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domingo, 9 de abril de 2017

6 coisas que você não sabia sobre a Idade Média



Caravaggio (1571-1610) (Foto: Wikimedia Commons)
 
O pão podia dar barato, futebol era ilegal e mais...
Ana Freitas

Você assiste "Game of Thrones", "Vikings", lê "Senhor dos Anéis" e, por causa disso, constrói um monte de suposições sobre a Idade Média. Além disso, tem tudo aquilo que a gente aprendeu nos livros da escola e, em alguns casos, o senso comum dos filmes e dos contos de fadas. Mas os mitos sobre a Idade Média são muitos, sem contar as coisas que a gente não faz ideia mas eram uma realidade naquela época.

Cavaleiros reais não eram bastiões da ética e heroísmo

Todo mundo pensa nos cavaleiros como os grandes heróis de alma nobre e ética social da Idade Média. Nesse caso, Game of Thrones está mais próximo da realidade: não era incomum que cavaleiros saqueassem vilarejos, assassinassem inocentes e estuprassem mulheres.

Futebol era ilegal

Na Inglaterra medieval, um esporte chamado 'mob football' foi proibido por causa da zona que causava. O jogo podia ser jogado por um número ilimitado de jogadores, a bola era uma bexiga de porco (argh) e as regras eram... bom, quase não havia regras. E se o futebol hoje, cheio de regras e só com 11 jogadores, já é capaz de desencadear caos, imagina nesse contexto.

O pão podia dar barato - ou pior, te matar

No verão, os grãos eram escassos - a colheita anterior estava chegando ao fim, mas a nova ainda não estava pronta pra ser colhida. Trigo velho era usado pra fazer pão, e esse trigo às vezes era infectado com ergot, um fungo que, se ingerido, provoca efeitos parecidos com LSD ou até mata em casos extremos.

Eles não bebiam só cerveja

Você já deve ter ouvido falar que na Idade Média só se bebia cerveja ou vinho, já que a água mesmo era imprópria para consumo. É uma ideia engraçada pensar que durante séculos todo mundo viveu bêbado o tempo todo, mas de acordo com alguns historiadores, é só uma lenda. As pessoas tinham métodos pra conferir se a água era pura e por isso tomavam água, sim, mas também bebiam bastante cerveja, mais comum entre os camponeses, e vinho, consumido pela nobreza.

As pessoas não fediam tanto quanto você pensava

A limpeza do corpo, na Idade Média, estava associada com a limpeza da alma. Alguns historiadores dizem que acreditava-se que pessoas sujas eram pecadores. Como o catolicismo imperava, as pessoas se mantinham bem limpinhas. Banhos públicos eram comuns e também era um costume tomar banho junto com convidados, por exemplo. E as pessoas também escovavam os dentes usando alecrim queimado. O motivo: se dor de dente já é difícil em 2014 com anestesia, imagina naquela época?

Animais podiam ser julgados e condenados por crimes

Não era raro que animais fossem julgados e condenados por matar pessoas ou outros crimes, como estragar plantações ou comer comida que não era deles. Geralmente, iam a julgamento animais domésticos, como porcos, vacas e cavalos, e pragas que ameaçavam plantações, como ratos e insetos. Há registros de supostos lobisomens terem ido a julgamento, além de um galo que, em 1474, foi julgado pelo crime de botar um ovo (ele é um galo!).
Revista Galileu

sexta-feira, 24 de março de 2017

11 maneiras medievais de identificar uma bruxa


Você fala com seu gato? Tem problemas de pele? Se vivesse na Idade Média, teria más notícias...

Redação AH
 
 
 Pero que las hay, las hay... | Crédito: Pixabay
Na Idade Média - ou melhor, até o século 18 e, dependendo do lugar, ainda hoje - ser acusada ou, mais raramente, acusado de bruxaria era uma sentença de morte. Assim sendo, eram precisos testes "rigorosos" antes de se decidir pela morte de alguém. Quem desse azar de estar numa crise de espinhas, podia ir parar na fogueira. Veja alguns desses testes.

1. 100 metros fundos
A acusada de bruxaria era arrastada para um rio ou lago, despida e amarrada. Então, era arremessado para ver se flutuava. A premissa era de que a água rejeitaria a bruxa - se, flutuasse era bruxa. Não flutuasse... que pena, né?

2. Anorexia mata
As inocentes deveriam ter mais peso que o texto sagrado. Se pesasse menos que uma Bíblia - que, na época em que eram enormes e manuscritas, podiam chegar a 80 kg - era bruxa.

3. Decoreba
A bruxa deveria recitar em voz alta, de memória e sem enganos, passagens das Sagradas Escrituras. O Pai Nosso era um dos trechos prediletos.

4. Teste do toque
A vítima da bruxaria era tocada pela bruxa que supostamente lhe enfeitiçou. Caso o toque provocasse reação, estava comprovado o sacrilégio.

5. Bolo incrementado
A urina da acusada era misturada a uma receita de bolo e entregue a um cão. Caso a pessoa sentisse as mordidas na própria pele, era considerada culpada.

6. Dermatologia
Essa ainda hoje é um clichê: bruxas têm verrugas na ponta do nariz. A pele era vistoriada. Verrugas, pintas, cicatrizes ou marcas de nascença podiam ser consideradas provas de que o diabo havia tocado a bruxa.

7. Exorcismo forçado
Uma pessoa possuída era posta na mesma sala que a suspeita, que era forçada a gritar para o demônio para sair do corpo da vítima. Caso melhorasse, a bruxaria estava comprovada.

8. Pesadelo
Se a ré fosse vista em sonhos ou aparições, era prova de que seria bruxa, já que as feiticeiras podiam projetar seu espírito para fora do corpo.

9. Toque do transe
Caso a suposta bruxa tocasse uma pessoa no meio de um transe ou ataque e ele melhorasse, estava comprovada sua culpa - valia a mesma lógica do item 7.

10. Cozinha macabra
Ter em casa equipamentos "próprios" para rituais de magia, como velas, certas plantas ou um pilão e morteiro para misturar ingredientes era um caminho direto para a fogueira.

11. Pets
Conversar com bichos de estimação, particularmente gatos, também era sinal de pacto com o demônio.
 Revista Aventuras na História

Como fazíamos sem... Absorvente íntimo?


Incomodada ficava sua vó.... ficava mesmo!

Redação AH

 Lavadeiras em quadro de artista colombiano, 1923 | Crédito: Eugenio Zerda

Dizia o comercial de TV que incomodadas ficavam as nossas avós. Ele tinha razão. Antes da invenção do absorvente descartável, a mulherada sofria. E improvisava.

De acordo com dados do Museu da Menstruação e da Saúde Feminina, na Antiguidade, em Roma, as mulheres enfiavam pequenos chumaços de lã no interior da vagina para conter o fluxo menstrual. Em algumas tribos da África, usavam rolinhos de grama. As gregas revestiam ripas de madeira com várias camadas de retalho. Já as japonesas se viravam confeccionando canudinhos de papel. Na Indonésia, fibras vegetais eram usadas na tentativa de absorver o fluxo, ao passo que, no Egito, canutilhos de papiro faziam as vezes de absorvente higiênico. Todas essas invenções eram intravaginais – por isso, era melhor deixar um pedacinho para fora, para facilitar a retirada.

Registros arqueológicos mostram que, desde o século 15 a.C, as mulheres já pensavam em alguma espécie de proteção para aqueles dias. Mas uma das referências mais conhecidas acerca do assunto é encontrada nos escritos deixados pelo grego Hipócrates, mencionando expressamente a utilização de protetores intravaginais entre suas contemporâneas – ele viveu de 460 a 370 a.C.

Durante toda a Idade Média uma opção eram as toalhinhas higiênicas, feitas de qualquer resto de tecido – não raro, elas levavam ao surgimento de coceiras, assaduras e irritações no corpo. De todo modo, qualquer coisa devia ser melhor do que o isolamento a que as mulheres de diversas tribos indígenas eram submetidas: elas ficavam longe dos olhos dos outros, sentadas numa espécie de ninho, que absorvia o sangue.

 
Soluções para higiene feminina em anúncio dos anos 1930

Só no século 19 têm início pesquisas voltadas ao desenvolvimento de apetrechos mais funcionais. Em 1933 o absorvente interno foi patenteado, mas a novidade só chegou ao Brasil 40 anos depois. Por outro lado, toalhas descartáveis já ocupavam as prateleiras desde o fim da Primeira Guerra. Algumas tinham o formato de uma calcinha, ficando presas à cintura, enquanto outras eram presas com alfinetes – os absorventes com fita adesiva chegaram em 1970.

Um alívio sem precedentes, que livrou as mulheres de preocupações, como a de o que fazer para que ninguém visse o varal coalhado de retalhos suspeitos – afinal, as moças de boa família não podiam expor suas intimidades.
Revista Aventuras na História

domingo, 8 de janeiro de 2017

Bruno Lüdke: serial killer ou bode expiatório do regime nazista?


Bruno Lüdke era um impiedoso serial killer nazista ou apenas mais uma vítima do regime de Adolf Hitler?
  Danilo Cezar Cabral

 
ILUSTRA Eduardo Belga

1) Irmão de cinco e filho de Otto e Emma Lüdke, Bruno nasceu em Köpenick, cidade alemã próxima a Berlim. Como não acompanhava o ritmo dos colegas na escola, Lüdke foi enviado para um colégio especial para crianças com dificuldade de aprendizado, mas não passou da 6ª série.

