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segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Das línguas africanas ao português brasileiro


Yeda Pessoa de Castro

Do século XVI ao século XIX, o tráfico transatlântico trouxe para o Brasil 4 a 5 milhões de falantes africanos extraídos de duas regiões subsaarianas : a região banto, situada ao longo da extensão sul da linha do equador, e a região oeste-africana ou sudanesa, que abrange territórios que vão do Senegal à Nigéria.
A região banto compreende um grupo de 500 línguas muito semelhantes, que são faladas na África sub-equatorial. Entre elas, as de maior número de falantes no Brasil foram três línguas angolanas: quicongo, também falada no Congo, quimbundo e umbundo. Das línguas oeste-africanas ou sudanesas, seus principais representantes no Brasil foram os povos do grupo ewe-fon provenientes de Gana, Togo e Benim, apelidados pelo tráfico de minas ou jejes, e os iorubás da Nigéria e do Reino de Queto (Ketu), estes últimos na vizinha República do Benim, onde são chamados de nagôs.

No entanto, apesar dessa notável diversidade de línguas, todas elas têm uma origem comum. Pertencem a uma só grande família lingüística Níger-Congo (Greenberg 1966). Logo, são todas línguas aparentadas.

Fatos relevantes

Explicar a participação de línguas africanas na construção da língua portuguesa no Brasil é ter em conta a atuação do negro-africano como personagem falante no desenrolar dos acontecimentos e procurar entender os fatos relevantes de ordem sócio-econômica e de natureza lingüística que favoreceram o avanço consecutivo do componente africano nesse processo.

Inicialmente, o contingente de negros e afro-descendentes era superior ao número de portugueses e outros europeus, durante três séculos consecutivos, num contexto social e territorial cujo isolamento em que foi mantida a colônia pelo monopólio do comércio externo brasileiro feito por Portugal até 1808 condicionou um ambiente de vida de aspecto conservador e de tendência niveladora, mais aberto à aceitação de aportes culturais mútuos e de interesses comuns. Aqui, merecem destaque a atuação socializadora da mulher negra na função de mãe-preta no seio da família colonial, e o processo de socialização lingüística exercido pelos negros ladinos, aqueles que, aprendendo rudimentos de português, podiam falar a um número maior de ouvintes, e influenciá-los, resultando daí por adaptarem uma língua a outra e estimularem a difusão de certos fenômenos lingüísticos entre os não bilíngües.(Ver Pessoa de Castro 1990).

No século XIX, o processo de urbanização que se iniciava no Brasil a partir da instalação da família real portuguesa no Rio de Janeiro e a abertura dos portos em 1808, exigiram a fixação nas cidades da mão-de-obra escrava recém-trazida da África, numa época em que a maioria da população brasileira era constituída de mestiços e crioulos. Esses, já nascidos no Brasil, falando português como primeira língua, por conseguinte, mais desligados de sentimentos nativistas em relação à África e susceptíveis à adoção e aceitação de padrões europeus então vigentes.

Finalmente, com a extinção do tráfico transatlântico para o Brasil em 1856 até a abolição oficial da escravatura no país em 1888, o tráfico interno foi intensificado. Negros escravizados nas plantações do nordeste foram levados para outras nas regiões do sul e sudeste (depois ocupadas por europeus e asiáticos) e, em direção oposta, do centro-oeste para explorar a floresta amazônica onde os povos indígenas são preponderantes. Em conseqüência, portanto, da amplitude geográfica alcançada por essa distribuição humana, o elemento negro foi uma presença constante em todas as regiões do território brasileiro sob regime colonial e escravista.

No entanto, nesse contexto sócio-histórico, cada língua ou grupo de línguas teve sua influência própria.

Os bantos

A influência banto é muito mais profunda em razão da antiguidade do povo banto no Brasil, da densidade demográfica e amplitude geográfica alcançada pela sua distribuição humana em território brasileiro.

A sua presença foi tão marcante no Brasil no século XVII que, em 1697, é publicada, em Lisboa, A arte da língua de Angola, do padre Pedro Dias, a mais antiga gramática de uma língua banto, escrita na Bahia para uso dos jesuítas, com o objetivo de facilitar a doutrinação dos 25.000 negros angolanos, segundo Antônio Vieira, que se encontravam na cidade do Salvador sem falar português (Cf. Silva Neto 1963:82).

Os aportes bantos ou bantuismos, ou seja, palavras africanas que entraram para a língua portuguesa no Brasil, estão associados ao regime da escravidão (senzala, mucama, bangüê, quilombo), enquanto a maioria deles está completamente integrada ao sistema lingüístico do português, formando derivados portugueses a partir de uma mesma raiz banto (esmolambado, dengoso, sambista, xingamento, mangação, molequeira, caçulinha, quilombola), o que já demonstra uma antiguidade maior. Em alguns casos, a palavra banto chega a substituir a palavra de sentido equivalente em português: caçula por benjamim, corcunda por giba, moringa por bilha, molambo por trapo, xingar por insultar, cochilar por dormitar, dendê por óleo-de-palma, bunda por nádegas, marimbondo por vespa, carimbo por sinete, cachaça por aguardente. Alguns já estão documentados na literatura brasileira do século XVII, a exemplo dos que se encontram na poesia satírica de Gregório de Matos e Guerra. (1633-1696).

Os oeste-africanos

Ao encontro dessa gente banto já estabelecida nos núcleos coloniais em desenvolvimento, é registrada a presença de povos ewe-fon, cujo contingente foi aumentado em conseqüência da demanda crescente de mão-de-obra escravizada nas minas de ouro e diamantes, então descobertas em Minas Gerais, Goiás e Bahia, simultaneamente com a produção de tabaco na região do Recôncavo baiano.

Sua concentração, no século XVIII foi de tal ordem em Vila Rica que chegou a ser corrente entre a escravaria local um falar de base ewe-fon, registrado em 1731/41 por Antônio da Costa Peixoto em A obra nova da língua geral de mina, só publicada em 1945, em Lisboa. Também Nina Rodrigues, ao findar do século XIX, teve oportunidade de registrar um pequeno vocabulário jeje-mace (fon) de que ainda se lembravam alguns dos seus falantes na cidade do Salvador, assim como de outras quatro línguas oeste-africanas (acossa, tapa, Gramsci, flane). (Ver Pessoa de Castro 2002).

Ao findar do século XVIII, a cidade do Salvador começa a receber, em levas numerosas e sucessivas, um contingente de povos procedentes da Nigéria atual, em conseqüência das guerras interétnicas que ocorriam na região. Entre eles, a presença nagô-iorubá foi tão significativa que o termo nagô na Bahia começou a ser usado indiscriminadamente para designar qualquer indivíduo ou língua de origem africana no Brasil. Nina Rodrigues mesmo dá notícia de um "dialeto nagô", que era falado pela população negra e mestiça da cidade do Salvador naquele momento e que ele não documentou, mas definiu como "uma espécie de patois abastardado do português e de várias línguas africanas" (cf. Rodrigues 1942::261). Logo, não se tratava da língua iorubá, como muitos ainda se deixam confundir.

