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sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

O nazismo era um movimento de esquerda ou de direita?


Camilla Costa
BBC Brasil

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Em meio a crise econômica e política na Alemanha, nazismo trazia ideia de "revolução social". mas só para os "arianos"

"Cara, cai na real! Ser de esquerda é ser a favor de milhares de mortes causadas pelo comunismo e nazismo no mundo. Reflita!", diz uma mensagem de janeiro no Twitter. "O socialismo/comunismo é uma ideologia de esquerda irmã do nazismo", diz outra do final de abril. Outro participante da rede social pergunta: "Quantas pessoas será que estão em grupos de libertários no Facebook discutindo se nazismo é esquerda ou direita neste exato momento?".

A discussão sobre se o movimento nazista alemão - cujo governo matou milhões de pessoas e levou à Segunda Guerra Mundial - teria as mesmas origens do marxismo ferve nas redes sociais há alguns meses, com a crescente polarização do debate político no Brasil.

Mas historiadores entrevistados pela BBC Brasil esclarecem o que dizem ser uma "confusão de conceitos" que alimenta a discussão - e explicam que o movimento se apresentava como uma "terceira via".

"Tanto o nazismo alemão quanto o fascismo italiano surgem após a Primeira Guerra Mundial, contra o socialismo marxista - que tinha sido vitorioso na Rússia na revolução de outubro de 1917 -, mas também contra o capitalismo liberal que existia na época. É por isso que existe essa confusão", afirma Denise Rollemberg, professora de História Contemporânea da Universidade Federal Fluminense (UFF).

"Não era que o nazismo fosse à esquerda, mas tinha um ponto de vista crítico em relação ao capitalismo que era comum à crítica que o socialismo marxista fazia também. O que o nazismo falava é que eles queriam fazer um tipo de socialismo, mas que fosse nacionalista, para a Alemanha. Sem a perspectiva de unir revoluções no mundo inteiro, que o marxismo tinha."

O projeto do movimento nazista, segundo Rollemberg, previa uma "revolução social para os alemães", diferentemente do projeto dos partidos de direita da época, "que vinham de uma cultura política do século 19, de exclusão completa e falta de diálogo com as massas".

Mesmo assim, ela diz, seria complicado classificá-lo no espectro político atual. "Eles rejeitavam o que era a direita tradicional da época e também a esquerda que estava se estabelecendo. Eles procuravam se mostrar como um terceiro caminho", afirma.

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Nacionalismo

A ideia de uma "revolução social para a Alemanha" deu origem ao Partido Nacional-Socialista alemão, em 1919. O "socialista" no nome é um dos principais argumentos usados nos debates de internet que falam no nazismo como um movimento de esquerda, mas historiadores discordam.

"Me parece que isso é uma grande ignorância da História e de como as coisas aconteceram", disse à BBC Brasil Izidoro Blikstein, professor de Linguística e Semiótica da USP e especialista em análise do discurso nazista e totalitário.

"O que é fundamental aí é o termo 'nacional', não o termo 'socialista'. Essa é a linha de força fundamental do nazismo - a defesa daquilo que é nacional e 'próprio dos alemães'. Aí entra a chamada teoria do arianismo", explica.

De acordo com Blikstein, os teóricos do nazismo procuraram uma fundamentação teórica e filosófica para defender a ideia de que eles eram descendentes diretos dos "árias", que seriam uma espécie de tribo europeia original.

"Estudiosos na Europa tinham o 'sonho da raça pura' nessa época. Quanto mais próximos da tribo ariana, mais pura seria a raça. E esses teóricos acreditavam que o grupo germânico era o mais próximo. Daí surgiu a tese de que, para serem felizes, tinham que defender a raça ariana, para ficar longe de subversões e decadência. (Alegavam que) a raça pura poderia salvar a humanidade."

A ideia de uma defesa do povo germânico ganhou popularidade em um momento de perda de territórios, profunda recessão e forte inflação após a Primeira Guerra Mundial - e tornou-se o centro do movimento nazista.

"Era preciso recuperar a moral do pobre coitado, que não tinha dinheiro e era 'massacrado pelos capitalistas'", explica Blikstein. Nesse contexto, afirma, o nazismo vendia a ideia de "reeguer o orgulho da nação ariana. O pressuposto disso seria eliminar os não arianos. E essa teoria foi aplicada até as últimas consequências".

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Segundo especialistas, judeus eram perseguidos por simbolizarem dois "inimigos" do nazismo: o capitalismo liberal e o socialismo marxista
'Marxistas e capitalistas'

Mesmo propagando a ideia de que o nazismo planejava uma revolução social na Alemanha - o que incluía, por exemplo, maior intervenção do Estado na economia -, o partido fazia questão de deixar clara sua oposição ao marxismo.

"Os comícios hitleristas eram profundamente antimarxistas", disse à BBC Brasil a antropóloga Adriana Dias, da Unicamp, que é estudiosa de movimentos neonazistas.

"O nazismo e o fascismo diziam que não existia a luta de classes - como defendia o socialismo - e, sim, uma luta a favor dos limites linguísticos e raciais. As escolas nacional-socialistas que se espalharam pela Alemanha ensinavam aos jovens que os judeus eram os criadores do marxismo e que, além de antimarxistas, deveriam ser antissemitas."

Os judeus, aliás, tornaram-se o ponto focal da perseguição nazista porque representavam tanto o socialismo como o capitalismo liberal, mesmo que isso possa parecer antagônico nos dias de hoje.

"Havia uma simbologia do judeu como representante, por um lado, do socialismo revolucionário - porque Marx vinha de uma família judia convertida ao protestantismo, assim como muitos bolcheviques", diz a historiadora Denise Rollemberg.

"Por outro lado, os judeus eram associados ao capitalismo financeiro porque os judeus assimilados (que assumiram as culturas de outros países, para além da nação religiosa) que viviam na Europa tinham uma tradição de empréstimos de dinheiro e de negócios."
'Precisão científica'

A "precisão científica" do extermínio de judeus na Alemanha nazista também dificulta as comparações com a perseguição política no regime socialista soviético, na opinião de Izidoro Blikstein.

"Há muitos genocídios pelo mundo, mas nenhum igual ao nazismo, porque este era plenamente apoiado por falsa teoria científica e linguística e levada até as últimas consequências. A União Soviética também tinha campos de trabalhos forçados, mas não existia uma doutrina para justificar isso", afirma.

"Mas há traços comuns entre o nazismo o regime (soviético) de Stálin. A propaganda, por exemplo, e o fato de que ambos eram regimes totalitários, que controlavam e legislavam sobre a vida pública e também privada do cidadão", admite.

Além dos judeus, o regime nazista também perseguiu democratas liberais, socialistas, ciganos, testemunhas de Jeová e homossexuais - algo que, hoje, contribui para que o nazismo seja classificado como extrema-direita, e o aproxima de grupos que pregam contra a comunidade LGBT, contra imigrantes e contra muçulmanos, por exemplo.

