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segunda-feira, 18 de março de 2013

Guerras e Escritas: a correspondência de Simón Bolívar (1799-1830)

Tereza Maria Spyer Dulci

Doutoranda pelo Departamento de História da FFLCH/USP – Av. Prof. Lineu Preste, 338 – Bairro: Cidade Universitária. São Paulo – SP. CEP: 05508-000. E-mail: terezaspyer@hotmail.com

FREDRIGO, Fabiana de Souza. Guerras e Escritas: a correspondência de Simón Bolívar (1799-1830). São Paulo: Ed. UNESP, 2010, 290 p.

Simón Bolívar tem lugar cativo na memória política e social da América Latina, inclusive como mito inspirador de diferentes bandeiras político-ideológicas. Por sua vez, as versões históricas em torno das independências hispano-americanas foram construídas a partir dos próprios escritos do "Libertador", que criou uma identidade de "herói sem fronteiras".

Em seu livro Guerras e Escritas: a correspondência de Simón Bolívar (1799-1830), publicado pela Editora Unesp, a historiadora Fabiana de Souza Fredrigo, professora do Departamento de História da Universidade Federal de Goiás, investiga o culto a esse mito. Seu trabalho, que mescla história, memória, literatura e biografia, deu-se a partir da análise das cartas de Bolívar (2.815), buscando identificar os vínculos construídos entre a memória individual, a memória coletiva e a historiografia em torno das independências e de Simón Bolívar.

Sua análise é bastante original, já que utiliza as missivas para buscar a subjetividade de Bolívar e dos diferentes atores históricos que aparecem nas cartas. A historiadora procura apresentar o mundo do general a partir do contexto depreendido das correspondências, sem seguir a cronologia tradicional, pois seu objetivo central é investigar os temas mais relevantes do epistolário, debruçando-se sobre o que se tornou importante para Bolívar no contexto em que vivia.

O que lhe interessa não é compreender por que Bolívar foi escolhido ícone das independências latino-americanas, mas, sim, como ele produziu esta escolha ao criar seu próprio mito. Para a autora, "Simón Bolívar torna-se o Libertador, primeiro, por suas ações e suas palavras, tão valiosas como a espada; segundo, pelo efeito inebriante que o ideal de liberdade produz em meio à memória coletiva" (p. 64).

O livro é composto por três capítulos, ao longo dos quais a historiadora desenvolve a tese de que, ao escrever cartas, o general procurava construir um projeto de memória de si e dos outros (do indivíduo e do seu grupo/do remetente e do destinatário). Bolívar acreditava que suas memórias atingiriam e mobilizariam as gerações futuras, "tinha projetos urgentes em um presente concreto, mas sempre apontava para o futuro, guardião da sua imagem" (p. 47-48).

Para o missivista e seus contemporâneos, a consagração da memória era percebida como sinônimo de posteridade. A autora, ao fazer uma releitura do epistolário, afirma que o culto ao general teve o próprio Bolívar como seu principal arquiteto, já que seu projeto de memória foi construído a partir de uma cuidadosa escolha dos temas, de como escrever sobre eles e da constância das suas cartas. Segundo Fredrigo, em suas correspondências "Bolívar atuou como historiador, quando selecionou, registrou e arquivou os 'fatos'" (p. 271).

No primeiro capítulo, "As cartas, a história e a memória", a historiadora desenvolve suas reflexões a partir do cotejo das biografias de Bolívar com as missivas, buscando reconstruir as dimensões históricas do personagem. Ao identificar duas principais fases na vida do general – a das guerras de independência contra a Espanha, permeada de otimismo, e a das guerras civis entre as lideranças que tinham diferentes projetos para a América (o unitarismo de Bolívar versus o federalismo de Santander), carregada de ressentimento e pessimismo – a autora nos propicia um interessante panorama do autoexame feito pelo general em suas cartas, escritas com o objetivo de convencer o interlocutor e edificar o personagem.

Também nesse capítulo, a historiadora se preocupa em discorrer sobre as correspondências (que detêm status de fonte privilegiada) e discutir as relações entre história, memória e epistolário. Ao abordar as particularidades da fonte e analisar como estas foram apropriadas pela historiografia, Fredrigo analisa, com uma grande riqueza de detalhes, não apenas o contexto e a criação do mito, mas também seu estilo de escrita, as especificidades do discurso e a construção narrativa.

A autora traça igualmente um interessante panorama das apropriações do mito bolivariano na Venezuela, onde foi e continua sendo usado para representar a coesão nacional, seja pela elite do século XIX, seja durante a ditadura de Juan Vicente Gomes (1908-1935), ou a partir da revolução chavista e da República Bolivariana. Fredrigo leva o leitor a perceber que a historiografia bolivariana é repleta de anacronismos e que as palavras de Bolívar foram interpretadas por grande parte da historiografia como verdade histórica absoluta, sem crítica às fontes. Além disso, as biografias do general usam os mesmos marcos cronológicos e são geralmente estudos apologéticos. Para a historiadora, tanto as biografias quanto a historiografia, construídas desde sua morte, estabeleceram uma correlação entre a vida de Bolívar e o destino da própria América, como se Bolívar e América Latina formassem "uma só alma" (p. 68).

O segundo capítulo, "Guerra, honra e glória: atos e valores do mundo de Simón Bolívar", trata da constituição de uma memória particular dentro da memória coletiva, pois as cartas interpretavam o passado e tinham um projeto de futuro. Para a autora, Bolívar, consciente de que produzia memória, buscava atingir seus contemporâneos e as gerações futuras. Por sua análise, vemos que o general e seus pares, a elite criolla, formavam uma "comunidade afetiva" e tinham valores comuns, baseados na "guerra, honra e glória", valores que eram expressos e cultivados nas cartas, enquanto o povo era excluído dessa comunidade, mesmo que isso contrariasse a simbologia republicana.

Ao tratar dos diferentes atores históricos que aparecem nas missivas, a historiadora apresenta uma valiosa contribuição ao campo das identidades nacionais, demonstrando que estas tiveram de ser construídas no pós-independência para criar uma mesma comunidade de afiliação, "unindo os descendentes dos conquistadores aos descendentes dos conquistados" (p. 122), a partir de uma identidade focada em um projeto estatal republicano, federalista e oligárquico.

Para Fredrigo, Bolívar acreditava que era necessário construir uma narrativa que reforçasse o vínculo entre oscriollos e os cidadãos comuns, baseada na humanidade das tropas e nas dificuldades dos campos de batalha. "A guerra, a honra, e a glória", valores que teriam criado a coesão intraelite, não tiveram o mesmo efeito no povo, por isso Bolívar teria construído lugares de memória simultâneos, para os generais criollos e para os soldados, ao estabelecer uma imagem de si mesmo que reunia, ao mesmo tempo, as figuras de líder e de soldado.

Já o terceiro capítulo, "Construindo a memória da indispensabilidade: o discurso em torno da renúncia e do ressentimento", se detém na análise da principal estratégia utilizada por Bolívar nas missivas para edificar seu mito, qual seja, a criação de uma "memória da indispensabilidade". Essa memória foi articulada a partir de um discurso polifônico, fundamentado na evocação da "renúncia" e do "ressentimento", elaborado pelo general para refutar as acusações de autoritarismo e apego ao poder e para fortalecer a ideia de homem público dedicado incondicionalmente ao povo e à pátria. Para a autora: "É a partir da fusão entre a necessidade de legitimidade, determinada pelo jogo político do presente, e o desejo de memória, delimitado pela perspectiva do futuro, que o missivista constrói e solidifica a memória da indispensabilidade" (p. 190).

Esse capítulo é, certamente, o ponto alto do livro. Nele, ao analisar o epistolário em diálogo com a literatura e a biografia, a historiadora trata do romance de Gabriel García Márquez (GARCÍA MARQUEZ, 1989) e da biografia de Salvador Madriaga (MADRIAGA, 1953). Em ambos os casos, Fredrigo estuda o culto bolivariano e a apropriação que os dois autores fizeram da "memória da indispensabilidade" forjada por Bolívar. A ficção literária e a biografia, embora de formas distintas, acabaram por reiterar a imagem que o general criou de si mesmo para a posteridade.

Assim, a leitura deste livro constitui, sem dúvida, uma rara oportunidade de acompanhar a historiografia bolivariana e a construção deste mito, o cotidiano das tropas e das guerras de independência na América do Sul, bem como os embates entre a elite criolla e o povo.

Referências bibliográficas
GARCÍA MARQUEZ, Gabriel. O general em seu labirinto. Rio de Janeiro: Record, 1989. 
MADRIAGA, Salvador. Bolívar: fracaso y esperanza. México: Editorial Hermes, 1953. Tomos I e II. 
Revista de História - Unesp

quinta-feira, 12 de abril de 2012

E se...Che tivesse criado a América Latina comunista?

Otávio Cohen
Em outubro de 1967, Che foi executado na Bolívia por militares locais que queriam barrar sua guerrilha. Com ele, morria seu plano de unificar a América Latina em uma nação comunista. Se Che tivesse escapado dessa, teria uma vida dura pela frente. Como seu grupo se escondia e mantinha distância das cidades, faltava adesão das massas à causa. Che precisaria conquistar esse apoio popular gradualmente para construir sua nação.

Países como Brasil, Peru e Paraguai estavam sob regime militar. Não seria inteligente enfrentá-los de cara. Che precisaria conquistar primeiro a Bolívia, contando com o apoio que ganharia por escapar vivo do atentado. A partir daí, o lógico seria investir na conquista de países como o Chile, onde a esquerda ganhava força sob o comando de Salvador Allende. Só assim, aumentando a adesão à causa, ele conseguiria enfrentar os governos mais resistentes. Mas levaria tempo - talvez só lá pelos anos 80 ele formaria, enfim, sua imensa república.

Che seria o governante central, mas passaria a administração regional para companheiros de guerrilha. "Cada país tinha suas particularidades. Até que a América Latina passasse pela revolução, cada território teria seus líderes", diz o historiador Luiz Bernardo Pericás, autor de dois livros sobre Che. Junto com seus representantes, Che decretaria a coletivização do trabalho e colocaria a economia desse enorme bloco nos moldes comunistas. "O Brasil e toda a nação latino-americana teriam indústrias estatais e campos de produção agrícola. Nos centros urbanos haveria espaço para a iniciativa privada, mas para pequenos comerciantes", afirma Amir Assad, economista da UFMG.
O sonho duraria pouco. Com o fim da União Soviética em 1991, a utopia comunista estaria morta. E a república de Che possivelmente se fragmentaria, como aconteceu com as repúblicas soviéticas. Alguns países resgatariam a autonomia. Pero sin perder la ternura - e algumas cositas compartilhadas com os hermanos.


O Brasil pós-Guevara

Um turista que passasse por aqui encontraria muita salsa no pé e uma língua bem engraçada


Ginga latina

Nem só de samba viveria o Carnaval. Os anos 80 seriam de valorização das culturas de massa na república de Che, de acordo com a cartilha comunista. O intercâmbio de programas de TV, cantores e bandas faria os brasileiros bailarem ao som de danças como mambo, salsa e zouk, expressões artísticas bem populares.

Che de Adidas

Che já teria deixado a América Latina há tempos. Depois de concluir a revolução por aqui, tentaria derrubar outras ditaduras na África e lutaria até pendurar a boina. "Ficar no poder por muito tempo não combinava com ele", conta o cientista político Kleber Chagas. A imagem que teríamos de Che Guevara não seria a do rosto do jovem guerrilheiro, e sim a de um Che envelhecido. Talvez usando Adidas, como Fidel Castro.

O coletivo nos coletivos

A economia da república desaceleraria por causa da coletivização. A população entraria nas décadas seguintes empobrecida. Os brasileiros não teriam vivido a ascensão das classes mais pobres dos anos 90. E até hoje estariam longe de conseguir comprar carro - todo mundo dependeria de ônibus.

Beijo, me liga. No fixo

Che defenderia que as empresas permanecessem sob controle estatal. A falta de concorrência atrasaria a inovação e o desenvolvimento em serviços básicos, como telefonia. Com uma operadora só de celular, fazer uma ligação da rua seria dureza.

Portuñol, língua oficial

No Brasil, Che encontraria 90 milhões de pessoas falando português. O idioma não morreria, mas incorporaríamos gírias e expressões em espanhol, falado por mais de 190 milhões na América. E poderíamos ter assistido a programas como Chaves na língua original.

Fontes Kleber Chagas Cerqueira, historiador e doutor em ciências políticas pela UnB; Luiz Bernardo Pericás, historiador e autor dos livros Che Guevara e a Luta Revolucionária na Bolívia e Che Guevara e o Debate Econômico em Cuba; Vitor Izecksohn, professor de história da UFRJ; Osvaldo Coggiola, professor de história da USP; Amir Assad, economista da UFMG; Che Guevara - Uma Biografia; Che Guevara: A vida em Vermelho.
Revista Superinteressante

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

José de San Martin


José de San Martin nasceu em 1778, num povoado às margens do Rio Uruguai, filho de um governador espanhol com a sobrinha do conquistador do Chaco, na atual Argentina. Mudou-se para a Espanha com a família, em 1783. Estudou no Colégio dos Nobres, em Madri, onde aprendeu latim, francês, alemão, retórica, matemática, história e geografia. Iniciou o aprendizado militar com apenas 11 anos e, em 1797, tornou-se subtenente no exército espanhol. Depois de passar por Londres, viajou para Buenos Aires, em 1812, participando ativamente do movimento de independência. Comandou a expedição ao Chile, em 1817, e governou o Peru entre 1821 e 1822. Considerado na Argentina como o "Pai da Pátria", sua atuação militar é comparável à de Simón Bolívar. Morreu na França, em 1850, aos 72 anos de idade.

terça-feira, 6 de abril de 2010

A Inconfidência Mineira

Alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, Tiradentes, [179?]. Fundação Biblioteca Nacional . Divisão de Iconografia. (1)
Thomaz Antonio Gonzaga: Inconfidente. Desembargador, [18?]. Fundação Biblioteca Nacional . Divisão de Iconografia. (2)



D. Maria, rainha de Portugal, [18?]. Fundação Biblioteca Nacional . Divisão de Iconografia. (3)

Tiradentes, 1746-1792. Recibo de pagamento referente a soldo no período de outubro a dezembro de 1788. Fundação Biblioteca Nacional . Divisão de Manuscritos. (4)


A conjuração ocorrida na Capitania de Minas Gerais deu-se na confluência de causas externas e internas. Entre as externas, a principal foi, sem dúvida, a repercussão na colônia portuguesa da independência das 13 colônias inglesas da América do Norte.

