Mostrando postagens com marcador Bebidas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Bebidas. Mostrar todas as postagens

sábado, 21 de abril de 2018

Dez mil anos de pileque – a história da bebida


Muito antes da era do bafômetro, o álcool era sagrado para a humanidade. E foi isso que fez o mundo ser o que é hoje

 Bruno Garattoni

De uns tempos para cá, a bebida alcoólica virou a grande vilã da sociedade. Vicia, engorda, causa acidentes de trânsito. No mundo moderno, o álcool é meio malvisto. Só que nossos antepassados não pensavam assim: todo mundo enchia a cara (em alguns casos, até as crianças), em quantidades chocantes para os padrões atuais – no século 19, as pessoas bebiam o dobro de hoje. Mais surpreendente ainda é descobrir que esse porre histórico teve um papel fundamental: ajudou a humanidade a superar epidemias, desbravar o planeta, construir impérios, vencer guerras, organizar sociedades democráticas e inventar tecnologias essenciais para o dia-a-dia de todo mundo. As pirâmides do Egito, as Grandes Navegações, os EUA, o feminismo, o leite em caixinha… sem bebida, essas coisas não existiriam (ou seriam muito diferentes). Afinal, o pileque é intrínseco ao ser humano: das frutinhas fermentadas que os primatas ingeriam aos últimos avanços da química orgânica – como o álcool que não dá ressaca –, a evolução e a birita andam de mãos dadas. Trocando as pernas, cambaleando e tropeçando de vez em quando. Mas sempre juntas.

Um belo dia, alguém descobriu que era possível reaproveitar as sementes das plantas para fazer novas plantas. Nascia a agricultura, e com ela a bebida. A primeira poção alcoólica foi preparada na China, por volta do ano 8000 a.C. A análise de jarros encontrados em Jiahu, no norte do país, mostrou que eles continham um drinque feito de arroz, mel, uvas e um tipo de cereja, tudo fermentado. Não se sabe exatamente a graduação alcoólica dessa poção, mas uma experiência revelou pistas. “Fica entre a cerveja e o vinho”, revela o arqueólogo e químico Patrick McGovern, da Universidade da Pensilvânia, que reproduziu a receita em laboratório e achou o resultado um pouco amargo. A civilização dos sumérios (na confluência dos rios Tigre e Eufrates, atual Iraque) aperfeiçoou a fórmula e criou 19 tipos de bebida alcoólica – 16 deles à base de trigo e cevada. Estava criada a cerveja. Era uma bebida de elite, que os aristocratas sumérios bebiam com canudinhos de ouro. Mas logo chegaria ao povão. Cada um dos trabalhadores que construíram as pirâmides de Gizé, no Egito, ganhava 5 litros de cerveja por dia. Ela era considerada “pão líquido”, um alimento fundamental para que os operários agüentassem uma jornada puxadíssima – e cujas propriedades embriagantes ajudavam a contentar a massa. Dois mil e quinhentos anos antes de Cristo, encher a cara de cerveja já havia se tornado um hábito comum. Talvez por isso, a elite tenha começado a migrar para outro tipo de bebida alcoólica: o vinho. O rei Tutancâmon, que morreu em 1300 a.C., foi sepultado com nada menos que 26 jarras de vinho, de 15 tipos diferentes, para não passar vontade no além (os egípcios acreditavam em vida após a morte). E a manguaça pegou. “Por volta do ano 1000 a.C., o álcool já era consumido por todas as civilizações, da África à Ásia”, afirma o inglês Iain Gately em seu livro Drink: A Cultural History of Alcohol (“Drinque: Uma História Cultural do Álcool”, sem versão em português). Os gregos cultivavam nada menos que 60 variedades de vinho, e até chegaram a inventar um jogo baseado nele. Era o kottabos, que consistia em despejar numa vasilha o restinho de bebida que sobrasse no copo. Se o líquido não estalasse ao bater na vasilha, isso significava que Afrodite, a deusa do amor, estava de mal com o pinguço.

Em Roma, o vinho adquiriu relevância geopolítica. Ele passou a ser produzido em grande escala, pois sua exportação era vital para manter a estabilidade nas províncias do império. E os soldados romanos, que levavam a bebida para desinfetar a água dos lugares por onde passavam, logo descobriram outra grande utilidade do álcool: ele podia servir como uma espécie de arma química contra os inimigos. Quando chegavam a territórios que desejavam conquistar, uma de suas estratégias era fingir amizade e dar vinho para os povos locais beberem. No dia seguinte, quando as vítimas estavam acordando de ressaca, os romanos voltavam e faziam um massacre. “Se você estimular que eles [os inimigos] bebam em excesso, e der a eles quanta bebida quiserem, será mais fácil derrotá-los”, ensinou o historiador romano Tácito. Mas o álcool não servia apenas para incapacitar as pessoas. Ele também era considerado um remédio. No século 14, a peste negra se espalhava pela Europa, matando 90% das pessoas que infectava. Mas ,quando a epidemia chegou à cidade de Oudenburg, na Bélgica, o abade local proibiu o consumo de água e obrigou os cristãos a beber só cerveja. Por incrível que pareça, deu certo: muitos deles sobreviveram à peste (pois a cerveja, graças ao álcool, era menos contaminada que a água). O abade foi canonizado, e virou o padroeiro da cerveja – santo Arnoldo.

Com o fim da epidemia, a Europa se recuperou e uma nova aventura começou a se delinear – as Grandes Navegações. Nelas, mais uma vez, o álcool teve um papel central. A expedição comandada pelo português Fernão de Magalhães conseguiu dar, pela primeira vez na história, uma volta completa no globo terrestre. Foi um enorme porre: Magalhães investiu mais em bebida do que em armas, e sua esquadra de 5 navios carregava um gigantesco suprimento de vinho (cujo valor seria suficiente para comprar mais duas caravelas). Já o navio Arbella, no qual os ingleses foram colonizar a América, levava inacreditáveis 40 mil litros de cerveja e 40 mil litros de vinho – contra apenas 12 mil litros de água. Nenhum navegador que se prezasse entrava no mar sem o “tanque cheio”.

Nessa mesma época, a produção de cachaça foi proibida no Brasil, pois Portugal queria garantir o mercado local para seus vinhos. Aí os senhores de engenho começaram a exportar, clandestinamente, a bebida para Angola – onde era trocada por escravos. Os ingleses também faziam isso, e muito: entre 1680 e 1713, trocaram 5,2 milhões de litros de bebida por 60 mil africanos (cada escravo valia 86 litros de rum, o que dá R$ 850 em valores atuais). Mas ela não foi só moeda de troca da escravidão; também ajudou o Novo Mundo a se libertar. Em 1764, a Inglaterra restringiu o comércio de bebida alcoólica, que os colonos americanos importavam e exportavam em grande quantidade. Isso gerou uma insatisfação que viria a explodir, 11 anos mais tarde, numa guerra. Liderados pelo general George Washington, que era dono de uma fábrica de uísque, os soldados americanos se embebedavam durante o combate – cada um tomava 1 litro de rum por dia. Em 1776, a Declaração de Independência dos EUA foi escrita por Thomas Jefferson num bar – e o primeiro a assiná-la foi um contrabandista de vinho, John Hancock.

Mulheres unidas pelo goró

A Revolução Industrial mudou completamente a fabricação de bebidas: elas ficaram mais baratas e passaram a ser produzidas (e consumidas) em enorme quantidade. Em 1830, cada americano entornava o equivalente a 10 litros de álcool puro por ano, nível superior ao de hoje (8,5 litros). É muita coisa: dá 250 litros de cerveja ou 90 de vinho. Foi aí que o alcoolismo, até então apenas uma inconveniência, passou a ser visto como doença séria – e surgiram as primeiras campanhas e associações contra a bebida, que rapidamente conquistaram mais de 500 mil adeptos nos EUA. Alheio a tudo isso, na França, o químico Louis Pasteur estava prestes a fazer uma dos maiores invenções da história. Tentando entender a transformação do açúcar em álcool, ele acabou descobrindo uma técnica revolucionária: a pasteurização, que hoje em dia é usada na produção de leite, iogurte, sorvete e sucos industrializados. Ou seja: se Pasteur não tivesse se metido a estudar o goró (ele publicou dois livros sobre a biologia do vinho e da cerveja), os alimentos do mundo moderno seriam bem diferentes. No começo do século 20, os impostos sobre bebidas alcoólicas eram responsáveis por mais de 50% da arrecadação do governo dos EUA. Mesmo assim o país decidiu instituir, em janeiro de 1920, a lei seca – e as pessoas migraram para bares clandestinos. Isso aumentou a criminalidade e fortaleceu as máfias, mas, por incrível que pareça, teve uma conseqüência positiva: consolidou a igualdade de direitos entre os sexos e mostrou a força dos movimentos feministas. “Durante a lei seca, a presença de mulheres nos bares deixou de ser um tabu”, conta Iain Gately. Elas se mobilizaram para legalizar a prática: em 1932, mais de 1 milhão de americanas já tinham se associado à Women’s Organization for National Proibition Reform (algo como “Liga das Mulheres Contra a Lei Seca”). Adivinhe só o que aconteceu: no ano seguinte, a lei seca foi revogada.