"Todo esse projeto de repressão, censura, campos de concentração e extermínio nazista era direcionado a quem estava fora do que eles chamavam de 'comunidade popular', o povo alemão. Mas alemães que eram democratas liberais e socialistas também eram excluídos por serem contrários ao projeto nazista e colocarem em risco essa comunidade popular", explica Denise Rollemberg.

No entanto, para Blikstein, a ideia de raça é tão central ao nazismo que, assim como não se pode usar o projeto de revolução social para classificá-lo como "esquerda", também é difícil defini-lo como a "direita" que conhecemos hoje.

"Dizer apenas que Hitler era um político de direita é apequenar o nazismo. Foi mais do que direita ou esquerda. Foi uma doutrina arquitetada para defender uma raça, embora esse conceito seja discutível e pouco científico", diz.

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'Crise de referências'

Uma recapitulação do projeto e do regime nazista, de acordo com os especialistas no assunto, aumenta a confusão: deveria haver igualdade social e distribuição de renda, mas imigrantes, judeus, opositores políticos e até filhos "não talentosos" de alemães seriam excluídos dela por serem "menos puros"; o Estado prometia interferir mais na economia para benefício dos cidadãos, mas empresas privadas tiveram os maiores lucros com a máquina de extermínio e de guerra nazista; o movimento dizia defender os trabalhadores, mas sindicatos trabalhistas foram extintos, assim como o direito de greve; o socialismo marxista era considerado ruim, mas o liberalismo também.

Como seria possível defender todas estas ideias ao mesmo tempo?

"Quando o partido foi constituído, ele tinha uma vertente mais à esquerda e uma mais à direita. No início, tinha um discurso bastante antiburguês. Mas ao assumir o poder na Alemanha, o grupo à direita foi fazendo mais alianças com a burguesia e expulsando o grupo à esquerda", diz a historiadora da UFF.

"Além disso, o nazismo nasce no meio de uma crise de referências muito grande após a Primeira Guerra. Muitos passaram de um lado para outro. Os valores muitas vezes vão se embaralhar, e esses conceitos de direita e esquerda atuais não resolvem bem o problema."

Entre historiadores, a tentativa de traçar paralelos entre o nazismo e o fascismo europeus e o regime stalinista na União Soviética também não é nova, segundo Rollemberg.

"Todos eles eram regimes totalitários, mas o totalitarismo pode estar de qualquer lado. Hoje entendemos que há o totalitarismo de direita, como o nazismo e o fascismo, e o de esquerda, como o da União Soviética."

terça-feira, 20 de maio de 2014

Alemanha pós Primeira Guerra



Com o fim da Primeira Guerra Mundial, a revolução socialista parecia avançar na Alemanha. Nas forças armadas e por todo o país formavam-se conselhos de soldados e de operários, inspirados pelos soviets da Revolução Russa. A proclamação da República em 1919 visou conter essa tendência. No mesmo ano, o novo governo alemão, em que estavam representados os socialistas, esmagou uma insurreição conduzida pela Liga Espartaquista. Os líderes Karl Liebknecht e Rosa Luxemburgo, que estavam entre os nomes mais respeitados do movimento operário alemão, foram assassinados por forças paramilitares pagas pelo governo. A repressão desmoralizou os socialistas, enquanto os herdeiros dos espartaquistas se fortaleceram.

Nos anos seguintes, a Alemanha teve de enfrentar problemas como a pior inflação da história: o índice inflacionário variou em um trilhão por centro entre janeiro de 1919 e o final de 1923. Nesse ano, em outubro, o Partido Comunista Alemão (KPD) preparou uma insurreição, mas cancelou-a no último minuto. Um mês depois, Hitler tentou derrubar o governo da Baviera com o chamado "putsch da cervejaria", foi preso e escreveu Mein Kampf na prisão.
Revista Nova Escola

quinta-feira, 20 de março de 2014

Marcha rumo à catástrofe

No dia 22 de junho de 1941, três milhões de soldados alemães invadem a União Soviética. A investida, há 70 anos, durou meses e fez mais vítimas do que qualquer outra, constituindo um ponto de inflexão na História mundial. Após alguns sucessos iniciais, as forças alemãs fracassam , devido à paranoica megalomania de Hitler e à mais abnegada resistência da União Soviética
Por Till Hein e Jonathan Stock

1941 - O ano fatídico (I)
A campanha militar de Hitler na Rússia

A fumaça de uma casa de fazenda em chamas escurece o céu perto de Charkow, no nordeste da Ucrânia. Aparentemente irrefreável, e de início com uma velocidade espantosa, a máquina militar alemã avança rumo ao leste




No dia 22 de junho de 1941, quando tem início o ataque à União Soviética, Fritz Farnbacher, oficial da 4ª Divisão de Panzers (blindados), escreve em seu diário que a maioria de seus camaradas se alegraria "imensamente se finalmente houvesse combates e muito barulho de novo". E que ele está feliz por poder trocar "as atividades muitas vezes enfadonhas do serviço cotidiano" por "uma guerra de verdade".

Nem meio ano depois, ele a chamará de "a mais desgraçada de todas as guerras".

Farnbacher é um dos mais de 3 milhões de soldados da Wehrmacht, as Forças Armadas alemãs, que invadem o maior país do planeta. A ofensiva fará mais vítimas do que qualquer outra da História: cerca de 27 milhões de soviéticos morrem em consequência da invasão de seu território; entre eles, quase 18 milhões de civis, aproximadamente 30% de todas as vítimas da Segunda Guerra Mundial. E durante esse avanço dos alemães, um número ainda maior de órfãos, viúvas e feridos fica para trás, nas mais de 1.700 cidades destruídas pelos bombardeios e nas 70.000 aldeias queimadas da União Soviética.

Trata-se de uma guerra que difere de todas as outras campanhas militares da Modernidade, pois não consiste apenas em um esforço de conquista, mas também numa incursão destrutiva contra porções enormes da população. Uma guerra planejada para ser exatamente assim.

NO DIA 30 DE MARÇO DE 1941
, Hitler explica durante 2 horas e meia, a cerca de 100 de seus generais mais graduados, na nova Chancelaria do Reich, em Berlim, a "luta entre duas visões de mundo", na qual o "bolchevismo" precisa ser destruído.

A "condução da guerra contra a Rússia" deve ser diferente do esquema adotado até então. Nas campanhas militares até aquele momento a justiça para com todos os "criminosos" nos territórios ocupados teria sido "humana demais".

Não se escuta nenhum protesto do alto comando do Exército. Rotineiramente, as explanações do Führer são traduzidas em ordens; diversos esboços operacionais são elaborados e avaliados de diversos ângulos. E então a direção da Wehrmacht emite duas ordens que custarão a vida a centenas de milhares de pessoas.