Devido a uma introdução tardia e à numerosa concentração dos seus falantes na cidade do Salvador, os aportes do iorubá são mais aparentes, especialmente porque são facilmente identificados pelos aspectos religiosos de sua cultura e pela popularidade dos seus orixás no Brasil (Iemanjá, Xangô, Oxum, Oxossi, etc.).

O português do Brasil

Depois de quatro séculos de contato direto e permanente de falantes africanos com a língua portuguesa no Brasil, esse processo de interação lingüística, apoiada por fatores favoráveis de ordem sócio-histórica e cultural, foi provavelmente facilitado pela proximidade relativa da estrutura lingüística do português europeu antigo e regional com as línguas negro-africanas que o mestiçaram. Entre essas semelhanças, o sistema de sete vogais orais (a, e, ê, i, o ê, u) e a estrutura silábica ideal (CV.CV) (consoante vogal.consoante vogal), onde se observa a conservação do centro vocálico de cada sílaba e não há sílabas terminadas em consoante. Essa semelhança estrutural provavelmente precipitou o desenvolvimento interno da língua portuguesa e possibilitou a continuidade da pronúncia vocalizada do português antigo na modalidade brasileira (onde as vogais átonas também são pronunciadas), afastando-a, portanto, do português de Portugal, de pronúncia muito consonantal, o que dificulta o seu entendimento por parte do ouvinte brasileiro, fazendo-lhe parecer tratar-se de outra língua que não a portuguesa (Cf. a pronúncia brasileira *pi.neu, *a.di.vo.ga.do, *su.bi.ma.ri.no em lugar de pneu, a(d).v(o).ga.do, su(b).m(a).ri.no) (V. Pessoa de Castro 2005) Nesse processo, o negro banto, pela antiguidade, volume populacional e amplitude territorial alcançada pela sua presença humana no Brasil colônia, ele, como os outros, adquiriu o português como segunda língua, tornando-se o principal agente transformador da língua portuguesa em sua modalidade brasileira e seu difusor pelo território brasileiro sob regime colonial e escravista. Ainda hoje, inúmeros dialetos de base banto são falados como línguas especiais por comunidades negras da zona rural, provavelmente remanescentes de antigos quilombos em diversas regiões brasileiras (V. Queiroz 1998, Vogt e Fry 1996). Ao encontro dessa matriz já estabelecida assentaram-se os aportes do ewe-fon e do iorubá, menos extensos e mais localizados, embora igualmente significativos para o processo de síntese pluricultural brasileira, sobretudo no domínio da religião.

Diante dessas evidências, chegamos necessariamente a uma conclusão compatível com as circunstâncias extralingüísticas que foram favoráveis a esse processo: o português do Brasil, naquilo em que ele se afastou do português de Portugal, é, historicamente, o resultado de um movimento implícito de africanização do português e, em sentido inverso, de aportuguesamento do africano sobre uma matriz indígena pré-existente e mais localizada no Brasil. Assim sendo, o português brasileiro descende de três famílias lingüísticas: a família Indo-Européia que teve origem entre a Europa e a Ásia, da qual faz parte a língua portuguesa; a família Tupi, de línguas faladas pelo indígenas brasileiros e que se espalha pela América do Sul; e, por fim, a família Níger-Congo que teve origem na África subsaariana e se expandiu por grande parte desse continente. Conseqüentemente, povos indígenas e povos negros, ambos marcaram profundamente a cultura do colonizador português que se estabeleceu no Brasil, dando origem à uma nova variação da língua portuguesa – mestiça, brasileira.

Regiões de concentração do tráfico para o Brasil

Oeste-africanos:

Ewe-fon (mina-jeje)
1.Gana 2. Togo 3. Benim

Nagô-Iorubá
3. Reino de Queto ( Benim) e 4. Nigéria

Bantos
5. Gabão 6. Congo 7. Congo-Kinshasa 8.Angola 9. Moçambique

Bibliografia

GREENBERG, Joseph (1966) - The languages of Africa. Bloomington, Indiana University.

GÜTHRIE, Malcolm (1948) - The classification of the Bantu languages. London, Oxford University Press.

LIMA, Vivaldo da Costa. “A família-de-santo nos candomblés jeje-nagôs da Bahia: um estudo de relações intragrupais”. Dissertação de Mestrado. Salvador: UFBA, 1977.

MENDONÇA, Renato (1935) - A influência africana no português do Brasil. 2 a ed. São Paulo: Editora Nacional.

MELO, Gladstone Chaves de (1946) - A língua do Brasil. São Paulo: Agir Editora.

PESSOA DE CASTRO, Yeda (1980) - “Os falares africanos na interação social do Brasil Colônia”. Salvador, Centro de Estudos Baianos/UFBA, nº 89.

PESSOA DE CASTRO, Yeda (1990) - No canto do acalanto. Salvador. Centro de Estudos Afro-Orientais, Série Ensaio/Pesquisa, 12.

PESSOA DE CASTRO, Yeda (2005) - Falares africanos na Bahia:¨um vocabulário afro-brasileiro. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras/ Topbooks Editora.

PESSOA DE CASTRO, Yeda (2002) - A língua mina-jeje no Brasil: um falar africano em Ouro Preto do século XVIII. Belo Horizonte: Fundação João Pinheiro (Coleção Mineiriana).

QUEIROZ, Sônia (1998) - Pé preto no barro branco. A língua dos negros de Tabatinga. Belo Horizonte: EDUFMG.

RAYMUNDO, Jacques (1933) - O elemento afro-negro na língua portuguesa. Rio de Janeiro: Renascença Editora.

RODRIGUES, Nina ([1945] 1993) Os africanos no Brasil. Rio de Janeiro: Ed. Nacional.

SILVA, Alberto da Costa e ( 2002) - A manilha e o libambo: a África e a escravidão de 1500 a 1700. Rio de Janeiro: Nova Fronteira / Fundação Biblioteca Nacional.

SILVA NETO, Serafim da (1963) - Introdução ao estudo da língua portuguesa no Brasil. Rio de Janeiro: INL/MEC.CARNEIRO, Edison. Ladinos e crioulos; estudos sobre o negro no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1964 (Retratos do Brasil, 28).

VOGT, Carlos, FRY, Peter (1996) Cafundó, a África no Brasil - língua e sociedade. São Paulo: Cia. das Letras; Campinas: Editora Unicamp.

