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segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Erasmo de Roterdã - O porta-voz do humanismo

Holandês anunciou o fim da predominância religiosa na educação, defendeu a importância da leitura dos clássicos e o desenvolvimento do homem em todo o seu potencial

Márcio Ferrari

Erasmo de Roterdã

Embora fosse clérigo e profundamente cristão, o filósofo holandês Erasmo de Roterdã (1469-1536) passou para a história por se opor ao domínio da Igreja sobre a educação, a cultura e a ciência. A influência religiosa vigorou praticamente sem contestação durante toda a Idade Média no Ocidente e ainda no tempo de Erasmo era preciso ousadia para ir contra ela. De qualquer modo, ousadia individual fazia parte das atitudes que um número crescente de intelectuais começava a enaltecer no período de transição para a Idade Moderna, entre eles o filósofo holandês. O pensamento nascente defendia a liberação da criatividade e da vontade do ser humano, em oposição ao pensamento escolástico, segundo o qual todas as questões terrenas deviam subordinar-se à religião.


O antropocentrismo - o predomínio do humano sobre o transcendente - era o eixo dessa nova filosofia, que seria posteriormente conhecida sob o nome de humanismo. A palavra deriva da expressão latina studia humanitatis, que se referia ao aprendizado, nas universidades, de poética, retórica, história, ética e filosofia, entre outras disciplinas. Elas eram conhecidas como artes liberais, porque se acreditava que dariam ao ser humano instrumentos para exercer sua liberdade pessoal
Revista Nova Escola

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Descartes: A razão acima de tudo



Descartes: A razão acima de tudo

O filósofo diz: `Penso, logo existo` e lança as bases da grande revolução no conhecimento.
Jaime Klintowitz
O rigoroso inverno de 1619 imobilizou o exército de Maximiliano da Baviera. Um percalço militar irrelevante para o desfecho da Guerra dos Trinta Anos, que ensangüentaria a Europa, mas que teve inesperada e decisiva importância para a Filosofia e a ciência moderna. René Descartes, jovem francês de 23 anos engajado nas tropas bávaras, aproveitou o frio para se isolar em um quarto de estalagem nas cercanias de Ulm, na Alemanha, e - como era de seu gosto - passar dias em febril atividade intelectual. Na madrugada gelada de 11 de novembro, as centelhas de seu cérebro explodiram em sonhos agitados - em um deles, o Espírito da Verdade lhe abria os tesouros da Ciência. Na manhã seguinte, superexcitado, Descartes concluiu estar no limiar de uma “ciência admirável".

"Penso, logo existo", sua máxima mais conhecida e que viria a ser a viga de sustentação do racionalismo moderno começou a nascer naquelas horas. Nas imagens dos sonhos, o jovem pretendeu ver símbolos de iluminação e indicadores da missão a que deveria consagrar sua vida: unificar todos os conhecimentos humanos sobre bases racionais. Foi ali, ao pé de uma estufa a carvão, a espada inútil encostada à parede, que Descartes pela primeira vez teve a idéia de aplicar a álgebra à geometria e a Matemática a todas as coisas. Ele desempenhou com tamanha habilidade a tarefa de dar novos alicerces ao edifício do pensamento que passou à História como o "pai da Filosofia moderna", cuja obra é o ponto de partida obrigatório para se entender as origens do modo de pensar que tornaria possíveis as revoluções científicas dos séculos seguintes.

Mas isso não estava nos cálculos do lar de Descartes, uma próspera família burguesa radicada entre Tours e Poitiers, no coração da França, e tradicionalmente dedicada ao comércio e à Medicina. Graças a uma bem azeitada estratégia matrimonial, no final do século XVI os Descartes tinham-se ligado a famílias ricas e notáveis da província - os Sain e os Brochard -, e estavam em franca ascensão social. Como era de se desejar para um gentil-homem daqueles tempos não de todo esquecidos do passado medieval, o avó Pierre combatera nas guerras religiosas; a mãe, Jeanne, era filha do tenente-general de polícia de Poitiers. E Joachin Descartes, o pai, chegou a conselheiro do rei no Parlamento da Bretanha título com o qual é identificado na ata de batismo de René, nascido em La Haye-Touraine, a 31 de março de 1596, terceiro e último filho do casal.

Jeanne Brochard morreu tuberculosa um ano depois e ninguém dava um vintém pela sobrevivência do filho. Ele herdara da mãe os pulmões fracos e uma tosse crônica que jamais o abandonaria. Mas o menino de aparência delicada tinha a mente ágil, e Joachin viu nele seu sucessor nos negócios e no Parlamento. Decidido a preparar René para um futuro brilhante, enviou-o em 1606 para o colégio jesuíta de La Flèche, às margens do rio Loire. Fundada apenas dois anos antes, graças à generosidade do rei Henrique IV, o fundador da dinastia Bourbon, a dos Luíses, a escola já era considerada uma das melhores da Europa. Em 1610, quando o soberano morreu e seu coração foi transladado para a capela de La Flèche, o menino René Descartes, monarquista convicto como seria por toda a vida, assistiu emocionado às solenidades.

Como sua saúde frágil era notória, Descartes recebeu permissão para ficar na cama quanto quisesse - o privilégio era igualmente um prêmio a seu brilhante desempenho escolar. Adulto, Descartes manteria o hábito de trabalhar no leito e cultivaria a mesma solidão dos tempos do La Flèche, a ponto de ter tomado, ainda jovem, a decisão de não casar. Mas teve lá suas aventuras: em 1635 nasceu Francine, sua filha com Helena, uma criada. Tampouco seria o sucessor do pai, missão assumida pelo filho mais velho, Pierre. Mas a herança paterna permitiu-lhe viver igual a outros gentis-homens de seu tempo: de forma modesta, mas sem trabalhar. Havia outras heranças a considerar, contudo. O século XVI virara de ponta-cabeça a vida do homem ocidental. Navegadores e aventureiros rasgavam mares e continentes, descobrindo terras e povos.

