Mostrando postagens com marcador Império Otomano. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Império Otomano. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Expansão dos otomanos - O império ataca



1° de julho de 1501
Expansão dos otomanos deixa na defensiva a Europa cristã

tom do apelo do papa Alexandre VI, transmitido havia seis meses ao rei de Portugal pelo embaixador de Veneza, Domenico Pisani, já dizia tudo: era urgentíssimo armar uma cruzada naval para conter os turcos otomanos, o império em expansão que já tem a República Veneziana praticamente à sua mercê. Fiel à missão de combater os inimigos da fé cristã, dom Manuel não se fez de rogado e os portugueses agora aguardam ansiosos por notícias da grande armada que deixou o porto de Lisboa duas semanas atrás para socorrer os venezianos no Mar Egeu. São trinta navios, naus e caravelas, sob o comando de dom João de Meneses, conde de Tarouca. Não se deve esperar, contudo, que o esforço resulte em batalha decisiva no confronto entre as dois grandes centros de poder de nossa época – os otomanos e a cristandade. O equilíbrio de forças é grande, nenhum lado pode esperar aniquilar o outro. Além disso, o combate aos turcos derrapa com freqüência, visto que os cristãos vivem às turras entre si ou abandonam a Santa Cruzada se encontram pelo caminho presa tentadora para saquear.

Essa é uma guerra travada por mares e terras de três continentes. Seu desfecho repercutirá, previsivelmente, durante séculos na vida dos povos da Europa. Neste momento, a cristandade está na defensiva. Com um pé em cada continente, os otomanos são os primeiros asiáticos a estabelecer um império duradouro na Europa. Menos de cinqüenta anos atrás, eles capturaram Constantinopla, a cidade construída por Constantino, o primeiro imperador romano convertido ao cristianismo, e lhe deram o nome de Istambul. A queda foi um choque para a Europa cristã. Seu conquistador, o sultão Maomé II, construiu um palácio de sonhos no ponto mais alto da cidade, o Topkapi, e transferiu para lá a capital do império otomano. Assombra pensar que, apenas dois séculos atrás, nenhum cavaleiro cristão daria uma segunda olhadela no que era então uma tribo insignificante na horda turca recém-chegada das estepes. O primeiro sultão, Osman (Otman em árabe, daí o nome do império), que viveu no início do século XIV, era um gázi, como chamam um paladino da gázua, a guerra sem quartel aos não-muçulmanos. A essa guerra santa ele acrescentou um propósito imperial: o sonho de um mundo unido sob o estandarte do Islã.

O império dos sultões inclui agora uma grossa fatia do sul da Europa. O exército de Bayezid II, o atual detentor da espada de Osman, magnífica arma de dois gumes que passa de sultão a sultão, está nos portões de Belgrado. Da Praça de São Marcos, os venezianos podem ver, com o coração aos pulos, os incêndios de seus entrepostos no Mar Adriático. A situação só não é mais grave porque Bayezid II tem pouco apego às coisas da guerra, preferindo consolidar as conquistas com novos regulamentos e um gordo aparato burocrático deixado, em boa parte, a cargo de escravos cristãos.

Entregar a administração a escravos, tirados desde pequenos da família e criados na mais estrita fidelidade ao sultão, é uma das peculiaridades dos otomanos. Outra, um antigo costume transformado em lei por Maomé II, estabelece que o príncipe que primeiro for aclamado sultão mate todos os seus irmãos. Os príncipes são estrangulados com uma corda de arco, visto que seria sacrilégio derramar sangue real. A lei é bárbara, mas se sustenta sobre uma lógica fria que o florentino Nicolau Maquiavel provavelmente aplaudiria. É melhor matar uns poucos, dizem os otomanos, que correr o risco de o império ser devastado por guerras sucessórias. Bayezid viveu esse drama até consolidar seu poder. Venceu em batalha o irmão caçula, Jem, mas o príncipe derrotado encontrou refúgio com os Cavaleiros de São João em Rodes, a última fortaleza cruzada na Ásia Menor. Durante doze anos de exílio no mundo cristão, ele foi pivô de conspirações internacionais. Seis anos atrás, ao tomar Roma, o rei Carlos VIII capturou Jem e o enviou para a França. O príncipe adoeceu e morreu no caminho, levantando fortes suspeitas de que tenha sido envenenado a mando do irmão.

Os otomanos dizem que o mundo é dividido entre o Reino da Guerra, a eterna fronteira dos gázis contra os infiéis, e o Reino da Paz, onde povos e religiões coexistem sob a justa lei do sultão. A aplicação disso na prática pode ser vista em Istambul, que em nada lembra a decadente capital bizantina. Transformou-se numa encruzilhada cosmopolita e cresce mais rápido que qualquer outra capital européia. Judeus e mouros expulsos da Espanha e de Portugal chegaram recentemente. Engrossam a multidão de turcos, gregos e armênios nas lojas e vielas do bazar aberto dia e noite. O sultão permite que judeus e cristãos pratiquem discretamente sua religião, costumes e leis em troca de um imposto especial. Graças à pax otomana, o comércio e o artesanato prosperam, abrem-se estradas para o trânsito de caravanas, as colheitas são abundantes e a população aumenta sem parar.