A primeira permite "liquidar sem dó" os francoatiradores, em vez de levá-los a um tribunal de guerra, como até então fora feito. No caso de a identificação dos atacantes inimigos se revelar impossível, devem ser tomadas "medidas de violência coletiva" contra cidades e vilarejos. Uma simples suspeita bastará para que sejam destruídas aldeias inteiras. Inversamente, crimes de guerra alemães serão tratados com benevolência, sem punições. Uma única exceção será feita: nos episódios de estupros e de pilhagens descontroladas.

A outra decisão se volta contra os comissários políticos soviéticos, aqueles funcionários comunistas destacados para acompanhar toda a unidade do Exército Vermelho e controlar seus integrantes. De acordo com as instruções para o ataque à União Soviética, eles não deverão ser tratados como prisioneiros de guerra, mas sumariamente fuzilados.

A ordem também rompe com a tradição de respeito pelo inimigo, que manda tratar prisioneiros com justiça. Alguns generais suspeitam que, difundida no campo de batalha, essa orientação aumentará a resistência de soldados inimigos. Mesmo assim, o corpo de oficiais expressa admiração por Hitler. Um tenente-general diz aos seus comandantes: "Na antiga Alemanha, uma ordem dessas teria sido impossível, porque ninguém teria tido a coragem de emiti-la".

As garras do Chanceler se estendem em direção aos celeiros, campos de petróleo e fundições de armas da União Soviética. Esta guerra deverá permitir à Alemanha criar um império que se estenderá do Atlântico aos Montes Urais e, com isso, garantir-lhe supremacia absoluta no mundo.

Somente uma sombra de dúvida, uma fugaz incerteza, acomete o líder do ataque, antes que soe a hora para o avanço das tropas. Em um círculo íntimo, Hitler admite: "Tenho a sensação de estar escancarando uma porta para um lugar escuro, nunca antes visto, sem saber o que se oculta atrás dele".

NO DIA 22 DE JUNHO DE 1941, às 03h15min, começa a ofensiva. A frente se estende por uma linha de quase 1.000km, do Mar Báltico até os Montes Cárpatos (10 dias depois, tropas romenas e alemãs atacarão a União Soviética partindo da Romênia, e assim ampliarão a frente para 1.500km). Nas florestas da Prússia Oriental e da Polônia, centenas de milhares de soldados se esconderam a apenas poucos quilômetros das tropas fronteiriças soviéticas, o plano prevê um ataque surpresa e os guardas da fronteira de fato não desconfiam de nada.


A Wehrmacht quer decidir sua "campanha militar russa" rapidamente, com 3.600 tanques. Mas em muitos lugares o avanço ocorre em estradas de chão batido. A areia penetra nos motores e resulta em mais avarias que acertos contra o adversário. Além disso, faltam mapas; as tropas avançadas são obrigadas a pedir orientações a camponeses, como na foto à direita, parte de um conjunto de coleções particulares descobertas várias décadas após o fim da guerra

Poucas horas antes de o avanço ter início, os alemães retiram a camuflagem de seus veículos, arrastam canhões para fora de seus esconderijos e os posicionam para funcionar. E então, bem mais de 3 milhões de soldados da Wehrmacht cruzam a fronteira, acompanhados por 3.600 Panzers (blindados), 2.700 aviões e mais de 750.000 cavalos atrelados a canhões, veículos de abastecimento e ambulâncias. A maior força militar de ataque que jamais existiu.


ELA ESTÁ ORGANIZADA em três grandes exércitos: o Exército Norte deve atravessar a região do Báltico e avançar sobre Leningrado; o Exército Sul tem por função ocupar a Ucrânia; e o Exército do Meio está encarregado de tomar as cidades de Minsk e Smolensk, para em seguida conquistar Moscou.

Essas três formações estão compostas por 153 Divisões; unidades tão numerosas quanto pequenas cidades, ramificados em uma malha de regimentos, batalhões e companhias, cada qual com seus próprios cavalariços, padeiros, açougueiros e um serviço de correio de campanha.


A 4ª DIVISÃO DE PANZERS de Fritz Farnbacher luta como parte do Exército do Meio; sua tarefa é altamente arriscada. Com seus tanques eles devem romper o mais rápido possível a frente do Exército Vermelho, para cercar o inimigo.

A velocidade é decisiva, insistem seus comandantes incessantemente. Até o final de setembro essa campanha militar tem de ser vencida; para evitar que ela se estenda pelo período das chuvas, que enlameiam as estradas russas durante semanas a fio.

"Não existem paradas; pausas, só para reabastecer", escreve Farnbacher em seu diário. "As refeições são feitas durante a viagem, ou durante os breves intervalos de abastecimento. Só existe uma meta, um destino: Moscou!".

Mil e quarenta quilômetros os separam da capital soviética. Mas 3 semanas depois, serão somente 350km. Já nas primeiras horas do confronto a Wehrmacht conquista quase todas as posições soviéticas nas regiões de fronteira, onde estão estacionados quase 3 milhões de soldados do Exército Vermelho, além de mais de 10.000 tanques e 8.000 aviões de guerra. Mas ninguém alertou as tropas; para elas, o ataque é uma surpresa total, o ditador soviético Josef Stalin havia proibido seus generais de preparar uma defesa eficaz. Ele ignorara os inúmeros indícios de uma movimentação de tropas alemãs, e a possibilidade de um ataque iminente, tomando-os como uma campanha intencional de desinformação.

A metrópole de Brest-Litovsk, localizada diretamente atrás da fronteira soviética, é conquistada em poucos dias. Aqui são principalmente crianças, mães e avós que se rendem às tropas


As fotos coloridas apresentadas nessas páginas foram consideradas perdidas durante muito tempo. Elas se originam dos pertences de três soldados, e documentam o cotidiano da guerra atrás do front

Em visita aos territórios conquistados, o chefe da polícia alemã Heinrich Himmler encontra camponesas locais. Como comandante da SS (sigla de Schutzstaffel, algo como 'Tropa de Proteção') e chefe da polícia, ele é uma das lideranças da guerra contra a guerrilha. É ele também quem se encarrega da germanização dos territórios ocupados, faxina étnica que objetiva o extermínio e a expulsão da população nativa, particularmente dos judeus

Além disso, o Exército Vermelho está muito mal equipado; às vezes, 5 soldados compartilham o mesmo fuzil. Em outras unidades há tão poucas pás que os homens usam seus capacetes de aço para cavar trincheiras.

Seus superiores são também inexperientes. No final da década de 1930, Stalin havia mandado prender ou fuzilar mais de 80% dos oficiais mais graduados como supostos "delatores e inimigos do Estado". Três quartos dos atuais comandantes não estão nem há um ano em seus respectivos cargos.

Acompanhados em terra pelos corpos blindados e pela Infantaria, os bombardeiros Stuka (derivado da palavra alemã Sturzkampfbomber, avião bombardeiro de mergulho) também penetram profundamente em território soviético, realizando ataques a aeroportos, depósitos do exército e entroncamentos ferroviários. Somente nas primeiras horas, bombas alemãs destroem mais de 60 pistas de pouso da Força Aérea soviética. Milhares de aviões explodem em chamas ainda no solo.