A efervescência cultural da Renascença criara uma vaga que não cessava de afogar as velhas certezas da Filosofia e da ciência baseadas sobretudo nos escritos do grego Aristóteles e na autoridade da Bíblia. O prestígio do Estado e da Igreja estavam igualmente corroídos pela dissidência política e pela Reforma protestante. Um novo mundo nascia. Mesmo em retirada, porém, a velhas instituições permaneciam, no início do século XVII, robustas o suficiente para queimar na fogueira um certo número de pensadores atrevidos.

A Europa sabia então possuir músculos capazes de arrasar e pilhar impérios na América e de saquear as costas africanas e asiáticas. Mas chocava-se com a revelação de que outros povos viviam segundo padrões bem diferentes daqueles que pareciam os únicos legítimos. Natural que os ventos fossem de perturbação e descrença. "Só há opiniões neste mundo incerto", concluía, desanimado, o pensador francês Michel de Montaigne (1533-1592), o mais célebre dos céticos.

Quando Descartes vai para a escola, está na ordem do dia a busca de um novo caminho para o conhecimento, uma trilha que escape aos labirintos das discussões estéreis. Em poucas palavras, falta um método para a ciência. Em La Flèche, Descartes ainda não sabe, mas será um dos pensadores responsáveis por uma das duas principais vertentes do pensamento moderno - ao buscar na razão a recuperação da certeza científica, dará origem ao racionalismo; o outro percurso será traçado pelo inglês Francis Bacon (1561-1626), que propõe formular as leis científicas partindo de casos e eventos particulares, raiz do experimentalismo.

La Flèche está, contudo, no contrafluxo da história. A escola, onde o latim é a única língua admitida e Cícero o autor mais lido, é um sólido bastião da herança medieval. Descartes fica profundamente decepcionado com a repetição incessante de antigas verdades, sem lugar para, a dúvida. Está fascinado, porém, com a Matemática e se espanta que, "sendo seus conhecimentos tão firmes e sólidos, nunca tivesse conduzido a algo mais elevado". Em 1614, vai cursar Direito na Universidade de Poitiers, de onde sairá dois anos depois com um diploma de doutor e a mesma opinião sobre a erudição tradicional. Nela, as teses mais contraditórias são "cultivadas pelos melhores espíritos", escreveria mais tarde.

Nos meses seguintes, Descartes vive entre a Bretanha e Paris, onde perambula pelos salões mundanos e começa a ficar, conhecido nos círculos intelectuais. É então que conhece o padre Mersenne, seu confidente e consultor por toda a vida. Em 1618, querendo continuar os estudos, parece-lhe razoável fazê-lo na academia militar que Maurício de Nassau - o mesmo que governou Pernambuco - criara em Breda, na Holanda. Vestir farda estrangeira não era nada de extraordinário, visto que Holanda e França eram aliadas nas guerras religiosas contra a Espanha. Em Breda, conhece o médico Isaac Beekman, oito anos mais velho, com quem faz as primeiras experiências sobre a refração da luz e estuda a obra científica do italiano Galileu. No ano seguinte, Descartes abandona o exército do protestante Nassau e se alista nas tropas que o católico Maximiliano da Baviera reunia contra o rei da Boêmia.

O jovem oficial vive um período místico e, em Ulm, ingressa na Associação Rosa Cruz, uma sociedade semi-secreta que recomenda a seus membros o exercício gratuito da Medicina. Seus manuscritos dessa época estão perdidos, mas os títulos dão idéia do que lhe ia pela mente: Parnassas (a região das musas), Olympica (relativo aos deuses). O rigoroso inverno de 1619 em Ulm, em que a tempestade cerebral definiria seu destino, foi recordado por Descartes como uma temporada de solidão e fértil experiência intelectual: “Não encontrando nenhuma conversação que me divertisse e não tendo, além disso, por felicidade, preocupações ou paixões que me perturbassem, ficava todo o dia fechado sozinho num cômodo aquecido por uma estufa, onde dispunha de todo o tempo para me entreter com meus pensamentos.

Descartes estava convencido de que daria uma contribuição decisiva à ciência do conhecimento - na verdade, ele era extremamente vaidoso e se considerava um gênio. "Verdadeira generosidade, que faz que um homem se estime no mais alto ponto em que se pode legitimamente estimar" escreve a Mersenne, relatando suas ambições pessoais. Em 1619, dá início às viagens que se prolongariam por uma década. Entre 1623 e 1625, tendo abandonado a vida militar, vive na Itália, onde faz peregrinação ao santuário de Nossa Senhora de Loreto. Católico fervoroso, Descartes pagava uma promessa. Entre 1626 e 1628, fixa residência em Paris, onde se ocupa de Matemática e dióptrica, o ramo da Física que estuda a refração da luz. Só não abandonou a Filosofia porque o cardeal Pedra de Berulle o animou a servir à causa da religião contra os libertinos. Depois de Henrique IV, subiu ao trono francês seu filho, Luís XIII (de 1610 a 1643). Mas quem de fato governava era o cardeal Richelieu.

Durante dezoito anos, a partir de 1624, Richelieu administrou uma espécie de política desenvolvimentista à moda do século XVII, fomentando o comércio e a indústria. Os engenhos mecânicos proliferavam e estava na ordem do dia ser cientista. Nas ruas de Paris, é possível que Descartes tenha cruzado com Isaac de Portau, Henry d’Aramitz ou mesmo Armand de Sillégue d’Athos, os espadachins famosos da Guarda do Rei que inspiraram os três mosqueteiros de Alexandre Dumas. Ao contrário daqueles contemporâneos sempre às voltas com duelos, porém, Descartes foi um guerreiro relutante - por exemplo, mais um observador do que um combatente na Guerra dos Trinta Anos.

