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sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Rapidinhas da História


Os argonautas, óleo do século XVI, Lourenzo Costa (Museo Cívico, Pádua, Itália)
" Navegar é preciso;  viver não é preciso ... "
O verso acima, é um dos mais famosos da língua portuguesa, esta contido em um poema de Fernando Pessoa. Ele usou o verbo navegar, em Mensagem (1934), como sinônimo de criar, experimentar.

Mas esse bem  poderia ter sido o lema  dos navegadores portugueses do século XV.

sábado, 17 de setembro de 2011

Descobrimentos - A crônica do achamento

Escrivão renomado, Pero Vaz de Caminha põe beleza, admiração e confiança no relato de uma viagem sem par
O brasão da família Caminha: morte cruel em Calicute

Muitos caminhos e muitas terras estão sendo visitados pela primeira vez nestes tempos. Nenhum contou com descrição mais primorosa e admiração mais explícita do que Santa Cruz, a terra que o capitão Pedro Álvares Cabral descobriu e à qual seu escrivão, Pero Vaz de Caminha, deu vida em sete folhas de papel cobertas de escrita miúda. A visão do Monte Pascoal e, depois, dia a dia, o contato dos portugueses com a terra desconhecida são descritos com tal riqueza e profusão de detalhes que, ao fim, Caminha pede ao rei perdão "se a algum pouco alonguei". Não precisava – nada é demais sobre esse lugar tão estranho, com sua gente nua e pintada.

Natural do Porto, Pero Vaz vem de família burguesa de boa cepa. Escrivão, filho de escrivão, cuidava no Porto de anotar as taxas e os impostos devidos ao Tesouro do reino, como mestre da Balança da Moeda. Fiel servidor e cavaleiro dos últimos três reis, aos 50 anos, já avô, viu-se convocado pelo atual soberano para escrivão da nau de Cabral (cada navio tinha o seu, para anotar receita, despesa e falecimentos). Quando a expedição chegasse a termo na Índia, deveria ocupar o mesmo posto na feitoria portuguesa em Calecute. A missão acabou em tragédia. Ao cabo de três mesec, a feitoria foi atacada e seus 50 ocupantes, entre eles Pero Vaz de Caminha, massacrados diante dos olhos do capitão Cabral, ancorado a pouca distância dali. Caminha morreu sem saber que, em reconhecimento a seu valor, dom Manuel decidiu acatar o pedido anotado nas últimas linhas – perdoar e dar por encerrado o exílio de seu genro Jorge de Osório. Leia a seguir os trechos mais importantes da carta sobre o descobrimento da nova terra, avistada pela primeira vez na quarta-feira, 22 de abril de 1500:

"À quinta-feira, pela manhã, fizemos vela e seguimos até meia légua da terra, onde todos lançamos âncoras em direito da boca dum rio. E dali houvemos vista de homens, que andavam pela praia, obra de sete ou oito. E o capitão mandou no batel, à terra, Nicolau Coelho, para ver aquele rio. E tanto que ele começou para lá ir, acudiram pela praia homens, de maneira que, quando o batel chegou à boca do rio, eram ali dezoito ou vinte homens, pardos, todos nus, sem nenhuma coisa que lhes cobrisse suas vergonhas. Traziam arcos nas mãos e suas setas. Vinham todos rijos para o batel e Nicolau Coelho lhes fez sinal que pusessem os arcos; e eles os puseram. Ali não pôde deles haver fala nem entendimento que aproveitasse, por o mar quebrar na costa. Somente deu-lhes um barrete vermelho e uma carapuça de linho, que levava na cabeça, e um sombreiro preto. E um deles lhe deu um sombreiro de penas de aves compridas com uma copazinha pequena de penas vermelhas e pardas, como de papagaio. E outro lhe deu continhas brancas, miúdas.


A feição deles é serem pardos, maneira de avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos. Andam nus, sem nenhuma cobertura, nem estimam nenhuma coisa cobrir nem mostrar suas vergonhas. E estão acerca disso com tanta inocência como têm em mostrar o rosto. Traziam ambos os beiços debaixo furados e metidos por eles ossos de osso branco. Os cabelos seus são corredios, de boa grandura e rapados até por cima das orelhas. E um deles trazia uma maneira de cabeleira de penas de ave amarela, mui basta e mui cerrada. O capitão, quando eles vieram, estava assentado em uma cadeira e uma alcatifa aos pés por estrado, e bem vestido, com um colar de ouro mui grande ao pescoço. E nós outros, que aqui na nau com ele imos, assentados no chão por essa alcatifa. Entraram e não fizeram nenhuma menção de cortesia nem de falar ao capitão nem a ninguém. Porém, um deles pôs olho no colar do capitão e começou de acenar com a mão para a terra e depois para o colar, como que nos dizia que havia em terra ouro. E também viu um castiçal de prata e assim mesmo acenava para a terra e então para o castiçal, como que havia também prata.


Deram-lhes ali de comer pão e pescado cozido, confeitos, mel e figos; não quiseram comer daquilo quase nada. E alguma coisa, se a provaram, lançavam-na logo fora. Troxeram-lhes vinho por uma taça, mal lhe puseram assim a boca e não gostaram dele nada, nem o quiseram mais. Trouxeram-lhes água, tomaram dela bocados e não beberam. Somente lavaram as bocas e lançaram fora. E então estiraram-se assim de costas na alcatifa, a dormir, sem ter nenhuma maneira de cobrirem suas vergonhas, as quais não eram fanadas e as cabeleiras delas bem rapadas e feitas. O capitão lhes mandou pôr às cabeças coxins e o da cabeleira procurava assaz por a não quebrar. E lançaram-lhes um manto em cima e eles consentiram e dormiram.

Ao sábado pela manhã, mandou o capitão Nicolau Coelho e Bartolomeu Dias que fossem em terra e levassem aqueles dois homens e os deixassem ir com seu arco e setas, aos quais mandou dar camisas novas e carapuças vermelhas e dois rosários de contas brancas de osso, que eles levavam nos braços. E mandou com eles para ficar lá mancebo degredado, a que chamam Afonso Ribeiro, para andar lá com eles e saber de seu viver e maneira; e a mim mandou que fosse com Nicolau Coelho. Fomos assim direitos à praia. Ali acudiram logo obra de 200 homens, todos nus, e com arcos e setas nas mãos. Aqueles que nós levávamos acenaram-lhes que se afastassem e pusessem os arcos e eles os puseram e não se afastavam muito. E, mal puseram seus arcos, então saíram os que nós levávamos e o mancebo degredado com eles. Ali andavam entre eles três ou quatro moças, bem moças e bem gentis, com cabelos muito pretos, compridos, pelas espáduas; e suas vergonhas tão altas e tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que de as nós muito bem olharmos não tínhamos nenhuma vergonha.


Ao domingo de Pascoela, pela manhã, determinou o capitão de ir ouvir missa e pregação naquele ilhéu, a qual disse o padre frei Henrique. Enquanto estivemos à missa e à pregação, seriam na praia outra tanta gente, pouco mais ou menos como os de ontem, com seus arcos e setas, os quais andavam folgando e olhando-nos, e assentaram-se. Neste ilhéu, onde fomos ouvir missa e pregação, espraia muito a água e descobre muita areia e muito cascalho. Foram alguns, em nós aí estando, buscar marisco e não o acharam. E acharam alguns camarões grossos e curtos, entre os quais vinha um muito grande camarão e muito grosso, que em nenhum tempo o vi tamanho.

Andamos por aí vendo a ribeira, a qual é de muita água e muito boa. Ao longo dela há muitas palmas não muito altas, em que há muito bons palmitos. Colhemos e comemos deles muitos. E além do rio andavam muitos deles, dançando e folgando uns ante outros, sem se tomarem pelas mãos, e faziam-no bem. Passou-se então além do rio Diego Dias, que é homem gracioso e de prazer, e levou consigo um gaiteiro nosso. E eles folgavam e riam e andavam com ele mui bem, ao som da gaita.

À segunda-feira, depois de comer saímos todos em terra a tomar água. Ali vieram então muitos, mas não tantos como as outras vezes. E traziam já muito poucos arcos e estiveram assim um pouco afastados de nós. E depois, poucos e poucos, misturaram-se conosco e abraçavam-nos e folgavam e alguns deles se esquivavam logo. Neste dia, os vimos de mais perto e mais à nossa vontade, por andarmos todos quase misturados. E o capitão mandou àquele degredado Afonso Ribeiro e a outros dois degredados que fossem andar lá entre eles. Foram a uma povoação de casas, em que haveria nove ou dez casas, as quais diziam que era tão comprida cada uma como esta nau capitânia. E eram de madeira, e das ilhargas, de tábuas, e cobertas de palha. Tinham dentro muitos esteios e de esteio a esteio uma rede, em que dormiam, e, debaixo, para se aquentarem, faziam seus fogos. E tinha cada casa duas portas pequenas, uma em um cabo e outra no outro. E diziam que, em cada casa, se acolhiam trinta ou quarenta pessoas e que assim os achavam e que lhes davam de comer daquela vianda que eles tinham, a saber: muito inhame e outras sementes, que na terra há, que eles comem. E, como foi tarde, fizeram-nos logo todos tornar e não quiseram que lá ficasse nenhum.

À terça-feira, depois de comer, fomos em terra dar guarda de lenha e lavar roupa. Estavam na praia, quando chegamos, obra de sessenta ou setenta, sem arcos e sem nada. Tanto que chegamos, vieram-se logo para nós, sem se esquivarem. E depois acudiram muitos, que seriam bem duzentos, todos sem arcos. E enquanto nós fazíamos a lenha, faziam dois carpinteiros uma grande cruz dum pau que se ontem para isso cortou. Muitos deles vinham ali estar com os carpinteiros e creio que o faziam mais por verem a ferramenta de ferro, com que a faziam, que por verem a cruz, porque eles não têm coisa que de ferro seja.



À quarta-feira não fomos em terra, porque o capitão andou todo o dia no navio dos mantimentos a despejá-lo e fazer levar às naus isso que cada uma podia levar. À quinta-feira, derradeiro de abril, comemos logo quase pela manhã e fomos em terra por mais lenha e água. Andariam na praia, quando saímos, oito ou dez deles e daí a pouco começaram de vir; e parece-me que viriam, este dia, à praia quatrocentos ou quatrocentos e cinqüenta. Comiam conosco do que lhes dávamos e bebiam alguns deles vinho e outros o não podiam beber, mas parece-me que se lho avezarem, que o beberão de boa vontade. E andavam já mais mansos e seguros entre nós do que nós andávamos entre eles.