2) Com 14 anos, foi trabalhar na lavanderia dos pais. Bruno conduzia uma carroça e “confiscava” parte do pagamento dos clientes. Em 1938, foi preso por maltratar seu cavalo. No xadrez, foi diagnosticado como deficiente mental e acabou esterilizado em Berlim.

3) Bruno seguiu frequentando a prisão. O sujeito adorava surrupiar aves, incluindo os patos do vizinho. O larápio, porém, não ficava preso por muito tempo – na Alemanha, a cláusula 51 do código penal da época não permitia que um doente mental fosse levado a julgamento.

4) Em 1943, o corpo da cliente Frieda Rössner foi achado em uma floresta. A viúva de meia-idade sofreu abuso sexual e morreu estrangulada com um xale. Lüdke foi preso como principal suspeito e revelou ter estuprado – ou pelo menos tentado estuprar – 50 mulheres.

5) Investigações recentes sobre Lüdke sugerem que ele talvez fosse inocente. Suspeita-se que as autoridades de Berlim tenham usado o sujeito como bode expiatório em assassinatos não solucionados fora da cidade de Köpenick para melhorar as estatísticas policiais.

6) Dois meses após ser preso, Lüdke confessou ter matado Frieda e mais duas mulheres nas redondezas de Köpenick, além de outras 20 em Berlim e cidades vizinhas. Bruno nunca conseguiu, porém, esclarecer detalhes sobre como e onde cometeu os crimes.

7) Apenas um dos comissários criminais envolvidos com o caso conduziu os primeiros interrogatórios. Heinz Franz ganhou a confiança de Lüdke, que curtia a repercussão popular gerada pelas suas “revelações”. Amparado pela cláusula 51, Lüdke nunca foi julgado e virou cobaia para testes científicos.

Que fim levou?

O tour científico de Lüdke chegou ao fim em 1944, na Áustria. Bruno foi morto com uma injeção química em uma instituição de pesquisas da capital, Viena.
Revista Mundo Estranho

terça-feira, 14 de junho de 2016

As 10 técnicas de tortura mais assustadoras da Idade Média


Métodos terríveis marcaram o período conhecido como "Idade das Trevas"

Rennan A. Julio


A Idade Média não foi um bom momento para se viver. Havia muitas doenças e liberdade era um conceito praticamente desconhecido. Além disso, a conhecida “Idade das Trevas” ficou marcada pela invenção de alguns dos instrumentos de torturas mais assustadores da história.

Nomeada de era de ouro da tortura, decidimos listar as principais técnicas criadas no período da Idade Média. Mas cuidado, as descrições podem ser um tanto desgastantes.

Confira!

1 - Empalamento
Empalamento: uma das técnicas mais terríveis da Idade Média (Foto: Reprodução)



Uma das mais conhecidas técnicas de tortura é a do empalamento. Durante a Idade Média, inimigos tinham seus corpos atravessados por enormes estacas. Normalmente, o processo começava pelo ânus e seguia até a boca. E o mais assustador: a vítima poderia levar até três dias para morrer.

O personagem que ficou mais conhecido pela técnica foi Vlad III, o Empalador (o sujeito que inspirou Drácula). O tirano costumava apreciar uma refeição enquanto observava as estacas atravessando os orifícios de seus inimigos. Estima-se que Vlad tenha matado de 20 a 300 mil pessoas dessa maneira.

2 – Berço de Judas
Brutal artefato utilizado na Idade Média (Foto: Reprodução)



Chamado de Berço ou Cadeira de Judas, essa técnica pode ser considerada uma “prima distante” da empalação. Com um pouco mais de sadismo, as vítimas eram obrigadas a sentar em pirâmides de madeiras lentamente até a morte. Presas por cordas, elas tinham seus orifícios anais ou vaginais “esticados” pelo tronco pontudo de madeira durante dias.

A intenção do efeito era empalar lentamente. Para isso, algumas delas recebiam pesos nas pernas a fim de aumentar a dor e a velocidade. E fora a humilhação, o Berço de Judas dificilmente era higienizado, assim podendo gerar infecções dolorosíssimas.

3 – O Caixão da Tortura
Expostos em praça pública em um caixão de ferro (Foto: Reprodução)



Usado como sentença para crimes como blasfêmia e roubo, o Caixão da Tortura funcionava assim: as pessoas julgadas eram obrigadas a ficar dentro da “cela móvel” durante dias até a morte. Extremamente apertadas, as gaiolas eram penduradas em praça pública para que sofressem exposição ao sol e também para que animais pudessem se alimentar do ser humano, enquanto vivo.

4 – O Balcão da Tortura
O Balcão da Tortura foi considerado o mais doloroso instrumento de tortura do período (Foto: Reprodução)



Consistindo em uma mesa de madeira com cordas fixadas nas áreas superiores e inferiores, o Balcão da Tortura chegou a ser considerado o mais doloroso método de toda cultura medieval.

As cordas se prendiam aos pés e mãos da vítima em uma ponta e a roldanas em outra. Ao torturador, bastava girar as maçanetas para que os membros dos torturados se esticassem em pura agonia. Muitas vezes, os membros chegavam a ser arrancados pelo dispositivo.

No final da Idade Média, a mesa ganhou uma variante: com espinhos de ferro que penetravam nas costas da vítima. Tudo isso para que confessassem seus crimes.

5 – O Estripador de Seios
Experiência brutal: o Estripador de Seios (Foto: Reprodução)


Esse terrível aparato costumava ser utilizado para punir mulheres acusadas de realizar bruxaria, aborto ou adultério. As garras – aquecidas por brasas ou em temperatura comum – do aparelho eram usadas para arrancar os seios dessas mulheres.

O artefato também ganhou uma variante, chamada de ‘The Spider’. Exatamente como o outro instrumento, mas com as garras acopladas a uma parede. Isso fazia com que o torturador pudesse puxar as mulheres até que o estripador ficasse com os seios pendurados. Muitas morriam de hemorragia ou de infecção.

6 – Pera da Angústia
Pera de metal realizada para trazer muita dor às vítimas (Foto: Reprodução)



Esse brutal equipamento era utilizado para iniciar a punição de mulheres, mentirosos, e homossexuais. O aparelho em formato de pera era inserido nas vaginas femininas, no ânus dos homossexuais e na boca dos blasfemadores.

Para que as quatro folhas de metal se abrissem, bastava à vítima “entortar” um parafuso. A pera era capaz de arrancar a pele com sua expansão e mutilar os orifícios das pessoas que a recebiam. O método era conhecido por apenas “abrir” a sequência de torturas.

7 – A Roda da Tortura
Roda da Tortura fazia com que pessoas tivessem seus membros quebrados em praça pública (Foto: Reprodução)



Conhecido por sempre matar a vítima de forma bem lenta, essa era a Roda da Tortura. Com os membros presos em uma roda de madeira, as pessoas viam seus braços e pernas serem atingidos pelos torturadores com grandes martelos de metal. Depois disso, eram pendurados – ainda na roda – em praça pública, para que animais se alimentassem das vítimas vivas.

8 – Serra para cortar ao meio
Pessoas eram serradas ao meio na Idade Média (Foto: Reprodução)



Por serras serem muito comuns na Idade Média, a técnica de tortura foi muito utilizada para matar pessoas acusadas de bruxaria, adultério, assassinato e blasfêmia. Além disso, era costumeiramente usada para ameaçar os acusados, colocando seus familiares nos dentes afiados da serra.

Como funcionava: dois torturadores amarravam as pessoas de cabeça para baixo a fim de deixar todo o sangue fluir; depois disso, pegavam uma serra e atravessavam as vítimas começando pelo meio das pernas. A tortura costumava levar horas.

9 – O Esmaga Cabeças
O Esmaga Cabeças, mais um artefato extremamente brutal (Foto: Reprodução)



Altamente utilizado durante a Inquisição Espanhola, o Esmaga Cabeças – como ficou conhecido – era capaz de causar dores e danos irreparáveis. O instrumento consistia em um capacete ligado à uma barra onde se apoiava o queixo da vítima. Depois disso, o parafuso apertava o capacete comprimindo a cabeça da vítima.

Com isso, os torturadores conseguiam destruir as arcadas dentárias e as mandíbulas. E caso a tortura não parasse, os globos oculares saltavam dos olhos e o cérebro saía despedaçado pelo crânio.

10 – Tortura do Garrote
 
Tortura do Garrote matou muitas pessoas na Inquisição Espanhola (Foto: Reprodução)

Também muito usado na Espanha, o “garrote espanhol” servia para provocar uma morte lenta nas vítimas. Como o torturador possuía controle da corda amarrada no pescoço da pessoa, aos poucos ela ia sendo apertada para que as vítimas morressem asfixiadas.

A técnica foi utilizada durante a Inquisição com o objetivo de conseguir confissões dos acusados. O dispositivo esteve presente no país espanhol até 1975.
Revista Galileu

Quais eram os métodos medievais mais usados para fazer torturas?

