mais, alguns partidários da esquerda, inspirados pelo sucesso das revoluções chinesa, com Mao Tsé-tung, e cubana, com Che Guevara e Fidel Castro, começaram os planos para derrubar os milicos do poder. O primeiro passo era conquistar a população rural, alistando "soldados" para iniciar a revolução socialista no Brasil.

Guerrilha dos "farrapos"
Durante sete anos, quase cem guerrilheiros tentaram combater a ditadura no improviso

1. Em 1968, alguns líderes do PC do B, como Maurício Grabois e João Amazonas, se desligam do partido para formar grupos de resistência armada em regiões rurais

2. Os grupos se espalham próximos às margens do rio Araguaia, onde hoje se juntam os estados do Pará, do Maranhão e de Tocantins. Paulistas, mineiros e gaúchos são maioria

3. A amizade é uma arma para conquistar o apoio dos camponeses. Outra estratégia é usar a profissão dos guerrilheiros - alguns deles eram médicos, por exemplo - para atender às necessidades locais

4. Os guerrilheiros, vindos da classe média alta, bancam as próprias armas. Sem treinamento militar prévio nem financiamento do partido, o arsenal se limita a facões, revólveres .38 e espingardas

5. Numa emboscada ao comunista Carlos Marighella, os militares descobrem documentos com pistas sobre a guerrilha, confirmadas com a prisão e a tortura do ex-guerrilheiro Pedro Albuquerque

6. O Departamento de Inteligência e Repressão do Exército se infiltra nas comunidades do Araguaia e compra informações dos camponeses, descobrindo paradeiro e identidade dos guerrilheiros

7. Até 1975, rolam três campanhas para detonar a guerrilha. Após reconhecimento da área e coleta de informações, a segunda campanha vai à caça com tropas de operação em selva. Começa a onda de torturas, com destaque para um pau-de-arara melado

8. A captura de Osvaldão (Osvaldo Orlando da Costa) - um dos poucos treinados pelo Exército chinês -abala o moral dos guerrilheiros. O cara é morto em 1974 e tem o corpo amarrado a um helicóptero para ser exibido nos vilarejos

9. A Operação Marajoara vem para exterminar, com emboscadas pesadas de militares sem farda, muita tortura e execução - até de camponeses. O objetivo é identificar os poucos guerrilheiros que ainda resistem escondidos na mata

10. Oficiais cortam cabeça e mãos das vítimas e as enfiam em sacos que seguem para identificação pelo Exército. Segundo os militares, mais de 80 guerrilheiros morreram nas operações

11. Familiares e organizações de direitos humanos tentam, até hoje, localizar e identificar corpos de "desaparecidos". Dossiês e depoimentos de ex-militares envolvidos nas operações estão vindo à tona pela imprensa e pelo cinema

Consultoria - Eduardo Castro, diretor do documentário Araguaia - A face oculta da história, com lançamento previsto para 2010

Revista Mundo Estranho

sábado, 22 de agosto de 2009

A degola de um movimento

Com uma repressão cruel, comparável à de Canudos, o exército extinguiu a guerrilha rural no Araguaia, um projeto que via no campo o caminho para a revolução socialista.
por Marco Aurélio Vannucchi L. de Mattos

A foto tirada por um militar, a chegada do exército à região do Araguaia, em setembro de 1972

Na tarde do dia 4 de fevereiro de 1974, "Osvaldão" sentou-se para descansar. Negro, forte e alto, usava uma longa barba. Completaria 36 anos em abril. Estava sozinho numa capoeira em plena floresta amazônica, próxima ao rio Araguaia. Tornara-se mito na região, considerado um guerrilheiro invencível. Os camponeses acreditavam que, ao entrar na mata, ele se transformava em mosquito, borboleta ou cachorro, livrando-se do cerco do exército. Era temido pelos militares. Fatigado pela fuga, "Osvaldão" não percebeu a chegada de uma patrulha. O guia que vinha à frente dos soldados disparou em sua direção. Morto, foi preso a uma corda e içado por um helicóptero. A 20 metros de altura, o corpo se desprendeu e caiu. Dependurado novamente, foi exibido aos moradores da região, para que se convencessem de sua morte. Antes de ser enterrado, teve a cabeça cortada.