Na 2º Guerra Mundial, o fluxo de álcool refletia a ação no front. Assim que dominaram a França, os alemães foram com sede ao pote – as vinícolas de Borgonha, de Bordeaux e de Champagne passaram ao controle dos nazistas. Na Inglaterra, a situação também era dramática: Hitler bombardeou 6 grandes cervejarias (inclusive uma fábrica da famosa Guinness) e destruiu nada menos que 1 300 pubs. Quando o jogo começou a virar a favor dos Aliados, com dificuldades cada vez maiores para os nazistas, a cerveja alemã paga o pato. Sua graduação alcoólica, que antes da guerra era em média de 4,8%, cai para 1,2% em 1943. Em 1944, os alemães param de fabricar cerveja. E, no ano seguinte, perdem a guerra. Com o fim do conflito, começava a Guerra Fria – em que, adivinhe só, a URSS tentou usar o álcool como arma. Os soviéticos criaram um comprimido que supostamente impedia a embriaguez. A idéia era que os espiões russos tomassem esse remédio e fossem encher a cara com diplomatas americanos – que, completamente bêbados, acabariam revelando segredos de Estado. Não deu muito certo (as cobaias ficaram bêbadas), e hoje em dia o remédio é vendido como “atenuador de ressacas”. Falando em ressaca, a busca por uma cura definitiva chegou a duas propostas. Um composto químico chamado Ro15-4513, que foi criado na década de 1970, e a Alcohol Without Liquid (AWOL), uma máquina que destila e vaporiza bebidas alcoólicas – a idéia é que, se o álcool for inalado, não passa pelo estômago e não produz acetaldeído (substância que é uma das principais causadoras da ressaca). Nada disso funcionou. O Ro15-4513 não está no mercado porque tem uma pequena “inconveniência”: pode provocar convulsões. E a AWOL já foi proibida em vários estados americanos porque é considerada ineficaz e perigosa – como por via nasal a bebida é absorvida mais facilmente pelo organismo e a pessoa não vomita quando está intoxicada, isso aumenta muito o risco de overdose de álcool. Não há solução mágica. A única saída é beber menos, não beber, ou então invejar o musaranho asiático: um bichinho que vive nas florestas da Malásia e, como comprovam pesquisas recém-publicadas, consegue enfiar o pé na jaca sem nunca ficar bêbado (seu único alimento é um néctar que contém 3,8% de álcool). Será que ele passaria no teste do bafômetro?

No século 16, a Inglaterra tinha 16 mil bares o equivalente a 1 bar para cada 187 habitantes hoje, existe apenas 1 bar para cada 529 pessoas

No mundo, cada pessoa consome em média 5 litros de álcool puro por ano o equivalente a 125 l de cerveja 45 l de vinho 12,5 l de vodca

A Declaração de Independência dos EUA, no século 18, foi escrita num bar

Os países onde mais se bebe são: República Checa (cerveja) França (vinho) Moldávia (vodca e destilados)

Hitler odiava bebida e queria acabar com os alcoólatras. milhares deles foram esterilizados durante a2a Guerra Mundial



Beber, cair e levantar
Das frutas ao álcool sólido, as várias maneiras de encher a cara através dos tempos

Macacos 40 milhões a.C.

Há indícios de que nossos antepassados se deliciavam comendo frutas “estragadas” – que, graças à fermentação natural, tinham 5% de álcool.

Pré-história 8000-4000 a.C.

Pessoas do norte da China inventam uma bebida alcoólica feita de arroz. E os sumérios, na Mesopotâmia, criam a cerveja – bem como uma deusa (Ninkasi) para homenageá-la.

Egito 3400-3100 a.C.

Os egípcios montam a primeira cervejaria do mundo. E o povão aproveita: os trabalhadores que fizeram as pirâmides de Gizé bebiam todos os dias.

Grécia 700 a.C.

Os gregos bebem vinho diluído com água (a bebida pura é considerada forte demais). Para curar a ressaca, a grande pedida é comer repolho cozido.

Império romano 270 a.C.

Os soldados se fingem de bonzinhos e oferecem vinho para os povoados que encontram. Quando os inimigos estão bêbados, os romanos os matam.

Hunos 446

Liderados pelo temível Átila, invadem territórios romanos e destroem as vinícolas – sua bebida preferida é o kumis, leite fermentado com 2% de álcool.

Islâmicos 620

A religião restringe o consumo de álcool. Mas os cientistas do mundo islâmico inventam o alambique, que é usado até hoje para fazer bebidas destiladas.

Vikings 850

Espalham o terror na Europa – sempre bebendo uma cerveja escura, doce e bem forte, que tinha aproximadamente 9% de álcool (o dobro da comum).

Monges 1112

A Ordem dos Cistercianos monta uma vinícola em Borgonha, na França. Dá tão certo que eles viram uma multinacional do vinho, com mais de 250 monastérios.

Mesoamericanos séc. 16

Os astecas bebem o pulque, bebida produzida com folhas de agave – e só idosos podem tomar. Os incas preferem cerveja de milho, que dão até a crianças.

Brasileiros séc. 17

Os senhores de engenho começam a exportar cachaça – e os negros amotinados em quilombos aprendem a fabricá-la por conta própria.

Holandeses séc. 17

Inventam o gim, um destilado de cereais com altíssimo teor alcoólico (mais de 45%). A novidade gera uma explosão do alcoolismo na Europa.

Africanos séc. 17/18

Entre 1680 e 1713, senhores tribais trocam 60 mil escravos por bebida alcoólica – cada escravo é vendido por aproximadamente 86 litros de rum.

Rev. Industrial séc. 18/19

Fabricada com novas tecnologias e em grande escala, a bebida fica mais barata. A cerveja é produzida em enormes tonéis, com até 500 mil litros de capacidade.

Russos séc. 20

Inventam uma pílula que permite beber sem ficar bêbado. A idéia era usá-la na Guerra Fria (para que os espiões russos levassem vantagem). Não funcionou.

Ingleses 2004

Lançam uma máquina que permite inalar o álcool em vez de bebê-lo, o que supostamente evita a ressaca e faz o bebum engordar menos.

Americanos 2008

Desenvolvem um processo revolucionário, que permite fabricar goró sólido – basta misturar com água e ele vira um drinque com 11% de álcool.

Para saber mais
Drink: A Cultural History of Alcohol
Iain Gately, Gotham Books, 2008.

Revista Superinteressante

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Ninguém pode com as 'louras'


Ninguém pode com as 'louras'
Apesar dos esforços para se restringir a ingestão de álcool no Brasil, a cerveja venceu a resistência e chegou a ser defendida por alguns médicos
Teresa Cristina de Novaes Marques

Hoje se entorna de tudo em bares, restaurantes e residências de todo o Brasil, mas houve um tempo em que alguns setores da sociedade queriam regular o consumo de bebidas alcoólicas. Na década de 1910, médicos, advogados e mulheres da elite brasileira observavam com atenção o que outros países faziam nesse sentido, e, influenciados pela Lei Seca, que começou a vigorar nos EUA em 1919, organizaram movimentos que tentaram fazer algo parecido. Mas, de tanto insistir que o problema nacional era a aguardente de cana, os autodenominados temperantes acabaram ajudando a cerveja a ser vista como um mal menor, aprofundando os estigmas sociais que recaíam sobre os pobres.

As cervejarias entenderam a situação e não se fizeram de rogadas. Começaram a divulgar que seus produtos eram feitos em moldes industriais, seguindo rigorosos critérios europeus de higiene, e que consumi-los durante as refeições era um hábito salutar. A partir dos anos 1910, tomar uma cerveja gelada logo se tornou um hábito em espaços públicos ou em grandes eventos, como a festa da Igreja da Penha, realizada no subúrbio do Rio de Janeiro em todos os fins de semana do mês de outubro desde o período colonial. (...)


Revista de História da Biblioteca Nacional

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

O PODER DA CACHAÇA


O PODER DA CACHAÇA

Ademar Vidal


Quem vive no campo é que pode bem avaliar o poder da cachaça entre os homens do povo. Entre os que trabalham na enxada de sol a sol. Até parece que essa gente nela encontra a força de esquecimento tão necessário às agruras de um viver nada fácil. É fonte de alegria falsa, a cachaça como, aliás, o álcool em suas múltiplas formas de bebedeira.

Nada realmente mais importante para o trabalhador de cana que apreciar bom gole depois do longo dia de pesadas e monótonas tarefas. Aquilo desce como bálsamo confortador e compensador de muitas desditas. Poderá faltar dinheiro para tudo, menos para adquirir a "pancada oitavada". Poderá faltar luz e comida em casa, porém o desejo fica morto ante a preponderância da vontade forte, tão forte que supera todas as obrigações sociais. É raro encontrar-se na zona rural, principalmente entre os cassacos de engenho e usina, alguém que não tome o seu "remédio" a horas certas, assim ao quebrar da noite que vem ou, então, ao levantar do dia que chega cheio de esperanças ou indecisões.

O destilador, talvez pelo fato de ser fabricante de cachaça e andar a toda hora sentindo o cheiro vivo do álcool, pegado no serviço lento e paciente, carecendo a todo instante de assistência continuada, talvez seja um dos poucos indivíduos que não beba como vício e mesmo como obrigação de ofício. Quando muito pode prover. Conheço o mestre Benício, que não se lembra de haver se embriagado alguma vez na vida. Faz somente é provar para dar o ponto certo, ver se o corte está direito, se a água não está se infiltrando demais, se o álcool está sendo eqüitativamente compensado num equilíbrio que tanto recomenda a qualidade e o gosto do produto. A vigilância se torna indispensável. Mas o aparelho, por seu turno, também ajuda.