 
 
 Roberto Navarro

Os torturadores da Idade Média usavam de tudo um pouco: de aparelhos que esticavam o corpo das vítimas até deslocar as juntas a objetos perfurantes dos mais variados tipos. Boa parte dos métodos de punição já existia desde a Antiguidade, mas os carrascos medievais também desenvolveram novas formas de tormento, incorporando os avanços tecnológicos da época, como os recém-surgidos dispositivos de relojoaria. A prática da tortura era comum, pois a confissão era considerada a mais importante prova nos tribunais, assim ela precisava ser extraída a qualquer custo. Presos em sombrias masmorras, no subsolo de fortalezas, os suspeitos eram submetidos a suplícios durante semanas e o terror só acabava quando eles reconheciam a culpa, em geral relacionada a casos de roubo, traição política ou assassinato. A princípio, a Igreja se manifestou contra a tortura para extrair confissões, mas, no final da Idade Média, já usava a prática sem cerimônias para punir hereges e suspeitos de bruxaria ou enquadrar pregadores que se afastassem de sua doutrina oficial. No ano 1252, o papa Inocêncio IV publicou uma bula (carta solene do pontífice) autorizando a tortura de suspeitos de heresia. Não era considerado pecado infligir castigos físicos aos acusados, a única recomendação era para que o serviço sujo não ficasse a cargo dos padres... O auge do uso da tortura em interrogatórios aconteceria já fora do período medieval. A partir do século 15, a Inquisição - tribunais da Igreja Católica que puniam quem se desviasse de suas normas - tinha até manuais para orientar carrascos. Vale lembrar que, além do tormento físico, métodos psicológicos também eram utilizados, envolvendo drogas psicotrópicas, extraídas de plantas como mandrágora ou estramônio. Essas poções provocavam terríveis delírios, servindo para "confirmar" que o réu possuía laços com o demônio.

Mergulhe nessa

Na livraria:

História Medieval, Jacques Heers, Bertrand Brasil, 2000

The History of Torture and Execution, Jean Kellaway, The Lyons Press, 2002

Na Internet:

www.shanmonster.com/witch/torture/index.html
Sessão de horror Nas masmorras, vítimas tinham juntas deslocadas e couro cabeludo arrancado

RODA DE FOGO

A roda foi um suplício muito usado a partir do século 12. O prisioneiro era amarrado na parte externa de um grande disco de madeira, colocado sobre um recipiente contendo brasas incandescentes. Ao girar lentamente a roda, o carrasco fazia com que o corpo do torturado ficasse exposto ao calor, até que o réu morresse em conseqüência das queimaduras sofridas

TECNOLOGIA CRUEL

O desenvolvimento da relojoaria na Idade Média inspirou novos instrumentos a serviço da dor. A "pêra" era um aparelho com pequenos mecanismos e molas em seu interior. Ela era introduzida no reto ou na vagina da vítima e, com o uso de parafusos, os mecanismos de relojoaria eram acionados para expandir o volume do objeto, causando graves dilacerações

PESADELO FEMININO

Algumas formas de tortura eram aplicadas exclusivamente às mulheres. A mastectomia (remoção dos seios) era uma delas. A vítima tinha as mamas dilaceradas e em seguida arrancadas, com o emprego de pinças e outros instrumentos de ferro aquecidos. Em certas ocasiões, a mulher era obrigada a engolir os próprios seios e acabava morrendo sufocada

BATENDO AS BOTAS

Forma de tortura popular na Escócia medieval, as botas eram um tipo de "calçado" com o interior forrado por pontas metálicas. O condenado era obrigado a colocá-las nas pernas, enquanto o carrasco as ajustava com um pesado martelo, fazendo com que as pontas penetrassem na carne. Os poucos réus que sobreviviam a tal pesadelo ficavam aleijados ou mutilados

URNA PAULEIRA

Se você gosta de rock, certamente conhece o grupo Iron Maiden, "Donzela de Ferro" em inglês. Mas talvez não saiba que a banda foi batizada com o nome de um instrumento de tortura. Tratava-se de uma urna, em formato de mulher, com o interior cheio de estacas de metal. O prisioneiro era obrigado a entrar na urna e as portas eram fechadas, pressionando as estacas contra seu corpo, o que provocava dolorosos ferimentos

ALONGAMENTO RADICAL

O estrado era uma prancha de madeira com mecanismos para esticar o corpo da vítima. Depois de ter os pulsos e tornozelos amarrados por cordas nas extremidades da prancha, os mecanismos eram acionados lentamente e puxavam o corpo em direções opostas. A vítima tinha as juntas deslocadas e os tendões rompidos e no final podia ser desmembrada

ESCALPO EUROPEU

Outra forma de tortura usada só contra mulheres era a laçada. Ela surgiu na Idade Média, mas foi empregada na Rússia até o início do século 20. Durante as sessões de interrogatório, carrascos enredavam o cabelo de mulheres acusadas de algum crime em pedaços de metal, que eram torcidos até que o couro cabeludo fosse arrancado
Revista Mundo Estranho

Gregos e egípcios ainda acreditam nos deuses de sua mitologia?

Tiago Cordeiro |


Os egípcios não, e os gregos... mais ou menos. No caso do Egito, a religião politeísta estava no centro da vida social desde 3200 a.C. até o século 4, quando os romanos, que já dominavam aquelas terras fazia 400 anos, decidiram que todas as suas colônias deveriam ser cristãs. Posteriormente, o país aderiu ao islamismo - hoje, 90% da população é muçulmana e o restante é quase todo cristão copta. Já os gregos passaram por um processo bem parecido: dominados pelos romanos, puderam manter seus deuses até o século 4, quando aderiram ao cristianismo. Atualmente, o país tem 98% de cristãos ortodoxos e só permite a expressão religiosa do judaísmo e do islamismo. Mas um grupo começou, na década de 1990, a tentar resgatar as antigas tradições. Eles se reúnem nos antigos templos para homenagear Zeus, Ísis e Apolo. No dia 21 de junho, por exemplo, realizam um festival em homenagem a Prometeu. Chegam até a realizar batizados e casamentos (sem reconhecimento oficial). Apesar de se levarem muito a sério, são perseguidos pelo governo.

PERGUNTA Suzana Vidorette Zanchetta, Araras, SP

FONTES Sites www.ysee.gr e www.friends-classics.demon.co.uk

CONSULTORIA Robert Parker, historiador e professor de história antiga da Universidade de Oxford
Revista Mundo Estranho

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Como era a vizinhança do livro "O Cortiço"?

 Nina Rahe

ILUSTRAShiko


1) O AMOR ENLOUQUECE

Jerônimo e sua mulher, Piedade, ficavam no quartinho 35. Sua força e caráter o tornaram respeitado na pedreira onde trabalhava, logo atrás do cortiço. Mas sua vida virou do avesso após ver Rita dançar. Apaixonado, passou a beber pinga, começou a gastar mais do que devia e, no fim, abandonou a esposa e a filha para ficar com a baiana

2) VOCAÇÃO PARA SOGRA

A viúva Dona Isabel, da casa 15, sacrificou tudo para educar Pombinha e casá-la com João da Costa, um moço do comércio. Assim, esperava reconquistar sua antiga posição social. A mãe só deixou a menina subir ao altar após a primeira menstruação, que demorou a chegar. Mas a união foi curta: Pombinha traiu o marido, foi expulsa de casa e acabou prostituta

3) PINTOU SUJEIRA

Outra história chocante rolou no número 12, onde morava a mulata Marciana. Ela era obcecada em limpar a casa, mas enlouqueceu de vez quando sua bela filha, Florinda, de apenas 15 anos, engravidou de um funcionário da venda de João Romão. Ele não assumiu e a menina fugiu de casa depois de apanhar da mãe. Marciana acabou expulsa do cortiço

4) O QUE É QUE A BAIANA TEM?

No número 9 morava Rita Baiana. Bonita e boa de samba, ela era amante do capoeirista Firmo, mas também conquistou o coração do vizinho, o português Jerônimo. Na disputa pelo amor da mulata, Firmo feriu o lusitano com uma navalha. Mas, depois de um tempo, Jerônimo conseguiu se recuperar e matou o rival em uma emboscada

5) VIZINHOS E RIVAIS

Miranda era o antagonista de João Romão. Morava no sobrado ao lado da venda, e aos poucos foi assistindo a seu imóvel ser cercado pelo cortiço. O negociante prezava o status acima de tudo - casou-se com Dona Estela pelo dote e não sabia se era mesmo pai de sua filha, Zulmirinha. Por isso, tinha certa inveja do modo como Romão enriqueceu e de sua relação com Bertoleza

6)A FOGUEIRA DA BRUXA

Paula era uma cabocla velha conhecida como Bruxa. Em parte, porque era feia, grossa, com olhos desvairados e dentes ameaçadores. Mas também porque era capaz de curar problemas de pele e febres com rezas e bençãos. Queria incendiar o cortiço- e conseguiu na segunda tentativa. João Romão teve que reconstruir o espaço, que se tornou grandioso e aristocrático

7) O DONO DO LUGAR

João Romão começou seu "império" ao herdar a taverna em que trabalhou por 12 anos. Depois, num lelilão, adquiriu as terras atrás de sua taverna e ergueu três casinhas. Foi o início do cortiço. Ele usou a grana de Bertoleza para "expandir o negócio" (e também era dono de uma pedreira, atrás do cortiço). Como adorava dar calote, mas sabia cobrar dívidas, enriqueceu ainda mais. Quando quis subir na vida, livrou-se de Bertoleza para tentar casar com Zulmirinha

8) ETERNAMENTE ESCRAVA

Para se libertar de seu dono, a escrava Bertoleza passou anos juntando 20 mil réis. Mas foi enganada por seu amante, João Romão: o português lhe deu uma falsa carta de alforria e usou a grana para ampliar a venda. E isso porque a coitada fazia de tudo por ele: trabalhava de manhã até tarde da noite, cuidando da loja e da casa que eles dividiam



O Cortiço
AUTOR Aluísio Azevedo (1857-1913)
LANÇAMENTO 1890
GÊNERO Romance naturalista
Revista Mundo Estranho

Qual foi a primeira sessão de cinema no Brasil?