WESTERMANN, Dietrich and BRYAN, M.A.(1953) - Languages of West Africa. London: Oxford University Press.
Revista do IPHAN

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

A (mu)dança das línguas



Subordinação social é acompanhada por subordinação linguística. Empréstimos e incorporação de termos refletem economia e política
Patrícia Mariuzzo
No mundo globalizado, pessoas, governos e empresas trocam idéias, realizam transações financeiras e comerciais e espalham aspectos culturais pelos quatro cantos do planeta. Esse processo de integração, que se apóia fortemente nas tecnologicas de informação, em especial a Internet, praticamente impõe o inglês como língua internacional de comunicação. Embora esse fenômeno seja mais frequentemente associado ao final do século XX, ele não é recente. A novidade, no atual estágio da globalização, é seu nível de abrangência e profundidade. Diante desse contexto é que surge a a idéia de que certas línguas - entre elas o português - tendem a desaparecer frente ao domínio econômico e cultural representado pela língua inglesa. Na contramão desse pensamento, que supõe a generalização da língua ditada por forças econômicas, outros pesquisadores apostam na capacidade de adaptação e resistência das línguas e das culturas nas quais elas estão imersas. A mudança está na essência da construção linguística e, antes de ser um sinal de enfraquecimento, demonstra sua capacidade de permanência.

Em 1492, ano da chegada de Cristóvão Colombo às Américas, o estudioso Elio Antonio de Nebrija organizou a primeira gramática de uma língua moderna, a Gramática Castelhana. Ele apontava a importância da popularização da língua dos conquistadores na construção do império espanhol. Por meio dela, seria possível estabelecer unidade e manter o controle sobre os povos conquistados. Luiz Paulo da Moita Lopes, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, afirma que era essa a inspiração que guiava Nebrija ao presentear a rainha Isabel de Castela com a gramática. “As línguas sempre foram companheiras de impérios”. Línguas francas sempre foram necessárias nas atividades de comércio e na gerência política dos povos. Segundo ele, foi assim também com a língua nahuatl, falada pela tribo mais poderosa do império asteca e que funcionava como língua franca, reinando acima das 80 línguas diferentes. “Esses processos que, em alguns casos, já têm mais de dois mil anos, guardam semelhanças com o papel desempenhado pelo inglês hoje”, acredita Lopes.

Inglês: novo esperanto?

O inglês estaria hoje, para nós, como o latim esteve, no passado, para os povos periféricos à Roma. Prevalecem, nesse domínio, interesses econômicos e políticos. Para Carlos Vogt, da Unicamp, essa é a lógica do processo de globalização da economia e uma de suas consequências culturais: à necessidade de homogeneizar mercados e estabilizar moedas, para a livre circulação do capital financeiro, associa-se a harmonização de comportamentos e padrões culturais de conduta social. “Isso cria as condições objetivas para que as resistências nacionalistas ligadas ao sentimento forte de nacionalidade dêem lugar a um sentimento crescente de fidelidade empresarial sem fronteiras”, analisa o linguista.

“A língua não é neutra e nem está acima das lutas sociais, mas, ao contrário, é perpassada por estas lutas, é expressão delas e toma parte nelas”, diz o sociólogo Nildo Viana, da Universidade Estadual de Goiás (UFG), em artigo publicado na revista Humanidades em Foco (ano 2, n.4). Isso explicaria porque tentativas anteriores de estabelecer línguas internacionais de comunicação falharam. No final do século XIX, por exemplo, um ideal de universalidade lingüística inspirou a criação de algumas línguas artificiais, sendo o esperanto possivelmente a mais conhecida. Essas línguas são chamadas de artificiais porque não são um produto coletivo de determindada sociedade, mas de certos indivíduos. Na época, alegava-se em favor dessas línguas o fato de serem de fácil aprendizado e de obedecerem regras regulares e lógicas (o esperanto possui apenas 16 regras gramaticais, sem excessões). Além disso, não sendo de domínio de nenhuma cultura ou nação, não haveria interesses hegemônicos, econômicos ou comerciais envolvidos. Segundo Moita Lopes, os interesses do império britânico do século XIX e do início do século XX, combinados com o desenvolvimento industrial da Grã-Bretanha, assim como os interesses do império norte-americano no século XX, acoplados à globalização econômica do final do século XX e início do século XXI, solaparam o sonho de uma língua universal independente de objetivos imperialistas. No começo do século XX, vários países ensaiaram introduzir o ensino no esperanto nas escolas, inclusive o Brasil, porém nenhum levou a idéia adiante.

O português vai desaparecer?

Em vários países existe uma apreensão diante do crescimento do inglês e da diminuição do uso das línguas nacionais. Na França, por exemplo, é obrigatório que as palavras em inglês sejam traduzidas nos anúncios. No Brasil, há alguns anos, o tema gerou um projeto de lei (1676/99), de autoria de Aldo Rebelo. Ele queria coibir o uso de estrangeirismos “que deformam a língua e truncam a comunicação do povo”, nas palavras do deputado.

Em muitas situações o uso de termos estrangeiros se torna um problema concreto. Em janeiro deste ano a questão foi parar nos tribunais. Numa ação movida pelo Ministério Público (MP), o juiz determinou que a União fiscalize e faça cumprir o artigo 31 do Código de Defesa do Consumidor que prevê, entre outras medidas, que, no momento da oferta, haja clareza de informação. O autor da ação, o procurador da república Matheus Baraldi Magnani, disse que o MP recebeu diversas reclamações sobre o uso das palavras sale e off, no lugar de liquidação e desconto. Entrevistas com 280 pessoas em centros comercias detectaram que 90% das pessoas não entendiam o significado dos anúncios em inglês.

Mário Perini, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), considera exagerada a invasão de termos ingleses na língua portuguesa. “O Brasil é um país subalterno e a língua expressa isso. É como se me dissessem o tempo todo que minha cultura, não minha língua, é inferior”, aponta. É mais fácil entender isso se pensarmos, como Viana, que a linguagem é um fenômeno social ligado ao processo de dominação. A subordinação social é acompanhada por uma subordinação linguística. No Brasil, o sistema colonial e depois o capitalismo reproduzem a diferença no poder.

Mário Perini não acredita, entretanto, que os empréstimos estrangeiros sejam uma ameaça à língua portuguesa. Segundo ele, muitos estrangerismos desaparecem com o tempo e, os que ficam, são assimilados ou aportuguesados. “Os falantes tem um bom senso inato que os impede de utilizar termos estrangeiros além de um certo limite. Por isso, as palavras emprestadas são muito efêmeras”, acredita. Embora concorde que a influência norte-americana é incontestável cultural e economicamente, ele não vê consequências drásticas no campo linguístico.