No engenho que tem destilação, quando o alambique é de qualidade (uns dizem que de barro é melhor, porque a cachaça dele sai mais gostosa, outros acham que, se for de cobre, produz por maneira muito superior) fica logo conhecido o líquido que passarinho não bebe", procurado de longe, vem gente do fim do mundo para adquirir algumas doses — e a vendagem conseguintemente é de alarmar, não chegando para quem quer e sim para os merecedores da simpatia do senhor privilegiado.

Acham os entendidos que a cachaça tem "alma". Seria melhor dizer: tem espírito. Faz com que "alimente" e traga a confiança no êxito. Que alimenta, parece que não resta dávida alguma, pois os homens do canavial mal comem, alimentam-se muito pouco e, no entanto, não dispensam a cachaça como ajuda extraordinária. Não se embriagam, mas tomam vastos goles vespertinos e matutinos, já como hábito. Acontece que existem as exceções: então é o que se vê — os viciados que não encontram serviço facilmente, vivendo do favor dos amigos, não conhecendo nada da agricultura e sim como verdadeiros judeus-errantes. Acontece ainda que, nos dias de festa, o que se surpreende é a libertação geral por via da cachaça. Os mais retraídos saem do estilo para tomar parte na dança geral. Todos bebem. A bebedeira é a razão dos folguedos. E é quando se desenrolam os acontecimentos mais curiosos: moradores de respeito subitamente se transformaram em arruaceiros quando não tiveram ensejo de tomar parte em crimes de sangue.

Há engenhos e usinas onde a cachaça é proibida por maneira intransigente, ao ponto do recalcitrante ser posto para fora sem maiores delongas. É mandado sumariamente embora. Dane-se. Vá para o inferno.

Manoel Pichilinga é doente. No trabalho, falam ser completo no cumprimento dos deveres que lhe são conferidos, na qualidade de cassaco da mais ínfima categoria. Percebe dois cruzeiros diários. Na hora da refeição come farinha com o pedaço de qualquer coisa como se fora carne ou bacalhau (que bacalhau, é um peixe que vem do sertão, criado nos açudes, muito seco e salgado de doer na língua, não tendo mesmo gosto algum) e continua depois o serviço até a noitinha. Então ganha a estrada da vila aonde vai dormir. Antes, porém, de fazê-lo toma bebedeira solene, fica de não se sustentar em pé e, cai não cai, se dirige para o seu miserável dormitório. Na madrugada seguinte se levanta e pega no serviço com a disposição de quem teve noite anterior deliciosa de repouso e boa alimentação.

E assim vive, desde anos, esse homenzinho franzino e moço, risonho e respeitador, dizendo sempre isto nas histórias que conta:

— Conheço a alma da aguardente.

— Mas como será essa alma, Pichilinga?

Certa ocasião ele confessou como a costumava ver nos seus momentos de prazer intenso. De primeiro ficava suspenso no ar (o álcool dá esta sensação) e neste instante entrava a sentir a "fumaça que é uma cobra". Como definir isso? Então explicava:

— A fumaça saía da boca sem eu me sentir.

E depois:

— Ela saía se enrolando toda e subindo, subindo e, a certa distância do chão, descia devagar, mansinha e já tomando um jeito de bicho.

Então chega a parte final. Pichilinga entrava no mais importante da história.

— Formava-se uma cobra cinzenta (a fumaça tem esta cor) dançando em minha frente ao ponto de despertar desejo da gen te pegar nela (justificava-se a vontade sexual) porque parecia esquisitamente com uma mulher se requebrando.

Aliás, os bêbedos, quando acordam, geralmente pensam ter visto ou sonhado com alguma beldade, é o que quase todos dizem. Que a cachaça tem "alma", tem, assegura Pichilinga. E, como ele, muita gente boa, mesmo senhor de engenho ou dono de usina, quando talvez sejam estes os menos capazes dessa afirmativa, pois não bebem e, quando bebem, se destacam muito na sociedade onde vivem.


(Vidal, Ademar. Lendas e superstições; contos populares brasileiros. Rio de Janeiro, Empresa Gráfica O Cruzeiro, 1950, p.265-267)

Jangada Brasil

AGUARDENTISMO E FOLCLORE


AGUARDENTISMO E FOLCLORE

Vasconcelos Torres


A questão do aguardentismo, no Brasil, tem sido largamente discutida, quer sob o prisma científico, quer sob o ponto de vista da moral. Afirma-se por aí que o brasileiro bebe em demasia e que a garrafa de pinga é a sua companheira inseparável. Nem sempre essas afirmações são dignas de nossa atenção, vez que se apóiam em fatos presumidos. Na verdade, em algumas regiões brasileiras o consumo de aguardente não é pequeno; noutras, porém, a percentagem dos abstêmios é bastante expressiva. Hoje, uma garrafa de cachaça está valendo muito mais que um quilo de feijão e o trabalhador, evidentemente, não deixará de adquirir gêneros em troca de um trago que não lhe custa pouco. Seu salário baixo mal chega para satisfazer as despesas normais e qualquer desvio na renda lhe acarretará um deficit maior. Dessa maneira, a aguardente não é consumida como dantes, quando, a qualquer pretexto, era ingerida em larga escala. Todavia, apesar dos motivos decorrentes da crise atual, o consumidor viciado não se deixa vencer pelos obstáculos e arranja um meio para atender aos reclamos de seu vício.

O Nordeste é uma das regiões brasileiras onde o consumo de aguardente é elevado e seu uso gerou ditos e expressões curiosas. Em Sergipe, por exemplo, existe um rico folclore sobre a cachaça, estudado habilmente pelo senhor José Calasans que; realizando uma interessante pesquisa, teve a ajudá-lo os próprios consumidores.

Os versos dos bebedores exprimem, antes de mais nada, o ambiente social em que vivem os cantadores, na maioria das vezes homens que afogam as suas mágoas na bebida, desajustados de todo gênero, que acreditam nos miraculosos poderes da branquinha.

Nas nossas viagens pelo interior sergipano, não raro, visitamos as bodegas perdidas nas curvas das estradas. Podia faltar tudo, mas o litro de cachaça lá estava na prateleira poeirenta. O campônio chegava e olhava para o bodegueiro; este, num movimento rápido, alcançava a bebida e, silenciosamente, servia ao freguês de todo dia. Os olhos do consumidor faiscavam e, freqüentemente, o bodegueiro associava-se ao prazer do cliente. Havia como que uma felicidade no gesto, quase violento, de despejar o conteúdo do cálice na garganta. Depois, o homem se retirava e o seu trabalho árduo iria ser suavizado pelo contentamento eufórico proporcionado pelo álcool.

O senhor Calasans, falando sobre o ritual dos cachaceiros, diz que "a cerimônia mais comum e mais simples é a que se pratica nas bodegas, ponto de reunião dos bebedores. O interessante ritual compreende, quase sempre, três fases: oferecimento, agradecimento e pedidos, e louvações. O oferecimento é feito pelo pagão, cristo ou sofredor, isto é, a pessoa que paga as despesas". Percorrendo os recantos de Aracaju, o ilustre pesquisador teve ensejo de presenciar oferecimentos em versas, alguns improvisados, outros já conhecidos, como os da autoria de João Martins de Ataíde, etc.

Releva salientar que, de quando em quando, aparece o nome do Brasil. No final de uma quadra, por exemplo, lê-se: "sou cidadão brasileiro, falo em favor do Brasil", ou então: "sou cidadão brasileiro e brigo ,a favor do Brasil". De outras feitas, os temas variam, ora exaltando as qualidades da bebida, ora salientando que o beber é humano, etc.

Tratando da genealogia da cachaça, escreve o professor Calasans: "a genealogia da cachaça constitui um tema predileto dos louvadores. Explicar as origens da purinha é uma preocupação constante dos nossos vates populares. A filiação da cachaça representa, sem dúvida alguma, o tema mais rico do folclore poético da pinga. As variantes recolhidas são inúmeras, em todos os pontos do Estado, Assim como os portugueses, nas louvações ao vinho-verde, não esquecem o papel primordial da uva, os cantores anônimos de nossa terra não olvidam a cana de açúcar". No Brasil, acentua o autor, antes da cachaça existe a cana e também o canavial, sendo cachaça filha daquela e neta desta.

No trabalho do senhor Calasans a cada passo reponta um documentário útil, evidenciando a vocação do escritor e o percuciente coletor de reações provocadas pela ação da bebida. Uma quadra catalogada pelo autor exprime perfeitamente o espírito de um autêntico bebedor. É a seguinte:

Se o beber alegra a gente,
O fumarnos dá prazer.
Quem não bebe, quem não fuma,
Que alegria pode ter?

O bom caneador é aquele que não pára no primeiro trago. Assim,

O beber não é tão bom
Quanto é o repetir;
A graça de quem tá bebo
E’ tombar e não cair.

Por fim, o senhor Calasans estuda a relação entre a cachaça e a morte. Recolheu o seguinte verso, cantado pelos ganhadores da porta da igreja de São Salvador:

Cachaça é cuma morte,
Nunca escói a qualidade,
Matando pobres e ricos
E home de autoridade.