As tropas da Wehrmacht são seguidas por quatro grupos de "comandos de operações", cada qual com até 1.000 homens, que vasculham os territórios já conquistados. Esses grupos são constituídos principalmente por unidades da Polícia e membros dos serviços de segurança. Todos estão subordinados à SS, Schutzstaffel (tropa de proteção, em português), a temida organização paramilitar do Partido Nazista de Adolf Hitler. Sua tarefa: "liquidar elementos hostis". Uma terminologia que quer dizer: o assassinato sistemático dos funcionários comunistas e da população judaica.


LABAREDAS ARDEM na noite do dia 27 de junho de 1941 na sinagoga de Bialystok, cidade na Polônia ocupada pelos soviéticos, 300km a oeste de Minsk. Pouco antes, homens do 309º Batalhão da Polícia, que entrara em Bialystok juntamente com uma Divisão de Segurança, haviam trancafiado centenas de judeus no edifício e ateado fogo nele. Em pouco tempo as chamas saltaram para as casas vizinhas na praça do mercado. Mais homens, mulheres e crianças morrem calcinados, sufocam na fumaça ou são mortos a tiros pela polícia durante a fuga. Ao todo, mais de 2.000 pessoas perdem a vida.

No dia seguinte, o tenente-general Johann Pflugbeil, 58 anos, um veterano da 1ª Guerra, originário da Saxônia, elogia todos os participantes do ataque à sinagoga por seu empenho. No diário de guerra, ele justifica a ação alegando que francoatiradores soviéticos tinham se escondido no prédio. Isso é mentira, mas depois do decreto referente a julgamentos criminais de guerra aplicável à campanha na União Soviética, seus homens estão isentos de punições.

A tarefa das divisões de segurança não são os combates no front. Em vez disso, eles devem proteger pontos de apoio de abastecimento, aeroportos e pistas de pouso no interior do país, além de vigiar prisioneiros de guerra e combater os partisans, guerrilheiros do movimento de resistência aos alemães. A maioria dos homens da 221a Divisão de Segurança de Pflugbeil têm mais de 35 anos, e, com essa idade, já não servem mais para o esforço na frente de batalha. A alguns deles foi dito, ainda em casa, que eles estavam sendo convocados "apenas para tarefas de vigilância".

Após a conquista de cidades e vilarejos pela Wehrmacht, os homens de Pflugbeil obrigam os habitantes judeus a usar retalhos amarelos de identificação em suas roupas. Eles os detêm em campos, organizam contingentes de trabalhos forçados ou, simplesmente, os fuzilam como pretensos guerrilheiros (partisans).

A ESTRATÉGIA DOS ataques surpresa na frente Ocidental parece funcionar: no fim de junho, o Exército Central cerca 20 divisões do inimigo. Até o dia 9 de julho as tropas alemãs fazem 325.000 prisioneiros de guerra, e capturam, ou destroem, 3.300 tanques. Em rápidas duas semanas, a liderança alemã já se vê bem próxima da vitória.

No dia 3 de julho, Stalin, que até então havia silenciado, conclama seus cidadãos através de um discurso pelo rádio, para "a grande guerra em defesa da Pátria". Em toda parte, seu povo deve se sublevar, inclusive atrás das linhas alemãs, em uma guerrilha, uma luta de partisans. Os alemães entendem a parte da mensagem dirigida a eles: os cidadãos soviéticos defenderão sua terra natal com todos os meios possíveis, nessas condições, os agressores não podem contar com o respeito aos direitos dos povos. Hitler não se importa: "A guerra de guerrilha", explica ele em uma reunião, "nos oferece a possibilidade de exterminar tudo o que se opuser a nós".
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 Revista GEO

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Notícias História Viva


Primeiro grande levante na extinta Alemanha Oriental faz 60 anos
 DEUTSCHE WELLE

Um milhão de pessoas participaram do levante popular na então Alemanha comunista pela liberdade, democracia e a unidade dos Estados alemães. O protesto foi reprimido violentamente pela polícia e por tanques soviéticos.
No dia 17 de junho de 1953, quatro anos após sua criação, a República Democrática Alemã estava à beira do colapso. O florescimento econômico da Alemanha Ocidental e a insatisfação com os rumos políticos na Alemanha Oriental levaram muitos a voltarem as costas à República Democrática Alemã (RDA), de regime comunista.
A coletivização da agricultura, o desenvolvimento acelerado da indústria pesada e o pagamento de reparações de guerra debilitaram o desempenho econômico alemão-oriental. A política do Partido Socialista Unitário (SED) e seu socialismo planejado levaram a RDA a uma profunda crise em fins de 1952.
Neste ano, 180 mil pessoas haviam deixado o país. No primeiro semestre de 1953, foram 226 mil.
Oito anos após o fim da Segunda Guerra, a RDA não conseguia garantir alimentos básicos à população. No início de 1953, centenas de produtores rurais tiveram suas terras desapropriadas, assim como hotéis e pousadas.
Em abril de 1953, vários alimentos tiveram seus preços aumentados. O apogeu aconteceu em maio de 1953, com a imposição ao trabalhador de produzir 10% a mais na mesma carga horária, sem aumento salarial.
GOVERNO FAZ CONCESSÕES, MAS NÃO AUMENTA SALÁRIOS
Para atrair de volta os agricultores, comerciantes e trabalhadores que haviam emigrado para a Alemanha Ocidental, o governo socialista acenou com a possibilidade de devolução das propriedades.
A Justiça, cujas sentenças arbitrárias haviam levado à duplicação da população carcerária no período de um ano, seria encarregada de revisar suas decisões. Até mesmo com a Igreja os responsáveis pelo governo pretendiam entrar em acordo. Só o aumento salarial continuou tabu, o que foi interpretado como provocação pelos trabalhadores.
A grande onda de protestos deslanchou quando milhares de trabalhadores da construção civil se rebelaram contra reduções de fato no salário, com uma longa passeata pelas ruas de Berlim Oriental no dia 16 de junho.
Diante da sede do governo, mais de dez mil pessoas reivindicavam o fim do acirramento das normas de trabalho, convocando para o dia seguinte uma greve e uma assembleia-geral dos trabalhadores. Nessa tarde, a manifestação ainda se dispersou pacificamente.
Mas no dia seguinte, mais de um milhão de pessoas participaram de manifestações e greves em 700 cidades da RDA. Ao lado de passeatas pacíficas, ocorreram ataques a escritórios do partido e a casas de detenção para libertar prisioneiros.
A rebelião por melhores salários transformou-se rapidamente num levante pela liberdade, democracia e a unidade da Alemanha. Em faixas, os trabalhadores reivindicavam, além de melhores condições de vida, a renúncia do governo da RDA, eleições livres e a reunificação do país.
REPRESSÃO VIOLENTA
Em Berlim Oriental, o centro das turbulências, a situação se intensificou. Os governantes da RDA solicitaram auxílio aos soldados soviéticos estacionados no país. Durante muito tempo, não se soube ao certo qual tinha sido o papel do governo na repressão da revolta.
As imagens da luta desigual correram o mundo: manifestantes armados só com pedras tentaram deter os tanques soviéticos que avançavam pelas ruas de Berlim.
Documentos que se tornaram acessíveis mais tarde esclarecem que Otto Grotewohl (primeiro-ministro da RDA) e Walter Ulbricht (secretário-geral do SED) pediram expressamente aos soviéticos, na madrugada do 17 de junho, o envio de tropas à capital.
ESTADO DE EXCEÇÃO
No começo da tarde de 17 de junho, a tropa russa entrou em ação com centenas de tanques que ocupavam lugares estratégicos. A fronteira para Berlim Ocidental foi fechada. A partir das 13h foi declarado o estado de exceção.
Soldados podiam atirar para matar e os soldados aliados, na outra Berlim, não se intrometeram, com receio de iniciarem uma terceira guerra mundial. Em alguns pontos da cidade, chegaram a atirar contra os trabalhadores, fazendo a multidão correr em pânico.
Nesta tarde morreram 14 pessoas, conta Klaus Gronau, que na época tinha 16 anos. "'Não precisamos de um Exército popular, precisamos de manteiga - era o que gritávamos'", relata.
Em represália por ter participado dos protestos, ele foi transferido para o almoxarifado no local onde fazia o curso profissionalizante, para não poder falar com os clientes. Em 1957, quatro anos antes da construção do Muro, Klaus e sua família conseguiram fugir para Berlim Ocidental.
Nos dias que se seguiram, cerca de dez mil manifestantes e membros do comitê de greve foram presos. Em julgamento sumário, em 18 de junho de 1953 o operário Willy Götting foi condenado à morte por participação na revolta e imediatamente executado. Ao todo, foram detidas 7663 pessoas, das quais 1526 foram condenadas à prisão.
Alguns dias mais tarde, o Comitê Central do SED admitiu erros e decidiu cancelar o aumento de preços de alimentos e da carga de trabalho, aumentar as aposentadorias mínimas, bem como disponibilizar mais bens de consumo.
Folha de S. Paulo