A hibridização é um processo que acompanha o desenvolvimento das línguas. A língua muda para acompanhar as transformações sociais e culturais, os avanços tecnológicos, os movimentos artísticos. O fenômeno de empréstimo de palavras, como sales, parking, ou o aportuguesamento de palavras em inglês no português contemporâneo, que acontece em salvar e deletar, também ocorrem em outras línguas, inclusive no próprio inglês (grande número de palavras inglesas tem origem no francês: beef, liberty, page, etc). A língua portuguesa também emprestou palavras para outros idiomas. Não foram muitas pois, como dito, para que uma língua influencie outras é necessário alguma relação de domínio político ou cultural. No Oriente, os portugueses foram o primeiro povo conquistador europeu deixando, com isso, algumas marcas no híndi: mês é mesa, camiz é camisa. Em japonês, liburo signfica livro.

Isso acontece o tempo todo com as línguas e, antes de ser uma ameaça, é um sinal de que estão vivas e que se adaptam para continuar a existir. “O ser humano tem muito apego à sua língua porque ela os distingue, como povo, do resto do mundo”, defende Perini. Na Suécia, a grande maioria das pessoas fala inglês fluentemente. Mesmo assim conservam o sueco como sua língua materna. Enquanto no Brasil a presença da cultura norte-americana ganha força a partir dos anos 60, na Irlanda a influência inglesa existe desde a Idade Média sem que o irlandês tenha desaparecido. “A língua é o aspecto mais entranhado e menos mutável da cultura de um povo”, completa o pesquisador. Prova disso é que a segunda língua mais falada no Brasil não é o inglês ou o espanhol, mas o japonês, falado pela numeroso grupo de japoneses que vive no Brasil e que, provavelmente, se apega à sua língua materna como uma das formas de manter viva aqui a tradição nipônica.

Revista do IPHAN - UNICAMP

Das línguas africanas ao português brasileiro


Yeda Pessoa de Castro
Do século XVI ao século XIX, o tráfico transatlântico trouxe para o Brasil 4 a 5 milhões de falantes africanos extraídos de duas regiões subsaarianas : a região banto, situada ao longo da extensão sul da linha do equador, e a região oeste-africana ou sudanesa, que abrange territórios que vão do Senegal à Nigéria.

A região banto compreende um grupo de 500 línguas muito semelhantes, que são faladas na África sub-equatorial. Entre elas, as de maior número de falantes no Brasil foram três línguas angolanas: quicongo, também falada no Congo, quimbundo e umbundo. Das línguas oeste-africanas ou sudanesas, seus principais representantes no Brasil foram os povos do grupo ewe-fon provenientes de Gana, Togo e Benim, apelidados pelo tráfico de minas ou jejes, e os iorubás da Nigéria e do Reino de Queto (Ketu), estes últimos na vizinha República do Benim, onde são chamados de nagôs.

No entanto, apesar dessa notável diversidade de línguas, todas elas têm uma origem comum. Pertencem a uma só grande família lingüística Níger-Congo (Greenberg 1966). Logo, são todas línguas aparentadas.

Fatos relevantes

Explicar a participação de línguas africanas na construção da língua portuguesa no Brasil é ter em conta a atuação do negro-africano como personagem falante no desenrolar dos acontecimentos e procurar entender os fatos relevantes de ordem sócio-econômica e de natureza lingüística que favoreceram o avanço consecutivo do componente africano nesse processo.

Inicialmente, o contingente de negros e afro-descendentes era superior ao número de portugueses e outros europeus, durante três séculos consecutivos, num contexto social e territorial cujo isolamento em que foi mantida a colônia pelo monopólio do comércio externo brasileiro feito por Portugal até 1808 condicionou um ambiente de vida de aspecto conservador e de tendência niveladora, mais aberto à aceitação de aportes culturais mútuos e de interesses comuns. Aqui, merecem destaque a atuação socializadora da mulher negra na função de mãe-preta no seio da família colonial, e o processo de socialização lingüística exercido pelos negros ladinos, aqueles que, aprendendo rudimentos de português, podiam falar a um número maior de ouvintes, e influenciá-los, resultando daí por adaptarem uma língua a outra e estimularem a difusão de certos fenômenos lingüísticos entre os não bilíngües.(Ver Pessoa de Castro 1990).

No século XIX, o processo de urbanização que se iniciava no Brasil a partir da instalação da família real portuguesa no Rio de Janeiro e a abertura dos portos em 1808, exigiram a fixação nas cidades da mão-de-obra escrava recém-trazida da África, numa época em que a maioria da população brasileira era constituída de mestiços e crioulos. Esses, já nascidos no Brasil, falando português como primeira língua, por conseguinte, mais desligados de sentimentos nativistas em relação à África e susceptíveis à adoção e aceitação de padrões europeus então vigentes.

Finalmente, com a extinção do tráfico transatlântico para o Brasil em 1856 até a abolição oficial da escravatura no país em 1888, o tráfico interno foi intensificado. Negros escravizados nas plantações do nordeste foram levados para outras nas regiões do sul e sudeste (depois ocupadas por europeus e asiáticos) e, em direção oposta, do centro-oeste para explorar a floresta amazônica onde os povos indígenas são preponderantes. Em conseqüência, portanto, da amplitude geográfica alcançada por essa distribuição humana, o elemento negro foi uma presença constante em todas as regiões do território brasileiro sob regime colonial e escravista.

No entanto, nesse contexto sócio-histórico, cada língua ou grupo de línguas teve sua influência própria.

Os bantos

A influência banto é muito mais profunda em razão da antiguidade do povo banto no Brasil, da densidade demográfica e amplitude geográfica alcançada pela sua distribuição humana em território brasileiro.

A sua presença foi tão marcante no Brasil no século XVII que, em 1697, é publicada, em Lisboa, A arte da língua de Angola, do padre Pedro Dias, a mais antiga gramática de uma língua banto, escrita na Bahia para uso dos jesuítas, com o objetivo de facilitar a doutrinação dos 25.000 negros angolanos, segundo Antônio Vieira, que se encontravam na cidade do Salvador sem falar português (Cf. Silva Neto 1963:82).

Os aportes bantos ou bantuismos, ou seja, palavras africanas que entraram para a língua portuguesa no Brasil, estão associados ao regime da escravidão (senzala, mucama, bangüê, quilombo), enquanto a maioria deles está completamente integrada ao sistema lingüístico do português, formando derivados portugueses a partir de uma mesma raiz banto (esmolambado, dengoso, sambista, xingamento, mangação, molequeira, caçulinha, quilombola), o que já demonstra uma antiguidade maior. Em alguns casos, a palavra banto chega a substituir a palavra de sentido equivalente em português: caçula por benjamim, corcunda por giba, moringa por bilha, molambo por trapo, xingar por insultar, cochilar por dormitar, dendê por óleo-de-palma, bunda por nádegas, marimbondo por vespa, carimbo por sinete, cachaça por aguardente. Alguns já estão documentados na literatura brasileira do século XVII, a exemplo dos que se encontram na poesia satírica de Gregório de Matos e Guerra. (1633-1696).