Os mercadores venezianos e outros viajantes cristãos estão bem familiarizados com os costumes turcos, mas muitas de suas instituições continuam a parecer intrigantes aos olhos europeus. A mais perturbadora é o harém, onde vivem encerradas as esposas, concubinas e escravas dos muçulmanos mais endinheirados. Se dermos ouvidos aos relatos dos cruzados que retornam do Oriente, somos levados a acreditar que se trata de um tipo de bordel, onde se permite toda a luxúria. Embaixadores enviados à corte otomana descrevem uma realidade bem diversa. É por pudor puritano que os muçulmanos escondem as mulheres do olhar cúpido de estranhos. A situação das mulheres cristãs, em especial na Península Ibérica, não é muito diferente. O que espanta mesmo é a poligamia. Bayezid II tem centenas, alguns dizem milhares, de mulheres (o sultão favorece as loiras trazidas de seus domínios nos Bálcãs) vigiadas por eunucos brancos e negros – em geral cristãos do Cáucaso ou africanos do Sudão, pois as leis do Corão proíbem emascular muçulmanos. O serralho é um ninho de intrigas e histórias escabrosas. Visto que o Corão não estabelece diferença entre os filhos das esposas e das concubinas, é intensa a disputa entre as mulheres para promover os direitos de seus respectivos herdeiros. Mas coitada daquela que desagradar a seu senhor, pois ele manda colocá-la num saco e a joga nas águas do Bósforo. Conta-se que um sultão, consumido por fúria insana, desfez-se de todo o seu harém. Um mergulhador que naqueles dias tentava libertar a âncora de um barco viu-se diante de uma floresta de sacos agitando-se ao sabor das correntes marinhas.

A Europa cristã escuta fascinada e incrédula os relatos sobre essa sociedade onde todo mundo parece ter orgulho de se proclamar escravo do sultão e um filho de pastor pode chegar a grão-vizir. Onde já se ouviu falar em altos funcionários ou comandantes militares nascidos em choupanas? Sim, pois, além dos quadros administrativos, também têm a mesma origem os janízaros, a infantaria de elite formada por soldados-escravos. A guerra é o celeiro que alimenta a burocracia e o exército. Todos os anos os otomanos importam 20 000 escravos eslavos e norte-africanos. A estes acrescenta-se o "tributo de meninos", que determina que todo quinto menino cristão nascido nos domínios otomanos deve ser entregue ao serviço do sultão. A família pode esquecê-lo. Os mais robustos serão selecionados para o corpo de janízaros – "homens da espada". Separados desde a tenra infância dos laços familiares, esses soldados de fartos bigodes só são fiéis ao sultão. Os meninos escravos que sobressaem na matemática ou caligrafia são levados à escola no palácio e iniciados na profissão de criado real. Entre eles é escolhida a nova administração pública – um sistema baseado inteiramente no mérito, o que a Europa cristã, onde a linhagem familiar continua a ter enorme peso quando se trata da distribuição de cargos públicos, não consegue entender.

Quando defrontaram pela primeira vez com as tropas otomanas, os europeus espantaram-se com a velocidade e o silêncio com que marcham. Um cronista francês escreveu: "Eles partiram subitamente e 100 soldados cristãos fariam mais barulho que 10000 otomanos. Quando o tambor tocava, colocavam-se em marcha, jamais errando o passo, jamais parando até receber ordem. Com armas leves, numa noite viajam tanto quanto seus adversários cristãos em três dias". Uma esquadra de engenheiros garante que não faltarão pontes pelo caminho. Milhares de camelos e carroças asseguram o abastecimento das tropas e as balas para os canhões. Os otomanos os preferem tão grandes que muitas vezes é preciso fundi-los no próprio local da batalha.

O mais impressionante é a mehter, a banda militar com seus címbalos e tambores. "Quando eles passam tocando todos ao mesmo tempo, o barulho faz o cérebro dos homens sair pela boca", narrou um sobrevivente das lutas nos Bálcãs. Essa inovação otomana na arte da guerra, a banda militar que marcha com o exército na batalha, espalha terror quando anuncia um assalto ou acompanha a parada vitoriosa numa cidade recém-conquistada. O terror, imaginado ou real, é uma das melhores armas do arsenal dos otomanos. Costumam enviar na vanguarda uma força de irregulares recrutados nas aldeias e chamados de delils – os fanáticos. Pagos apenas com o que saqueiam, devastam o território inimigo como praga de gafanhotos. O sultão os usa para esmagar as defesas fronteiriças e aterrorizar a população. Quando necessário, são sacrificados para absorver os primeiros ataques inimigos. Enquanto o exército está em terras otomanas, contudo, a disciplina rigorosa não permite que nenhum militar maltrate os camponeses, estrague as colheitas ou roube um só de seus carneiros. É com certeza um pensamento herético, mas os cavaleiros cristãos bem fariam se adotassem esse costume dos inimigos otomanos.