Quando saímos do batel, disse o capitão que seria bom irmos direitos à cruz, e que nos puséssemos todos em joelhos e a beijássemos, para eles verem o acatamento que lhe tínhamos. E assim o fizemos. E esses dez ou doze que aí estavam, acenaram-lhes que fizessem assim e foram logo todos beijá-la. Parece-me gente de tal inocência que, se os homens entendessem e eles a nós, que seriam logo cristãos, porque eles não têm nem entendem em nenhuma crença, segundo parece. Eles não lavram, nem criam, nem há aqui boi, nem vaca, nem cabra, nem ovelha, nem galinha, nem outra nenhuma alimária, que costumada seja ao viver dos homens; nem comem senão desse inhame que aqui há muito e dessa semente e frutos que a terra e as árvores de si lançam. E com isto andam tais e tão rijos e tão nédios, que o não somos nós tanto com quanto trigo e legumes comemos.

E hoje, que é sexta-feira, primeiro dia de maio, pela manhã, saímos em terra com nossa bandeira e fomos desembarcar acima do rio, onde nos pareceu que seria melhor chantar a cruz para ser melhor vista. Chantada a cruz com as armas e divisa de Vossa Alteza, que lhe primeiro pregaram, armaram altar ao pé dela. Ali disse missa o padre frei Henrique. Ali estiveram conosco a ela obra de cinqüenta ou sessenta deles, assentados todos em joelhos, assim como nós.

Esta terra, Senhor, me parece que será tamanha, que haverá nela bem vinte ou vinte e cinco léguas por costa; traz ao longo do mar grandes barreiras, e a terra muito cheia de grandes arvoredos; é toda praia muito formosa. Nela até agora não pudemos saber que haja ouro, nem prata, nem nenhuma coisa de metal, nem de ferro. Porém, a terra, em si, é de muito bons ares. Águas são muitas, infindas. E em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo por bem das águas que tem. Porém, o melhor fruto que nela se pode fazer me parece que será salvar esta gente.


E nesta maneira, Senhor, dou aqui a Vossa Alteza conta do que nesta vossa terra vi. E, se a algum pouco alonguei, Ela me perdoe, que o desejo que tinha de vos tudo dizer mo fez assim pôr pelo miúdo. E, pois que, Senhor, é certo que assim neste cargo que levo, como em outra qualquer coisa que de vosso serviço for, Vossa Alteza há-de ser de mim muito bem servida, a Ela peço que, por me fazer singular mercê, mande vir da Ilha de São Tomé Jorge de Os&oacete;rio, meu genro, o que d'Ela receberei em muita mercê.

Beijo as mãos de Vossa Alteza.

Deste Porto Seguro, de vossa ilha da Vera Cruz, hoje sexta-feira, primeiro dia de maio de 1500."
Revista Veja na História

Descobrimentos - Diplomacia do Canhão

Gentil no trato, o capitão Cabral também usa a força e traz saldo positivo da viagem às Índias
O brasão dos Cabral: família de guerreiros

Aos 32 anos, fidalgo de maneiras elegantes, alto como seu pai, o famoso "gigante da Beira", o capitão-mor Pedro Álvares Cabral trouxe da longa missão diplomático-comercial (um ano e três meses no mar) resultado positivo, apesar de consideráveis percalços. Ele refez a rota desbravada por Vasco da Gama para as Índias, de passagem descobriu a formidável terra desconhecida nos confins do Mar Oceano e instalou o primeiro entreposto comercial nas bandas do Oriente. Não conseguiu, porém, estabelecer a feitoria que inaugura o intercâmbio comercial entre a Europa e as Índias por via marítima no riquíssimo reino de Malabar, como era o objetivo principal. Ao contrário, as relações com Calicute, capital de Malabar, parecem arruinadas por graves incidentes que deixaram pilhas de cadáveres dos dois lados. O saldo da missão reflete a própria personalidade do capitão. Fidalgo de fino trato, ele se desdobrou para cumprir as instruções do rei dom Manuel no sentido de sempre dar "boas mostras de si e da armada", procurando soluções diplomáticas em situações complicadas. Numa demonstração de delicadeza d'alma rara entre navegadores de todas as estirpes, chegou a mandar cobrir os nativos de Santa Cruz que, durante a escala na terra recém-descoberta, pegaram no sono a bordo de sua nau, protegendo-os da brisa noturna. Homem de armas por formação, recorreu à diplomacia dos canhões quando julgou necessário.

O uso da força, mesmo em missões de caráter diplomático ou comercial, é de praxe. Nos treze navios da esquadra que comandou, Cabral levou um verdadeiro exército. Eram 1.200 homens, a maior parte gente de guerra. Mesmo com a armada consideravelmente reduzida (uma embarcação desapareceu, outra foi mandada de volta a Portugal com a notícia do descobrimento de Santa Cruz e quatro naufragaram a caminho do Cabo da Boa Esperança), Cabral fez uso dos canhões a partir das escalas na costa oriental da África. Os primeiros alvos foram duas naus supostamente mouras e logo aprisionadas – os muçulmanos do norte da África são inimigos tratados a bala por Portugal. Uma gafe. As naus eram, na verdade, de Melinde, cidade africana onde Vasco da Gama havia sido muito bem recebido na viagem anterior. Restou a Cabral pedir desculpas. O capitão e sua frota chegaram ao destino principal da viagem, Calicute, em 13 de setembro do ano passado, disparando salvas de tiros de canhão. A idéia era intimidar o samorim, como é chamado o rei desse rico pedaço das Índias. Inicialmente, funcionou. O soberano de Calicute aceitou enviar reféns à frota portuguesa como garantia de que uma delegação encabeçada por Cabral poderia desembarcar para tratar de negócios, sem risco de vida. Vestindo seus melhores trajes e até com jóias emprestadas, para impressionar a nobreza da terra, os emissários recém-chegados realizaram o primeiro contato oficial. Depois de muita insistência, o soberano acabou concordando com a instalação de uma feitoria na cidade. A aparente cordialidade, no entanto, não evitou um boicote. Durante os três meses em que os seis navios portugueses permaneceram parados no Porto de Calicute, apenas dois foram carregados com especiarias. Espertamente, o samorim alegou que a culpa era dos mercadores mouros havia muito instalados nas Índias, aborrecidos com a concorrência. Para lhes dar uma lição, Cabral resolveu apreender, saquear e bombardear uma nau mourisca que estava parada no porto. A represália não tardou. A feitoria portuguesa foi invadida, com saldo de cinqüenta mortos, incluindo seu chefe, Aires da Cunha (o filho dele, Antonio, de 12 anos, escapou por pouco), e o escrivão Pero Vaz Caminha. A reação de Cabral ao trágico massacre veio com força total. A frota portuguesa recebeu ordens de atacar dez naus mouras, fundeadas no porto, deixando cerca de 600 mortos. De quebra, bombardeou Calicute, destruindo parcialmente a cidade, com seus belos e frágeis palácios. Até o samorim, com sua corte, precisou fugir do canhonaço. Cabral mostrou força, sem dúvida, mas fechou uma porta para o comércio.

Para salvar a empreitada, Cabral seguiu rumo aos reinos vizinhos de Cochim e Cananor, inimigos de Calicute. A tática de explorar as rivalidades locais deu certo. Foi nesses reinos que a missão portuguesa estabeleceu relações comerciais, abrindo finalmente as portas do comércio com as Índias e suas perspectivas tão promissoras. Mesmo desfalcada, a frota de Cabral está voltando dessa primeira viagem abarrotada de especiarias – canela, gengibre e, principalmente, pimenta. Financeiramente, o capitão conseguiu com isso o saldo mais positivo da missão. O valor da quantidade de especiarias transportadas é suficiente para pagar três vezes o custo da viagem. E isso, afinal, é o que interessa.

Revista Veja na História

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

A Expansão Oceânica Portuguesa

Livro traz nova visão da expansão marítima portuguesa
da Efe, em Londres

A editora da Universidade de Cambridge publicou o livro "The Portuguese Oceanic Expansion, 1400-1800" ("A Expansão Oceânica Portuguesa, 1400-1800", em tradução livre), que pretende ser "uma visão global e atualizada" das navegações portuguesas, já que as sínteses disponíveis em inglês são antigas ou só cobrem períodos curtos, como os séculos XV e XVI.

Reprodução

Quadro encomendado pelo historiador inglês Kenneth Light, representa a chegada da família real de Portugal ao Rio


A afirmação é do professor Francisco Bethencourt, do King's College de Londres e co-editor da obra com Diogo Ramada Curto, do European University Institute de Florença (Itália).

O livro pretende apresentar as mais recentes pesquisas de especialistas de diversos países, deixando de lado as perspectivas nacionalistas, para o qual contou com pesquisadores de várias nacionalidades e que trabalham em várias universidades.

Entre esses centros de ensino estão a Universidade de Sorbonne (Paris), a de Lisboa, a de Tecnologia de Sydney, a de Montreal ou as americanas Johns Hopkins, Yale e a de Boston.

"Pela primeira vez integramos, além disso, a literatura e as artes nesse tipo de história geralmente dominada pela política e pela economia", diz Bethencourt.

Uma grande parte do livro é dedicada ao "mundo cultural", dividida em capítulos como a cultura colonial e imperial portuguesa, a linguagem e a literatura no império português, a expansão e as artes, e a ciência e a tecnologia.

Portugal e Espanha

Sobre as diferenças essenciais entre os impérios de Portugal e da Espanha, Bethencourt afirma que esse último "era relativamente mais centralizado do que o português, onde o poder dos capitães e governadores de província era maior".

"O império português era, além disso, mais corporativo e clientelista: o rei utilizava habitualmente os postos administrativos e militares para premiar serviços ou manter fidelidades".

Os diferentes modelos de expansão dos dois impérios - penetração e ocupação territorial ou estabelecimento comercial nas zonas litorâneas - podem ser explicados pelas possibilidades locais, segundo Bethencourt.

"Foi Hernán Cortés quem concebeu a idéia de um império territorial espanhol, em contraste com um império português de tipo comercial", afirma o professor.

Brasil, África e Ásia

"O fato é que o império português foi territorial no Brasil, comercial na África, com alguma expansão territorial em partes da atual Angola e Moçambique, e comercial também na Ásia, embora com expansão territorial no Ceilão", diz.

"Os espanhóis tinham sonhos de expansão territorial na Ásia, mas suas expedições na Indochina ou na atual Indonésia foram um fracasso, por que tudo dependia das condições locais e não das 'qualidades essenciais' dos diferentes conquistadores", acrescenta.

Epidemias

Bethencourt reconhece o "devastador impacto" na população indígena da América, das guerras e dos deslocamentos de povoações, e, principalmente, das epidemias transmitidas pelos europeus.

"As culturas locais foram aniquiladas em grande parte, embora as novas pesquisas históricas tenham descoberto forte resistência e capacidade de negociação das povoações ameríndias nos séculos XVI e XVIII", afirma.