Os oeste-africanos

Ao encontro dessa gente banto já estabelecida nos núcleos coloniais em desenvolvimento, é registrada a presença de povos ewe-fon, cujo contingente foi aumentado em conseqüência da demanda crescente de mão-de-obra escravizada nas minas de ouro e diamantes, então descobertas em Minas Gerais, Goiás e Bahia, simultaneamente com a produção de tabaco na região do Recôncavo baiano.

Sua concentração, no século XVIII foi de tal ordem em Vila Rica que chegou a ser corrente entre a escravaria local um falar de base ewe-fon, registrado em 1731/41 por Antônio da Costa Peixoto em A obra nova da língua geral de mina, só publicada em 1945, em Lisboa. Também Nina Rodrigues, ao findar do século XIX, teve oportunidade de registrar um pequeno vocabulário jeje-mace (fon) de que ainda se lembravam alguns dos seus falantes na cidade do Salvador, assim como de outras quatro línguas oeste-africanas (acossa, tapa, Gramsci, flane). (Ver Pessoa de Castro 2002).

Ao findar do século XVIII, a cidade do Salvador começa a receber, em levas numerosas e sucessivas, um contingente de povos procedentes da Nigéria atual, em conseqüência das guerras interétnicas que ocorriam na região. Entre eles, a presença nagô-iorubá foi tão significativa que o termo nagô na Bahia começou a ser usado indiscriminadamente para designar qualquer indivíduo ou língua de origem africana no Brasil. Nina Rodrigues mesmo dá notícia de um "dialeto nagô", que era falado pela população negra e mestiça da cidade do Salvador naquele momento e que ele não documentou, mas definiu como "uma espécie de patois abastardado do português e de várias línguas africanas" (cf. Rodrigues 1942::261). Logo, não se tratava da língua iorubá, como muitos ainda se deixam confundir.

Devido a uma introdução tardia e à numerosa concentração dos seus falantes na cidade do Salvador, os aportes do iorubá são mais aparentes, especialmente porque são facilmente identificados pelos aspectos religiosos de sua cultura e pela popularidade dos seus orixás no Brasil (Iemanjá, Xangô, Oxum, Oxossi, etc.).

O português do Brasil

Depois de quatro séculos de contato direto e permanente de falantes africanos com a língua portuguesa no Brasil, esse processo de interação lingüística, apoiada por fatores favoráveis de ordem sócio-histórica e cultural, foi provavelmente facilitado pela proximidade relativa da estrutura lingüística do português europeu antigo e regional com as línguas negro-africanas que o mestiçaram. Entre essas semelhanças, o sistema de sete vogais orais (a, e, ê, i, o ê, u) e a estrutura silábica ideal (CV.CV) (consoante vogal.consoante vogal), onde se observa a conservação do centro vocálico de cada sílaba e não há sílabas terminadas em consoante. Essa semelhança estrutural provavelmente precipitou o desenvolvimento interno da língua portuguesa e possibilitou a continuidade da pronúncia vocalizada do português antigo na modalidade brasileira (onde as vogais átonas também são pronunciadas), afastando-a, portanto, do português de Portugal, de pronúncia muito consonantal, o que dificulta o seu entendimento por parte do ouvinte brasileiro, fazendo-lhe parecer tratar-se de outra língua que não a portuguesa (Cf. a pronúncia brasileira *pi.neu, *a.di.vo.ga.do, *su.bi.ma.ri.no em lugar de pneu, a(d).v(o).ga.do, su(b).m(a).ri.no) (V. Pessoa de Castro 2005) Nesse processo, o negro banto, pela antiguidade, volume populacional e amplitude territorial alcançada pela sua presença humana no Brasil colônia, ele, como os outros, adquiriu o português como segunda língua, tornando-se o principal agente transformador da língua portuguesa em sua modalidade brasileira e seu difusor pelo território brasileiro sob regime colonial e escravista. Ainda hoje, inúmeros dialetos de base banto são falados como línguas especiais por comunidades negras da zona rural, provavelmente remanescentes de antigos quilombos em diversas regiões brasileiras (V. Queiroz 1998, Vogt e Fry 1996). Ao encontro dessa matriz já estabelecida assentaram-se os aportes do ewe-fon e do iorubá, menos extensos e mais localizados, embora igualmente significativos para o processo de síntese pluricultural brasileira, sobretudo no domínio da religião.

Diante dessas evidências, chegamos necessariamente a uma conclusão compatível com as circunstâncias extralingüísticas que foram favoráveis a esse processo: o português do Brasil, naquilo em que ele se afastou do português de Portugal, é, historicamente, o resultado de um movimento implícito de africanização do português e, em sentido inverso, de aportuguesamento do africano sobre uma matriz indígena pré-existente e mais localizada no Brasil. Assim sendo, o português brasileiro descende de três famílias lingüísticas: a família Indo-Européia que teve origem entre a Europa e a Ásia, da qual faz parte a língua portuguesa; a família Tupi, de línguas faladas pelo indígenas brasileiros e que se espalha pela América do Sul; e, por fim, a família Níger-Congo que teve origem na África subsaariana e se expandiu por grande parte desse continente. Conseqüentemente, povos indígenas e povos negros, ambos marcaram profundamente a cultura do colonizador português que se estabeleceu no Brasil, dando origem à uma nova variação da língua portuguesa – mestiça, brasileira.

Regiões de concentração do tráfico para o Brasil

Oeste-africanos:

Ewe-fon (mina-jeje)
1.Gana 2. Togo 3. Benim

Nagô-Iorubá
3. Reino de Queto ( Benim) e 4. Nigéria

Bantos
5. Gabão 6. Congo 7. Congo-Kinshasa 8.Angola 9. Moçambique

Bibliografia

GREENBERG, Joseph (1966) - The languages of Africa. Bloomington, Indiana University.

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PESSOA DE CASTRO, Yeda (1980) - “Os falares africanos na interação social do Brasil Colônia”. Salvador, Centro de Estudos Baianos/UFBA, nº 89.

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RODRIGUES, Nina ([1945] 1993) Os africanos no Brasil. Rio de Janeiro: Ed. Nacional.

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WESTERMANN, Dietrich and BRYAN, M.A.(1953) - Languages of West Africa. London: Oxford University Press.