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Arquivos secretos revelam história alemã


Após a queda do muro de Berlim, a responsável pelos documentos do governo fala dos bastidores de tortura e medo que rondavam o país

Carina Rabelo


Defensora do lema "memórias reveladas para que não se esqueça e nunca mais aconteça", para a ex-ministra alemã Marianne Birthler, 61 anos, sociedade evoluída é aquela que conhece sua história. É no espírito de reconstrução da própria identidade que a Alemanha comemora, no dia 9, 20 anos da queda do muro de Berlim. A reunificação garantiu ao povo alemão o acesso irrestrito aos arquivos secretos da República Democrática Alemã (RDA), a antiga Alemanha Oriental. Os documentos mostram bastidores das operações da Stasi, a temida polícia secreta que espionava, prendia e torturava cidadãos. Em 1991, as violações foram reveladas em 140 quilômetros de papel, 1,3 milhões de fotos e cinco mil filmes e vídeos, 164 mil cassetes e 20 mil disquetes e fitas de áudio.
Nos anos 80, Marianne, que vivia no lado Oriental, se engajou nos grupos de oposição, foi investigada e viu muitos amigos sofrerem perseguições políticas e chantagens da polícia secreta. Considerada referência na defesa do acesso às informações, em 2000 ela assumiu a chefia do departamento dos arquivos da polícia secreta. Atualmente, ocupa cargos no Comitê Alemão do Unicef, no conselho da Transparência Internacional - coalizão global contra a corrupção - e na Grünen Akademie, rede acadêmica ligada ao Partido Verde.


Quando os arquivos da Stasi foram abertos, muitas pessoas ficaram sabendo que o parceiro, o vizinho ou um amigo era espião. Como tem sido a receptividade dos alemães a esses documentos?


MARIANNE BIRTHLER - A aceitação é grande. Não devemos esquecer que os cidadãos da antiga República Democrática Alemã (RDA) conquistaram o direito ao exame dos arquivos depois de terem ocupado entre 1989 e 1990 os escritórios do Ministério de Segurança do Estado. E, até hoje, aproximadamente 1,7 milhão de pessoas apresentaram requerimentos para exame dos documentos, além dos meios de comunicação. Reportagens sobre colaboradores extraoficiais ou os procedimentos do Ministério de Segurança do Estado mostraram às camadas mais amplas da população - também na Alemanha Ocidental - quão pérfidos foram os métodos da Stasi.


Muitas também descobriram que foram vigiadas.

MARIANNE - É óbvio que ler isso nos documentos referentes à própria pessoa também é penoso, mas é, sobretudo, uma oportunidade para recuperar o controle da própria biografia. O ministério muitas vezes interveio na vida dos cidadãos, sem que eles pudessem provar isso. Você não podia frequentar a universidade, não podia trabalhar na sua profissão, não ganhava a residência já prometida. Seus amigos de repente se afastavam, e tudo isso era manipulado pela Stasi.

Há uma equipe que trabalha na colagem dos pedaços de papel dos documentos destruídos após a queda do muro. Quantos se perderam?


MARIANNE - É muito difícil dizer quantos documentos o Ministério de Segurança do Estado conseguiu destruir. Restaram-nos documentos que equivalem a 160 km de papel, além de fitas magnéticas e fotografias. Na dissolução do ministério encontramos mais de 15 mil sacos com documentos rasgados. Esse é o material que os oficiais da Stasi queriam fazer desaparecer completamente. Já conseguimos recompor o conteúdo de 400 sacos e estamos nesse momento desenvolvendo um processo de reconstrução computadorizada. Em Leipzig, por exemplo, os colaboradores da Stasi tinham despedaçado os documentos com uma máquina gigantesca e misturado os fragmentos com água, até formar uma pasta.

Além disso, em 1990 foi destruído, com a concordância dos dirigentes políticos, quase todo o acervo do Departamento de Espionagem no Exterior da Stasi.

O filme "A Vida dos Outros" (2006) mostra como um policial protegeu um investigado por consciência. Há algum paralelo com a realidade?


MARIANNE - O enredo do filme é um conto de fadas. Não temos notícia de oficiais da Stasi que protegeram pessoas espionadas. Isso nem teria sido possível, pois os colaboradores da Stasi também eram supervisionados. Na rotina da Stasi, todas as atividades descritas no filme eram separadas e executadas por colaboradores distintos, que nada sabiam um do outro e, muitas vezes, nem conheciam a finalidade da sua tarefa.

O objetivo era impedir que uma pessoa soubesse demais ou pudesse pôr algo em movimento.


Que tipos de tortura eram praticados pela Stasi?