Ou então:

Quando eu morrer, minha gente,
Quero que um favor me faça:
Botem dentro do caixão
Vinte litros de cachaça.

A investigação procedida é daquelas que deveriam ser imitadas. O folclore da aguardente nos demais estados é também apreciável, porém, até o momento, ninguém se deu ao trabalho de recolher as cantigas. que falam da cachaça. Por isso mesmo o trabalho do senhor Calasans ainda aparece com o mérito de ter sido o primeiro realizado entre nós. O autor de Aspectos folclóricos da cachaça não esgotou o assunto e prometeu divulgar oportunamente o restante do material que tão pacientemente reuniu. O trabalho publicado, entretanto, por si só, já representa uma contribuição notável aos estudos brasileiros.


(Torres, Vasconcelos. "Aguardentismo e folclore". Brasil açucareiro, janeiro de 1945, p.91-92)

Jangada Brasil

A CACHAÇA NO FOLCLORE DE MINAS GERAIS


A CACHAÇA NO FOLCLORE DE MINAS GERAIS

João Dornas Filho

Há um considerável acervo de material etnográfico a respeito da cachaça no Brasil, país de secular tradição na lavoura e industrialização da cana de açúcar, e ainda não foi reunido, existe esparso por todos os recantos da nossa terra.

Em Minas Gerais, não só nas regiões do cultivo da cana, mas também em qualquer lugar onde existam uma dúzia de casas e uma taverna, o lendário, o anedotário e a poética a respeito do restilo ou aguardente são riquíssimos e de subida importância para o conhecimento da nossa demologia.

É um pequeno material que tenho no meu arquivo o que apresento nestas notas:

A cachaça é minha prima,
o vinho é meu parente.
Não há festa nem festejo
que meus parentes não entre.

Vou mandar fazer um bicame
de madeira de canela,
pra passar toda cachaça
dos quintos pra minha goela.

No fim da minha vida
quero morrer de fartura
O quinto será meu caixão,
o alambique a sepultura.

Em Diamantina anotei a seguinte “oração” dedicada a bebida:

Aguardente é excelente,
quem bebe fica quente;
quem fica quente, dorme;
quem dorme, não peca;
quem não peca vai ao céu;
e para que ao céu vamos,
bebamos,
com a divina graça,
cachaça!
Ela é filha do alambique,
neta do canavial,
nascida aqui no Brasil,
nada tem de Portugal,
E sendo bebida tão singular,
que a uns faz rir, outros chorar,
viva!
E nos livre da polícia! Amém.

De várias procedências, mas sempre de Minas Gerais anotei mais estes versos:

Pedi casamento à moça
e ela mandou me dizer
por velho vizinho dela
que eu deixasse de beber.

Eu mandei dizer a ela
pelo mesmo portador,
que eu não deixo de beber,
nem que perca o seu amor.

Pois a garrafa faço a vela,
do alambique meu caixão
Mesmo depois de morto
me metam um copo na mão.

Debaixo do alambique
risquei a minha sepultura
Eu morrendo de cachaça,
sei que morro na fartura.

Para afogar minhas mágoas,
de vinho vou me fartar.
– Afogue-as antes com água
– Não, que elas sabem nadar.

Eu não bebo mais cachaça
nem que ela vem do céu.
Foi por causa da cachaça
que eu perdi o meu chapéu.

Nesta vida de pobreza,
sou feliz, não sei porque.
Todo sonho de riqueza
só resulta em você.

A caiana tá madura,
tá no ponto de moê
Chora, caiana, chora
que eu não posso te valê.

O restante que ora apresento foi colhido no Triângulo Mineiro. Na primeira estrofe em que a cachaça tem o nome de “mão de vaca”, encontra-se o termo “quitanda” com o sentido de varejo de verduras, legumes e anexos que no centro-oeste de Minas significa, porém biscoitos, sequilhos, etc. Isto parece denunciar que a estrofe é de origem peregrina.

Na quitanda tem bolacha
na padaria banana
no açougue “mão de onça”
e na venda “mão de vaca”

A vaca, boa
Caxinguelê-ê-ê!
O diabo tá danado
com você!

Outra, que é variante de alguns antecedentes:

Dentro do alambique
façam o meu caixão
Nas garrafas ponham velas
me enterrem com o copo na mão.

Se santo padre soubesse
o gosto que a cachaça tem,
viria lá de Roma,
beber cachaça também.

No nordeste de Minas (Virginópolis, Peçanha, etc.) copiei estas:

A cachaça é moça branca
filha de homem trigueiro;
quem tomar amor por ela
não pode ajuntar dinheiro

Minha caninha verde
que veio de Montevidéu,
veio engarrafada
na capa do meu chapéu.

Vinho de cana é cachaça,
concha pequena é colher,
língua de velha é desgraça,
bicho danado é mulher.

Evidentemente incompleto recolhi ainda no nordeste do estado este diálogo:

O homem
Vou beber,
Vou me embriagar,
Vou cair na rua
Pra polícia me pegar

A mulher
Ó meu maridinho
Dai-me um chapéu,
Que o meu está velho,
Já saiu o vêo!

O marido
Vou beber,
Vou me embriagar, etc.

A mulher
Ó maridinho,
Dai-me um sapato
Que o meu está tão gasto,
Já saiu o salto!

Ainda da zona do nordeste, onde se fabrica boa cachaça muito apreciada pelos entendidos, recebi, por obséquio do senhor Otávio Courb, mais umas estrofes, que são, aliás, variantes dalgumas que já copiei.

A cachaça é minha prima,
o vinho meu primo irmão,
não há função nenhuma
que meus parentes não vão.

A cachaça é moça branca
filha de um homem de bem
quem tomar amor por ela
perde tudo que tem.

Cachaça é sangue de Cristo,
e alma de satanás;
sangue se bebe pouco,
e alma se bebe mais.

Comunicação interessante é a recebida de um filho de Diamantina, informando existir ali um ditado que diz: “Em Diamantina só os sinos não bebem, porque vivem de boca para baixo”...

O pequeno material aqui apresentado traduz uma significante parcela de quanto há por aí para ser coletado, coordenado e estudado em tão interessante capítulo do nosso folclore.


(Dornas Filho, João. “A cachaça no folclore de Minas Gerais”. Estado de Minas. Belo Horizonte, 24 junho 1962, 2º Caderno, p.3-4)

Jangada Brasil

ACHEGAS AO FOLCLORE DA CACHAÇA


ACHEGAS AO FOLCLORE DA CACHAÇA

Veríssimo de Melo

Os nossos prezados amigos e confrades José Calasans Brandão da Silva, da Bahia, e Guilherme Santos Melo, do Espírito Santo, têm divulgado através dos Boletins da Comissão Nacional do Folclore, interessantes contribuições ao folclore da cachaça.

Pelo que já publicaram, com repercussão até mesmo no estrangeiro, e nós bastaremos citar este brilhante trabalho do doutor J. A. Pires de Lima, intitulado "As bebidas alcoólicas no folclore americano", inserto na Revista de Dialectologia y Tradiciones Populares, de Madri, tomo 6, cad.3, 1959, que acabamos de receber, onde há merecidas referências a esses dois estudiosos do populário nacional, não resta a menor dúvida que eles são, no momento, os nossos mais autorizados especialistas no assunto.

E nós podemos garantir que isso vai aqui sem a mais leve ironia, porque, em verdade, uma coisa é ser estudioso da cachaça e outra muito diferente é o de gostar de cachaça, embora haja quem prefira reunir o útil ao agradável.

O assunto é realmente vasto e tem sido abordado, sob variados aspectos, por uma infinidade de escritores nacionais. Só o anedotário, bem coligido, daria para um volume fabuloso. Mas, como acreditamos que o folclore da cachaça está a exigir não artigos ou contribuições esparsas, porém um livro massudo e denso (e este seria um dos livros mais divertidos da bibliografia brasileira), somos de opinião de que ninguém estaria mais capacitado para fazê-lo do que José Calasans ou Guilherme Santos Neves ou os dois juntos.

Contudo, enquanto aqueles nossos amigos não escrevem o livro que estamos esperando, sobre o folclore da cachaça, é sempre oportuno que lhes enviemos contribuições regionais.

Para o capítulo da linguagem popular em torno da "branca", vão aqui estes sinônimos de embriaguez ou de bêbado, todos registrados por nós em Natal, embora saibamos que não é só a cachaça que produz os tipos que iremos examinar, mas todas as bebidas alcoólicas:

Tocado; triscado; bicado; comendo um galo; puxando fogo; puxando um trem; queimado; chumbado; encarraspando; meio fumado; comendo uma cuíca; em água; envenenado; puxando um trote; melado.

O ato de beber, além do clássico matar o bicho (aliás este é o bicho mais difícil de ser morto que se tem notícia na história), temos também empinar a coruja, ou simplesmente tomar uma.

Sinônimos de certa quantidade de cachaça, entre vários outros, são estes: grog, bicada, lenhada, trago, chamada, dose, lapada, pancada, talaga e uma.