Revista Veja

segunda-feira, 23 de março de 2009

Império Otomano - Intrigas e complôs no harém real


Longe de ser mera curiosidade, o serralho constituiu um dos principais fatores da decadência do Império Otomano. A conspiração era prato diário, mobilizando esposas, favoritas, concubinas e eunucos.
por Yves Bomati
Em 1922, destituído do título de sultão, Mehmet VI exilou-se na Grã-Bretanha - fora banido por Mustafá Kemal, o Atatürk, futuro presidente da nascente República turca. O Império Otomano assistia a seus últimos dias. Abolido o sultanato, o velho mundo desabava. O impressionante harém da residência real de Dolmabahçe - herdeira de Topkapi - não tinha mais razão de ser.

As mulheres reclusas o abandonaram. As portas pesadas por instantes abertas para os jardins luxuriantes e as fontes cristalinas, os pórticos elegantes onde ainda se agitavam musselinas e brocados fecharam-se para sempre, engolindo em seus labirintos inúmeras fantasias ocidentais. O Oriente perdia seu tempero. A esfuziante Istambul, de quem Ancara tinha acabado de arrebatar o título de capital, passou a existir apenas na memória. O harém tornou-se museu, despojado de seus ornamentos vivos: as mulheres. Um modo de vida desaparecia, e, com ele, uma instituição freqüentemente incompreendida no Ocidente: o harém.

O harém otomano era um lugar à parte, proibido e discreto - a palavra árabe haram significa "o que é resguardado, sagrado" -, destinado a canalizar os desejos do sultão por meio do fornecimento incessante de virgens estrangeiras. Como o império era regido segundo o princípio da primogenitura masculina, o futuro dinástico estava assegurado. Além disso, o concubinato do sultão com suas escravas extinguia a ambição das grandes famílias turcas, desejosas de alcançar o poder supremo, ao mesmo tempo que garantia ao Império um continuador do sexo masculino retirado de um "viveiro" de herdeiros potenciais.

Na noite de 28 de maio de 1453, ao se apoderar de Bizâncio, o sultão Mehmed II, que havia subido ao trono havia dois anos (governou de 1444 a 1446 e de 1451 a 1481), fez triunfar a civilização muçulmana. Uma de suas primeiras providências foi transformar em mesquita a catedral de Santa Sofia, símbolo do cristianismo ortodoxo. Seu segundo gesto consistiu em estabelecer, no centro de Istambul, sua residência real, Esky Saray, o Velho Palácio, e o harém real. Em seguida, lançou-se à construção do Yény Saray, o Novo Palácio, no sítio da antiga acrópole de Bizâncio, o futuro Topkapi.

Mehmed II instalou-se ali, mas manteve seu harém no Velho Palácio, reduzindo sua influência. No entanto, depois de um incêndio parcial, Solimão, o Magnífico (1520-1566), cedendo às pressões de sua esposa preferida, Hurrem, decidiu transferi-lo para o Novo Palácio, perto de seus apartamentos. Lançado ao coração dos assuntos do Estado, o harém contribuiu para a guinada política de um dos impérios dominantes do mundo.

O poder do harém era resultado de sua organização rigorosa. Sob o exterior voluptuoso, vivia segundo uma disciplina muito severa, essencial por sua função e pelo número de residentes: 373 mulheres em 1600, 642 em 1622 e 967 em 1652. A título de comparação, o harém real do vizinho e inimigo persa contou, no decorrer do século XVII, com até 500 mulheres, enquanto o harém indiano do grande Mogul Akbar (1556-1605) reunia mais de 5 mil mulheres. Aliás, esse número tão alto sempre despertou as fantasias dos viajantes ocidentais, excitados pelas perspectivas de tal reserva para um único homem. Eles não levavam em conta o fato de o Corão prever a poligamia. Um verso famoso diz: "Desposai as mulheres agradáveis a vossos olhos, duas, três ou quatro, [mas] se temerdes não poder ser eqüitativo para com elas, [tomai], então, uma só, ou concubinas!" (IV, 3).

É verdade que as mulheres do harém eram especialmente sedutoras. Em princípio, eram recrutadas entre as populações submetidas ao império. Eram conquistadas nas pilhagens de guerra, como a famosa Nurbanu, "Princesa Luz", a esposa preferida de Selim I e mãe de Murat III. Ao ingressar no harém, as mulheres mudavam de nome. A famosa Roxelane, "a Russa", ucraniana adotou o nome de Hurrem, "Aquela que ri". Essa nova identidade, marcava sua condição servil.

