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terça-feira, 17 de setembro de 2013

1929 A grande crise

O primeiro best-seller a tratar dos colapsos econômicos mundiais
Por James K. Galbraith

Ao fim de seu relato, meu pai se esforçou, mostrando uma relutância que, já sabia, não seria levada a sério, para fazer comentários sobre a eventualidade da ocorrência de outro colapso. Havia muitas razões, entre elas a memória e a nova regulamentação, pelas quais isso não se daria. Certamente aí está a relevância principal do 1929, a grande crise para a crise ocorrida em 2008. Em ambos os casos o governo sabia o que deveria fazer. Também não o fez nas duas crises. No verão de 1929, ordens vindas de altos escalões do governo, um aumento na taxa de desconto, uma séria investigação dos esquemas de pirâmide e a casa de cartas de baralho de Wall Street, o maior centro financeiro dos Estados Unidos, teria desmoronado antes de a queda vir a destruir toda a economia. Em 2004, o FBI advertiu publicamente sobre “uma epidemia de fraudes hipotecárias”. Mas o governo nada fez. Além da inércia, havia uma combinação de baixas taxas de juros, desregulamentação e sinais evidentes de que as leis não seriam aplicadas. Segundo a Doutrina Greenspan, as bolhas não podem ser prevenidas, a tarefa do governo é apenas fazer a limpeza depois.

A prática de Greenspan foi criar uma bolha após a outra até finalmente surgir uma tão vasta que destruiu o sistema ao longo do caminho.

Ela surgiu de um ataque predatório às salvaguardas que haviam, durante décadas, mantido o financiamento habitacional seguro e estável.

Nos primeiros anos após 2000, a administração Bush enviou sinais claros de que as regulamentações sobre as hipotecas não seriam aplicadas. Os sinais não foram sutis. Seguiram-se todos os tipos de trama para espoliar os crédulos – empréstimos mentirosos, empréstimos sem documentação, empréstimos de risco explosivo eram os termos técnicos do negócio –, todos reunidos, classificados e securitizados, depois espalhados pelo mundo e deixados entregues ao declínio até que taxas de juros crescentes e preços que caíam estrondosamente fizeram o sistema naufragar. Tratava-se de fraude perpetrada, em primeira instância, pelo governo contra a população e pelos ricos contra os pobres. Os mutuários eram, é claro, cúmplices em alguns casos, contraindo hipotecas que jamais esperavam pagar. Aceitavam as alegações dos credores de que o valor das moradias sempre aumentava, que maus empréstimos podiam sempre ser refinanciados. Assim como em 1929, os arquitetos do desastre formam uma rica galeria de trapaceiros. O Velho Objetivista, Alan Greenspan, estava a par do desastre prestes a acontecer e mostrava indisposição resoluta em detê-lo.

O naufrágio de reputações infladas faz parte do divertimento de um colapso, ao menos em profunda retrospectiva. Em 1929, milhões de pessoas pensavam que podiam ficar ricas com facilidade, e algumas o conseguiram. O momento paralelo na história moderna ocorreu no fim da década de 1990, sob a presidência de Clinton, no boom da tecnologia da informação, que se dissolveu na virada da década. Os anos sórdidos após a guerra eleitoral Bush versus Gore, os anos após o 11 de Setembro, a guerra ao terror e a invasão ao Iraque não constituíram elementos nada semelhantes.

Sobre os autores
John Kenneth Galbraith (1908-2006) foi um dos economistas mais influentes do século XX. Escreveu dezenas de livros e milhares de artigos sobre economia política. Seus três livros mais famosos são Capitalismo americano (1952), A sociedade afluente (1958) e O Novo Estado industrial (1967).
James K. Galbraith nasceu em 1952. Leciona na Texas University, em Austin, e é autor dos livros The Predator State: How Conservatives Abandoned the Free Market e Why Liberals Should Too, ainda inéditos no Brasil. Filho de John K. Galbraith, escreveu uma nova introdução, que contempla a crise de 2008, para esta edição de 1929 – A grande crise.


As vítimas da insolvência estendem-se de um lado a outro da classe média americana, a milhões de cartões de crédito com empréstimos semipagos, a planos de aposentadoria e a um pouco de dinheiro, cujos rendimentos em juros, valor das ações possuídas e patrimônio imobiliário foram por água abaixo. Aquilo que em 1930 tomou a forma dramática de corrida aos bancos – o enxugamento das economias e da riqueza da classe média –, em 2009 tomou a forma de um colapso simultâneo, mês a mês, em valores de ativos, seguido pela falência, pela diminuição da estrutura e pela liquidação de negócios. Em tudo isso ocorreu com frequência menor privação extrema imediata – não há escassez de comida no país – do que o estancamento expressivo de possibilidades – de cursar uma faculdade, de conseguir um trabalho e de garantir uma aposentadoria. Isso também lança uma nuvem sobre nosso tempo. Assim como nos anos anteriores à crise não houve alegria, no mundo após a crise o desespero arrisca ser menos extremo, porém mais meramente assustador do que o foi na era de Roosevelt e do New Deal.

Também não se sabe se os acontecimentos após a crise seguirão os desastres de 1930 e as ocorrências dos anos posteriores. Nesta época de governo ultracontrolador, que os economistas chamam de estabilizadores automáticos, e estímulo fiscal imediato, as quedas são mais brandas e as recuperações ocorrem mais cedo do que foi o caso há quase um século. Levou quatro anos para os Estados Unidos chegarem a Roosevelt, enquanto, por um acidente de ajustamento político, os americanos conseguiram eleger e instalar Barack Obama logo após os desastres de Bush. A situação enfrentada pelo país, no momento, é menos medonha, o consenso atrás de medidas radicais é mais fraco e os instintos da administração são menos heroicos.

No entanto, tudo ainda pode dar errado. Por ora, a ampla economia parece ter se estabilizado e peritos debatem se o renascimento do mercado de ações do início de 2009 constitui o começo de uma recuperação ou uma nova onda de extorsão. A produção pode ser retomada, mas com uma parcela maior das importações. A administração parece determinada, por razões de política de poder que desafiam a lógica bancária, a manter todos os bancos e empresas de seguro, mesmo aqueles com vícios operacionais, vivos e intatos. Ninguém espera um ressurgimento precoce do emprego e não há nenhum plano sendo arquitetado para reempregar os milhões que perderam o trabalho. A Grande Crise até agora não produziu seus Harry Hopkins, Harold Ickes, Frances Perkins, Henry Wallace e outros cuja emergência final está aqui implícita.

Por todas essas razões, parece inteiramente improvável que os livros sobre a Grande Crise venham a ser tão interessantes quanto este sobre o Colapso de 1929.

Livro: 1929 - a grande crise 
Número de páginas: 192 
Autora: John Kenneth galbraith 
Editora: larousse 

Sobre o livro
Em 1997, John Kenneth Galbraith disse que havia paralelos óbvios e absolutos entre a crise do final da década de 1920 e a grande bolha do final da década de 1990. É claro, ele enfatizava, que toda bolha financeira desde 1929 era comparável à Grande Crise, razão pela qual este livro nunca saiu de catálogo desde que se tornou um best-seller em 1955. E novamente Galbraith mostra que sua análise está mais sedimentada do que nunca. E que a leitura de suas teorias ainda tem muito a oferecer a todos que querem entender o mundo econômico globalizado e os efeitos que ele pode ter na vida de cada um.
Revista Sociologia

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

O ‘New Deal’, by Vargas

Roosevelt atribuiu ao presidente brasileiro a coautoria da política econômica que pôs fim à crise americana nos anos 1930

Flávio Limoncic
“Duas pessoas inventaram o New Deal: o presidente do Brasil e o presidente dos Estados Unidos”. O autor da frase foi o próprio criador do histórico plano de recuperação da economia norte-americana, Franklin Delano Roosevelt (1882-1945). O elogio foi feito em visita ao Rio de Janeiro, em novembro de 1936, e referia-se ao governo de Getulio Vargas. 

Pode ter sido apenas uma gentileza do visitante. Ou alguém imagina que possa haver algo em comum entre o presidente que tirou os Estados Unidos da Grande Depressão e o líder que viria a ser, um ano depois, o ditador do Estado Novo, muitas vezes comparado a Mussolini? 

A associação é mesmo rara, mas Roosevelt não falou aquilo à toa. Diante da crise do liberalismo iniciada com o crash da Bolsa de Nova York, em 1929, e que se prolongaria por boa parte da década de 1930, ambos colocaram o Estado no centro da vida econômica de seus países: Roosevelt, para enfrentar os problemas de uma gigantesca economia industrial em depressão, e Vargas, para industrializar o Brasil. Ao fazê-lo, construíram pactos sociais com setores do movimento sindical e do empresariado. 

As obras públicas, projetos de desenvolvimento e de geração de emprego e renda foram acionados pelos dois. A Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), em Volta Redonda, cuja construção começou em 1941, se tornaria um marco do desenvolvimento industrial brasileiro, ao passo que a Tennessee Valley Authority, de Roosevelt, seria o mais ambicioso programa de desenvolvimento regional até então implementado. Para gerar empregos e renda, o New Deal lançou mão também de programas criativos como o Civilian Conservation Corps (CCC), que mobilizou 2,5 milhões de jovens na restauração de sítios históricos, manutenção dos Parques Nacionais, limpeza de reservatórios de água, conservação de solo e plantio de dois bilhões de árvores.

Por outro lado, Vargas e Roosevelt colocaram o Estado no coração das disputas entre capital e trabalho. No Brasil, os sindicatos foram enquadrados em uma estrutura corporativa, enquanto nos Estados Unidos a Lei Wagner (1935) lhes garantia mais liberdade. Ainda assim, as organizações de trabalhadores submetiam-se a uma série de procedimentos, obrigações e normas ditados pela Agência Nacional de Relações de Trabalho. Tal qual a Justiça do Trabalho de Vargas, a Agência tinha não só o poder de criar normas, mas também de julgar litígios. 

A Era Vargas e o New Deal buscaram ainda construir novas identidades nacionais para brasileiros e americanos, com a valorização da memória e da natureza de seus países. Vargas, além de ter criado o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Sphan, atual Iphan), criou também o Parque Nacional de Itatiaia, o primeiro do país, além dos Parques do Iguaçu e da Serra dos Órgãos. A capoeira e o samba foram apropriados pelo regime como símbolos da nação e cantigas folclóricas foram elevadas à condição de grande arte sob a batuta de Heitor Villa-Lobos. Nos Estados Unidos, o muralismo de inspiração mexicana, o realismo social e as cenas coletivas espalharam-se por repartições públicas e sítios históricos de todo o país. A arte era financiada pelo Projeto Federal de Artes, o Projeto Federal de Música e o Projeto Federal de Teatro, e passou a retratar o homem comum, os trabalhadores rurais, os índios, os hispânicos, os negros, assim como as belezas naturais do país. As sociedades brasileira e americana, por iniciativa, incentivo ou financiamento do Estado, repensavam suas identidades e eram convidadas a ver “sua melhor face”. Não nos Du Pont, família de grandes empresários, ou nos cafeicultores e industriais paulistas, mas nos “trabalhadores do Brasil” de Vargas e nos “homens esquecidos” de Roosevelt.

A nova força do Estado chegou a expressar-se em um culto às personalidades dos dois presidentes. Vargas, o “Pai dos Pobres”, multiplicava-se em retratos pendurados nos lares das famílias trabalhadoras e em salas de sindicatos, assim como as fotos de Roosevelt, embora, no caso americano, essa não fosse uma política deliberada. E ambos também fizeram uso intenso do rádio para se comunicar diretamente com os “trabalhadores do Brasil” e os “homens esquecidos”. Na “Hora do Brasil”, Vargas falava de suas ações e realizações, ao passo que nas fireside chats – programas radiofônicos ouvidos pelas famílias ao redor da lareira –, Roosevelt falava de suas iniciativas para combater a crise. 