Revista Eletrônica do IPHAN - UNICAMP

terça-feira, 26 de julho de 2011

A LÍNGUA-DE-SANTO


Yeda Pessoa de Castro
A INFLUÊNCIA DE LÍNGUAS A F R I C A N A S NO PORTUGUÊS BRASILEIRO

Subjacente a esse processo, é notável o desempenho sociolingüístico de uma geração de lideranças afro-religiosas que sobreviveu a toda sorte de perseguições e é detentora de uma linguagem litúrgica de base africana, cujo conhecimento é veículo de integração e ascensão na hierarquia sócio-religiosa do grupo, porque nela se acha guardada a noção maior de segredo dos cultos.
Essa língua-de-santo é a fonte atual dos aportes lexicais africanos no português do Brasil, e a música popular brasileira é, hoje, o seu principal meio de divulgação, em razão de muitos dos seus compositores serem membros de comunidades afro-religiosas, como o foi Vinicius de Moraes e, atualmente, Caetano Veloso, Gilberto Gil e tantos outros de igual grandeza, entre os quais os compositores de blocos afros e afoxés da Bahia. Exemplo relevante é a palavra axé (de étimo fon/iorubá), os fundamentos sagrados de cada terreiro, sua força mágica, usada como termo votivo equivalente a “assim seja”, da liturgia cristã ou então “boa-sorte”, que terminou incorporada ao português do Brasil para denominar um estilo de música de sucesso internacional, tipo “world-music”, produzida na Bahia e conhecida por todos como “axé-music”.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

A história e a evolução do alfabeto na linguagem

Uma das maiores contribuições dos romanos para o mundo ocidental foi o alfabeto latino. Ainda que adaptado para as várias e diferentes línguas do mundo, o alfabeto latino conquistou um território nunca antes imaginado pelos romanos e hoje é utilizado até por idiomas que não possuem nenhuma ligação com o latim, como o turco e o chinês. Mas de onde ele veio? Como surgiu? Conheça um pouco mais sobre
Francisco Edmar Cialdine Arruda*


Uma das maiores contribuições dos romanos para o mundo ocidental foi o alfabeto latino. Ainda que adaptado para as várias e diferentes línguas do mundo, o alfabeto latino conquistou um território nunca antes imaginado pelos romanos e hoje é utilizado até por idiomas que não possuem nenhuma ligação com o latim, como o turco e o chinês. Mas de onde ele veio? Como surgiu? Conheça um pouco mais sobre
Francisco Edmar Cialdine Arruda*

O alfabeto é uma forma de registrar uma língua cujos caracteres (as letras) procuram corresponder a um respectivo fonema. Mas essa correspondência não é perfeita. Em português, por exemplo, temos letras que podem representar fonemas diferentes, como a letra "x" (exemplo, enxame, próximo); letras que representam mais de um fonema ao mesmo tempo: novamente o "x" (táxi - "táksi"); fonemas que são representados por várias letras: rosa ("z"), zebra ("z"), exame ("z"); isso sem falar dos dígrafos.
A escrita alfabética se opõe a outras formas de escrita, como a ideográfica (saiba mais no quadro Outras formas de escrita), usada em vários países do extremo oriente, e a outras formas menos comuns. Ademais, existem outros alfabetos além do alfabeto latino como, por exemplo, o alfabeto grego e o cirílico latino como, por exemplo, o alfabeto grego e o cirílico .

cirílico
O alfabeto cirílico foi criado no século IX por missionários cristãos (em especial São Cirilo), a partir da combinação de letras gregas e hebraicas, dentre outras. É utilizado principalmente nas línguas eslavas, como o russo. Originalmente, possuía 43 letras, mas muitas foram re- tiradas por serem consideradas supérfluas - o russo moderno, por exemplo, tem 32 letras. A Romênia, apesar de ser um país de língua neolatina, usou o alfabeto cirílico por muito tempo - apenas no século XVIII adotou o modelo latino.

ORIGENS DISTANTES
A história de nosso alfabeto remonta à metade do segundo milênio antes de Cristo e a um povo de origem semita, os fenícios. Esse povo se caracterizava por uma cultura comercial marítima muito forte e chegou a formar colônias por todo Mediterrâneo, inclusive na península Ibérica, o ponto mais ocidental da Europa. Com o objetivo de facilitar a comunicação e, consequentemente, o comércio, surgiram, na cidade fenícia de Biblos, as primeiras manifestações escritas que acabariam por formar o alfabeto fenício, que se espalhou Mediterrâneo afora. A língua fenícia era representada por 22 sinais gráficos - apenas consoantes, já que a língua era de origem semita e, portanto, as vogais eram inferidas pelo contexto. Seria como se escrevêssemos "Brsl" no lugar de "Brasil".
Com a divulgação desse alfabeto, os gregos se apropriaram dele e o adaptaram para sua língua. Tal processo foi lento. Acredita-se que, no final do século V a.C., a cidade de Atenas, grande centro cultural da civilização grega, oficializou a adoção da escrita alfabética. A grande mudança que os gregos fizeram foi a inserção das vogais. Para isso, eles excluíram alguns caracteres usados para sons guturais (produzidos no fundo da garganta), que não existiam na língua grega, e aproveitaram para representar os fonemas vocálicos. De igual modo, os gregos criaram símbolos para representarem os fonemas aspirados que não existiam na língua dos fenícios. Com isso, chegamos ao alfabeto grego tal o conhecemos ainda hoje - a única diferença de lá para cá é a pronúncia de algumas letras.
etruscos
A Etrúria era uma região que ficava ao norte do Lácio, onde hoje está localizada a Toscana. Pouco se sabe sobre o povo que viveu lá (os etruscos) e sua língua não foi decifrada, apesar de fazer uso de um alfabeto próximo do adotado nas colônias gregas ocidentais (que era um pouco diferente do grego clássico de Atenas). Durante a Monarquia (período que antecedeu a República), eles chegaram a dominar os romanos, os quais influenciaram em inúmeros aspectos.

DO GREGO AO LATINO (VIA ETRUSCOS?
Aqui é que os latinos entram na história. No entanto, a grande polêmica é: sabemos que o alfabeto latino se desenvolveu a partir do grego - aliás, o latim arcaico era muito parecido com o grego antigo -, porém não se sabe se esse desenvolvimento foi direto ou se foi intermediado pelos etruscos. De fato, os etruscos deixaram muitas marcas culturais nos latinos, principalmente durante os primeiros séculos da civilização romana, razão pela qual não seria de estranhar que os romanos usassem um alfabeto baseado no etrusco. Os primeiros escritos revelavam que os romanos, inicialmente, escreviam utilizando apenas letras maiúsculas (chamadas de "Capitalis quadrata", ou escrita monumental). Essa escrita era mais utilizada em documentos oficiais. Também era comum não haver espaço entre as palavras nem pontuação e não possuir uma ordem certa: podia-se escrever da esquerda para a direita e vice-versa ou, ainda, alternando escrever da esquerda para a direita e viceversa ou, ainda, alternando . Com o tempo, a literatura se desenvolveu e, consequentemente, a escrita foi ganhando o formato que conhecemos hoje nas aulas de latim. Surgiram a escrita cursiva (utilizada no dia a dia) e a escrita uncial.
No período clássico (século I a.C.), o alfabeto já estava em vias de consolidar-se com suas 21 letras originais (A, B, C, D, E, F, G, H, I, J, L, M, N, O, P, Q, R, S, T, V, X) e as letras gregas (Y, Z) usadas em palavras dessa origem. Esse alfabeto chegou até nossos dias com pouquíssimas alterações (algumas para se adequar às necessidades fonético-fonológicas de cada língua).
alternando
A chamada escrita "bustrofédon" (do grego "bous", boi; "strophé", virar) tinha esse nome porque sua forma de escrever, alternando a ordem a cada linha, lembrava o ato de arar a terra com um boi: seguiase, por exemplo, da esquerda à direita e, ao final, quando seguia para a próxima linha, mudava-se, da direita para a esquerda e assim sucessivamente em ziguezague. Muitas línguas arcaicas utilizavam essa ordem ao escrever.