Contudo, a nossa maior contribuição neste artigo será no que se refere às marcas de aguardente. Certa vez na Prefeitura de Natal, reunimos um grupo de operários e alguns funcionários (estes eram folcloristas...) e começamos a perguntar quem se lembrava (só por ouvir dizer) de rótulos de cachaça. Da colheita, que foi farta, destaco estas marcas, suprimindo muitas outras de nomes inexpressivos:

Mocotolina; Dois Tombos; Olho d’Água; Serra Grande; Chuva Grossa; Pitu; Chora no Copo; Quebra Jura; Inspiração; Bomba Atômica; Penicilina; Cigana; Neblina; Destacada; Lourinha; Galo (que eles chamam "marca galo"); Mulata; Gilda; Escandalosa; Tiquira; Bagaceira; Vergonha; Juízo (para que se diga: "Tome Vergonha! Tome Juízo"); Grã-Fina; Asa Branca; Aratu; Bateria; Espiridina; Bofetada; V-8; Moleque no Frevo; Meu Desejo; Chica Boa; Várzea Grande; Pé de Serra; Fosqueira; Maliciosa; Bumba; Chora na Rampa; O-bá; Tambu; Monte Castelo; Volúpia; Cruz Vermelha e Trompete.


(Melo, Veríssimo de. "Achegas ao folclore da cachaça". Em Diário de Natal. Natal, 15 de dezembro de 1950)

Jangada Brasil

AINDA O FOLCLORE DA CACHAÇA


AINDA O FOLCLORE DA CACHAÇA

Téo Brandão

O segundo motivo abordado por José Calasans na sua interessante obra Cachaça, moça branca, diz respeito ao culto à bebida. Revela o folclorista sergipano a existência de um verdadeiro culto à cachaça em Maroim (Sergipe) que ele denominou de “culto da serpente venenosa do alto mar”, culto que ele equipara à célebre procissão ou festa do deus Baco, realizada na antiga província de Pernambuco e descrita por Pereira da Costa.

Em Alagoas, embora como em todo o Brasil, haja devotos da “Santa caninha” e estes sejam denominados de “irmãos da opa”, não há nem houve, ao que me consta, nenhum culto religioso organizado nos moldes daquele de que nos noticia o ensaísta de Aracaju.

Contudo, se não há um culto religioso, há pelo menos um culto cívico ou melhor uma macaqueação ou arremedo de organização militar com o grêmio tradicional e bastante conhecido, mormente na época carnavalesca, do 44º Espadas d’Água.

Este célebre batalhão de “pés de cana” é formado por um certo número de aficionados da “branquinha” e se apresenta organizado em estado-maior, quartel general, oficialidade, possuindo hino, ordens do dia, etc.

Inquirindo um dos seus “comandantes” a respeito da origem da denominação de 44º Espadas d’Água, nada nos pode responder, afirmando que o nome era muito antigo e que já existia quando “verificara praça” há trinta e tantos anos passados. Nessa data ou em época pouco anterior, lembramo-nos de que em Viçosa saía por ocasião do Carnaval um Clube Carnavalesco “Espadas d’Água”. Também informante residente nesta capital diz-nos que aí por 1910 existiu em Maceió um Clube Carnavalesco Espadas d’Água — naturalmente predecessor da atual organização.

O que parece é que a criação de tal organismo se deve à influência de Pernambuco pois, refere-nos Pereira da Costa no verbete “Espada d’Água” de seu precioso Vocabulário pernambucano que “em 1900 fundou-se no Recife o 13º Batalhão Espada d’Água, sob o comando do marechal Maia Maravilhoso” e quem em 1902 já tinha filial em Tejipió” (A Pimenta, 1902).

Quanto à adoção do número 44, ou foi “meramente” acidental ou poderia significar o número dos primitivos componentes do grupo.

A sua organização íntima foi-nos prometida por altos oficiais do quadro mas infelizmente até o momento de traçar estas notas não chegou às nossas mãos. Veio-nos, porém, o hino do Batalhão, letra (diz a cópia que nos foi fornecida) do capitão Chico Papaovo (?) para ser cantada com a música da Tirolesa. Hino portanto, recente, a menos que não seja substituído de algum outro mais antigo:

Estr.
44,
Espada d’água – força de grande valor

44,
Tem general, só não tem governador.

I
Eu vou passar a vida inteira
Na bebedeira, na bebedeira...
Honrando as nossas tradições
Tomando cana de alambique aos garrafões.

II
Viva o nosso chefe em ação
O general Luís Falcão
Que comanda de boa fé
A nossa carga de cavalaria a pé

Da existência desta corporação é que talvez tenha vindo a expressão comum em certas rodas de “bebaças” para os indivíduos que se encontram embriagados de “fardados”, dizendo-se além disso que o indivíduo está de “talabarte e perneira” quando a embriaguez é completa.

A estas atividades pseudo-militares possivelmente se prende também uma cançoneta que ouvi muitas vezes na minha infância, e que se não nos enganamos é por sua vez paródia de outra canção, da mesma época que o professor Luís Lavenere registra na segunda edição de sua interessante e preciosa coleção Nossas cantigas:

”Assentei praça na polícia eu digo.
Por ser amigo da distinta farda.
Agora é tarde: me recordo e penso.
Trabalho imenso, não se folga nada.

Adeus, compadre, adeus também amigos.

Há 12 anos que na praça eu vivo,
Tomando cálice de cognac fino
Vou vencer batalhas e sofrer castigos”

mas da qual só conseguimos as duas estrofes que aqui vão transcritas até que um “veterano” do 44 ou das “tropas irregulares” possa um dia enviar-me o restante:

“Tomei um porre na semana santa
Que a vizinhança de mim teve dó:
Segunda-feira fui saindo à rua
Vestindo a calça pelo paletó.

Adeus, Levada, bairro da cachaça
Assentei praça com destino ao Rio,
Um alagoano como eu não corre
Ou mata de morre mas sustenta o brios.”


Voltando porém às manifestações de culto religioso da cachaça podemos ainda informar que tivemos certa feita notícia da existência entre nós de uma ladainha possivelmente símile do decálogo que Americano do Brasil (Cancioneiro de trovas do Brasil Central), registra e José Calasans transcreve, a qual entretanto não foi possível chegar ainda em nossas mãos.

Todavia podemos assegurar que o culto à bebida referendado por orações não existe só em Sergipe, Bahia ou Pernambuco. Em Paraíba transcreveu Sabino Campo em seu romance “Catimbó” um interessante “Creio em Deus Padre” recitados pelos crentes da “cotréia”:

“Creio na fertilidade do solo todo produtor, criador da casa e da caninha; creio na aguardente, nosso alimento, a qual foi concebida por obra e graça do alambique; nasceu da puríssima cana, padeceu sob o poder da moenda, foi derramada e sepultada no copo, desceu ao fundo da caldeira, ao terceiro dia ressurgiu da garrafa, subiu ao céu da boca, está no tonel, bem arrolhado, de onde há de vir alegrar os grandes e os pequenos. Creio no espírito de 40º, na santa safra anual, na comunicação dos pifões, na remissão dos chinfrins, na ressurreição dos pileques e na ressaca eterna, amém”.

Também em Minas Gerais o meu prezado confrade e querido amigo Saul Martins me mandou como saudação de Natal, uma variante deste credo, por ele coligido num botequim de Belo Horizonte no dia 20 de dezembro de 1951:

“Creio tenho fé e esperança nos grandes canaviais, na utilidade do gole e todo produto da cana e caninha;

Creio na aguardente que é o nosso alimento, o qual foi concebido por obra e graça do alambique.

Nasceu de um puríssimo canudo, padeceu sob os apertões e pressões das moendas, foi derramado e sepultado no cocho; no terceiro dia ressurgiu da garrafa, subiu ao céu da boca dos cachaceiros e paus d’água, está nas garrafas bem arrochadas, de onde há de vir alegria pra os grandes e pequenos.

Creio no espírito de 40º, na santa safra de mel, na diminuição dos impostos, na remissão dos sem pena, na eternidade da cana, na salvação dos pinguços, na ressaca eterna, assim seja”.


(Brandão, Téo. “Ainda o folclore da cachaça”. Diário de Notícias. Rio de Janeiro, 21 setembro 1952)

Jangada Brasil

A CACHAÇA, VISTA PELO FOLCLORE


A CACHAÇA, VISTA PELO FOLCLORE

Hernani de Carvalho


• Entende-se por cachaça a aguardente obtida pela fermentação e conseqüente destilação da garapa ou do caldo de cana-de-açúcar, gramínea que se desenvolve bem em todo o território brasileiro.

• A cachaça é procedente de vegetação rendosa, ‘barata e de ciclo vegetativo rápido: a cana-de-açúcar. Igualmente, a sua fabricação depende de maquinário barato. A fábrica de cachaça descreve-se assim: uma coberta sem paredes laterais; uma moenda movida por uma junta-de-bois, onde as canas são moídas; a garapa vai para os tanques onde se opera a fermentação, que consiste na transformação da sacarose (açúcar) em álcool etílico e água. A garapa fermentada e, em seguida, levada para o alambique, onde o álcool etílico, com o calor da fornalha do alambique, volatiza-se e passa às serpentinas refrigeradas, onde se liquefaz e é recolhido em recipientes apropriados, chamados tonéis. Quanto mais velha nos tonéis, tanto mais saborosa a cachaça.

