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sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Notícias História Viva

Acre, cidade no Norte de Israel, tem sítios arqueológicos da época dos cruzados
Daniela Kresch (ciencia@oglobo.com.br)



ACRE - Ofuscada por destinos mais famosos como Jerusalém, Nazaré e Belém, a cidade portuária de Acre, no Norte de Israel, nem sempre entra no roteiro turístico de peregrinos cristãos na Terra Santa. Mas duas escavações recentes provam o que arqueólogos e historiadores já intuíam: a cidade de 4.500 anos de idade é mais importante para a história do Cristianismo do que a maioria pensa. Um dos sítios arqueológicos revelou uma cidade subterrânea da era dos cruzados. O outro desencavou uma construção monumental bizantina de 1.500 anos, da época dos primórdios do Cristianismo.

Nos últimos 20 anos, arqueólogos israelenses têm revelado mais e mais tesouros antigos em Acre. Até então, a cidade da Galileia de 50 mil habitantes, um tanto decadente, era mais conhecida pelas ruelas turco-otomanas do fim do século XVIII, pelo mercado oriental e seus restaurantes de peixes. Hoje, é um centro de arqueologia reconhecido internacionalmente. Não por acaso. A cidade já foi habitada por fenícios, egípcios, cananeus, gregos, romanos, mamelucos, cruzados, turcos, bahais e britânicos, para citar apenas membros de algumas civilizações e crenças.

Nos próximos meses, a prefeitura da cidade vai abrir ao público uma nova seção subterrânea revelando um bairro inteiro da Idade Média, quando Acre era a o porto - e a porta - de entrada dos cruzados na região. A cidade foi conquistada pelos cruzados em 1104 e se tornou um centro de soldados e peregrinos cristãos que tentaram reaver Jerusalém dos "infiéis" depois da ocupação da região pelo Islã, no ano 632.

No bairro descoberto, gravações de brasões em gesso deixadas por um viajante medieval abrem caminho para uma rua de pedras na qual funcionava um mercado onde peregrinos compravam souvenirs da Terra Santa. Tudo ficou como era em 1291, quando Acre foi subitamente reconquistada por muçulmanos egípcios.


- É como uma Pompeia dos tempos romanos. É uma cidade inteira - se maravilha o arqueólogo Eliezer Stern, da Autoridade de Arqueologia de Israel, que considera Acre "uma das cidades mais excitantes da arqueologia mundial".

A novidade se une a atrações arqueológicas medievais já visitadas por turistas, como uma fortaleza de cavaleiros da Ordem dos Hospitalários, com salões e pilares suntuosos, calabouços e latrinas, além de um túnel dos rivais Templários. Há também um mercado, além de prédios inteiros, ruas originais e utensílios usados pelos cristãos da Idade Média.

Sob poder dos cruzados, a cidade se tornou uma espécie de encubadoura de monges e soldados, com facções cristãs europeias lutando entre si pelo comércio local. Mercadores de Gênova, Veneza e Pisa conviviam com moradores muçulmanos e judeus. O bispo francês Jacques de Vitry, que visitou a cidade em 1216, não pintou um quadro muito bonito do cotidiano local.

"Quando entrei nessa cidade horrível e a encontrei cheia de incontáveis atos vergonhosos e malefícios, fiquei muito confuso", escreveu o bispo, que descreveu a cidade como "totalmente depravada" e "cheia de prostitutas". Os moradores, segundo Vitry, estavam "totalmente devotados aos prazeses da carne". Os "pecados" podem ter trazido a ira divina, já que a cidade foi reconquistada pelos muçulmanos em 1291.

A presença cruzada fez com que Acre fosse tombada como Patrimônio da Humanidade pela Unesco. Mas, mil anos antes, o porto já era um centro cristão extremamente importante. É o que foi comprovado numa outra escavação recente, que revelou ruínas raras da era bizantina (do ano 324 ao 632). Trata-se, na verdade, do primeiro prédio público bizantino já encontrado na cidade, uma das mais antigas continuamente habitadas da região.


As ruínas foram encontradas depois que empreiteiros decidiram aumentar o estacionamento de um grande shopping center ainda em construção. Os arqueólogos se surpreenderam ao descobrir que, no terreno onde há poucos anos funcionava uma fábrica, se escondia uma construção de 1.500 anos, que inclui paredes monumentais de pedras polidas, canos de terracota e dois mosaicos, um branco e um com moldura azul e padrão piramidal vermelho.

Segundo os responsáveis pela escavação, as ruínas provam que o prédio era proeminente, talvez uma das primeiras igrejas da Terra Santa ou, quem sabe, a mansão do bispo Aeneas de Acre, que participou do Primeiro Concílio de Niceia, em 325 - o encontro histórico que ajudou a delinear os caminhos da Igreja Cristã logo depois que o imperador romano Constantino I adotou a fé em Jesus Cristo.

- Pisos mosaicos eram usados apenas em prédios públicos, como igrejas, ou residências de autoridades ou gente rica - explica a arqueóloga israelense Nurit Faig, líder da escavação.

Historiadores já apontavam Acre - ou Akko, em hebraico, e Akka, em árabe - como centro cristão na era bizantina. Nos arquivos do Vaticano, a cidade portuária aparece nos escritos de um peregrino anônimo de Piacenza, na Itália, que visitou a região no ano de 570. Ele descreveu a beleza das igrejas.

No caso desse prédio bizantino, porém, só um pequeno poço poderá ser visto pelos turistas. A construção já foi enterrada novamente - depois de coberta por um pano espacial e minuciosamente detalhada em fotos e filmes - para dar lugar ao estacionamento.

- Fizemos o que chamamos de "cobertura para gerações". É cruel, eu sei, mas temos que tentar conviver com a mistura de passado e futuro - diz Nurit Feig. - Se barrássemos todos os novos projetos por causa da arqueologia, toda Israel teria que ser construída sobre palafitas.


Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/mundo/mat/2011/07/01/acre-cidade-no-norte-de-israel-tem-sitios-arqueologicos-da-epoca-dos-cruzados-924815487.asp#ixzz1UACY4i00
Jornal O Globo

domingo, 1 de maio de 2011

Em nome da cruz

Conheça a história de sangue e fé das Cruzadas, mais um capítulo marcante do passado que ganha vida no cinema

Juliana Tiraboschi

divulgação
"Cruzada"
Filme retrata seis anos de domínio ocidental em Jerusalém

Apegaram-se à cruz em vários países e reinos, França, Inglaterra, Flândria e Alemanha, uma grande multidão de cristãos inflamados pelo amor aos céus. De todos os lados surgiam exércitos com suas riquezas e posses, pertences de suas casas e armas necessárias em seu caminho a Jerusalém." Esse trecho de um relato do cronista Alberto de Aacnhe, escrito no século 11 e reproduzido no livro "Kidush Hashem: crônicas hebraicas sobre as Cruzadas", confirma que não é de hoje que Jerusalém é disputada por sua condição de berço das religiões cristã, muçulmana e judaica. Muito antes dos choques atuais entre israelenses e palestinos, um outro conflito de quase 200 anos marcou a luta pelo domínio da Terra Santa e é tema central do filme "Cruzada" (Kingdom of Heaven), que estréia mundialmente no dia 6 de maio.

Definida por alguns como a "expressão do barbarismo e fanatismo medievais" e por outros como "a vitória da civilização ocidental cristã sobre o Oriente bárbaro", essa disputa na região da Palestina não pode ser descrida por nenhuma dessas frases sem cairmos numa análise reducionista. É verdade que os cristãos foram capazes de promover massacres sangrentos contra árabes, turcos, judeus e até mesmo contra outros cristãos, ortodoxos, e também é certo que os árabes muçulmanos não eram um povo ignorante como acreditava a maioria dos europeus na época. Muito pelo contrário, no século 11 eles já haviam atingido grande desenvolvimento em áreas como a matemática, a astronomia, a medicina e a química.

Porém, reduzir as Cruzadas a apenas uma chacina promovida pelos cristãos também seria muito simplista, já que elas representaram muito mais que isso. Na Jerusalém controlada pelo povo árabe, os cristãos e judeus da cidade sempre tiveram liberdade para praticar suas religiões. O choque começou quando os turcos seljúcidas, recém-convertidos ao Islã, chegaram à Cidade Santa em 1076 e, ao contrário dos árabes, se mostraram intolerantes com seguidores de outras religiões.

Surto populacional

A contagem do número de Cruzadas realizadas entre 1095 e 1291 varia um pouco entre os historiadores. Mas isso é mais um recurso didático do que uma divisão incontestável. "Havia um fluxo constante de peregrinos, armados ou não, em direção a Jerusalém. Mas não se pode negar que em certos momentos aquele fluxo se intensificava", explica Hilário Franco Jr. no livro "As Cruzadas". A numeração clássica aponta oito cruzadas, que vão de 1099 a 1291, ano em que Acre, o último território na Síria controlado pelos cristãos, cai em mãos muçulmanas.

Para entendermos como o contexto histórico favoreceu o início das Cruzadas, é preciso compreender primeiro como era a sociedade feudal na Europa. Após as invasões de povos bárbaros na Europa Ocidental e da queda do Império Romano, o continente foi se fechando em feudos. Nesses territórios, o senhor feudal era soberano e toda a produção era voltada para a subsistência de cada feudo. Isso marca uma transição entre uma economia predominantemente mercantil para uma essencialmente agrária. Com a drástica diminuição das transações comerciais com o Oriente e um maior isolamento, cai também a quantidade de epidemias e pestes. O fim de invasões estrangeiras e grandes batalhas, assim como a abundância de recursos naturais, favoreceram uma explosão demográfica na Europa, causando um aumento no desemprego e uma tensão social. A população da Europa Ocidental passou de 18 milhões de indivíduos no ano de 800 para quase 26 milhões em 1100. Sem esse contingente populacional talvez as Cruzadas jamais tivessem existido, já que não haveria guerreiros suficientes nem a motivação dos mais pobres de partirem para a Terra Santa. Além disso, com o surto populacional havia cada vez menos terras disponíveis. "Assim, é natural que a pequena nobreza sem terra ou com escassos recursos visse nas Cruzadas uma possível fonte de riquezas", relata Hilário Franco Jr.