Escravidão e disputa

O professor revela que o tráfico de escravos foi outro impacto crucial da expansão ibérica: mais de 12 milhões de africanos foram transportados para a América, uma especialidade dos portugueses, que levaram cerca da metade dos escravos, em relação aos pouco mais de 30% transportados nos navios ingleses.

Em relação ao impacto da rivalidade holandesa no desenvolvimento do império português, Bethencourt lembra que os holandeses combateram os portugueses entre 1600 e 1660 em três continentes.

"Ganharam na Ásia, perderam totalmente no Brasil e foram expulsos dos principais portos da África. Como conseqüência, o eixo do império português na Ásia se deslocou definitivamente para o Atlântico, onde os portugueses tinham muito mais recursos humanos", diz.

Imigração

Calcula-se que, entre 1450 e 1800, mais de 1,5 milhão de portugueses emigraram, o que é um fenômeno em uma população que era de apenas um milhão no início desse período e atingiu três milhões ao final, afirma Bethencourt.

"A concentração desses recursos humanos no Brasil e nas ilhas atlânticas, assim como a relação bipolar entre Brasil e África, permite explicar a derrota dos holandeses no Atlântico", conclui.
Folha de São Paulo

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Descobrimento - A Crônica do achamento

1° de julho de 1501
Escrivão renomado, Pero Vaz de Caminha põe beleza, admiração e confiança no relato de uma viagem sem par

O brasão da família Caminha: morte cruel em Calicute

Muitos caminhos e muitas terras estão sendo visitados pela primeira vez nestes tempos. Nenhum contou com descrição mais primorosa e admiração mais explícita do que Santa Cruz, a terra que o capitão Pedro Álvares Cabral descobriu e à qual seu escrivão, Pero Vaz de Caminha, deu vida em sete folhas de papel cobertas de escrita miúda. A visão do Monte Pascoal e, depois, dia a dia, o contato dos portugueses com a terra desconhecida são descritos com tal riqueza e profusão de detalhes que, ao fim, Caminha pede ao rei perdão "se a algum pouco alonguei". Não precisava – nada é demais sobre esse lugar tão estranho, com sua gente nua e pintada.

Natural do Porto, Pero Vaz vem de família burguesa de boa cepa. Escrivão, filho de escrivão, cuidava no Porto de anotar as taxas e os impostos devidos ao Tesouro do reino, como mestre da Balança da Moeda. Fiel servidor e cavaleiro dos últimos três reis, aos 50 anos, já avô, viu-se convocado pelo atual soberano para escrivão da nau de Cabral (cada navio tinha o seu, para anotar receita, despesa e falecimentos). Quando a expedição chegasse a termo na Índia, deveria ocupar o mesmo posto na feitoria portuguesa em Calecute. A missão acabou em tragédia. Ao cabo de três mesec, a feitoria foi atacada e seus 50 ocupantes, entre eles Pero Vaz de Caminha, massacrados diante dos olhos do capitão Cabral, ancorado a pouca distância dali. Caminha morreu sem saber que, em reconhecimento a seu valor, dom Manuel decidiu acatar o pedido anotado nas últimas linhas – perdoar e dar por encerrado o exílio de seu genro Jorge de Osório. Leia a seguir os trechos mais importantes da carta sobre o descobrimento da nova terra, avistada pela primeira vez na quarta-feira, 22 de abril de 1500:

"À quinta-feira, pela manhã, fizemos vela e seguimos até meia légua da terra, onde todos lançamos âncoras em direito da boca dum rio. E dali houvemos vista de homens, que andavam pela praia, obra de sete ou oito. E o capitão mandou no batel, à terra, Nicolau Coelho, para ver aquele rio. E tanto que ele começou para lá ir, acudiram pela praia homens, de maneira que, quando o batel chegou à boca do rio, eram ali dezoito ou vinte homens, pardos, todos nus, sem nenhuma coisa que lhes cobrisse suas vergonhas. Traziam arcos nas mãos e suas setas. Vinham todos rijos para o batel e Nicolau Coelho lhes fez sinal que pusessem os arcos; e eles os puseram. Ali não pôde deles haver fala nem entendimento que aproveitasse, por o mar quebrar na costa. Somente deu-lhes um barrete vermelho e uma carapuça de linho, que levava na cabeça, e um sombreiro preto. E um deles lhe deu um sombreiro de penas de aves compridas com uma copazinha pequena de penas vermelhas e pardas, como de papagaio. E outro lhe deu continhas brancas, miúdas.



A feição deles é serem pardos, maneira de avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos. Andam nus, sem nenhuma cobertura, nem estimam nenhuma coisa cobrir nem mostrar suas vergonhas. E estão acerca disso com tanta inocência como têm em mostrar o rosto. Traziam ambos os beiços debaixo furados e metidos por eles ossos de osso branco. Os cabelos seus são corredios, de boa grandura e rapados até por cima das orelhas. E um deles trazia uma maneira de cabeleira de penas de ave amarela, mui basta e mui cerrada. O capitão, quando eles vieram, estava assentado em uma cadeira e uma alcatifa aos pés por estrado, e bem vestido, com um colar de ouro mui grande ao pescoço. E nós outros, que aqui na nau com ele imos, assentados no chão por essa alcatifa. Entraram e não fizeram nenhuma menção de cortesia nem de falar ao capitão nem a ninguém. Porém, um deles pôs olho no colar do capitão e começou de acenar com a mão para a terra e depois para o colar, como que nos dizia que havia em terra ouro. E também viu um castiçal de prata e assim mesmo acenava para a terra e então para o castiçal, como que havia também prata.

Deram-lhes ali de comer pão e pescado cozido, confeitos, mel e figos; não quiseram comer daquilo quase nada. E alguma coisa, se a provaram, lançavam-na logo fora. Troxeram-lhes vinho por uma taça, mal lhe puseram assim a boca e não gostaram dele nada, nem o quiseram mais. Trouxeram-lhes água, tomaram dela bocados e não beberam. Somente lavaram as bocas e lançaram fora. E então estiraram-se assim de costas na alcatifa, a dormir, sem ter nenhuma maneira de cobrirem suas vergonhas, as quais não eram fanadas e as cabeleiras delas bem rapadas e feitas. O capitão lhes mandou pôr às cabeças coxins e o da cabeleira procurava assaz por a não quebrar. E lançaram-lhes um manto em cima e eles consentiram e dormiram.

Ao sábado pela manhã, mandou o capitão Nicolau Coelho e Bartolomeu Dias que fossem em terra e levassem aqueles dois homens e os deixassem ir com seu arco e setas, aos quais mandou dar camisas novas e carapuças vermelhas e dois rosários de contas brancas de osso, que eles levavam nos braços. E mandou com eles para ficar lá mancebo degredado, a que chamam Afonso Ribeiro, para andar lá com eles e saber de seu viver e maneira; e a mim mandou que fosse com Nicolau Coelho. Fomos assim direitos à praia. Ali acudiram logo obra de 200 homens, todos nus, e com arcos e setas nas mãos. Aqueles que nós levávamos acenaram-lhes que se afastassem e pusessem os arcos e eles os puseram e não se afastavam muito. E, mal puseram seus arcos, então saíram os que nós levávamos e o mancebo degredado com eles. Ali andavam entre eles três ou quatro moças, bem moças e bem gentis, com cabelos muito pretos, compridos, pelas espáduas; e suas vergonhas tão altas e tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que de as nós muito bem olharmos não tínhamos nenhuma vergonha.

Ao domingo de Pascoela, pela manhã, determinou o capitão de ir ouvir missa e pregação naquele ilhéu, a qual disse o padre frei Henrique. Enquanto estivemos à missa e à pregação, seriam na praia outra tanta gente, pouco mais ou menos como os de ontem, com seus arcos e setas, os quais andavam folgando e olhando-nos, e assentaram-se. Neste ilhéu, onde fomos ouvir missa e pregação, espraia muito a água e descobre muita areia e muito cascalho. Foram alguns, em nós aí estando, buscar marisco e não o acharam. E acharam alguns camarões grossos e curtos, entre os quais vinha um muito grande camarão e muito grosso, que em nenhum tempo o vi tamanho.

Andamos por aí vendo a ribeira, a qual é de muita água e muito boa. Ao longo dela há muitas palmas não muito altas, em que há muito bons palmitos. Colhemos e comemos deles muitos. E além do rio andavam muitos deles, dançando e folgando uns ante outros, sem se tomarem pelas mãos, e faziam-no bem. Passou-se então além do rio Diego Dias, que é homem gracioso e de prazer, e levou consigo um gaiteiro nosso. E eles folgavam e riam e andavam com ele mui bem, ao som da gaita.

À segunda-feira, depois de comer saímos todos em terra a tomar água. Ali vieram então muitos, mas não tantos como as outras vezes. E traziam já muito poucos arcos e estiveram assim um pouco afastados de nós. E depois, poucos e poucos, misturaram-se conosco e abraçavam-nos e folgavam e alguns deles se esquivavam logo. Neste dia, os vimos de mais perto e mais à nossa vontade, por andarmos todos quase misturados. E o capitão mandou àquele degredado Afonso Ribeiro e a outros dois degredados que fossem andar lá entre eles. Foram a uma povoação de casas, em que haveria nove ou dez casas, as quais diziam que era tão comprida cada uma como esta nau capitânia. E eram de madeira, e das ilhargas, de tábuas, e cobertas de palha. Tinham dentro muitos esteios e de esteio a esteio uma rede, em que dormiam, e, debaixo, para se aquentarem, faziam seus fogos. E tinha cada casa duas portas pequenas, uma em um cabo e outra no outro. E diziam que, em cada casa, se acolhiam trinta ou quarenta pessoas e que assim os achavam e que lhes davam de comer daquela vianda que eles tinham, a saber: muito inhame e outras sementes, que na terra há, que eles comem. E, como foi tarde, fizeram-nos logo todos tornar e não quiseram que lá ficasse nenhum.

À terça-feira, depois de comer, fomos em terra dar guarda de lenha e lavar roupa. Estavam na praia, quando chegamos, obra de sessenta ou setenta, sem arcos e sem nada. Tanto que chegamos, vieram-se logo para nós, sem se esquivarem. E depois acudiram muitos, que seriam bem duzentos, todos sem arcos. E enquanto nós fazíamos a lenha, faziam dois carpinteiros uma grande cruz dum pau que se ontem para isso cortou. Muitos deles vinham ali estar com os carpinteiros e creio que o faziam mais por verem a ferramenta de ferro, com que a faziam, que por verem a cruz, porque eles não têm coisa que de ferro seja.