Entre as causas internas, a maior delas era a decadência da mineração do ouro em Minas Gerais. À medida que o ouro se tornava mais raro, maiores eram as dificuldades dos mineradores de satisfazer as exigências da Coroa.

Acrescentam-se ainda os maus governos da Capitania nessa fase de dificuldade econômica. Como a capitania não satisfazia a demanda de ouro da metrópole, criou-se a cobrança chamada "derrama" ou seja, cobrança forçada e geral do ouro.

A insurreição deveria acontecer no dia marcado para a derrama mas, antes disso, três delatores denunciaram a conspiração ao governo da capitania; um dos três havia participado de reuniões e, por isso, seu nome é o mais conhecido deles, Joaquim Silvério dos Reis (1756-1792?), que devia à Fazenda Real valor de grande vulto, dívida que ele desejava lhe fosse perdoada em recompensa à denúncia.

Denunciada a conspiração, procedeu-se à prisão dos inconfidentes; José Joaquim da Silva Xavier (1746-1792) foi preso no Rio de Janeiro. O processo durou de 1789 a 1792, quando foi dada a sentença; foram condenados à morte na forca: Tiradentes, o tenente-coronel Francisco de Paula Freire de Andrade (1756-1792?), José Álvares Maciel (1761-1804) e mais oito inconfidentes. Sete réus foram condenados ao degredo perpétuo na África. Os outros foram absolvidos.

Desde o começo do processo da devassa, Dona Maria I (1734-1816) havia determinado que a pena capital fosse comutada em degredo perpétuo a não ser para aqueles que apresentassem circunstâncias agravantes, que foi o caso do Tiradentes, o qual chamou a si toda a responsabilidade do movimento, razão por que sua pena não foi comutada e ele foi morto na forca no dia 21 de abril de 1792, seu corpo foi esquartejado e partes dele foram mandadas para Minas a fim de serem expostas nos próprios lugares onde ele tinha propagado suas idéias revolucionárias.

O movimento da Inconfidência teve vida curta; durou apenas os primeiros meses de 1789, e foram poucas as reuniões conspiratórias realizadas. Não se chegou mesmo a escolher um chefe. Com relação ao plano político pouca coisa além da independência foi resolvido.

Havia quem desejava a república, mas havia também monarquistas; se alguns eram favoráveis à abolição da escravatura, outros a julgaram inconveniente. Algumas idéias econômicas e sociais ficaram claramente delineadas: o fomento à produção algodoeira; o aproveitamento do ferro e do salitre existentes na capitania; a proposta de se premiarem as mães de grandes proles e a criação de uma milícia popular.

As figuras mais destacadas da conjuração foram: José Álvares Maciel, filósofo e estudioso de química; Francisco de Paula Freire de Andrade, tenente coronel do Regimento dos Dragões e, do mesmo regimento, aquele que se tornaria o mais entusiasmado propagandista do movimento: Joaquim José da Silva Xavier, cognominado o Tiradentes.

O movimento conspiratório atraiu grande número de intelectuais, militares e alguns sacerdotes. Alguns dos nomes mais destacados do movimento são os de Cláudio Manuel da Costa (1729-1789), poeta e ex-secretário do governo; Inácio José de Alvarenga Peixoto (1744?-1792) , também poeta e minerador, e sua esposa Bárbara Heliodora Guilhermina da Silveira (1759-1819); o ex-ouvidor da Comarca e Desembargador ainda não empossado da Relação da Bahia, o também poeta, nascido em Portugal, de pai brasileiro, Tomás Antônio Gonzaga (1744-1807?).

1. Joaquim José da Silva Xavier, conhecido como Tiradentes, era o líder da Inconfidência Mineira. Pelo papel que desempenhou, foi condenado a morte e executado no dia 21 de abril de 1792. Seu martírio fez dele o herói nacional e o dia de sua morte é lembrada com um feriado nacional.

2. Nascido em Porto, Portugal; filho de pai brasileiro e mãe portuguesa. Gonzaga estudou direito em Coimbra. Pela sua participação na Inconfidência Mineira, ele foi mandado para prisão no Rio de Janeiro e mais tarde, exilado em Moçambique por 10 anos.

3. A rainha Maria de Portugal poupou a vida dos conspiradores mineiros, com exceção de Tiradentes.

4. Tiradentes ganhou seu apelido por trabalhar de dentista, mas ele também seguiu a carreira militar, chegando ao posto de alferes. Este documento é referente ao último soldo que Tiradentes recebeu da capitania.
http://memory.loc.gov/intldl/brhtml/br-1/br-1-4-2.html#track2

segunda-feira, 8 de março de 2010

Esperança radical e desencanto conservador na Independência da América Espanhola


Esperança radical e desencanto conservador na Independência da América Espanhola

Maria Ligia Coelho Prado1

RESUMO

Neste artigo analiso dois textos produzidos por José Bernardo Monteagudo, figura emblemática do movimento de independência na América do Sul, no qual expõe seus projetos políticos antes e depois de conquistada a emancipação. Se em 1809 era um "democrata fanático", em 1823 havia se transformado em convicto monarquista, justificando a exclusão dos indígenas do mundo da política.

Palavras-chave: independência da América Espanhola; José Bernardo Monteagudo; diálogos políticos.

A independência das colônias espanholas da América é tema consagrado desde o alvorecer das historiografias nacionais do século XIX, amplamente visitado e carregado de interpretações estabelecidas. Consensualmente, apenas se pode afirmar que a independência é vista como momento da quebra da dominação política exercida pela metrópole e do nascimento dos Estados Nacionais. Tema, ainda, atravessado por paixões político-ideológicas, tanto da parte daqueles que defendiam uma perspectiva oficialista e ufanista, que no século XIX elegeram os heróis que comporiam os panteões nacionais, como da parte de uma historiografia crítica, que em particular nos anos 1960 e 1970 entendeu a independência como um movimento destituído de significativa relevância, pois não teria propiciado a ruptura das grandes estruturas que continuariam a manter a dependência do continente.

Nas décadas de 1960 e 1970, também se delineava outro embate com relação às interpretações sobre o tema. De um lado, a crítica àqueles que conferiam às idéias um lugar e um papel centrais como desencadeadoras do movimento da independência. Em oposição, os que privilegiavam as determinações estruturais - econômicas e sociais - como a base para a compreensão do movimento. A primeira perspectiva, que via particularmente nas idéias francesas uma das principais "causas" da emancipação, já foi amplamente criticada. Pensando na produção mais recente, é possível notar que revisões historiográficas distanciaram-se de uma aproximação exclusivamente estrutural de análise do processo de independência. O historiador peruano Alberto Flores Galindo, num texto do final da década de 1980, aponta para uma abordagem interessante e apresenta como que uma síntese desses debates:

Deixando de lado os determinismos, sentimo-nos inclinados a pensar que no passado, assim como no presente, sempre há mais de uma alternativa e que os desenlaces são o resultado de combinações, sempre específicas, entre determinações estruturais e as vontades tanto individuais como coletivas. Na história estão em jogo as aspirações e os projetos dos homens. Os períodos de crise rompem os velhos ordenamentos, ampliam os horizontes, fazem possível a criatividade e nunca é mais real que então afirmar que os indivíduos constroem seu destino.2

Este artigo é tanto devedor desses debates historiográficos sobre a independência, quanto das discussões teóricas mais recentes no campo da história política e da história social das idéias. Nessa trilha, elegi trabalhar privilegiando os encontros entre cultura e política, com textos de José Bernardo Monteagudo, cuja trajetória foi, ao mesmo tempo, singular em suas particularidades, e também emblemática daquele turbulento período. Penso que os protagonistas do movimento de independência tiveram que tomar decisões e propor soluções com um campo aberto à sua frente, pleno de probabilidades e imponderáveis diversos. Construíram seus destinos, trabalharam com sua criatividade e inventividade e estiveram limitados por imposições estruturais próprias de seu tempo e espaço.

Com essas questões em mente, quero refletir sobre dois escritos de Monteagudo, pois creio que esses textos espelham, de forma exemplar, certas contradições do período, anunciando soluções para problemas políticos centrais para os Estados Nacionais que se organizavam. Refiro-me, em especial, à determinante questão da democracia que envolvia as relações de poder entre as elites chamadas, à época, de criollas, e o mundo indígena. Pretendo iniciar com a análise de um panfleto de Monteagudo, de 1809 quando este, principiava sua vida pública e que leva por título: Diálogo entre Atahualpa e Fernando VII nos Campos Elíseos. Num segundo momento, estabeleço um contraponto com outro texto que Monteagudo escreveu em 1823, chamado: Memória sobre os princípios que segui na administração do Peru e acontecimentos posteriores à minha saída.3

Em primeiro lugar, ainda que muito brevemente, uma apresentação de Bernardo Monteagudo.4 Figura menor no panteão dos heróis da independência, seus poucos biógrafos - mesmo os mais simpáticos a ele, como Mariano de Vedia y Mitre - enfrentaram algumas dificuldades para construir sua imagem como grande herói impoluto, pois foi protagonista de alguns episódios obscuros ou pouco edificantes. Nosso personagem nasceu em Tucumán, em 1789, filho de um capitão de milícias espanhol que viera para a Colônia do Sacramento no início da década de 1780. Mas viveu boa parte de sua infância e juventude em Chuquisaca, hoje Sucre, na atual Bolívia.

Estudou na Universidade de Córdoba e depois na importante Universidade de São Francisco Xavier em Chuquisaca, onde obteve o grau de doutor em Teologia. Logo em seguida, já graduado, foi nomeado Advogado da Real Audiência de Charcas e Defensor dos Pobres. Participou da precoce rebelião de Charcas pela independência, em 1809, que foi rapidamente reprimida. Nesse período defendia idéias republicanas e democráticas. Monteagudo foi preso e condenado à morte, mas conseguiu fugir. Daí por diante, vamos encontrá-lo em diversas partes da América. Participou da guerra pela independência na Argentina, atravessou os Andes, lutou no Chile e chegou ao Peru; esteve na América Central, numa missão especial. Foi à Europa e, nessa viagem, passou pelo Rio de Janeiro. Escreveu alguns textos políticos publicados em jornais e fundou, em 1812, em Buenos Aires, seu próprio e efêmero periódico, Mártir o Libre. Manteve contato próximo com quase todos os líderes da independência - desde Simón Bolívar, passando pelo venezuelano Francisco de Miranda (que encontrou em Londres), pelo guatemalteco José Cecilio del Valle, pelo chileno Bernardo OHiggins, até o argentino San Martin, com quem conviveu mais longamente e de quem foi secretário. Teve efetivo poder político em diversos momentos, como aquele em que decidiu o destino dos irmãos Carrera, líderes do movimento chileno que, por desentendimento com OHiggins, estavam exilados na Argentina. Foi Monteagudo, pretendendo maior aproximação política com OHiggins, quem determinou o fuzilamento dos irmãos, atitude de força criticada pelos próprios contemporâneos.

Como secretário de San Martin, instalou-se em Lima. Havia mudado suas concepções políticas e se transformado em monarquista convicto. No Peru, ocupou cargos políticos importantes, como o de Ministro da Guerra. Não se pode esquecer que Lima foi o bastião realista por excelência durante as lutas pela independência da América do Sul. Lá, as elites haviam permanecido ligadas ao antigo sistema colonial convencidas de que, a longo prazo, seu futuro dependia da solidez dos seus laços com a Espanha. O grande comércio limenho se sustentava pelos intercâmbios com a Península Ibérica e pelo controle sobre os espaços coloniais vizinhos - Quito e Valparaíso. Se o Peru foi um dos focos da resistência realista, isso não se deveu exclusivamente à personalidade do vice-rei Fernando de Abascal, como insiste a historiografia tradicional, mas à presença, em Lima, da aristocracia colonial mais numerosa de toda a América Hispânica. Além disso, a memória sobre a rebelião de 1780, liderada pelo cacique Tupac Amaru II (sobre a qual falaremos mais adiante), inibia qualquer possível adesão das elites a levantes armados.

As posições políticas de Monteagudo em defesa do regime monárquico e seu distanciamento das elites limenhas angariaram-lhe poderosos inimigos, a ponto de ter que se exilar novamente. Foi enviado à América Central, numa missão diplomática a mando de Bolívar. Voltou para a América do Sul, esteve em Guayaquil, depois em Quito, e finalmente voltou ao Peru, desta vez sob a proteção de Bolívar, que fazia os preparativos para a última fase da guerra pela independência na serra peruana e no Alto Peru. Assim, a trajetória de Monteagudo indicava a ausência de limites geopolíticos separando toda essa vasta região e mostrava como o movimento pela independência não cabia nas fronteiras que posteriormente se construíram.