Numa época em que as lideranças carismáticas eram associadas ao fascismo, ao nazismo e ao comunismo, o presidente norte-americano também se viu acusado de ser personalista e autoritário. Seu discurso de posse, no dia 4 de março de 1933, parece ecoar notórios ditadores do período: 

“Se queremos nosso progresso, devemos nos mover como um exército treinado e leal, disposto ao sacrifício em nome da disciplina comum, porque sem tal disciplina, nenhum progresso é possível, nenhuma liderança torna-se efetiva. Estamos, sei, prontos e desejosos de submeter nossas vidas e propriedades a tal disciplina, porque ela torna possível uma liderança cujo objetivo é o bem comum”. 

Ao contrário de Vargas, no entanto, Roosevelt não fechou o Congresso. Mas tampouco atacou o traço mais antidemocrático do sistema político e da sociedade americana: a negação do direito de voto aos negros e a segregação racial. Diante de uma Constituição fortemente federalista, Roosevelt preferiu não enfrentar o direito dos estados de decidirem de modo autônomo suas legislações raciais – ainda que tenha dado mostras de simpatia pelo fim da segregação. Em 1939, quando a cantora lírica negra Marion Anderson foi impedida de cantar no auditório da associação Daughters of the American Revolution, em Washington, a primeira-dama, Eleonor Roosevelt, articulou a realização de um concerto público no monumental Lincoln Memorial. A praça recebeu 75 mil pessoas. 

Uma grande distância havia sido percorrida desde 1915, quando o filme “O nascimento de uma nação”, que mostrava a ação da Klu Klux Klan em defesa da supremacia branca, recebeu comentários elogiosos do então presidente democrata Woodrow Wilson. Ainda assim, os trabalhadores negros, duramente atingidos pelo desemprego (que em 1933 chegou a 30%), foram menos beneficiados do que os brancos pelas políticas do New Deal. E não só eles. Como no Brasil de Vargas, os benefícios trabalhistas e previdenciários do New Deal deixaram de fora trabalhadores rurais e domésticos. Nos dois países, as populações do interior foram beneficiadas por outros tipos de políticas públicas, como o Serviço Nacional de Febre Amarela e o Tennessee Valley Authority, que favoreceu uma das regiões mais pobres dos Estados Unidos.

Ao longo de doze anos (ele foi eleito quatro vezes consecutivas, em 1932, 1936, 1940 e 1944), Roosevelt, de sua cadeira de rodas, liderou o combate à Grande Depressão e conduziu seu país na Segunda Guerra Mundial. Fisicamente esgotado, morreu vítima de um derrame cerebral antes de ver a vitória aliada na Europa e a pujança da economia americana do pós-guerra, que ajudou a forjar com o New Deal. O suicídio de Vargas, por seu lado, acabou para agigantá-lo diante de seus antecessores e sucessores, a maioria dos quais figuras incapazes, se não de ter a grandeza de sair da vida para entrar na História, ao menos de ter a coragem de entrar na História enquanto vivas. Suas mortes, quase épicas, certamente contribuíram para a construção de seus mitos.

Porém, mais do que mitos, Roosevelt e Vargas foram os grandes divisores de águas das histórias de seus países no século XX. No momento em que o mundo enfrenta uma crise econômica que a muitos faz lembrar a Grande Depressão, o New Deal e a Era Vargas voltam ao centro do debate político e acadêmico. 

Flávio Limoncic é professor da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO) e autor de Os inventores do New Deal: Estado e sindicatos no combate à grande depressão (Civilização Brasileira, 2009). 

Saiba Mais - Bibliografia: 

ARRUDA, José Jobson de Andrade. “A crise do capitalismo liberal”. In: Daniel Aarão Reis Filho; Jorge Ferreira; Celeste Zenha. (orgs.). O século XX. O tempo das crises. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000. 
HOBSBAWM, Eric. A era dos extremos. O breve século XX. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. 

PANDOLFI, Dulce (org.). Repensando o Estado Novo. Rio de Janeiro: Editora FGV, 1999.

A volta do Estado forte?

“That’s my man!”, exclamou Obama ao encontrar o presidente do Brasil, em frase livremente traduzida como “Lula é o cara!” As palavras do novo presidente americano lembram as de Roosevelt, que em 1936 dividiu com Vargas a paternidade do New Deal. Os tempos são outros – e a crise também –, mas os passos dos atuais governantes seguem uma trilha parecida com a daquela época: o Estado sai da sombra para segurar as pontas do liberalismo que desandou. 

Entoado como um mantra na década de 1990, o neoliberalismo disseminou-se com base em uma cartilha imutável para as nações que desejassem participar do maravilhoso capitalismo globalizado: investimentos privados, créditos ampliados e empresas multinacionais só chegariam aos países que segurassem a inflação e “enxugassem” a máquina pública. 

Era o auge da teoria do “Estado mínimo”. Os mercados passaram a se “autorregular” e as privatizações reduziram a máquina pública ao mínimo indispensável (ou menos que isso). Por aqui, a onda marcou os mandatos de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), quando empresas de telecomunicações, de energia elétrica e de mineração, entre outras áreas, passaram para a iniciativa privada. 

Mas a desregulamentação radical dos mercados virou um tiro no pé, e é apontada como principal causa da crise atual, que eclodiu nos Estados Unidos e se espalhou pelo mundo. A ironia é que as empresas e os bancos, até então adeptos da não intervenção estatal, correram ao governo para pedir uma mãozinha assim que se viram às portas da falência. Em todo o mundo, esse socorro público já ultrapassou dois trilhões de dólares.

No Brasil, Lula (eleito em 2002) sempre adotou políticas de forte intervenção estatal na economia, acusado pela oposição de aumentar os impostos e não reduzir gastos nem pessoal. Agora que a maré virou, sua agenda “antineoliberal” entrou na ordem do dia.

Em tempos de crise – já ensinavam Roosevelt e Vargas –, quem não quer um Estado forte?
Revista de História da Biblioteca Nacional

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Crise de 1929 atingiu economia e mudou a ordem política no Brasil Leia Mais: Crise de 1929 atingiu economia e mudou a ordem política no Brasil

Plantação da rubiácea no interior paulista: o 'estado com um bilhão de pés de café'
http://www.passeiweb.com

GIULIANA VALLONE
da Folha Online

A Crise de 1929 atingiu em cheio a economia do Brasil, muito dependente das exportações de um único produto, o café. Mas, mais do que gerar dificuldades econômicas, o crash que completa 80 anos em 2009 provocou uma mudança no foco de poder no país, acabando com um pacto político interno que já durava mais de trinta anos.

Entre os anos de 1894 e 1930, o presidente da República foi eleito pelos paulistas barões do café num mandato, e no outro pelos pecuaristas mineiros. Era a chamada política do café com leite, viabilizada pela hegemonia da oligarquia cafeeira paulista na época e que garantiu a formação de uma economia agrícola praticamente monoexportadora no país.

Em 1929, a quebra nos mercados acionários do mundo provocou uma forte queda nos preços internacionais das commodities. "O Brasil era fortemente dependente das exportações de café, e tinha uma enorme dívida externa, que precisava ser financiada com essas vendas", afirma o professor de História Econômica da FEA-USP, Renato Colistete.

Além da queda nos preços, a crise provocou uma diminuição na renda e no consumo no mundo todo, prejudicando ainda mais as vendas de café. As exportações do produto, que chegaram a US$ 445 milhões em 1929, caíram para US$ 180 milhões em 1930. A cotação da saca no mercado internacional, caiu quase 90% em um ano.

Fogueira

Na tentativa de conter a queda, o governo federal comprou grande parte dos estoques dos produtores, e queimou 80 milhões de sacas do produto. "A ideia era queimar para diminuir a oferta e aumentar o preço internacional, porque o Brasil era o maior país exportador", segundo Marcos Fernandes, coordenador do Centro de Estudos dos Processos de Decisão da FGV-SP.

"A crise arruinou a oligarquia cafeeira, que já sofria pressões e contestações dos diferentes grupos urbanos e das oligarquias dissidentes de outros Estados, que almejavam o controle político do Brasil", explica Wagner Pinheiro Pereira, doutor em História pela USP e autor do livro "24 de Outubro de 1929: A Quebra da Bolsa de Nova York e a Grande Depressão".

Poder

O que aconteceu, então, foi que o foco do poder no país foi deslocado para o gaúcho Getúlio Vargas, que se tornou presidente da República após a Revolução de 1930. "Do ponto de vista político, a crise foi importante porque desviou o foco do poder para Getúlio Vargas e para um projeto de industrialização", diz Fernandes.

O novo presidente, porém, sabia que, mesmo com o fim da oligarquia paulista, o café não podia ser deixado de lado. Assumiu, então, uma nova política de defesa da cafeicultura, na tentativa de equilibrar os preços e evitar a superprodução.

"Não podemos esquecer que Getúlio era o pai dos pobres e a mãe dos ricos", diz Fernandes. "Ele tratou de não romper tão radicalmente com a oligarquia agrícola, e o café continuou sendo importante no Brasil. Isso começa a mudar mesmo a partir de Juscelino Kubitschek e, principalmente, a partir do Golpe de 1964."

A Grande Depressão, porém, dificultou os esforços do governo para ajudar o café e "somente no final da década de 1930 o café começou a recuperar os bons preços nos mercados internacionais", segundo Pereira.

Leia Mais: Crise de 1929 atingiu economia e mudou a ordem política no Brasil Café - Revista Cafeicultura http://www.revistacafeicultura.com.br/index.php?tipo=ler&mat=27265&crise-de-1929-atingiu-economia-e-mudou-a-ordem-politica-no-brasil#ixzz1ZL5nwc9A

http://www.revistacafeicultura.com.br

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Roosevelt

Você está vendo uma imagem pouco comum de Theodore Roosevelt, retrato comprimento três-quartos, de pé no carro, acenando com o chapéu. Ela foi tirada entre 1909 e 1932
A imagem mostra Roosevelt, Theodore, 1858-1919.


Washington - 1939

Quando Franklin Delano Roosevelt chegou a presidência, havia nos Estados Unidos quinze milhões de trabalhadores sem trabalho, que olhavam com cara de meninos perdidos. Muitos levantavam o polegar nas estradas e peregrinavam de cidade em cidade, descalços ou com cartolinas sobre as solas furadas, transformando em hotéis os mictórios públicos e estações de trem.

Para salvar sua nação, a primeira coisa que Roosevelt fez foi engaiolar o dinheiro: fechou todos os bancos até que o panorama ficasse mais claro. E desde então governou a economia sem se deixar governar por ela, e consolidou a democracia ameaçada pela crise.

Com os ditadores latino-americanos, porém, se dá muito bem. Roosevelt os protege, como protege os automóveis Ford, as geladeiras Keivinnator e todos os outros produtos industriais dos Estados Unidos.

Manchester, William. Gloria y ensueno. Una historia narrativa de los Estados Unidos. Barcelona, Grijalbo, 1976.

Memória do Fogo III - Eduardo Galeano

sábado, 30 de janeiro de 2010

A devoção à verdade

O líder espiritual e político indiano lança uma autobiografia
e relata sua árdua campanha em favor da independência
do território do domínio dos britânicos. A seguir, um trecho da obra

O líder popular dos indianos trabalha numa roda de fios de algodão: 'conquistar as paixões mais sutis é a parte mais difícil'

Até agora, minha vida tem sido tão pública que não existe quase nada sobre mim que as pessoas já não saibam. Mas tenho me dedicado a um esforço incessante: descrever a verdade, da forma que a vejo, e da exata maneira pela qual cheguei a ela. Com esse exercício, ganhei uma inefável paz mental. Minha experiência como um todo convenceu-me de que não há outro Deus que não a verdade. Por enquanto, porém, só consegui ver alguns relances dessa verdade, e essas dão apenas uma idéia de seu indescritível brilho, um milhão de vezes mais intenso do que o do sol, que vemos todos os dias com nossos próprios olhos.