À quarta-feira não fomos em terra, porque o capitão andou todo o dia no navio dos mantimentos a despejá-lo e fazer levar às naus isso que cada uma podia levar. À quinta-feira, derradeiro de abril, comemos logo quase pela manhã e fomos em terra por mais lenha e água. Andariam na praia, quando saímos, oito ou dez deles e daí a pouco começaram de vir; e parece-me que viriam, este dia, à praia quatrocentos ou quatrocentos e cinqüenta. Comiam conosco do que lhes dávamos e bebiam alguns deles vinho e outros o não podiam beber, mas parece-me que se lho avezarem, que o beberão de boa vontade. E andavam já mais mansos e seguros entre nós do que nós andávamos entre eles.

Quando saímos do batel, disse o capitão que seria bom irmos direitos à cruz, e que nos puséssemos todos em joelhos e a beijássemos, para eles verem o acatamento que lhe tínhamos. E assim o fizemos. E esses dez ou doze que aí estavam, acenaram-lhes que fizessem assim e foram logo todos beijá-la. Parece-me gente de tal inocência que, se os homens entendessem e eles a nós, que seriam logo cristãos, porque eles não têm nem entendem em nenhuma crença, segundo parece. Eles não lavram, nem criam, nem há aqui boi, nem vaca, nem cabra, nem ovelha, nem galinha, nem outra nenhuma alimária, que costumada seja ao viver dos homens; nem comem senão desse inhame que aqui há muito e dessa semente e frutos que a terra e as árvores de si lançam. E com isto andam tais e tão rijos e tão nédios, que o não somos nós tanto com quanto trigo e legumes comemos.

E hoje, que é sexta-feira, primeiro dia de maio, pela manhã, saímos em terra com nossa bandeira e fomos desembarcar acima do rio, onde nos pareceu que seria melhor chantar a cruz para ser melhor vista. Chantada a cruz com as armas e divisa de Vossa Alteza, que lhe primeiro pregaram, armaram altar ao pé dela. Ali disse missa o padre frei Henrique. Ali estiveram conosco a ela obra de cinqüenta ou sessenta deles, assentados todos em joelhos, assim como nós.

Esta terra, Senhor, me parece que será tamanha, que haverá nela bem vinte ou vinte e cinco léguas por costa; traz ao longo do mar grandes barreiras, e a terra muito cheia de grandes arvoredos; é toda praia muito formosa. Nela até agora não pudemos saber que haja ouro, nem prata, nem nenhuma coisa de metal, nem de ferro. Porém, a terra, em si, é de muito bons ares. Águas são muitas, infindas. E em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo por bem das águas que tem. Porém, o melhor fruto que nela se pode fazer me parece que será salvar esta gente.

E nesta maneira, Senhor, dou aqui a Vossa Alteza conta do que nesta vossa terra vi. E, se a algum pouco alonguei, Ela me perdoe, que o desejo que tinha de vos tudo dizer mo fez assim pôr pelo miúdo. E, pois que, Senhor, é certo que assim neste cargo que levo, como em outra qualquer coisa que de vosso serviço for, Vossa Alteza há-de ser de mim muito bem servida, a Ela peço que, por me fazer singular mercê, mande vir da Ilha de São Tomé Jorge de Os&oacete;rio, meu genro, o que d'Ela receberei em muita mercê.

Beijo as mãos de Vossa Alteza.

Deste Porto Seguro, de vossa ilha da Vera Cruz, hoje sexta-feira, primeiro dia de maio de 1500."

Revista Veja

Descobrimento - A diplomacia do canhão

Gentil no trato, o capitão Cabral também usa a força e traz saldo positivo da viagem às Índias

O brasão dos Cabral: família de guerreiros


Aos 32 anos, fidalgo de maneiras elegantes, alto como seu pai, o famoso "gigante da Beira", o capitão-mor Pedro Álvares Cabral trouxe da longa missão diplomático-comercial (um ano e três meses no mar) resultado positivo, apesar de consideráveis percalços. Ele refez a rota desbravada por Vasco da Gama para as Índias, de passagem descobriu a formidável terra desconhecida nos confins do Mar Oceano e instalou o primeiro entreposto comercial nas bandas do Oriente. Não conseguiu, porém, estabelecer a feitoria que inaugura o intercâmbio comercial entre a Europa e as Índias por via marítima no riquíssimo reino de Malabar, como era o objetivo principal. Ao contrário, as relações com Calicute, capital de Malabar, parecem arruinadas por graves incidentes que deixaram pilhas de cadáveres dos dois lados. O saldo da missão reflete a própria personalidade do capitão. Fidalgo de fino trato, ele se desdobrou para cumprir as instruções do rei dom Manuel no sentido de sempre dar "boas mostras de si e da armada", procurando soluções diplomáticas em situações complicadas. Numa demonstração de delicadeza d'alma rara entre navegadores de todas as estirpes, chegou a mandar cobrir os nativos de Santa Cruz que, durante a escala na terra recém-descoberta, pegaram no sono a bordo de sua nau, protegendo-os da brisa noturna. Homem de armas por formação, recorreu à diplomacia dos canhões quando julgou necessário.

O uso da força, mesmo em missões de caráter diplomático ou comercial, é de praxe. Nos treze navios da esquadra que comandou, Cabral levou um verdadeiro exército. Eram 1.200 homens, a maior parte gente de guerra. Mesmo com a armada consideravelmente reduzida (uma embarcação desapareceu, outra foi mandada de volta a Portugal com a notícia do descobrimento de Santa Cruz e quatro naufragaram a caminho do Cabo da Boa Esperança), Cabral fez uso dos canhões a partir das escalas na costa oriental da África. Os primeiros alvos foram duas naus supostamente mouras e logo aprisionadas – os muçulmanos do norte da África são inimigos tratados a bala por Portugal. Uma gafe. As naus eram, na verdade, de Melinde, cidade africana onde Vasco da Gama havia sido muito bem recebido na viagem anterior. Restou a Cabral pedir desculpas. O capitão e sua frota chegaram ao destino principal da viagem, Calicute, em 13 de setembro do ano passado, disparando salvas de tiros de canhão. A idéia era intimidar o samorim, como é chamado o rei desse rico pedaço das Índias. Inicialmente, funcionou. O soberano de Calicute aceitou enviar reféns à frota portuguesa como garantia de que uma delegação encabeçada por Cabral poderia desembarcar para tratar de negócios, sem risco de vida. Vestindo seus melhores trajes e até com jóias emprestadas, para impressionar a nobreza da terra, os emissários recém-chegados realizaram o primeiro contato oficial. Depois de muita insistência, o soberano acabou concordando com a instalação de uma feitoria na cidade. A aparente cordialidade, no entanto, não evitou um boicote. Durante os três meses em que os seis navios portugueses permaneceram parados no Porto de Calicute, apenas dois foram carregados com especiarias. Espertamente, o samorim alegou que a culpa era dos mercadores mouros havia muito instalados nas Índias, aborrecidos com a concorrência. Para lhes dar uma lição, Cabral resolveu apreender, saquear e bombardear uma nau mourisca que estava parada no porto. A represália não tardou. A feitoria portuguesa foi invadida, com saldo de cinqüenta mortos, incluindo seu chefe, Aires da Cunha (o filho dele, Antonio, de 12 anos, escapou por pouco), e o escrivão Pero Vaz Caminha. A reação de Cabral ao trágico massacre veio com força total. A frota portuguesa recebeu ordens de atacar dez naus mouras, fundeadas no porto, deixando cerca de 600 mortos. De quebra, bombardeou Calicute, destruindo parcialmente a cidade, com seus belos e frágeis palácios. Até o samorim, com sua corte, precisou fugir do canhonaço. Cabral mostrou força, sem dúvida, mas fechou uma porta para o comércio.

Para salvar a empreitada, Cabral seguiu rumo aos reinos vizinhos de Cochim e Cananor, inimigos de Calicute. A tática de explorar as rivalidades locais deu certo. Foi nesses reinos que a missão portuguesa estabeleceu relações comerciais, abrindo finalmente as portas do comércio com as Índias e suas perspectivas tão promissoras. Mesmo desfalcada, a frota de Cabral está voltando dessa primeira viagem abarrotada de especiarias – canela, gengibre e, principalmente, pimenta. Financeiramente, o capitão conseguiu com isso o saldo mais positivo da missão. O valor da quantidade de especiarias transportadas é suficiente para pagar três vezes o custo da viagem. E isso, afinal, é o que interessa.


Revista Veja

Descobrimentos - Uma terra grandiosa, um povo gentil

1° de julho de 1501
Retorno da Nau do capitão- mor Cabral confirma o achamento de terra imensa do outro lado do Mar Oceano

Uma terra imensa, coberta de matas verdejantes e cortada por rios de água muito doce, habitada por gente boa e inocente, que gosta de festa, de música e anda nua, exceto por magníficos enfeites de plumas, tão multicoloridos quanto os papagaios que voam entre os grandes arvoredos. Foi esse o mundo novo que se descortinou diante dos olhos da esquadra do capitão-mor Pedro Álvares Cabral no dia 22 de abril do ano passado. É essa a extraordinária notícia confirmada em detalhes na última terça-feira, 23 de junho, quando o navio do comandante embicou no porto de Lisboa. Gasta depois de tão longa viagem, velas esfarrapadas, tripulação pouca, a nau retornada trazia a boa nova e valorosos sobreviventes da armada que o rei dom Manuel mandou para as terras das Índias há mais de um ano. Ao entrar na Ribeira das Naus, entre os gritos de alegria da população, o capitão Cabral concluiu com sucesso a primeira missão militar-comercial de grande porte despachada pela Europa à rica Calicute e outras cidades das Índias. Mais extraordinário ainda foi receber de volta o comandante do descobrimento de uma terra desconhecida, um mundo virgem e pagão nas misteriosas bandas ocidentais do Mar Oceano.


Após o descobrimento, Cabral mandou de volta a Lisboa um de seus capitães, Gaspar de Lemos, a bordo de uma naveta, nove dias depois de avistado, na data que promete ficar memorável de 22 de abril de 1500, "um grande monte, mui alto e redondo, e outras serras mais baixas ao sul dele, e terra chã com grandes arvoredos, ao qual monte alto o capitão pôs nome o Monte Pascoal e à terra, a Terra da Vera Cruz". Assim relata a primorosa e detalhada carta redigida por Pero Vaz de Caminha, o escrivão da armada. Caminha, sabe-se agora, perdeu a vida no ano passado, impiedosamente massacrado, nas praias da cidade indiana de Calicute. Deixou, porém, a descrição minuciosa da terra, cujo nome já está sendo mudado para Santa Cruz.

Trata-se de terra povoada, habitada por gente de costumes diferentes e fala incompreensível, porém branda e alegre no trato. "A feição deles é serem pardos, maneira de avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem-feitos. Andam nus, sem nenhuma cobertura, e estão acerca disso com tanta inocência como têm em mostrar o rosto", anotou o escrivão. No breve período que lá passou a armada de Pedro Álvares, não trocaram palavra que se entendesse, mas deram e ganharam presentes. A carta de Caminha refere-se à vastidão de Santa Cruz, que os descobridores não concluíram ser ilha ou terra firme, embora a segunda hipótese pareça mais provável.