No entanto, depois de escapar ileso de tantos perigos, Bernardo Monteagudo morria assassinado, com uma faca cravada no peito, às 7 horas da noite do dia 28 de janeiro de 1825, na Rua de Belém, em Lima. Tinha 35 anos de idade. Seu assassino confesso, o negro Candelario Espinosa, e seu cúmplice, o zambo Ramón Moreira, foram imediatamente presos.

Candelario assumiu a autoria do crime, porém foi torturado para confessar o nome do mandante, pois desde o início as autoridades trabalharam com a hipótese de crime político. A prova mais contundente seria o fato de os pertences valiosos de Monteagudo não terem sido roubados - um anel de ouro, um relógio de ouro com corrente, um alfinete de gravata de safira e diamantes e seis onças de ouro. Depois de torturado por vários dias, Espinosa acusou três homens que foram presos, sem que, entretanto, nada se provasse. Numa suposta audiência com Simón Bolívar, o negro teria finalmente confessado que José Faustino Sánchez Carrión, ardente republicano e inimigo contumaz de Monteagudo, havia sido o mandante do assassinato. Para dramatizar ainda mais esta história, Sánchez Carrión morria 40 dias depois de Monteagudo. As versões sobre sua morte variaram entre uma doença de causa natural e um envenenamento provocado por vingança política.

Fugindo das disputas sobre o crime ter sido ou não de caráter político, importa assinalar que as questões de ordem política, naqueles momentos, ocupavam lugar central na sociedade limenha. Desse modo, não se podia imaginar o assassinato de uma figura poderosa como Monteagudo sem que a idéia de conspiração ganhasse força. O biógrafo de Monteagudo, Mariano de Vedia y Mitre, carrega nas cores da conspiração afirmando, por exemplo, que logo após o assassinato "corriam pela sociedade limenha boatos de que Sánchez Carrión havia sido o mandante do crime". 5 A principal disputa entre Monteagudo e Sánchez Carrión passava pela definição do regime político que deveria ser adotado no Peru independente. O primeiro, monarquista, e o segundo, republicano. A questão das definições sobre o regime político pode parecer, a posteriori, problema menor. Entretanto, à época, nada estava definido e as disputas em torno da questão foram fundamentais e apaixonadas.

Mas voltemos à juventude de Monteagudo, quando este escreveu seu primeiro texto político de impacto: o Diálogo entre Atahualpa e Fernando VII nos Campos Elíseos. Na forma de panfleto, circulou anonimamente, de mãos em mãos, nos meios universitários e políticos de Charcas, nos primeiros meses de 1809. Ainda que anônimo, rapidamente sua autoria foi atribuída a Monteagudo, pois como o texto era manuscrito, sua caligrafia acabou sendo reconhecida.

Este era um entre muitos panfletos que invadiram a Hispano América na primeira década do século XIX, espalhando as idéias iluministas e contribuindo com seus argumentos para justificar a ação daqueles que começavam a lutar pela independência das colônias na América. Estes textos "subversivos" produzidos pelos criollos nasceram do encontro entre as leituras vindas da Europa e a reflexão original pensada a partir da situação colonial.

Como bem mostra Elias Pino Iturrieta em sua pesquisa sobre a Venezuela, desde o final do século XVIII se ampliara o comércio ilegal de livros censurados que chegavam nos navios, misturados às mercadorias comuns, alimentando as imaginações dos descontentes com a situação colonial. A burocracia civil e religiosa espanhola manifestara reiteradamente sua preocupação com relação a esses "abusos", criticando ora a "negligência dos funcionários reais", ora os comerciantes que visavam apenas ao "torpe lucro". As autoridades coloniais denunciavam essa prática, perseguida com rigor, mas sem alcançar os efeitos esperados. Para elas, as colônias estavam "inundadas por uma variedade de gazetas, diários e suplementos repletos de absurdas proposições, muito parecidas com as idéias diabólicas que os revolucionários de Paris apregoavam". 6

Todavia, o documento de Monteagudo desperta, de imediato, grande interesse pela originalidade e pelo radicalismo da proposição. Em primeiro lugar, o autor, já em 1809, defendia claramente a separação entre as colônias e sua metrópole. Além disso, chama a atenção a criatividade do mesmo, pois se trata de um diálogo imaginário, no campo dos mortos, entre o último imperador inca e o rei espanhol vivo que, naquele momento, se encontrava prisioneiro de Napoleão em Bayone. Como questão aberta, fica a pergunta: teria Monteagudo, por acaso, lido os Diálogos dos mortos, de 1712, de Fenelon? 7

Creio que a forma de diálogo escolhida por Monteagudo está diretamente relacionada às finalidades do panfleto. De acordo com os costumes da época, o autor sabia que o texto não seria apenas lido individual e silenciosamente. Foi pensado também para ser ouvido por um grupo de pessoas atentas à leitura em voz alta. Como os historiadores do livro e da leitura já indicaram, a leitura individual e silenciosa ainda não era uma prática comum e habitual, nem na Europa nem na América, nesse período. Lia-se em voz alta a um grupo acostumado a "saber ouvir", potencialmente multiplicando os "efeitos perigosos" de um texto.8

Desde Platão, foi constante a utilização do diálogo. Os oradores - lembremos dos diálogos de Cícero - atentos às virtudes e vícios da elocução, se serviram do diálogo para alcançar maior eficácia diante do público. O estilo caracterizado por interrogações e respostas foi considerado superior ao contínuo, quando se desejava expressar o ímpeto da paixão. O leitor ou ouvinte era então levado a aceitar os argumentos não como uma imposição, mas como uma conseqüência lógica dos acontecimentos. Ao acompanhar a alternância de perguntas e respostas, se envolvia no processo. Essa técnica discursiva - a mesma empregada por Monteagudo - tendia a provocar a adesão dos espíritos às teses apresentadas e podia ser definida como um ato de persuasão. 9

Monteagudo, no diálogo, assume dois papéis, expondo seus argumentos por intermédio do personagem principal, o imperador inca Atahualpa. Tal decisão de conferir a Atahualpa a primazia no texto se configura como um ato de ousada rebeldia. As perguntas "adequadas" são feitas por Fernando VII, cujo lugar se confunde com o do público ouvinte/leitor, isto é, daquele que deve ser convencido da justeza das novas idéias, no caso, da necessidade da separação das colônias espanholas de sua metrópole.

A escolha da figura de Atahualpa estava carregada de simbolismo e se coadunava com os objetivos de Monteagudo que desejava denunciar a conquista espanhola. O aprisionamento do imperador e sua posterior execução a mando de Francisco Pizarro, em Cajamarca, foram posteriormente condenados por muitos cronistas, que viram nesse episódio um ato de traição no qual os conquistadores demonstraram sua ambição, crueldade e violência. Os espanhóis haviam chegado a Cajamarca, onde estava Atahualpa, sem encontrar resistência por parte dos indígenas. Instalaram-se numa espaçosa mansão oferecida pelos nativos. Mas logo o imperador se transformou em prisioneiro. Tentando conseguir sua liberdade, entregou aos espanhóis inúmeras riquezas. Finalmente, acusado injustamente de traição, foi condenado a ser queimado vivo. Perto da fogueira "converteu-se" ao cristianismo para beneficiar-se do "privilégio" da morte por estrangulamento.

E o que diz o Diálogo? O primeiro passo da montagem discursiva é inesperado: Atahualpa e Fernando VII aparecem como iguais. Os dois se declaram "descendentes de infinitos reis" que governavam seus súditos até que tiveram suas coroas usurpadas, e se transformaram em cativos de invasores. Se o espanhol foi obrigado a entregar o trono a Bonaparte, que lhe imputou "delitos falsos e fictícios", o mesmo aconteceu com Atahualpa, cujo cetro foi usurpado pelos espanhóis, apoiado também em mentiras. A partir dessa primeira constatação, dirigir-se-ão, um ao outro, como iguais. O Inca, ao mesmo tempo em que pede a Fernando que compare sua sorte à dele, emprega uma linguagem forte e agressiva, atacando a conquista e os "estúpidos espanhóis", cujo "coração avarento" só se voltou à "cobiça". Esses "usurpadores cruéis", que se "entronizaram na América contra a vontade dos povos", só espalharam a morte e o terror.

Assim se constrói o grande tema do Diálogo, qual seja, o da ilegitimidade da conquista (chegando à crítica da bula de Alexandre VI, que dividiu as terras da América cedendo grande parte aos espanhóis) e da usurpação dos direitos dos americanos sobre essas terras. Atahualpa fecha seu argumento com a afirmação de que nem o juramento de "vassalagem que os americanos prestaram ao espanhol, nem a possessão de trezentos anos que foi conseguida [pelos espanhóis] na América são título suficiente para dominar essas terras". 10

Monteagudo investe Atahualpa de duas principais identidades. No texto, o imperador inca se refere ora a um "nós/americanos", ora a um "nós/indígenas". Quando assume a voz dos indígenas, critica a mita como uma instituição violenta e destruidora de vidas. Por culpa dos espanhóis, "sacrílegos transgressores dos sagrados e invioláveis direitos da vida e da liberdade do homem", os índios só sofreram infelicidades e calamidades.

Mas os criollos também apresentam suas reivindicações pela voz de Atahualpa. Ironicamente, afirma que a felicidade dos americanos está na "ignorância que os espanhóis fomentaram", no tratamento despótico a que os espanhóis mais grosseiros lhes submeteram, na privação do comércio e no impedimento das manufaturas.

O texto termina com a vitória dos argumentos de Atahualpa sobre Fernando. Este admite e "confessa" que se ainda fosse vivo, "moveria" ele mesmo os americanos à "liberdade e à independência". No ponto culminante do texto, Atahualpa avisa que se pudesse voltar ao Reino do Peru, conclamaria seus habitantes à luta com uma exortação, que termina assim: "... desapareça a penosa e funesta noite da usurpação e amanheça o claro e luminoso dia da liberdade. Quebrai os terríveis grilhões da escravidão e começai a desfrutar dos deliciosos encantos da independência". 11 Os dois se despedem, dirigindo-se cada um a seus pares - Fernando a seus iguais "mayores" e Atahualpa a Montezuma e outros reis da América - para levar as boas novas da independência e da liberdade.

O panfleto surpreende especialmente pela amálgama produzida por Monteagudo, isto é, pela apropriação de uma identidade incaica pelo discurso de um criollo. Entretanto, se olharmos para o passado do Peru ou do México, regiões com populações majoritariamente indígenas, com uma extraordinária riqueza cultural, defrontar-nos-emos com uma linhagem de outros textos, também escritos por criollos, que trabalharam essa aproximação.

O primeiro notável exemplo, do final do século XVII, é o de Carlos de Siguënza y Gongora, poeta, matemático e astrônomo, catedrático da Real e Pontifícia Universidade do México. Em seu Teatro de virtudes políticas que contituyen a un Príncipe, escreveu poemas para os arcos triunfais que enfeitaram as ruas da Cidade do México, quando da chegada do vice-rei, conde de Paredes e marquês de Laguna, em 1680. No texto, em que se acumulam citações de Homero, Platão, Catão, Plínio, Sêneca, assim como dos padres da Igreja, como Santo Agostinho ou São Ambrósio, o mexicano oferece ao vice-rei um teatro de virtudes atribuídas aos imperadores astecas para servir como um espelho ao espanhol. Os criollos podiam, dizia Sigüenza, compartilhar os valores cívicos com aqueles do antigo "Império Mexicano", porque, antes de tudo, todos haviam nascido em terra mexicana. As virtudes de cada um dos imperadores astecas foram escolhidas de acordo com a escala de valores da cultura espanhola: prudência, piedade, clemência, generosidade, coragem. Estabelecendo relações entre os dois mundos, vistos como continuidades, escreve, por exemplo, um soneto que termina assim:

Goza, príncipe excelso, esse eminente
compendio de virtudes soberanas,
pues las regias divisas de Occidente,
que a tanto rey sirvieron mexicano
de dilatados triunfos en la frente,
son abreviadas glorias de tu mano.12

Este texto extraordinário mostra que Sigüenza y Gongora, a despeito de fazer parte da burocracia colonial e de ter seu trabalho como poeta e catedrático reconhecido pelas autoridades espanholas na Nova Espanha, não ficou imune ao peso do passado asteca, criando uma identificação entre a aristocracia indígena e o mundo dos espanhóis/americanos.13

Um século depois, ainda no México, há outro texto de retumbante repercussão. Refiro-me ao livro monumental escrito pelo jesuíta mexicano exilado na Itália, Francisco Xavier Clavigero, Storia antica del Messico, impresso em 1780-1781. Esse livro estabeleceu um novo olhar sobre a cultura e a história dos antigos astecas. Como indica Anthony Pagden, Clavigero defende com mais argumentos e mais entusiasmo a perspectiva anunciada por Sigüenza y Gongora. Para Clavigero, a população criolla deveria olhar com orgulho para a cultura indígena, "as nossas antiguidades", e ver nela sua pré-história. Acusando os espanhóis de avareza e ambição, afirmava que os astecas nunca foram movidos pela necessidade de usurpar os Estados legitimamente possuídos por outras nações nem transportar de distantes países metais preciosos dos quais não precisavam. 14

Depreende-se daí uma hierarquia de valoração, na qual os antigos astecas eram colocados numa posição superior à dos rapaces espanhóis. O texto de Clavigero, rico em simbolismo político, atribuía, malgré lui, uma identidade cultural particular aos mexicanos, uma continuidade entre o mundo indígena e o espanhol que ultrapassava os limites impostos pela dominação colonial. A historiografia já apontou a relevância e a repercussão do texto de Clavigero sobre as lideranças criollas no período da independência.
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Revista História - UNESP

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

A querela dos heróis: liderança política e ethos americano em Oliveira Lima e José Enrique Rodó


Fabio Muruci dos Santos
Doutorando no Programa de Pós-Graduação em História – UFRJ – CEP 20051-070 – Rio de Janeiro – RJ. A pesquisa contou com bolsa do CNPq e auxílio da CAPES para visita a Oliveira Lima Library (Washington DC)

A guerra de independência de Cuba, encerrada em 1898 com a decisiva intervenção norte-americana, foi um acontecimento marcante para toda uma geração de intelectuais ibero-americanos. Ela estimulou uma intensa produção de ensaios sobre as relações entre as duas Américas, seus respectivos processos de evolução histórica e o ethos cultural de cada uma. Mas a discussão não foi apenas uma reação circunstancial ao expansionismo norte-americano. Ela já estava em andamento como parte dos esforços para a superação do quadro de conflito endêmico que havia dominado a América Hispânica após a Independência. Tratava-se de estabelecer modelos de ordem social e política que substituíssem o controle dos caudilhos sobre a vida republicana local. A república norte-americana poderia fornecer modelos nesse sentido, desde que isso não implicasse uma ameaça à soberania continental. Tal dilema carregou de ambigüidade os ensaios sobre a identidade americana que abordaram a vida política e social nos EUA na virada para o século XX.