PARTICULARIDADES
Houve duas modificações no alfabeto dignas de nota. A primeira ocorreu no período do imperador Cláudio (41 a 54 d.C.). Conhecido por sua erudição, ele propôs o acréscimo de três letras: ╛ (para representar o som "u" consoante),├ (para representar o som "ps") e (para representar um som intermediário entre "i" e "u"). Porém, após a morte do imperador, tais letras foram abolidas.
A outra reforma, datada da Renascença, veio do erudito Petrus Ramus e acrescentou as letras J e V. Vamos às explicações: os romanos não conheciam os fonemas "j" (de jato) nem "v" (de vida). Como consequência essas letras não existiam. Por outro lado, a letra I representava tanto uma vogal quando uma consoante, ambas pronunciadas da mesma forma, sendo que o I consoante equivale ao nosso "i" semivogal. De igual modo, a letra V, escrita cursivamente como u, representava tanto a vogal quanto a consoante (também equivalente ao nosso "u" semivogal). A partir de Ramus, o "u" vogal passou a ser representado por U/ u e o "u" consoante, V/v; assim como o "i" vogal, I/i e o "i" consoante, J/j. Apenas com o tempo foi que surgiram os fonemas "v" e "j".
Outras particularidades que podemos ressaltar: a letra K, usada sempre antes de A, e a letra Q, usada antes de O e U, foram caindo em desuso, sendo substituídas por C na maioria das palavras. Essa letra servia tanto para o fonema "c" (de carro) quanto para "g" (de gato). Com o tempo acrescentou-se um traço na parte inferior da letra para diferenciar os dois fonemas e assim surgiu a letra G. Já a letra S surgiu para representar um fonema surdo (o "s" de sapo), mas que, no século IV a. C., sonorizou-se entre vogais (tal qual o "s" de rosa), porém, posteriormente voltou a ser apenas surdo. No período pré-clássico, a letra F era escrita sempre FH, mas com tempo simplificou-se; Além disso, as letras gregas usadas para fonemas aspirados foram, por um tempo, usadas como números (saiba mais no quadro "Os números latinos"), já que esses fonemas não existiam em latim.

POR FIM (FIM)
É claro que muito há que ser dito ainda sobre o tema. Nada mencionamos sobre a polêmica existente entre as várias pronúncias latinas; também mereciam algumas linhas as adaptações como o surgimento do Ç, Ñ, dentre outras letras. Mas deixaremos essas questões a cargo da curiosidade do leitor em pesquisar sobre o tema. Recomendamos a leitura de História concisa da escrita, de Charles Higounet (editora Parábola), como pontapé inicial , bem como História da escrita de Steven Roger Fischer (editora da Unesp) - e, claro, sempre estaremos disponíveis a ajudar os curiosos a descobrir respostas...

ALFABETOS ANTIGOS
A título de ilustração, abaixo um quadro comparativo entre alguns alfabetos antigos. Na sequência temos hieróglifos egípcios, fenício antigo, hebraico antigo, moabita, grego antigo, grego oriental, grego ocidental, grego clássico, etrusco antigo, etrusco clássico, latim antigo, latim antigo monumental e latim clássico.
OUTRAS FORMAS DE ESCRITA
É interessante saber que o homem sempre possuiu formas diferentes para registrar uma língua - algumas desapareceram com tempo, outras per- manecem. Não é adequado dizer que a escrita "evoluiu", sob pena de afirmar que as formas de escrita hoje são melhores que as antigas. As línguas do Oriente Médio, por exemplo, possuem a forma de escrever muito mais antiga que o alfabeto latino - e nem por isso são inferiores (ou superiores). O fato é que a forma de escrita de um povo sempre será suficiente para suas ne- cessidades linguísticas; caso contrário, o próprio povo, às vezes consciente, outras inconscientemente, adapta a escrita para as necessidades existentes. Dentre as outras formas de escrita podemos destacar:


ABJAD: um tipo de alfabeto só de consoantes. Nessa forma de escrita, as vogais são inferidas pelo contexto ou sinais diacríticos. As línguas semíticas (do Oriente Médio), como o hebrai- co, o árabe e o próprio fenício, são exemplos de línguas que usam abjad. Acima exemplos de letras do alfabeto hebraico.


ABUGIDA: uma forma de escrita em que o caractere representa uma consoante e uma vogal previamen- te unida a ela, de modo que as de- mais vogais são representadas por sinais diacríticos. A língua hindu e seu alfabeto devanagári, acima, é um exemplo:

IDEOGRAMA: é um tipo de escrita antiga e que existe ainda hoje. Os hieróglifos egípcios, os kanji do japonês e chinês são exemplos desse tipo de escrita. Abaixo alguns hieróglifos:


PICTOGRAMAS: os pictogramas foram as primeiras tentativas de manifestação escrita do homem. Na verdade, os pictogramas estão entre a escrita e o desenho. As primeiras inscrições nas cavernas foram pictográficas:

NÚMEROS LATINOS
Existe uma crença sobre os números latinos serem derivados da inicial do nome do número (C para centum, "cem"; M para mille, "mil"). No entanto, como explicar V (5), X (10), L (50) e D (500)?
O fato era que os antigos pastores marcavam com um traço para contar cada cabeça do rebanho. Mas, como a percepção humana não ultrapassa quatro unidades diferentes, a quinta marca foi concebida de forma diferente (V) e a décima, seu dobro (X não passaria de dois V, um sobre o outro). Já L, C, D, M são originados a partir de letras gre- gas que foram se modificando com o uso: psi (Ψ) para L, teta (Θ) para C e phi (Φ) para M. Acredita-se que D seria, na verdade, a metade direita de phi (Φ). É importante dizer que os romanos não conheciam o numeral zero e que os números, inicialmente, se faziam repetindo as letras. Com o tempo passou-se a utilizar um sistema de subtração que tornou a numeração mais prática, isto é, em vez de LXXXX para 90, usa-se XC (100-10). Ainda hoje é possível ver essa numeração romana utilizada em inscrições de monumentos, principalmente religiosos.