Para ver o espírito universal da verdade de perto, uma pessoa deve ser capaz de amar até a mais perversa das criaturas como se fosse ela mesma. E um homem que aspira a isso não pode se ausentar de qualquer setor da vida. É por isso que minha devoção à verdade me levou ao campo da política. Posso dizer, sem qualquer hesitação e com toda a humildade possível, que aqueles que dizem que a religião não tem nada a ver com política não sabem o que a religião significa.

Atração e repulsão - A identificação com qualquer ser vivo é impossível sem a autopurificação. Deus não pode ser percebido por alguém que não é puro de coração. A autopurificação, portanto, deve significar a pureza em todos os aspectos da vida. E como a purificação é altamente contagiosa, quando alguém se purifica, purifica também o que está ao seu redor. O caminho para isso, porém, é duro e íngreme. Para conquistar a pureza perfeita, uma pessoa não pode ter paixão no pensamento, no discurso e nas ações; deve ficar acima das correntes de amor e ódio, atração e repulsão.

Sei que ainda não tenho essa tripla pureza, apesar de lutar de forma constante e incessante nesse sentido. É por isso que todos os elogios do mundo não me comovem; na verdade, eles me provocam. Para mim, conquistar as paixões mais sutis é mais difícil do que a conquista física do mundo pela força das armas. Desde meu retorno à Índia, convivi com as paixões que se escondiam dentro de mim. Ter descoberto essas paixões me fez sentir humilhado, mas não derrotado. As experiências que me trouxeram até aqui me deram grande alegria. Mas sei que ainda tenho um caminho difícil a atravessar. Preciso reduzir-me a zero. Se um homem não se coloca por vontade própria como último entre todas as outras criaturas, não há salvação para ele.

Mohandras Karamchand Gandhi, de 60 anos, é advogado e ativista político. Entre 1893 e 1914, morou na África do Sul, onde participou de campanhas ligadas ao movimento de direitos civis naquele país. Na volta à Índia, tornou-se figura destacada nas manifestações em benefício dos pobres e das mulheres. Trabalha há mais de uma década para reduzir as tensões religiosas e étnicas na Índia e, principalmente, pela independência do território, controlado pela Grã-Bretanha. Gandhi, apelidado de "Mahatma" ("grande alma" em hindu), usa métodos que chamaram a atenção de todo o mundo. Ao invés de estimular o conflito violento com os britânicos, usa como armas a desobediência civil e a resistência pacífica para tentar alcançar seus objetivos.

Revista Veja História

No país do Papa

Com poderes ilimitados e polpuda indenização em caixa,
Pio XI molda a estrutura do recém-criado estado do Vaticano. E já
incomoda seu vizinho, o ditador fascista Benito Mussolini

Autonomia e compensação financeira: a assinatura do tratado, em fevereiro último, com representantes do papa e o Duce

Em setembro de 1870, quando as tropas de Vittorio Emanuelle II, proclamado rei da recém-unificada Itália, subjugaram e anexaram a cidade de Roma, o papa Pio IX enclausurou-se nos muros do Vaticano. A essa altura, o Risorgimento italiano já havia tomado a maioria dos estados papais, e o pontífice, para não se submeter à nova ordem política na Velha Bota, rompeu relações com a monarquia e declarou-se um prisioneiro do poder laico. O mal-estar entre o estado e a Igreja finalmente chegou ao fim em fevereiro deste ano, quando o papa Pio XI e o ditador fascista Benito Mussolini, o "Duce", assinaram o Tratado e o Concordato de Latrão, que determinaram a criação do estado soberano do Vaticano, reconheceram o catolicismo como religião oficial da Itália e ainda garantiram à Santa Sé uma polpuda compensação financeira pelas anexações dos rincões papais. Livre depois de quase seis décadas, é o Santo Padre que agora se esbalda com seus poderes de chefe-de-estado, literalmente mandando prender e mandando soltar dentro do Vaticano.


O Santo Padre: rádio e jornal próprios

Com a garantia da indenização da administração italiana, de 750 milhões de liras, à vista, e de um bilhão de liras em títulos do governo, o chefe da Santa Sé começa a estruturar uma respeitável aparelhagem estatal – boa parte dela, a seu serviço imediato. Já existe um diário oficial, o L’Osservatore Romano, e Pio XI, de acordo com seus assessores próximos, planeja estruturar no futuro próximo uma rádio oficial para alardear o cristianismo e, claro, a palavra papal. O maior candidato para tocar a empreitada é Guglielmo Marconi. Está em circulação a moeda corrente do Vaticano, a lira vaticana, com a efígie do sumo pontífice, também aceita na Itália e que tem valor parelho ao da lira italiana. O serviço postal do Vaticano foi inaugurado em fevereiro. Já o Corpo da Gendarmaria Pontifícia e o Corpo da Guarda do Papa, com suas coloridas fardas desenhadas por Michelangelo, ganham ainda mais liberdade dentro do Vaticano para assegurar a proteção do agora chefe de estado Pio XI.

Para completar, em junho último, foi promulgada a Lei Fundamental do Estado do Vaticano, que dá ao sucessor de São Pedro a plenitude dos poderes Legislativo, Executivo e Judiciário no enclave de 0,44 quilômetro quadrado ao norte de Roma e em mais doze edifícios espalhados pela cidade, incluindo o Palácio de Castelgandolfo. Os bens da Santa Sé, sua administração, a biblioteca, o arquivo, a livraria e a tipografia do Vaticano também estão diretamente subordinados à vontade do pontífice. Tal lei criou a figura do governador, que pode criar regras para a ordem pública na cidade-estado, com a anuência do Conselho. Porém, a escolha do governador é exclusiva do papa, e pode por ele ser revogada a qualquer momento, sumariamente. Qualquer semelhança com os plenos poderes de Mussolini não é mera coincidência – ao menos para os cartunistas locais, que não se cansam de produzir caricaturas retratando Pio XI envergando a camisa negra do fascismo e o Duce com a tiara papal em sua careca.


O rei Vittorio: encontro simbólico

Os dois manda-chuvas, aliás, trocaram algumas farpas há alguns meses – Mussolini dizendo à Câmara dos Deputados que "a Igreja é soberana apenas no reino da Itália, e não no estado italiano", com a resposta de Pio XI lamentando as declarações hereges do fascista. As arestas ainda não foram completamente aparadas. Para acabar de vez com a animosidade, no fim do ano, de acordo com informações extra-oficiais, o Santo Padre deve receber pela primeira vez no Vaticano o rei Vittorio Emanuele III, em um encontro simbólico para selar a paz entre a monarquia e a Igreja. Mas também aí se descortina um problema diplomático. Pelas rígidas regras cerimoniais do Vaticano, todo soberano católico deve ajoelhar-se ao pé do papa e beijar seu dedão. Benito Mussolini, porém, é radicalmente contra o ósculo, preferindo o tradicional aperto de mão entre dois chefes de estado. Fontes ligadas ao príncipe Umberto garantem que este prefere o cumprimento da formalidade. Este beijo ainda dará muito o que falar.
VEJA, outubro de 1929

Revista Veja História

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Brasil - A bola da vez

Turbulência americana acentua a crise do café no Brasil
e causa temor de quebras em cadeia na economia nacional. País está atolado
com produção e estoques muito maiores do que a demanda

Não se sabe o que fazer com tanto café: com demanda insuficiente, produtores brasileiros começam a queimar estoques

A periclitante situação da economia cafeeira já era assunto obrigatório em quase todas as esquinas paulistanas. Com a diminuição das exportações e a queda no preço do grão, chegam à ordem de centenas as empresas levadas a registrar falências e concordatas neste ano – apenas em setembro, foram 72, de acordo com o Correio da Manhã. Mas o amaldiçoado mês de outubro nos Estados Unidos tornou mais dramática a conjuntura do café no Brasil. Em primeiro lugar, ainda na quinzena inicial do mês, o preço do grão caiu 200 pontos em dois dias na Bolsa de Café e Açúcar de Nova York – de 19,25 dólares passou a 16,65. A queda vertiginosa no comércio futuro do café nacional foi explicada pelo vice-presidente da instituição, Benjamin B. Peabody, por "rumores inquietantes a respeito da situação do Brasil". Para completar o cenário funesto, o crash na Bolsa de Valores de Nova York, que colocou a economia americana à beira de um colapso, deve inviabilizar o empréstimo de 50 milhões de dólares que a Casa Branca planejava ceder ao governo brasileiro para ajudar os fazendeiros via Instituto do Café.

Os bons tempos de ouro negro estão mais distantes do que nunca. O Brasil não tem mais para onde escoar sua pantafaçuda produção, que deve chegar neste ano a mais de 21 milhões de sacas, superando e muito as previsões iniciais, que falavam em 13 milhões. São Paulo, orgulhoso de ser o "estado com um bilhão de pés de café", é responsável por quase dois terços da produção mundial da rubiácea. Tudo isso seria excelente se a demanda mundial crescesse em igual proporção. Mas as exportações seguem caindo – 15 milhões de sacas em 1927, 13,8 milhões em 1928. Pior: o café exportado hoje pelo Brasil é da safra de dois anos atrás, o que significa que ao menos 20 milhões de sacas estão estocadas. A diminuição massiva da venda do café tem tudo para desencadear um rombo na economia brasileira, baseada três quartos na exportação do grão. Quando a notícia da queda em Nova York chegou ao Rio de Janeiro, os operadores da bolsa local, também em acentuada baixa, não enviaram os resultados do fechamento diário para os Estados Unidos, como de costume, temendo que os números no vermelho ampliassem ainda mais o derrocada do café no hemisfério norte.

Plantação da rubiácea no interior paulista: o 'estado com um bilhão de pés de café'

Especialmente depois da debacle de Wall Street, o governo do presidente Washington Luiz encontra-se em uma sinuca de bico. O consumo mundial de café é estimado hoje em 22 milhões de sacas. O Brasil está atolado com uma produção e um estoque muito maiores do que a demanda – isso sem falar na quase certa recessão de um de nossos principais compradores, os Estados Unidos, e na concorrência de países que, atraídos pelos lucros obtidos aqui com a rubiácea, investiram na cafeicultura e começam a colocar no mercado grãos de qualidade a preços módicos. Manter o café nos armazéns para valorizá-lo, como foi marca registrada da política cafeeira paulista durante a década, já não surte efeito. O governo não tem mais dinheiro para comprar a produção e manter os preços em patamares razoáveis. Em compensação, simplesmente abrir a porta dos armazéns e despejar a produção no mercado faria depreciar ainda mais os valores já rasos do grão, e causaria certamente uma quebradeira em cadeia na economia paulista e nacional. Impulsionar a indústria e diversificar a produção são as saídas óbvias, mas ambas são soluções a, no mínimo, médio prazo, e não aliviam a pressão sobre a economia. A bolha especulativa do mercado financeiro já estourou, causando a quebra da Bolsa de Valores de Nova York. Será o precioso ouro negro o próximo alvo?

Revista Veja

Oráculo do Apocalipse

Antes atacado e ridicularizado por Wall Street, o teórico
Roger Babson, que anunciou com dois meses de antecedência a
ocorrência do crash, é o novo guru financeiro americano

Agora eles acreditam na quebra: investidor falido coloca seu Cadillac Fleetwood à venda por 100 dólares em Wall Street

Via de regra, depois de tragédias ou catástrofes, surgem finórios que garantem ter anunciado a calamidade com semanas ou até meses de antecedência – são os chamados profetas do acontecido. Estes, porém, não têm encontrando muito espaço para apregoar seus supostos feitos no caso do crash da Bolsa de Nova York. Tudo porque, há pouco menos de dois meses, diante de uma platéia de peso, rodeado por lentes e microfones, um homem já havia monopolizado as atenções ao antecipar, com todas as letras, o colapso que se avizinhava de Wall Street. O teórico econômico Roger Babson, na ocasião ridicularizado pela maioria de seus pares, é agora, consumado o sinistro, visto e ouvido como autoridade inconteste pela população americana, que lamenta apenas não ter dado mais atenção quando ele, em 5 de setembro, disparou sua previsão: "Mais cedo ou mais tarde, o crash virá, e poderá ser tremendo".