Entre os muitos pontos de debate enfocados, se destacava o da formação de novas elites políticas para combater o caudilhismo. Havia intensas discordâncias sobre se essas elites deveriam se alimentar das características político-culturais da tradição ibérica ou da anglo-americana. Na América Hispânica, o tema foi particularmente impulsionado pela publicação do opúsculo Ariel (1900), do uruguaio José Enrique Rodó, que alcançou projeção em todo o continente e se tornou obra de referência para várias gerações de intelectuais, até que sua aceitação viesse a cair após a Segunda Guerra Mundial. Um dos traços notáveis da recepção do "arielismo", como veio a ser chamado, foi a sua aglutinação com várias abordagens distintas da identidade ibero-americana, desde a reforma universitária de Córdoba, na Argentina de 1918, até os intelectuais do período pós-revolucionário mexicano.

A difusão do "arielismo" acompanhou de perto a onda de pensamento nacionalista que se estendeu pelo continente nas primeiras décadas do século XX, resultando em uma série de propostas para a regeneração das nacionalidades ameaçadas pelo cosmopolitismo e o materialismo, freqüentemente identificados com capitais em processo de modernização, como o Rio de Janeiro e Buenos Aires. Ao mesmo tempo, procuravam desenvolver mecanismos que integrassem os fragmentos de países deixados pelas lutas civis do século anterior. Os vários projetos regeneracionistas tinham alguns pontos em comum, como a defesa de modelos de educação que estimulassem o sentimento nacional e a recuperação da memória dos heróis pátrios. Em praticamente todos os casos, o tema central era a necessidade de constituição de comunidades nacionais em regiões que, até então, só teriam conhecido o poder de senhores regionais. Mas as vias disponíveis para estabilizar as comunidades políticas não alcançavam unanimidade. Os projetos iam desde a afirmação de regimes liberais mais efetivos até a expectativa por líderes fortes, exemplificados por Simón Bolívar, capazes de submeter os "caciques" locais. Em alguns casos, surgiram mesmo esperanças sincréticas por ditadores personalistas com "sentimento nacional", uma variante do caudilhismo sem os traços anárquicos anteriores, exemplificado pelo ditador paraguaio Francia.2 Dessa forma, apesar de algumas bases em comum, não podemos falar de um "arielismo" homogêneo e sim de uma série de apropriações ecléticas, que freqüentemente resultavam em conclusões opostas.

O Brasil também apresentou a sua própria corrente "arielista" à medida que autores como Joaquim Nabuco e Eduardo Prado reagiram à implantação dos primeiros regimes militares republicanos, que ameaçavam engolfar o País nas quarteladas tidas como típicas da vida política hispano-americana. Entre eles, destacamos os escritos de Oliveira Lima por seu sistemático trabalho de comparação histórica entre as Américas ibérica e anglo-saxônica e pelos extensos comentários sobre a vida política e a sociedade dos EUA. Aqui também a abordagem "arielista" não se desenvolveu homogeneamente. Enquanto Nabuco e Prado, nos primeiros momentos da República, rejeitavam a aproximação com os EUA e seu uso como modelo, Lima demonstrou-se extremamente entusiasmado com o desenvolvimento econômico norte-americano em uma série de artigos, reunida no livro Nos Estados Unidos (1899). Sua perspectiva seria a de "melancolia com o muito que os Estados Unidos têm alcançado, e pelo pouco que nós temos relativamente feito".3 Posteriormente, Lima amenizaria a visão crítica da América Ibérica apresentada nesse livro e destacaria mais pontos positivos em comum com os EUA. Neste trabalho, porém, nos concentraremos nessa obra, que é praticamente contemporânea ao Ariel de Rodó. Nossa perspectiva é que Lima e Rodó compartilhavam importantes pontos em comum em sua abordagem geral, suficientes para designá-los com a rubrica "arielistas", mas apresentavam também divergências decisivas em vários pontos específicos. Nos concentraremos aqui nessas diferenças.



OLIVEIRA LIMA E O ETHOS AMERICANO

Oliveira Lima viveu nos Estados Unidos, como membro da legação diplomática brasileira, entre 1896 e 1900. Aquele foi um período de intensas transformações na sociedade norte-americana. A presença de crescentes massas de imigrantes, o constante conflito entre a polícia e trabalhadores grevistas e a formação de uma elite de grandes magnatas da indústria eram acontecimentos que pareciam mudar radicalmente as características históricas dos EUA. A sociedade formada por fazendeiros independentes, orientada por uma ética do trabalho centrada na diligência e no cumprimento de uma vocação e guiada por uma elite esclarecida de homens virtuosos parecia estar dando lugar a uma sociedade de massas cada vez mais parecida com a Europa industrial. Para muitos, estava em jogo a própria concepção do que até então era entendido como a "America".4 É nesse quadro de mudanças que podemos incorporar os comentários de Lima sobre os EUA.

Mas o contexto ibero-americano também dava sinais de mudança à medida que alianças entre regimes de representação restrita e sistemas oligárquicos estavam dando um pouco mais de estabilidade ao quadro político conturbado da América Ibérica do século XIX. Naquele contexto, o liberalismo se tornava cada vez mais um instrumento estabilizador em torno do qual as elites locais podiam se unir para reforçar alguns mecanismos de controle e hierarquia.5 Nesse sentido, Lima procurava apreender um modelo de ordenamento social e político distinto daquele que considerava predominante na América Hispânica do século XIX, opondo o ethos anglo-americano ao ibérico. A origem da inferioridade ibero-americana estaria no predomínio de um certo tipo de "personalidade" coletiva, produzida pela Conquista espanhola e intensamente acentuada pela violenta luta pela independência. A sede do ouro, o espírito de aventura dos conquistadores e a influência da educação escolástica teriam impregnado todos os aspectos da vida local com uma tendência para o culto de personalidades extraordinárias, feitos heróicos e manifestações ostentatórias de expressão. A personalidade coletiva ibero-americana se tornou incapaz de valorizar características de liderança como equilíbrio e ponderação, o que facilitaria o trabalho para demagogos golpistas. Aí estariam incluídos os brasileiros: "nós temos, talvez como reação à estrita regra latina, um fraco visível pelo desregrado, pelo desequilibrado".6 Esse gosto pelo excessivo teria estimulado a popularidade dos caudilhos, enfraquecendo o poder das elites criollas ilustradas e fragmentando as colônias espanholas.

A instabilidade política, porém, não deixava de estar baseada em uma efetiva forma de autoridade, só que estritamente personalista. O poder dos caudilhos alcançava muito de sua efetividade na relação carismática do líder com seus seguidores, o que também seria um reflexo da mentalidade ibero-americana: "um dos defeitos da mentalidade sul-americana consiste no culto supersticioso dos ídolos, no apelo à infalibilidade do mestre".7 Contra esse modelo personalista de liderança, Lima ressaltava as qualidades do modo progressivo e sincrônico da vida política norte-americana, cuja regularidade impedia explosões desordenadas e desestimulava a ação de aventureiros políticos. Nesse sentido, um modelo de liderança oposto ao dos caudilhos seria o de George Washington, cuja personalidade seria baseada no controle das emoções e na falta de ambição política pessoal:

O mérito de Washington consistia mais que tudo no comum extraordinário, se assim me posso exprimir, isto é, num conjunto de todas as virtudes de que é capaz a alma humana levadas ao seu extremo natural e perfeitamente ponderadas - e o nosso fanatismo presta somente culto ao indivíduo que apresenta uma ponta de sobre-humano, um traço espiritual exagerado, uma qualidade tornada desproporcionada e absorvente.8

A liderança de Washington seria despida de elementos de heroísmo e personalidade extraordinários, buscando exprimir sua exemplaridade através da dedicação cotidiana à causa pública e do equilíbrio das faculdades da mente, evitando que a ambição ou uma característica pessoal extremada se impusessem sobre o mecanismo da política. Ao abordar esta representação, Lima se apropriava de um dos temas centrais da cultura política norte-americana, o da importância da formação de um self adequado para o exercício da vida republicana. Já no século XVIII estavam determinados os tópicos centrais que continuariam marcando, em parte até hoje, o debate sobre a difícil relação entre um princípio econômico liberal, que vê indivíduos autônomos interagindo livremente no mercado em busca de seus interesses próprios (self-interest), e uma crença republicana que prevê que um sistema político democrático só poderia se sustentar com a participação efetiva de cidadãos politicamente educados e direcionados para a busca do bem coletivo.

As tentativas de encontrar um denominador comum para as duas demandas partiam do princípio de que a alta valorização do indivíduo no pensamento político-econômico liberal não precisaria resultar na indiferença pelo bem público, o que, por sua vez, implicava a formação de um tipo específico de self, cuja realização própria seria alcançada através de uma contribuição para o bem-estar coletivo. Como sincronizar o interesse próprio com esse bem comum? Uma das respostas é que o interesse próprio deveria ser estimulado dentro dos limites razoáveis da convivência e da negociação compreensiva. O comércio, campo de interação de agentes que entendem a negociação justa e a compreensão do interesse alheio como um meio superior de alcançar os seus próprios, seria o espaço mais propício para estimular o convívio civilizado. A exacerbação da vontade pessoal, ao contrário, levaria ao odiado caminho da tirania pessoal, o maior dos anátemas da cultura republicana norte-americana. Por outro lado, a interferência governamental para impor um padrão de convívio entre os cidadãos seria um inadmissível atentado à liberdade do indivíduo, inaceitável para a cultura liberal, uma recusa que distingue o republicanismo norte-americano do século XVIII dos modelos clássicos de virtude republicana.9

Como resposta ao desafio da implantação de uma ordem liberal que preservasse a virtude republicana, os ideólogos da Revolução Americana propunham a preparação de um self arduamente produzido pela educação e a autodisciplina, capaz de conter as paixões negativas inerentes ao homem - avareza, cobiça, vaidade - e direcionar o trabalho para a satisfação posterior e mais profunda dos desejos. No conjunto das faculdades da mente, a razão teria uma precedência hierárquica com relação às paixões, e seu cultivo nos homens públicos afastaria os males que geram a demagogia, o fanatismo e, como conseqüência de ambos, a luta facciosa.10 Era crença comum entre os "Pais Fundadores" que o puritanismo havia difundido profundamente as virtudes do self-control entre o povo norte-americano, preparando-o para o governo republicano.

A problemática de constituir o tipo de personalidade capaz do exercício de uma prática republicana em um país de herança ibérica não era desconhecida no Brasil das últimas décadas do século XIX.11 Lima optou por absorver o culto a Washington como modelo de homem público que gerenciava suas paixões pelo self-control, adverso às paixões individuais que semeavam a tirania pessoal.12 Sua personalidade seria o exato oposto do self ibero-americano, instável e movido por explosões passionais. Esse perfil seria extensível a toda a cultura política dos EUA, resultando no ritmo progressivo, não-revolucionário das mudanças da história norte-americana, o qual teria criado um sistema social organizado e funcional: "nada há de mais parecido com a opinião de um Americano que a de outro Americano. É mesmo o que torna possível a exemplar disciplina política nesta enorme comunidade".13 A homogeneidade da vida nos EUA, que cinqüenta anos antes Tocqueville havia apontado como uma possível ameaça ao futuro da democracia local, é valorizada por Lima como um perfil coletivo adequado para a manutenção da democracia. O contexto sobre o qual falava, porém, havia mudado muito desde o século XVIII, o que impunha um ajuste em sua utilização do modelo norte-americano. Esse ajuste caracteriza suas posições sobre a nova "América" industrial.