Osvaldo Orlando da Costa, o "Osvaldão", foi o primeiro militante do Partido Comunista do Brasil (PC do B) a chegar, em 1966, à região do Araguaia, com a missão de organizar a guerrilha rural. Mineiro de Passa Quatro, estudara engenharia de minas na Universidade de Praga, na Tchecoslováquia. Fora também campeão de boxe pelo Botafogo. À sua chegada, seguiu-se a de outros militantes, mas aos poucos, para não levantar suspeitas. Em meados de 1968, compunham um grupo de 15 guerrilheiros. No início de 1972, às vésperas da primeira expedição do exército contra a guerrilha, eram cerca de 70. Instalaram-se ao longo de uma área de floresta tropical de cerca de 7 mil km2, num arco estendido da cidade de Xambioá à de Marabá, no sul do Pará.

Ocultaram suas identidades com o uso de nomes falsos e ocupações comuns na região. Transformaram-se em pequenos agricultores, barqueiros, quitandeira, dono de farmácia, mascate e até curandeiro. Moravam afastados uns dos outros e esforçavam-se por se integrar à vida das comunidades onde viviam. Até 1972, eximiram-se de atuar politicamente, dedicando-se a ações assistencialistas. Faziam partos, atendiam doentes e arrancavam dentes, davam aulas nas escolas, ajudavam nos mutirões da roça e participavam de festividades. Assim, ganharam a estima da população.

Boa parte desses homens e mulheres que se embrenharam nas matas do Araguaia eram estudantes que haviam tomado parte em importantes manifestações contra a ditadura militar, nas grandes cidades do país entre 1967 e 1968. Vários deles já tinham passado pelo cárcere por conta de suas atividades oposicionistas. Jacob Gorender, em seu Combate nas trevas, informa que pouco mais de 70% dos guerrilheiros provinham da classe média; eram estudantes, profissionais liberais (médicos, professores, advogados), comerciários ou bancários. Menos de 10% eram operários. E cerca de 20%, camponeses (quase todos recrutados na região). Os combatentes tinham, em média, pouco menos de 30 anos. A implementação da guerrilha foi chefiada localmente por dois dirigentes comunistas de muita experiência política: Maurício Grabois e João Amazonas. Ingressaram no Partido Comunista Brasileiro (PCB) na década de 30 e haviam sido presos durante o Estado Novo. Com a legalização do PCB depois da deposição de Getúlio Vargas, foram eleitos deputados constituintes em 1946. E, em 1962, participaram do "racha" do PCB que originou o PC do B.

Os militantes fizeram treinamento militar na floresta. Aprenderam a conviver com a natureza inóspita e a sobreviver às doenças tropicais. Estocaram provisões e remédios na mata. Dividiram-se em três destacamentos, de cerca de 20 combatentes cada, subordinados a uma comissão militar, responsável pela direção da guerrilha. Em 1972, a guerrilha esperava a incorporação de mais alguns militantes, planejando o início dos combates para o final do ano.

A organização de uma guerrilha em área rural era conseqüência da estratégia de "guerra popular prolongada", inspirada na Revolução Chinesa e nos escritos de Mao Tsé-tung, adotada pelo PC do B. O partido avaliava que o controle do Estado sobre o campo era menos rigoroso do que sobre a cidade. Acreditava que a tomada do poder pela via armada deveria começar pelo interior e, daí, irradiar-se para os centros urbanos. Os militantes deveriam se fixar no campo, ganhar a confiança da população e recrutar camponeses para lutar ao seu lado na guerrilha. Essa era a estratégia.

A revolução socialista proposta pelo PC do B teria duas fases, de acordo com a fórmula apregoada pela Internacional Comunista, no final dos anos 1920. Na primeira, deveria derrubar a ditadura militar, vista como protetora dos interesses dos latifundiários e do imperialismo no país. A dominação dos grandes proprietários no campo e a presença imperialista de nações estrangeiras (destacadamente dos Estados Unidos) eram consideradas os principais entraves para o desenvolvimento brasileiro, deixando a população à mercê da pobreza e da opressão. Para livrar o país de latifundiários e agentes do imperialismo, o partido acreditava que teria de articular um arco de alianças de forças sociais, reunindo camponeses, operários, classe média e a burguesia nacional. Depois dessa primeira etapa, a da revolução nacional e democrática, haveria condições políticas e econômicas para a implementação de um regime comunista no Brasil, a última etapa revolucionária.