MARIANNE - Nos anos 50, algumas vítimas relataram que encheram o chão da sua cela com água para que elas não pudessem sentar ou dormir. Era uma forma de provocar a exaustão. Em anos posteriores recorria-se, principalmente à violência psíquica. Assim, os acusados eram pressionados sistematicamente, mediante a ameaça da imposição de penas severas, da prisão arbitrária de pessoas próximas ou da adoção forçada dos filhos. Muitas vezes, a privação do sono era obtida também por meio de interrogatórios noturnos e ininterruptos. Na maioria dos casos, a insônia já resultava das pressões advindas do isolamento na prisão e da incerteza total acerca do destino dos presos. Além disso, as lâmpadas sempre permaneciam ligadas nas celas durante a noite.

Eram muito frequentes?


MARIANNE - As torturas físicas passaram a ocorrer com frequência cada vez menor, à medida que a RDA empenhava- se em ser reconhecida no plano internacional e temia revelações sobre a forma como tratava os presos, sobretudo após a adoção da prática da libertação dos detentos e sua expulsão do país em troca de grandes quantias de dinheiro. Por isso, desde os anos 60, a violência era psíquica, sob a forma da humilhação e da tutela. Até hoje, muitos dos aproximadamente 250 mil presos políticos sofrem as consequências traumáticas das condições desumanas nas prisões.

Como ocorria a venda de pessoas do lado oriental para o ocidental?


MARIANNE - Nessas iniciativas de venda de presos a Stasi atuava em segredo. As negociações eram realizadas com a ajuda de advogados de ambos os lados. Na RDA, a cúpula do Estado influía consideravelmente. No Ocidente, essas transações eram dirigidas por órgãos governamentais. Vendiam-se, sobretudo, presos políticos. Para a RDA, esse comércio era um bom negócio: no total ela recebeu aproximadamente 1,8 bilhão de euros.

Os investigados podem obter informações sobre os torturadores e investigadores, como nome verdadeiro e endereço?


MARIANNE - Os investigados têm livre acesso às suas fichas. Isso também significa que eles podem ler nelas os nomes dos oficiais da Stasi mencionados nos documentos. Muitas vítimas procuraram entrar em contato com os autores, seus investigadores e outras pessoas. Na maioria dos casos, essas tentativas fracassaram diante da falta de disposição dos autores de se expor a tais situações.

Havia núcleos neonazistas investigados pela polícia secreta?


MARIANNE - Sim, como o caso da Divisão SS Walter Krüger, em Wolgast. Foram presos nove jovens adultos, em 1989. Grupos neonazistas na Alemanha Ocidental, como o Grupo de Esporte Defensivo Hoffmann, também eram objetos interessantes para a Stasi. Mais frequente, contudo, era a perseguição de pessoas sob o pretexto de atitudes fascistas, quando elas, na verdade, representavam apenas um estorvo para a política oficial.

A sra. chegou a ser investigada pela polícia secreta?

MARIANNE - Vivi na RDA e trabalhei, primeiro, no comércio exterior. Depois, frequentei um curso pedagógico na igreja evangélica e atuei durante muitos anos com crianças e adolescentes, uma área na qual podíamos trabalhar em relativa liberdade, embora sob fiscalização da Stasi. Em meados dos anos 80 engajei-me cada vez mais na política, na oposição. Muitos amigos, que também atuavam no movimento de base, sofriam perseguição política e eram observados. Sabíamos disso. Mas só após a queda do muro viemos a conhecer as verdadeiras dimensões da observação.

Pelos diversos casos de espionagem e traição, é de se imaginar que havia um clima de desconfiança permanente. Os resquícios desta desconfiança ainda se mantêm entre os alemães?


MARIANNE - A desconfiança é um fenômeno secundário de cada ditadura. Em quem ainda posso confiar? Eis a pergunta. Sabíamos, porém, que a Stasi queria produzir exatamente esse efeito de insegurança e tentamos nos libertar dele. A abertura dos arquivos trouxe à luz muitos casos de traição, mas eles não envenenaram a sociedade, em que pesem as suas consequências dramáticas nos casos individuais. Muito pelo contrário, existe até hoje uma discussão social importante, também muito atual depois das eleições para os parlamentos estaduais, sobre como lidar com ex-informantes e colaboradores de dedicação exclusiva. Vamos aceitar que antigos colaboradores do Ministério de Segurança do Estado ou antigos dirigentes do partido atuem na política, se tornem chefes de partidos políticos e mesmos secretários de Estado? Será que eles podem trabalhar em altos cargos no serviço policial? Essa discussão somente é possível porque os arquivos estão abertos e porque existe o direito à fiscalização. A verdade nos ajuda a reduzir a desconfiança. Mas nem sempre é fácil e confortável conviver com ela.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Durante 40 anos, Alemanha fez parte de bloco liderado pela ex-URSS

IAGO BOLÍVAR

Durante as quatro décadas em que ficou separada da Alemanha Ocidental, a República Popular da Alemanha foi integrada a um bloco econômico, militar e ideológico comandado pela ex-União Soviética, como parte do núcleo que ficou conhecido como "segundo mundo", representado pelas nações comunistas desenvolvidas.

As fronteiras do bloco foram oficializadas durante as conferências organizadas pelos aliados --entre elas as de Ialta e Teerã e Potsdam-- nos anos finais da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e logo depois do conflito, mas a definição delas só foi feita de fato no campo de batalha.

Yevgeny Khaldei - 1945/AP/ITAR-TASS

Soldado ergue bandeira soviética em Berlim após a derrota nazista

A extensão do domínio comunista no Leste Europeu correspondeu ao avanço do Exército Vermelho contra os nazistas, que os levou a capturar Berlim em 1944, marcando o fim de seis anos de conflito na Europa.

Entre os países que ficaram sob a "esfera soviética", na linguagem diplomática, estavam a Tchecoslováquia --que havia sido invadida pela Alemanha nazista-- aliados de Hitler (Hungria, Romênia e Bulgária) e a Polônia, cuja parte oriental a própria ex-União Soviética havia invadido no final dos anos 30, de acordo com um pacto de partilha assinado com Hitler. O acordo foi quebrado em 1941, quando a Alemanha lançou a Operação Barbarossa, de invasão dos domínios e do território soviético.

Sobre as repúblicas bálticas (Estônia, Letônia e Lituânia), vistas como historicamente pertencentes à Rússia, o domínio soviético acabou sendo total --foram absorvidas na URSS. Nos demais países, a estratégia foi transformá-los em Estados-satélites.

O processo seguiu linhas gerais semelhantes. Primeiramente, formou-se uma aliança de partidos socialistas, comunistas e "antifascistas" para teoricamente disputar eleições livres. Depois, com diferença de ordem de país para país, foram dados os passos seguintes: as forças vistas como burguesas foram perseguidas; as eleições moldadas no estilo soviético de votação; o próprio partido comunista sofreu expurgos para alijar possíveis lideranças nacionais ou muito independentes e os governos eleitos colocaram em prática o modelo soviético de estatização dos meios de produção.


Arte/Folha Online


Colaboração

O resultado foi que, quatro anos após o fim da Segunda Guerra, havia um cinturão de "repúblicas populares" obedientes a Moscou entre a União Soviética e a Europa ocidental. Tentativas de caminho independente foram suprimidas.