No momento, Vespúcio está a caminho da nova terra


Está viajando à nova terra, neste momento, uma nova frota. Seu objetivo é comprovar que Santa Cruz não é uma ilha, e sim massa de terra de grandes proporções. Sabe-se do objetivo da viagem graças aos comentários, feitos antes da partida, pelo navegante italiano Américo Vespúcio, comandante dessa empresa. Vespúcio não é nenhum novato. Já esteve navegando pelas águas e ilhas que o genovês Cristóvão Colombo desbravou, sob a bandeira espanhola, em sua memorável empreitada para o Ocidente em 1492. Da atual expedição portuguesa à Terra de Santa Cruz, que ainda tem muitos meses pela frente, certamente virá o enterro definitivo do mito ao qual se apega tão persistentemente o bravo navegante genovês – o de que as ilhas por ele descobertas, bem mais ao norte do Mar Oceano, fazem parte das Índias. Desde que Vasco da Gama chegou ao Oriente, navegando em direção oposta à de Colombo, aqui em Portugal se tem certeza do engano do genovês.

Quem se aglomerou na Praia do Restelo, às margens do Tejo, no domingo, 8 de março de 1500, para dar o último adeus à expedição cabralina poderia imaginar que a disposição das terras e águas do planeta, tal como a conhecemos, estaria perto de se tornar obsoleta? Ninguém, responderiam os mais apressados. Alguma idéia disso, no entanto, já se formava. Mais instigante ainda é a possibilidade, nada absurda, de que o capitão Cabral nem tenha sido o primeiro enviado português a deparar com o novo território. A política real, como se sabe, é a de tentar manter sob estrito sigilo informações estratégicas sobre rotas de navegação e descobrimentos de áreas até agora desconhecidas da cristandade. Fontes bem informadas, no entanto, dão a entender que Duarte Pacheco Pereira, o grande cosmógrafo e navegador embarcado na armada de Cabral, já a teria avistado, em expedição secreta que largou em 1498 por ordem expressa do rei. O próprio Duarte Pacheco já estaria rascunhando um estudo secreto de cosmografia e navegação no qual menciona uma "grande terra firme" – palavras textuais, diz quem teve acesso ao rascunho – que teria avistado na sigilosíssima missão.


Há mais. A se confirmar a vasta extensão da nova terra, foi outra região dela que chegou o sevilhano Vicente Pinzón, no período entre a expedição de Duarte Pacheco e a de Cabral. Navegante experiente, companheiro de viagem de Colombo, Pinzón cruzou o Mar Oceano no comando de quatro caravelas no período extraordinariamente curto de vinte dias e chegou ao que poderia ser a porção norte do novo território. Ao contrário da armada cabralina, encontrou habitantes hostis, o que abreviou sua estada em terra. De volta ao mar, prosseguiu pela costa, encontrou um rio imenso e seguiu viagem rumo ao norte. Quem conhece de perto os meandros da corte conta, em troca da garantia de anonimato, que dom Manuel mandou seu capitão-mor Cabral dar por descoberta a Terra de Santa Cruz em nome de Portugal por ser sabedor de que: primeiro, ela estava lá pronta para ser achada; segundo, a Espanha chegar à mesma conclusão era só uma questão de tempo.

Outra indicação de que a descoberta não foi por acaso são as instruções de viagem que o capitão recebeu, ditadas pelo almirante Vasco da Gama em pessoa. Gama orientou Cabral a, saindo do Tejo, tomar o rumo da Ilha de São Nicolau, nos Açores. Até aí, tudo dentro dos conformes. O truque já conhecido para escapar das intempéries que assolam a navegação na costa africana é sair para mar aberto, no rumo oeste, num vasto semicírculo, passando pelas ilhas açorianas, primeira parada das expedições.

Gama, no entanto, manda Cabral passar sem aportar. "Se ao tempo que aí chegarem tiverem água em abastança para quatro meses, não devem pousar na dita ilha nem fazer nenhuma demora", instrui. Cabral não parou – seguiu os ventos para o mar aberto e para a grande curva a oeste. Com um detalhe: por motivos que não explicou publicamente, seguiu muito além que o descobridor do caminho das Índias. De tanto abrir a curva, foi dar com os costados, literalmente, nas praias de um mundo novo. Seria então uma escala planejada? Confirmação oficial não existe, e talvez a dúvida permaneça por muito tempo. Para aumentar o mistério, sabe-se que mestre João Faras, médico do rei e conhecedor das artes da navegação pelas estrelas embarcado na armada de Cabral, também escreveu a dom Manuel para falar sobre a localização exata da nova terra. Bastaria, disse o reputado cientista, consultar o mapa-múndi que existe em Lisboa, em poder do navegador Pero Vaz da Cunha, vulgo Bisagudo. Ou seja, o território já seria não só conhecido como secretamente mapeado.

Pouco versado nas artes da cartografia, o escrivão Pero Vaz de Caminha, ao contrário, tem os olhos mais voltados para a paisagem humana e o cenário natural da terra encantada em que a esquadra aportou. O escrivão é todo surpresa e deslumbramento com as florestas, os rios, os bichos e, principalmente, as gentes. Com base na sua descrição, percebe-se que os nativos, de físico, se parecem com os das Índias Ocidentais – aqueles indivíduos que Colombo trouxe de volta e exibiu inclusive em Lisboa, na imprevista escala que aqui foi obrigado a fazer na sua primeira e difícil viagem de volta. A julgar pelo encontro inicial, os habitantes das verdejantes florestas da nova terra são pacíficos, gentis e hospitaleiros.

Com notável capacidade de observação, além da mente aberta para uma cultura desconhecida e diferente, o escrivão não escondeu sua admiração pela excelente forma física desses estranhos (e, principalmente, das estranhas) – nus, bem-feitos de corpos, cabelos longos raspados na fronte, cocares de penas na cabeça. Contou sobre sua moradia, em cabanas longas comuns a dezenas deles, e seu hábito de dormir em redes penduradas entre dois postes de madeira, com um fogo embaixo para aquecer. Encantou-se com comidas exóticas: "Um muito grande camarão e muito grosso, que em nenhum tempo o vi tamanho", e os "muito bons palmitos (que) colhemos e comemos deles muitos".

Com enorme curiosidade se aguarda a volta dessa segunda expedição à nova terra. Será ela abundante em ouro e riquezas? Será seu solo propício ao cultivo e à criação? Nosso escrivão não tinha dúvida: "A terra é de muitos bons ares, frescos e temperados. Águas são muitas, infinitas. Em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo". A primeira amostra dessa luxuriosa fertilidade já chegou a Portugal com a naveta de carga em que Gaspar de Lemos trouxe a notícia do achamento ao rei – troncos de brasil, a madeira cor de brasa que tinge de vermelho os finos tecidos de Flandres, da França e da Inglaterra.

Imaginar as maravilhas que tal descoberta pode envidar para a glória de Portugal, eis um exercício de virar a cabeça do cético mais empedernido. Fincar feitorias e garantir que embarquem em naus portuguesas a pimenta-malagueta, o gengibre, a canela, as sedas e as pedrarias das Índias é certeza de poder e riqueza ímpares. Controlar e prover a Europa dos escravos, do ouro e de metais preciosos da África é garantia de um inesgotável manancial de ricos tesouros. Mas tornar-se senhor absoluto de terras inexploradas, com tudo o que nelas se encontra em gente, animais, preciosidades, vegetação, rios e montes, é agigantar Portugal em escala nunca sonhada.

Só por isso certamente já terá valido a pena o grande investimento, humano e financeiro, representado pela esquadra de Cabral. Ao partir, a maior frota jamais montada nestas bandas tinha treze navios (nove naus bem armadas, três caravelas ligeiras e a naveta de carga), 200 homens, mais bagagens, víveres e armamento pesado. A financiá-la teve, mais que todos, os recursos do investidor florentino Bartolomeu Marchione, judeu convertido, um dos primeiros a pôr fé e ver fortuna na saga descobridora dos portugueses. Mais de 100 homens se empilhavam em cada nau – uns 30 metros de espaço útil rigidamente dividido de acordo com a hierarquia. Naufrágios e combates com forças hostis nas Índias (milagrosamente, a frota de Cabral foi poupada das doenças que grassam nas expedições marítimas, como o mal das gengivas e a fraqueza dos pulmões) cobraram o seu preço. Das doze naus que seguiram para as Índias, só duas voltaram até agora, a capitânia e a Anunciada, do mercador Marchione. Esperam-se para breve, por terem sido avistadas ou encontradas em Porto de Cabo Verde, outras quatro.

É esse o preço que pagamos por nos lançarmos ao mar, sempre para além de todos os limites conhecidos. Navegando águas tempestuosas, sob estrelas não mapeadas, plantamos uma fortaleza na África e abrimos caminho para as riquezas das Índias. Agora, temos diante de nós o mistério de uma nova terra, cuja vastidão apenas adivinhada nos tira o fôlego, em espanto. O que virá de tudo isso?

Um equpe Multinacional

Na esquadra, espanhóis, judeus, um africano e até indianos

O comando dos 200 homens da armada confiada ao capitão Pedro Álvares Cabral foi entregue a fidalgos de espírito aventureiro e sede de fortuna, como é de hábito. As coisas práticas da marinharia ficaram a cargo de navegadores de conhecimentos incontestáveis, como o tragicamente falecido Bartolomeu Dias, e seu irmão Diogo e Nicolau Coelho. A gente de mar e de guerra veio dos campos lusitanos, tradicionais fornecedores da mão-de-obra dos desbravamentos. É interessante notar, ainda, que a grande quantidade de estrangeiros atraídos para Portugal pelo avanço incontestável da navegação nacional também estava bem representada entre a tripulação que viu nascer a nova terra aos olhos europeus.

Sancho de Tovar, o subcomandante, é fidalgo castelhano, com história de honra e vingança típica de nossos esquentados primos do outro lado da fronteira – ele matou o juiz que sentenciou seu pai a ser degolado, por causa de uma disputa política com os monarcas espanhóis. Refugiado em Portugal, a Sancho coube a honra da soto-capitania da armada de Cabral. Dois judeus estrangeiros também estavam presentes na equipe multinacional. Um é o castelhano João Faras, médico do rei e cosmógrafo. Outro, por nome Gaspar, é hoje figura imprescindível nos tratos marítimos de Portugal. Vivia já há muitos anos na Índia quando se aproximou de Vasco da Gama, dizendo ser cristão. Apareceu bem vestido, simpático e insinuante, tanto que, mesmo confessando depois ser judeu, procedente da Polônia, caiu nas boas graças de Gama: batizado, dele ganhou o seu sobrenome. Gaspar da Gama, ou Gaspar da Índia, fala as línguas e conhece como ninguém os usos e costumes das Índias. Foi ouvido atentamente por Pedro Álvares, com quem embarcou, como conselheiro e intérprete.