Em 1628, Descartes decide mudar-se para a Holanda, uma terra de tolerância religiosa e, por isso mesmo, de efervescência intelectual, onde viverá quase todo o resto de sua vida. Nessa época, ele era já autor de um certo número de textos sobre Matemática, Física e Filosofia, mas ainda não entregara a obra capaz de revelar a “ciência admirável” que, presunçoso, prometera publicamente. Em 1633, está pronto, enfim, o Tratado do mundo, contendo uma explicação ordenada de todos os fenômenos naturais, da formação dos planetas e da gravidade. até chegar ao homem e ao corpo humano. Mas, justamente nesse ano, Galileu foi condenado pela Inquisição por dizer que a Terra se move ao redor do Sol. Precavido, Descartes engaveta seu livro e resolve dali por diante ser discreto e evitar qualquer confronto com a religião.

"Ando tão assustado", escreveu a Mersenne em 22 de julho de 1633, que estou quase resolvido a queimar todos os meus papéis ou, pelo menos, não deixá-los a ninguém. Confesso que, se isso (o movimento da Terra) é falso, todos os fundamentos de minha filosofia também o são." O Tratado ficou entre os papéis de Descartes e só foi publicado em 1677. Ele não abandonou, porém, a idéia de divulgar suas teses científicas, partindo da Filosofia para criar uma nova Matemática e, sobre ela, edificar uma nova ciência. Assim, em 1637, precede seus três ensaios - Meteoros, Dióptrica e Geometria - de um Discurso do método.

Nessa sua mais famosa obra, expõe por inteiro a metodologia da dúvida, começando por destruir tudo: sua crença na existência do mundo, dos objetos, de seu próprio corpo, de Deus, Tudo pode ser pura ilusão, sonho. Mas resta uma certeza: “ Penso logo existo" (Cogito, ergo sum, em latim). Descartes reconstrói o Universo, demonstra sua própria natureza, reafirma a existência de Deus, das coisas materiais e, por fim, distingue corpo e alma no homem. O mais importante - e que constitui a metodologia básica do cartesianismo - é considerar como verdadeiro somente o que for possível intuir com clareza e evidência.

Descartes estava seguro de ter chegado à mais sólida filosofia jamais pensada. Mas nem por isso ficou livre da polêmica. Para evitar dissabores (não esqueceu Galileu nas mãos do Santo Ofício), costuma submeter seus trabalhos à crítica dos teólogos e os publica, junto com as eventuais objeções. Mas, mesmo na tolerante Holanda, os ministros e acadêmicos se irritam com a repercussão de sua filosofia e vão à luta em defesa de Aristóteles.

A 17 de março de 1642, o Parlamento de Utrecht proíbe que as idéias de Descartes sejam ensinadas na cidade, “ primeiro, porque são novas; depois, porque desviam a juventude da velha e sã filosofia". Com isso, Descartes encheu-se de brios e passa a se defender dos ataques pessoais. Em 1645, a Universidade de Groningen o perdoa, mas a Justiça de Utrecht considera difamatória sua réplica. Dois anos depois, um teólogo da Universidade de Leyden, ainda na Holanda, o acusa de blasfemo, crime punido pela lei. Descartes precisa pedir socorro ao embaixador francês.

Isso não foi suficiente, porém, para melhorar suas relações com a terra natal. Em 1647, em Paris, onde o cardeal Mazarino, sucessor de Richelieu, lhe concede uma pensão, que por sinal jamais será paga, Descartes encontra o jovem Blaise Pascal (1623-l662), a quem sugere experiências sobre o vácuo usando o mercúrio. No ano seguinte, novamente em Paris, encontra a cidade em ebulição política e tomada por barricadas. "O ar de Paris me predispõe a conceber quimeras em lugar de pensamentos filosóficos. Vejo ali tantas pessoas que se enganam em suas opiniões e cálculos que isso me parece uma enfermidade universal", comenta, azedo. Descartes prefere mais que nunca evitar os assuntos polêmicos, ocupando-se sobretudo de questões morais. É o que mostra sua correspondência com a princesa Isabel, filha de Frederico, rei destronado da centro-européia Boêmia, exilado na Holanda.

A última obra do filósofo, As paixões da alma, de 1649, procura entender os sentimentos e tirar conclusões éticas. Nesse ano, ainda que relutante, Descartes aceita um convite para viver na corte sueca. A realeza européia está ávida de brilho intelectual, mas a rainha Cristina, da Suécia, tinha excêntrica noção de como utilizar os serviços do filósofo - ela o chamava para conversar três vezes por semana, às 5 horas da manhã. Visitar o castelo em plena madrugada, no severo inverno nórdico, foi demais para os pulmões delicados de Descartes. A 11 de fevereiro de 1650, ele morreu de tuberculose, em Estocolmo, aos 54 anos de idade. O corpo foi enviado para ser enterrado na terra natal. Mas a cabeça só voltou à França em 1809 - em macabra homenagem à sua inteligência, os suecos conservaram seu crânio por mais de um século e meio.

O homem que calculava

Qualquer ginasiano conhece uma das mais populares contribuições de René Descartes à Matemática: os a, b, x, e y da álgebra. Foi Descartes, de fato, quem primeiro usou as letras iniciais do alfabeto para representar as constantes e as últimas letras para as variáveis de uma equação. Ele também introduziu o uso de expoentes e o símbolo da raiz quadrada. Mas sua grande proeza foi combinar álgebra e geometria, tornando mais fácil a solução de problemas bastante complexos isoladamente - o resultado da fusão ganhou o nome de geometria analítica. Descartes foi responsável, igualmente, pela primeira classificação sistemática das curvas e de seu cálculo - as coordenadas cartesianas.