A Tchecoslováquia, que manteve parte da estrutura anterior do Estado, com um Parlamento, cogitou receber ajuda americana do Plano Marshall [plano econômico de recuperação da Europa], mas foi dissuadida por forte pressão soviética. O mesmo acabou acontecendo com a Polônia, a quem foi fornecido um empréstimo de Moscou.

Formalmente independentes, os países continuavam com tropas do Exército Vermelho em seus territórios e foram enquadrados em organizações que eram espelhos das novas instituições do oeste do continente. À Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) opunha-se o Pacto de Varsóvia; à Organização de Cooperação e de Desenvolvimento Econômico (OCDE), correspondia o Conselho para Assistência Econômica Mútua, (Comecon), que a partir do final dos anos 50 passou a ser visto como a alternativa à Comunidade Econômica Europeia, antecessora da União Europeia.

Fora do financiamento americano para a recuperação econômica do pós-guerra, os países desenvolveram estratégias de colaboração técnica e trocas comerciais entre eles, dificultadas pela falta de uma moeda conversível como a adotada no oeste.

Apesar da supremacia soviética, as tentativas de fazer com que a planificação das economias nacionais passasse a ser coordenada acabaram sendo em grande parte infrutíferas, assim como os ensaios de divisão de tarefas econômicas --a Romênia, por exemplo, se opôs a ser relegada apenas ao papel de fornecedor de produtos agrícolas, sem industrialização.

Um dos elementos-chave para o desenvolvimento do bloco nos anos iniciais foi a virtual quebra de patentes da desenvolvida economia alemã, o que permitiu um avanço significativo nas indústrias da região. O preço a pagar foi o desestímulo à inovação tecnológica, o engessamento em uma economia de escala reprodutora que, mesmo com mudanças legais nos anos 70, acabaram levando a um fosso tecnológico nos bens de consumo TVs, carros, eletrodomésticos-- em relação ao ocidente.

Tecnologia

Na outro extremo, a ex-União Soviética conseguiu manter uma tecnologia avançada em setores de ponta, como armas nucleares, mísseis balísticos e na área aeroespacial, da qual os maiores símbolos foram o lançamento do primeiro satélite artificial, o Sputnik em 1957, e a primeira viagem do homem ao espaço, Yuri Gagarin, em 1961, eventos que desencadearam a reação americana de levar o homem à Lua, em 1969.


Libor Hajsky -21.ago.1968/AP-CTK

Manifestantes atacam tanque durante invasão de Praga para reprimir reformas

Mas, no solo, o descontentamento crescia com a supressão das liberdades "burguesas" de livre expressão, religião e livre empresa, apesar de uma elevação geral do nível de vida quando comparada ao período das guerras mundiais e mesmo ao anterior, embora os governos ocidentais também fizessem grandes avanços na área social, classificados pelos soviéticos de concessões pífias e tentativas vãs de conter a luta de classes.

O levante popular na Hungria em 1956 contra o governo stalinista do país foi contido por tanques soviéticos, e em 1968 uma força conjunta de cinco países do Pacto de Varsóvia invadiu a Tchecoslováquia para encerrar com a política de liberalização do líder tcheco Alexander Dubcek.

A falta de colaboração ativa dos EUA e da Europa ocidental em apoio às tentativas de abertura mostraram claramente que, na Europa, os limites da Cortina de Ferro seriam respeitados e que cabia à ex-União Soviética decidir o futuro de cada um dos países da região.

Resistência

Apesar da posição ocidental, a leste da fronteira entre as duas Europas nem todos os países comunistas se submeteram ao domínio soviético. A primeira resistência importante e com consequências duradouras foi a atitude de independência do general Josip Broz Tito em relação ao ditador soviético Joseph Stálin, que levou à expulsão da Iugoslávia do Cominform, a aliança de partidos comunistas.

Tito havia liderado a resistência aos nazistas nos Bálcãs e não se via como um devedor em relação à ex-União soviética, mas como um líder em igualdade de condições com Stálin, uma situação única no bloco.


Koca Sulejmanovic - 26.dez.2006/Efe

Visitante observa os retratos de Tito (à esq.) e Stálin, expostos em Belgrado em 2006; os dois líderes comunistas romperam em 1948


No outro extremo ideológico, --dentro da limitada gama da época e região-- a Albânia, pequeno país agrícola cuja integração com a Bulgária foi inutilmente defendida por Tito, em desafio à União Soviética, acabou se isolando cada vez mais com o passar dos anos pelo inflexível stalinismo de seu ditador, Even Hoxa. Após a morte de Stálin, em 1953, ele se opôs às críticas feitas ao ex-ditador soviético pelo novo líder da URSS, Nikita Kruschev, que empreendeu uma campanha de denúncias dos massacres e expurgos ordenados pelo antecessor.

Hoxa voltou-se então para Mao Tse Tung. A China comunista se tornou o principal parceiro comercial e fonte de financiamento e ajuda técnica da Albânia, mas a aproximação chinesa com os EUA no governo do presidente americano Richard Nixon deterioraram os laços, e Hoxa rompeu definitivamente as relações com a China em 1978, denunciando o "revisionismo chinês" e proclamando a Albânia o único Estado comunista do mundo. O gesto garantiu a simpatia de militantes comunistas em vários países, mas aprofundou o isolamento da Albânia.

Decadência

A crescente falta de dinamismo econômico do bloco soviético nos anos 60 foi em parte compensada por um boom no início da década seguinte, devido ao fornecimento de petróleo e gás russos de jazidas cuja exploração foi em grande parte financiada pelos estados-satélites. O crescimento foi ainda mais significativo porque coincidiu com estímulos dados pelo próprio ocidente na política de "détente", uma tentativa de diminuir as tensões com o bloco comunista por meio de concessão de crédito e de licenças tecnológicas.

Em contraste, a década de 70 foi marcada pela crise do petróleo, que minou as economias ocidentais, o que, em comparação aumentou a visibilidade do sucesso econômico do leste. O fim da détente, em meio ao crescimento das tensões, problemas de pagamento dos créditos e uma crescente ineficiência da máquina burocrática planificada fizeram com que o bloco entrasse em um processo de crescente estagnação, que perdurou do fim da década de 70 até a implosão do sistema comunista de molde soviético na região após as políticas de abertura de Gorbatchov, nos anos 80.


Marek Zarzecki/REUTERS/Kfp

Sindicalista polonês Lech Walesa é levado por grevistas em 1980; em meio a crise econômica, ele fundou sindicato não comunista

A segunda metade da década de 80 foi cheia de presságios do fim do "segundo mundo". O crescimento do sindicato Solidariedade, na Polônia, o visível enfraquecimento soviético durante a invasão do Afeganistão e o sucesso em imagem, mas fracasso em resultados econômicos, das políticas de abertura de Gorbatchov encorajaram manifestações de descontentamento interno e impulsionaram o apoio cada vez mais ativo do Ocidente a grupos locais descontentes.