Katia Abreu

Foi em 8 de julho de 1896, às 14h, no número 57 da Rua do Ouvidor, reduto das novidades urbanas no centro do Rio de Janeiro. Foram exibidas as famosas fitas inaugurais dos irmãos Lumière, com um trem chegando àestação e trabalhadores saindo de uma fábrica. Entretanto, curiosamente, não se usou o cinematógrafo, e sim o omniographo ¿ aparelho sobre o qualquase não há registros, mas que, provavelmente, era uma adaptação nacional de alguma das muitas máquinas que surgiram mundo afora na época do nascimento do cinema. O público carioca, em sua maioria uma elite europeizada, tentou encarar a novidade com naturalidade, pois já vinham recebendo notícias sobre a invenção dos Lumière desde o ano anterior. E, segundo o livro Imagens do Passado: São Paulo e Rio de Janeiro nos Primórdios do Cinema,de José Inácio de Melo Souza, havia, ainda, certo receio de ser assaltado na sala escura (Ê, Brasil!)
Revista  Mundo Estranho

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Como são os rituais pós-morte das grandes religiões?

 
Sheyla Miranda

BUDISMO

Após sete dias da morte, familiares e amigos reúnem-se para celebrar a memória do falecido, e esse encontro repete-se em intervalos de sete dias, até o 49º, completando sete reuniões. No Brasil, o mais comum é realizar apenas a última reunião

FESTA AO AR LIVRE

O Obon é uma celebração praticada no Japão ou em colônias japonesas, que acontece em 15 de julho ou em 15 de agosto todos os anos. Famílias enfeitam o templo ou áreas ao ar livre com velas e lanternas coloridas, dançam ritmos tradicionais e rezam para homenagear as pessoas queridas que já se foram

VÁRIOS ANIVERSÁRIOS

Também fazem parte da tradição os "ofícios memoriais", em que a família oferece uma cerimônia para celebrar o falecido. Elas ocorrem nos seguintes aniversários de morte: 1º, 3º, 7º, 13º, 17º e 33º. Nessas ocasiões, os mais chegados leem textos sagrados e relembram como era a relação com o morto

HINDUÍSMO

Após a cremação, a família é considerada impura e deve tomar um longo banho ao voltar para casa. O período de reclusão dura de 7 a 40 dias. Todos ficam em casa, comem só coisas leves, livram-se dos pertences do morto e fazem orações. Durante o período, os familiares não frequentam templos nem o comércio

CRISTIANISMO

O luto católico pode durar 7, 30 ou 365 dias, dependendo da vontade dos familiares. Antigamente, as mulheres vestiam preto por pelo menos um ano quando pai, marido ou filhos morriam

ORAR SEM CESSAR

O clássico ritual fúnebre dos católicos é a missa de sétimo dia, celebrada para iluminar a alma do falecido, já que acreditam em ressurreição. Para eles, 2/11 é uma data especial: o Dia de Finados, em que os fiéis oram pelos mortos e os reverenciam. Protestantes oram e se confortam sem rituais marcantes

ISLAMISMO

Em países árabes, três dias após a morte, parentes do falecido contratam vários qãri' , profissionais que declamam o Alcorão ao lado da sepultura. O ato iluminaria o corpo em sua viagem até a eternidade. Ritual mais comum é o encontro de amigos e familiares, depois de 40 dias do óbito, para lembrar o falecido

JUDAÍSMO

Após o enterro, alguns grupos da religião judaica não costumam ir direto para casa; os enlutados mais próximos alteram a rota, param em algum lugar e pedem algo doce para comer. O desvio do caminho é feito para "despistar o anjo da morte" e o açúcar ingerido disfarça o amargor causado pelo óbito

LONGO RECOLHIMENTO

Ao voltar do cemitério, a família fica em casa, de luto, por sete dias. Três vezes ao dia, fazem orações e recebem visitas. Tudo o que reflete, como espelhos e porta-retratos, fica coberto , para que o morto não "veja" a própria imagem. Ao fim do período de luto, a família caminha nas proximidades da casa

ÚLTIMA HOMENAGEM

O último ritual fúnebre dos judeus é a inauguração da lápide , que não é colocada no enterro. O tempo de espera varia de país a país: em Israel, segue-se o tempo mínimo, um mês; no Brasil, a lápide só é colocada 11 meses após a morte. Na cerimônia, o túmulo é coberto com um pano preto e pequenas pedras

CONSULTORIA - Cecilia Ben David, coordenadora pedagógica do Centro de Cultura Judaica; Swami Krishna Priya Ananda, mestre espiritual da Sociedade Internacional Gita do Brasil; Cido Pereira, padre da Arquidiocese de São Paulo; Shake Juma, do Centro de Estudos e Divulgação do Islã; Naguni Seishin, monge do Templo Budista Koyasan Shingonshu Nambei Betsuin da América do Sul
Revista Mundo Estranho

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Conheça a equipe de futebol que preferiu morrer a perder

Rôney Rodrigues

Nunca, em uma partida de futebol, a expressão “vida ou morte” foi tão levada a sério. O contexto histórico não era para menos. A coisa toda começou em 1941, quando a Alemanha nazista invadiu Kiev, capital da Ucrânia, trazendo centenas de prisioneiros de guerra. Entre eles, estava um tal de Nikolai Trusevich, que anos antes havia sido o badalado goleiro do Dínamo, um dos principais clubes soviéticos.

Josef Kordik, um padeiro alemão – que, por sua descendência, era tratado de maneira “mais suave” pelos nazistas – e torcedor fanático do Dínamo, caminhava distraído pela rua quando encontrou… advinha quem? Sim, o goleiro Trusevich.

O padeiro o acolheu em sua casa, burlando a vigilância alemã e, de quebra, deu uma ideia para o goleirão: encontrar os outros jogadores do Dínamo. Em poucas semanas, a padaria já escondia, entre seus empregados, a equipe completa.


Volta aos campos

O passo seguinte era evidente: jogar bola. Como estava proibido ao Dínamo atuar em qualquer jogo, batizaram o “novo” clube de FC Start. Começaram desafiando seleções formadas pelo III Reich como uma “desforra” pelas atrocidades praticadas pelo Exército de Hitler.

Na primeira partida, realizada em 1942, venceram por 7 a 2. Depois veio uma guarnição húngara: emplacaram 6 a 2. Depois, mais 11 gols contra uma equipe romena. A coisa foi ficando séria e já chamava a atenção dos alemães, que novamente os desafiaram e, também novamente, foram goleados por 6 a 2. Trouxeram da Hungria outra equipe para pará-los: nova goleada por 5 a 1. Pediram revanche e perderam de 3 a 2.

Com apenas uma bola, os caras ameaçavam toda a meticulosa propaganda de Hitler de superioridade da raça ariana. E isso, claro, não poderia ficar barato. Os nazistas formaram uma equipe com jogadores da Luftwaffe, o Flakelf, um grande time da época. A missão: a qualquer custo – e isso incluía violência futebolística generalizada – deveriam vencer. Só esqueceram de avisar isso para o Start, que novamente venceu, por 5 a 1.

É vida ou morte

Essa humilhação sofrida pela raça ariana não poderia ficar barato e o alto comando nazista deu ordens para fuzilar o time todo. Mas os oficiais locais queriam, antes, vencer o Star. Precisavam desmoralizá-los, primeiramente, diante do povo ucraniano, para, aí sim, matá-los.

A revanche foi marcada. O estádio de Zenit estava lotado. Um oficial da SS advertiu aos jogadores ucranianos que, em campo, saudassem o Führer, com o clássico braço esticado. Os jogadores do Start levantaram o braço diante do estádio, porém no momento da saudação, levaram a mão ao peito e gritaram “Fizculthura!” (expressão que proclama a cultura física), ao invés do obrigatório “Heil Hitler!”.

No segundo tempo, nova visita ao vestiário. Só que agora com armas! E ordens bem claras: se vencerem, ninguém vivo. Os jogadores até se propuseram a não voltar para o segundo tempo, mas pensaram em suas famílias, nos crimes cometidos pelos nazistas e nas pessoas que torciam nas arquibancadas.

Voltaram e deram um baile nos rivais. Quando já ganhavam por 5 a 3, o atacante Klimenko ficou cara a cara com o goleiro alemão, driblou-o e, debaixo das traves, debochadamente voltou e chutou a bola para o centro do campo. O estádio veio abaixo.

Revanche sangrenta

Os nazistas deixaram que o Star saísse do campo como se nada tivesse ocorrido, mas a vingança não tardou. A Gestapo visitou a padaria e dizimou a equipe. Somente Goncharenko e Sviridovsky, que não estavam na padaria naquele dia, sobreviveram. Aquele fatídica partida ficou conhecida, mundialmente, como o “Jogo da Morte”.