• Como se verifica, a obtenção da cachaça é baratíssima: e, por isso mesmo, é vendida a baixo custo no varejo, nas bodegas e nos botequins. A cachaça é a bebida do pobre, no Brasil. O roceiro, quando vai à venda fazer as suas compras costumeiras, leva uma garrafa vazia para trazê-la cheia de cachaça. A rigor, todos os roceiros têm sempre em casa uma garrafa de cachaça para um gole ou uma bicada, de vez em quando, ou oferecer um gole a uma visita.

• A cachaça, nos nossos sertões, é mezinha para males físicos e mesmo morais: há contrariedade? toma-se um gole e tudo desaparecerá; reina alegria? saúda-se esta alegria com uma bicada; dói o dente? bochecha-se cachaça e a dor some; há falta de apetite? tome-se um aperitivo de cachaça e a fome volta voraz; falta coragem para resolver um negócio sério? uma lambada forte de cachaça, torna-se corajoso; falta-lhe disposição de falar em público? uma chamada boa de cachaça torna-o orador; faz frio? toma-se uma talagada de cachaça e esquenta-se; faz calor? toma-se um golinho de cachaça e refresca-se; enfim, a cachaça transforma a personalidade do amante do álcool etílico. É necessário distinguir-se o amante da cachaça do cachaceiro: o primeiro, bebe-a aristocraticamente (...) ao passo que o último se dá ao uso desbragado da cachaça, prejudicando-se...

• Por causa da popularidade da cachaça os seus apelidos são numerosos e pitorescos: branquinha, mata-bicho, tira-teima, malfadada, desgraçada, para-ti, abrideira, água bruta, água-de-briga, água-que-gato-não-bebe, água-que-passarinho-não-bebe, bagaceira, baronesa, bicha, bico, branca, brasa, brasileira, cândida, caiana, cana, caninha, canjica, catuta, caxaramba, caxiri, cobreiro, corta-bainha, camulaia, dindinha, dengosa, desmancha-samba, dona branca, elixir, engasga-gato, espírito, esquenta-por-dentro, filha-de-senhor-de-engenho, fruta, gás, girgolina, gororoba, gramática, homeopatia, imaculada, já-começa, jerebita, jinjibirra, jura, legume, malunga, mamãe-de-luanda, mamãe-de-aruanda, mamãe-sacode, marafa, maria-branca, meu-consolo, moça-branca, patrícia, perigosa, pinga, prego, purinha, rama, remédio, restilo, samba, sete-virtudes, sinhazinha, sumo-de-cana, suor-de-alambique, tafiá, teimosa, tiquira, tome-juízo etc. etc. Note-se que estes apelidos da cachaça são regionais, pois em cada região do Brasil tem o seu pitoresco em ser apelidada pelos seus bebedores.

• Antigamente dizia-se, pejorativamente, "que a cachaça era bebida de negro". Hoje, a cachaça popularizou-se de tal modo que os brancos superaram em muito o consumo da "tome-juízo"... Para amenizar, quando o branco quer beber uma cachaça no botequim, ou na bodega, ou na taberna, ele não pede uma dose de cachaça: "traga-me uma batida de limão!, o garçom já sabe o que o freguês quer...

• Quando a cachaça era bebida de negro (e subia para a cabeça, quando se "entornava" muito, dizia-se embriaguez, bebedeira, mona, porre, pifão, puxando-um-fogo e que tais. Estes designativos que menosprezam o alcoólatra da cachaça, com a entrada dos brancos para o cordão da "branquinha" tudo se modificou: — uma dose de uma cachaça é uma "batida"; um porre de cachaça é uma crise etílica passageira; um cálice de cachaça na mesa de um bar chique chama-se abrideira; um coquetel à base de cachaça antes de um jantar chique chama-se aperitivo.

• A cachaça tem um cheiro característico de garapa fermentada. Então, no Nordeste e no Norte brasileiros, quando se serve uma dose de cachaça vêm, também, umas rodelas de caju ou de outros frutos cheirosos para que o hálito não fique cheirando da "branquinha"... Lá, chama-se a isso tira-gosto...

• Quando um bebedor de cachaça excede-se na bebida das "batidas", sobrevém o pifão, na linguagem popular. Mas, se o bebedor de cachaça é grã-fino o fato anormal não se chama pifão, o nome técnico chama-se intoxicação etílica. Até entre as classes sociais há diferenciação entre os termos dos cachaceiros...

• No ritual dos feiticeiros, a cachaça é fartamente usada nos "despachos", nos "banhos-de-descarga" e na deglutinação pelos "cavalos" (médiuns), em estado de transe, durante os "trabalhos-de-terreiro", com o nome de marafa.

• Existe na sabedoria popular uma comparação numerosa em que figura a cachaça:
Diabo, mulher e cachaça são três tentações...
Cachaça e mulher endoidecem os homens...
Rabo-de-saia e cachaça fazem os homens virar a cabeça...
A cachaça é como o homem que ama uma mulher ruim: quanto mais bebe, tanto mais tem vontade de amá-la...
A cachaça e a mulher são capazes de fazer um frade-de-pedra pecar...
A cachaça e a mulher se parecem: quando a cachaça é deglutida pelo bebedor, este faz caretas e esgazeia os olhos; a mulher faz caretas e esgazeia os olhos, no paroxismo do amor...

• Entre os bebedores de cachaça nos botequins, nas bodegas ou nas tabernas, nota-se que eles não bebem sós: estão sempre acompanhados de "irmãos-da-opa". Logo que o garçom traz as "batidas", antes de deglutidas, eles se brindam e enaltecem as virtudes da "água-que-passarinho-não-bebe"...

• Nas rodas de intelectuais bebedores de cachaça vale a pena a gente ficar de fora ouvindo dissertações eruditas em prosa e verso. Intelectual que não bebe cachaça, parece-me, é falho de inspiração...

• A política é como a cachaça: a princípio, é uma abrideira; depois, é um aperitivo; depois, é uma batida; depois, passa a ser um hábito; daí, pula para a área do vício; e passa a embriagar-se; nessa altura, ninguém poderá mais abandoná-la...

• Os cantadores e os violeiros do Nordeste, com a sua verve cabocla, são férteis em versos, endeusando a cachaça:

"Cachaça é bebida boa
O povo chama "branquinha":
Botam mel para ficar doce
Então chamam "meladinha",
Mas sai com as pernas trançando
Como quem cose bainha!"

* * *

"Nasci para beber no mundo
Quantidade essa tão pouca,
Quando levo o copo à boca
Meu desejo é ver o fundo..."


"Hoje bebe todo mundo
Deputado e senador,
Babe o soldado, o sargento,
O juiz, o promotor.
Como é que pode deixar
De beber o cantador?"


* * *

"O meu boi morreu,
O que será da vaca,
Pinga com limão
Cura urucubaca..."

* * *

Superstições em torno da cachaça

1) quando se vai beber a cachaça, o bebedor, antes de tocar o cálice na boca, derrama um gole para "salvar os santos";

2) roubar Santo Onofre dá sorte à pessoa que o roubou, mas é preciso deixar cachaça e farinha para o santo beber e comer; é pau-d’água (Deus me perdoe...); não deixará faltar "nada de provisões de boca" ao seu dono;

3) os bebedores, depois de deglutirem a cachaça, deixam um pouquinho no cálice ou no copo e atiram-no para um lado: é para o diabo ou para os caboclos...;

4) os cachaceiros, depois de deglutirem um copázio de cachaça, cospem para um lado; acreditam ser "simpatia" para não se embriagar...

Pitorescos da cachaça

• "Ter cachaça por alguém" é expressão corriqueira empregada amiúde, quando se quer manifestar estima imoderada por determinada coisa ou pessoa.

• Em Brasília, na capital federal, entre os candangos, quando alguém convida os amigos: "vamos beijar os santos?" Quer dizer: "Vamos beber uma cachaça?" Igualmente, em Brasília, quando se pede ao garçom: "traga-me um leite de camelo". Quer dizer: "traga-me uma mistura de cachaça e cinza!" Outras vezes, ouve-se este convite: "Vamos molhar a goela?" Quer dizer: "Vamos beber cachaça?"

• Ainda outro modismo de convite: "Vamos molhar a palavra?" Quer dizer: "Vamos tomar uma dose de cachaça?"

• Outro modismo muito em voga em todo o sertão: "Vamos matar-o-bicho?" Quer dizer: "Vamos tomar um gole de cachaça?"

• Há um modo de convite gozado: "Vamos verificar se está chuviscando?" Quer dizer: "Vamos bebericar cachaça nas tavernas ou botequins?"

• Outra modalidade de convite, comum no sertão: "Vamos tomar uma talagada?" Quer dizer: "Vamos tomar uma cachaça?"

• Às vezes, o convite varia: "Vamos tomar uma chamada?" Quer dizer: "Vamos tomar uma cachaça?"

• Verifica-se, pela índole dos convites, que, entre os irmãos-da-opa, reina uma cordialidade e uma delicadeza invejáveis...

• Os cachaceiros contumazes, quando "matam o bicho", dão um estalo com a língua no céu da boca, fazem uma careta e trauteiam: "Eta coisa ruim, mas eu gosto dela assim mesmo..."

• No linguajar dos sertanejos verifica-se amiúde a deturpação de certos termos que são inteiramente desvirtuados. Por exemplo: o termo despotismo, que significa nos dicionários: autoridade de déspota. E déspota significa tirano. Pois bem, despotismo, na linguagem matuta, significa grande quantidade de qualquer coisa. Na minha fazendola de Campos, no estado do Rio de Janeiro, ouvia, amiúde, o emprego de despotismo pelos camponeses locais e eles explicavam-me o significado deturpado. O meu folclore registrou a deturpação curiosa e pitoresca. Beber-se cachaça em grande quantidade é um despotismo.