Desde sua origem, em 1962, o PC do B defendera a luta armada. Essa posição rendeu-lhe prestígio no período imediatamente posterior ao golpe civil-militar de 1964 - quando boa parte da esquerda brasileira divergiu do caminho pacífico ao socialismo propugnado pelo PCB -, trazendo ao partido uma nova leva de militantes. Ao longo da década de 60, o PC do B aproximou-se ideológica e politicamente do regime comunista chinês. Vários de seus quadros passaram por formação militar e teórica naquele país, inclusive guerrilheiros que viriam a ser deslocados para o Araguaia. O partido também firmou laços de colaboração com o governo comunista da Albânia. Depois da chegada do exército, uma estação de rádio de Tirana (capital albanesa) transmitia um programa de uma hora de duração, em que fazia propaganda política da guerrilha para o mundo.

Por onde começar
A escolha do PC do B por iniciar a luta no campo foi na contramão do que fez o restante dos agrupamentos também adeptos da luta armada, no final da década de 60. A Ação Libertadora Nacional (ALN), o Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), o Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR) e outras organizações principiaram pelas ações urbanas: panfletagens, assaltos a bancos, roubos de armamentos e munições, assassinatos de agentes do aparato de repressão política. Mas consideravam a guerrilha urbana preparatória - já que garantiria recursos materiais, experiência militar e propaganda de sua atuação - à luta no campo, vista como a etapa verdadeiramente decisiva da revolução.

Fizeram tentativas de preparar a guerrilha rural. A VPR montou um campo de treinamento num sítio no vale do Ribeira, São Paulo. Para lá foram mandados 20 militantes de vários estados para serem treinados pelo capitão Carlos Lamarca.

Encerrado o curso, seriam enviados ao nordeste do país, para desencadear a guerrilha rural. Mas, em abril de 1970, a polícia descobriu o campo e ele teve de ser desmobilizado. No ano seguinte, Lamarca (agora filiado ao MR-8) morreria no sertão baiano, onde tencionava estabelecer um núcleo guerrilheiro. O comandante da ALN, Carlos Marighella, anunciara em 1969 que o ano seguinte seria o de lançamento das ações armadas no campo; foi assassinado antes que isso pudesse acontecer. O PCBR comprou dois sítios no Paraná, deslocando militantes para a região, com vistas a iniciar a luta no campo, mas a iniciativa não prosperou.

No resto do mundo, a guerrilha rural também era tida como uma forma privilegiada de luta. Exemplos que reforçassem seu prestígio não faltavam: a guerra camponesa que levou à vitória da Revolução Chinesa (1949); a rebelião de Sierra Maestra que culminou na Revolução Cubana (1959), a resistência na selva dos vietnamitas contra os Estados Unidos (1964-1975). Nos anos 1960, guerrilhas rurais fervilharam na América Latina: Argentina, Peru, Colômbia, Venezuela, Guatemala, Nicarágua. E Bolívia, onde, em 1967, Ernesto Che Guevara seria morto, numa fracassada revolução socialista que deveria começar no campo.

A área de instalação da guerrilha rural fora cuidadosamente escolhida pelo PC do B. Esparsamente povoada, era comum chegarem à região do Araguaia migrantes em busca de terras ou de sorte no garimpo. Levava-se dias para se locomover de um povoado a outro, as estradas quase inexistiam. A dificuldade de acesso protegeria os guerrilheiros das forças governistas. Os poucos organismos de Estado presentes no local estavam a serviço dos grandes proprietários de terra. A população vivia modestamente de suas roças, de pequeno comércio ou trabalhava por baixíssimos salários, nas fazendas. Os serviços de saúde e educação eram precários. Essa situação de pobreza pareceu ao PC do B formar um quadro propício para a emergência de uma rebelião popular.