*Professor da Universidade Regional do Cariri, mestre em Linguística aplicada pela Universidade Estadual do Ceará e pesquisador do Grupo de Pesquisa em Lexicografia, Terminologia e Ensino (LETENS), atuando principalmente com os temas Terminologia, Lexicografia, Surdez, Multimodalidade e Estudos clássicos. Contato: ed0904@gmail.com

Revista Língua Portuguesa

quarta-feira, 9 de março de 2011

O dialeto esquecido

Comunidade no sul do país usou português para completar as lacunas do dialeto alemão que usa há mais de 180 anos

Edgard Murano


Cena do documentário Walachai (2009), de Rejane Zilles: dialeto como afirmação de uma cultura

No Rio Grande do Sul, a 100 quilômetros de Porto Alegre, fica Walachai, um povoado de origem alemã que sempre viveu à margem. Na pequena comunidade rural, localizada na Serra Gaúcha, as pessoas falam um dialeto alemão chamado Hunsrückisch - também conhecido como "hunsriqueano" - e ainda vivem como se vivia cem anos atrás. Não por acaso, Walachai quer dizer "lugar distante, onde o tempo parou" em alemão antigo, expressão que faz jus ao seu clima bucólico.

O dialeto hunsriqueano, com origem na região do Hunsrück, no sudoeste da Alemanha, é uma das línguas minoritárias mais faladas no Brasil. Por "língua minoritária" entenda-se o idioma de uma minoria étnica situada numa dada região. O dialeto hunsriqueano representa uma das trinta línguas trazidas ao país por imigrantes, ao lado de aproximadamente 180 línguas indígenas existentes no Brasil. Embora não haja um levantamento preciso sobre o número de pessoas que falam o dialeto, sabe-se que estão espalhados em 38 localidades, a maioria no sul do país - Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná - onde os primeiros alemães se concentraram, no início do século 19.

Arcaico
O distrito de Walachai ficou conhecido quando um professor local, João Benno Wendling, decidiu registrar a história de seu povoado em livro, ao qual teve acesso a diretora de cinema Rejane Zilles, natural da cidade.

Foi o bastante para que ela resolvesse transformá-lo no documentário O Livro de Walachai (2007), mais tarde retomado no longa-metragem Walachai (2009), exibido na 33ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, em outubro passado. Wendling dedicou toda sua vida à alfabetização em português das crianças do distrito, e suas anotações, mais de 400 páginas escritas à mão, formam um relato minucioso da cultura e dos costumes locais.

- Fiquei comovida com a dedicação abnegada deste homem, que durante nove anos, sem nenhum auxílio, se dedicou a registrar a história do nosso povoado. Percebi que tinha ali um ótimo roteiro, mas o tempo urgia, pois o professor na época já tinha 82 anos e a saúde debilitada - conta Rejane.

O hunsriqueano é uma espécie de alemão arcaico, recheado de expressões que não encontram mais equivalência na língua alemã atual. Esse dialeto vem sendo transmitido de geração em geração desde a chegada dos primeiros imigrantes alemães, há mais de 180 anos. Por ser essencialmente falado, o hunsriqueano praticado no Brasil não dispõe de uma escrita sistematizada, valendo-se, normalmente, do chamado alemão-padrão (Hochdeutsch) e do português para o registro.

Identidade
O professor Cléo Altenhofen, do Instituto de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), afirma que são frequentes e notórios os juízos de valor depreciativos sobre as línguas minoritárias, em especial aquelas orais, caso do hunsriqueano.

- Essa condição de dialeto, situado abaixo da norma padrão, e de língua marginal submissa à língua oficial, o português, aliada à posição social dos imigrantes, tem dado margem a depreciações do Hunsrückisch, incluindo atributos como verlorene Sproch ["língua perdida"], vebrochne Deitsch ["alemão quebrado"] ou Heckedeitsch ["alemão do mato"] - diz Altenhofen.

O professor destaca o valor social do dialeto.
- Uma língua significa muito mais do que uma lista de palavras ou de regras gramaticais. É também um sinal de identidade - justifica.

Empréstimos
A diretora Rejane Zilles sentiu na pele, durante uma viagem pela Alemanha, o peso da identidade e o "anacronismo" do dialeto de Hunsrück em relação ao alemão culto.

- Cheguei a Berlim falando apenas o dialeto. Eu me sentia quase um "objeto antropológico". As
pessoas tinham enorme curiosidade para saber de onde vinha esse alemão que eu falava e me diziam ser curioso ouvir uma pessoa jovem usando expressões tão antigas - diz ela.

Essa cultura própria, independente da matriz alemã, se evidencia nas influências do português sobre o hunsriqueano. Muitas palavras foram tomadas de empréstimo pelo dialeto devido à falta de conhecimento de suas correspondentes em alemão-padrão. Bom exemplo é "televisão", que não fora inventada à época da imigração. Foi "descoberta" mais tarde só pelo nome que lhe deram aqui no Brasil, ignorando que na Alemanha o aparelho chamava-se Fernseher. Há exemplos de hibridismos: Mais (milho) é de origem alemã, mas não era usada pelo dialeto. Em vez do alemão-padrão Maismehl (farinha de milho), o hunsriqueano criou o termo Milhomel. E de substrato: "guri", "menino" para os gaúchos, vai para o plural hunsriqueano com a flexão -e do paradigma alemão: Gurie (outros exemplos no quadro ao lado).

Segregação
Regina Zilles diz que, ao rodar o documentário, queria desfazer o mito de que as comunidades alemãs optem pela segregação cultural.

- Muitos acham que "esses alemães" ficam louvando a Alemanha e seus costumes, ao modo das típicas festas de Oktoberfest. É claro que há esse segmento, mas não é a realidade de Walachai, um lugar que conheço de dentro, pois nasci lá. A Alemanha de origem está muito distante para essas pessoas humildes, da qual não sabem nada e nem demonstram interesse em conhecer. Já se criou uma cultura própria e essa sim me interessa revelar - diz.

Há uma real dificuldade, especialmente entre os idosos em Walachai, de falar português. Isso se deve, em parte, à política de nacionalização do Estado Novo (1937-1945). Getúlio Vargas reprimiu o ensino de alemão nas escolas. A proibição, de forma vertical e arbitrária, prejudicou o aprendizado do português, pois os alunos chegavam à escola e não entendiam o que o professor explicava. Mesmo depois de 1939, com a Campanha de Nacionalização do Ensino, o governo não tomou medidas que incorporassem os colonos alemães à cultura brasileira, e o aprendizado de toda uma geração foi afetado.

Durante todo esse tempo, Walachai viveu o limbo de dois idiomas que se cruzam.

Termos emprestados do português pelo hunsriqueano

HUNSRIQUEANOPORTUGUÊSALEMÃO-PADRÃO
FeschónFeijãoBohnen
FakónFacãoBuschmesser
KarétCarretaLastwagen
AmescheNêspera-
PastPastoWeide
MakákMacacoAffe
MuleMulaMaultier
OnzeOnçaJaguar
SchikótChicotePeitshe
KaroseCarroçaLeiterwagen
SchuraskeChurrascoGrill
KanelepaumCaneleiraZimtbaum