Sábio de Wellesley: 'notória inexatidão'


Era a Conferência Anual das Empresas Nacionais, em pleno mês em que as médias do jornal The New York Times disparavam aos céus. O discurso sombrio de Babson teve, a bem da verdade, uma pequena reação no mercado – os índices do Times caíram 10 pontos e o volume de vendas foi alto (5.565.280 ações negociadas). O solavanco daquela quinta-feira foi apelidado de "Baixa de Babson". O mercado, contudo, recuperou-se na sexta e no sábado, e a patrulha de Wall Street, triunfante, tratou de rebater e até ironizar as palavras do teórico. A corretora Hornblower and Weeks emitiu a seguinte declaração: "Não vamos começar a vender ações descontroladamente por causa da previsão injustificada de um estatístico". O Barron’s, semanário econômico publicado pela Dow Jones, garantiu que o "sábio de Wellesley" não deveria ser levado a sério, até por conta da "notória inexatidão" de suas previsões anteriores. De fato, Babson, 54 anos, formado pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês) e sócio-fundador da Organização Estatística Babson – empresa que fornece boletins sobre ações a bancos e investidores –, vinha tropeçando ao lustrar sua bola de cristal ultimamente.

Polêmico, é autor de um trabalho que gira em torno de uma premissa muito discutível: o Babsonchart, índice econômico que criou em conjunto com o professor de engenharia George F. Swain. Fã de Isaac Newton, Babson acredita que as leis de ação e reação apresentadas pelo cientista podem explicar também o ciclo econômico, e criou um indicador, de acordo com seu conceito, supostamente capaz de prever o futuro na economia. Até agora momento, não havia tido grande sucesso. Mas seu instrumento o permitiu não apenas anunciar, em setembro, o iminente crash como também, no dia 22 de outubro – logo, dois dias antes da quinta-feira negra –, aconselhar os investidores a venderem suas ações. "Comprem ouro!", exortou. Depois desses arrebatadores acertos, o controverso teórico começa a ser tratado como um guru econômico, e os cursos do Instituto Babson – escola de administração e negócios fundada por ele em 1919 – recebem inúmeros pedidos de matrícula. Entretanto, para o bem de toda a sociedade, seus novos discípulos precisam torcer para que outra das previsões de Babson, sentenciada também na Conferência Anual das Empresas Nacionais, seja um equívoco estrondoso. Vaticinou o professor: "As fábricas fecharão, os empregados serão demitidos, o círculo vicioso entrará em plena ação e o resultado será uma séria depressão econômica".

Revista Veja

QUEBROU!

QUEBROU!
Uma irrefreável onda de vendas derruba o preço das ações,
causa pânico na Bolsa de Nova York e leva milionários à bancarrota.
Para onde vai a economia do país mais rico do mundo?

Um terremoto em Manhattan: investidores e curiosos amontoados diante da Bolsa de Valores de Nova York na 'quinta negra'

Um alvoroço incomum nos arredores da Bolsa de Valores de Nova York chamou a atenção do comissário de polícia da cidade, Grover Whalen, na última quinta-feira, dia 24. Por volta das 11 horas, um rugido cavernoso começou a escapar do edifício. Alguns minutos depois, já não era possível identificar se o bramido vinha de dentro ou de fora da Bolsa; uma multidão estrepitosa tomara as cercanias de Wall Street e Broad Street, como formigas rodeando um torrão de açúcar esquecido na pia da cozinha. Alarmado, o comissário logo enviou um destacamento especial para a região. A turba, contudo, não representava uma ameaça à ordem pública, como o oficial perceberia mais tarde. Com olhares horrorizados e incrédulos, os nova-iorquinos, espremidos uns aos outros, estavam inertes. Eles apenas esperavam, não se sabe ao certo quem ou o quê. Era o pânico.

Dentro do prédio, a consternação era semelhante, e estava ainda mais evidente na agitada face de corretores e operadores, protagonistas e testemunhas do acontecimento que pode mudar os rumos da economia mundial. Símbolo maior da pujança econômica dos Estados Unidos, o mercado de ações, que se tornou verdadeira mania nacional nesta década gloriosa para os americanos, via seu baluarte, a rica e poderosa Bolsa de Nova York, despedaçar-se em poucos minutos naquela que já entrou para os anais como a "quinta-feira negra". Uma onda súbita e sem precedentes de vendas tomou de assalto o pregão nova-iorquino. Ações outrora valorizadas simplesmente não encontravam novos compradores, nem mesmo por verdadeiras ninharias. Os preços dos papéis, fossem eles da United States Steel ou da American Telephone and Telegraph, caíam vertiginosamente, arrastando com eles as economias, esperanças e sonhos de milhares de americanos levados à bancarrota instantânea.

Vendendo a qualquer preço: operadores tentam se livrar dos papéis por ninharias


Desde então, Wall Street presenciou outras duas jornadas calamitosas – em 28 e 29 de outubro, "segunda-feira negra" e "terça-feira negra", este último o dia mais nefasto de toda a história do mercado mundial em volume de vendas e queda de preços –, que fornecem a incômoda impressão de que a incerteza e o temor vieram para ficar. As palavras otimistas dos políticos, banqueiros e magnatas, que deram um alento aos investidores após o crash do dia 24, já não surtem mais tanto efeito, ainda que insistam em anunciar uma suposta solidez da economia. Especialistas concordam que os últimos dias de outubro criarão seqüelas não só no mercado financeiro e na economia americana, mas também, por conseqüência direta, em todo o mundo. A real extensão do estrago, porém, só será dimensionada quando a poeira baixar. Ninguém, por enquanto, ousa dizer quando isso poderá acontecer.

Nos últimos anos, o fenomenal desempenho das ações parecia desafiar o adágio de que tudo que sobe deve descer. Há pouco mais de um mês, em 3 de setembro, o índice de ações industriais publicados pelo diário The New York Times atingia seu ápice histórico, com 452 pontos. Em 1925, o mesmo indicador registrava 159 tentos. A facilidade da compra de ações seduziu milhares de investidores, que colocavam todo o dinheiro que tinham, e especialmente o que não tinham, em pedaços de papéis certificados. Comprar ações "na margem" – pagando uma pequeníssima parcela do valor e tomando o restante emprestado do corretor ou do banco – era, até dias atrás, prática absolutamente comum e aparentemente segura. Afinal, como as ações não paravam de se valorizar, bastava vendê-las, quitar o débito com o credor e embolsar o lucro. A euforia era infinita.

Por trás dela, entretanto, escondia-se uma realidade para a qual os otimistas faziam vista grossa. Enquanto os preços das ações subiam, disparavam também os empréstimos dos corretores – no final do verão americano, o montante chegara a sete bilhões de dólares –, tornando a especulação a grande alavanca desse crescimento. Não havia, assim, segurança ou liquidez nessa enxurrada de capital que desembarcava em Nova York. Mas a aparência firme do mercado fazia dissipar qualquer preocupação com os empréstimos, e a especulação encontrava campo aberto e convidativo para se alastrar e aumentar ainda mais o valor das ações.

População alarmada: nos arredores de Wall Street, expectativa pela recuperação

Algumas vozes já vinham predizendo, nos últimos meses, um estouro da bolha especulativa que alimentava os estratosféricos índices da Bolsa de Nova York. E não havia nesses oráculos nenhum tom sobrenatural – apenas o escrutínio dos fatos e as lições de quebras passadas. Contudo, alertar para essa situação significava ser tachado de destrutivista ou anti-patriota. O teórico Roger Babson, que, no início de setembro, cunhou seu agora célebre vaticínio – "mais cedo ou mais tarde, o crash virá, e poderá ser tremendo" –, foi ironizado, desacreditado e assacado pelos guardiões de Wall Street. Entretanto, uma análise minuciosa mostra que, desde então, no restante dos meses de setembro e outubro, o mercado já vinha se mostrando demasiado irregular, com ligeira curva decrescente, apesar de o entusiasmo com o bull market (o mercado altista) ainda caracterizar a Bolsa de Nova York.

A situação ganhava contornos mais alarmantes e dramáticos quando se notava que também outros indicadores econômicos nos Estados Unidos vinham apresentando declínio acentuado neste ano. Os índices da produção industrial e fabril estavam em queda desde junho, bem como a produção de aço. A construção de casas seguia o ritmo decadente dos últimos anos. Ainda assim, o banqueiro Charles E. Mitchell, presidente da diretoria do National City Bank, garantiu numa visita à Alemanha, no último dia 15, que nada seria capaz de deter o vigoroso movimento ascendente. "Os mercados em geral estão em uma condição salutar. Os valores têm uma base sólida na prosperidade geral do país", festejava. Já o professor Irving Fisher, catedrático da Universidade de Yale e respeitadíssimo economista, foi mais direto. "O preço das ações alcançou o que parece ser um nível permanentemente elevado. Espero ver, dentro de poucos meses, o mercado de valores bem mais alto do que está hoje." Como se constataria em poucos dias, não apenas o provérbio sobre subir e descer se fez valer, ainda que de forma tardia. Outro ditado também mostrou sua força: quanto maior a altura, maior a queda.

As primeiras horas do pregão de 24 de outubro em Wall Street passarão às páginas da história como responsáveis por abrir o alçapão em que sucumbiu a Bolsa de Nova York neste fim de década. Não se chegou, até agora, a uma explicação plausível sobre o frenesi que levou os investidores a se desfazerem, literalmente a qualquer custo, de suas antes preciosas ações naquela quinta-feira. Mas desde o início da semana as vendas já se mostravam significativas, e os índices desciam escadaria abaixo. Com o grande volume de negócios, os tickers instalados nas corretoras ao redor do país – máquinas que imprimem em fita as cotações dos papéis selecionados – não davam conta de atualizar as cotações em tempo real. Ainda na segunda-feira, o ticker só terminou de trazer o péssimo resultado daquele dia uma hora e quarenta minutos após o fechamento. Quando os investidores percebiam que poderiam estar arruinados, já era tarde demais para tomar qualquer providência. Mesmo assim, 6.091.870 títulos mudaram de mãos, no que se tornou o terceiro maior volume de negócios da história da Bolsa.

O 'ticker' pifou: cotações atrasadas

Na quarta, véspera do primeiro colapso, depois de um começo tranqüilo, vendas massivas de ações de acessórios de automóveis foram registradas; pouco depois, toda a lista entrava na dança. Apenas na última hora do pregão, 2.600.000 ações foram vendidas. A média industrial do Times despencou de 415 para 384, o que representou, na prática, a anulação de todo lucro registrado desde o fim de junho. Para piorar, a queda levou à convocação de um sem-número de investidores para pagamento do aumento da margem. Muitos não tinham nenhuma economia; todo o dinheiro estava aplicado nas ações. Não havia outra alternativa, então, senão se desfazer dos papéis para recuperar o investimento – ou o que restava dele. A essa altura, milhares de pessoas já haviam decidido abandonar o barco enquanto, imaginavam, ainda havia uma saída viável. Ela não existia.

Foi quando veio, finalmente, a quinta-feira negra. O volume de vendas no início do dia foi inacreditavelmente grande, o que fez os preços cederem com notável rapidez. Novamente, o ticker atrasava, retardando a revelação da catástrofe iminente. Dominadas pelo medo, mais e mais pessoas decidiam vender suas ações. As que não conseguiram atender às chamadas para o pagamento do aumento da margem estavam simplesmente liquidadas. Por volta das 11h30, os reflexos do pânico já haviam se alastrado: onze conhecidos especuladores haviam cometido suicídio. As bolsas de Chicago e Buffalo fecharam. O clima dentro da Bolsa de Nova York era desesperador: pouco depois do meio-dia, funcionários cerraram a galeria dos visitantes para que nenhum curioso testemunhasse as cenas de agonia que se descortinavam no salão abaixo.