Por volta de janeiro de 1972, o governo soube da existência da base guerrilheira. A informação foi dada por militantes que haviam passado pela região e caíram em poder dos militares. Na época, os órgãos de repressão política finalizavam o extermínio da guerrilha urbana. Desde 1969, os agrupamentos armados que atuavam nas grandes cidades sofriam reveses seguidos. Quando foram desencadeadas as primeiras ações de guerrilha urbana, em 1968, a ditadura militar foi pega de surpresa e enfrentou dificuldades para contê-la. Mas, com o passar do tempo, organismos repressivos foram reorganizados ou criados e métodos brutais de tortura disseminaram-se nos interrogatórios de militantes presos. Tornou-se cada vez mais difícil recompor os quadros de militantes mortos, presos ou exilados. A opção pela clandestinidade feita pelas organizações armadas visava protegê-las das investidas repressivas. Contudo, ajudou a distanciá-las dos movimentos sociais, dificultando a arregimentação de militantes e o apoio popular à luta.

No dia 12 de abril de 1972, chegou ao Araguaia a primeira expedição militar de combate à guerrilha. Era o início da Operação Papagaio, que reuniu cerca de 800 homens. A tropa distribuiu-se e passou a vasculhar a região. Entrou em cidades, lugarejos e fazendas e montou postos de controle nas duas principais estradas: a Belém-Brasília e a inacabada Transamazônica. O comando da expedição instalou-se às margens do rio Itacaiúnas, nas proximidades de Marabá. Os guerrilheiros refugiaram-se na mata.

Brutalidade nos povoados
No primeiro confronto entre militares e guerrilheiros, um tenente e um sargento saíram feridos e um cabo foi morto. Um outro enfrentamento resultou na morte de um soldado e deixou um sargento ferido. Os militares intimidaram e incentivaram com dinheiro os moradores a delatar os guerrilheiros. Um camponês conhecido por "Cearense" informou ao exército que entregaria a um militante uma encomenda de fumo de corda. Na hora marcada, o militante chegou acompanhado de quatro companheiros. Foram surpreendidos por tiros de metralhadoras. Bergson Gurjão Farias, o guerrilheiro "Jorge", caiu ferido. Bergson, que tinha 24 anos, estudara química na Universidade Federal do Ceará, onde fora vice-presidente do diretório dos estudantes. Preso, foi submetido a torturas e morreu a golpes de baioneta. Seu corpo nunca foi encontrado. Tornou-se o primeiro desaparecido da Guerrilha do Araguaia.

Pouco depois, o tropeiro "João Coioió" contou aos militares que teria um encontro com guerrilheiros para lhes entregar alimentos. Montou-se a tocaia que vitimou Maria Lúcia Petit da Silva. Paulista, Maria Lúcia tinha 20 anos quando, em 1970, chegou à área da guerrilha. Professora primária, participara do movimento estudantil secundarista. Seu corpo só foi localizado em 1991, enterrado sem identificação num cemitério de Xambioá.

Apesar de algumas delações, o comportamento geral dos camponeses era de simpatia pelos guerrilheiros. Um oficial que combateu no Araguaia, ouvido pelo jornalista Fernando Portela, autor de um livro pioneiro sobre a guerrilha do PC do B (Guerra de guerrilhas no Brasil), admitiu que "o povo gostava deles (dos guerrilheiros).

Então o povo achava que devia dar proteção". Os militares agiram com brutalidade nos povoados e cidades, aterrorizando seus moradores. Muitos foram presos e espancados. Ao menos um camponês foi assassinado na primeira campanha do exército. Em maio de 1972, o barqueiro Lourival Paulino, de cerca de 50 anos, foi preso pelos militares, acusado de colaborar com a guerrilha. Levado para a delegacia de Xambioá, foi torturado e morto no terceiro dia de cárcere.

Mesmo com a evidente inferioridade numérica e de seu armamento, a guerrilha resistiu aos militares. Reconhecendo seu malogro, as tropas recolheram-se em julho de 1972. Em setembro do mesmo ano, voltaram, na segunda ofensiva do exército. Um efetivo estimado entre 3 mil e 5 mil soldados foi mobilizado. Tentando angariar a simpatia da população, os militares ofereceram médicos, dentistas e remédios para os camponeses. Mas falharam na derrota da guerrilha. Em outubro, abandonaram a área. Nas expedições de 1972, o PC do B perdeu pouco mais de dez combatentes, mortos, e sete capturados.