Ainda hoje, no estádio Zenit, uma placa homenageia: “aos jogadores que morreram com a cabeça levantada ante o invasor nazista”.


Fotos: Duke.edu
Fontes: UOL, Ukemonde, The Guardian
Revista Superinteressante

domingo, 26 de janeiro de 2014

Com medo da própria sombra



Cláudia de Castro Lima


A expressão nasceu de um fato bem literal: um cavalo que tinha medo da própria sombra. Mas não era um cavalo qualquer – era o animal que Alexandre, o Grande, queria comprar.

Por volta de 340 a.C., o pai de Alexandre, Filipe II, rei da Macedônia, disse para o dono de um cavalo nervoso que estava à venda que aquele animal não servia para nada, já que ninguém podia montá-lo. Alexandre, aos 15 anos, retrucou: “Eu posso montá-lo”. Filipe II brigou com o filho, mas Alexandrinho insistia. Até que o rei, enfezado, disse que se o filho subisse no cavalo ele compraria o bicho.

O rapaz percebeu que o animal se agitava quando via sua sombra. Colocou-o de frente para o sol. Com a sombra para trás, o cavalo se acalmou. Alexandre o montou, ganhou o bicho e o batizou de Bucéfalo. Desde então, diz-se que alguém bastante covarde é como Bucéfalo: tem medo da própria sombra.

Revista Aventuras na História

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

As moedas holandesas no Brasil

 
Florim
  
Soldo
Cercados pelos portugueses no litoral de Pernambuco e não dispondo de dinheiro para pagar seus soldados e fornecedores, os holandeses realizaram a primeira cunhagem de moedas em território brasileiro. Conhecidas como "moedas obsidionais" ou "moedas de cerco", estas foram também as primeiras moedas a trazerem o nome do Brasil. Por causa da inexistência de ferramentas e materiais adequados, e da urgência do trabalho, as moedas foram feitas de forma bastante rudimentar.

Em 1645 e 1646 foram cunhadas moedas de ouro de III, VI e XII florins e em 1654, pouco antes da partida, moedas de prata, nos valores de XII, X, XX, XXX e XXXX soldos, havendo, entretanto, polêmica quanto à autenticidade dos quatro últimos valores. A inscrição G.W.C. corresponde às iniciais de "Companhia das Índias Ocidentais", em holandês.
 http://www.bcb.gov.br

Moedas-mercadorias no Brasil



 
Pau-Brasil
  ]
Zimbo
  
Pano de Algodão
Nos dois primeiros séculos após o descobrimento, em face da inexistência de uma política monetária especial para a Colônia, a quantidade de moedas em circulação era insuficiente para atender às necessidades locais. Por esse motivo, diversas mercadorias foram utilizadas como dinheiro, inclusive pelo próprio governo, sendo comuns os pagamentos realizados em açúcar, algodão, fumo, ferro, cacau e cravo, entre outros.

Em algumas ocasiões, o uso de mercadorias como moeda obedeceu a determinações legais. Em 1614, por exemplo, o governador do Rio de Janeiro estabeleceu que o açúcar corresse como moeda legal, ordenando que os comerciantes o aceitassem obrigatoriamente como pagamento. No Maranhão, que constituía um estado politicamente separado do Brasil e onde a principal moeda corrente era o algodão, foi legalmente estabelecida, em 1712, a circulação do açúcar, cacau, cravo e tabaco como moeda.

Os escravos africanos chegados ao Brasil utilizaram em suas trocas o zimbo, concha de um molusco encontrada nas praias brasileiras e que circulava como dinheiro no Congo e em Angola.
 http://www.bcb.gov.br

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

História ensaboada

Cinzas vegetais e sebo de bode faziam parte da receita do primeiro sabão

Ei, você! Já tomou banho hoje? Com sabão, não foi? Ainda sentindo o cheirinho gostoso de sua espuma, responda: você sabe como surgiu esse importante artigo de higiene?



Não dá para dizer ao certo quando o sabão foi inventado, mas o historiador romano Plínio, o Velho – que viveu do ano 23 ao ano 79 da nossa era – já relatava a preocupação dos povos mais antigos com a limpeza (Foto: Wikimedia Commons / Soapy Soap Company / CC BY-SA 3.0)

Antes da invenção do sabão, para limpar algum tecido, era preciso, por exemplo, batê-lo sobre pedras em um rio. A fricção com a pedra e a ação da água arrancavam a sujeira da roupa – sobretudo substâncias gordurosas, que não se dissolvem na água. Porém, haja esforço!

Os antigos sabiam que a adição de cinzas vegetais à água usada para lavar roupa facilitava um bocado o processo. Daí para criar o sabão, foi um pulo!

Plínio, o Velho, contou que os fenícios fabricaram o que hoje consideramos o primeiro sabão de que se tem notícia. Ao colocar sebo de bode com cinzas de plantas em grandes tachos e aquecê-los por várias horas sobre uma fogueira, eles conseguiram fazer um produto diferente…

Cinzas + sebo = sabão + glicerina
Depois que a mistura derretia e fumegava, uma substância esponjosa subia à tona e endurecia quando esfriava, deixando um líquido no fundo do tacho. Ela era amarelada, salpicada de cinzas e, mesmo que tudo o que fosse responsável pelo cheiro de bode tivesse sido removido, apresentava um irresistível cheirinho de sebo derretido.


Apesar de cheio de características repugnantes, o primeiro sabão já registrado dava conta do recado – era capaz de eliminar sujeiras e gorduras, como faz hoje com roupas, panelas e pessoas (Ilustração: Cruz)

Aos seus olhos, pode parecer incrível que, misturando sebo de bode e cinzas, tenha se formado o sabão. Mas o que aconteceu no tacho dos fenícios pode ser muito bem explicado!

As gorduras animais, como o sebo de bode, são ricas em uma substância que praticamente não se dissolve na água. Seu nome? Estearina. Já as cinzas das plantas são ricas em outra substância: os sais de potássio. Quando a estearina entra em contato com esses sais, é formado um composto chamado esteorato de potássio, que nada mais é do que um tipo de sabão.

O líquido que ficava no fundo do tacho dos fenícios, por outro lado, é o que chamamos de glicerina. Já ouviu falar? A glicerina tem muitas aplicações: é utilizada na indústria farmacêutica e na fabricação de explosivos. Com a sua venda, as fábricas de sabão lucram bastante. Além disso, podem misturar a glicerina ao sabão, junto com um pouco de lanolina, óleo de coco e alguns alcoóis, para obter sabonete!

Sabões hoje

Agora que conhecemos a história dos fenícios, no entanto, é preciso dizer: nem só sebo de bode e cinzas de planas podem ser empregados para fabricar sabão. Qualquer gordura animal ou óleo vegetal serve. Atualmente, por exemplo, são bastante utilizados o óleo de coco e o de palma. No lugar das cinzas, é comum empregar soda cáustica, uma substância corrosiva.

Felizmente, os sabões de hoje têm um cheiro mais agradável. Já pensou tomar banho e sair com cheiro de sebo de bode?!


Por que o sabão limpa até os pratos mais engordurados?

Não sei se você já tentou lavar um prato engordurado só com água – não adianta de nada! Já com sabão, a louça fica limpinha! Você sabe explicar por quê?

O sabão é formado por pequenas moléculas com uma propriedade especial: uma parte delas em afinidade com a água e outra parte tem afinidade com a gordura. Ou seja, um lado da molécula de sabão gruda na água e o outro, na gordura! Desse jeito, a água com sabão consegue retirar a gordura, por exemplo, da superfície de uma panela. É como se o sabão formasse uma ponte entre a gordura e a água – que não se misturam normalmente – e os três saíssem juntos.
Breno Pannia Espósito, Instituto de Química, Universidade de São Paulo
Revista Ciência Hoje das Crianças

A história das letras

Descubra como surgiu o alfabeto, que permite escrever em todas as línguas do mundo!



Já imaginou um carteiro carregado de tabletes de barro, madeira e pedra, distribuindo essas encomendas pelas cidades? Há cerca de 5 mil anos talvez essa cena não seria tão estranha. Em vez de papel, as pessoas escreviam em pedaços de barro e outros materiais. A escrita também era bem diferente da atual, feita com desenhos. Para quem não sabia desenhar era um verdadeiro abacaxi.

A escrita foi inventada na Suméria, um país que existia onde hoje estão o Irã e o Iraque, numa região chamada Mesopotâmia, que significa “entre rios”. Os rios são o Tigre e o Eufrates. Naquela época, cerca de 5 mil anos atrás, a escrita começou a ser feita em pequenas almofadas de barro. Mais tarde, usou-se também madeira, metal e pedra para escrever. A idéia pegou e, assim, surgiram maneiras diferentes de escrever em vários pontos do mundo, de acordo com a língua falada em cada região.

No começo, a escrita era feita com o desenho das coisas. Por exemplo: se a palavra era “casa”, fazia-se o desenho de uma casa. Mas logo vieram as dificuldades. Como escrever o nome de uma pessoa? Não bastava fazer o desenho de um homem ou de uma mulher! Então começaram-se a combinar os símbolos. Desse modo, para escrever algo sobre alguém chamado Coelho, bastava desenhar um homem e um coelho. Mas isso também nem sempre funcionava bem. Como a gente poderia representar alguém chamado Henrique? Para resolver esse tipo de problema, passou-se a escrever os sons das palavras e não mais as idéias. Para escrever “irmão”, desenhavam-se as pernas andando (ir) e uma mão. Um soldado era representado por um sol junto com um dado.