São conhecidos seus avançados estudos sobre a refração da luz e a confecção de eficientes lunetas. Ele imaginou ainda a gravidade como uma espécie de turbilhão gerado pelo movimento da Terra no fluido que tudo preenche (Descartes não acreditava na existência do vazio). O planeta giraria em torno do Sol obedecendo ao mesmo princípio: um vórtice criado pelo movimento de um sólido no fluido. Tais conceitos hoje parecem pueris, mas deram origem ao mecanicismo nas ciências naturais. Aos olhos do século XX, porém, é na anatomia que Descartes comete seus piores vexames. Ele supunha, por exemplo, que a glândula pineal era uma característica do ser humano e a descreveu como a conexão entre corpo e alma. Poucas décadas mais tarde, já se sabia que répteis primitivos também tinham essa glândula - e ainda mais desenvolvida que no homem.

Em latim, só o nome

Como era praxe em seu tempo, René Descartes assinou suas obras com uma versão latinizada de seu nome: Renatus Cartesius. Daí seu sistema filosófico ser chamado cartesiano. No início do século XVII, na verdade, o latim já estava em declínio como língua universal da cultura e o próprio Descartes preferia escrever em francês. A publicação em língua vulgar do Discurso do método, em 1637, é uma espécie de atestado de maturidade intelectual do idioma francês, convertido por Descartes em respeitável veículo para a erudição. Além disso, o abandono do latim - que Descartes reservou apenas para o público acadêmico - permitiu ampla divulgação de seu trabalho, abrindo as portas do conhecimento aos burgueses semiletrados.

Se não foi o primeiro a filosofar na França, Descartes foi o primeiro a filosofar em francês. E isso teve tamanho impacto na terra natal que o pensamento cartesiano se tornou um símbolo de identidade nacional, uma espécie de brasão da inteligentsia francesa. Mas, para além de qualquer fronteira, Descartes legou à humanidade uma nova maneira de raciocinar, capaz de ser usada para provar até mesmo que boa parte de sua própria filosofia está errada. Da mesma forma que na álgebra as equações de grau superior são convertidas em equações mais fáceis de resolver, o método cartesiano propõe-se a dividir as questões em idéias cada vez mais básicas e simples, até obter um conhecimento legítimo: a verdade. Para o professor Carlos Alberto Ribeiro de Moura, da Universidade de São Paulo, não pode haver dúvida sobre a decisiva contribuição do filósofo do século XVII ao pensamento moderno. Diz ele: "Devemos a Descartes a teoria da verdade como problema filosófico".
Revista Superinteressante

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Papa Júlio II


Retrato de Júlio II é um quadro de Rafael considerado um modelo de retrato no século XVI. Uma homenagem ao papa Júlio II que, ao longo de seu pontificado, foi um grande patrocinador das artes na Itália.

sábado, 9 de abril de 2011

Renascimento e o conceito de Homem


VOLTAIRE SCHILLING
O conceito que se tem do Homem varia no tempo, como também na história. A percepção que se fazia dele na Antiguidade Clássica não era a mesma introduzida mais tarde pelo Cristianismo. Uma mudança significativa, que terminou por se projetar na modernidade, nos veio do Renascimento, quando uma nova formulação, um outro entendimento do que seria o Homem começou a predominar no cenário cultural do Ocidente.

A visão de Agnes Heller
Ex-discípula do filósofo marxista Georg Lukács, Agnes Heller, nascida em Budapeste, na Hungria, em 1929, dedicou-se a determinar num estudo acurado e erudito, intitulado 'O Homem do Renascimento', quais foram as transformações que ocorreram na época da Renascença italiana que mais contribuíram para que uma outra concepção de Homem gradativamente começasse a se impor aos olhos dos pensadores e escritores ocidentais.
Partindo da suposição de que nos tempos clássicos a concepção do Homem era estática, devido às enormes limitações que as potencialidades sociais e individuais sofriam, ela observa que o Cristianismo as ampliou. Mas mesmo assim o Homem encontrava-se balizado entre o Pecado Original e o Juízo Final, que atuavam como as fronteiras iniciais e derradeiras das possibilidades humanas. No Renascimento tudo mudou. Forjou-se naquela oportunidade um conceito dinâmico do Homem, que passou a ter sua própria história de desenvolvimento pessoal tal como a sociedade em que vivia.
E não era para menos. O Homem do Renascimento foi contemporâneo de notáveis transformações de toda ordem provocadas pela Revolução Comercial dos séculos XV-XVI que fez a glória e o esplendor das cidades-estados italianas, das cidades flamengas e alemãs, daquelas que compunham a Liga de Hansa no Báltico, ativadas pela vitalidade da economia monetária, pela emergência do sistema bancário (Banca Médici, Casa Fugger, etc.).
Além disto, inteirou-se das navegações atlânticas dos portugueses, da viagem de Cristóvão Colombo, da chegada à Índia de Vasco da Gama, e da volta ao mundo feita por Fernão de Magalhães. Se o Homem do medievo tinha o seu horizonte limitado pelo feudo ou pelo burgo em que nascera e vivia, o Homem do Renascimento viu seu olhar estender-se pelo mundo inteiro.