Igualmente foi de valia um grumete negro, cativo da Guiné, nos contatos com os habitantes de regiões africanas O descobrimento da nova terra foi testemunhado ainda por um cinco habitantes das longínquas Índias, embarcados na viagem pioneira de Vasco da Gama para aprender as coisas de Portugal, que voltavam para casa com Cabral.

O rei que deu muita sorte

Soberano por acaso, dom Manuel abre as portas para um novo país

Venturosíssimo dom Manuel! Ascendeu ao trono de Portugal por pura obra do acaso – nono filho do irmão mais novo do rei Afonso V, suas chances de ganhar a coroa eram nulas, mas acabou por se beneficiar das reviravoltas políticas e da seqüência de mortes que tiraram de seu caminho todos os rivais. Investido do título e do poder real em 1495, em três anos já entrava para a História, quando o navegador Vasco da Gama abriu o caminho oceânico para as pedrarias e especiarias das Índias. Com o regresso, na semana passada, das primeiras naus da esquadra de Pedro Álvares Cabral, dom Manuel, rei por acaso, alcançou o pináculo almejado por toda uma linhagem de ambiciosos monarcas portugueses.

Aos 36 anos recém-completados, el rei tem sob seu controle, com certeza, mais volume de informação sobre a arte da navegação e sobre as manhas do Mar Oceano do que qualquer pessoa no mundo cristão. Sua coleção de títulos, embora um tanto pretensiosa, dá uma boa idéia do alcance da expansão portuguesa: ele é dom Manuel I, rei de Portugal e dos Algarves, d'Aquém e d'Além-mar em África, senhor da Guiné e da Conquista, Navegação e Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia.

Mais escolado no jogo do poder, nesses cinco anos de reinado dom Manuel aprendeu a movimentar-se nos meandros da política palaciana, e governa hoje com a desenvoltura de um soberano que se sabe poderoso e influente. Lembra menos o jovem recém-coroado que mandou trasladar o caixão do poderoso antecessor, dom João, e no caminho abriu o féretro para contemplar o corpo coberto de cal, pensando talvez em emular sua grandeza. Como ele, tem tino para os negócios e está sempre pensando no lucro – instruiu Pedro Álvares Cabral a dizer ao soberano indiano que pagaria menos pelas mercadorias compradas, mas "há de ser a quantidade tanta que lhe rendam os seus direitos muito mais do que agora rendem". Um tanto demorado nas decisões, cedeu às exigências da política e dos sogros espanhóis, ao decretar a expulsão dos judeus portugueses não convertidos (veja reportagem). Seu reinado carrega essa mancha, mas no momento o Venturoso e tantos de seus súditos só têm cabeça para as fortunas que o comércio com as Índias promete.

Revista Veja

Descobrimento - Admirável mundo novo

1° de julho de 1501
Nesta era das navegações, velhos dogmas desabam e as fronteiras do conhecido são empurradas

Que tempos extraordinários estamos vivendo, nesta metade do segundo milênio da era cristã. O mundo que conhecemos muda à chegada de cada nau que sobrevive aos perigos das expedições marítimas. Carregadas de ouro da Guiné ou de pimenta das Índias, as embarcações trazem uma mercadoria mais preciosa ainda: a informação. É com base nela que sabemos como as fronteiras do planeta se alteram, abarcando confins nunca dantes imaginados. Dogmas antigos desabam, o que parecia sólido se desmancha no ar. Com um misto de espanto diante das velhas certezas desmentidas e orgulho com os feitos desta era dos descobrimentos, o novo se instala, em nossos mapas e em nossa mente. O retorno da nau do capitão-mor Pedro Álvares Cabral, enviado em missão às Índias, marcou na semana passada um desses momentos históricos, cujo alcance mal começamos a imaginar. Na viagem de ida ao Oriente, a esquadra de Cabral aportou numa terra desconhecida, na misteriosa banda ocidental do mar Oceano. Suas dimensões ainda são ignoradas, mas o rei de Portugal já pode acrescentar a seu patrimônio, em bens e títulos, mais um troféu.

A nova terra empurra mais para adiante ainda os limites do mundo desbravado nas últimas décadas pelos navegadores. Inéditas na história humana, por suas proporções, as conquistas da navegação nasceram da necessidade: conseguir acesso alternativo às riquezas do Oriente, bloqueadas por terra pelos países onde reina a bandeira do Islã. Para forjá-las, combinaram-se à expectativa de lucro – esse elemento tão incentivador – a audácia de desafiar o desconhecido, um sincero desejo de propagar a fé cristã e os avanços tecnológicos que nos permitem navegar em mar aberto. Foi assim que rompemos as barreiras da geografia e da própria mente. Basta olhar como pensávamos ser o mundo até pouco tempo atrás: os mares não se comunicavam, a maior parte do planeta era coberta por terra, ninguém jamais sairia com vida da zona tórrida que inflamava a linha do Equador. A idéia de existir gente habitando o outro lado da Terra, os chamados antípodas, desafiava a própria Bíblia (pois não podiam ser descendentes de Adão). Quem a defendesse, mais do que ao ridículo intelectual, se arriscava à fogueira da Inquisição.

Todas essas certezas foram demolidas. Há treze anos o navegador Bartolomeu Dias contornou a ponta da África; Vasco da Gama levou a viagem até as Índias a bom termo uma década depois. Entre os dois, o genovês Cristóvão Colombo, embora imaginasse erroneamente estar chegando às Índias, aportou numa nova terra, muito parecida com a encontrada ao sul do Equador por Pedro Álvares Cabral. O novo mapa-múndi, que já começa a ser traçado pelos cosmógrafos, saiu da experiência desses homens, não de suposições baseadas em ensinamentos nunca comprovados ou interpretações teológicas.

Temos hoje a inebriante sensação de que podemos dominar esse admirável mundo novo e devassar os mistérios da natureza. Ao lado das expedições marítimas, acontecem outras viagens em direção ao conhecimento e à ruptura com o que parecia intocável. Ancorado na Itália, um movimento de renascimento cultural, de caráter humanista, irradia-se pela Europa. Lideranças da Igreja são alvo de críticas sem precedentes à sua corrupção, licenciosidade e afastamento das bases da doutrina cristã. A estrutura do corpo humano é dissecada nos estudos de anatomia, em benefício dos médicos e dos artistas. Pintores geniais, como o florentino Leonardo da Vinci, avançam na ciência da perspectiva, abrindo com suas obras janelas para um mundo em mutação. Com os progressos da imprensa, a divulgação do conhecimento é cada vez mais rápida.

Espremido no canto ocidental da Europa, pequeno, sem grandes riquezas, Portugal está plantado no centro dessas revoluções. Foi aqui que brotou o ímpeto de nos lançarmos aos mares desconhecidos e aqui se desenvolveu a ciência náutica que por eles nos conduz. Homens humildes, analfabetos, transformam-se em gigantes da navegação. Fidalgos habituados às doçuras da vida na corte enfrentam os perigos, as doenças e as misérias do cotidiano de bordo. Navegadores consagrados, que poderiam deitar-se sobre os louros das conquistas já alcançadas e das generosas pensões reais, fazem-se ao mar novamente. Querem ir além, sempre mais adiante. Se mais mares houver, nunca antes navegados, lá chegarão.

Revista Veja

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Companhia das Índias, grande negócio em muitas versões

O mundo ávido por sedas, porcelanas e especiarias comprava tudo o que vinha do Oriente, nos navios holandeses, ingleses, franceses que se lançaram à mesma aventura em diferentes momentos
por Bernadette de Castelbajac

Ilha de Deshima, na baía de Nagasaki, no Japão, uma das mais movimentadas bases comerciais dos holandeses

Jean Hugues van Linschooten voltou para a Holanda, seu país natal, em 1593. Ele chegava de Goa, então a capital das colônias portuguesas do Oriente, onde ocupara a função de secretário do arcebispado. O retorno desse modesto funcionário a Amsterdã poderia ter passado despercebido a seus contemporâneos caso o viajante, ainda maravilhado por tudo o que vira, não tivesse redigido uma obra intitulada Itinerário, viagem ou navegação às Índias Orientais.

Era uma verdadeira mina de informações sobre as fabulosas riquezas desses lugares longínquos, acrescida de uma lista de plantas e animais extraordinários que lá existiam e complementada por mapas, desenhos e anotações, de maneira a permitir uma navegação bastante segura a quem se aventurasse pela rota.

O autor incitava seus compatriotas a organizar expedições para o Leste, sem esquecer Java, "uma ilha ainda não freqüentada pelos portugueses, onde abundam diamantes, incenso e especiarias". Nessa época, Portugal e Espanha captavam em seus portos de Lisboa e Cádiz a maior parte das riquezas vindas do Oriente.

Franceses, ingleses e holandeses se deslocavam até essas bases de comércio para adquirir as mercadorias que depois distribuíam em seus respectivos países.

O livro de Linschooten caía muito bem naquele momento. Como as Províncias Unidas (sete territórios protestantes na região da Holanda) acabavam de proclamar sua independência, o rei espanhol Felipe II punia os rebeldes, organizando um bloqueio de seu comércio. A partir de então, os mercadores holandeses não poderiam mais fazer transações comerciais com Espanha e Portugal, o que significava a morte de seus negócios.

Em vez de iniciar uma guerra, atitude mais comum a reis que a mercadores, estes decidiram procurar seu frete na fonte, ou seja, nas Índias. Os relatos de Linschooten encantavam sua imaginação, e a chegada a Amsterdã de Cornelius Houtmann, que conhecia as rotas marítimas por haver navegado com espanhóis e portugueses, precipitou os acontecimentos. Houtmann propôs seus serviços. Afinal, ele era bem versado nas astúcias dos negócios com os orientais, e mostrava-se ansioso para oferecer aos holandeses essas maravilhas, já que amargava uma desagradabilíssima lembrança das prisões portuguesas nas Índias, onde tinha passado uma temporada por razões nunca mencionadas.

Nove mercadores de Amsterdã se associaram, fundaram uma pequena companhia e nomearam Houtmann como diretor comercial. A expedição partiu em 1595. Essa primeira campanha foi uma sucessão de tempestades, batalhas, traições, lutas contra os portugueses, pouco habituados a encontrar rivais em seus campos de caça, enfim, um desastre. Dos 250 homens que tomaram parte da empreitada, apenas 90 retornaram. Mesmo assim, os negociantes não se desencorajaram: "Nós, gente de Amsterdã", declarou friamente seu poeta Joost Van den Vondel (1587-1679), chamado o príncipe das letras holandesas, "vamos a qualquer lugar onde possamos ganhar dinheiro, em todos os mares, em todos os rincões. Por amor ao ganho, exploramos os portos desse vasto mundo".