Ainda assim as dificuldades apareciam. Surgiu, então, uma maneira de escrever na qual eram observados os sons da fala. Se a gente espichar a fala devagar, ao dizer cavalo, por exemplo, alguns sons chamados “vogais” ficam destacados: caaa + vaaa + looo. Se a gente presta atenção nos movimentos da boca, os sons chamados “consoantes” se sobressaem: ccca + vvva + lllo. Juntando os dois tipos de sons, temos umas unidades chamadas sílabas: ca + va + lo. Assim, os símbolos da escrita passaram a ser as sílabas ou as vogais e as consoantes separadamente, conforme a língua. Esse tipo de escrita que representa separadamente as vogais e as consoantes, ou seja, cada letra, é chamado alfabeto, que se mostrou tão interessante, útil e prático que hoje em dia todas as línguas do mundo podem ser escritas com esse sistema.
Revista Ciência Hoje para Crianças

domingo, 29 de setembro de 2013

A Bíblia como você nunca leu



Pena de morte para virgens defloradas, palmadas para as crianças, regras para a poligamia... e uma política radical de juros. Conheça as leis mais curiosas da Bíblia. Tópico por tópico. Ao pé da letra.
Alexandre Versignassi e Tiago Cordeiro

A Bíblia não é apenas a Bíblia. Ela também funciona como uma espécie de Constituição. Natural: o Livro Sagrado não é exatamente um livro, mas uma coleção de 66 livros. Alguns são basicamente de histórias, caso do Gênesis, que narra o início dos tempos e as origens do povo de Israel. Outros não. Eram obras que, antes de entrarem para a Bíblia, tinham vida própria na forma de códigos de conduta. Ou seja: eram versões antigas, escritas entre o século 10 a.C. e 5 a.C., daquilo que hoje conhecemos como "código civil" e "código penal".

Esses códigos, essas leis, estão principalmente nos livros Deuteronômio e Levítico. Mas aparecem por praticamente toda a Bíblia, inclusive no Novo Testamento, escrito a partir do século 1 e que revisa boa parte dessas leis. Por essas, muitos preceitos bíblicos são contraditórios ou sujeitos a mais de uma interpretação. "No contexto em que foram escritos, porém, eles ajudaram a formar um povo com uma identidade tão forte que sobreviveria a séculos de diáspora e uma religião que dominaria o mundo ocidental", diz o historiador Marc Zvi Brettler, professor de estudos judaicos da Universidade Brandeis, nos EUA. 

MARIDOS & ESPOSAS
Poucas coisas mudaram tanto nos últimos 3 mil anos como a instituição do casamento. Então esse é o nosso primeiro tópico. Para começar, o Velho Testamento deixa claro que as mulheres deveriam ser funcionárias de seus maridos. Funcionárias mesmo: não só com deveres, mas com direitos também. Se uma esposa fosse "demitida" pelo parceiro, por exemplo, podia ganhar uma carta de recomendação, que a moça podia usar como trunfo na hora de tentar uma vaga de mulher de outro sujeito.

Não é exagero falar em "vaga": um homem podia ter tantas esposas quanto quisesse (ou melhor: quanto pudesse adquirir e sustentar). A poligamia era a regra. Tanto que o primeiro caso aparece logo no capítulo 4 do primeiro livro da Bíblia: "E tomou Lameque para si duas mulheres" (Gênesis).

A situação era tão comum que vários dos personagens mais importantes do Antigo Testamento viviam com mais de uma esposa sob o mesmo teto. Abraão acolhe uma segunda mulher a pedido de Sara, sua número 1, que não conseguia ter filhos. Depois a própria Sara dá à luz Isaac, enquanto a escrava Hagar tem Ismael. Nota: a tradição considera o primeiro como pai de todos os judeus e o segundo, patriarca dos povos árabes.

O caso de Jacó, filho de Isaac e também patriarca de todos os judeus, é o mais conhecido: ele casa com as irmãs Lea e Raquel, filhas de Labão. E compra o dote delas trabalhando no pastoreio do sogro por 14 anos - 7 anos de labuta por cada esposa.

Mas nunca na história do Livro Sagrado houve maior predador matrimonial que Salomão, o rei: foram 700 esposas. Setecentas de papel passado, já que o sábio soberano ainda mantinha 300 concubinas. E tudo isso sem pílula nem camisinha... Por isso mesmo o Deuterônimo traz regras para a distribuição de bens entre filhos de diferentes mulheres - os rebentos de mães com mais milhagem em anos de casamento ganham mais. E os primogênitos também. Mas por quê, afinal, a poligamia era a regra lá atrás? "Provavelmente porque havia mais mulheres do que homens entre os judeus, que com frequência estavam envolvidos em guerras violentas. A poligamia, então, era uma forma de garantir a manutenção da população", diz o historiador Richard Friedman, professor de estudos judaicos da Universidade da Geórgia. "Além disso, uma mulher solteira tinha pouquíssimas alternativas para sobreviver, a não ser se prostituir. Quando um único homem é provedor de várias mulheres, essa questão acaba minimizada."

O Novo Testamento não cita tantos exemplos de poligamia, mas sugere que ela ainda era comum no século 1. Jesus não toca no assunto, mas, em duas cartas, são Paulo recomenda que os líderes da nova comunidade cristã tenham apenas uma esposa porque "assim eles teriam mais tempo para dedicar aos fiéis". "O cristianismo só refuta a poligamia quando se aproxima do poder em Roma, que proibia a poligamia", afirma Brettler. Como escreve santo Agostinho no século 5, "em nosso tempo, e de acordo com o costume romano, não é mais permitido tomar outra esposa".

Escravas também tinham direitos: se um homem casava com uma de suas servas, só poderia se divorciar se vendesse a mulher para outro senhor. Bom para a mulher, já que evita a situação constrangedora de trabalhar para o ex - e de graça... Menos "feminista" é outra lei bíblica: quando um homem morre e deixa uma viúva, seu irmão deve casar com ela, para garantir que o patrimônio da família não se perca. O adultério, adivinhe, é crime - pudera: no Brasil mesmo era crime até 2005 (detenção de 15 dias a 6 meses, segundo o artigo 240 do Código Penal). A diferença é que lá a pena era de morte mesmo - para ambos os envolvidos na relação sexual fora da lei.

Mais brando é são Paulo, que dá orientações para o dia a dia do casal. Ele até diz que os homens são a cabeça da relação, mas pede que os maridos respeitem as esposas. Um grande salto para nas regras de matrimônio da Antiguidade.

SEXO
Além de polígamo, qualquer homem podia ter amantes, contanto que oficiais. Eram as concubinas. Jacó trabalhou 14 anos pela posse de suas duas mulheres - mas ganhou duas concubinas de bônus pelos bons serviços prestados. Uma série de regras estabelece como deve ser a vida sexual também: toda mulher tem de se casar virgem, ou então poderá ser dispensada pelo marido - por outro lado, se o marido acusar falsamente a esposa de não ter casado casta, deve permanecer com ela até o fim da vida. Para comprovar sua pureza, a acusada devia apresentar testemunhas dispostas a defender a limpidez do passado dela. As leis sexuais, enfim, eram bem abrangentes: "Quem tiver relações com um animal deve ser morto", diz o Êxodo. E masturbação também não pode. Como diz o sutil são Paulo: "A mulher não pode dispor de seu corpo: ele pertence ao marido. E o marido não pode dispor do seu corpo: ele pertence à esposa". "O sexo na Bíblia é cheio de contradições", diz o arqueólogo Michael Coogan, autor de God and Sex (Deus e o Sexo). "É de se desconfiar que fossem realmente levados a sério naquela época."

BÍBLIA S/A - NEGÓCIOS E FINANÇAS
A ética comercial do Livro Sagrado tem regras simples: não roubar nem trapacear no peso ou fazer nada que prejudique a outra parte. A cobrança de juros também é proibida. As ordens se repetem ao longo da Bíblia, sempre em tom firme: "Não tomarás dele juros nem ganho" (Levítico), "Não emprestando com usura, e não recebendo mais do que emprestou" (Ezequiel). E isso numa época em que a grande moeda corrente eram sacos de grãos. O fato é que a restrição à cobrança de juros é mais antiga do que a Bíblia. As leis da Babilônia, codificadas mil anos antes, já impunham tetos na cobrança de juros, provavelmente para evitar que os mais espertos enriquecessem à custa de empobrecer o resto da sociedade. Jesus, inclusive, radicaliza. Não só condena os juros como também a cobrança do principal (a quantia emprestada inicialmente): "E se emprestardes àqueles de quem esperais receber, que mérito há nisso?" (Lucas). Cristo, aliás, dá muita atenção à cobiça. "Não podeis servir a Deus e às riquezas" (Mateus, 6:24), diz. E pede que seus seguidores façam como os lírios-do-campo, que recebem proteção e alimento da divindade sem precisar trabalhar. Também diz, para desespero de um fiel cheio de posses, um de seus maiores hits verbais: "É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino dos Céus". Mas existe uma exceção na política bíblica de juros: nos casos em que o empréstimo é concedido a um não-judeu ("um estranho", nas palavras do Deuterônimo), é permitido praticar a usura. Até por isso os judeus se tornaram os grandes banqueiros da Idade Média. Os cristãos também respeitavam a Bíblia, e não emprestavam a juros entre si (para eles, os "estranhos" eram os judeus). Mas num mundo sem juros o estímulo para conceder empréstimos é nulo. Então a maioria cristã pedia empréstimos para quem os concedia, a juros - as minorias judaicas. O fato de os judeus não terem direito à posse de terras também ajudava - emprestar a juros era uma das poucas formas de renda possíveis para quem não tinha como plantar para acumular excedentes.