Agentes infiltrados
Desfeito o segredo sobre a guerrilha, os militantes voltaram aos povoados para fazer propaganda de sua causa e arregimentar novos combatentes. Anunciaram a criação da União pela Liberdade e pelos Direitos do Povo (ULDP), cujo programa de 27 pontos propunha reformas sociais para resolver problemas concretos enfrentados pelos moradores da região. Dirigia-se aos camponeses e comerciantes e incluía a distribuição de terras, a ampliação da assistência médica, a construção de escolas, o fim das arbitrariedades policiais e a proteção à mulher. Também previa a liberdade de culto, a eleição livre de prefeitos e comitês populares locais, a defesa das terras indígenas e a obrigação do reflorestamento nas áreas de exploração de madeira. Foram criados núcleos da UDLP. Embora o trabalho político desenvolvido pelo PC do B contasse com a simpatia e participação dos moradores, pouco reverteu em novos recrutamentos. Foram raros os camponeses que se incorporaram à guerrilha. Por outro lado, os militantes estavam isolados da estrutura urbana do PC do B, o que inviabilizava o recebimento de reforços vindos de fora.

Entre a segunda e a terceira expedição do exército, os guerrilheiros se lançaram a ações militares. Mataram colaboradores do inimigo e um pistoleiro que aterrorizava os camponeses. Atacaram um posto da polícia militar e ocuparam a sede de uma fazenda, prendendo seu proprietário e levando dinheiro, alimentos e remédios.

Em maio de 1973, o exército começou a infiltrar agentes de segurança, sigilosamente, na região. Disfarçados, eles tinham a incumbência de levantar informações sobre a atuação e o paradeiro dos guerrilheiros e simpatizantes. No dia 7 de outubro do mesmo ano, foi desencadeada a terceira e derradeira expedição contra a guerrilha. Batizada Operação Marajoara, destacou 250 militares, apoiados por helicópteros e aviões, para o combate direto aos guerrilheiros, na floresta. Nesse momento, estes eram 56 e seu armamento continuava velho e insuficiente, como desde o início dos combates, em 1972. Os três destacamentos guerrilheiros foram concentrados num único grupo.

Novamente os moradores foram intimidados com prisões, espancamentos e humilhações. O exército enfiou vários deles em buracos fundos cavados na terra e cobertos por grades. Lavradores suspeitos de colaborar com os guerrilheiros tiveram suas plantações destruídas ou até mesmo foram expulsos de suas terras. Logo as Forças Armadas começaram a impor baixas ao PC do B. No Natal de 1973, uma tropa encontrou o comando militar da guerrilha. Cercados, vários guerrilheiros foram mortos, incluindo Maurício Grabois. Desarticulada a guerrilha, os militantes foram caçados nas matas. A orientação da terceira expedição era a de que não deveria haver sobreviventes no lado dos guerrilheiros. E assim aconteceu. Executaram-se mesmo os que foram feitos prisioneiros. O exército reavivou, no Araguaia, uma prática infligida aos seguidores de Antônio Conselheiro, em Canudos: a degola.

Militantes mortos no meio da floresta tiveram a cabeça arrancada para serem identificados nas bases militares. No final de 1974, não havia mais guerrilheiros no Araguaia. No saldo das três expedições, os militares mataram ao menos 59 militantes. O exército não quis deixar nenhum vestígio da operação: corpos de guerrilheiros sepultados na selva foram desenterrados e queimados. Há relatos de que militantes tenham sido atirados ao mar. (Até hoje os familiares dos guerrilheiros mortos procuram seus corpos.) O governo militar impôs silêncio absoluto sobre os acontecimentos do Araguaia. Proibiu a imprensa de dar notícias sobre o tema, enquanto o exército negava a existência do movimento. Temia-se que o exemplo fosse seguido. A Guerrilha do Araguaia é, ainda hoje, um episódio da história brasileira não completamente conhecido. Está sendo desvelado à medida que surgem novos documentos, entrevistas e pesquisas.

Marco Aurélio Vannucchi L. de Mattos é historiador, Mestre e Doutorando em História Social pela USP. Autor, entre outros títulos, de contra os inimigos da ordem ( Editora DPA, 2003).