O centro do mundo
reprodução
O Império Bizantino era formado por uma mescla de culturas e povos, com predominância do grego. Nasceu como Império Romano do Oriente, quando no ano de 330 Constantino I transferiu a capital do Império Romano para Bizâncio, que passou a chamar-se Constantinopla (hoje Istambul, capital da Turquia). Séculos mais tarde, em 1054, ocorre a divisão da Igreja Católica entre apostólica romana e ortodoxa, cuja sede seria Bizâncio. Quando o Império Romano do Ocidente começou a sofrer invasões dos povos bárbaros, Constantinopla tornou-se não somente sua sede política, mas também o seu centro econômico, cultural e religioso. A riqueza material e as relíquias religiosas acumuladas em Constantinopla despertaram a cobiça dos francos durante a Quarta Cruzada. Os cruzados nem sequer chegaram perto de Jerusalém nessa expedição, preferindo invadir e saquear a exuberante capital do Império Bizantino.

Cristãos unidos

Por isso, quando o povo seljúcida tomou dos gregos um grande território - cuja capital era Nicéia e que mais tarde viria fazer parte da Turquia - e o imperador bizantino Aleixo Comneno I pediu auxílio ao papa Urbano II para conter o avanço dos turcos em direção a Constantinopla, apresentou-se a oportunidade para a Igreja Católica tentar acabar com as intermináveis guerras e conflitos entre os reis cristãos. O apelo de Comneno serviria de estímulo para a tentativa de juntar todos os europeus contra um inimigo comum: o infiel muçulmano, e assim perseguir o sonho da unificação da cristandade. "Que os ódios cessem entre vós": é assim que Urbano II conclama reis e cavaleiros para partir em busca da libertação da Terra Santa.

As rotas das quatro primeiras cruzadas
Cristianismo
Romano
Expansão do
Cristianismo Romano
Cristianismo
Ortodoxo

Expansão do
Cristianismo Ortodoxo

MuçulmanoPrincipais centros de Peregrinação
a. Santiago de Compostelah. Roma
b. Lisboai. Sicília
c. Toledoj. Edessa
d. Parisk. Antioquia
e. Marselhal. Damasco
f. Gênovam. Acre
g. Venezan. Jerusalém



reprodução
França, 1095
Papa Urbano II conclama a nobreza a partir para o Oriente e libertar a Terra Santa

A "guerra santa" recebeu adesão completa dos cavaleiros, já que representava uma saída para suas aspirações e ambições. Os nobres foram motivados pela missão de resgatar os locais santos, principalmente o Santo Sepulcro, pela busca de novas terras para se apossar pela conquista de principados no Oriente e pela aventura em si, já que isso fazia parte da educação dos cavaleiros. Já os pobres, destituídos de perspectiva na vida, tinham nas Cruzadas uma "válvula de escape". E, claro, a religiosidade era outra forte motivação, já que sofrer martírios era uma forma de purificar a alma e obter perdão pelos pecados cometidos.

Quando o Papa Urbano II apela para os nobres partirem em direção ao Oriente, ele esperava que a expedição fosse formada exclusivamente pelos cavaleiros. Porém, seu discurso carregado de apelo religioso despertou o entusiasmo de camponeses, pequenos comerciantes, mendigos e toda a sorte de pessoas de diferentes classes sociais, principalmente na França e Alemanha. Nos anos anteriores ao início da Primeira Cruzada, os camponeses sofriam com a seca, as pestes e a fome. Liderados por Pedro, o Eremita, a multidão partiu sem armas nem provisões em direção do local que consideravam o próprio paraíso na Terra. A conseqüência óbvia foram as enormes dificuldades encontradas pela "Cruzada Popular", o que levou a roubos e saques pelo caminho. Milhares de peregrinos morreram no trajeto, e os que conseguiram chegar a Constantinopla deixaram a população bizantina chocada pelo bando de miseráveis e ignorantes invadindo sua cidade. Foi somente com a Primeira Cruzada, a oficial, que cerca de 12 mil cruzados (chamados assim por usarem cruzes de tecido bordadas nas vestimentas) conseguiram conquistar Jerusalém, no dia 15 de julho de 1099. Região de solo pedregoso e pouco propício à agricultura, a Cidade Santa detinha toda a sua importância unicamente no fato de ser o local de nascimento do cristianismo, judaísmo e islamismo.

Mito e realidade
reprodução
A Ordem dos Cavaleiros Templários combinava os papéis de cavaleiro e monge, e tinham como missão proteger os peregrinos durante as Cruzadas. "Eles eram a força militar mais disciplinada da Europa", descreve a historiadora Karen Ralls no livro "Os Templários e o Graal". O mistério envolvido na história dos Templários criou uma lenda que diz que os cavaleiros seriam os guardiões do Santo Graal. "A história do Graal tem sua base na passagem bíblica em que o soldado perfura a costela de Cristo - somada à passagem do romance "O Conto do Graal", novela de Chrétien de Troyes (1135-1190), encomendada pelo conde Filipe de Flandres (1142-1191). O pedido foi feito imediatamente antes da desastrosa atuação do conde na Terra Santa nos anos 1177-1178. Chrétien cumpriu maravilhosamente bem sua missão, idealizando a essência da biografia de Filipe e situando-a nos míticos tempos célticos do Rei Artur, nas terras de Gales e da Bretanha, igualmente carregadas de prestígio literário. E o que isso tem a ver com os Templários? "Nada", opina o historiador Ricardo da Costa.

A força egípcia

Durante 88 anos os francos (chamados assim porque grande parte dos cruzados vinha da França) conseguiram manter-se no controle da região, batizada por eles de Reino de Jerusalém. Em 1147, o domínio dos cruzados no Oriente Médio é abalado quando Edessa, na Síria, é recuperada pelos muçulmanos. É o início da Segunda Cruzada. Porém, a falta de preparo das tropas francesas e alemãs e o desentendimentos entre o rei Luís VII da França e Raimundo de Poitiers, príncipe da Antioquia, território bizantino, enfraquecem o exército cristão e permitem uma vitória muçulmana. Havia divergência entre os povos árabes também, que foram minimizadas com a emergência do Egito como potência mundial no final do século 12. Seu líder, o sultão Saladino, consegue ocupar Jerusalém em outubro de 1187.

Guerra selvagem
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Para os árabes, as Cruzadas não foram uma disputa, mas uma invasão a seu território pelos ocidentais bárbaros. "(...) aqueles guerreiros loucos, (...) que espalham pelas ruas o sabre cortante, (...), degolando homens, mulheres e crianças, (...), saqueando as mesquitas", descreve um relato de 1099 reproduzido no livro "As Cruzadas Vistas pelos Árabes". Eles tampouco nutriam simpatia pelos seljúcidas, apesar de compartilharem a mesma religião, porque os viam como menos desenvolvidos."No mundo muçulmano havia lutas pelo poder entre famílias, regiões e etnias, e nesse sentido a luta dos turcos contra os árabes gerava rancores, mas nada irreversível", pondera Hilário Franco Jr.


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Reinado curto
Em 1187 o sultão Saladino, doEgito, recupera Jerusalém para os muçulmanos

Nenhuma das outras cruzadas empreendidas pelos cristãos é capaz de recuperar o Reino de Jerusalém novamente. O maior erro dos francos, porém, talvez tenha sido a Quarta Cruzada, quando os francos se desviaram da Terra Santa e atacaram e saquearam Constantinopla, cidade de cristãos como eles. "A Quarta Cruzada não só acarretou a destruição ou extravio de todos os tesouros do passado que Bizâncio tão ciosamente acumulara e feriu de morte uma civilização ainda ativa e grandiosa, constituindo também uma gigantesca asneira política. Não teve a menor serventia para os cristãos da Palestina - pelo contrário, privou-os de potenciais salvadores - e, pior, desarranjou todas as defesas da cristandade", critica Steven Runciman no terceiro volume de "A História das Cruzadas".







A visão hebraica
reprodução
Apesar de não terem sido o alvo principal dos cruzados, a população judia que vivia no Oriente Médio e na Terra Santa acabou sendo um dos "bodes expiatórios" do ódio franco. Enquanto o pregador mais influente durante a Primeira Cruzada, Pedro, o Eremita, recebeu cartas de recomendação dos judeus da França para que fosse bem recebido pelos judeus orientais, tropas francesas e alemãs atacaram diversas comunidades judias, obrigando sua população a converter-se ao cristianismo ou entregar-se à morte.

Novo comércio

As Cruzadas não foram um empreendimento religioso apenas. Motivações econômicas, políticas e sociais se juntam à religião para tornar o contexto propício. "As Cruzadas fizeram reabrir as rotas de comércio entre a Europa Ocidental e o Oriente, que tiveram seu uso diminuído desde o século 4. A nobreza em luta precisava de recursos como comida e roupas, levadas por pequenos comerciantes que traziam produtos orientais para a Europa", explica Ana Paula Tavares Magalhães, professora do departamento de história da Universidade de São Paulo. "Com isso surgem novos hábitos de consumo e se introduz um refinamento com os novos tecidos, perfumes e tapetes, além da troca de idéias", complementa. A Europa Ocidental, naquela época, era uma espécie de "primo pobre" do Oriente, mais rico, mais instruído e mais culto.

"As Cruzadas são um fenômeno complexo e muitas vezes mal compreendido por ser visto sob o ponto de vista ocidental e no aspecto religioso. No entanto resultaram de um conjunto de fatores materiais e psicológicos, onde os interesses políticos e econômicos foram decisivos, mas se dissimularam por trás de uma teologia, a da libertação dos lugares santos. Os papas desejavam acabar com o cisma de 1054 (que dividiu a Igreja Católica Apostólica Romana - cujo chefe era o papa, e a Igreja Ortodoxa Grega -, que tinha como líder o patriarca de Constantinopla) e trazer o Oriente para o âmbito de sua autoridade, eles não foram 'puros' servidores dos ideais de Deus", opina a historiadora Márcia Siqueira, professora da Universidade Federal do Paraná.