Ao observar os desenvolvimentos da vida política nos EUA desde a sua independência, Lima defendeu que a evolução progressiva da democracia norte-americana teria resultado em uma relação harmônica entre as classes, já que todas compartilhariam algumas crenças comuns. Entre elas, a hegemônica seria a do self-made man, a crença no enriquecimento justo através do trabalho perseverante e do talento pessoal. Lima viveu nos EUA em uma época de crescente concentração de riqueza e ampliação do proletariado. Foi um período de intenso debate na sociedade norte-americana sobre o tema do sucesso pessoal. Muitos ensaios, revistas de aconselhamento e obras literárias populares discutiam se o poder dos grandes magnatas da indústria era um resultado justo do esforço dos mais talentosos ou, ao contrário, uma barreira contra a ascensão contínua de novos talentos.

De fato, apesar das constantes referências aos valores do trabalho e dedicação, a crença de raiz puritana de que a América era a terra de oportunidades igualitárias e que a recompensa estava assegurada para todos aqueles que houvessem se dedicado ao cumprimento diligente de uma vocação divina estava se corroendo. Os críticos da era industrial denunciavam que a "terra das oportunidades" havia se transformado em um mito. Outras qualidades, como a "vontade" e a "autoconfiança" pareciam expressar melhor o caminho para o sucesso que a antiga virtude da "prudência". Porém, essas qualidades traziam um componente individualista e desigual que ameaçava a mitologia igualitária norte-americana. Os entusiastas do crescimento econômico, por outro lado, respondiam que as oportunidades nunca haviam sido tão vastas, cabendo a cada um dispor das energias necessárias para trilhar o caminho do sucesso. Os vencedores seriam exemplo para os demais.14 Assim, dependendo do ângulo de avaliação, a riqueza desproporcional de um Rockfeller ou um Carnegie podia ser vista como uma prova do sucesso da igualdade de oportunidades ou como a destruição dela por um sistema concentrador e elitista. Lima tendia a optar pela primeira abordagem. Para ele, a plutocracia da indústria provava a eficiência da democracia norte-americana:

(...) uma plutocracia fundada muito mais na recompensa do esforço individual do que no mero acaso, em que o trabalhador tem autonomia e confiança e espera melhorar de condição tendo diante de si o exemplo de seu patrão ou antes do seu camarada de ontem; de uma coletividade com robustez porque tem fé, fé em Deus e fé em si própria.15

Ao adotar essa abordagem, Lima não estava apenas legitimando um arranjo específico de classes mas estava principalmente interessado na função política que essa nova elite tinha na república norte-americana. Ela seria notável por ser produto da crença homogênea no mérito da vitória por esforço próprio e autodisplicina. Assim, podia comentar: "Não há quase ricos inúteis, assim como não há quase elegantes ociosos."16 A disciplina e homogeneidade se oporiam ao gosto ibérico pela aventura e personalismo, com resultados bem mais positivos. Vitoriosa pelo talento e habilidade no mundo dos negócios, a plutocracia ganhava legitimidade para exercer um papel informal como elite dirigente através de sua influência como modelo bem-sucedido. Por isso, Lima não deixava de aprovar uma abordagem darwinista social sobre o papel do sucesso nas sociedades, minimizando os terríveis resultados da concorrência selvagem na Gilded Age: "Estes senões são inseparáveis, constituem a trama da eterna contenda sobre que Darwin edificou o seu sistema de filosofia natural."17 O poder plutocrático seria um produto natural da seleção, permitido pelo pleno funcionamento de uma democracia estável e bem regulada. Devido à ampla difusão da crença no self-made man, o campo da concorrência econômica seria o mais propício para produzir elites com legitimidade suficiente para dar continuidade ao fantástico crescimento econômico norte-americano, sem ameaçar a regularidade da história democrática local: "Os multi-millionaires constituem em certo sentido a aristocracia desta democracia, cabendo-lhes tal nome pela situação culminante que legitimamente ocupam na hierarquia, e também pelo influxo que naturalmente deles recebe toda a vida pública."18

Por outro lado, a ainda profunda influência da ética protestante em toda a sociedade norte-americana impediria que os vitoriosos pudessem gozar indiscriminadamente de sua riqueza e estimularia a intensa atividade filantrópica da alta elite no financiamento de universidades e museus. O amadurecimento do "experimento americano" tornava cada vez menos necessário o seu confronto com o universo ideológico europeu, que parecera indispensável quando o igualitarismo da América se definia por sua oposição aos valores hierárquicos da Europa monárquica. Na visão de Lima, a sociedade norte-americana dos anos 1890 estaria abandonando aqueles "excessos" igualitários do século XIX, agora tornados anacrônicos para uma república industrial de grandes dimensões, e recuperando uma saudável percepção dos valores hierárquicos. Para demonstrá-lo, ele descreve longamente o crescente interesse dos norte-americanos pelo seu passado, a moda das genealogias e o desenvolvimento de modos mais refinados entre a alta elite. Nesse sentido, a "república dos barões", mesmo que plutocrática, não seria uma degradação da república norte-americana criada em 1776, e sim a sua atualização e conclusão lógica para uma época de massas, mantendo o modelo de personalidade coletiva necessário para o crescimento ordenado e, ao mesmo tempo, controlando os elementos mais igualitários que predominaram na mitologia norte-americana pré-industrial. Seria esse movimento de superação dos aspectos mais "jacobinos" da experiência americana o que haveria de mais importante como lição a ser aprendida pelos ibero-americanos.



LATINISMO E AMERICANISMO EM JOSÉ ENRIQUE RODÓ

No Ariel, de Rodó, temos uma avaliação bastante diferente dos EUA de fins do século XIX. Se Lima dizia ter escrito para informar "o que de aproveitável para nós poderia, a meu ver, resultar do exame e da confrontação"19 entre Brasil e EUA, Rodó dizia escrever um alerta contra os entusiastas do modelo norte-americano, que desejariam "uma América deslatinizada por vontade própria, sem a extorsão da conquista e logo regenerada à imagem e semelhança do arquétipo do Norte".20 No período que estamos enfocando da obra dos dois autores, Rodó tinha uma visão muito mais positiva da história e do ethos ibero-americano do que Lima. Mas, antes de entramos na análise de suas discordâncias, é preciso destacar alguns pontos em comum. Rodó também estava preocupado em buscar um modelo de ordem política que contivesse os conflitos civis constantes na América Hispânica. No período em que ele escreveu suas obras iniciais, o Uruguai passou por um ciclo de sucessivas revoltas armadas. Em carta a Miguel de Unamuno, comentou sua angústia com o estado de conturbação permanente da América Ibérica: "De mí país nada nuevo puedo decirle. La guerra civil no es cosa nueva, tratándose de pueblos donde parece haber arraigado casi como una diversión o sport nacional."21 Seu propósito era definir o tipo de cultura política mais adequado para fortalecer um sistema democrático e seletivo estável na América Hispânica, impermeável à demagogia política. Na mesma carta, conclui com um aceno de esperança nesse sentido: "veo tanta vitalidad, y tanta riqueza, y tanta fuerza almacenada en estas tierras bendecidas por la Naturaleza, que tengo por cuestión de tiempo el triunfo sobre los resabios del pasado y el predominio definitivo de los hombres de pensamiento sobre los caudillos levantiscos".22

Nesse ponto, são esclarecedores os comentários de Angel Rama sobre a reação da "cidade das letras" aos primeiros momentos da modernização ibero-americana, a partir da década de 1870. Rama ressalta que a defesa dos interesses como motor do comportamento humano e o louvor do comércio como instrumento de atenuação das paixões políticas foram usados pelos liberais modernizadores como armas contra a tradição letrada ibero-americana, que controlava as universidades e se agregava ao poder desde a Independência. Essa geração buscava trazer os valores do utilitarismo para o universo ideológico ibero-americano, em confronto com os elementos ibéricos da tradição local, como a retórica legal e o idealismo filosófico.

Ao mesmo tempo, uma outra tendência dentro da "cidade das letras" reagiu a esses novos critérios de legitimação, ressaltando as virtudes do gênio pessoal e do idealismo como fundamentos do papel orientador dos intelectuais no mundo. Essa reação instigou a auto-representação dos letrados como guias potenciais da sociedade e profetas de um plano maior de realização humana, que superasse o estreito partidarismo da política comezinha e das facções locais. Fazia parte do papel autodesignado desses letrados o de incluir suas sociedades no quadro dos dramas universais de sua época. Ao mesmo tempo, como instigadores de novos horizontes, defendiam ambiciosos programas de educação que estimulassem a realização integral e as virtudes cívicas dos cidadãos.23 Rodó é explicito sobre essa função educadora, ao mesmo tempo em que expressa seu desânimo com a mediocridade do ambiente político local:

Lo innegable es que, para los que tenemos aficiones intelectuales y tendencias a una vida de pensamiento y de cultura, resultan, más que incómodas, desesperantes las condiciones (siquiera sean transitorias) de este ambiente, donde apenas hay cabida sino para la política impulsiva y anárquica que concluye por arrebatar en su vértigo a los ánimos más serenos y prevenidos. Yo no aspiro a la "torre de marfil"; me place la literatura, que, a su modo, es milicia; pero cuando se trata de luchar por ideas grandes, de educar, de redimir.24

A difusão do utilitarismo como doutrina de organização sociopolítica entrava em choque com essa proposta de orientação espiritual pela via das letras, mesmo que, no contexto ibero-americano, a oposição nunca chegasse a ser absoluta. Daí que Rodó não via a afirmação dos interesses como resposta à política pequena das lutas partidárias e facciosas, sendo de fato apenas um outro tipo de "mediocridade" avesso aos grandes propósitos. A apropriação do utilitarismo norte-americano seria a reiteração da mediocridade, apenas com outro perfil. Buscando fontes alternativas de inspiração para a regeneração, de preferência extraídas da própria experiência ibero-americana, Rodó chega mesmo a demonstrar mais simpatia pelos caudilhos, cujo heroísmo teria tido um papel histórico positivo no processo de autonomização. Mesmo ressaltando seu excessivo individualismo e ausência de sentimento nacional, Rodó destacou o vigor dos cavaleiros do interior da América como aglutinadores da força necessária para pôr em movimento um grandioso processo de mudança:

El varón de esta sociedad (...) es el llanero de Venezuela, el gaucho del Plata (...) hermosísimo tipo de desnuda entereza humana, de heroísmo natural y espontáneo, cuya genialidad bravía estaba destinada a dar una fuerza de acción avasalladora, y de carácter plástico y color, a la epopeya de cuyo seno se alzarían triunfales los destinos de América.25

Tal energia natural, porém, fora incapaz de desenvolver um engajamento na comunidade nacional, nem poderiam fazê-lo os interesses. A partir daí, Rodó se concentrou na reflexão sobre os tipos possíveis de liderança e nos valores que lhes confeririam legitimidade no quadro ibero-americano, concordando com Lima sobre a necessidade de uma elite influente, cujo exemplo desse solidez ao sistema democrático, sem abandonar o processo seletivo dos melhores: "Racionalmente concebida, a democracia admite sempre um imprescritível elemento aristocrático, que consiste em estabelecer a superioridade dos melhores, assegurando-a sobre o consentimento dos associados."26 Mas os critérios do que deveria ser julgado exemplar e o sucesso dos EUA em alcançar estes critérios colocavam Lima e Rodó em posições praticamente opostas. Rodó não acreditava que a república norte-americana tivesse superado os perigos anunciados por Tocqueville mas, ao contrário, teria sucumbido definitivamente diante deles. A homogeneidade seria um traço endêmico da vida norte-americana, ainda mais acentuado a partir da industrialização.

Já na origem do ethos anglo-saxão estaria um momento fundador repressivo, que frustrou os aspectos mais criativos e belos da civilização anglo-germânica. O agente repressivo que criou a personalidade anglo-americana teria sido o puritanismo:

(...) a seita triste que, impondo seu espírito a partir do Parlamento inglês (...) mandou extinguir as festas que manifestassem alegria e cortar as árvores que dessem flores (...) uma sombra de morte que a Inglaterra ainda não conjurou de todo, e que perdura nas manifestações menos agradáveis de sua religiosidade e de seus costumes.27

O princípio do self-control, que para Lima teria dado base para a regularidade da sociedade norte-americana, dando sustentação ao seu duradouro sistema democrático, em Rodó aparece como um elemento banalizador do espírito criativo, especialmente o estético. A repressão dos aspectos mais lúdicos da personalidade em favor da disciplina, especialmente quando esta última é direcionada exclusivamente pelo desejo aquisitivo, teria criado nos EUA uma personalidade coletiva repetitiva e unidimensional, incapaz de abrir espaço para a exploração das diversas faculdades que compõem o espírito humano. Na percepção de Rodó, a homogeneidade seria um limitador das singularidades criadoras, princípio que aplicava tanto aos indivíduos como às sociedades: "faz parte dos deveres humanos que cada um de nós cuide e conserve zelosamente a originalidade de seu caráter pessoal".28 E somente o estímulo da singularidade poderia produzir os líderes capazes de servir de referência para a sociedade e legitimar uma ordem política democrática seletiva baseada no consentimento. Nesse sentido, seu modelo de exemplaridade seria oferecido por líderes dotados de virtudes e habilidades notáveis, mais perto do "heroísmo" ao qual o modelo de Washington se opunha, o tipo de originalidade que uma sociedade homogênea de massas, como os EUA, seria incapaz de produzir: "A oposição entre o regime da democracia e a alta vida do espírito é uma realidade fatal quando esse regime significa o desconhecimento das desigualdades legítimas e a substituição da fé no heroísmo - na acepção de Carlyle - por uma concepção mecânica de governo."29