Pérfido ataque
A segunda tentativa, sob a autoridade do capitão Jacob van Neck e de Balthazar Moucheron revelou-se produtiva e fez seguidores. Conscientes desse vasto mercado que se oferecia àqueles que soubessem defender seus interesses, esses empreendimentos se agruparam e, em 20 de março de 1602, foi fundada a Vereerigde Neederlandstche Geocitoyeerde Oast Indische Compagnie, mais conhecida pela sigla V.O.C. A sede da Casa das Índias Orientais era em Amsterdã, e a empresa, dotada de um capital de 6, 3 milhões de florins, divididos em 2.200 ações.

Ela organizava o mercado de trocas, equipava os navios, regulava as expedições e as vendas, correspondia-se com suas sucursais, fixava o montante dos dividendos para os acionistas. Uma organização acima da média, transformada em líder entre todas as outras companhias, permitindo-lhe no século XVII lançar ao mar de 30 a 35 embarcações por ano. Foi dissolvida em 31 de dezembro de 1799, depois de uma série de atribulações, além da concorrência dos empreendedores britânicos.

Os ingleses, com seu costume de ter os olhos fixos no horizonte, já tinham tomado a iniciativa do comércio direto com o Extremo Oriente. Em 1600, ainda entusiasmada pela derrota infligida à Invencível Armada de Felipe II da Espanha, a rainha Elisabeth I concedeu um monopólio de comércio à Company of Merchants of London Trading to the East Indies. A guerra contra a Espanha tinha cortado todo o abastecimento de pimenta, antes carregada em Lisboa, e foi essa iguaria, cujos preços nas partidas comercializadas pela Holanda haviam explodido, que levou os londrinos a criar sua própria companhia.

O capitão John Davis, que havia viajado com os holandeses à Malásia, foi nomeado piloto-chefe dos três navios que formavam a frota mercante. A rainha lhe dera uma carta destinada a "todos os soberanos dos reinos além do cabo da Boa Esperança", a quem pedia "uma boa acolhida aos ingleses, que seriam sempre justos e corteses, fornecendo mercadorias de maior qualidade do que aquelas levadas pelos espanhóis e portugueses".

No final de sua mensagem, ela lançava um pérfido ataque contra os concorrentes, os portugueses "que tinham se julgado mestres soberanos de vossos territórios, considerando vosso povo como seus súditos, assumindo o direito de se dizer reis das Índias Orientais". Essa nota é realmente surpreendente quando pensamos que, menos de três séculos mais tarde, a rainha Vitória seria imperatriz das Índias.

Cartas falsas
A companhia inglesa fazia pífia figura comparada à holandesa. Esta começava seus trabalhos com um capital de 6,3 milhões de florins fornecidos pelos burgueses de Amsterdã e das grandes cidades das Províncias Unidas, enquanto a inglesa, com 208 associados, dispunha inicialmente de apenas 30.133 libras esterlinas, capital rapidamente elevado a 70 mil, depois a 80 mil. Em suma, ao câmbio da época, tal soma era 13 vezes menor que os fundos de caixa holandeses.

A missão de um navio da Companhia das Índias durava muitos meses. Às vezes a embarcação só voltava ao porto de origem dois anos depois da partida, pois, além de as negociações comerciais no Oriente serem muito demoradas, era preciso esperar por ventos favoráveis para tomar o caminho de volta. Desde os portos do noroeste da Europa até Cantão, situa-do na costa chinesa, na embocadura do rio das Pérolas, um grande centro comercial, contam-se de 15 a 16 mil milhas.

A partida da Europa dependia da data das monções. Levava-se quatro meses para atingir o cabo da Boa Esperança e, para passar por esse temível promontório na época propícia, era neces-sário sair da Europa no inverno, entre dezembro e março. A chegada a Cantão, ou mais exatamente a Wampu ou Huang Fu, acontecia, na melhor das hipóteses, no final do verão ou no início do outono, geralmente em setembro. A monção continental que se inicia em outubro levava os navios na direção do cabo.

Além das circunstâncias imprevisíveis que sempre acompanham as expedições no mar, esses navios mercantes não dispunham de cartas marítimas elementares. Os portugueses guardavam em segredo as anotações feitas por seus capitães.

Chegariam ao ponto de falsificar algumas delas, assim como fariam os holandeses mais tarde, deixando-as "escapulir" para as nações concorrentes, na intenção de provocar desastres ou naufrágios, dos quais tiravam, evidentemente, total benefício.

Iniciava-se uma sanguinária competição entre as nações inglesa e holandesa pela outorga de mercados, monopólios e tratados com os soberanos orientais.

Os católicos portugueses "importavam", digamos assim, missionários jesuítas, e tinham se apoderado dos estoques de ouro, púrpura, algodão e especiarias com suas sucursais bem protegidas por torres fortificadas em uma grande área do oceano Índico.

A V.O.C., que iniciou seus trabalhos mais tarde que os portugueses, teve prosperidade meteórica, eliminando-os em quase todos os lugares e implantando-se nas Índias. Afastou os ingleses das famosas ilhas das especiarias, conhecidas como as Molucas, criou agências na ilha de Banda e fundou Jacarta, que se tornou importante centro comercial de intensas atividades, além de deter a exclusividade de transacionar com o Japão. Em 1625, o holandês Jan van Riebeeck fundou a Cidade do Cabo, próxima ao cabo da Boa Esperança, escala de capital importância na rota das especiarias. A colônia holandesa do Cabo cairia em mãos dos ingleses um século e meio mais tarde.

Os ingleses não ficaram parados. O início fora decepcionante: chegaram a ser repreendidos pela rainha, que acusava os dirigentes da companhia de não respeitar a carta que lhes fora outorgada, que previa, entre outras coisas, uma viagem anual às Índias. Ora, em três anos, apenas uma expedição tinha sido realizada, e Elizabeth os aconselhou com amargura a "seguir o exemplo dos holandeses".

Em 1604, a East India Company nomeou Henry Middleton chefe de uma nova frota que se dirigiu às ilhas das especiarias. Essas pequenas Molucas eram objeto das ambições de portugueses e holandeses, dos quais os indígenas, divididos por lutas internas, deveriam se defender. Choviam denúncias de parte a parte. Os holandeses insistiam em que os ingleses eram todos "ladrões e bandidos", e estes últimos acusavam a Holanda de ser "uma nação insolente e falastrona, cuja conduta faz imaginar o que se passará caso ela obtenha a supremacia das Índias Orientais".

O rei de Ternate, que era de fato o soberano de todas as Molucas, não pôde fornecer as especiarias pedidas pelo capitão Middleton, pois os holandeses tinham um contrato exclusivo com ele.

Entretanto, essas desventuras duraram pouco. A Old Lady, apelido carinhoso dado à companhia inglesa a partir do momento em que começou a fazer grandes negócios, obteve considerável progresso. Surate tornou-se sucursal comercial inglesa, seguida de Agra, capital do império Mugal (dinastia muçulmana que reinou na Índia de 1526 a 1858), e Ahmedabad, na antiga rota que ligava Bombaim e Délhi. O rei da Inglaterra, Jaime I, enviou um embaixador à corte Mugal e obteve um vantajoso tratado comercial.

O sultão de Golconda, país dos diamantes, seguiu o mesmo caminho em 1632. A companhia fez adotar sua moeda em todo o império e, na segunda metade do século XVIII, havia praticamente eliminado das Índias suas concorrentes portuguesa e holandesa. Esta, no início daquele século, já combalida pela guerra de sucessão da Áustria, depois pela Guerra dos Sete Anos, e por fim pela guerra contra a Inglaterra (1780-1784), igualmente enfraquecida pela política protecionista de Colbert - seguida por ingleses, russos e dinamarqueses -, não encontrava mercado suficiente para negociar suas importações. O declínio se acelerava. Seus últimos navios, o Vertrouwen, o Louisa Anthony e o Jonge Bonifacius, foram saqueados e afundados pelos ingleses em 1795. Quatro anos mais tarde, a companhia foi dissolvida. A França estava bastante atrasada na corrida aos tesouros asiáticos.

Pequenas companhias privadas tinham, efetivamente, se lançado à grande aventura das especiarias, e Henrique IV não era indiferente a suas tentativas, embora os lucros obtidos não fossem suficientes para encorajá-los a uma empreitada mais séria. Por fim, Jean-Baptiste Colbert, considerado o mago das finanças do século XVII, homem de visão muito ampla, inspirando-se na companhia holandesa, fundou uma Companhia das Índias Orientais, que o rei homologou em maio de 1664.

A direção geral ficava em Paris, no local onde se encontra atualmente a sede histórica da Biblioteca Nacional, que em princípio deveria ter um capital de 15 milhões de libras, mas que, de fato, mal passava dos 8 milhões de libras. A região de Faouëdic, na Bretanha, situada na embocadura do rio Scorff, foi concedida à companhia para construir seus entrepostos, estaleiros e depósitos. Muros foram erguidos e o local foi apelidado pelos bretões de Lan-Bras-en-Orien, depois l\\'Orient e, finalmente, Lorient. Entretanto, as vendas dos carregamentos vindos do Levante eram feitas em Nantes até outubro de 1734 quando, para desespero dos locais, foram transferidas para Lorient.

Os primeiros anos da companhia não foram nada brilhantes. Os comerciantes franceses hesitaram em aderir, e as guerras contra Holanda e Inglaterra repercutiram até no oceano Índico, onde as frotas mercantes combatiam entre si numa luta sem lei. Liquidada em 1684, a companhia renasceu de suas cinzas em 1723, seguindo até 1744, depois desapareceu para de novo subir à tona, alternando períodos curtos relativamente prósperos e anos negros. Por fim, sob o nome de Nova Companhia das Índias, teve seu fechamento decretado pela Assembléia Constituinte em 1790.

Mesmo assim, as horas heróicas dessa empresa tiveram lugar de destaque. Nomes como Joseph Dupleix, que partiu a serviço da Companhia das Índias em 1720 e estabeleceu uma política de conquistas, ou o mais modesto mas não menos valoroso Pierre Poivre, que transformou as ilhas de France e de Bourbon (atuais ilhas Maurício e da Reunião, respectivamente) em verdadeiros paraísos, deixaram uma marca duradoura nesses países longínquos.

Segundo Voltaire, "a Companhia das Índias nunca soube fazer a guerra, nem a paz, nem o comércio". Um comentário bem inconseqüente. Mas o fato é que, face à temível Inglaterra, que se enraizava cada vez mais no Oriente pouco restava à França além das duas províncias de Bengala e do Malabar, Mahé e a ilha de Pondichéry, da qual dependiam as sucursais comerciais de Karical, Masulipatão, Yanão e Surate. Quase nada comparado ao fabuloso império que o governador geral Dupleix, das possessões francesas da Índia, gostaria de oferecer a seu país.