Efeito devastador: fila para saque em um banco do estado de Massachusetts

Ao mesmo tempo, os banqueiros convocavam uma força-tarefa emergencial para agir de imediato. Em uma reunião no escritório do J. P. Morgan, na mesma Wall Street, diversos mandarins do dinheiro – entre eles Charles E. Mitchell, do National City Bank, Albert H. Wiggin, do Chase National Bank, e Thomas W. Lamont, do Morgan – decidiram despejar caminhões de verdinhas na Bolsa para escorar o mercado. Finda a reunião, Lamont recebeu os repórteres para uma série de declarações apaziguadoras. "Houve uma pequena aflição na Bolsa de Valores, devido a um requisito técnico do mercado. Mas as coisas são suscetíveis de melhorar", garantiu, impávido, o célebre banqueiro. Pouco tempo depois, Richard Whitney, chefão da Richard Whitney & Co., apareceu no salão da Bolsa e ofereceu 205 dólares por 10.000 ações da United States Steel, cotadas naquele momento a míseros 190. Whitney fez encomendas semelhantes de diversas outras empresas. Em um piscar de olhos, a recuperação desabrochava.

Boa parte do fervor das vendas era determinado por investidores que queriam apenas parar de perder, e estavam dispostos a se desfazer de suas ações por qualquer valor. Com isso, os papéis desprezados retornavam ao mercado e faziam os preços caírem mais ainda. O dinheiro dos banqueiros e a nova alta interromperam essa reação em cadeia, substituindo o medo de perder pela vontade de ganhar. Os preços então voltaram a subir, e o balanço do dia registrou uma recuperação notável – a média industrial do Times fechou apenas 12 pontos abaixo do dia anterior. O que fez o dia 24 de outubro tão significativo – e trágico – foi o volume total de vendas: 12.894.650 transações, recorde absoluto da história de Wall Street. Nessa dança, para inúmeros americanos já não adiantava mais que o mercado tivesse se recuperado: ao vender suas ações na baixa, estavam quebrados
O banqueiro Lamont: 'pequena aflição'

Sexta-feira e sábado, 25 e 26 de outubro, foram dias de relativa calmaria nos mercados. Os preços se mantiveram firmes. Corretoras seguiam trabalhando diuturnamente para colocar os negócios em dia. Representantes das 35 maiores firmas do mercado tiveram uma reunião nos escritórios da Hornblower and Weeks na sexta e emitiram um comunicado para a imprensa. "O mercado está fundamentalmente sólido e tecnicamente em melhores condições do que estivera durante meses." Uma mensagem da corretora anfitriã completou o panorama animador: "A começar com as transações de hoje, o mercado deve iniciar o assentamento das fundações para o progresso construtivo que, acreditamos, caracterizará 1930." Como essa, houve no fim de semana uma série de análises e perspectivas favoráveis ao mercado altista. Mas a chegada da segunda-feira trouxe uma ducha de água gelada a todas elas, e solidificou a percepção de que o bear market, o tão temido mercado baixista, era inevitável e irreversível.

O volume de vendas do dia 28 foi bem menor que o da quinta-feira: cerca de 9.250.000 ações. O grande problema foi o tombo: as médias industriais do Times despencaram 49 pontos. Os banqueiros reuniram-se outra vez no escritório da J. P. Morgan, desta vez no fim da tarde, num encontro que durou duas horas e que, para desespero dos corretores, não culminou em nenhuma ação de resgate ou salvamento. Ao contrário: o resumo da reunião fornecido à imprensa relatava que os abastados executivos decidiram não agir, porque não estava "dentro da finalidade dos banqueiros manter qualquer nível determinado de preços ou proteger o lucro de quem quer que fosse". Os magnatas estavam preocupados apenas em que não existissem "vácuos" – ações sem compradores –, para que assim o mercado mantivesse sua ordem. Já estava claro, a essa altura, que a situação já fugia a qualquer controle. Não havia mais promessas a serem feitas. A ruína se avizinhava.

Toda a tragédia, assim, se convergiu para a terça-feira negra, 29 de outubro de 1929, data devastadora para a Bolsa de Nova York e todos os mercados mundiais. Logo no início da manhã, uma enxurrada de papéis foi colocada à venda – e em muitos casos, lotes e lotes não encontraram compradores, pesadelo mais temido pelos banqueiros. As ações da White Sewing Machine Company, que nos meses anteriores chegaram a 48 e fecharam na véspera a 11, foram negociadas a 1 dólar. A United States Steel, socorrida por Richard Whitney na quinta-feira anterior a 205 a ação, fechou em 174. Na média, os piores desempenhos da jornada foram os dos papéis dos consórcios de investimentos, cuja trajetória nos últimos anos era de dar inveja a qualquer indústria. A Goldman Sachs, que terminara a segunda-feira cotada a 60, fechou a 35. Seu fundo de investimento Blue Ridge, que no começo de setembro era negociado por 24, prostrou-se a ínfimos 3 dólares a ação no fechamento da terça negra.

Turbulência de outubro: apesar dos discursos otimistas, nervosismo persiste em NY

Mais uma vez, os banqueiros acharam por bem não enviar missões de resgate à Bolsa. Pior: correram boatos de que os magnatas estavam na verdade vendendo suas ações – o que foi desmentido de forma oficial por Thomas W. Lamont, da J. P. Morgan. Mesmo assim, o prestígio dos bancos, tão em alta na quinta-feira, havia desmoronado junto com as ações. A população contava novamente com eles para a salvaguarda financeira do mercado, mas a decisão já estava tomada. Naquele dia, os piores pesadelos se reuniram em um pregão: o volume de vendas foi superior ao da quinta-feira-negra, com 16.410.030 ações trocando de dono, sem contar aquelas que não conseguiram ser vendidas mesmo com preços no atoleiro. As médias industriais do Times caíram quase nos mesmos patamares da véspera: 43 pontos, o que, na prática, anulava o lucro dos doze formidáveis meses precedentes.

Depois dessa terça-feira, entre mortos e feridos, ninguém se salvou. Se na primeira semana os cidadãos comuns foram as maiores vítimas da carnificina acionária, na seguinte, pelo tamanho dos lotes colocados à venda, pôde-se perceber que também os muito ricos perderam dinheiro ao se livrarem de seus papéis a preço de banana. Atordoados, especuladores à beira da bancarrota vagavam pela metrópole. O clima era soturno e melancólico, como a ressaca de uma inebriante celebração que acabara subitamente. A polícia de Nova York resgatou o corpo de um agente comercial das águas do rio Hudson. Além da roupa do corpo, seus únicos pertences eram 9,04 dólares e alguns avisos para pagamento do aumento da margem.

Em uma ironia dos infindáveis mistérios do mercado financeiro, as ações registraram surpreendentes ganhos no dia 30, com as médias industriais do New York Times tomando o elevador e subindo 31 pontos – e sem nenhum apoio organizado para tanto. Talvez o discurso de tranqüilização, repetido em coro por todos os mandas-chuvas, tivesse surtido efeito. O subsecretário de Comércio dos Estados Unidos, Julius Klein, foi ao rádio na noite do dia 29 para lembrar à população que o presidente Herbert Hoover dissera que os negócios elementares do país ainda resistiam. "O ponto principal que eu quero destacar é a solidez fundamental da maior parte das atividades econômicas", defendeu. O homem mais rico do mundo, John D. Rockefeller, quebrou um silêncio que já durava várias décadas e reapareceu em público para dizer que estava comprando ações (leia reportagem nesta edição). No último dia do mês, em pregão de apenas três horas, nova alta permitiu um respiro ao mercado.

O nervosismo, porém, ainda é latente em Wall Street e nas outras Bolsas ao redor do planeta. Já se provou nos últimos dias que a vontade do mercado é incontrolável, e seu furor, devastador. Os escritórios de corretagem já anunciaram que não darão folga aos funcionários no primeiro fim de semana de novembro, quando a Bolsa, mesmo com o mercado suspenso, abrirá seus salões para a conclusão de negociações e correção de erros gerados pela turbulência do crepúsculo de outubro. A gravidade da situação pode ser percebida até mesmo na curiosa e atabalhoada tentativa do jornalista Arthur Brisbane, editor da cadeia de jornais Hearst, de levantar o moral dos americanos. "Para se consolar, se você perdeu, pense na gente que vive perto do monte Pelée, que recebeu ordem para abandonar suas casas", escreveu o colunista, citando o furioso vulcão que já matou 30.000 pessoas no Caribe desde o começo do século. Não seriam poucos os investidores falidos, de ventas ao chão, que prefeririam estar na calorosa vizinhança do vulcão da Martinica – mas ainda com dinheiro para comer um cachorro quente com Coca-Cola.

Revista Veja

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Crise de 1929 começa com quebra da Bolsa de NY e espalha pânico

imagem: Nova York no dia do crash da bolsa, em 1929.
Família desempregada, vivendo em condições miseráveis, em Elm Grove, Califórnia, Estados Unidos.

Desempregados fazem fila para tomar a sopa gratuita em Chicago (EUA), durante a crise econômica da década de 1930.


Crise de 1929 começa com quebra da Bolsa de NY e espalha pânico
VINICIUS ALBUQUERQUE

John Kenneth Galbraith, um dos principais economistas do século 20, escreveu que o dia 24 de outubro de 1929 foi o primeiro dos que ficaram associados ao que veio se tornar conhecido como a Grande Depressão: nesse dia, a Bolsa de Valores de Nova York sofreu uma forte queda durante o pregão (que chegou a quase 11%), com o movimento de pouco menos de 13 milhões de ações, indicando o pânico dos investidores --um dia antes o movimento havia sido de pouco mais de seis milhões.

No fim do dia, no entanto, houve uma recuperação, fechando com queda de apenas 2%; o pior ainda estava por vir. O dia 29, uma terça-feira, foi, segundo Galbraith, "o dia mais devastador da história do mercado de ações de Nova York, e possivelmente o dia mais devastador da história de todos os mercados". No fim daquele dia a Bolsa de Valores de Nova York teve perda de 11,7% --depois de cair cerca de 16% durante o dia, entre a abertura dos negócios e o pior momento.

Quando atingiu o ponto mais baixo, em 1932, a Bolsa estava 89% abaixo do momento de pico, em setembro de 1929.

A Grande Depressão que se seguiu foi um período de forte retração na economia que prosseguiu ao menos até 1939. O "New York Times" descreveu da seguinte forma o que aconteceu na Bolsa há 80 anos:

"Os preços das ações virtualmente desabaram, jogados para baixo com perdas gigantescas no dia de negócios mais desastroso na história dos mercados (...) As operações na Bolsa totalizaram 16,410 milhões de ações (...) o total excede de longe o de qualquer dia anterior [em março de 1928 o volume era de 3,8 milhões, um recorde até então]. De todos os pontos de vista, na extensão das perdas, na movimentação total, no número de especuladores tirados de cena, o dia foi o mais desastroso na história de Wall Street. A histeria varreu o país."

Mesmo o abalo que o mundo sofreu desde 2008 com a crise financeira e econômica atual --e os milhões de desempregados que deixou no mundo todo atestam a força desse abalo--, 1929 e a Grande Depressão que se seguiu ainda permanecem como a referência do tipo de catástrofe que a especulação financeira pode causar.

As imagens deixadas pela Grande Depressão não são bonitas. Filas de muitas centenas de pessoas esperando para se servir de um pedaço de pão e um prato de sopa, vestidas em trapos. Famílias vagando pelas ruas de grandes cidades, principalmente Nova York, com pais que não tinham ocupação e filhos que não tinham comida. Pessoas que não tinham nada.