Novo entendimento do Cosmo
Mesmo que muitos deles não se intimassem com as teorias heliocêntricas de Nicolau Copérnico ou com a aceitação da existência dos diversos outros mundos defendida por Giordano Bruno, era evidente que as estas novas percepções do universo indicavam um profundo sintoma de mudança geral, entre outras razões porque superaram teorias cósmicas que duravam há mais de 17 séculos (como era o caso das teorias de Aristóteles e de Ptolomeu).
Há uma crescente confiança no Homem. Sobrevivente da Peste Negra do século XIV e dos tumultos da Idade Média, o renascentista começa a vislumbrar um outro cenário de atuação que o leva a pairar sobre o ilimitado, a sonhar com feitos até então impensáveis, tais como aparecem nos engenhos de Leonardo da Vinci( com seus projetos de submarinos e objetos voadores, além de uma quantidade incrível de máquinas fantásticas). Se ele ainda se sente minúsculo frente à grandiosidade do Cosmo, percebe-se grande, senão que gigantesco quando se trata da conquista do mundo, do aqui e do agora, daquilo que o cerca.
Esta nova liberdade, esta consciência de poder lançar-se no impossível foi fruto, segundo Heller, da ascensão do capitalismo. Ainda que em sua fase inicial, ele já se mostrava eficiente no processo de destruição e superação das relações dos indivíduos com a comunidade e com a família.
Isto não só abalou com a rígida hierarquia e estabilidade do medievo como serviu como um impulso para que as personalidades, livres dos liames familiares ou clãnicos, aflorassem desejando marcar sua posição no cenário social e na História. Não foi sem motivos que data do Renascimento o gosto pelo retratismo. Nobres, burgueses, papas e demais membros do clero, desejavam imortalizar-se pelas artes. Queriam afirmar a sua presença singular na Terra de modo definitivo, sendo perenizados pela mão do pintor, gravador ou do escultor.

O Culto ao Homem
Não é tanto uma celebração do individuo em si, mas sim um Culto ao Homem o que predomina. Ocorre o deslocamento do Teocentrismo para o Antropocentrismo. Não mais ao Homem Santo dos tempos medievais, voltado às orações e aos milagres em meio a uma vida de pobreza e castidade, mas aquele se faz por si mesmo e leva uma existência exuberante.
Celebra-se o aventureiro como Marco Pólo, trotador do mundo, ou o capitão mercenário que se torna senhor absoluto de uma cidade como ocorreu com Francisco Sforza (1401-1466) que se sagrou duque de Milão, ou ainda com Erasmo da Narni, dito Gattamelata, ditador de Pádua, tipos que saíram do nada e alcançaram a celebridade pela destreza das armas e pela audácia e ousadia sem freios.
Os príncipes de Maquiavel, gente sem escrúpulo, um tanto humanos, outro tanto feras, homens-lobos vorazes por fama e poder como foi César Borgia ou Giovanni dalle Bande Nere. Orgulhosos, arrogantes, contadores de vantagens e brigões, eram a antítese do ideal cristão.
Por não se deixarem coibir por regras ou pruridos morais da ética religiosa, viram-se compensados em seu atrevimento atrás da fortuna se tornando legendas ainda quando vivos.
O mesmo se aplica ao comerciante ou ao banqueiro bem sucedido, como foi o caso de Cosme de Médici em Florença, capaz de estabelecer ligações mercantis com lugares distantes da Europa ou do Levante.
Aos navegadores audazes que enfrentaram mares desconhecidos e viram de perto reinos longícuos, africanos, asiáticos, ou do Novo Mundo, que imaginavam lendários e não reais, como foi o caso de Diogo Cão que colocou as marcas lusitanas na foz do rio Congo, ou o condottiero-almirante Andrea Dória, os espanhóis Cortes e Pizarro, e tantos outros desbravadores. Todos eles homens de ação e não de contemplação, comprometidos com a vida excepcional, ativíssima, repleta de riscos e incertezas, e não com o ócio monacal, fizeram com que assim o 'homem se tornasse o centro do interesse'.
Deu-se então que a concepção de Gênio sucedeu a de Santo. Enquanto um estreitava a sua relação com o real (o gênio é inventivo) o outro se mantinha ligada ao sobrenatural (ao milagre); O resultado disto foi o interesse crescente pelas coisas da Terra e não somente do Céu. Estudar o habitat, verificar o meio em que o Homem atua, as circunstancias sociais e materiais que o cercam e de que modo elas podem ser mais bem entendidas, daí a explosão dos mapa-múndi e da cartografia. A humanização da natureza foi um dos legados do Renascimento e o estudo das leis que a regem a sua conseqüência.
Ainda que a escolástica pudesse se sentir ameaçada e os dogmas sofressem perceptível desintegração, não houve ataque ateísta no Renascimento. Para isto foi preciso esperar-se pelo Iluminismo e pelo surgimento das escolas materialistas dos séculos XVIII e XIX.
Bibliografia
Cassirer, Ernest - Individuo e Cosmos na Filosofia do Renascimento. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
Heller, Agnes - O Homem do Renascimento. Lisboa: Editorial Presença, 1984.
Maquiavel, Nicolau - O príncipe. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1968.

domingo, 3 de maio de 2009

Renascimento - Viagem à origem do mundo moderno

Série de História Viva mostra como os artistas do Renascimento inventaram uma nova civilização ao tentar reviver a cultura da Antigüidade clássica
por Bruno Fiuza
© LUIZ FERNANDO MACIAN (REPRODUÇÃO)


Dante, Petrarca, Bocaccio e outros pioneiros do humanismo: retomada dos clássicos colocou em xeque o pensamento medieval/Retrato de seis poetas toscanos, óleo sobre tela, Giorgio Vasari, 1543, Instituto de Artes de, Minneapolis, Minnesota

No século XV, a Europa passava por profunda transformação. Depois de quase mil anos de vida rural, fechada em si mesma, os pensadores e artistas do continente sentiam que algo ganhava vida no estagnado ambiente cultural da Idade Média.