Durante todos esses anos, as Cruzadas foram marcadas por aproximações e oposições entre a Igreja católica ocidental e a oriental ortodoxa. O objetivo principal do imperador bizantino não era livrar a Terra Santa do domínio muçulmano, mas sim recuperar seus territórios na Ásia Menor que haviam sido perdidos para o povo turco, principalmente a Antioquia. "Quando os cruzados prosseguiram rumo ao sul, penetrando na Palestina, cessou a colaboração ativa de Conmeno I. A política bizantina tradicional fora, no último século, de aliança com os fatímidas do Egito contra os abássidas sunitas e turcos. Os fatímidas haviam tratado os cristãos orientais com generosa tolerância, e Aleixo não tinha motivos para presumir que o governo franco lhe seria mais agradável", escreve o historiador Steven Runciman.

"As Cruzadas fracassaram redondamente. Sequer conseguiram desenvolver uma cultura 'ocidental' na Palestina. Pelo contrário, elas deram motivos muito fortes de ressentimento dos muçulmanos contra o Ocidente. Para se ter uma idéia, ainda hoje nos bares do Líbano existem cantores populares que exaltam a figura do sultão Saladino (1138-1193)", revela o historiador Ricardo da Costa, professor da Universidade Federal do Espírito Santo. Já Ana Paula Tavares Magalhães acredita que, se no Oriente as Cruzadas fracassaram completamente, houve uma vitória importante no Ocidente. "O papa surge hegemônico no Ocidente após as Cruzadas", justifica.

Cruzadas no Ociente
reprodução
A rigor, as Cruzadas e a Reconquista contra a invasão moura na Península Ibérica são movimentos distintos, já que as primeiras ocorreram em território islâmico e fracassaram e a segunda ocorreu em solo cristão e alcançou vitória em 1492. "Porém elas respondem às mesmas motivações: religiosa (propagação do cristianismo e estímulo às peregrinações), demográfica (a população cristã ocidental crescia e necessitava de novas áreas de ocupação) e social (a pequena nobreza sem terra, e mesmo em certos casos camponeses, buscava áreas cultiváveis fora de suas regiões de origem). Assim, é natural que várias vezes os dois fenômenos tenham se entrecruzado", avalia Hilário Franco Jr.

Supremacia cristã

Por mais que a visão geral seja a de que o Ocidente fracassou em seus objetivos, a longo prazo a situação geopolítica mundial se transformou como conseqüência desses conflitos. "As Cruzadas foram o ponto de intersecção de três trajetórias históricas em ritmos e direções diferentes naquele momento: a muçulmana estacionária, a bizantina em queda, a ocidental em ascensão. De certa forma as Cruzadas acentuaram esse quadro, e nos séculos seguintes concretizaram-se a queda e desaparecimento de Bizâncio, certa regressão e depois a estagnação do Islã e a confirmação da supremacia cultural, tecnológica, econômica e política do Ocidente cristão", conclui Hilário Franco Jr.

Para ler
• "As Cruzadas", Hilário Franco Jr. Ed. Moderna. 1999
• "As Cruzadas", José Roberto Mello. Ed. Ática. 1989
• "As Cruzadas Vistas pelos Árabes, Amin Maalouf. Ed. Brasiliense. 1983
• "História das Cruzadas", vols. I, II e III, Steven Runciman. Ed. Imago. 2002
• "Kidush Hashem: crônicas hebraicas sobre as Cruzadas", Nachman Falbel. Edusp. 2001
• "Os Templários e o Graal", Karen Ralls. Ed. Record. 2004

Linha do tempo

Juliana Tiraboschi


A cronologia das Cruzadas

1095
O imperador bizantino Aleixo I Comneno pede auxílio ao papa Urbano II contra uma ameaça de invasão turca

1095

26 de novembro
O papa Urbano II faz um apelo para que os soldados partam para o Oriente a fim de ajudarem outros cristãos a livrarem-se do jugo muçulmano. Milhares de nobres, cavaleiros e plebeus partem rumo à Terra Santa para recuperar Jerusalém

1096
Tem início a Primeira Cruzada, a única realmente bem- sucedida

1098
Antioquia é tomada pelos cruzados

1099

Chega ao fim a Primeira Cruzada com a tomada de Jerusalém pelos cruzados. O duque de Lorena é escolhido como o rei da Terra Santa. São criados os Estados de Trípoli (no atual Líbano), Antioquia (na atual Síria) e Edessa (atualmente Urfa, na Turquia)

1114

Os muçulmanos reconquistam Edessa, desencadeando a Segunda Cruzada, chefiada pelo rei da França e imperador da Alemanha. Vitória para os muçulmanos, que mantêm controle do território

1187
Jerusalém é tomada pelo sultão do Egito, Saladino, resultando na Terceira Cruzada, liderada por Filipe da França, Ricardo Coração de Leão, da Inglaterra e o imperador da Alemanha. Mais uma vez os ocidentais foram derrotados

1202

Começa a Quarta Cruzada, que nem chegou perto da Terra Santa. Os cruzados chegam a Constantinopla, pilham e tomam a cidade, além de estabelecer o domínio latino na Grécia. Termina em 1204

1210

Milhares de jovens de 13 anos para baixo, homens e mulheres, vão para o Oriente conduzidos por um padre francês, que acredita que pode conseguir o poder sem o uso de armas. O movimento, conhecido como Cruzada das Crianças, acabou em tragédia: a maioria dos participantes morreu pelo caminho ou foi parar em mercados escravos do norte da África

1228

A Sexta Cruzada foi relativamente pacífica, marcada pelas negociações de trégua entre cristãos e muçulmanos. Jerusalém é entregue aos cruzados, mas em 1244 os muçulmanos retomam o poder

1248

Luís IX, rei da França, retoma seu antigo projeto de conquistar o Egito, local estratégico para alcançar o domínio da Palestina. Começa a Cruzada de São Luís. Uma demora na decisão de atacar o Cairo deu tempo para os muçulmanos se prepararem. Quando retomaram a marcha para a cidade, os cruzados foram derrotados em 1250 e Luís IX é preso

1250

Motivado pela prisão do rei, surge um movimento popular na Europa com o objetivo de resgatá-lo, a Cruzada dos Pastores. Porém, os cruzados se envolvem em pilhagens e a missão fracassa

1251

Luís IX é libertado e vai para a Síria. Durante quatro anos reconstruiu as forças cristãs para atacar Jerusalém. Ele volta à França para o funeral de sua mãe, regente da França, a Sétima Cruzada termina sem ter alcançado nenhum resultado

1268

Os muçulmanos conquistam Antioquia, a última grande cidade oriental na mão dos cristãos. Luís IX volta a participar da Oitava Cruzada, mas recebe pouco apoio e muitas críticas. A Cruzada dirige-se para a Tunísia. Uma epidemia não identificada mata centenas de cruzados e seu líder, Luís IX, canonizado posteriormente, em 1297. São Luís era um dos poucos que ainda acreditam nas Cruzadas, e sua morte sepulta de vez os anseios dos cruzados, fazendo os sobreviventes voltarem para a França

1291
Os católicos perdem seu último território na Síria, a cidade de Acre. O papado continua a pregar novas cruzadas, mas encontra poucos adeptos


Revista Galileu

http://revistagalileu.globo.com

sábado, 16 de abril de 2011

Cruzadas: o fim de uma era

Empreender uma cruzada era uma tarefa árdua para os reis europeus. Consumia o tesouro e enfraquecia a autoridade do monarca, que passava anos longe do reino. Por outro lado, para o papa Inocêncio III, campanhas patrocinadas por reis não eram bem-vistas. Para ele, quem deveria controlar a empreitada era a Igreja. Mas, quando o papa lançou um apelo por uma nova expedição, em 1198, seu pedido foi ignorado. França e Inglaterra estavam em luta e não se mostravam dispostas a ceder homens para a Guerra Santa. Mesmo entre a pequena nobreza européia, as Cruzadas haviam perdido seu sabor místico e idealista. A muito custo, reuniu-se um grupo de combatentes cujo maior interesse era a possibilidade de pilhagem. Tanto é que preferiram assaltar Constantinopla, uma cidade cristã, a combater os muçulmanos na Terra Santa. E a Quarta Cruzada virou um desastre. As Cruzadas seguintes foram empreendimentos isolados, sem muito sucesso. “Visto à luz de seus propósitos originais, as Cruzadas foram um fracasso. Não promoveram conquistas permanentes na Terra Santa. Não retardaram o avanço do Islã. Longe de ajudar os bizantinos, aceleraram sua desintegração. Fomentaram a intolerância entre muçulmanos e cristãos, onde antes havia um mútuo respeito. E ainda recrudesceram o anti-semitismo na Europa”, escreveu o historiador Williston Walker em seu livro A History of Christian Church (Uma História da Igreja Cristã, inédito no Brasil).
Cruzada Albigense (1209-1229)
O papa Inocêncio III decretou, em 1208, uma cruzada para exterminar a seita herética dos cátaros do sul da França. A repressão se estendeu por 20 anos.
Cruzada das Crianças (1212)
O jovem pastor Nicholas de Colônia, guiado por um êxtase místico, liderou cerca de 20 mil garotos até Marselha (França). Lá, foram embarcadas em direção à Terra Santa e acabaram vendidas como escravos em Túnis (Tunísia). Outro grupo de crianças iludidas pela causa partiu da Alemanha, cruzou os Alpes e acabou se dispersando na Itália.
Oitava Cruzada (1267-1270)
Atormentado pelos insucessos em sua campanha anterior na Terra Santa e recebendo notícias cada vez piores do além-mar, Luís IX decidiu, em 1267, empreender uma nova cruzada. Em 1270, desacreditado por seus súditos, ele atacou Túnis, mas acabou morrendo durante o cerco, em 25 de agosto, devido a uma epidemia de peste, fato que encerrou a empreitada.
Quarta Cruzada (1202-1204)
Tornou-se a mais infame de todas. Sem o apoio de monarcas europeus, os cruzados pilharam a cidade portuária de Zara (Croácia), que era cristã, e foram excomungados pelo papa. Em 1203, atacaram e saquearam a riquíssima Constantinopla, capital de Bizâncio, sob o pretexto de que os bizantinos haviam sabotado os cavaleiros cristãos em campanhas anteriores à Terra Santa.
Quinta Cruzada (1218-1221)
Em 1218, um exército comandado pelo cardeal Pelagio desembarcou em Damietta, no Egito. Os ayubitas tentaram um acordo com os invasores, no entanto, a cidade foi tomada em novembro de 1219. Animados, os cruzados avançaram contra o Cairo em 1220, porém foram massacrados pelos islâmicos. Em 1221, Damietta foi recuperada pelos ayubitas.
A queda de Acre (1291)
A tomada da última cidade cristã pelos mamelucos, em 1291, marca o fim da era das Cruzadas na Terra Santa.
Sexta Cruzada (1228-1229)
Liderada por Frederico II da Alemanha. Assim que chegou à Palestina, alcançou um acordo diplomático com o sultão Malik al-Kamil. O sultão concordou em ceder Jerusalém, Belém e uma faixa costeira até Acre para os cristãos, mas o acordo durou apenas 15 anos. Em 1244, a cidade foi retomada pelos egípcios, o que levou ao lançamento da Sétima Cruzada.
Sétima Cruzada (1248-1254)
O devoto rei da França Luís IX embarcou com 20 mil homens rumo a Damietta, no Egito. O plano era tomar a região e depois atacar Jerusalém. Damietta caiu rapidamente, mas os muçulmanos lançaram um contra-ataque em Mansurah. Luís retornou a Damietta, onde acabou capturado. Após pagar um alto resgate, ainda atuou em Acre, voltando para a França em 1254.