A padronização da sociedade norte-americana, que já estaria anunciada desde o seu momento fundador, teria sido ainda mais acentuada pela industrialização, que subordinou toda a sociedade aos princípios da atividade mecânica, como o operário que, "com a divisão do trabalho na fábrica, é obrigado a consumir todas as energias de sua vida na invariável operação de um detalhe mecânico".30 O ritmo industrial bloqueava a possibilidade do tempo ocioso, o qual seria o verdadeiro espaço para o exercício da virtude, como vista pelos "antigos": "O ócio nobre era o investimento do tempo que contrapunham, como expressão da vida superior, à atividade econômica."31

Não é à toa que Rodó cita com aprovação as críticas feitas por Herbert Spencer aos EUA durante a viagem daquele autor ao país. A escolha de Spencer é estratégica se lembrarmos que ele costumava ser lido na América Ibérica (e não só aqui) como ideólogo do competitivismo e da sociedade industrial. Mas os adversários do utilitarismo perceberam que havia também um outro Spencer, que nos últimos momentos de sua vida se mostrava cada vez mais decepcionado com os rumos da sociedade industrial e com a crescente onda imperialista que ameaçava submergir o mundo na barbárie militar. Um dos fracassos das sociedades industriais seria exatamente a sua incapacidade de propiciar um modelo de educação que contemplasse todas as faculdades do indivíduo, uma crítica perfeitamente assimilável pelo ideário dos "arielistas". Assim, Spencer criticou o regime de trabalho industrial e a obsessão pelo ganho como ameaças ao futuro da democracia norte-americana por transferir o controle da política aos bosses, donos dos currais eleitorais. A crítica spenceriana ao utilitarismo se aproxima muito da própria linguagem rodoniana: "The primary use of knowledge is for such guidance of conduct under all circumstances as shall make living complete. All other uses of knowledge are secondary."32 O Spencer selecionado por Rodó recusava a concepção utilitarista do trabalho como fim último da vida, demandando dos norte-americanos "a revised ideal of life".33

Presos a um regime de autodisciplina e homogeneidade, os norte-americanos seriam incapazes de encontrar tempo livre para a atividade espiritual desinteressada. Da mesma forma que Lima usava um patriarca norte-americano para exemplificar um modelo positivo de self, Rodó usará um dos santos-padroeiros de muitos americanistas na América Ibérica, Benjamim Franklin, como exemplo das perversões do self puritano, quando tornado modelo de comportamento social:

A mais elevada cúspide de sua moral é a de Franklin: uma filosofia da conduta que encontra seu termo no medíocre da honestidade, na utilidade da prudência, de cujo seio jamais surgirá a santidade nem o heroísmo.34

Franklin foi um dos defensores do interesse como uma virtude possível na medida em que estimulasse o desejo de contribuir para o bem comum, como no caso do desejo de "estima" pelo trabalho realizado. Tanto os preceitos morais como os religiosos poderiam alcançar valor por sua "utilidade" social, mesmo que não estivessem reduzidos a ela.35 Este elemento utilitário, somado a um modelo de self desapaixonado e autodisciplinar, seria um padrão capaz de dar constância ao mundo, uma característica altamente valorizada pelos defensores setecentistas das "paixões calmas" mas que se tornaria um dos principais alvos da crítica romântica ao caráter mesquinho e sem glória do mundo capitalista.36 É nessa perspectiva que podemos localizar certa melancolia nostálgica rodoniana pela perda do ethos de glória causado pelo advento da modernidade, visível em sua admiração por Garibaldi:

Una de las últimas y más radiantes apariciones de lo heroico en la historia. Nos asombra aún más, en el tiempo en que vivimos, por lo que se aparta y disuena de las condiciones de la realidad circunstante. El pasado siglo, que empezó entre los fuegos de la epopeya napoleónica, es rico de esos formidables nombres en que Carlyle y Emerson cifraron su filosofía de la historia. El nuestro empieza como en un vago estupor, como en una fría reserva.37

Garibaldi era um dos modelos rodonianos de líder heróico para a sonhada regeneração do universo latino. Diferente de Oliveira Lima, os elementos de heroicidade e idealismo da cultura de origem latina eram valorizados por Rodó desde seus primeiros escritos como uma fonte ainda vigorosa de inspiração cultural. A regeneração ibero-americana, em sua opinião, deveria começar com a revitalização dos componentes idealistas da civilização latina, não apenas a Ibéria mas, igualmente, a França e a Itália. A seguir, propunha a mobilização dos intelectuais para estreitar os laços culturais entre os países latinos da Europa e os hispano-americanos. Todo o milenar arcabouço do idealismo latino, devidamente ajustado ao mundo contemporâneo, seria uma fonte de exemplaridade muito mais estimulante para os novos líderes ibero-americanos do que o estreito utilitarismo anglo-americano e sua concepção mecânica da história.

Na escolha dos respectivos "heróis", ou poderíamos dizer "não-herói" no caso do Washington visto por Lima, podemos divisar alguns dos princípios que orientavam as respectivas concepções de liderança. Enquanto Lima considerava o sistema de seleção baseado no sucesso econômico dos self-made men (desde que devidamente educados para o exercício da virtude política) como o mais bem-sucedido em produzir lideranças capazes de equilibrar democracia com ordem política, Rodó negava que o fator econômico fosse plenamente compatível com a seleção de elites virtuosas. De fato, como podemos concluir por seus comentários sobre o ócio aristocrático, os "barões" da indústria norte-americana seriam os modelos mais adversos possíveis ao seu critério de liderança. Seguindo uma versão idealizada das aristocracias antigas, especialmente as da pólis grega, seria exatamente no momento em que a atividade econômica cessa que o homem teria condições para se entregar ao trabalho pelo bem público, movido apenas pela virtude desinteressada. A atividade econômica incessante, ao contrário, enfraqueceria as bases da virtude desinteressada que sustentam uma república: "a escola da prosperidade material (...) sempre será uma rude prova para a austeridade das repúblicas".38 No quadro da vida norte-americana da era industrial nem os magnatas, envolvidos na competição darwinista brutal, nem os trabalhadores, submetidos ao regime mecânico da linha de produção, poderiam encontrar condições para esse ócio humanizador.

O regime de predomínio absoluto do homo oeconomicus estaria minando a virtude como fator de legitimação da república norte-americana: "O valor cívico, a velha virtude dos Hamilton, é uma lâmina de aço que se oxida, cada dia mais esquecida, entre as teias de aranha das tradições"39. Nesse sentido, Rodó conclui que o modelo de República construído pelos "Pais Fundadores" norte-americanos estaria dando claros sinais de deterioração na medida em que a plutocracia concentrava mais poder:

(...) a preocupação exclusiva com o engrandecimento material - nume daquela civilização - impõe assim a lógica de seus resultados na vida política, bem como em todas as ordens de atividade, conferindo o primeiro lugar ao struggle-for-life ousado e astuto, convertido pela brutal eficácia de seu esforço na suprema personificação da energia nacional.40

Nesse sentido, as posições de Lima e Rodó sobre a vigência do modelo republicano norte-americano, em suas primeiras obras, eram praticamente opostas. Para Lima, o americanismo seria um caminho para a atualização do universo ibero-americano, pondo em relevo as similaridades potenciais a serem exploradas no futuro. Em Rodó, ao contrário, a utopia da regeneração ibero-americana, ou mais apropriadamente "latino-americana", se desenvolveria, pelo menos provisoriamente, pela negação do americanismo. Em ambos, a legitimidade hierárquica das novas elites ibero-americanas deveria ser baseada no consentimento e no exemplo em vez da força ou de direitos adquiridos. Mas as respectivas concepções sobre as fontes de legitimidade eram bastante diferentes, expressando duas das concepções de República presentes no debate ibero-americano do fim do século XIX.
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-90742003000200005&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt

Revista História - UNESP

Tocqueville, Sarmiento e Alberdi: três visões sobre a democracia nas Américas


José Luis Bendicho Beired
Versões preliminares deste trabalho foram apresentadas no seminário Temporalidade, Memória e História Política: Alexis de Tocqueville, realizado em maio de 2002, na FCL-UNESP, e no XXII Simpósio Nacional de História, em julho de 2003.
Departamento de História – FCL – UNESP – CEP – 19806-900 – Assis – SP.



A construção da nação e de uma ordem política liberal estiveram no centro do debate político e intelectual argentino de meados do século XIX. Ele foi travado num contexto marcado por um multifacetado processo de criação, circulação e apropriação ideológica desenvolvido no âmbito latino-americano, juntamente com a recepção crítica de teorias, obras e propostas originárias dos ambientes europeu e norte-americano. Para tanto foram mobilizados diversos conceitos políticos — soberania, democracia, liberdade, igualdade, razão, indivíduo e povo, dentre outros —, reveladores de uma precoce tradição republicana moderna3 que, não é demais lembrar, foi plenamente contemporânea à configuração da modernidade política4 que na Europa se contrapunha ao tradicionalismo e aos restos do Antigo Regime.

A Democracia na América, de Alexis de Tocqueville, foi uma das publicações que repercutiram em profundidade nos meios intelectuais da América Latina, tornando-se uma referência para o debate sobre os caminhos para as transformações da realidade. A análise dos Estados Unidos, levada a efeito por Tocqueville, fascinou notadamente dois intelectuais argentinos portadores de posições liberais e associados à fundação da chamada Argentina moderna: Domingo Faustino Sarmiento e Juan Bautista Alberdi. Entendendo a atividade intelectual como indissociável da ação política, ambos devotaram-se ao trabalho de refletir sobre os problemas nacionais e da América Latina, ao mesmo tempo em que formularam programas políticos alternativos, consubstanciados em duas obras clássicas: Facundo: civilización y barbárie,5 de Sarmiento, e Bases y Puntos de Partida para la Organización Política de la Republica Argentina,6 de Alberdi. A seguir, estabeleceremos uma análise comparativa entre esses três autores e as respectivas obras, de modo a explicar os seus argumentos e conceitos em articulação às posições políticas e ideológicas por eles tomadas nos seus respectivos contextos históricos.7 Temos como preocupação demarcar tanto as afinidades e analogias quanto as diferenças e oposições entre os autores, centrando nossa atenção no significado da democracia, na concepção de cidadania e na relação entre as leis e os costumes. Em relação à Argentina, analisaremos como o debate de tais questões incidiu no modelo de nação vitorioso. Ao final, compararemos a visão dos três autores em relação ao futuro político das Américas.

Consagrado como uma das obras mais importantes da América Latina no século XIX, o Facundo foi elaborado no bojo das lutas políticas que dilaceravam uma parte do continente. Ao escrevê-lo e publicá-lo durante o seu exílio no Chile,8 Sarmiento fez muito mais do que um manifesto de acusação contra a política do governador de Buenos Aires, Juan Manuel de Rosas e os demais caudilhos federais argentinos, traçando um profundo e inédito diagnóstico dos males que afligiam a Argentina.9 Intuitivamente, Sarmiento percebeu que as suas idéias transcendiam as fronteiras das províncias argentinas, estendendo-se à América Latina, sendo correspondido por uma legião de leitores latino-americanos, que encontraram no Facundo uma fonte de inspiração para explicar os desafios políticos dos seus respectivos países.

Naqueles anos o francês Alexis de Tocqueville era um intelectual consagrado internacionalmente pela publicação de A Democracia na América. Publicado em duas partes, uma em 1835 e a outra em 1845, tratava-se de uma inovadora e audaciosa interpretação política sobre uma jovem nação americana, cujo experimento democrático assombrava e fascinava os que acreditavam no aperfeiçoamento da vida política.

Foi justamente em Tocqueville que Sarmiento, então com trinta e quatro anos, buscou espelhar-se e também equiparar-se ao se impor como tarefa desenvolver uma empreitada equivalente para desvendar o enigma da política argentina e latino-americana. Sem modéstia, Sarmiento afirmava no início do Facundo:

À América do Sul em geral, e à República Argentina, sobretudo, fez falta um Tocqueville, que, munido de conhecimentos das teorias sociais (...) revelasse à Europa, à França, (...) este novo modo de ser que não tem antecedentes bem demarcados e conhecidos.10

Essa ambição revelou-se profética, pois tão logo Facundo foi publicado no Chile em 1845, a obra obteve ampla repercussão internacional,11 celebrizando o nome de Sarmiento como intérprete ilustrado da realidade latino-americana. Nos anos de forte perseguição às forças liberais derrotadas pelos caudilhos federais, os intelectuais assumiram um destacado papel na crítica aos aspectos autoritários impostos pelo novo sistema de poder, cujo principal expoente era o governador Juan Manuel de Rosas, à frente dos demais caudilhos que dirigiam as províncias integrantes da Confederação Argentina. Recordemos que o Estado centralizado fora praticamente uma ficção desde a independência das Províncias Unidas do Rio da Prata, em 1816, em vista dos desentendimentos entre províncias, as quais, em 1820 e novamente em 1827 puseram abaixo o poder central sediado em Buenos Aires. À frente de Buenos Aires entre 1829 e 1852, com um intervalo entre 1832 e 1835, o governo de Rosas representou o conjunto da confederação nas relações exteriores e ao mesmo tempo exerceu o monopólio das rendas do porto de Buenos Aires, assim como o controle sobre a navegação do rio da Prata, o que lhe conferiu um poder excepcional. Extremamente habilidoso, conquistou o apoio dos setores populares e da burguesia na Província de Buenos Aires, assim como do seu poder legislativo provincial, que lhe conferiu poderes ilimitados em 1835. Investido de poder absoluto, exerceu uma pressão draconiana sobre os opositores mediante a intimidação, a perseguição e a morte, motivo pelo qual a mazorca12 tornou-se um dos maiores símbolos da era rosista.