Milhares de pequenos agricultores venderam o que puderam, por qualquer preço, juntando suas últimas posses e partindo para o que pensavam ser a única esperança, a Califórnia --o que, no fim, se provou apenas uma miragem. Essa parte da história pode ser encontrada em livros didáticos e em trabalhos de cunho mais analítico e científico, mas o drama dessas pessoas é melhor percebido no romance de John Steinbeck, "As Vinhas da Ira".

Ainda segundo Galbraith, no entanto, ninguém foi responsável pela quebra da Bolsa e ninguém criou o sistema de especulação que inflou o mercado e levou ao "crash". "As duas coisas resultaram da livre escolha e decisão de centenas de milhares de indivíduos. Estes não foram levados para o matadouro. Foram impelidos a ele pela loucura contagiosa que sempre atacou as pessoas que já estão atacadas pela ideia de que podem tornar-se muito ricas."

A quebra da Bolsa, no entanto, apenas marcou definitivamente na história um período que, no entanto, já era de fraqueza nos EUA. O Nber (Escritório Nacional de Pesquisa Econômica, na sigla em inglês), que avalia quando recessões começam e acabam nos EUA, aponta que na década de 20 do século passado a economia americana passou por quatro recessões (o instituto registra a duração das recessões em meses, e não em trimestres, como é mais comum).

A que começou pouco antes do "crash" da Bolsa foi a maior do século passado, com 43 meses --entre agosto de 1929 e março de 1933. E em maio de 1937 teve início outra, que duraria 13 meses.

Sinais

O que houve naquele dia de outubro foi que os americanos foram trazidos à realidade por um choque, com a quebra da Bolsa, mas já havia avisos e alertas. Em novembro de 1925, pouco menos de quatro anos antes da crise, o "New York Times" já apontava semelhanças entre a agitação no mercado financeiro em 1929 e outras manias, e afirmava a necessidade de se manter um olhar cético sobre o ritmo de alta do mercado.

O país já tinha visto uma bolha em passado recente, no setor imobiliário da Flórida. A expectativa de que o Estado se tornasse já naquela época um recanto de férias e lazer levou especuladores a explorarem o mercado --embora muitos dos lotes ficassem a quilômetros das praias e não houvesse infraestrutura urbana quase nenhuma. Em 1926 a demanda começou a diminuir e a euforia passou. Embora não causasse perdas catastróficas, o "boom" seguiu uma espécie de "roteiro das bolhas": euforia inicial, saturação e em seguida queda de demanda e preços.

O Fed (Federal Reserve, o BC americano) chegou a advertir em fevereiro de 1929, em duas ocasiões, que não permitiria que fossem tomados recursos do banco para alimentar o financiamento de compras especulativas de ações --naquele mês informou que restringiria o uso do dinheiro do banco para esse fim, deixando poucos recursos para o comércio e outros setores da economia. Fevereiro foi um mês fraco, mas o mercado se recuperou.

Mas os avisos não chegaram aos ouvidos que mais deviam ter escutado os alertas. Em fins de março, Charles Mitchell --um dos diretores do Fed e presidente do National City Bank, instituição que viria a se tornar o Citibank, já então um dos maiores bancos americanos--, disse que a instituição que comandava liberaria os recursos de que o mercado necessitasse para que o mercado se mantivesse em alta, o que minou a autoridade do Fed.

Otimismo

O otimismo, assim, invadiu a percepção de todos, inclusive de especialistas. A Sociedade de Economia da Universidade Harvard chegou a prever que, no verão (inverno no hemisfério Norte) de 1929, o mercado sofreria um declínio; como o declínio não veio, manteve a opinião positiva para os negócios. Em novembro, já após o "crash", a sociedade descartou o risco de uma depressão grave.

Herbert Hoover disse em 1928, quando foi nomeado para disputar a Casa Branca pelo Partido Republicano (e que assumiu a presidência em março de 1929): "Nós, nos Estados Unidos, estamos hoje mais perto do triunfo final sobre a pobreza do que nunca antes na história, em qualquer lugar".

Outro que acabou desacreditado por suas declarações dias antes da quebra foi o economista Irving Fisher, que disse que "os preços das ações atingiram o que parece um patamar permanentemente alto". Fisher se destacou por suas contribuições intelectuais, como sua teoria do juro e do capital, mas essa declaração --e outras, como: "Espero ver o mercado de valores bem mais alto do que está hoje, dentro de poucos meses"-- tirou um pouco de seu brilho.

Desemprego

Com a quebra da Bolsa, o número de falências pessoais (nos EUA é possível uma pessoa se declarar falida) passou a crescer. Desse modo, o consumo registrou um declínio acentuado e que só se aprofundou ao longo dos anos seguintes. Com o consumo em baixa, empresas começaram a quebrar, demitindo funcionários.

A perda de empregos em grande número, por sua vez, reduziu mais ainda o consumo, que levou mais empresas à falência e mais demissões, gerando uma espiral que, à época, parecia que não teria fim.

A situação do desemprego foi crítica para que os efeitos da quebra da Bolsa se tornassem cada vez mais graves. Em abril de 1929, 1,6 milhão de pessoas estavam sem emprego -o que representava 3,2% da força de trabalho. Em abril de 1932, perto de 13 milhões de pessoas estava sem trabalho -ou quase 25% da força de trabalho do país. Em algumas cidades do país, o número de desempregados chegava a 50% da força de trabalho local, e em outras essa proporção era muito maior.

A situação em que o país caiu também se alimentou de outros detalhes, que já vinham despontando mesmo antes da quebra da Bolsa --a agricultura, por exemplo, se encontrava em situação crítica: a produção dos fazendeiros americanos ficou sem mercado. Estimulada em anos anteriores para abastecer o mercado europeu, ainda se recuperando da guerra, a produção excedente se tornou um problema, por não ter para onde escoar depois que a Europa conseguiu se reerguer. Os preços desabaram.

Depressão

A ligação entre a quebra da Bolsa e a Grande Depressão ainda é objeto de controvérsia na história econômica. Como se viu acima, os EUA já estavam no início de uma recessão --que poderia talvez não ter sido tão longa--; o "crash" da Bolsa, portanto, não poderia tê-la causado.

Uma resposta possível é a sugerida pelo historiador Edward Chancellor, em seu livro "Salve-se Quem Puder - Uma História da Especulação Financeira": as expectativas dos americanos quanto ao futuro, depois da prosperidade vista nos anos antes, sofreram um choque. "Quando os valores dos ativos declinaram, devastando o sistema bancário, uma psicologia do medo substituiu o otimismo da década anterior", disse.

Os anos 20 do século passado, escreve Chancellor, "foram um período em que as pessoas mostraram capacidade para sonhar, fé no futuro, um apetite empreendedor pelo risco e a crença na liberdade individual". Esse espírito --ou pelo menos no grau de intensidade em que era percebido-- se desfez após o "crash".

A crise financeira e econômica pela qual o mundo passa hoje --e que, segundo as avaliações de especialistas e de órgãos como o FMI (Fundo Monetário Internacional), já está perto do fim-- mostra que esse mesmo espírito, embora tenha se desfeito, não desapareceu, e já há quem procure prever quando surgirá de novo --e se trará uma nova crise.

Folha de São Paulo

Crise de 29 afetou autoestima da população e abriu espaço para Hitler


TATIANA RESENDE

Uma das diferenças entre a Crise de 1929, que culminou na Grande Depressão, e a que se agravou com a quebra do Lehman Brothers, há mais de um ano, foi a parcela de culpa que as pessoas assumiram admitindo atitudes individuais que ajudaram a levar ao caos.

Para o professor Wagner Pinheiro Pereira, doutor em História pela USP (Universidade de São Paulo) e autor do livro "24 de Outubro de 1929: A Quebra da Bolsa de Nova York e a Grande Depressão", a Crise de 1929 "marcou a economia em primeiro lugar, mas também a sociedade, a cultura, a política".

O historiador afirma que não há estatísticas de quantas pessoas se suicidaram durante a Grande Depressão nos Estados Unidos, mas frisa que o ato não se deveu apenas "à questão da perda financeira".

"Havia a cultura do estilo de vida americano, muito calcado na ideia do "self made man", daquele homem empreendedor que faz tudo por si próprio, que a partir do seu trabalho consegue ter sucesso. O Tio Patinhas é o melhor exemplo desse tipo de personagem", ressalta.

Ao assumir o governo, em 1933, o presidente Franklin Delano Roosevelt precisou focar não apenas no resgate da confiança no sistema bancário, mas também na autoestima da população. "Foi preciso apontar que a crise não era do indivíduo, porque o indivíduo começou a se considerar fracassado", diz.

Os Três Porquinhos

Até Walt Disney participou desse reerguimento da identidade nacional com o desenho animado "Os Três Porquinhos", que, segundo Pereira, é "uma metáfora para a construção do homem novo", com o Lobo Mau representando a Crise de 1929.

Já na crise atual, foi o sistema financeiro que ficou na berlinda. "Considero que essa é uma das maiores diferenças na concepção de imaginário. Hoje ficou muito mais pelo viés econômico."

Uma nova edição do livro será lançada no próximo ano para traçar paralelos como esse entre as duas crises, já que a primeira edição é de 2006.

Hitler

Pereira destaca ainda que, sem a ajuda dos Estados Unidos, que passaram a cobrar as dívidas, países europeus como Itália e Alemanha, "descrentes dos valores democráticos e liberais", começaram a procurar "uma figura carismática e autoritária que os tirassem dessa situação". Foi nesse contexto que Adolf Hitler e Benito Mussolini encontraram espaço para surgir como "salvadores da pátria".

Para o historiador, "o sistema capitalista gera a sua própria crise", já que oferece salários baixos aos trabalhadores para maximizar o lucro das empresas, mas esses mesmos trabalhadores são consumidores e precisam de maior poder aquisitivo para impulsionar o progresso do sistema.

"A crise seria, portanto, inerente ao próprio sistema econômico capitalista."
Folha de São Paulo

Crise de 1929 atingiu economia e mudou a ordem política no Brasil


GIULIANA VALLONE


A Crise de 1929 atingiu em cheio a economia do Brasil, muito dependente das exportações de um único produto, o café. Mas, mais do que gerar dificuldades econômicas, o crash que completa 80 anos em 2009 provocou uma mudança no foco de poder no país, acabando com um pacto político interno que já durava mais de trinta anos.


Entre os anos de 1894 e 1930, o presidente da República foi eleito pelos paulistas barões do café num mandato, e no outro pelos pecuaristas mineiros. Era a chamada política do café com leite, viabilizada pela hegemonia da oligarquia cafeeira paulista na época e que garantiu a formação de uma economia agrícola praticamente monoexportadora no país.

Em 1929, a quebra nos mercados acionários do mundo provocou uma forte queda nos preços internacionais das commodities. "O Brasil era fortemente dependente das exportações de café, e tinha uma enorme dívida externa, que precisava ser financiada com essas vendas", afirma o professor de História Econômica da FEA-USP, Renato Colistete.

Além da queda nos preços, a crise provocou uma diminuição na renda e no consumo no mundo todo, prejudicando ainda mais as vendas de café. As exportações do produto, que chegaram a US$ 445 milhões em 1929, caíram para US$ 180 milhões em 1930. A cotação da saca no mercado internacional, caiu quase 90% em um ano.

Fogueira

Na tentativa de conter a queda, o governo federal comprou grande parte dos estoques dos produtores, e queimou 80 milhões de sacas do produto. "A ideia era queimar para diminuir a oferta e aumentar o preço internacional, porque o Brasil era o maior país exportador", segundo Marcos Fernandes, coordenador do Centro de Estudos dos Processos de Decisão da FGV-SP.

"A crise arruinou a oligarquia cafeeira, que já sofria pressões e contestações dos diferentes grupos urbanos e das oligarquias dissidentes de outros Estados, que almejavam o controle político do Brasil", explica Wagner Pinheiro Pereira, doutor em História pela USP e autor do livro "24 de Outubro de 1929: A Quebra da Bolsa de Nova York e a Grande Depressão".