Se o Livro Sagrado proíbe a cobrança de juros, mas só entre judeus, o mesmo vale para a escravidão. Você pode ter escravos, contanto que "sejam das nações que estão ao redor de vós; deles comprareis escravos e escravas", diz o Levítico. Mas havia uma exceção: era possível a um judeu endividado vender a si mesmo para o credor.

"A escravidão era comum entre todos os povos daquela área, mas os servos eram relativamente bem tratados, sem violência desnecessária. Os próprios israelitas seriam respeitados quando foram forçados ao exílio na Babilônia", afirma a historiadora Catherine Hezser, professora de história das religiões da Universidade de Londres e autora de Jewish Slavery in Antiquity (Escravidão Judaica na Antiguidade).

Por isso mesmo, os israelitas são orientados a conceder uma série de direitos a seus escravos, que servem por 6 anos, e no sétimo são libertados. Se ele for escravizado com a esposa, os dois são libertados juntos. Até para punir os indisciplinados existem regras - se o dono arrancasse um olho do servo, seria obrigado a libertá-lo (Êxodo). Ou seja: a Bíblia também servia como uma espécie de CLT para escravos.

Mas a parte mais humanista nas relações de trabalho previstas na Bíblia é uma regra para os fazendeiros: sempre deixar sem colher as plantações das bordas do terreno. Para quê? Para que as pessoas mais pobres, sem-terra, possam aproveitar essa parte.

MARVADO VINHO
O álcool nem sempre foi consumido com moderação na Bíblia. A palavra "vinho" é citada mais de 200 vezes, e os porres são frequentes: Ló é embebedado pelas filhas e Amnon, filho de Davi, está mais pra lá do que pra cá quando é assassinado por ordem de seu irmão Absalão - a quem interessar: foi pelo crime de ter estuprado a própria irmã, Tamar. "Os sacerdotes são orientados a não beber antes de entrar no templo, e o álcool é relacionado à perda de controle pessoal e da capacidade de diferenciar o bem do mal. Mas nada no texto bíblico proíbe o consumo", diz historiador Marc Zvi Brettler.

O álcool chega a ser recomendado para curar os males da alma. Está no livro Provérbios: "Dai bebida forte ao que está prestes a perecer, e o vinho aos amargurados de espírito".

Às vezes, a coisa era uma festa da uva mesmo. Davi, num arroubo de populismo, oferece uma jarra de vinho a cada cidadão de Israel. E tem o primeiro milagre de Jesus: transformar água em vinho ¿ segundo o evangelista João, no melhor vinho da festa. São Paulo vai mais além: recomenda a um discípulo, Timóteo, que troque a água pelo vinho. A dica tinha um motivo prático. "Às vezes, naquele tempo, era mais saudável consumir álcool do que água, que frequentemente era insalubre", diz Brettler.

SAÚDE E EDUCAÇÃO
A medicina bíblica é obcecada por manchas na pele - uma preocupação muito compreensível para um povo que vivia no deserto, sob um sol escaldante. Os líderes religiosos é que faziam o papel de médicos. "Quando um homem tiver na pele inchação ou pústula, então será levado a Arão ou a um de seus filhos, os sacerdotes" (Levítico).

Os sacerdotes avaliavam pessoalmente cada caso suspeito, seguindo as regras estabelecidas por Deus, transmitidas a Moisés e transcritas no Livro Sagrado. Primeiro, passar azeite sobre o ferimento (o mesmo produto também é recomendado para lavar os cabelos). Depois de uma semana, no retorno da consulta, vem o diagnóstico definitivo: se o pelo sobre a mancha estiver mais claro, e a ferida estiver mais funda do que a pele, o doente tem lepra.

A partir desse momento, a vítima não tem mais espaço na comunidade. É obrigada a andar pelas ruas, anunciando sua condição para evitar que desavisados entrem em contato com o doente e também sejam contaminados. Ocasionalmente, profetas conseguiam curar leprosos. No Novo Testamento, os sacerdotes cristãos são indicados para curar todo tipo de doença. "A oração da fé salvará o doente, e o Senhor o levantará" (Tiago).

A preocupação com a pele não era a única norma de conduta social. Era proibido cortar e aparar a barba ou vestir tecidos que misturassem lã e linho (Levítico) - hoje, entre as comunidades que buscam seguir a Bíblia ao pé da letra, existem testadores de tecido, especializados em monitorar a composição das roupas com um microscópio e impedir fiéis de desobedecer à orientação e cometer pecado. Pela regra, também é importante vestir sapatos seguindo uma ordem - primeiro o pé direito. Se for necessário amarrá-lo, é o contrário: primeiro o esquerdo.

A Bíblia também orienta na educação dos filhos. Eles devem ser apresentados a Deus recém-nascidos e, no caso dos meninos, circuncidados no oitavo dia de vida. Ao longo da infância, os pais têm a obrigação de repassar a eles a palavra de Javé. Já o Novo Testamento é mais pedagógico, digamos assim: enfatiza a educação pelo bom exemplo dos pais, para que os jovens respeitem a Deus e se comportem corretamente por vontade própria, e não porque foram forçados. Criar adultos calmos e centrados também é importante. "E vós, pais, não provoqueis vossos filhos à ira, mas criai-os na disciplina e na admoestação do Senhor" (Efésios). Quando não funcionar, o Antigo Testamento indica que um bastão flexível deve ser usado para bater nos desobedientes (no Brasil, seu uso poderá trazer problemas com a Justiça caso seja aprovada a Lei da Palmada). O objeto tem até nome, vara da correção, e é indicado para qualquer situação em que o pai considere que a criança não seguiu suas instruções.

"A vara e a repreensão dão sabedoria, mas a criança entregue a si mesma envergonha a sua mãe" (Provérbios), diz o texto bíblico, que promete: o castigo pode dar frutos no futuro. "Disciplina seu filho, e este lhe dará paz, trará grande prazer a sua alma". Mas cuidado - a punição não pode ser exagerada: "Castiga seu filho, mas não te excedas a ponto de matá-lo" (Provérbios).

HOMOSSEXUALIDADE
O amor entre homens era punido com a morte - a não ser que você fosse o rei Davi. Os livros Samuel I e Samuel II contam a história da amizade entre ele e Jonatã, filho do rei Saul, antecessor de Davi e candidato natural ao trono de Israel. Davi acaba escolhido para a sucessão, mas isso não abala o relacionamento dos dois. Está escrito: "A alma de Jonatã se ligou com a alma de Davi. E Jonatã o amou, como à sua própria alma" (Samuel I). Em outra passagem, Jonatã tira todas as roupas, entrega a Davi e se deita com ele. "E inclinou-se 3 vezes, e beijaram-se um ao outro" (Samuel I). "Esse relato incomoda os intérpretes tradicionais da Bíblia, que tentam explicar a relação como uma forte amizade, e o beijo como um costume comum entre homens", diz o historiador finlandês Martii Nissinen, da Universidade de Helsinki e autor de Homoeroticism in the Biblical World (Homoerotismo no Mundo Bíblico). "Mas é difícil negar a referência à homossexualidade nesse caso, mesmo que a lei judaica a proíba expressamente." Em mais de uma ocasião, os relacionamentos entre homens são chamados de "abominação" e "pecado contra Javé". Para alguns especialistas, o Antigo Testamento também sugere um relacionamento homossexual entre duas mulheres, Noemi e sua nora Rute. Está no livro de Rute um trecho em que ela diz a Noemi: "Aonde quer que tu fores irei eu, e onde quer que pousares, ali pousarei eu." Onde quer que morreres morrerei eu, e ali serei sepultada".

SACRIFÍCIOS
Muito sangue jorra na Bíblia. Abraão é orientado a sacrificar seu próprio filho Isaac a Javé - e teria obedecido, caso um anjo não aparecesse no último minuto dizendo era tudo um teste para sua fé. Além disso, durante os 40 dias em que detalha suas regras ao patriarca, Deus exige uma série de sacrifícios de animais.

Os rituais são descritos com grande riqueza de detalhes. Moisés manda matar e drenar 12 bois. O sangue é colocado numa tina. Metade é lançada no altar e o resto sobre a multidão. Carneiros abatidos são esfregados no corpo de fiéis, que seguram seus rins nas mãos para oferecê-los a Javé. Pedaços de bichos são queimados sobre o altar. Era uma forma de trocar favores com os deuses. Por isso mesmo, o sacrifício de animais existe em praticamente todas as culturas da Antiguidade. "O sangue é o maior símbolo da vida. Ao usá-lo em rituais, os fiéis reforçavam seu vínculo com a divindade e se purificavam", diz Richard Friedman.

Jesus aparece com uma novidade: não pede sangue animal. "Eu quero a misericórdia, não o sacrifício". Friedman explica: "Na interpretação cristã posterior, o próprio Jesus é considerado o sacrifício final, que limpa os pecados da humanidade de forma definitiva, o que dispensa a morte de animais".