1193
Saladino morre.
1204
Cruzados atacam Constantinopla
1206
Genghis Khan unifica mongóis
1209
Fundada a Universidade de Cambridge
1212
Cristãos vencem mouros em Las Navas de Tolosa (Espanha)
1260
Mamelucos derrotam mongóis em Ain Jalut
1271
Baibars captura o Krak des Chevaliers
1291
Queda de Acre, última fortaleza cristã na Palestina

Revista Aventuras na História

Cruzadas: a reação muçulmana

O imperador bizantino Alexius I deve ter se arrependido de ter pedido ajuda aos “irmãos do Ocidente”, pois esses decidiram ficar com as terras conquistadas durante a Primeira Cruzada. Em menos de uma década, quatro reinos foram criados na região da Palestina: o Condado de Edessa, o Principado de Antióquia, o Condado de Trípoli e o Reino de Jerusalém. Mas o assentamento dos cristãos na Terra Santa não agradou nem um pouco aos muçulmanos e, em pouco tempo, despontaram lideranças capazes de fazer frente aos cruzados. O mais proeminente de todos foi Zengi, senhor de Alepo e Mossul. Em 1144, ele iniciou a reação e arrebatou Edessa das mãos cristãs. Em resposta, os cristãos do Ocidente empreenderam uma nova cruzada. Os novos invasores atacaram o alvo errado e investiram contra Damasco, uma cidade árabe até então aliada do reino cristão de Jerusalém. Isso apenas acelerou a unificação da Síria nas mãos de Nureddin, filho de Zengi, que também abocanhou o Egito. Seu sucessor, Saladino, completou a obra de seu mestre. Após a vitória em Hattin (1187), varreu os cristãos da Palestina, deixando-os apenas com algumas cidades costeiras. Uma terceira cruzada veio em socorro dos cristãos. Algumas cidades, como Acre, foram retomadas, mas a influência cruzada na Terra Santa nunca mais seria a mesma.
Segunda Cruzada (1147-1149)
Com a queda de Edessa, o papa Eugênio III lançou em 1145 o apelo por uma nova cruzada. Conrado III, da Alemanha, e Luís VII, da França, abraçaram a causa cristã e partiram para o Oriente, mas o exército germânico foi derrotado na Batalha de Dorylaeum, na Turquia, em 1147. Conrad conseguiu fugir e, junto com os franceses, convenceu o rei de Jerusalém a atacar Damasco – até então em trégua com os cristãos. Mas, sem sucesso, bateram em uma retirada humilhante.
Terceira Cruzada (1189-1192)
Foi liderada pelos três reis mais poderosos da cristandade: Ricardo Coração de Leão, da Inglaterra, Felipe II, da França, e Frederico Barba-Roxa, da Alemanha. Frederico morreu a caminho, mas Ricardo e Felipe II tomaram Acre em julho de 1191. Pouco depois, Felipe II retornou à França. Ricardo tentou, porém não chegou a Jerusalém.
Cruzada Espanhola (1147-séc. 14)
O papa Eugênio III conclamou uma cruzada contra os muçulmanos na Espanha. A tarefa foi liderada pelos reinos espanhóis de Aragão, Castela, Leão e Navarra.
Cruzadas Bálticas (1150-séc 16)
Inspirado pela Segunda Cruzada, o papa Eugênio III autorizou os cavaleiros alemães a empreender uma campanha contra os pagãos eslavos da atual Polônia.
Corrida pelo Egito (1163-1169)
Com a Síria unificada, Nureddin, filho de Zengi, concentrou seus esforços no Egito, governado pelos muçulmanos fatímidas. Mas Amaury, o novo rei de Jerusalém, também cobiçava a região. O resultado? Durante seis anos, Amaury atacou o Egito cinco vezes, mas teve de enfrentar os exércitos enviados por Nureddin para neutralizar o rei cristão. No fim, a vitória muçulmana lançou um jovem oficial para o comando do Egito: Saladino.
Krak des Chevaliers
Era a maior fortaleza cristã da região. Encravada no alto de um rochedo, a leste de Trípoli, era mantida desde 1144 pelos hospitalários, uma ordem de monges guerreiros. Resistiu ao cerco realizado por Nureddin em 1163 e ao de Saladino em 1188. Uma pedra no sapato dos turcos, a construção foi finalmente conquistada pelos mamelucos de Baibars em 1271.
O castelo dos assassinos
A Seita dos Assassinos era formada por ismaelitas – um ramo perseguido do islamismo. Em 1090, seu líder, Hassan as-Sabbah, conquistou a fortaleza de Alamut, no norte do Irã.
De lá, enviava seus seguidores para missões suicidas com o objetivo de matar importantes personalidades. Dentre suas vítimas está o rei de Jerusalém Conrad de Montferrat. Saladino quase foi morto por eles em 1176.
Batalha de Hattin
A batalha, travada em 1187, opôs 20 mil guerreiros cristãos, liderados por Guy de Lusignan (rei de Jerusalém), e 35 mil soldados muçulmanos de Saladino. Com a vitória muçulmana, as cidades cristãs caíram quase todas, incluindo Ascalon, Beirute, Sidon, Jaffa, Nablus e, claro, Jerusalém.


1145
Papa Eugênio III clama por uma segunda cruzada
1146
Zengi é assassinado por um escravo
1147
Cruzados ingleses tomam Lisboa
1154
Nureddin invade Damasco
1169
Chirkuk, braço direito de Nureddin, domina o Egito
1174
Nureddin morre. Saladino assume
1187
Saladino vence a batalha de Hattin
1189
Papa Gregório VIII conclama a terceira cruzada

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Cruzadas: 1095 a 1144

O grande evento que deu origem às Cruzadas não ocorreu na Palestina, mas em um remoto ponto da Anatólia (a atual Turquia). Ali, em 26 de agosto de 1071, na Batalha de Manzikert, o exército bizantino sofreu a mais grave de todas as suas derrotas para os turcos seldjúcidas. A situação se deteriorou rapidamente nos anos seguintes. O Império Romano do Oriente, abalado por seguidas guerras, havia perdido províncias na Ásia Menor e parecia não ser capaz de conter o avanço islâmico.
Em março de 1095, o papa Urbano II recebeu os delegados do imperador bizantino Alexius I. Eles pediram ajuda na luta contra os “infiéis” muçulmanos. Em 27 de novembro do mesmo ano, no Conselho de Clermont, Urbano II clamou por uma campanha pela reconquista dos lugares santos. “Os francos devem interromper suas guerras internas. Ao contrário, devem atacar os infiéis e empreender uma guerra santa.” A recompensa para quem lutasse não poderia ser melhor – a salvação da alma. “Todos os que perecerem pela causa de Deus serão absolvidos de seus pecados. Que não haja hesitação! Vocês devem marchar no próximo verão! Deus o quer!” O apelo havia sido lançado, mas nem mesmo o papa tinha idéia da real extensão do que estava por acontecer.
Primeira Cruzada (1096-1099)
Foi lançada em 1095 pelo papa Urbano II com o objetivo de capturar a Terra Santa das mãos dos muçulmanos. O que começou como um pedido de ajuda logo se transformou em histeria coletiva. Aos gritos de “Deus o quer!”, milhares de guerreiros da nobreza européia, sem nenhuma liderança expressiva, tomaram o rumo da Palestina. E, em 1099, conquistaram Jerusalém em uma investida que tingiu de sangue a cidade sagrada.
Cruzada do Povo (1096)
Instigada por Pedro, o Eremita, uma massa de camponeses com pouca experiência em combate saiu de Colônia, na Alemanha, rumo a Jerusalém. No caminho, saquearam Belgrado, na Sérvia, e outras cidades. Na chegada em Constantinopla, o imperador Alexius I despachou o exército de miseráveis rumo à Palestina. Sem água nem comida, emboscados pelos turcos, a massa humana foi aniquilada em 21 de outubro de 1096 perto de Nicéia, na Turquia.
Condado de Edessa
O primeiro estado cruzado foi fundado em 1098 por Balduíno de Boulogne. Os regentes posteriores, como Balduíno de Bourcq e Jocelin de Courtenay, logo se envolveram na política local, ora atacando, ora aliando-se a seus vizinhos bizantinos e árabes. Em 1144, Edessa foi tomada pelo senhor de Alepo e Mossul, o árabe Imad ad-Din Zengi. Sua queda deflagrou a Segunda Cruzada.
Principado de Antióquia
Liderado por Bohémond de Taranto, o exército cruzado atacou Antióquia em outubro de 1097. A capital do principado era extremamente bem defendida e foi tomada apenas em junho de 1098, quando um traidor abriu as portas da cidade.
Embora tenha perdido boa parte das terras ao longo de sua existência, Antióquia resistiu até 1268, ano em que o sultão Baibars tomou sua capital.
Os canibais de Maara
Em novembro de 1098, após a vitória em Antióquia, o exército cruzado atacou a cidade de Maara. No calor do embate, a carnificina se transformou em canibalismo. “Em Maara, os nossos faziam ferver os infiéis em caldeiras, fincavam crianças em espetos e as devoravam grelhadas”, relatou o franco Raoul de Caén. Outro franco, Albert de Aix, descreveu o horror: “Os nossos comiam não só a carne dos sarracenos como também a dos cães”.
Condado de TrÍpoli
Sua origem remonta a 1102, quando Raimond IV de Toulouse, um dos líderes da Primeira Cruzada, decidiu sitiar a cidade portuária de Trípoli. O cerco durou mais de seis anos, até 12 de junho de 1109, quando ela foi finalmente tomada. Durante sua existência, foi fortemente influenciada por genoveses e venezianos. Mas em 1289 Trípoli foi invadida pelos mamelucos egípcios e o condado chegou ao fim.