A companhia possuía cerca de 30 navios, número que passou a 37 em 1757, dos quais os maiores, como Le Condé, Le Centaure, La Chine e Le Robuste chegavam a 1.500 toneladas. Cerca de três a quatro navios desapareciam por ano, entre 1723 e 1744. Nesse período, o tráfego de navios foi irregular, até mesmo em extremos: do total de embarcações, 35 fizeram 61 viagens de Lorient às Índias e à China; outros 19 percorreram a rota só uma vez, oito trafegaram duas, seis fizeram três e somente dois, quatro viagens. Essa média tão baixa pode ser atribuída a diferentes fatores.

Além das tempestades, de encalhes devidos à má previsão de rotas, um grande número de barcos foi capturado ou incendiado, e outros foram retirados de circulação.
Nas 14 mil viagens ao Oriente efetuadas em três séculos, pelas diferentes versões da Companhia das Índias, 1,5 milhão de homens não voltaram mais. Muitas vozes se ergueram contra esses empreendimentos, cujas frotas enviadas pela Inglaterra, por Portugal e pela Holanda sugavam todo o dinheiro da Europa para "comprar mercadorias inúteis". Na verdade, seus lucros fabulosos e seu poder inquietavam as nações. A partir de 1874, a Inglaterra não renovou mais a carta da East Company.

A miragem dourada que fascinou nobres e comerciantes europeus
Bem antes da criação das companhias, navios mercantes de todas as bandeiras se lançavam em expedições longínquas. Desde o século II, o imperador da China enviava caravanas que, ao passo lento de 50 a mil camelos, partiam de Touen-Houang e chegavam, por um caminho ou por outro, ao Mediterrâneo. Seus carregamentos faziam muita gente sonhar, já que esses países banhados pelo oceano Índico e pelo mar da China eram um Éden riquíssimo e quase inacessível aos ocidentais.

Nos mapas-múndi de Jacomo, geógrafo do rei de Aragão, figuravam estas palavras perto do cabo Noun, no Marrocos: "Aqui termina o mundo conhecido". Isso, no século XIV. A partir da aceleração das trocas devida à descoberta das rotas marítimas, comerciantes europeus disputam entre si pedras preciosas, porcelanas, ervas aromáticas e especiarias, assim como seda e madeiras exóticas.

Entre as pedras preciosas, as principais eram rubis, esmeraldas e, sobretudo, diamantes. Os diamantes de Golconda ainda são inigualáveis pelo tamanho e pureza. O mais bonito, com 136 quilates, trazido pelos holandeses, foi comprado em 1717 pelo regente francês, o duque de Orléans, quando Luís XV ainda era criança. Era chamado de Le Regent e foi depois incrustado na espada que Napoleão portou em sua coroação. Já uma especialidade dos judeus de Amsterdã, o comércio de diamantes se tornou importante fonte de prosperidade para a Holanda.

Desde o século XVI, as naus portuguesas traziam uma porcelana com decoração "azul e branca" fabricada na época da dinastia Ming. O principal importador era a Suécia, cuja modesta companhia - pois a Suécia, assim como a Dinamarca e os Estados Unidos criaram suas próprias companhias das Índias - lucrava mais, ou pelo menos o equivalente, do que as companhias inglesa e holandesa juntas. Estima-se em 20 mi-lhões o número de peças de porcelana adquiridas pela Suécia. Elas eram vendidas a preços de tal forma baixos que chegavam a ser usadas em funções jamais imaginadas quando de sua manufatura: fazendeiros e vendedoras de leite guardavam nelas seu leite, ou davam banho em seus recém-nascidos em vasilhas feitas para acondicionar peixes. Entre as curiosidades, nota-se também: "um penico sem tampa: 150 centavos; com tampa: 2,57 coroas". Um jogo de 221 peças custava 150 coroas.

Os colecionadores eram numerosos - Carlos I, da Inglaterra, e Jaime II fazem parte do grupo, assim como o ministro Pitt, o duque de Chaulnes, Madame de Pompadour. A favorita do rei da França possuía dois jogos completos, um azul e branco e outro multicor. A moda da época reza que se devia encomendar um jogo inteiro, que era entregue na Holanda e decorado pelos holandeses segundo o gosto do comprador. Os armadores encomendavam os seus com barcos ou cenas marítimas, naufrágios, construções de navios, portos, passagens pelo cabo da Boa Esperança.

Especiarias e ervas aromáticas eram objeto de extraordinária procura, pois eram indispensáveis à conservação das carnes, e igualmente à fabricação de ungüentos miraculosos, bálsamos, pomadas e perfumes. A pimenta, à qual se atribuía "uma malícia escondida", era cortejada a ponto de se tornar moeda de troca na França e mais ainda na Inglaterra. Muito procurada, igualmente, era a canela, "que conforta o cérebro" e "desperta o amor lânguido e rebelde", a noz-moscada de Banda, o cravo, indicado para a cura da hidropisia e da surdez, o anis-estrelado, a cânfora, o almíscar, a cebolinha. São incontáveis esses produtos, alguns deles curiosos, como as conchas de cauris, pequenos moluscos colhidos nas praias que serviam de moeda para a compra de escravos na Guiné.

E, à parte, apareceu o chá, que a Holanda tratou de colocar na moda no começo do século XVII. Inicialmente adotado para lutar contra o abuso do vinho, essa bebida era muito recomendada aos chefes de Estado. "Os altos e poderosos senhores, carregando o peso de cem mil preocupações que dizem respeito à confusa situação da Europa se beneficiariam tomando a infusão para conservar a saúde", diziam os médicos. Depois, os ingleses o adotaram, bebendo-o em enormes quantidades, equipando seus veleiros especialmente para buscar a erva na China e aproveitando para trazer clandestinamente o ópio.

Nesses enormes carregamentos que desembarcavam na Europa, boa parte era composta de tecidos. A seda, o nanquim, tecidos com nomes deliciosos como gorgorão, tafetá, pequim (tipo de seda chinesa usada em forrações) liso ou listrado, cetim, bordados de ouro e de prata de Bengala estariam por um bom tempo na moda. As mulheres se cobriam com maravilhosos xales vindos da Caxemira, que, de tão finos e leves, passavam por dentro de um anel. A imperatriz Josefina tinha uma impressionante coleção deles. Os vestidos confeccionados com os tecidos vindos do Oriente eram conhecidos por durar de oito a dez anos "com honra, podendo ser lavados e desengordurados todos os anos, renovando-se como quando foram usados pela primeira vez".

Revista História Viva

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

A primeira viagem de Vasco da Gama à Índia


A primeira viagem de Vasco da Gama à Índia
Famintos e pobres, os portugueses foram tratados como mendigos
por Fábio Pestana Ramos*
Trinta mil quilômetros, fome e terríveis doenças para buscar pimenta, cravo, gengibre e uma pitadinha de açafrão. Pode parecer uma receita salgada demais, mas valia a pena. Lucros de 21000% esperavam os portugueses que, nos séculos 15 e 16, se aventuravam a atravessar o mundo em busca de especiarias na Índia. Pimenta e companhia eram produtos de primeira necessidade para disfarçar o gosto da carne salgada ou defumada (e às vezes meio podre) que os europeus eram obrigados a consumir durante o inverno. É que a falta de pastos os forçava a matar todo o gado no outono e depois não havia como conservar tanto bife. Por isso, quando navios abarrotados de especiarias chegavam, os navegadores eram bem recompensados. E eles faziam por merecer. Além da miséria em alto-mar, eles penavam em terra, pois no Oriente eles não eram recebidos como semideuses, como aconteceu no Brasil. Na primeira viagem de Vasco da Gama a Calecute (hoje Calcutá), em 1498, sua tripulação teve que mendigar comida e por várias vezes foi espezinhazada pela corte indiana.

Com a ajuda de um “língua” (um tradutor), o capitão-mor português se apresentou na Índia como embaixador do rei de Portugal, entregando duas cartas de dom Manuel ao samorim, o soberano que controlava a produção de especiarias. Ele contou uma deslavada mentira: disse que o rei português era senhor de terras e possuidor de infinita quantidade de ouro e prata. A tática funcionou. O indiano firmou um termo de paz, mas logo percebeu a real condição financeira dos portugueses.

Em troca da pimenta, Vasco da Gama enviou à corte indiana quatro capuzes, seis chapéus, quatro ramos de coral, um fardo de bacias e quatro barris cheios de azeite e mel. A reação dos indianos, diante das quinquilharias que fariam a alegria dos nativos da América, não poderia ter sido pior. Os emissários do samorim começaram a gargalhar ao ver as bugingangas, dizendo que aquilo não se igualava à oferta do mais pobre mercador de Meca. Os portugueses tentaram consertar a situação, enviando ao samorim uma imagem de Santa Maria. Diante do objeto, ele teria perguntado com desdém se a santa era feita de ouro. Único referencial que regulava o intenso comércio do oceano Índico, o metal era escasso aos portugueses.

Um massacre só não aconteceu porque os indianos não perceberam uma ameaça nos estranhos esfarrapados. O soberano indiano autorizou os portugueses a negociarem o que traziam pelo melhor preço que conseguissem, mas isso não ajudava muito. Além de suas mercadorias não valerem quase nada frente às especiarias, a tripulação lusitana estava morrendo de fome. Para garantir o sustento de seus homens, Vasco da Gama ordenou que todos os tripulantes da armada fossem à terra e comprassem o que quisessem com recursos próprios. Sem dinheiro, os portugueses foram tratados como pedintes. Esfarrapados, desnutridos, feridos e mal pagos, falando uma língua estranha, os orgulhosos servidores da Coroa (a mesma estirpe que dois anos depois descobririam o Brasil), foram alimentados pela generosidade daqueles que olhavam com pena para o seu estado lastimável.

Com uma boa conversa, muitas promessas e explorando as inimizades regionais, os portugueses conseguiram um acordo com líderes rivais do samorim para retornar a Lisboa levando especiarias.

Vasco da Gama retornou à Índia, em 1502, para acertar os acordos que fez. Logo ao chegar, enforcou 50 pescadores que encontrou nas redondezas. Mandou esquartejá-los, cortou seus pés e suas mãos, e enviou tudo ao samorim com uma carta que dizia ser aquele um presente que sinalizava o pagamento que faria por mais especiarias. Em seguida, abriu fogo contra Calecute, mostrando que não estava brincando. Foi um estrago. Vasco da Gama conseguiu um acordo vantajoso que garantia o fornecimento de especiarias. E os portugueses passaram de mendigos dignos de pena a temíveis inimigos.

* Fábio Pestana Ramos é doutor em história social pela USP, professor titular de sociologia da Uniban e autor do livro No tempo das especiarias (Contexto).

Revista Aventuras na Historia