Revista Historia Viva

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Araguaia - Amazônia na boca da carabina


O que está por trás dos conflitos armados entre posseiros e capangas de fazendeiros, que há mais de 30 anos derramam sangue na região do Araguaia?
Regina Beatriz Guimarães Neto

De acordo com as testemunhas que guardam na memória a emboscada, havia no local mais de cem posseiros, provenientes dos assentamentos agrários do município de Confresa, no Araguaia, Mato Grosso – próximo à divisa com o estado do Pará. A armadilha fora planejada numa manhã de agosto – corria, então, o ano de 1989. Um posseiro serviria como “isca”, atraindo os pistoleiros com o barulho de sua motoserra ao pé de uma árvore. Ao avistá-lo, homens fortemente armados, que viajavam dentro de uma caminhonete, aproximaram-se devagar. Antes que pudessem abordar o posseiro, uma chuva de chumbo rasgou o ar. O tiroteio durou mais de dez minutos, causando a morte de dois pistoleiros.

A emboscada, assim como diversas outras ações de tocaia e confrontos armados, tinha o objetivo de eliminar os pistoleiros que, por vários anos, mataram, torturaram e expulsaram famílias da região. O feito seria contado pelos quatro cantos do Araguaia. Apesar do grande número de pessoas envolvidas, não foram encontrados culpados: durante as investigações policiais, reinaria a lei do silêncio. Ninguém soube dizer o nome dos que participaram, ninguém esteve presente nos locais dos crimes.

Acostumados a viver no silêncio da mata, os posseiros costumavam caminhar e atuar em grupo, procurando não se deixar surpreender pelos seus inimigos, pegando-os desprevenidos. “Ajuntava a parceria de uma área com a outra área e, se caso o conflito era aqui, no PA – projeto de assentamento – Canta Galo, às vezes vinha a turma do PA Jacaré Valente, lá também estava em conflito, e outras áreas também vinham para ajudar”, relata um senhor, alheio a lei do silêncio, que admite ter presenciado os confrontos.

Os acontecimentos e os nomes das pessoas que estiveram envolvidas diretamente nas emboscadas são, ainda hoje, motivo de muito sigilo e segredos. Bem guardada, a história dos confrontos faz parte da memória coletiva das vilas de São José do Fontoura, Três Flechas, Pé de Caju, Jacaré Valente, Novo Planalto, Canta Galo, Belo Horizonte, Lumiar, e outras. São as vilas dos assentamentos “arrancados na boca da carabina”, como diz um lavrador. O grande número de conflitos com assassinatos levou o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) a concluir, em seus relatórios sobre os assentamentos do município de Confresa, que essas áreas merecem ter prioridade no processo de desapropriação e regularização fundiária, no intuito de se evitarem novos banhos de sangue.

Confresa é um dos municípios brasileiros que possui, hoje, uma das mais altas concentrações de comunidades oriundas de projetos de assentamentos de reforma agrária regularizados pelo INCRA, de acordo com o plano nacional de Reforma Agrária (PNRA), que orientou o Plano Regional de Reforma Agrária (PRRA/Mato Grosso), em meados da década de 1980.

As histórias dos confrontos que liberaram terras para “os mais pobres”, como defendem grupos e pessoas comprometidas com a questão política da luta pela terra, circularam por todo o país. Homens e mulheres do Brasil inteiro foram para esta parte do Araguaia. Por isso, Confresa, sede do município, foi apontada no último censo nacional como uma das cidades que mais cresceu.
Ela nasceu como resultado de inúmeras ocupações. Interessados nas terras devolutas do Mato Grosso, nos territórios indígenas e nas áreas ocupadas por posseiros – aqueles que não tinham documentos escritos das terras em que viviam há anos – fazendeiros e empresários se apropriavam cada vez mais de grandes extensões de terra neste estado e na Amazônia, nas décadas de 1970, 1980 e 1990. Dividiam e retalhavam povoados, ranchos e plantações, impondo-se pela força das armas e adquirindo terras por meios, geralmente, fraudulentos.

Em geral, colocavam ali algum gado, apossavam-se da terra, mantendo-a como reserva de valor, e recebiam dinheiro do governo, sobretudo utilizando os incentivos repassados pela SUDAM (Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia). Tudo isto teve um grande custo social para as camadas pobres, que ficaram sem terra, sem lei e sem reforma agrária. Para garantir o controle das áreas, os donos das grandes fazendas armaram-se com pistoleiros, tendo como aliados a força policial das pequenas cidades.