A transformação, não por acaso, vinha da Itália. A península nunca se enquadrara no script da Idade Média e permanecera essencialmente urbana enquanto o resto da Europa se fechava na vida rural. Mesmo no auge do feudalismo, por volta do ano 1000, Veneza já era uma próspera cidade comercial.

Nada mais natural, portanto, que o mundo medieval começasse a ruir no ambiente urbano da república de Florença do século XIV. Buscando resgatar a herança cultural da Antigüidade clássica, o movimento humanista rompeu com a escolástica, filosofia medieval que explicava o mundo apenas a partir dos dogmas da Igreja, e anunciou o início de uma nova era nas letras e nas artes.

O ideal que orientava os novos tempos era, na verdade, uma busca pelo passado. No campo das letras, Dante retomava o modelo de poetas clássicos, como Virgílio, para compor sua Divina comédia. Ao mesmo tempo, Giotto di Bondoni resgatava a tradição clássica nas artes visuais. Os grandes modelos greco-romanos ressuscitavam. Era o início do Renascimento.

© LUIZ FERNANDO MACIAN (REPRODUÇÃO)


Resgatando a tradição clássica, Giotto rompeu com a pintura medieval/O cortejo nupcial da virgem, afresco, Giotto di Bondoni, 1304-1305, Capela Scrovegni, Pádua e Os pais da perspectiva nas artes visuais: Masaccio, Alberti e Brunelleschi (da esquerda para a direita)/Detalhe do afresco Ressurreição do filho de Teófilo e São Pedro em Cátedra, Masaccio, 1424- 1427, Capela Brancacci, Florença
Surgido nas artes, esse movimento moldaria, nos séculos seguintes, a própria mentalidade do homem moderno. Foi para explicar um fenômeno cultural de tamanhas proporções que o consultor de História Viva, Luiz Marques, decidiu embarcar na aventura de elaborar uma série de revistas que mostrasse ao público como, ao criar uma determinada idéia do mundo antigo, o Renascimento “gerou as coordenadas mentais do mundo moderno”.

Professor do Departamento de História da Unicamp e um dos maiores especialistas brasileiros no assunto, Marques dividiu a coleção em cinco volumes, cada um dedicado a determinada fase do Renascimento.

A primeira edição abrange o período que vai de 1280 a 1420 e aborda os primórdios do movimento, quando nomes como Giotto, Cimabue, Dante e Petrarca, reunidos na cidade de Florença, lançaram as bases da nova mentalidade. O segundo número se concentra nos anos de 1420 a 1480 e trata do momento em que a renovação artística e intelectual se espalha por Roma, Veneza, Nápoles, Milão e Florença.

O terceiro fascículo da série aborda o período que vai de 1480 a 1500 e analisa como os artistas do século XV reprocessaram a tradição clássica da arquitetura e da escultura monumental da Antigüidade.


Capa da primeira edição da série
O quarto número foca a idade de ouro do Renascimento, entre os anos de 1503 e 1521, quando gênios como Leonardo da Vinci, Michelangelo e Rafael trabalharam, lado a lado em Florença. Por fim, o último número trata dos anos de 1520 a 1580, quando as guerras da Itália sufocaram o movimento na península e este consolidou em novo sistema das artes pós-renascentista.

A partir da análise de obras literárias e visuais, Luiz Marques revela o projeto dos renascentistas: recriar a riqueza cultural da Antigüidade greco-romana, que havia sido adulterada pelos povos que destruíram a civilização dos césares e criaram a Europa medieval.

É por isso que, como explica o organizador da coleção, ao criar uma idéia do mundo antigo, o Renascimento “gerou as coordenadas mentais do mundo moderno”. Daí o paradoxo que Luiz Marques convida o leitor a desvendar: o de “como a modernidade nasce das diversas reações químicas do antigo fecundado pelo novo na história da arte e das idéias dos séculos XIV a XVI”.

Bruno Fiuza É editor-assistente da revista História Viva.

Revista Historia Viva

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

RENASCIMENTO - A arte espelha a consagração do homem


Leonardo da Vinci, Botticelli e Michelangelo refletiram na arte o sentido maior do Renascimento: o homemcomo medida de todas as coisas e a busca pela perfeição que só padrões racionais poderiam construir

O conceito de Renascimento vem da palavra italiana renascitá. Acreditava-se que o período histórico anterior, a Idade Média, fora uma "espessa e longa noite gótica" imersa nas trevas e desprovida de cultura. Parecia que, durante séculos, o homem vivera subjugado intelectualmente pela religião e que o conhecimento intelectual circulara, basicamente, nos mosteiros e nos ambientes da Igreja. Esse tempo deveria ser superado, e a "verdadeira" cultura, resgatada na Antigüidade, alimentaria o novo espírito. As artes e os escritos clássicos, relidos e revistos à luz dos valores e modismos dos séculos XIV ao XVI, converteriam-se nas grandes fontes de saber.
A estética renascentista propôs claramente o retorno a alguns valores clássicos, como a arte mimética, imitação da realidade com o objetivo de buscar a perfeição, segundo Aristóteles, forjando a idéia de respeitar o modelo adotado e, dentro dele, a busca da superação, com o auxílio da criatividade; a harmonia; e a sobriedade, a contenção dos sentimentos.

Mas a grande mudança do Renascimento foi a definição de um novo estado mental e filosófico, que colocou o ser humano no centro de tudo: o antropocentrismo. O antropocentrismo é uma condição filosófica, um posicionamento abstrato que converteu o homem na medida de todas as coisas em detrimento do teocentrismo medieval, que situava em Deus o centro de tudo. O antropocentrismo permitiu que se exercesse a liberdade de pensar sobre o próprio homem e seu meio. Com essa base, expandiu-se no Ocidente uma forma de cultura laica, não religiosa, que valorizava o individualismo e a racionalidade.