Reino de Jerusalém
Objetivo principal dos cruzados, Jerusalém foi tomada e massacrada por Godofredo de Bulhões em 1099. De todos os reinos cruzados, foi o que mais se envolveu na política local. Após a derrota para Saladino em Hattin, em 1187, Jerusalém, e boa parte do reino, foi tomada. Resistiu precariamente por mais 100 anos até a queda de Acre, última fortaleza cruzada na Palestina, no ano de 1291.


1095
Papa Urbano II convoca os cristãos para as cruzadas
1096
Cruzada do Povo é aniquilada pelos turcos
1097
Bohémond Toma AntiÓquia
1099
Godofredo de Bulhões toma Jerusalém
1100
Abelardo de Bath traduz a obra de Euclides para o latim
1104
Balduíno captura Acre
1129
Zengi se torna governador de Aleppo e Mossul
1144
Zengi conquista Edessa

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sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Os 2 lados das Cruzadas


Os 2 lados das Cruzadas
Há quase mil anos, o Ocidente trombou com o Oriente. O mundo cristão invadiu o mundo muçulmano e deu origem a 200 anos de guerra. Só dá para entender essa história se conhecermos os dois lados dela

por Rodrigo Cavalcante
Cruzada. No mundo pós-11 de setembro, a simples menção dessa palavra causa polêmica. Após o ataque às torres gêmeas, o presidente George W. Bush teve de pedir desculpas por usar o termo “cruzada” para nomear sua guerra contra o terrorismo. Osama bin Laden aproveitou a gafe. Em seu pronunciamento, o terrorista classificou a guerra no Afeganistão de “cruzada religiosa contra os muçulmanos”. A palavra ressuscitava dos livros de história. Só faltava Hollywood se interessar pelo assunto. Não deu outra.

O enredo do filme Cruzadas, de Ridley Scott, que está chegando aos cinemas, gira em torno de um ferreiro que se torna cruzado. Em tempos de Guerra no Iraque, nada mais natural que um filme com tema tão espinhoso despertasse protestos antes mesmo do lançamento. Em agosto de 2004, o jornal The New York Times entregou o roteiro de Cruzadas para teólogos cristãos e islâmicos. Os cristãos não viram problema, mas os muçulmanos acusaram o filme de estar cheio de erros.

Afinal, o que foram as cruzadas? Um ato de fé e heroísmo? Um massacre covarde? “Não faz sentido buscar hoje bandidos e mocinhos”, diz o holandês Peter Demant, historiador da USP. “As batalhas tiveram significados diferentes para o Ocidente e o Oriente”. Existem, portanto, duas histórias das Cruzadas. Nada melhor do que narrar essa história dos dois pontos de vista. Como você poderá constatar nos dois textos que correm nas páginas seguintes, as versões não se contradizem. São olhares diferentes que ajudam a entender por que, nove séculos depois, o assunto continua fascinando – e causando polêmica – nos dois lados do mundo.



O exército de Cristo
No dia 27 de novembro de 1095, o papa Urbano II fez um comício ao ar livre nas cercanias da cidade de Clermont, na França. Na audiência, além de muitos bispos, havia nobres e cavaleiros. Depois desse sermão, o mundo nunca mais seria o mesmo.

No discurso, o papa tentou convencer os espectadores a embarcar numa missão que parecia impossível: cruzar 3 mil quilômetros até a cidade santa de Jerusalém e expulsar os muçulmanos, que dominavam o lugar desde 638. Segundo os historiadores, Urbano II deve ter usado uma linguagem vibrante e provavelmente falou dos horrores que os peregrinos cristãos à Terra Santa estavam vivendo. Do alto de sua autoridade divina de substituto de São Pedro na Igreja, o papa prometeu: quem lutasse contra os infiéis ganharia perdão de todos os pecados e lugar garantido no paraíso. Um prêmio tentador no imaginário do homem cristão medieval, sempre atormentado pela ameaça de queimar no inferno.

A reação da multidão foi imediata. Gritos de “Essa é a vontade de Deus” começaram a ecoar. A pregação mal havia terminado e o bispo Ademar de Monteil, num gesto provavelmente ensaiado, ajoelhou-se diante do papa e “tomou a cruz”, ritual de alistamento em que o voluntário recebia uma cruz de pano que deveria ser costurada na altura do ombro do uniforme de batalha. Ademar embarcaria na primeira cruzada. Dali em diante, aquela cruz passaria a identificar os “soldados de Cristo”, ou, simplesmente, “cruzados”.

Segundo os historiadores, a intenção do papa era convocar apenas cavaleiros bem preparados. Mas seu discurso empolgou especialmente os camponeses pobres que tinham pouco a perder. As cruzadas terminariam entrando para a história como o maior movimento populacional da Idade Média, redefinindo para sempre o mapa do mundo.

A ameaça do Islã

No século 11, não havia dúvidas: o Islã era a religião mais forte do planeta. Em menos de cinco séculos, desde a morte de Maomé, em 632, a palavra de Alá tinha conquistado a Península Arábica, o norte da África, a Ásia Central, Espanha, Portugal, grande parte da Índia e até um pedacinho da China.

Não era uma hegemonia apenas religiosa. Os muçulmanos superavam os cristãos em ramos como a matemática, a astronomia, a medicina e a química. Não havia cidade européia que se comparasse aos centros islâmicos. O Cairo sozinho abrigava tanta gente quanto Paris, Veneza e Florença juntas, as três maiores cidades cristãs da época.

Foi quando chegou ao papa um pedido de ajuda do Império Cristão Bizantino. A sede do império, Constantinopla (atual Istambul, capital da Turquia), era o maior centro do cristianismo naquela parte do mundo. Os bizantinos estavam preocupados com a presença nas suas fronteiras dos muçulmanos, naquela época governados por uma agressiva monarquia de etnia turca, os seljúcidas. Originados de uma tribo de saqueadores nômades das estepes da Ásia Central, os seljúcidas haviam conquistado os territórios do califado de Bagdá no século 10 e, após se converterem ao islamismo, tornaram-se a maior força muçulmana. E eles queriam mais. Já tinham tomado a cidade bizantina de Nicéia e estavam a menos de 160 quilômetros de Constantinopla, o equivalente a três dias a cavalo.

Naquele momento, não restava alternativa ao imperador bizantino Aleixo Comenos a não ser apelar para seus confrades europeus. Só que, quando o imperador avistou a primeira leva de combatentes cristãos, teve motivos de sobra para se preocupar.

Cruzada Popular

Se é verdade que a intenção do papa era enviar um exército forte e organizado, formado pela elite dos cavaleiros, ele se frustrou um pouquinho. Uma série de pregadores populares começaram a incitar o povão a atacar os “infiéis”. A promessa de remissão dos pecados, aliada à chance de pilhar tesouros lendários, era bem atraente. Velhos, mulheres e crianças resolveram se lançar na aventura.

O primeiro desses exércitos foi liderado por um pregador conhecido como Pedro, o Eremita. Já no caminho, seus seguidores criaram tumultos, massacrando comunidades judaicas em cidades como Trier e Colônia, na atual Alemanha. “As cruzadas fugiram do controle”, diz a professora Leila Rodrigues da Silva, professora de História Medieval da UFRJ. “É provável que muitas dessas pessoas nem soubessem diferenciar um judeu de um muçulmano.”

Ainda assim, o imperador bizantino recebeu os seguidores do Eremita em Constantinopla. Prudentemente, Aleixo aconselhou o grupo a aguardar a chegada de tropas mais bem equipadas. Mas a turba começou a saquear a cidade e foi obrigada a se alojar fora de Constantinopla, perto da fronteira muçulmana. Até que, em agosto de 1096, o bando inquieto cansou-se de esperar e partiu para a ofensiva. Foi massacrado.

Somente dois meses após essa “cruzada popular” começaram a chegar a Constantinopla os primeiros exércitos liderados por nobres. Esses homens estavam interessados em mais do que um lugarzinho no céu. “Nessa época, a Europa vivia um boom populacional e a pressão pela posse de terras era muito grande”, diz a historiadora da Idade Média Fátima Fernandes, da UFPR. “Os filhos de nobres que não eram primogênitos só podiam enriquecer por meio de um bom casamento, algo cada vez mais difícil. As cruzadas abriram uma esperança para eles”, diz ela.

Até que foi fácil

O primeiro líder nobre a chegar a Constantinopla, em dezembro de 1096, foi o conde Hugo de Vermandois, primo do rei da França, que veio pelo mar com seus cavaleiros e soldados. Logo depois, vindo pela mesma rota, aportou o duque da Baixa-Lorena, Godofredo de Bouillon, acompanhado de irmãos e primos. Para financiar sua participação na cruzada, Godofredo vendera seu castelo – o que prova que não pretendia voltar para casa.

Em abril de 1097, cerca de 40 mil homens atravessaram o estreito de Bósforo (que separa a Europa da Ásia) sem encontrar resistência. O governante muçulmano, o sultão turco Kilij Arslan, iludido pela facilidade com que havia derrotado os pobres cruzados do Eremita, estava mais preocupado com disputas internas com vizinhos muçulmanos do que com a chegada de um novo contingente de cristãos. Como o sultão iria perceber apenas tarde demais, esse seria o maior erro de sua vida.

Dessa vez, bem equipados com escudos, armaduras e cavalaria, os cruzados cercaram e tomaram Nicéia, devolvendo-a aos bizantinos. Em outubro de 1097, eles chegaram a Antióquia, conquistando aquela que havia sido uma das principais cidades do Império Romano. Seis meses depois, os cristãos partiram em direção a Jerusalém. A essa altura, restavam 13 mil homens, um terço do contingente inicial. Após um mês de cerco, em 13 de julho de 1099, os cruzados conseguiram finalmente entrar na cidade santa. No dia 15 venceram as últimas resistências.