A fundação da sociedade secreta Associação de Maio foi a saída encontrada por um grupo de intelectuais para organizar os críticos à ordem estabelecida. Entre os seus membros encontravam-se algumas das principais figuras que no futuro seriam consagradas como intelectuais fundadores da nação argentina: Juan Bautista Alberdi, Estebán Echeverria, Juan Maria Gutierrez e Vicente Fidel Lopez. Também chamada "Geração de 37", os ideais desse grupo foram abraçados por Sarmiento, que definiu os seus membros como "os apóstolos da República e da civilização européia", com a expectativa de que os "poderes intelectuais hão de ter parte na direção da República".13 Imbuído dos ideais iluministas, na associação os participantes liam e discutiam os autores europeus de correntes diversas — românticos, socialistas utópicos e liberais —, pois neles poderiam ser encontradas as fontes da civilização que faltava às incipientes nações do rio da Prata.

Apesar da preferência pelos autores franceses, os olhos dos intelectuais argentinos voltavam-se sobretudo para os Estados Unidos quando se tratava de buscar exemplos políticos. A opinião de Sarmiento era emblemática da admiração pela experiência política norte-americana:

Agora e desde esses últimos anos, tenho-me voltado para outro sol que não se eclipsa, que nenhuma nuvem oculta: os Estados Unidos. Como teoria, como ação prática, como poder, como influência, como futuro, sob todos os aspectos, a democracia ali encontro-a forte, consistente em si mesma e dominante também como fato.14

Entre as características do modelo político norte-americano, consagrado na Constituição de 1787, figuravam o estabelecimento de uma república representativa, federalista e com divisão tripartite do poder. Tal experiência revelava-se não só inédita como surpreendente na medida em que contrariava toda a filosofia política escrita até então, a qual considerava impossível a realização de um governo popular num grande território. Isso foi acompanhado de uma tese também inaudita, baseada em uma concepção pessimista da natureza humana, sustentada por James Madison: que as ambições individuais e a falta de virtudes cívicas do povo não constituíam obstáculos para o estabelecimento de um governo democrático estável. Quanto ao risco da tirania de uma facção, resolvia-se também de modo novo, entendendo-se que o choque de múltiplos interesses econômicos e sociais impediria a predominância de um único sobre os demais.15 Portanto, o governo democrático posto em prática diferia da forma pura ou direta de democracia, apenas aplicável a pequenos territórios, e configurava um novo conceito de governo democrático, baseado na representação política, equivalente dali em diante a república representativa.

Nos dois volumes de A Democracia na América16 é impossível ficarmos imunes à surpresa e admiração de Tocqueville diante da realidade política norte-americana, descrita como completamente diferente da Europa. Enquanto no primeiro volume priorizou a descrição e a explicação do funcionamento da democracia norte-americana sob vários ângulos, no volume seguinte manifesta-se uma abordagem mais teórica, debruçada sobre o aprofundamento da reflexão a respeito da natureza da própria democracia como modelo político. Embora os Estados Unidos continuem sendo a principal referência da análise do segundo volume, Tocqueville busca compreender o papel da democracia na remodelação do processo político, dos comportamentos intelectuais, das crenças e costumes do povo.17

Ora, o que mobilizava as preocupações de Tocqueville era a compreensão do fenômeno democrático que se espalhava pela Europa e em especial pela França, geralmente acompanhado pelo espectro da revolução política e social. Ir ao Estados Unidos significou ter uma via de acesso para conhecer um dos caminhos para o futuro político do mundo, uma vez que ali o novo na história parecia revelar-se de modo antecipado à Europa e simultaneamente despido das suas convulsões.

Na perspectiva de Tocqueville, vemos que a democracia não era um fenômeno fortuito, mas um movimento histórico irresistível de longa duração, por ele denominado "revolução democrática". Consistia num fenômeno de expansão da igualdade entre os homens, contra o qual era inútil lutar, sob o risco do anacronismo histórico e dos seus oponentes serem esmagados pela forças sociais emergentes. Como é sabido, à medida que o absolutismo foi sendo derrotado na Europa, o igualitarismo passou a ser encarado pelas correntes liberais como seu principal oponente, pela ameaça que representava ao direito de propriedade e à participação política restrita às minorias qualificadas. Apesar de pertencer à aristocracia e de não amar a democracia, Tocqueville rendeu-se à força dos fatos e buscou compreender o fenômeno democrático de maneira inovadora mediante uma reflexão que conjugava a igualdade e a liberdade. Segundo ele, a força do igualitarismo era tão penetrante em todos os domínios da vida social norte-americana, que via sérios riscos para a manutenção futura dos direitos individuais, da liberdade de expressão e da pluralidade de pensamento. Os Estados Unidos revelavam ao mundo o perigo do desenvolvimento de um novo tipo de despotismo, dotado de roupagem democrática, uma vez que consentido pelos cidadãos a um Estado crescentemente burocratizado e centralizado.18

O enfoque de Tocqueville também ofereceu uma nova abordagem para a explicação dos fenômenos políticos. A democracia e a liberdade deixaram de ser tratados a partir de definições filosóficas ou jurídicas e passaram a ser abordados na prática, na ação concreta dos homens comuns. Uma das principais conclusões presentes na obra era que o fundamento último da democracia americana residia nos costumes — moeurs — do povo que tornavam os homens iguais entre si19: isto é, nas opiniões, comportamentos e crenças que davam forma àquilo que posteriormente foi definido como a cultura política de uma sociedade. A liberdade, por sua vez, foi analisada a partir do controle efetivo dos cidadãos sobre a política e o Estado, sem o que ela desapareceria.

Se a busca de respostas para o enigma político que cercava a vida política norte- americana e argentina foi comum entre Tocqueville e Sarmiento, o mesmo não pode ser dito dos diagnósticos e conclusões. Ora, enquanto o francês buscava explicar as condições de funcionamento de uma vigorosa república democrática, Sarmiento buscava desvendar exatamente o contrário, ou seja, os obstáculos que impediam o desenvolvimento de um processo similar no território argentino.

Logo no início de seu livro, Sarmiento surpreende o leitor e o convida a penetrar num mundo tão insondável que apenas o recurso ao espírito de um cadáver poderia ajudar a desvendá-lo: "Espectro terrível de Facundo, vou evocar-te para que, sacudindo o ensangüentado pó que cobre tuas cinzas, te levantes para explicar-nos a vida secreta e as convulsões internas que dilaceram as entranhas de um nobre povo! Tu possuis o segredo, revela-nos!" 20 O caudilho Facundo Quiroga, também conhecido como "tigre de los llanos", era governador da província de La Rioja, quando foi assassinado numa emboscada ao transitar pela província de Córdoba, em 1835. A autoria do assassinato é incerta, embora tivesse sido acusado o clã político cordobês dos irmãos Reinafé, dos quais dois, o governador José Vicente Reinafé e seu irmão Guillermo, foram julgados, condenados e enforcados em Buenos Aires. Para Sarmiento, a lógica dos fatos levava ao nome de Rosas como verdadeiro mentor da morte de Facundo, no afã de eliminar seus próprios aliados para a obtenção de maiores poderes sobre o conjunto da confederação.

Sarmiento retoma a lenda, segundo a qual Facundo não morrera na emboscada e que um dia retornaria, para argumentar que de fato o espírito bárbaro desse caudilho estava vivo, podendo ser encontrado nas tradições populares, na política e nas revoluções argentinas. Rosas, por sua vez, era definido por Sarmiento como o principal herdeiro de Facundo, a encarnação da sua essência sob uma forma mais acabada, requintada e perfeita, ao transformar em sistema político o que no sanguinário Facundo era apenas instinto desorganizado. Embora o livro de Sarmiento contenha uma biografia de Facundo, como o próprio título original sugere, na verdade o resultado final é muito maior. Os quinze capítulos do livro podem ser divididos em três partes. A primeira dedicada à descrição dos aspectos físicos da Argentina, dos seus tipos populares e as formas de sociabilidade dos pampas, local habitado pelos gaúchos. Tendo tais elementos como pano de fundo, a biografia de Facundo é desenvolvida para mostrar a fatalidade da vida de alguém que crescera naquelas condições socioambientais, por meio de uma narrativa das mais impressionantes sobre a personalidade violenta, fria e sádica de Facundo, cuja vida se encerrara numa tragédia banhada em sangue. Em sua terceira parte, o livro conclui com uma apaixonada acusação do despotismo de Rosas e com a apresentação de um programa de tarefas a serem abraçadas pelo novo governo depois da sua deposição.

Ambos, Sarmiento e Tocqueville foram homens que nas suas obras deixaram impressas as preocupações com a política contemporânea. Que aspectos aproximavam obra e pensamento de dois homens situados em lugares tão distantes no espaço quanto Sarmiento e Tocqueville? Em que pese as grandes diferenças históricas entre a França e a Argentina, ambos os autores compartilhavam de um horizonte ideológico liberal. O mais surpreendente é a similaridade entre o método de ambos para compreender as realidades norte-americana e argentina. O ponto de convergência reside na abordagem da política a partir da sociedade, na busca de fatores explicativos estruturais inscritos na longa duração.

A novidade do enfoque de ambos encontra-se, portanto, no exercício de uma sociologia "avant la lettre", ao buscarem nas profundezas do social os fundamentos da sociabilidade política. O exemplo disto é que ambos os autores valorizam menos as leis e os grandes homens públicos do que o papel desempenhado pelo homem comum na configuração dos comportamentos políticos das nações. No entanto, a convergência teórica produziu avaliações opostas: enquanto os hábitos dos norte-americanos os tinham conduzido à democracia, aqueles dos argentinos os haviam levado para a barbárie.

Aparentemente as duas abordagens são descritivas ao tratarem os aspectos constitutivos da Argentina e dos Estados Unidos. Assim como Tocqueville dá exemplos dos comportamentos cotidianos dos norte-americanos, Sarmiento descreve a geografia, os gaúchos, as ações de Rosas e traça a biografia de Facundo. No entanto, há nas duas obras mais que meras descrições, podendo-se afirmar que encerram de fato tipos ideais manipulados para melhor expressar os pontos de vista de seus autores. Sobretudo no segundo volume de A Democracia na América, Tocqueville debruça-se sobre os Estados Unidos com o objetivo de desenvolver um "modelo de democracia" de caráter mais amplo e universal, no qual predomina o temor do esmagamento da liberdade pela igualdade.21

Ainda que esse aspecto já tenha sido assinalado por estudiosos do pensador francês, o mesmo não é tão claro em relação ao livro de Sarmiento. Usando os mesmos filtros ideológicos e culturais do ambiente intelectual da Europa, Sarmiento pôde estabelecer um critério conceitual que lhe permitiu definir a realidade argentina como uma continuação da barbárie dos povos não-europeus. Desse modo, tanto as descrições das paisagens pampeanas quanto dos tipos humanos que ali habitavam, vão sendo construídas em associação com exemplos apropriados de escritores europeus, em cujas obras a Ásia e a África representavam a barbárie, isto é, o outro, em contraponto à civilização européia.

Essa analogia começa pela própria paisagem das planícies do pampa, cuja solidão interrompida por comboios solitários é aparentada com os desertos mesopotâmicos e suas caravanas de camelos. O gaúcho do llano é definido como um beduíno americano, comparável aos árabes por seus hábitos pastoris, tradições patriarcais, vestes, barba e demais aspectos físicos.22 Em suma, para Sarmiento a luta que dilacerava a Argentina era um capítulo de um choque maior, de dimensão universal, entre a barbárie e a civilização: "A mesma luta entre civilização e barbárie da cidade e do deserto existe hoje na África; os mesmos personagens, o mesmo espírito, a mesma estratégia indisciplinada entre a horda e a montonera".23

Embora suas descrições dos pampas, dos gaúchos e de Facundo sejam tão convincentes que parece vermos tais paisagens e figuras diante de nós, de fato nosso autor jamais tinha posto os pés na região pampeana e também jamais vira Facundo Quiroga frente a frente, apesar de ter participado das milícias que o combateram. O próprio Sarmiento reconhece no final da introdução do livro a existência de defeitos e inexatidões relativas à vida de Facundo. Mas é significativo que afirme não se importar, pois era mais relevante a glória de escritor argentino, destinado a fustigar o mundo e a humilhar a soberba dos grandes da terra, sábios ou governos.24 A nossa hipótese é que, à maneira de Tocqueville, sob uma brilhante construção literária, Sarmiento também acabou por construir um tipo ideal, um conceito de barbárie que lhe servia para apreciar os traços nefastos da realidade argentina e para justificar seu combate em nome de um projeto liberal de nação.

Ao lado de Sarmiento, Juan Bautista Alberdi foi outro dos principais artífices da ordem política subseqüente à vitória dos liberais sobre Rosas na Batalha de Caseros. Foi responsável pela redação do esboço da Constituição argentina sancionada em 1853, publicado no ano anterior com o título Bases y Puntos de Partida para la Organización Política de la Republica Argentina. A dívida intelectual de Alberdi em relação a Tocqueville era patente, ao reconhecer que por meio dele e de outros franceses25 conhecera os Estados Unidos, e definir a Democracia na América como o livro político "mais adequado e mais belo" de quantos tinham chegado às repúblicas sul- americanas.26

O diagnóstico da trajetória política e constitucional das republicas latino-americanas foi determinante na definição das questões a serem enfrentadas na nova carta. Nas primeiras décadas depois da independência assistia-se a uma grande frustração das elites liberais quanto aos destinos das jovens repúblicas, muitas delas mergulhadas em guerras civis e convulsões políticas, colocando em xeque a capacidade das constituições conformarem uma nova realidade.27 Não por acaso, o livro de Alberdi tem no seu início o exame dos experimentos constitucionais de diversos países latino-americanos, incluindo a Argentina, que tivera duas Constituições promulgadas — em 1819 e 1826 — e anuladas por força dos enfrentamentos políticos contra o governo central. Alberdi se perguntava: Como fazer das nossas democracias nominais, democracias reais? Como transformar em fatos nossas liberdades escritas e nominais? Por meio de que instrumentos elevar a capacidade real dos nossos povos à altura das suas constituições escritas e princípios proclamados?