Um exemplo dessa idéia está no estudo de proporção feito por Leonardo da Vinci para ilustrar uma cópia do tratado De Architectura, escrito por Vitrúvio em 40 a.C. O que se vê é a imagem de um homem de pé, esboçado em movimento, com pernas e braços mostrados simultaneamente em duas posições diferentes. O personagem, primeiro, está parado com os braços esticados em um ângulo de 90 graus com o corpo e as pernas fechadas. Ao mesmo tempo, dá um salto e afasta mais as pernas e levanta os braços.
A extensão das pernas até a cabeça delimita o tamanho de um quadrado, símbolo do mundo material e terrestre, enquanto a movimentação dos braços traça um círculo, símbolo da órbita celeste, do Universo. O desenho indica que o "homem é a perfeita medida de todas as coisas".
O homem de Vitrúvio, nome como ficou conhecido o trabalho de Leonardo da Vinci, não só carrega uma releitura da cultura greco-romana, mas apresenta um novo olhar, mais centrado na experimentação, observação, análise e teorização do Universo, que já não é visto como algo estático e imutável, sustentado em dogmas, mas sob uma ótica científica.

BUSCA DA IMAGEM PERFEITA
A maneira dos homens enxergarem as coisas se transformava. Procurava-se observar a natureza e analisar os fenômenos de uma forma direta, mais descritiva e analítica, e sem a mediação religiosa. Surgia uma vontade de compreensão e representação na arte que já não podia mais ser satisfeita com o pensamento teológico, por exemplo, e
nem com as técnicas de pintura desenvolvidas na Idade Média. O pensamento sobre o mundo ganhou a trilha do humanismo. E a qualidade da representação na pintura do Ocidente evoluiu rapidamente com a busca da imagem perfeita, da beleza essencial, da verdade na arte. Perspectivas e proporções exatas se tornaram o lugar-comum da pintura. E velhos personagens, deixados no esquecimento durante a Idade Média, renasceram com força: deuses, heróis e pensadores da Antiguidade que inspiraram o homem Renascentista de modo profundo.

O imaginário greco-romano e os símbolos da tradição pagã passaram a ocupar espaços públicos e privados, a se tornar novamente visíveis, e a mudança cultural chegou até o povo. Os santos católicos e os ícones do cristianismo passaram a dividir espaço com as representações pagãs e sensuais da Antiguidade, resgatadas para os novos tempos. Os artistas enfrentavam os dilemas dessa transição.
Tomemos o exemplo de O Nascimento de Vênus, obra do pintor florentino Sandro Botticelli (1445-1510). O nome já identifica a temática do quadro: a representação do nascimento da deusa romana do Amor, Vênus (Afrodite para os gregos). A pintura foi encomendada por Lorenzo di Pierfrancesco, primo de Lorenzo de Médici, o Magnífico. Vênus ocupa a posição central do quadro, dividindo de forma harmoniosa o espaço da composição: à sua direita se encontra a personificação dos ventos. Os ventos sopram e formam as ondas e as espumas do mar, das quais nasce Vênus. Ela está em pé sobre uma concha e encobrindo-se apenas com suas mãos e cabelos. À sua esquerda, vindo ao seu encontro, está a personificação de Flora, que lhe traz suas vestes.
Mas, apesar do apego à narrativa mitológica greco-romana, o cristianismo também está presente. Botticelli era muito influenciado pelo pensamento neoplatônico, em particular pelo filósofo Marsílio Ficino, que incorporou o pensamento de Platão com base numa visão cristã. Em O Nascimento de Vênus, ele representou a concha como uma alusão ao batismo, o primeiro sacramento recebido. O batismo representa a inclusão na comunidade cristã e é um contraponto ao paganismo e ao Pecado Original.
O pudor de Vênus também pode estar associado ao neoplatonismo de Botticelli. No texto O Banquete, de Platão, aparecem duas descrições da Vênus: a Venus Vulgaris (Vênus Vulgar) representada nua e relacionada com o mundo material, e a Venus Coelestis (Vênus Celestial), ligada à essência espiritual. É a imagem da Vênus Celestial que Botticelli trata de representar.
As relações entre sábios e saberes durante a Idade Média se davam de um modo exclusivista. A escrita era o monopólio de um grupo restrito da sociedade, do clero. E o conhecimento era algo pertencente a Deus. Os textos contidos na Bíblia, base do conhecimento medieval, eram inalcançáveis para os fiéis. A leitura era privilégio de gente da Igreja e de poucos homens cultos. Os livros não estavamdisponíveis. A Igreja podia se firmar como única e exclusiva intermediária entre Deus e os homens.Mas, a partir da invenção da imprensa de tipos móveis por Gutenberg em 1450, o monopólio começou a ser rompido. Gutenberg iniciou seu trabalho de impressão justamente com a Bíblia. A divulgação de idéias, da própria Igreja ou mesmo de outras instituições, teve umsignificativo avanço. Tornava-se muito mais fácil a elaboração de livros, numa gradativa substituição dos manuscritos realizados pelos copistas nos mosteiros e abadias.
A transição do medievo para o mundo moderno não foi um processo homogêneo, sendo lenta e portadora de uma forte herança cultural. Essa herança teve vida longa em alguns pontos da Europa e em outros foi rapidamente enfraquecida.
Apesar da rejeição a alguns valores medievais, é importante perceber que as transformações sofridas durante o Renascimento foram resultado de um processo de continuidade que perpassou a Idade Média e atingiu seu esplendor no momento seguinte.
Uma das formas mais interessantes e ricas de se entender o Renascimento é olhar sua produção artística, hoje patrimônio inestimável da Humanidade. O acesso à maior parte dessa produção, em sua época, era exclusividade de ricos mercadores, nobres e do alto clero.
Quanto ao acesso das camadas mais pobres ( il popolo minuto: povo miúdo), ficou restrito à produção executada para os espaços públicos como estátuas e fontes nas praças, nas igrejas e nas confrarias de artesãos.