Colapso

Em 25 de Outubro de 1989, o porta-voz da Chancelaria russa forneceu a senha para o colapso do bloco. Em entrevista ao programa da TV americana "Good Morning America", Gennadi Gerasimov tentou resumir um discurso do ministro das Relações Exteriores soviético, Eduard Shevardnadze, que falara que os soviéticos reconheciam a liberdade de escolha de todos os países, incluindo os membros do Pacto de Varsóvia.

"Nós temos agora a doutrina de Frank Sinatra. Ele tem uma música, "I Did It My Way" [Eu fiz do meu jeito, trecho da música "My Way"]. Assim, cada país decide sobre o seu próprio caminho a tomar". Questionado sobre se isso incluía a possibilidade do fim do domínio dos partidos comunistas nas "repúblicas populares", ele disse: "Com certeza [...] estruturas políticas devem ser decidido pelo povo que vive lá".

O fim da ameaça explícita de uma retaliação do Exército Vermelho encorajou os insatisfeitos e aqueles que já estavam em ação contra os regimes locais.

A Hungria, que passara por uma reforma liberalizante, já havia aberto a fronteira com a Áustria nos meses anteriores, permitindo a fuga de milhares de seus cidadãos e de alemães. Quinze dias depois da declaração do porta-voz soviético, simbolicamente usando uma canção americana em uma TV americana, os alemães escolheram o próprio jeito de reabrir o caminho fechado por um muro desde 1961 entre Berlim ocidental e Berlim oriental.

A partir de então, as repúblicas populares enfrentaram revoluções em grande parte pacíficas, e o segundo mundo deixou de existir, com seus países tentando integrar-se ao sistema econômico e político dos vizinhos vistos como inimigos durante meio século.

Folha de São Paulo

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Espiões da Alemanha Ocidental colecionavam piadas dos alemães orientais


Hans-Ulrich Stoldt e Klaus Wiegrefe
Os alemães orientais vieram dos macacos? Impossível. Os macacos jamais teriam conseguido sobreviver com apenas duas bananas por ano. Piadas como esta eram sussurradas na Alemanha Oriental comunista - e espiões da Alemanha Ocidental as registravam diligentemente para entender como estava o estado de espírito da população, de acordo com arquivos de inteligência divulgados recentemente.

"O que aconteceria se o deserto se tornasse comunista? Durante algum tempo, nada, e depois haveria uma escassez de areia." Piadas assim circulavam entre os alemães orientais durante a era comunista, e o serviço de inteligência da Alemanha Ocidental as colecionava, não só para compreender o estado de espírito do povo do outro lado da Cortina de Ferro, mas também para entreter seus chefes em Bonn, capital da Alemanha Ocidental.

Eis uma outra: "Por que a Alemanha Ocidental tem um padrão de vida melhor do que nós? Por que os comunistas não conseguem vistos de trabalho lá". O onipresente Trabant, ou Trabi, o lendário carro com carroceria de plástico da Alemanha Oriental, com seu barulhento motor de dois tempos, também era um dos alvos favoritos das piadas. Como esta: "Será lançado um novo Trabi com dois escapamentos - assim você poderá usá-lo como um carrinho de mão".

As piadas eram recolhidas de cartas secretamente violadas e conversas de telefone que os agentes da Bundesnachrichtendienst (BND) da Alemanha Ocidental monitoravam em sua busca por segredos de Estado da Alemanha Oriental durante a Guerra Fria.

Os serviços de inteligência de todo o mundo tendem a valorizar qualquer fragmento de informação que conseguem, e o BND não era diferente. Ele coletava e arquivava meticulosamente as piadas e as enviava para Bonn todos os anos, durante a temporada de carnaval, para o deleite dos funcionários públicos. O BND acaba de divulgar os arquivos que mantinha a respeito do humor da Alemanha Oriental.

Presente de carnaval
O relatório de piadas era de longe o serviço mais popular oferecido pelos espiões. "Era o nosso maior sucesso", lembra-se o ex-espião do BND Dieter Gandersheim, cujo nome verdadeiro é, obviamente, bem diferente. A chancelaria e os ministros mal podiam esperar pelo relatório, disse ele.

Elas não eram apenas algo para animar a cinzenta rotina dos funcionários públicos. As piadas permitiam compreender o que os alemães orientais comuns pensavam sobre o seu regime e sobre os acontecimentos da época. O acidente nuclear de Chernobyl, em 1986, deu origem a um novo provérbio, que dizia: Se o fazendeiro cair de seu trator, ele deve estar perto de um reator.

Chernobyl, a propósito, não foi um acidente, dizia outra piada. Foi apenas um programa soviético para tirar um raio-X da população.

Os alemães orientais não relutavam em satirizar secretamente seus líderes políticos, burocratas ou a escassez crônica de produtos que afetava o país, mesmo que isso fosse arriscado para eles.

"As piadas políticas proliferam nas ditaduras", diz Christoph Kleeman, ex-funcionário da Birthler Authority, que foi criada depois da unificação da Alemanha para administrar os arquivos da polícia secreta da Alemanha Oriental, ou Stasi. "Qualquer um que conte uma piada assim, ou dê risada dela, cria a democracia durante um breve momento e coloca os líderes do regime no mesmo nível das pessoas comuns."

Brincando com fogo
O Natal foi cancelado, diz outra piada. Maria não encontrou nenhuma fralda para o menino Jesus, José foi convocado para o Exército e os três reis magos não conseguiram permissão para viajar.

Os relatórios de piadas do BND eram com frequência precedidos por uma análise da situação política e econômica da República Democrática Alemã. No começo dos anos 80, quando o governo polonês impôs a lei marcial em resposta às greves contra os aumentos de preços dos alimentos e a favor da reforma política, o BND informou que alguns trabalhadores da Alemanha Oriental também haviam parado de trabalhar, e ofereceu a seguinte análise: "A liderança da RDA acredita que a população é resiliente e está pronta para fazer sacrifícios, mas está preparada para uma ação dura se for necessário para evitar as 'condições polonesas'". O relatório acrescentava um capítulo com "piadas políticas sobre a situação do fornecimento". Como esta: "Por que não existem mais broches na Alemanha Oriental? Porque eles são vendidos na Polônia como espetos de churrasco."

"Contar piadas era como brincar com fogo", diz Kleeman. A Stasi tinha 91 mil empregados e uma rede de cerca de 189 mil informantes civis para espionar a população de 17 milhões de pessoas da Alemanha Oriental. Eles viam qualquer piada política como uma ameaça em potencial. Qualquer um que fizesse graça com os representantes dos órgãos do Estado e da sociedade estava sujeito a ser processado.

"Houve casos de pessoas que foram presas, foi pior durante os anos 50 e 60", diz Kleemann.

Eis um exemplo de como era arriscado ser engraçadinho: "Há pessoas que contam piadas. Há pessoas que colecionam piadas e contam piadas. E há pessoas que colecionam pessoas que contam piadas."

Tradução: Eloise De Vylder

Der Spiegel