Poder

O que aconteceu, então, foi que o foco do poder no país foi deslocado para o gaúcho Getúlio Vargas, que se tornou presidente da República após a Revolução de 1930. "Do ponto de vista político, a crise foi importante porque desviou o foco do poder para Getúlio Vargas e para um projeto de industrialização", diz Fernandes.

O novo presidente, porém, sabia que, mesmo com o fim da oligarquia paulista, o café não podia ser deixado de lado. Assumiu, então, uma nova política de defesa da cafeicultura, na tentativa de equilibrar os preços e evitar a superprodução.

"Não podemos esquecer que Getúlio era o pai dos pobres e a mãe dos ricos", diz Fernandes. "Ele tratou de não romper tão radicalmente com a oligarquia agrícola, e o café continuou sendo importante no Brasil. Isso começa a mudar mesmo a partir de Juscelino Kubitschek e, principalmente, a partir do Golpe de 1964."

A Grande Depressão, porém, dificultou os esforços do governo para ajudar o café e "somente no final da década de 1930 o café começou a recuperar os bons preços nos mercados internacionais", segundo Pereira.

Folha de São Paulo

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Crise econômica lembra lições de 1929


Há 80 anos o Brasil sofreu com a Grande Depressão, mas saiu dela com relativa rapidez

HERBERT CARVALHO

Desde a quebra do centenário banco de investimentos Lehman Brothers, no ano passado, o espectro da crise de 1929 ronda o mundo. Oitenta anos após o crash da Bolsa de Nova York, as comparações com a crise atual são inevitáveis: ambas começaram a partir de uma desenfreada especulação no sistema financeiro americano e gradativamente contaminaram o setor produtivo dos EUA, espalhando a seguir a contração econômica e o desemprego por todo o planeta. Considerando o capitalismo um regime oficialmente implantado na era das revoluções americana e francesa, seu verdadeiro teste de sobrevivência se deu após a célebre "quinta-feira negra" de 24 de outubro de 1929. Nesse dia, quase 13 milhões de ações mudaram de mãos no mercado de valores nova-yorkino por preços próximos do zero, destruindo os sonhos daqueles que as possuíam e levando os Estados Unidos a encerrar uma década de abundância material e euforia social para mergulhar, assim como o restante do mundo, na Grande Depressão.

John Kenneth Galbraith, autor de vários livros sobre a crise de 1929, cunhou uma expressão para resumir seu significado: "A única coisa certa é que algum dia, sem falta, haverá outro desastre semelhante". Para o economista e ex-ministro da Fazenda Delfim Netto, não há que se falar em desastre, já que em sua visão capitalismo e crise são inseparáveis: "No exato momento em que as instituições se alteram em razão de uma crise, a crise futura já está nascendo. Na verdade, são as crises que tornam mais eficiente o capitalismo, que sai delas sempre melhor do que entrou".

Para melhor compreensão da crise atual e de seus reflexos para o país a partir de uma perspectiva histórica, Problemas Brasileiros traça um paralelo entre os dois momentos críticos do capitalismo e suas consequências políticas, tanto nos EUA como no Brasil.

Rothschilds instantâneos

Como aconteceu até janeiro deste ano, em 1929 os Estados Unidos viviam sob a égide do Partido Republicano, com inabalável fé no liberalismo econômico e no princípio de que os mercados devem se autorregular, sem interferência do governo. Após a Primeira Grande Guerra, o eixo da economia mundial transferira-se para este lado do Atlântico e o dólar aos poucos substituía a libra esterlina como moeda de troca internacional.

Os EUA, que já haviam superado os europeus na exploração econômica da América Latina, foram os grandes beneficiários do conflito: durante as hostilidades, exportaram artigos manufaturados aproveitando-se da prioridade dada à produção bélica pela indústria dos países em guerra; concertada a paz, passaram a financiar a reconstrução da Europa devastada. Esses fatores fizeram proliferar e desenvolver-se empresas industriais, agrícolas, minas, bancos e companhias de seguros que rapidamente se transformaram em sociedades anônimas de capital aberto. Empreendedores oriundos de camadas humildes prosperaram da noite para o dia engendrando o mito do self-made man e seu complemento, o American way of life, um estilo de vida baseado na ilusão de que a prosperidade não tem limites. Não por acaso, ao ser eleito em 1928, o republicano Herbert Hoover afirma: "Os EUA hoje estão mais perto do triunfo final sobre a pobreza do que nunca na história de qualquer país".

Os americanos, porém, estavam na realidade às vésperas de perder seus empregos e de ser jogados na miséria das Hoovervilles, como se tornaram conhecidas as enormes favelas que surgiram nas grandes cidades americanas, que em nada ficavam a dever às nossas Rocinhas de hoje.

Tomadas por uma espécie de epidemia que grassou em todas as classes sociais, as pessoas, impregnadas pela fantasia do enriquecimento rápido e fácil, aplicavam todas as suas economias no mercado de ações. Barbeiro ou banqueiro, engraxate ou homem de negócios, todos apostavam e todos ganhavam; a única questão que surgia na cabeça de muita gente era por que não haviam pensado nisso antes. Ignorando os indícios de que a recessão já chegara ao campo e que a superprodução, descolada da demanda, se instalava na indústria, os incautos tornaram-se vítimas de uma insensatez coletiva que, em menor grau, se manifesta também na crise atual, igualmente gerada na ciranda financeira, que Galbraith explica de maneira singela: "A bolsa de valores é inerentemente instável, e a instabilidade se relaciona com sua capacidade soberbamente orquestrada de atrair pessoas com a promessa de riqueza sem esforços. No final da década de 1920, os Estados Unidos estavam repletos de Rothschilds instantâneos". Se assim era naquela época, imagine-se nos dias que correm, quando os estoques dos chamados "derivativos financeiros" (produtos da especulação que geram mais especulação) atingem a fantástica cifra de US$ 1 quatrilhão – valor basicamente virtual, pois equivale a 20 anos da produção mundial.

Quando a Bolsa entrou em parafuso na última semana de outubro de 1929, afogada por um repentino tsunami de ordens de venda que pulverizaram os preços das ações, a euforia transformou-se em desespero. À beira da exaustão, corretores choravam e arrancavam o colarinho da camisa enquanto imensas fortunas se dissolviam como açúcar na água. As piadas macabras da época diziam que com cada pacote de ações do Goldman Sachs o investidor recebia um revólver e que quando alguém pedia um quarto em um hotel o recepcionista perguntava: "É para dormir ou para pular?"

Nos meses seguintes desapareceram 9 milhões de contas de poupança, 85 mil empresas faliram, os salários encolheram 40% e os famintos na fila do pão somavam 2 mil por dia num único distrito de Nova York. Em 1932, quando o democrata Franklin Delano Roosevelt impôs a Hoover uma derrota por 472 votos contra 59 no colégio eleitoral – bem mais acachapante do que o placar de 365 a 173 de Barack Obama contra o republicano John McCain –, 25% dos americanos estavam desempregados e vagavam à míngua por um país que tivera seu produto nacional bruto reduzido a metade do que fora quatro anos antes.

Modelo em xeque

A quebra do sistema financeiro mundial atingiu o Brasil em cheio em 1929, fazendo desabar o preço do café, então responsável por 70% das exportações do país. Mais do que isso, colocou em xeque o modelo agrário exportador vigente desde a Independência e que, na passagem da monarquia para a república, se alterara apenas pela substituição da mão-de-obra escrava pela de imigrantes assalariados.

Esse modelo já estava em crise desde o fim do século 19, quando a cotação do café no mercado internacional começou a cair, devido ao excesso de oferta decorrente da emergência de outros países produtores. O preço do produto vinha sendo sustentado desde 1906 pelo Convênio de Taubaté, artifício engendrado pelas oligarquias cafeeiras de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, por meio do qual os governos dos três estados produtores adquiriam os excessos de estoque – ao final da década de 1920, o Brasil produzia 21 milhões de sacas anuais para um consumo mundial de 22 milhões. Como resultado, em outubro de 1929 os fazendeiros ainda estavam exportando a safra de 1927, enquanto a safra de 1928 estava toda retida nos armazéns de valorização do café gerenciados pelo Instituto do Café, criado em São Paulo em 1924. Quando o custo da estocagem se tornou insuportável, a solução foi a queima pura e simples do excedente.

Ocorre que toda essa engenharia financeira era baseada em empréstimos externos avalizados pelo governo federal, não por acaso controlado durante toda a República Velha (1889-1930) pelos cafeicultores. Dessa forma, a crise mundial chega ao país não apenas fazendo desabar as encomendas, em razão da recessão que atingia escala planetária, mas também fechando a torneira do crédito: um empréstimo de US$ 50 milhões solicitado pelo governo federal brasileiro para permitir que o Instituto do Café ajudasse os fazendeiros é negado por Wall Street. O crédito sumira, mais ou menos como ocorre na atual crise.

A política de valorização do café provocava inflação, prejudicando a população urbana e absorvendo recursos que os outros estados reclamavam para a valorização de seus próprios produtos de exportação, como o charque e os couros do Rio Grande do Sul. Como resultado, pela primeira vez cindem-se as oligarquias que dominavam o Brasil desde os tempos coloniais, resultando, no plano político, na formação da Aliança Liberal, que trazia uma inédita dobradinha entre um gaúcho, Getúlio Vargas, para presidente, e um paraibano, João Pessoa, para vice. Quando esta é derrotada pelas urnas fraudadas que então imperavam, estala a Revolução de 1930, amparada pelas massas urbanas revoltadas pela socialização do prejuízo, tantas vezes praticada ao longo de nossa história.

Com o movimento armado que em apenas 20 dias apeia do poder o paulista Washington Luís – enviado ao exílio na companhia do também paulista Júlio Prestes, o presidente eleito que não chega a assumir –, finda-se uma era: a queda abrupta das exportações e também das importações dos produtos manufaturados que dependiam da receita do café provoca a ruína, a desonra e a desgraça de famílias outrora abastadas; fazendeiros se suicidam, e os jornais trazem cotidianamente notícias de falências, concordatas e tragédias como a do palacete da Rua Piauí, no bairro paulistano de Higienópolis, onde o empresário afogado em dívidas Abelardo Laudel de Moura se arma com uma navalha, degola os filhos pequenos e se mata em seguida.

New Deal caboclo

O Brasil de 1930 era um país agrário-exportador com uma população de 37,6 milhões de habitantes, cinco vezes menor que a atual. A expectativa de vida do brasileiro não passava de 39 anos para homens e 42 para mulheres, quase a metade do que é hoje. A principal matriz de transporte, além da navegação de cabotagem, era a ferroviária. Rodovias, usinas hidrelétricas e siderúrgicas eram poucas ou inexistentes. A indústria incipiente concentrada em São Paulo, com mão-de-obra de imigrantes estrangeiros, restringia-se aos segmentos de bens não-duráveis e semiduráveis.

Com a crise de 1929 e o colapso da produção no campo, a população rural, até então maioria absoluta, reforça o processo de migração para as cidades, oferecendo a mão-de-obra barata e abundante de que a indústria necessitava para desenvolver-se. Urbanização e industrialização seriam, daí por diante, os fatores a balizar a modernização do país. Caberia ao latifundiário Getúlio Vargas administrar a passagem da hegemonia política e econômica do campo para a cidade, com forte intervenção do Estado.