Outro ponto importante a ser notado é a idéia da mimesis. A natureza é o modelo da arte, e quem observa a posição dos ventos e a direção que eles sopram no quadro, por exemplo, nota claramente o movimento dos cabelos de Vênus e dos tecidos nas mãos de Flora. Tudo se move. E há uma predominância
das linhas curvas sobre as linhas retas que delimitam o horizonte. A simplicidade é vitoriosa e o espírito se eleva com beleza e equilíbrio.

Analisemos, agora, outro trabalho de Leonardo da Vinci. Não mais um desenho técnico, mas uma pintura. Trata-se do quadro A Última Ceia , encomendado pelo duque de Milão, Ludovico Sforza, e pintado na parede do refeitório do convento dos dominicanos de Santa Maria delle Grazie, em Milão, entre 1495 e 1497. O quadro de Da Vinci tornou-se uma das imagens mais populares do mundo cristão.
Vale dizer que ninguém representa tão bem o Homem Universal(l'uomo universale) renascentista como da Vinci. Foi ele quem conseguiu aplicar perfeitamente na arte todo o conhecimentocientífico e técnico de seu tempo. Ele foi um símbolo do uso de múltiplas potencialidades nos diferentes campos do conhecimento.
O quadro A Última Ceia mostra um momento da última refeição de Jesus Cristo com seus apóstolos, tema de vital importância no culto cristão. É na ceia final que se desenvolve o dogma da transubstanciação, realizado na transformação do pão em carne e do vinho em sangue. Ao longo de dois mil anos, a recriação simbólica dessa cena converteu-se no momento mais importante da liturgia cristã, a Eucaristia.
Sendo uma cena muito presente no imaginário cristão, seja pelo texto bíblico, seja por sua constante repetição na liturgia ao longo da trajetória do cristianismo, a última ceia teve inúmeras representações. O quadro de Leonardo da Vinci compõe a imagem como uma peça teatral: num grande e suntuoso salão, Cristo e seus apóstolos estão reunidos.
Cristo ocupa o centro da mesa, típica de banquetes medievais. Dividem-se, ao seu lado, dois grupos de seis apóstolos, apresentados de maneira simétrica em uma composição harmoniosa e equilibrada. O ponto central da imagem se encontra atrás da cabeça do próprio Cristo. A cabeça compõe uma circunferência junto com a moldura da janela imediatamente posterior e é o pólo irradiador das linhas de perspectiva da composição, uma das principais contribuições estéticas do Renascimento.
A atenção do Cristo está voltada para o pão e o vinho, alimentos e metáforas de seu futuro destino: o sacrifício na cruz pela Humanidade. A posição de seus braços em relação à cabeça forma uma imagem triangular. Hipóteses para tal composição são inúmeras, destacando-se, entre elas, as de caráter esotérico e místico, uma vez que os estudos herméticos e de alquimia foram muito comuns à época de Leonardo da Vinci.
Não há como saber quais teriam sido as referências que guiaram a mão e a mente do pintor. Mesmo as referências presentes nos Evangelhos não oferecem muitos dados para uma resposta precisa. Essa dificuldade nos situa em um ponto importante sobre o entendimento de qualquer produção artística: as imagens não têm sentido sozinhas, existe um contexto, e a recuperação desse contexto implica a compreensão ou a "atribuição" de um sentido mais preciso ou pelo menos mais plausível a respeito de seus possíveis significados. A representação de Leonardo da Vinci sustenta um conteúdo cristão-católico (a "última ceia") nos conhecimentos técnicos de pintura que se desenvolvem no Renascimento.
Por mais que entre os séculos XIV e XVI tenha ocorrido uma intensa valorização da racionalidade, era algo muito distante e completamente diferente da nossa concepção de Razão. Naquele momento, a religiosidade ainda exercia um papel central nas diferentes formas de sociabilidade, e mesmo aquilo que viria a ser chamado de Ciência ainda mal se definia.
O Renascimento trouxe uma série de inovações técnicas, sociais e culturais para o Ocidente. Foi um momento de grande abertura intelectual, orientada por uma nova visão de mundo e uma nova mentalidade, mais dinâmica e rica de sentidos, que pudessem atender às necessidades daquele contexto. Mesmo assim, muitos dos pensamentos e da arte do período se afirmavam no confronto com a visão medieval. E a Igreja tratava de se defender dos avanços dessa nova racionalidade. Às vezes, essa defesa era intransigente e sem piedade. Essa "reação" pode ser percebida na execução do médico Giordano Bruno em 1600, ou na condenação de Galileu Galilei em 1616, sentenciado a revogar em público suas doutrinas.
Seriam necessários mais alguns séculos para que as conquistas do Renascimento superassem amplamente a visão dogmática do período anteior. A visão que chamamos de científica é filha do Iluminismo e seus filósofos, que viveram no século XVIII, e também de todo o avanço do Cientificismo dos séculos XIX e XX. Ela começou a florescer na Renascença, mas precisou de vários séculos para se tornar dominante. É provável que a Ciência tenha conseguido o espaço que pleiteara no passado, favorecida pelo materialismo, pelo ateísmo e por uma relativa liberdade de pensar. Mas, por outro lado, os extremismos religiosos não param de se manifestar, seja no Ocidente, no Oriente. Muitos dos dilemas que envolvem a fé e a razão e que motivaram o homem renascentista continuam atuais.
Elias Feitosa de Amorim Jr. é mestrando em História Social (USP) e professor de cursos pré-vestibular.
Revista Desvendando a História