Para a maioria deles, a conquista fora um milagre. Menos de quatro anos após a pregação em Clermont, os cristãos vitoriosos saíam em procissão para o Santuário do Santo Sepulcro, onde Cristo teria ressuscitado. O papa Urbano II morreu duas semanas depois, sem ter recebido a boa notícia da vitória. Mas ele também foi poupado das más notícias que chegariam depois.

Derrota após derrota

Foram criados quatro Estados cristãos nos territórios conquistados. Ao sul, o mais importante, o Reino de Jerusalém, governado por Godofredo de Bouillon. Um pouco acima estavam o Estado de Trípoli, o Principado de Antióquia e o Condado de Edessa. Os chefes desses Estados logo perceberam que a permanência lá não seria fácil.

Os governantes cristãos logo perderam o apoio dos bizantinos, porque se recusavam a reconhecer a soberania do Império na região e não haviam demonstrado nenhum escrúpulo em substituir os patriarcas da Igreja Ortodoxa Bizantina por bispos oriundos da Igreja Católica Romana. Para piorar, não havia soldados suficientes para a formação de grandes exércitos. Logo após a conquista de Jerusalém, milhares de cavaleiros regressaram à Europa.

Em 1144, a perda de Edessa para os muçulmanos foi a primeira prova da vulnerabilidade cristã. Com o objetivo de recuperar o território perdido, o papa Eugênio III lançou uma segunda cruzada em 1145, liderada por Luís VII, rei da França. Foi um fracasso. O filme que está chegando aos cinemas retrata as cruzadas a partir desse período.

Mas o pior estava por vir. Em 1187, sob a liderança de Saladino – o sultão que unificou os muçulmanos e até hoje é venerado por seguidores do Islã no mundo inteiro –, os muçulmanos reconquistaram o Reino de Jerusalém. Era o começo do fim.

A perda de Jerusalém foi um choque para a Europa cristã, apesar de Saladino ter permitido peregrinações ao Santo Sepulcro. Dali em diante, houve pelo menos mais quatro grandes cruzadas em direção à Terra Santa e os cristãos colecionaram derrotas e vexames. Um dos piores foi o de 1204, quando uma cruzada acabou atacando e saqueando a cidade cristã de Constantinopla, deixando cicatrizes profundas na relação entre os cristãos do Oriente e do Ocidente. Em 1212, organizou-se uma cruzada formada por adolescentes, a “Cruzada das Crianças”. Seus participantes, na maioria, terminaram mortos ou vendidos como escravos.

A herança cruzada

Mas, afinal, qual foi a herança das cruzadas para o Ocidente?

Segundo os historiadores, elas deixaram diversas marcas negativas, como a separação da Igreja do Ocidente e do Oriente e um rastro de violência que fez aumentar a desconfiança entre cristãos e muçulmanos nos anos seguintes.

Em compensação, é inegável que a Europa, apesar de não ter conquistado seus objetivos, saiu fortalecida. As cruzadas reforçaram a autoridade dos reis, abrindo caminho para a criação dos Estados Nacionais. Elas também impulsionaram o comércio com o Oriente, enriquecendo as cidades italianas que iriam ter papel fundamental na sofisticação das transações financeiras até resultar na criação do sistema bancário. Além disso, reforçaram a identidade cristã no Ocidente. E paradoxalmente, apresentaram os costumes orientais aos ocidentais, dos tapetes às especiarias. Essas novidades gerariam curiosidade na Europa, o que impulsionaria a busca por outras terras. Como o Brasil.

Mas isso tudo é só metade da história. Volte à página 54 para conhecer o lado menos conhecido das cruzadas.

Para saber mais

Na livraria:

The Oxford Ilustrated History of The Crusades - Jonathan Riley-Smith (org.), Oxford University Press, Reino Unido, 2001

Dicionário Temático do Ocidente Medieval - Jacques Le Goff e Jean-Claude Schmitt (orgs), Universidade do Sagrado Coração, 2002

Os Templários - Piers Paul Read, Imago, 2000

O Livro de Ouro dos Papas - Paul Johnson, Ediouro, 1998


A invasão bárbara
Foi um dia de terror. Em 15 de julho de 1099, milhares de guerreiros loiros entraram em Jerusalém matando adultos, velhos e crianças, estuprando as mulheres e saqueando mesquitas e casas. As ruas se transformaram numa imensa poça de sangue. Os poucos sobreviventes tiveram de enterrar os parentes rapidamente antes que eles próprios fossem presos e vendidos como escravos. Dois dias depois, não havia sequer um muçulmano em Jerusalém. Tampouco havia judeus. Nas primeiras horas da batalha, muitos deles participaram da defesa do seu bairro, a Juderia. Mas, quando os cavaleiros invadiram as ruas, os judeus entraram em pânico. A comunidade inteira, repetindo um gesto ancestral, reuniu-se na sinagoga para orar. Os invasores bloquearam as saídas, jogaram lenha e atearam fogo à sinagoga. Os judeus que não morreram queimados foram assassinados na rua.

A cena é narrada em As Cruzadas Vistas pelos Árabes, do libanês radicado na França Amin Maalouf. Seu livro é uma tentativa de contar as cruzadas do ponto de vista de quem estava do lado de lá. Para os cronistas muçulmanos, na verdade, não existiram cruzadas. As investidas cristãs em seus territórios ficariam conhecidas como as invasões dos francos (porque a maioria dos cruzados falava o francês), um período de terror e brutalidade na história do Islã.

Lá vêm eles

A primeira investida dos francos, ocorrida em 1096, três anos antes do terrível ataque a Jerusalém, não chegou a assustar o sultão turco Kilij Arslan, que comandava os territórios do atual Afeganistão até o que viria a se chamar, séculos depois, de Turquia. Liderado por um tal de Pedro, o Eremita, o grupo que se aproximava de Constantinopla com a ameaça de exterminar todos os muçulmanos da região mais parecia um bando de mendigos maltrapilhos. Entre os guerreiros, havia uma multidão de mulheres, velhos e crianças – um inimigo muito menos ameaçador do que os cavaleiros mercenários que o sultão estava acostumado a enfrentar.

Durante um mês, mais ou menos, tudo o que os cavaleiros turcos fizeram foi observar a movimentação dos invasores, que se ocupavam apenas de saquear as regiões próximas do acampamento onde foram alojados. Quando parte dos europeus resolveu partir em direção às muralhas de Nicéia, cidade dominada pelos muçulmanos, uma primeira patrulha de soldados do sultão foi enviada, sem sucesso, para barrá-los. Animado pela primeira vitória, o exército do Eremita continuou o ataque a Nicéia, tomou uma fortaleza da região e comemorou se embriagando, sem saber que estava caindo numa emboscada. O sultão mandou seus cavaleiros cercarem a fortaleza e cortarem os canais que levavam àgua aos invasores. Foi só esperar que a sede se encarregasse de aniquilá-los e derrotá-los, o que levou cerca de uma semana.

Quanto ao restante dos cruzados maltrapilhos, foi ainda mais fácil exterminá-los. Tão logo os francos tentaram uma ofensiva, marchando lentamente e levantando uma nuvem de poeira, foram recebidos por um ataque de flechas. A maioria morreu ali mesmo, já que não dispunha de nenhuma proteção. Os que sobreviveram fugiram em pânico. O sultão, que havia ouvido histórias temíveis sobre os francos, respirou aliviado. Mal imaginava ele que aquela era apenas a primeira invasão e que cavaleiros bem mais preparados ainda estavam por vir.

Ataque surpresa

Em meados de 1097, um ano depois da vitória sobre os homens do Eremita, os muçulmanos não estavam lá muito preocupados com a notícia da chegada de novos invasores. Mas a segunda leva de cavaleiros francos que marchava em direção aos seus territórios em nada se parecia com aqueles maltrapilhos ingênuos e despreparados. Bem protegidos com armaduras e escudos, os cavaleiros que agora chegavam não seriam presa fácil para as flechas lançadas pelos arqueiros turcos. Quando os muçulmanos se deram conta dessa diferença, já era tarde demais.

Em poucos dias, os cruzados invadiram a cidade de Nicéia e continuaram marchando como um verdadeiro furacão. Os exércitos turcos mal acabavam de lutar contra uma leva de invasores e, pronto, chegava um novo contingente ainda mais numeroso. Em pânico, a população de cidades como Antióquia avistava desesperada a chegada daqueles cavaleiros. Não havia nada a fazer. Alguns muçulmanos acreditavam até que se tratava do fim do mundo. Relatos do período diziam que o final dos tempos seria precedido pelo nascer de um gigantesco sol negro, vindo do Oeste, acompanhado de hordas de bárbaros. Se o sol negro ainda não havia aparecido, os bárbaros, ao menos, já davam as caras.

A nova ofensiva, que culminou com a brutal invasão de Jerusalém, em julho de 1099, alteraria para sempre a visão que o Oriente tinha do Ocidente. Os saques, estupros e assassinatos de crianças não eram nada condizentes com o tratamento que os próprios mulçumanos sempre deram aos cristãos e judeus que viviam em seus territórios. Quando eles chegaram a Jerusalém, no século 7, fizeram questão de preservar as igrejas cristãs e sinagogas judaicas. O acordo era claro: desde que esses povos não insultassem o profeta e não deixassem de pagar seus impostos, eles sempre teriam a liberdade para viver de acordo com suas crenças e suas próprias leis. Os poucos casos de governos hostis aos judeus e cristãos não passavam de exceções em longos períodos de convivência pacífica.

Com a queda de Jerusalém e a derrota para os francos, os mulçumanos aprenderam uma difícil lição: enquanto estivessem desunidos, o futuro do Islã estaria comprometido. Para que essa união fosse possível, contudo, seria necessário o surgimento de um líder respeitado pela maioria dos muçulmanos. Ele apareceu quase um século depois.

A reação islâmica

O homem que se transformaria no herói da reação muçulmana era um soldado curdo chamado Salah al-Din, conhecido no Ocidente como Saladino. Até hoje seu nome é venerado como símbolo da resistência contra o Ocidente – o próprio Saddam Hussein, conhecido pelas atrocidades cometidas contra os curdos de seu país, citou várias vezes o nome de Saladino aos iraquianos nos dias que antecederam a invasão americana.