Guardadas as proporções e as diferenças, o Brasil reproduzia a recuperação econômico-social do New Deal, comandado nos EUA por Franklin Roosevelt, um senhor rural do vale do rio Hudson que despertou entre seus pares da classe alta uma hostilidade sem precedentes, em razão de suas medidas consideradas estatizantes e em defesa da classe trabalhadora. Embora de raça e origem social opostas, o presidente Obama tem em Roosevelt seu paradigma de estadista, em razão dos desafios semelhantes que as respectivas crises econômicas colocaram perante ambos. As principais medidas do New Deal – expressão cunhada durante a campanha eleitoral de 1932, na qual Roosevelt declarou que assumia um "novo trato" com o povo americano –, inspiradas nas ideias do economista inglês John Maynard Keynes, foram: concessão de empréstimos públicos a empresários urbanos e rurais em dificuldades; controle estatal da produção e dos preços de boa parte dos produtos industriais e agrícolas; construção de grandes obras públicas para absorver os desempregados; instituição do salário mínimo, proibição do trabalho infantil e das horas extras, elevação dos salários, redução da jornada de trabalho e legalização dos sindicatos; criação do seguro-desemprego e da previdência social.

Embora tenham prevalecido por décadas, até ser contestadas pelo neoliberalismo do republicano Ronald Reagan, as instituições criadas pelo New Deal só atingiram resultados significativos quando os EUA começaram a se beneficiar das encomendas militares, que transformaram o país em um verdadeiro arsenal às vésperas da Segunda Guerra Mundial e durante esse conflito.

O New Deal caboclo adotado por Vargas, em escala bem mais modesta, também permitiu ao Brasil sair da crise com relativa rapidez, iniciando um ciclo com taxas médias anuais de 7% de crescimento, que prevaleceriam até o final dos anos 1970, no ocaso da ditadura militar. Na agricultura, o governo comprou e queimou o excedente do café (entre 1931 e 1944 foram incinerados 78,2 milhões de sacas, quantidade equivalente ao consumo mundial de três anos), proibiu o plantio por cinco anos e estimulou outras culturas de exportação, como o algodão, que também se destinava ao consumo interno, absorvido pela crescente industrialização. Entre 1933 e 1939 a indústria brasileira cresceu em média 11,2% ao ano, concentrando-se em metalurgia de pequeno porte e bens de consumo como papel e papelão, têxteis, vestuário e calçados.

A marca mais duradoura da era Vargas, entretanto, verificou-se nas relações laborais, de modo a aplacar os até então agudos conflitos entre capital e trabalho, considerados durante toda a República Velha como assuntos da polícia, que reprimia greves e manifestações operárias de maneira sangrenta. Uma das novidades do governo provisório já em 1930, o Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio introduziu a Carteira Profissional e regulamentou a duração da jornada em oito horas diárias, as férias e o descanso semanal remunerado, o trabalho das mulheres e dos menores. Todos esses dispositivos, incluindo o direito de organização sindical de patrões e de empregados, iriam fazer parte da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), a partir da década de 1940, quando também começa a atuar a Justiça do Trabalho. Os institutos de aposentadoria e pensões, englobando categorias profissionais em âmbito nacional, surgiram também a partir de 1930, embora a legislação não contemplasse os trabalhadores rurais, o que somente veio a acontecer meio século depois, na Constituição de 1988.

A exemplo do que ocorreu com o New Deal nos EUA, o regime de garantias laborais – apesar de contestado até hoje pelos setores conservadores de ambos os países – contribuiria para colocar renda nas mãos dos trabalhadores, transformando-os em consumidores de um mercado interno cada vez mais forte, que na atual conjuntura está sendo apontado como a principal alternativa da economia brasileira contra as dificuldades externas. Na política, elas representariam a base para Vargas, deposto em 1945, voltar ao poder eleito pelo povo na década de 1950, quando diria em um discurso de 1o de Maio, dirigindo-se aos trabalhadores: "Hoje estais com o governo. Amanhã sereis governo". A profecia cumprir-se-ia com a eleição em 2002 do líder metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva, que em seu segundo mandato tem agora a dura tarefa de enfrentar a crise internacional, após ter surfado durante quatro anos nas ondas de vacas gordas da economia mundial.

Pós-crise

Felizmente, tanto no Brasil como no mundo, há mais diferenças conjunturais do que semelhanças entre as duas crises. A primeira delas é que, apesar do discurso neoliberal, o governo americano assustou-se diante do pânico financeiro e da hecatombe bancária que se desenhava após a quebra do Lehman Brothers e interveio pesadamente com auxílios que, só no caso do Citigroup, superaram os US$ 300 bilhões, o que não ocorreu na crise de 1929, quando bancos faliram um após outro, desabando como um castelo de cartas. Em um movimento sem precedentes que envolveu trilhões de dólares ao redor do mundo desenvolvido, bancos centrais e governos assumiram ativos podres e estatizaram parcialmente instituições financeiras, para evitar o desastre maior.

O mundo neste início de século 21 também é outro: apesar do refluxo no comércio internacional, da exiguidade do crédito e da ameaça de retorno a um protecionismo comercial exacerbado, a simples existência de países emergentes com grandes mercados internos, como é o caso dos Brics (Brasil, Rússia, Índia e China), oferece a perspectiva de que desta vez, ao contrário das crises anteriores, serão os países ricos os mais afetados.

Em termos estruturais, porém, a situação pós-crise reclama novas instituições reguladoras, que impeçam o surgimento de bolhas e façam respeitar elementares regras de segurança financeira, pois o próprio mercado já não confia nas chamadas agências de classificação de risco, que distribuíram num dia certificados AAA para títulos que, 24 horas depois, revelaram-se micados.

No plano da economia real, a derrocada das montadoras americanas indica não apenas a continuidade da transferência desse tipo de indústria manufatureira dos EUA para outros continentes, mas também a mudança de paradigmas, com vistas a conciliar eficiência e preservação ambiental. Esse e outros desafios, como o de fortalecer as instâncias multilaterais de negociação desprezadas durante a era Bush, exigem do presidente Obama uma postura de estadista no nível de seu predecessor Franklin D. Roosevelt.

Juros e custeio

Como parte do mundo globalizado, o Brasil de 2009 não está imune aos efeitos da crise, que terá como provável consequência imediata a redução no crescimento impetuoso do PIB, da ordem de 5% ao ano, que se verificava já por quatro anos seguidos. A saúde econômica atual do país permite, contudo, olhar tanto para o futuro como para os 80 anos decorridos desde a crise de 1929 com uma visão confiante.

O Brasil industrializou-se de maneira acelerada desde os anos 1930 e após um longo período de substituição de importações abriu, em 1990, seu mercado interno à concorrência dos produtos importados, conferindo à indústria nacional um novo patamar de competitividade. Além de commodities agrícolas (como a soja) e minerais, hoje exportamos produtos manufaturados e até aviões, com uma postura de autêntico global player, ou seja, de um país que vende de tudo para todos os mercados, pois nossos compradores também se diversificaram, em especial nas últimas décadas.

Com a inflação sob controle desde a implantação, em 1995, do Plano Real, hoje o Brasil, além de estar livre do problema da dívida externa – um tormento para os sucessivos governos durante todo o século passado –, exibe reservas superiores a US$ 200 bilhões. A dívida pública, embora elevada em razão da política de juros altos em prática desde o governo de Fernando Henrique Cardoso, mantém-se abaixo de 40% do PIB.

Outro trunfo importante obtido ao longo dessas oito décadas foi a persistente redução das desigualdades regionais e, mais recentemente, das sociais. A marcha para o oeste e a construção de Brasília aceleraram a integração das regiões norte e centro-oeste ao processo de desenvolvimento, ao mesmo tempo em que a indústria deixava de ser uma exclusividade do sul e do sudeste. E, de acordo com dados da Fundação Getúlio Vargas e do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), nos últimos quatro anos a classe média brasileira aumentou de 42% para 52% da população, ao mesmo tempo em que o percentual de pobres e indigentes caía de 35% para 24% do total. Esses números indicam o fortalecimento do mercado interno e da renda das famílias em razão dos programas de transferência de renda, da valorização do salário mínimo e da geração de empregos formais, que no primeiro semestre de 2008 alcançou o recorde de 1,36 milhão de novos postos de trabalho.

Entretanto, se é certo que no Brasil a crise financeira não se manifestou internamente a não ser num punhado de empresas que especulavam com derivativos cambiais e foram atropeladas pela alta do dólar, também é verdade que aqui o grande escândalo financeiro reside na própria taxa oficial de juros, que continua a maior do mundo.

Na opinião do economista Paulo Rabello de Castro, presidente do Conselho de Planejamento Estratégico da Federação do Comércio do Estado de São Paulo (Fecomercio SP), este é o momento de mudar a política monetária praticada pelo Banco Central: "O Brasil não favorecerá quem verdadeiramente investe e produz enquanto não enfrentar a contradição de que as taxas de juro funcionam como freio quase permanente ao progresso sustentado. Um país que persiste em manter alta a taxa de juro não pode almejar a uma estabilidade duradoura". O ex-ministro Delfim Netto concorda e acrescenta que além dos juros o governo federal precisa cortar gastos de custeio, de modo a poder liberar recursos para investimentos públicos, como as obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e a exploração do petróleo do pré-sal.


O fantasma do protecionismo

A professora de economia da Fundação Getúlio Vargas Eliana Cardoso, preocupada com a retração de 12,4% da produção industrial verificada em dezembro de 2008 sobre o mês anterior (14,5% de queda, em relação ao mesmo período do ano anterior), acha que até é possível o Brasil passar por uma "recessão técnica", ou seja, uma redução no PIB por dois trimestres consecutivos.

"Durante cinco anos desfrutamos de um cenário mundial excepcional, com farto crédito externo e constantes altas dos preços das commodities, que ainda representam 50% de nossas exportações. De repente esse quadro se inverteu: o crédito sumiu e os preços despencaram pela metade. Felizmente, a situação fiscal brasileira é bem melhor do que em crises passadas", avalia Eliana. "Hoje o endividado é o setor privado, enquanto o governo acumulou reservas e conta com a queda da Selic para melhorar a relação entre o PIB e a dívida pública" acrescenta.

Embora aceite o argumento de que o poder público deve atuar com energia para restringir o desemprego, Eliana acha que a disposição do Banco Central de emprestar até US$ 36 bilhões das reservas internacionais às empresas brasileiras com dívidas no exterior pode representar uma "socialização do prejuízo". "Quem garante que essa ajuda será suficiente? Se não for, mais uma vez o contribuinte arcará com o ônus", adverte.

A professora acredita, entretanto, que o mais grave fantasma a exorcizar da crise de 1929, no Brasil e no mundo, é o do protecionismo. "Na década de 1930 essa prática adotada pelos EUA, com a lei tarifária Smoot-Hawley, agravou a depressão. Desembocou em nacionalismos extremados e na guerra. Essa lição da história está sendo esquecida", ela diz, apontando uma contradição: "Em janeiro, ao mesmo tempo em que no Fórum Econômico Mundial em Davos 44 países divulgavam um documento a favor do livre comércio, em Bruxelas a União Europeia anunciava um aumento de 85% nas tarifas de produtos chineses para o setor automotivo".

Nos Estados Unidos, ao discurso anti-China do secretário do Tesouro de Obama, Timothy Geithner, somaram-se as emendas "buy American" adicionadas pelo Congresso ao pacote econômico do presidente, que podem afetar as exportações brasileiras para aquele país.

No Brasil, o governo chegou a anunciar a exigência de licença prévia de importação para 3 mil produtos de 17 setores, mas voltou atrás. Eliana Cardoso vê todos esses movimentos com muita preocupação: "O comércio internacional é o grande propulsor dos ganhos de produtividade e das inovações tecnológicas. Por maior que seja, o mercado local será sempre menor e insuficiente para compensar a perda do mercado externo", explica a professora, segundo a qual o Brasil deve se juntar a outros países e protestar na Organização Mundial do Comércio (OMC) contra os aumentos de tarifas e a política de subsídios praticada pelos EUA e pela União Europeia. Ela faz também um alerta em relação às barreiras não-tarifárias proibidas pelos tratados internacionais de comércio, como as licenças de importação. "É uma medida absurda, que só a Argentina usa. Pode gerar milhares de ações na OMC."

Revista Problemas Brasileiros