Para Alberdi, o papel da Constituição na América Latina era muito mais que o de instrumento legal de organização do poder. Tratava-se de um dispositivo para forjar nações tanto em termos das instituições quanto do seu povo. O povo bárbaro deveria dar lugar a outro civilizado com hábitos pautados pelos princípios de liberdade e igualdade, mediante a criação de novas instituições, da mudança da composição étnica, do crescimento econômico, sob a liderança de elites ilustradas. É famosa a assertiva alberdiana segundo a qual, na América Latina, governar significa povoar: "Governar é povoar no sentido de que povoar é educar, civilizar, enriquecer e enriquecer espontânea e rapidamente, como aconteceu com os Estados Unidos".28 Na Argentina, isso traduzia-se do seguinte modo: "(...) a população da Republica Argentina, hoje deserta e solitária, deve ser o grande e primordial fim da sua Constituição por longos anos. Ela deve garantir a execução de todos os meios de obter esse vital resultado. Eu chamarei estes meios garantias públicas de progresso e de engrandecimento" .29

Dentre as liberdades civis a serem fomentadas destacavam-se o direito de realização de casamentos mistos entre argentinos e estrangeiros, e uma série de liberdades voltadas para o desenvolvimento econômico: adquirir, vender, trabalhar, navegar, comercializar, transitar e exercer todo tipo de industria. A fonte de inspiração da sua proposta era explicitamente a Constituição da Califórnia, de 1849, em função do teor do seu conteúdo, dirigido a promover a economia, o povoamento e a cultura.30 Como os demais liberais da época, Alberdi também nutria muita desconfiança quanto à participação política das massas, por ele consideradas grandemente responsáveis pela anarquia política que impedira a consolidação dos governos constitucionais anteriores da Argentina. Para tanto sustentou no seu projeto a implementação de regras que visassem a limitar a participação política dos setores populares de nacionalidade Argentina e a exclusão dos imigrantes da posse de direitos políticos.

Para excluir os imigrantes do processo político, Alberdi dividiu os cidadãos em duas categorias, uma dotada apenas de direitos civis (imigrantes) e outra detentora de cidadania plena, por possuir direitos políticos além dos direitos civis (argentinos). De acordo com Natálio Botana, tal divisão do povo significava a coexistência de duas repúblicas simultaneamente, sendo uma formada por "habitantes", voltados para o exercício das funções econômicas, e outra composta por "cidadãos plenos", habilitados para o exercício do poder.31 Com a perspectiva futura de uma nação crescentemente habitada por imigrantes europeus, Alberdi reservava o governo do país a uma minoria de cidadãos nascidos na Argentina. Enquanto isso, os imigrantes integrariam um gigantesco exército de trabalhadores industriosos, dotados de direitos civis, porém sem cidadania argentina e, portanto, unicamente orientados à conquista de riquezas materiais, as quais tornariam prósperos tanto seus agentes individuais quanto o conjunto da nação.

Apesar de conceber a cidadania política como potencialmente extensiva a todos os argentinos do sexo masculino, o projeto de Constituição de Alberdi também contemplava mecanismos que visavam a limitar a participação de todos os cidadãos nas diversas etapas das eleições. Tais restrições eram vigentes nos Estados Unidos e foram assinaladas por Tocqueville, variando de acordo com cada Estado da Federação.32 Naquela época o assunto também foi debatido pelos liberais europeus, para os quais as restrições eleitorais representariam os "novos mediadores da razão", no papel de filtro que permitiria a seleção da elite dirigente e frearia a interferência das "paixões populares" no processo político. Além desses filtros, outro importante mediador da razão para Alberdi consistiria no predomínio dos "notáveis" no processo eleitoral.

Praticamente toda a proposta de Alberdi para a escolha dos representantes dos Poderes Legislativo e Executivo foi acatada pelos representantes que em 1853 sancionaram a nova Constituição. Segundo o texto aprovado, uma Câmara de Deputados nacionais e um Senado integrariam o Congresso, cujos membros seriam eleitos nas províncias. A eleição para a Câmara de Deputados seria direta e circunscrita aos argentinos do sexo masculino. Os candidatos a senador deveriam ter renda mínima de 2.000 pesos fortes, sendo eleitos indiretamente pelas Assembléias Legislativas provinciais. O presidente da República seria eleito mediante um colégio eleitoral com membros a serem designados pelas províncias; cada uma delas deveria indicar um número de membros equivalente ao dobro de deputados e senadores representantes no Congresso.33

A formulação alberdiana consistia em uma tradução local da famosa distinção estabelecida em 1819 pelo francês Benjamin Constant entre cidadãos ativos e passivos,34 posteriomente reinterpretada por outros liberais, a exemplo de François Guizot. O papel da razão na condução dos assuntos públicos fora sustentado com ênfase por Guizot, que defendia o princípio da "soberania da razão", exercida mediante a participação política do cidadão dotado de certas capacidades, por ele definido como citoyen capacitaire.35 A convergência de posições quanto ao exercício da soberania por minorias qualificadas revela que o problema da extensão dos direitos políticos era comum dos dois lados do Atlântico para os ideólogos liberais. Na América Latina, estes não só estavam atualizados com o debate político europeu, mas também produziam respostas específicas aos seus contextos nacionais.

Apesar de compartilharem posições liberais, Sarmiento e Alberdi passaram a se confrontar politicamente logo depois que Rosas foi derrubado. Após a aprovação da nova Constituição em 1853, Sarmiento publicou Comentários de la Constitución de la Confederación Argentina em tom polêmico com as propostas de Alberdi, que por sua vez respondeu na obra Estudios sobre la Constitución Argentina. Alberdi propunha um compromisso entre a tradição e o progresso, materializado na adoção de medidas políticas acordes com o passado colonial (exercício do poder por minorias, centralização política em Buenos Aires) em articulação com outras voltadas para estimular a modernização econômica. Inversamente, Sarmiento propunha a ruptura total com o passado, mediante o transplante da Constituição dos Estados Unidos,36 recomendando a naturalização dos imigrantes como argentinos, a difusão da educação gratuita, a descentralização política, o estímulo à vitalidade dos municípios, a distribuição de propriedades rurais e a promoção da agricultura.37 Além disso, Sarmiento era crítico da limitação dos direitos políticos aos argentinos natos, assim como das restrições para a participação destes no processo eleitoral, situações que no seu entender configuravam um ataque à democracia.

Se em Tocqueville manifesta-se a intervenção de duas forças para garantir a manutenção da democracia americana, as leis e os hábitos — embora estes fossem mais decisivos — também estão presentes nas formulações de Sarmiento e Alberdi. Para este, a barbárie argentina traduzia um fato político — o permanente desrespeito às leis e à autoridade constituída — que só poderia ser corrigido formando-se novos hábitos sociais moldados pela imigração e pelo exercício da atividade econômica. Ou seja, os novos costumes deveriam criar os alicerces para sustentar a longo prazo a vigência das leis consagradas na Constituição. Ao contrário, embora Sarmiento assinalasse no Facundo que nos hábitos do povo residia o principal obstáculo para o desenvolvimento da civilização, no início dos anos 50 alterou a abordagem do problema, passando a defender que a adoção de uma Constituição similar à norte-americana seria um poderoso fator para a mudança da situação "bárbara" da Argentina. Aqui as leis seriam capazes de moldar uma nova realidade social e cultural. Ou seja, enquanto Alberdi via na transformação do tecido social o instrumento para a consolidação da ordem legal e para a expansão futura da cidadania política, Sarmiento via na Constituição o instrumento para alcançar a regeneração da sociedade. Desse modo, no que tange à dialética entre leis e hábitos, Alberdi manteve-se mais próximo que Sarmiento à lógica de Tocqueville ao privilegiar o papel dos costumes como pilar fundamental da República representativa.

A comparação entre Tocqueville, Sarmiento e Alberdi ainda nos apresenta dois outros problemas adicionais: quais eram os conceitos de liberdade subjacente às suas interpretações e quais as suas expectativas quanto ao futuro da democracia? Para refletir sobre isso, tomemos uma passagem de Benjamin Constant, que em 1819 distinguia agudamente a evolução da natureza do conceito de liberdade no Ocidente:

O objetivo dos antigos era compartilhar o poder social entre todos os cidadãos de uma mesma pátria. A isso chamavam liberdade. O objetivo dos modernos é a segurança nos desfrutes privados. Chamamos liberdade às garantias acordadas pelas instituições para seguir gozando-os.38

Constant considerava que a liberdade dos antigos se efetivava na esfera pública, na arena política, por meio da manifestação de virtudes cívicas, do espírito de responsabilidade em relação ao Estado e ao bem comum da sociedade. Em contrapartida, a liberdade dos modernos se realizava na esfera privada, mediante a manifestação exclusiva dos interesses individuais e egoístas.

Entendemos que a perspectiva de Constant traduzia teoricamente a visão dos federalistas que haviam participado da elaboração da Constituição dos Estados Unidos. E era também a visão compartilhada por Alberdi, ao enfatizar o papel das instituições republicanas como garantia dos interesses privados.39 O papel principal da ordem repúblicana argentina deveria ser garantir a plena manifestação das liberdades civis para o estímulo da atividade econômica e do progresso material. À republica dos cidadãos plenos caberia zelar pela ordem da república dos habitantes produtores. Em contrapartida, as perspectivas de Sarmiento e Tocqueville abraçavam o conceito antigo de liberdade, que se traduzia na defesa ardorosa do papel da atividade política e do caráter virtuoso do cidadão, de cuja combinação dependia a conjuração da tirania.40 Esse foi um tema caro para Tocqueville — sobretudo no segundo volume de A Democracia na América — que via no apego do homem moderno às pequenas paixões, ao enriquecimento e à vida materialmente cômoda, ou seja, no recolhimento à esfera privada, as condições para o desenvolvimento do despotismo, pois isso fazia-se acompanhar da despreocupação com os assuntos públicos. Enfim, movidos por forças opostas, de serem livres e ao mesmo tempo de serem conduzidos, a liberdade humana corria um sério risco caso os homens renunciassem à sua soberania ativa e preferissem escolher um tutor para exercer as responsabilidades políticas.

Como analisamos até aqui, apesar da identificação com o liberalismo, a admiração pelos Estados Unidos e o receio em relação aos setores populares, as perspectivas entre as três figuras aqui abordadas não eram unívocas, o que em parte pode ser creditado à sua posição social e política em seus respectivos países. Enquanto Tocqueville era integrante de uma classe social posicionada defensivamente em face das mudanças políticas e sociais da França e do mundo, Alberdi e Sarmiento pertenciam a uma elite dirigente em ascensão, cujos principais obstáculos tinham sido derrubados com a desarticulação do poder dos caudilhos.

Em tais circunstâncias, as expectativas quanto ao futuro obedeciam a critérios diferentes e contrapostos. Num extremo, Tocqueville, embora tivesse desenvolvido um diagnóstico positivo da situação democrática vivida nos Estados Unidos, mostrava-se muito receoso quanto às ameaças que a democracia norte-americana oferecia para a manutenção do direito à liberdade individual. Em contraste, Sarmiento e Alberdi, apesar da realidade adversa da Argentina em meados do século XIX e das muitas divergências que tiveram entre si, identificaram-se na crença otimista de um futuro próspero e democrático para o seu país.

A leitura e apropriação das idéias tocquevilleanas implicou também uma certa dose de traição. A despeito da admiração pelas idéias de Tocqueville, os dois argentinos subverteram o seu juízo pessimista a respeito do futuro político da América Latina, território em que a democracia seria impraticável. Pois Tocqueville tinha a convicção de que as constituições dos países latino-americanos, por melhores que fossem, não conseguiriam tornar a democracia uma realidade em vista do seu povo ser desprovido de costumes consoantes com as exigências desse regime político.41 Como para muitos outros artistas, escritores, reformadores e revolucionários do mundo político e social latino-americano, a crença na transformação também foi para Sarmiento e Alberdi mais forte que os obstáculos interpostos pela realidade.

As três visões aqui analisadas conceberam a democracia nos termos e limites do pensamento ilustrado oitocentista. Na Argentina — mas também no restante da América Latina —, a construção da ordem liberal atendeu aos interesses de segmentos políticos, intelectuais e de classe em contraposição aos setores populares, à Igreja, aos caudilhos e às correntes conservadoras. Instituições e direitos foram afirmados como expressão de uma concepção moderna e republicana do mundo, mas isso ocorreu à custa da marginalização e da exclusão da maior parte da sociedade. Aos constrangimentos legais à participação dos cidadãos, somaram-se o controle dos notáveis sobre as candidaturas, a coação dos poderosos sobre os eleitores e a manipulação dos resultados das eleições, formando um conjunto que dava um caráter oligárquico aos regimes políticos filiados ao projeto liberal. A superação da "ficção democrática" ali estabelecida dependeu das lutas políticas e sociais pela ampliação da cidadania, como parte de um processo de construção da democracia ainda em curso na América Latina, e, por que não, também nos Estados Unidos.
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Revista História - UNESP