Décadas após a fundação dos reinos cristãos no Oriente, os muçulmanos ainda não haviam conseguido retomar a maioria dos territórios perdidos. As disputas entre os diversos califas e sultões tampouco ajudavam na reconquista. Em 1174, ao tornar-se o soberano mais importante do mundo muçulmano, Saladino já pensava em como unir os estados islâmicos para uma contra-ofensiva.

A chave do sucesso de Saladino era um misto de profunda convicção religiosa e pragmatismo militar. Para derrotar os cruzados, ele pregava a união de todos os muçulmanos em torno da jihad, a guerra santa do Islã. Relatos contam que ele costumava reclamar que os muçulmanos não lutavam com o mesmo fervor dos cristãos. Após organizar os exércitos e treinar novas técnicas de combate, ele conseguiria o que muitos consideravam impossível: em 1187, reconquistou a cidade sagrada de Jerusalém, que havia 88 anos estava nas mãos dos cristãos. Após entrarem na cidade, muitos muçulmanos quiseram destruir a Igreja do Santo Sepulcro e matar todos os cristãos por vingança pelas atrocidades cometidas na invasão dos cruzados. Saladino, porém, fez questão de conter os ânimos dos seus soldados, preservando tanto a igreja quanto a vida dos cristãos.

Como já era esperado, a queda de Jerusalém foi um choque para o Ocidente. A cada derrota no front cristão, novas cruzadas eram enviadas ao Oriente, arrastando a batalha por décadas. O último bastião cristão na região só seria derrubado mais de um século após a tomada de Jerusalém por Saladino. O capítulo das cruzadas medievais terminaria apenas em 1291, quando os muçulmanos expulsaram os cristãos do Reino do Acre, ao norte de Jerusalém.

O legado da briga

Durante muito tempo, uma pergunta intrigou historiadores tanto do Ocidente quanto do Oriente: se os muçulmanos saíram vitoriosos das cruzadas, por que os estados islâmicos terminaram sendo ofuscados, no séculos seguintes, pela ascensão de potências européias?

Segundo a maioria dos pesquisadores, a ascensão européia tem menos ligação com as cruzadas e mais a ver com a debilidade dos governos muçulmanos da época. Essa fraqueza estava ligada a vários fatores, entre eles a falta de identidade árabe (desde o século 9, a maioria dos dirigentes muçulmanos era estrangeira, como os turcos seljúcidas) e a incapacidade de criar instituições estáveis – como os Estados em formação na Europa Ocidental.

O fato é que as cruzadas foram um marco nas relações entre ocidentais e orientais. Naquele momento, os “invasores bárbaros” eram os ocidentais cristãos e a grande potência era a muçulmana. Sobrou daquela guerra um ressentimento amargo, que extravasa de tempos em tempos, como tem acontecido com freqüência desde o ataque terrorista de 2001. Não são poucos os muçulmanos que atribuem o atraso econômico de seus países àquela agressão quase um milênio atrás – e que querem vingança por isso.

A vitória contra os francos e a ascensão de Saladino reforçaram no imaginário muçulmano a idéia de que é possível vencer o inimigo com altivez e senso de justiça. Além disso, as lutas contra os francos ensinaram também que os muçulmanos são mais fortes quando estão unidos – tese que até hoje permanece como uma utopia no Oriente. Mas até que ponto as cruzadas devem ser lembradas em tempos de guerra no Iraque?

“Não há por que ficar buscando na história motivos para reacender animosidades entre os dois povos”, diz o historiador Demant. “As cruzadas marcaram a história por apenas dois séculos. Já a convivência pacífica entre cristãos e muçulmanos sobrevive há mais de mil anos”.

Para saber mais

Na livraria:

As Cruzadas Vistas pelos Árabes - Amin Malalouf, Brasiliense, 1998

Islamic World, Ilustrated History - Francis Robinson, Cambridge University Press, Reino Unido, 2002

Uma História dos Povos Árabes - Albert Hourani, Companhia das Letras, 1991

Islã (Coleção Para Saber Mais) - Rodrigo Cavalcante, Superinteressante, 2003

Revista Superinteressante

quinta-feira, 25 de junho de 2009

As cruzadas das crianças


As cruzadas das crianças
Liderados por meninos pobres, milhares de camponeses, mendigos e doentes cruzaram a Europa, em 1212, em procissões que queriam chegar a Jerusalém
por Isabelle Somma e Kako
Estêvão tinha apenas 12 anos. Era analfabeto e ajudava a família cuidando de cabras em Cloyes, no norte da França. Em maio de 1212, foi até Saint Denis, onde o rei Felipe Augusto havia se instalado, para entregar-lhe uma carta. O menino dizia que Jesus em pessoa lhe pedira para liderar uma nova cruzada contra os muçulmanos. Mas, diferentemente das quatro incursões anteriores à Terra Santa, o exército cristão deveria ser formado por crianças. Segundo Estêvão, com o coração e a alma livres de pecados, elas receberiam a ajuda de Deus, venceriam os infiéis e retomariam Jerusalém.

Não se sabe se Felipe recebeu o menino e é provável que ele sequer tenha lido a tal carta. Sabe-se porém que o monarca ficou intrigado com a pregação do pequeno pastor e, como não tinha certeza do que fazer com ele, mandou consultar os acadêmicos da Universidade de Paris. A resposta foi sábia: o rei deveria mandá-lo de volta para casa. E assim o fez. Até aqui, a história está documentada e consta dos textos dos principais cronistas da época, entre eles Vincent de Beauvais e Roger Bacon.

A partir daí, o que aconteceu a Estêvão virou um mito que foi recebendo enxertos aqui e ali, até se tornar um dos episódios mais emblemáticos da Idade Média, conhecido como a Cruzada das Crianças. Estêvão se tornaria uma lenda, mas não seria o único. Na Alemanha, no mesmo ano, movimentos muito semelhantes aconteceram. “Juntas, essas procissões teriam reunido cerca de 40 mil pessoas, segundo os textos medievais, mas a maioria dos especialistas acredita que é exagerado”, diz o historiador Malcolm Barber, da Universidade de Reading, Inglaterra.

Para entender essas manifestações populares é preciso voltar ao início do século 13. Na baixa Idade Média, as migrações eram comuns em toda a

Europa. A população crescera bastante e havia muitos camponeses sem terras, migrando de vila em vila, procurando trabalho ou algum tipo de assistência. Essa multidão que vivia em trânsito ou à beira das estradas era um público farto para os pregadores messiânicos, que dominavam a cena religiosa. “O cristianismo estava ameaçado por muçulmanos e bárbaros e os movimentos de 1212 são filhos dessa crise”, diz Christopher Tyerman, professor do Hertford College, em Oxford, Inglaterra.

Após o fracasso da Quarta Cruzada, entre 1202 e 1204, surgiu no norte da França e no vale do rio Reno (na atual Alemanha) a idéia de que uma dessas peregrinações deveria se transformar numa nova cruzada popular composta apenas por pessoas comuns e desarmada que iria retomar Jerusalém apenas com o auxílio divino. Assim, quando Estêvão apareceu em Saint Denis, parecia uma resposta às preces daquelas almas cristãs atormentadas que perguntavam: “Por que nós não conseguimos expulsar os muçulmanos de solo sagrado?” Na lógica medieval, Deus não parecia disposto a ajudar as tropas comandadas por nobres pecadores, usurpadores e impuros. Por isso, a idéia de realizar uma cruzada com crianças, imaculadas e livres de pecados, como o próprio Jesus, fazia sentido. Se do ponto de vista religioso essa pregação não representava novidade, do ponto de vista prático era um tremendo desafio.

De Saint Denis a Jerusalém seria uma viagem de 4 mil quilômetros que duraria meses ou até anos. Quem seguiria uma criança numa aventura como essas? Que pais deixariam seus filhos partirem assim?

A marcha dos incluídos

Para Tyerman, algumas características da época podem nos ajudar a responder. Primeiro, o próprio conceito de criança era muito diferente do que é hoje. Depois, a palavra latina pueri pode ter sido mal traduzida. “O termo significa ‘homens jovens’ tanto quanto ‘crianças’”, afirma. O professor Barber concorda. “A maioria dos peregrinos não eram crianças, mas jovens trabalhadores rurais, pastores e padres”, diz.

Segundo Barber, já havia um movimento popular em Saint Denis antes da entrada do menino na cidade. “Estêvão de Cloyes chegou à cidade e se juntou a religiosos e peregrinos que voltavam do Oriente pregando a realização de uma nova cruzada. Na cidade, o menino, que tinha fama de milagreiro, foi considerado líder, antes que o grupo fosse dispersado pelo rei”, diz.

No entanto, Christopher Tyerman acha que esse pode ser o ponto final da história. “Se nos basearmos apenas em provas documentais é impossível afirmar que o grupo tenha ido além de Saint Denis”, diz. Para ele, Estêvão e seus amigos nunca chegaram ao Mediterrâneo. “As crônicas francesas da época citam as andanças pelo interior, mas nenhuma afirma que eles estiveram nas proximidades do litoral.”

Porém, num clássico artigo publicado em 1917, na American Historical Review, o historiador Dana Munro, de Princeton, Estados Unidos, afirmou que a turma de Saint Denis seguiu em procissão até Marselha. Munro se baseou em textos escritos entre 30 e 150 anos depois dos fatos e, segundo eles, o cortejo prosseguiu e, por onde passava, recebeu adesões de homens e mulheres de vida irregular – em outras palavras, prostitutas, vagabundos e vigaristas. Clérigos, que desejavam conhecer Jerusalém, e velhos, que queriam morrer por lá, também se uniram à trupe.

O historiador britânico Steven Runciman reproduz em seu livro A História das Cruzadas: O Reino de Acre alguns desses textos antigos. Eles contam que Estêvão teria sido elevado ao posto de santo e quando chegou a Vendôme, no final de julho, uma multidão já o esperava. “Eram por certo vários milhares de jovens, oriundos de todas as partes do país, muitos deles trazidos pelos próprios pais”, escreve Runciman. Dali, partiram para o litoral, onde Estêvão havia prometido fazer com que o mar se abrisse. O menino ordenou ao Mediterrâneo que lhes desse passagem, mas as ondas, é claro, continuaram a bater na praia.