(Carvalho, Hernani de. No mundo maravilhoso do folclore. Rio de Janeiro, Tipografia Batista de Souza, 1966, p.155-159)

Jangada Brasil

sábado, 9 de janeiro de 2010

Da farmácia para a mesa


Da farmácia para a mesa
Muitos alimentos já tiveram fama de curar doenças. Com o passar do tempo, alguns se mostraram bem menos milagrosos
por Flávia Pinho

Azeite contra a dor de ouvido

Até bem pouco tempo atrás, o azeite era considerado um santo remédio para dor de ouvido: bastava pingar algumas gotas quentes. São crenças que ainda sobrevivem na medicina popular em várias partes do mundo. "Os camponeses da Toscana até hoje usam o azeite para reduzir as irritações produzidas por urtigas e curar machucaduras", afirma o italiano Luciano Percussi no livro Azeite - Histórias e Receitas. Muito antes, desde a Idade Média, era usado como isolante contra o frio. As mães chegavam a untar a pele dos bebês nos dias mais gelados.

Chás etílicos

Os árabes é que descobriram o álcool proveniente da cana. "Eles inventaram o alambique", afirma o historiador Ricardo Maranhão, da Universidade de Gastronomia Anhembi-Morumbi. A princípio, a bebida era usada para diluir os medicamentos, que não passavam de infusões ou chás misturados. No Rio de Janeiro do século 19, essas beberagens ainda eram vendidas nas boticas, que faziam as vezes de mercearias. O povo ia até lá para fazer compras, aproveitava para dar uma bicadinha na bebida ali mesmo, no balcão... e assim nasceu o botequim.

Soja, só fermentada

Cinco mil anos atrás, os chineses já consideravam a soja um grão sagrado, ao lado do arroz, do trigo, da cevada e do milheto (variedade de milho de grãos miúdos). Mas isso dependia de como ela era preparada. Os médicos aprovavam os grãos fermentados, como aparecem no shoyu e no missô. Já a versão crua ou cozida era tida como perigosamente prejudicial. Não é que eles tinham razão? Hoje se sabe que a soja contém uma série de fatores que dificultam a digestão e impedem a absorção de nutrientes, fatores neutralizados pela fermentação.

Batata para voar

Para os incas, a batata significava vida, e não por acaso: poucos alimentos vingavam a mais de 3500 metros acima do mar. Os colonizadores espanhóis não compraram a ideia. Até levaram algumas amostras para a Europa, mas as plantas não passaram dos jardins. "Seu maior crime era pertencer à família das belladonas, que contém uma substância para se fazerem unguentos e, acreditava-se, dava às bruxas o poder de voar", afirma a crítica Danusia Barbara no livro Batata. Dizia-se também que o tubérculo propagava tuberculose, raquitismo, sífilis e luxúria.

A força do espinafre

Lembra a receita de força do Popeye? Pois o personagem foi criado no finzinho da década de 20, ainda em quadrinhos, no embalo da fama que o espinafre já tinha: a de ser um alimento capaz de fortelecer qualquer fracote. "O objetivo da história era lançar o espinafre enlatado", afirma Ricardo Maranhão. Esse superpoder, porém, já não convence ninguém. Apesar de ser riquíssima em ferro, a verdura contém oxalato, substância que inibe a absorção do nutriente pelo organismo.

Doce para a fraqueza

O açúcar passou a fazer parte das receitas culinárias por volta do século 15, quando os portugueses investiram pesado no plantio da cana em suas colônias. Antes disso, era muito caro - e não servia para adoçar bebidas e alimentos, tarefa que cabia ao mel. "O açúcar era utilizado somente para tratar doenças ligadas à fraqueza. Na Antiguidade, acreditava-se que a saúde dependia do equilíbrio de elementos quente, frio, úmido e seco do organismo, e o açúcar era o componente quente e energético", diz Ricardo Maranhão.

Refrigerante de botica

Muito se especula a respeito da Coca-Cola: que desentope pia, que bronzeia, que espanta o sono... Uma dessas histórias é verdadeira: a bebida de fato nasceu para ser vendida em farmácia. O inventor era um farmacêutico, o americano John Pemberton (1831-1888), de Atlanta. Em 1886, ele pesquisava a cura para dores de cabeça e chegou a uma fórmula escura e espessa. Levado à Jacob’s Pharmacy, o xarope foi misturado a água gasosa e oferecido aos clientes, pela primeira vez, no dia 8 de maio - o copo de 237 ml custava 5 centavos de dólar. Logo a farmácia vendia nove copos diários.

Revista Aventuras na História

domingo, 8 de novembro de 2009

Champanhe: sabor de espuma


Champanhe: sabor de espuma
Gerações de agricultores torceram o nariz para aquele estranho vinho que fermentava duas vezes. Quando souberam aprisionar sua inigualável efervescência, nasceu a mais feliz das bebidas - o champanhe.
Gerações de agricultores torceram o nariz para aquele estranho vinho que fermentava duas vezes. Quando souberam aprisionar sua inigualável efervescência, nasceu a mais feliz das bebidas - o champanhe.

Conta a lenda que, ao provar a bebida espumante que havia inventado, o monge beneditino Dom Pérignon, incorrendo com certeza no pecado da soberba, exclamou: “Estou bebendo estrelas”. A hipérbole, bela e romântica, é uma apropriada homenagem às siderais virtudes de seu vinho incomparável - mas a verdade dos fatos não deve perder a sobriedade. Pois o champanhe não foi propriamente inventado, porém surgiu graças a uma série de circunstâncias peculiares. Seria até mais acertado dizer que o champanhe se inventou a si mesmo do que atribuir a quem quer que seja o seu advento. Mas, quando é mais interessante que a realidade, a lenda é que acaba prevalecendo, principalmente se contribui para os bons fluidos da indústria do champanhe.

Afinal, a empresa francesa Moet-Chandon, de longe a maior produtora, tem um célebre champanhe com o nome Dom Pérignon e até comprou a abadia de Hautvillers - de cujas adegas o monge era encarregado, entre 1668 e 1715 - para montar um atraente museu do vinho. A região de Champagne fica no norte da França, a cerca de 150 quilômetros de Paris. Os principais pontos de referência para localizá-la são o Rio Marne e as cidades de Épernay, Reims e Ay, que praticamente centralizam toda a produção vinícola do lugar.

A região empresta o nome à bebida e isso deixa bem claro que podem existir muitos espumantes, mas só um champanhe, aquele feito ali mesmo, assim como nem toda aguardente de uva é um cognac. A primeira das circunstância sque levaram ao nascimento do champagne foram as peculiaridades de clima e solo da própria região, onde os invernos são frios, muito duros. Champagne designa na agricultura francesa um campo aberto com uma fina camada superior de terra arável e um subsolo com muito calcário. Mais parece uma massa compacta de giz, na qual os habitantes do lugar, durante gerações, cavaram túneis para se proteger das guerras e pilhagens. Esses túneis acabaram sendo usados para produzir e armazenar vinhos. A Champagne, com efeito, foi uma das regiões da Europa mais assoladas pelas guerras. Ali, Clóvis (466-511) ganhou a batalha que levou à sua coroação e ao estabelecimento da monarquia francesa; em Reims, ele foi sagrado pelo bispo que seria beatificado como Saint Rémy.

Para se ter uma idéia dos estragos que as guerras provocaram na região, basta dizer que a cidade de Épernay foi saqueada e destruída nada menos de 25 vezes ao longo da história. Também neste século, a Champagne assistiu a muitas batalhas no decorrer da duas guerras mundiais, notadamente a do Marne, que praticamente decidiu a Primeira Guerra. A catedral de Reims, uma das mais bonitas da Europa, ainda guarda as cicatrizes dos bombardeios alemães. O vinho que era feito ali no tempo de Dom Pérignon nada tinha a ver com o espumante. Para começar, era tinto, não branco. Além disso havia um problema muito sério, derivado das condições climáticas e geográficas, e combatido de todas as maneiras possíveis por gerações de vinhateiros. Em vão, felizmente. É que o vinho feito na boca do inverno tornava a fermentar, a criar uma efervescência, quando a temperatura começava a subir na primavera. Durante o inverno, o vinho ficava tranqüilo nas crayères (túneis), mas na primavera voltava a trabalhar. A produção em massa da garrafa e a utilização da rolha de cortiça completaram o cenário que levaria ao espumante. Usada pelos antigos romanos para fechar suas ânforas, a rolha caiu no esquecimento durante a Idade Média, quando barris de madeira passaram a ser utilizados para armazenar e transportar o vinho. Para irritação dos franceses, os ingleses reivindicam a primazia pela boa idéia de tapar o champanhe com rolha, o que lhes transferiria parte da glória do vinho. Já os espanhóis garantem que foram eles que mostraram a Dom Pérignon e a outros vinhateiros franceses as virtudes da rolha de cortiça, comum em seu país.