Naqueles anos sangrentos – e ainda hoje - reinava um clima de medo no interior do país. Muitos posseiros, além de diversos outros tipos de trabalhadores, que migraram em busca do sonho da terra, foram expulsos, torturados ou assassinados. Um posseiro entrevistado relata como era feita a justiça dos matadores: “Os pistoleiros não podiam ver um homem na mata com as changa – o saco/mochila – nas costas, que passavam bala. Morria ali mesmo e ali ficava.” Foram denunciadas ainda práticas cruéis, como cortar as orelhas dos posseiros e entregá-las, mediante uma recompensa, aos patrões.

Diante de tais ameaças, posseiros da região do Araguaia, no Mato Grosso, e trabalhadores sem terra de todo o Brasil resolveram se unir para enfrentar os inimigos. Exigiriam, custe o que custasse, o direito a terra, pois já não tinham para onde ir – retornar era impossível. Os posseiros montaram redes de informações, se armaram e elaboraram inúmeras estratégias, desenvolvendo armadilhas e táticas. Para surpreender os inimigos, os homens se esconderiam na mata, deixando mulheres e crianças nos ranchos, a espera dos pistoleiros ou da polícia.

O caso de Confresa e das áreas de assentamento em seu entorno, surgidas durante as décadas de 1980, 1990 e primeiros anos do século XXI, é exemplar. O núcleo urbano do município é fruto de um projeto de colonização, aprovado pelo Incra, em 1978, situado ao longo da rodovia BR-158, área gerida pelo governo federal, de acordo com o PIN (Plano Integração Nacional, decreto-lei de 1970), criado no governo do General Emílio Garrastazu Médici. Segundo as determinações do PIN, ampliadas pelo decreto-lei de 1971, as áreas situadas às margens das rodovias federais, na Amazônia Legal, numa extensão de 100 km de cada lado do seu eixo, passavam a ser consideradas “indispensáveis à segurança e ao desenvolvimento nacional”. Competia, portanto, ao governo federal – por intermédio do INCRA – decidir o destino das terras da região. A federalização dessas áreas abriu espaço para grandes investimentos do capital nacional e estrangeiro na Amazônia, fato que determinou que os interesses do governo federal prevalecessem sobre os locais.

Passando para as mãos da iniciativa privada grandes áreas de terra, o governo interferia direta e indiretamente nos movimentos sociais no campo. Essa foi a tônica dos projetos de colonização implantados após a década de 1970, estabelecidos ao longo das rodovias federais, que se tornaram uma estratégia importante dos governos militares na administração da “questão agrária” no Brasil. Houve um enorme estímulo à criação de empresas de colonização, que não apenas se beneficiaram da aquisição de vastas áreas (aproximadamente 200.000 ha.), mas também dos incentivos fiscais, entre outros privilégios.

Os projetos de colonização que eram enviados para serem aprovados deveriam apresentar a planta da área planejada como núcleo urbano, dotado de uma infra-estrutura básica, com a divisão dos lotes e ruas, prevendo especialmente a abertura de estradas, a construção de armazéns, escolas e postos de saúde. Em praticamente todos os projetos implantados na região amazônica, porém, a infra-estrutura básica pouco saiu do papel, a não ser pela abertura de algumas estradas de acesso e a demarcação dos lotes, colocados à venda.

A cidade de Confresa tem seu nome retirado da sigla da empresa colonizadora CONFRESA, com base nas grandes fazendas agropecuárias Frenova e Sapeva. O espaço demarcado pela empresa para servir de base ao projeto de colonização possuía uma grande diversidade étnica e cultural (a aldeia do povo indígena Tapirapé encontra-se a poucos quilômetros da cidade). Fazia parte de uma grande área de posseiros ali já estabelecidos, desde as primeiras décadas do século XX. A empresa, que, até hoje, cobra dos órgãos públicos, na justiça, o valor dos lotes ocupados pelos moradores da cidade, viu as terras, de que afirmava ser proprietária, acabarem conquistadas e apropriadas por todos aqueles que se denominaram posseiros. Os ocupantes eram trabalhadores pobres sem terra e suas extensas famílias, que chegavam a todo o momento naquela parte de Mato Grosso.