Decepcionados, alguns voltaram para casa, mas a maioria ainda esperava um milagre. E não é que aconteceu algo inusitado? Dois mercadores da cidade, Hugo “o Ferro” e Guilherme “o Porco”, se ofereceram para levar os pequenos cruzados de navio para a Terra Santa. Sem cobrar um tostão, tudo pela glória de Deus. “Em julho de 1212, cerca de 2 mil jovens embarcaram em sete navios”, escreveu Munro. Durante 18 anos, não se ouviria mais falar deles.

As cruzadas germânicas

Não muito longe dali, em Colônia (na região onde atualmente fica a Alemanha), ocorria um movimento popular muito semelhante. Para Steve Runciman, trata-se do mesmo fenômeno. “As histórias de Estêvão devem ter chegado à Renânia (no vale do rio Reno) e apenas algumas semanas depois de ele ter estado em Saint Denis, um jovem camponês de nome Nicolau pregava diante do santuário dos Três Reis Magos”, afirma Runciman. Ele também dizia que o mar se abriria para que as crianças chegassem a Jerusalém e que elas converteriam os muçulmanos. As semelhanças não param por aí: “Nicolau era um menino camponês de 10 anos, humilde e religioso. Ele chegou a reunir cerca de 7 mil pessoas, mas a média de idade era certamente maior que a dos cruzados franceses”, diz Tyerman.

A história dos cruzados germânicos foi mais bem documentada. O bispo de Cremona, Sicardus, relata em um texto da época que o objetivo do grupo de Colônia era ir para o porto de Gênova (na atual Itália) e de lá embarcar para Alexandria, no Egito, de onde seguiria para Jerusalém. Ele também afirma que a população dos vilarejos distribuía-lhes comida e apoiava a marcha, que chegou a ter 20 mil integrantes. Por onde passavam, missas eram celebradas e mais gente seguia com eles. Mas nem as preces nem as aleluias foram suficientes para proteger aqueles meninos durante a travessia dos Alpes. Segundo os Annales Stadenses, textos apócrifos do século 13, apenas um terço do grupo conseguiu vencer as montanhas. Alguns desistiram e voltaram para casa, outros morreram de fome ou de frio.

Os sobreviventes continuaram a jornada até o litoral e em 25 de agosto de 1212 a procissão finalmente chegou a Gênova. Apavorado com aquele bando de maltrapilhos vagando pela cidade, o governador local deu a eles duas alternativas: quem quisesse se instalar na cidade seria bem-vindo, quem tivesse outra intenção deveria deixar a cidade. Cansadas e famintas, algumas crianças conseguiram abrigo nas casas de generosos genoveses. Cada vez menor, a procissão continuou até Pisa, onde novamente se dividiu. Segundo Runciman, alguns embarcaram em dois navios que partiram para a Palestina e também sumiram dos registros históricos. Mas a maioria seguiu com Nicolau para Roma, onde foram recebidos pelo papa Inocêncio III, que ficou comovido pela sua fé, mas constrangido com sua insensatez, e pediu que todos voltassem para casa.

Os registros medievais, a maioria escrita por padres e religiosos, não se importaram em relatar a volta desses peregrinos para casa. Segundo os Annales Stadenses, no entanto, o grupo se dispersou pelas aldeias italianas e jamais se ouviu falar de Nicolau.

Trágicos destinos

Em 1230, chegou à França um padre vindo do Palestina, com uma incrível história para contar. Ele dizia ser um dos jovens sacerdotes que seguiu Estêvão a Marselha e embarcou com ele nos navios rumo ao norte da África. Seu relato foi contado por outro religioso, Albericus Trium Fontium, o único texto da época que cita o acontecido. Segundo ele, três dias depois da partida, na altura da costa da Sardenha, uma forte tempestade atingiu as embarcações. Duas delas foram arremessadas pelos ventos e ondas fortes contra uma pequena ilha rochosa e naufragaram. Todos os passageiros e a tripulação morreram afogados. Os cinco navios restantes seguiram até Alexandria, no Egito. No desembarque, os cerca de 700 sobreviventes foram presos. A generosa oferta dos mercadores era uma armadilha e os jovens integrantes da cruzada foram vendidos como escravos no mercado da cidade.

O jovem padre e alguns outros que sabiam ler e escrever teriam sido comprados pelo próprio governador do Egito, Malek Kamel, que se interessava pela cultura ocidental e empregava-os como intérpretes. Outros foram levados a Bagdá e, desses, nunca mais se ouvira falar.

O relato de Albericus, no entanto, está longe de ser uma unanimidade. “Ele está cheio de inconsistências, mas é provável que esteja baseado em relatos verdadeiros e que seja fiel à história”, afirma o historiador Barber. Já para o professor Tyerman, porém, o texto do religioso não passa de literatura. Seja como for, Albericus não explica qual foi o fim de Estêvão, o menino de 12 anos que liderava o grupo. Teria virado escravo? Morrido no naufrágio? Até hoje, não há pistas sobre seu destino.



Rumo à terra prometida
Mais de 4 mil quilômetrosseparavam as criançasde Jerusalém
Nicolau saiu da Germânia e se encontrou com o papa

1. Colônia

A cidade foi o ponto de partida da marcha, que contava no início com cerca de 7 mil componentes

2. Gênova

O mar não se abriu como Nicolau prometera. Decepcionadas, algumas das crianças acabaram ficando na cidade

3. Pisa

Alguns seguidores conseguiram carona em navios com destino à Palestina. O restante continuou adiante

4. Roma

Outros, incluindo Nicolau, prosseguiram a marcha até Roma, onde se encontraram com o papa Inocêncio III

Estêvão, um jovem pastor de ovelhas, liderou milhares

1. Cloyes

Vilarejo de onde o pequeno pastor teria partido, já como uma procissão com integrantes mirins

2. Saint Denis

Primeira e talvez última parada. Lá, o grupo tentou ser recebido pelo rei, que ordenou a volta de todos para casa

3. Marselha

Em outra versão, eles teriam obtido carona em sete embarcações depois que Estêvão não conseguiu abrir o mar

4. Alexandria

As embarcações atracaram no porto egípcio. Lá, as crianças foram acorrentadas e vendidas como escravas

5. Bagdá

Cerca de 700 crianças teriam sido compradas pelo sultão Malek Kamel e levadas para trabalhar no palácio real


Quarta cruzada, grande furada
A Quarta Cruzada, iniciada em 1202, foi um dos maiores micos da história da Igreja Católica. Sob as bênçãos do papa Inocêncio III, os combatentes armados pelos ricos comerciantes de Veneza nem chegaram ao destino escolhido para o desembarque, Damieta, no Egito. Para pagar pelo transporte, o exército cruzado concordou em invadir o porto húngaro (e cristão) de Zara e entregá-lo aos venezianos. No ano seguinte, a tropa seguiu para Constantinopla, a fim de resolver uma disputa pelo controle do Império Bizantino. Um dos querelantes, Aleixo, era cunhado do imperador germânico, Felipe de Swabia.

O embate opôs cruzados contra bizantinos, ou seja, novamente cristãos contra cristãos. O resultado foi o saque e a completa destruição de Constantinopla. Satisfeitos com o butim, os cruzados esqueceram-se da luta conta os infiéis e voltaram para casa. Os cristãos ortodoxos não perdoariam o papa ou Roma pelo acontecido. Somente em 2001, em viagem à Grécia, o papa João Paulo II conseguiu pôr fim à pendenga, pedindo desculpas oficiais por aquela cruzada.


Os sem-infância
Assim como na Roma antiga, na Idade Média a infância era um período muito breve. Meninos e meninas eram considerados crianças somente até os 6 anos de idade. Dali em diante, eles já enfrentavam uma longa jornada de trabalho. As famílias de agricultores empregavam seus filhos no pesado trabalho da lavoura. De sol a sol elas participavam da plantação e da colheita. Os pais artesãos colocavam sua prole para trabalhar como aprendizes. Ao dominar o ofício, os pequenos já se viravam para ajudar no sustento da casa. As meninas não tinham sorte muito diferente. Desde muito jovens já ajudavam nos serviços domésticos. Naquela época, ao nascer, a criança também tinha um status diferente do atual. As crianças não tinham direitos. Elas eram propriedade dos pais e era dessa forma que eram tratadas. Essa situação está refletida nas expressões artísticas da época. Até o século 12, a arte medieval desconhecia ou ignorava as crianças.

Em esculturas e pinturas, elas eram retratadas como adultos em miniatura: o corpo era igual, somente a altura era menor. No dia-a-dia, as crianças trajavam roupas iguais às dos adultos e que em nada lembravam sua idade. Os casamentos eram realizados muito cedo. Meninas a partir dos 12 anos já eram sérias candidatas ao noivado. Portanto, os adolescentes da época eram jovens adultos que já trabalhavam, casavam e tinham filhos. Essa situação só começou a mudar na Renascença. Durante esse período, os artistas começaram a retratar as crianças de maneira mais realista, brincando ou sendo amamentadas. Mais tarde, durante o iluminismo, o filósofo inglês John Locke (1632-1704) defendeu que a mente infantil era uma “tábula rasa”, que era alimentada com conhecimentos passados pelo mundo exterior.

E, portanto, a qualidade das primeiras experiências seria vital para sua boa formação. Somente no século 18, o conceito medieval de que as crianças eram seres maus por natureza caiu por terra. Segundo o filósofo francês Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), elas nasciam boas e deveriam ser preservadas das maldades do mundo exterior para que mantivessem esse espírito. A obra de Rousseau influenciaria escritores como Victor Hugo (1802-1885) e Charles Dickens (1812-1870), que expuseram a bárbara exploração da mão-de-obra infantil.


Saiba mais
Livros

A História das Cruzadas: O Reino de Acre e as Últimas Cruzadas, Steven Runciman, 2003

The Children´s Crusade, American Historical Review, volume 19, de Dana C. Munro, O livro de Runciman dedica apenas metade de um capítulo ao assunto, em que apresenta a versão de Albericus. O melhor texto sobre o que realmente teria ocorrido é o de autoria de Dana C. Munro

Revista Aventuras na Historia