Seja de quem tiver sido a idéia, a rolha representou um grande progresso. Antes, as garrafas eram fechadas com chumaços de algodão ou com trapos embebidos em azeite. A garrafa, por sinal, era conhecida já no Egito antigo, embora naqueles idos fosse usada apenas para levar o vinho à mesa. Durante a Idade Média e na Renascença, a Sereníssima República de Veneza detinha a liderança na produção artesanal de garrafas. No século XVIII, com a Revolução Industrial, a garrafa passou a ser fabricada em série, principalmente na Inglaterra, e começou a ser usada também para acolher vinhos. Estes então puderam envelhecer tranqüilamente, sem virar vinagre. O porto, famoso vinho de Portugal, foi o primeiro a ser engarrafado e arrolhado. Assim, com a garrafa e a rolha, os vinhateiros franceses do fim do século XVII adquiriram os meios para aprisionar aquela efervescência que tanto incomodara os seus antepassados. Nascia o champanhe. E certamente o monge Dom Pérignon usou as inovações técnicas da época. Ele pode não ter inventado a bebida, mas seguramente teve papel importante em seu desenvolvimento. Dizia-se que, já velho e cego, Dom Pérignon podia afirmar, só provando as uvas, de que área da Champagne elas vinham.

A ele se credita também o chamado corte champenois, que é a mistura das uvas com as quais o champanhe é feito até hoje: pinot noir, que traz o corpo e lhe dá o aroma característico; pinot meunier, ou pinot do moleiro, assim chamada porque suas folhas são cobertas por um pó branco, que lembra a farinha - a uva mais comum, responsável pelo paladar frutado; e a chardonnay, que dá ao vinho elegância e frescor. O champanhe acabou conquistando a corte da França e depois o mundo. Madame Pompadour (1721-1764), a célebre amante de Luís XV, contribuiu muito para difundir o seu consumo ao dizer que era a única bebida capaz de tornar as mulheres mais belas. Durante a Revolução Francesa, a bebida caiu em desgraça; afinal, representava o luxo aristocrático. Mas não durou muito a supremacia da doutrina sobre o prazer. Na época de Napoleão, foi reabilitada e voltou a ser popular. Posteriormente, no começo deste século, tornou-se o símbolo espoucante de uma época alegre e irresponsável, a belle époque, quando corria como água nos melhores restaurantes e cabarés de Paris.

Hoje é o vinho mais conhecido no mundo inteiro, presença constante em comemorações de toda espécie, desde festas familiares a lançamentos de navios, sem contar os rituais da vitória nas corridas de Fórmula 1. Há poucos meses, quando milhares de alemães orientais conseguiram passar para o Ocidente via Hungria, os jornais mostraram nas primeiras páginas fotos de felizes emigrantes em seus carros, já em território austríaco, com os novos passaportes numa das mãos e uma garrafa de bom sekt, a versão alemã do champanhe, na outra. Não deixa de ser irônico que, mesmo não o tendo inventado, um bom e piedoso monge esteja ligado ao nascimento desse vinho mundano por excelência, que justifica plenamente a máxima de Anthelme Brillat-Savarin (1755-1826), o grande teórico da gastronomia francesa e emérito fazedor de frases: “O Bourgogne faz a gente pensar em bobagens, o Bordeaux faz a gente falar bobagens e o champanhe faz a gente fazer bobagens”.

É evidente que não se faz mais champanhe como nos tempos de Dom Pérignon, mas os princípios básicos para produzir e aprisionar a espuma são os mesmos. O vinho contínua passando por duas fermentações, a primeira nas cubas e a segunda nas próprias garrafas. É essa fermentação na garrafa a essência do chamado método champanhês. Para se produzir o champanhe, primeiro é preciso amassar as uvas com muito cuidado para não retirar a cor das cascas. É que aquelas duas uvas usadas na elaboração da bebida - a pinot noir e a pinot meunier - são tintas; portanto, é necessário prensá-las cuidadosamente para que a cor não passe para o mosto.

Acontece, então, a fermentação alcoólica. Nesse processo, o açúcar do mosto se transforma em álcool pela ação dos fermentos, liberando gás carbônico e gerando calor. Um processo simples, comum a todos os vinhos, conhecido pelo homem desde a Antigüidade, mas que só foi cientificamente explicado por Louis Pasteur, no século passado. Depois de feito o corte, ou seja, a mistura de vinhos de várias procedências, ele vai para as garrafas junto com as substâncias que vão provocar a segunda fermentação. Começa o processo da prise de mousse, a transformação do vinho sossegado em espumante. O próximo passo, que dura três meses, é a retirada dos restos dos fermentos. As garrafas são então colocadas nas pupîtres, armações de madeira onde ficam presas pelo gargalo.

Esse processo é chamado remuage. Nele, operários especializados vão virando as garrafas com movimentos firmes e precisos para que os fermentos se desprendam das paredes do vidro. Ao mesmo tempo, colocam as garrafas de cabeça para baixo. Cada trabalhador vira seis mil garrafas por dia. Vê-los em ação lembra as cenas do célebre filme Tempos modernos, em que Charles Chaplin descreve com imagens hilariantes a tirania do trabalho condicionado pelo ritmo da máquina. Finalmente, vem o dégorgement. Os fermentos já estão colados à rolha (ou às tampinhas, bastante usadas hoje em dia) e só os gargalos são congelados. Ao ser expulso, esse gelo leva consigo os fermentos; as garrafas são completadas com vinho já pronto. Junto, vai a quantidade de açúcar que determina o tipo do champanhe: nature, sem açúcar nenhum; brut, bem seco, com 9 a 15 gramas de açúcar por litro; extra brut, de 12 a 15 gramas; sec, com 17 a 35 gramas; demi-sec, com 33 a 50 gramas; e doux, doce, com mais de 50 gramas de açúcar. Tintim.

A batalha do bom nome

Mais de 500 milhões de garrafas descansam tranqüilamente no imenso labirinto de cerca de 200 quilômetros de túneis (as crayères), nas regiões de Reims e Épernay. Esses túneis fazem a delícia dos turistas que vão ver ali como nasce o champanhe. Para cada garrafa vendida, os produtores mantêm duas nas caves a fim de garantir o estoque nos anos mais fracos, quando a oferta não dá para o consumo. Isso é relativamente comum, pois nessa região fria as geadas fazem grandes estragos nas parreiras. Nos anos melhores, naturalmente, as reservas aumentam. Em 1987, por exemplo, a Champagne produziu 257 milhões de garrafas e vendeu 195,4 milhões. As restantes foram se juntar àquele estoque regulador.

A champagne não tem problemas para colocar seus vinhos no mercado, mas zela muito bem pelo seu nome. Os produtores argumentam que espumantes existem muitos, mas champagne é um só, e já foram à Justiça muitas vezes para evitar que o nome fosse usado por produtos de outras regiões. No Mercado Comum Europeu e nos outros países que também fazem parte da Organização Internacional do Vinho está condenada até a indicação nos rótulos da expressão méthode champenoise - para significar que o espumante foi feito por processo idêntico ao usado na Champagne, de segunda fermentação na garrafa. Como muitas regiões da França e praticamente todos os países que fabricam vinhos têm os seus espumantes, vão ter de encontrar outra maneira para indicar que seus produtos foram feitos por aquele método.

Na Itália, por exemplo, já se usa a inscrição método clássico e na Espanha a palavra cava no rótulo é sinal de que espumante foi elaborado pelo sistema champanhês. No Brasil, o nome Champanha é legal, pois a Justiça decidiu que poderia ser usado pelos fabricantes nacionais. Aqui com duas exceções, o método mais usado é o Charmat, mais simples e rápido. Nele, a segunda fermentação, aquela que faz a espuma, é produzida em grandes cubas fechadas, as autoclaves. Independente do sistema, alguns espumantes brasileiros estão entre os melhores vinhos produzidos no país.

Abertura lenta e gradual

Como os demais espumantes, o champanhe deve ser servido bem gelado, de preferência num balde com muito gelo e um pouco de água. Mas não deve ficar muito tempo na geladeira e sim ser resfriado no dia em que for servido. Por maior que seja a tentação num ambiente de festa, desaconselha-se espoucar a rolha. O estouro faz perder o gás e ainda derrama vinho, o que é um sério desperdício. Assim, é melhor não sacudir a garrafa, mas abri-la com todo o cuidado. Ao retirar a armação de arame que protege a rolha, é prudente colocar sobre ela o polegar, pois algumas rolhas saltam espontaneamente com uma velocidade incrível e podem causar problemas, sobretudo se atingirem partes delicadas, como os olhos. Depois, com a ajuda de um guardanapo, deve-se girar a rolha aos poucos. Se ela não ceder, pode-se fazer pressão em vários pontos com o polegar, como se fosse uma alavanca.

Quando a rolha ceder, volta-se aos movimentos delicados e circulares. Se nada disso der certo, o jeito é colocar o gargalo (e só o gargalo) sob um jato de água quente. Para servir, o copo ideal é a flûte, taça fininha e comprida. Nela, as borbulhas - que os vinhateiros tiveram tanto trabalho para fazer - não desaparecem rapidamente e o vinho contínua espumante por mais tempo, ao contrário do que ocorre com a taça tradicional, bem aberta e rasa. Diz a lenda que essa taça teria sido moldada nos seios da desditosa rainha Maria Antonieta. Com todo respeito às formas e à memória de Sua Alteza, tais taças devem ser deixadas para acepipes mais triviais, como sorvetes ou saladas de frutas.

Revista Superinteressante