O movimento migratório ocorrido no final dos anos 70 e por toda a década de 80, avançando pelos anos 90 e primeiros anos do século XXI, foi intenso em Mato Grosso. Do sul do Brasil, pequenos agricultores seguiam para as áreas de colonização, mas diversas outras categorias de trabalhadores, não só do campo, também vinham de estados vizinhos, como Pará, Tocantins, Goiás e dos estados do Nordeste, seguindo os caminhos abertos pelas rodovias federais, especialmente a BR 158, que corta todo o vale do Araguaia, e mesmo a Belém-Brasília. Deve-se considerar, no entanto, para compreender a persistência da ocupação empreendida pelos posseiros, as iniciativas de luta e combate dos trabalhadores que não possuem terra (para não confundir com o movimento organizado dos “sem terra”) no território do Araguaia, assim como outros confrontos ocorridos em diversas áreas vizinhas.

Visitar a história dos movimentos de migração nos povoados e cidades do Araguaia nos possibilita compreender um pouco mais a respeito de como se deu, e se dá, a luta pela terra no Brasil, onde quase a metade do território encontra-se nas mãos de pouco mais de um por cento de proprietários. Os conflitos, infelizmente, não estão perto de um fim, e a história contemporânea do Brasil se faz nesse movimento.

Regina Beatriz Guimarães Neto é professora de história da Universidade Federal de Mato Grosso e autora do livro A lenda do ouro verde. Política de Colonização no Brasil contemporâneo. Cuiabá: Ed. UNICEN, 2002.

Pistolas e pesquisas, ou dos perigos de fazer história.

Medos, silêncios, ameaças: nas pesquisas de campo sobre as novas cidades amazônicas, com suas áreas de conflitos e as condições de trabalho análogo ao de escravo, apresentam-se frequentemente situações de risco. Os testemunhos ou relatos de memória, por exemplo, são em muitos casos marcados pelas interdições. Teme-se falar sobre os conflitos armados que redundaram em mortes ou torturas, testemunhados ou relatados por familiares e conhecidos.

As nossas próprias experiências de pesquisadores, em contato com lavradores, trabalhadores diversos e lideranças sindicais, são às vezes dramáticas. Uma dessas situações me ocorreu quando acertava uma entrevista com a presidente do sindicato dos trabalhadores rurais de Confresa, Aparecida Barbosa da Silva, ameaçada de morte após denunciar a existência de trabalho escravo, praticado por proprietários rurais e agro-industriais. Enquanto conversávamos, chegaram quatro homens armados (estávamos apenas nós duas na sorveteria de seu filho, por volta das 21:00 horas) e ali permaneceram por quase uma hora, nos intimidando de maneira velada. Felizmente, chegaram outras pessoas e foi possível então chamar a polícia. Mas os quatro já haviam desaparecido.

O arquivo de quem não tem voz

O arquivo da Prelazia de São Félix do Araguaia guarda documentos preciosos sobre a luta pela terra na região e a atuação do bispo católico Pedro Casaldáliga e de outros (as) religiosos (as) na defesa dos direitos dos posseiros e de diversos trabalhadores que não possuíam terra, e na denúncia da exploração do trabalho em regime análogo à escravidão. O jornal Alvorada, criado desde o início da década de 1970, é o periódico da Prelazia (www.prelaziasaofelixdoaraguaia.org.br).

Saiba Mais - Bibliografia:

Alvorada, periódico da Prelazia de São Félix do Araguaia (www. prelaziasaofelixdoaraguaia.org.br).

CANUTO, Antônio. Escravos do progresso. In: Conflitos no campo Brasil. Publicação da CPT (Comissão Pastoral da Terra). Vol. 2006, p. 136-142.

ESTERCI, Neide. O conflito no Araguaia. Peões e posseiros contra a grande empresa. Petrópolis, Vozes, 1987.

FERREIRA Eudson de Castro, FERNÁNDEZ, Antônio João Castrilon; SILVA, Evande Praxedes da. A reconstrução dos assentamentos rurais em Mato Grosso. In: MEDEIROS, Leonilde Servolo de e LEITE, Sérgio (Orgs). A formação dos assentamentos rurais no Brasil: processos sociais e políticas públicas. Porto Alegre/Rio de Janeiro: UFRGS/CPDA, 1999, p.197-231.

FRANÇA, Marcos Ramos. Reconstrução da história da ocupação do PA Canta Galo (1987-1991). UNEMAT- Projeto Parceladas - História, Núcleo Pedagógico de Confresa, 2007.

Revista de Historia da Biblioteca Nacional