CRIME E CASTIGO
Sequestro, adultério, homossexualidade, prostituição... Tudo isso dava pena de morte. Até fazer sexo com uma virgem poderia custar a vida do "criminoso". Esse caso, aliás, é um labirinto jurídico: se um homem transar com uma virgem dentro de uma cidade, os dois morrem; se for no campo, só ele. A lógica é que, dentro da cidade, alguém ouviria a virgem gritando por socorro caso o sexo não fosse consentido. Se ninguém ouviu é porque ela não gritou, supõe a lei. E se não gritou é porque cometeu um crime também - o de consentir. No campo é diferente: não dá para saber se ela gritou ou não. Na dúvida, então, morre só o homem.

Matar também dava em pena de morte, claro: "Se alguém derramar o sangue do homem, pelo homem se derramará o seu" (Gênesis). Adorar outros deuses também trazia problemas sérios, já que é sinal de desobediência a um mandamento fundamental: "Não terás outros deuses diante de mim". Moisés chega a mandar matar 3 mil judeus por causa disso.

Matar o próprio escravo também trazia problemas. "Se alguém ferir seu escravo ou sua escrava com um bastão e morrer sob suas mãos, seja punido severamente, mas se sobreviver um ou dois dias, não seja punido, porque é seu dinheiro" (Êxodo). A pena indicada, nesse caso, é o açoite, com um limite de 40 chibatadas.

O Levítico também manda matar prostitutas a pedradas, a não ser que a moça de vida fácil seja filha de um sacerdote. Aí a punição é pior: "Com fogo será queimada". A regra seria fortemente contestada por Jesus, com a famosa frase que salvou Maria Madalena: "Aquele que não tem pecado atire a primeira pedra". Ainda assim, nem todos os autores do Novo Testamento parecem concordar com a recomendação de Cristo. As cartas de são Paulo, por exemplo, defendem o respeito à lei romana, que autoriza o apedrejamento a prostitutas.

Como o Antigo Testamento não aceita o aborto, é crime provocá-lo, mesmo que por acidente, mas a pena depende da gravidade da situação. Se dois homens brigarem e, no meio do quebra-pau, ferirem sem querer uma mulher grávida que estava por perto e provocarem a morte do feto, os dois vão pagar uma indenização estabelecida pelo marido - que perdeu um bem precioso, seu herdeiro. Agora, se a mãe ficar gravemente ferida ou morrer, então vale a famosa lei do Talião - "Olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé, queimadura por queimadura, ferimento por ferimento, golpe por golpe" (Êxodo). Em geral, a pena de morte por apedrejamento não precisava ser julgada pelos sacerdotes. A maioria dos crimes recebia a punição na hora, diante de um grupo de pessoas que presenciaram a cena ou que estavam por perto da cena do crime e foram informadas. Mas também existem regras mais amenas, estas, sim, negociadas dentro dos tribunais e com direito a defesa do acusado. Por exemplo: o Antigo Testamento estabelece que toda mulher menstruada é tão impura que até mesmo os lugares onde ela se senta devem ser evitados. Se um homem encostar na esposa, na mãe ou na irmã nesse período do mês, ele não pode sair de casa por sete dias. E, se fizer isso, pode ter de pagar uma multa.

Em caso de roubo e furto ou qualquer outro prejuízo ao patrimônio alheio, como matar por acidente o cabrito do vizinho, a pena é o pagamento de 4 vezes o valor do bem que foi levado ou destruído. Se a pessoa que cometeu a infração não tivesse condições de pagar, podia ser vendida como escrava.
Tudo isso, é claro, são aspectos de uma vida cotidiana que não existe mais. Mas com a mensagem essencial dos textos sagrados é diferente. E essa mensagem pode ser resumida em uma frase, que também ecoa em todas as grandes religiões da Terra: não faça aos outros o que você não gostaria que fizessem com você. Ou mais ainda, como Jesus diz no Evangelho de Mateus: "Tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lho também vós". Está aí uma recomendação impossível de refutar. E que geralmente traz ótimos resultados. Em qualquer lugar, em qualquer tempo.

PARA SABER MAIS
Everyday Life in Bible Times
Arthur W. Klinck, Concordia College, 2006
Living Judaism
Wayne Dosick, HarperCollins, 2007
Revista Superinteressante

Anéis olímpicos

Saiba mais sobre o símbolo dos anéis olímpicos
Rodrigo Ortega



1. Símbolo das Olimpíadas.

2. Criado em 1912, representa a união entre as nações.

3. Os 5 anéis não indicam os 5 continentes, como muitos acreditam. Juntamente com o branco do fundo, eles representam, na verdade, as cores das bandeiras dos 28 países que disputaram as Olimpíadas daquele ano, em Estocolmo, Suécia.

Origem
O símbolo dos anéis olímpicos foi criado pelo francês Pierre de Frédy, mais conhecido como Barão de Coubertin, fundador das Olimpíadas modernas. O barão se inspirou em outra entidade que ele ajudou a fundar, a União das Sociedades Francesas de Esportes Atléticos, em 1887. O logo da instituição era formado por dois anéis.

Farsa nazista
Até 1985, alguns historiadores achavam que Coubertin havia se inspirado nessa pedra, na Grécia. Mas trata-se de uma inscrição feita pelos nazistas para os jogos de 1936, em Berlim.
Revista Superinteressante

Quais países estudam a história do Brasil?


Europeus, africanos e asiáticos se dedicam ao tema, mas pouco. O assunto geralmente é ensinado dentro da história da América Latina
Marcel Verrumo

Zé Carioca ainda é um porta-voz do Brasil. A animação da Disney Você Já Foi à Bahia? (1944), estrelada pelo papagaio, é muito usada na hora de introduzir o Brasil em salas de aula no exterior. "O desenho foi criado como parte da política de boa vizinhança", diz Lise Sedrez, professora da UFRJ, que lecionou nos Estados Unidos. O destaque dado em classe depende das relações - históricas, culturais, comerciais etc. - entre os países. "Nos EUA, as escolas de ensino médio que ensinam português também tratam da história brasileira", diz Lise. Lá, é comum escolas próximas a comunidades de brasileiros ensinarem essas disciplinas. Já o país historicamente mais ligado a nós, Portugal, não dá tanta importância ao tema (veja abaixo). Outros europeus, como Espanha, França e Reino Unido, encaixam o assunto na grade de história da América Latina. Historicamente, o Brasil ainda é periferia.
O passado brasileiro no mundo

Temas e personagens nacionais estudados além das fronteiras

América
Nos países latinos, o tema mais recorrente é Getúlio Vargas, que é discutido junto a seus pares populistas, como Juan Domingo Perón, na Argentina. Nos EUA, os assuntos mais comuns são colonização e escravidão.

Europa
O tema é pouco discutido e aparece em subdivisões da disciplina que podem soar estranhas para nós, como história atlântica. Nem Portugal dá destaque. Lá, o Brasil é estudado junto com o finado império português.

África
Embora alguns países africanos compartilhem conosco o colonizador e, consequentemente, a língua, eles não se aprofundam em nossa história. Angola e Moçambique, por exemplo, enfocam só a escravidão.

Ásia
Há institutos específicos no Japão. Mas no Timor-Leste, ex-colônia de Portugal, é pior. Verônica Lima, da Universidade Nacional do país, diz que o maior contato com nossa cultura vem da música sertaneja. Ai, Se Eu te Pego é o novo Zé Carioca.
Fontes Demian de Melo e Lise Sedrez, professores de história da UFRJ; Koji Sasaki, professor da Universidade de Tóquio, Japão; Maicon Carrijo, pesquisador de história na USP; Verônica Lima, professora da Universidade Nacional do Timor-Leste.
Revista Superinteressante

sábado, 21 de setembro de 2013

Pimenta, especiaria da América


Colombo e seus navegadores foram os primeiros europeus a conhecer as pimentas das Américas

No século XVI os navios europeus vinham às Américas não só para buscar pau-brasil e algodão, macacos e papagaios, mas também um produto a que os historiadores não davam muita atenção: as pimentas conhecidas como ardidas – dedo-de-moça, piripiri, tabasco, jalapeño, pimentão e pimenta-doce. Originárias das Américas do Sul e Central, eram diferentes da pimenta-negra (Piper nigrum) trazida da Ásia com o cravo, a canela e outras especiarias, argumentam Christian Fausto dos Santos, Fabiano Bracht e Gisele Cristina da Conceição, pesquisadores do Laboratório de História, Ciências e Ambiente da Universidade Estadual de Maringá, com base em relatos de cronistas, médicos e viajantes da época (Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi, Ciências Humanas, janeiro-abril de 2013). Segundo os pesquisadores, Cristóvão Colombo e seus navegadores, no século XV, foram os primeiros europeus a conhecer as pimentas americanas, que eram plantadas no México havia 9 mil anos e nos Andes peruanos desde 2.500 anos antes de Cristo. Depois de Colombo, a disseminação foi rápida, e as pimentas começaram a ser plantadas em hortas e quintais, inicialmente da península Ibérica. Um dos relatos indicou que as variedades americanas eram mais aromáticas e de gosto melhor do que as das Índias, então a principal especiaria buscada no Oriente. Em outro estudo, o grupo de Maringá relatou que as pimentas eram usadas no preparo das comidas a bordo dos navios, para evitar o escorbuto.
Revista FAPESP