Todas viviam sob a autoridade da primeira-dama do harém, a mãe do sultão, a sultana Validé. Essa antiga escrava, ao garantir o primeiro descendente do sexo masculino ao sultão precedente, tornava-se também a primeira-dama do Império, segundo o princípio de que, se o senhor podia ter diversas mulheres, tinha uma única mãe. Símbolo de um matriarcado de fato, garantia da segurança e do prestígio do país, a sultana Validé receberia, no século XVIII, a pensão mais elevada do império.

A magnificência de suas funções assinalava sua alta posição. Uma ou duas semanas depois da subida do filho ao trono, ela era conduzida do Velho Palácio, chamado de Palácio das Lágrimas, onde ficara afastada, para o Novo Palácio, em meio a uma multidão de cortesãos. Ela então entrava em uma carruagem de cerimônia, seguida por uma carruagem menor, de onde servidores lançavam moedas ao povo. Quando chegava ao palácio, o filho a saudava. As relações de todos com a sultana Validé - exceto seu filho - obedeciam a uma etiqueta estrita: ninguém podia ser recebido se não tivesse solicitado audiência. A "Rainha Mãe" era o centro do sistema "harêmico".

Sua autoridade dava origem a todas as decisões referentes às solicitações das mulheres do harém, e também lhe cabia decidir as funções hierárquicas de cada uma.

As integrantes do harém sonhavam ser a sucessora da sultana Validé. Algumas, ignoradas pelo sultão, podiam casar-se fora do harém imperial depois de nove anos de serviço, quando eram valorizadas pela qualidade de sua educação. Outras, as mais belas, as odaliscas que passavam algumas noites com o senhor e, por esse privilégio, estavam condenadas à "reclusão perpétua", podiam aspirar ao título de esposas legítimas, kadins, se tivessem um filho do sexo masculino, e ao de primeira esposa, caso dessem à luz ao herdeiro do trono, único caminho para o status de Validé.

A corrida ao título supremo era longa e semeada de armadilhas. Em caso de fracasso, elas eram relegadas, após o falecimento do monarca, ao Palácio das Lágrimas, onde ficavam até morrer. Poucas teriam a sorte da famosa Kössem, esposa de Ahmed I, que ingressou ali com a morte do sultão, em 1617, e tornou-se sultana Validé em 1623, quando da ascensão ao trono de seu filho Murad IV.

A castração masculina
Para assegurar a ligação entre o harém principesco e o mundo exterior, foi necessária uma função de mediação, assumida pelos eunucos. A prática da castração masculina, embora proibida pelo Corão, remete à Antigüidade oriental e a Bizâncio. Os brancos eram guardiões da porta exterior do harém. Os negros, originários do Sudão, guardavam a porta interior. Vendidos como escravos no bazar vizinho, como as mulheres do harém, recebiam novos nomes ao assumirem suas funções: "Tulipa", "Peixe Vermelho", "Jasmim", "Açafrão" etc. Os eunucos otomanos apresentavam outra particularidade: à diferença dos homólogos persas, "totalmente cortados", a castração removia-lhes apenas os testículos, e não o pênis. Isso explicaria por que tantas intrigas amorosas se tornaram conhecidas no harém da Sublime Porta, e por que os eunucos otomanos desempenharam papel tão importante na política turca.

A situação particular dos eunucos otomanos lhes assegurou, entre 1574 e 1908, posição invejável na organização do império e na repartição dos poderes. Seu papel era múltiplo: mensageiros entre as mulheres que viviam fora do harém e as que ali residiam, também faziam a ligação entre o sultão - quando este decidia não deixar o harém - e seus vizires. O chefe dos eunucos negros ocupava um lugar privilegiado entre eles: autorizado a aproximar-se do sultão a qualquer momento e influenciando-o com as informações que detinha, dispunha do poder de apressar ou retardar uma entrevista com um dignitário ou embaixador. Além disso, era extremamente rico, pois administrava as finanças do harém, bem como as das mesquitas imperiais.
Exercia assim o cargo de chefe de uma força clandestina considerável, cujo apoio era muito procurado. Por fim, estava incumbido de guardar os príncipes, enclausurados em pequenos apartamentos pelo resto de seus dias, salvo em caso de necessidade. Solimão II, por exemplo, passou 40 anos num deles antes de subir ao trono em 1687. Tratava-se de tarefa importante, de grande dimensão política, pois esses herdeiros potenciais representavam constante perigo para o sultão no poder.

O poder da mãe do sultão
O harém era um paraíso? Ao contrário do que sugere a literatura sobre o tema, a realidade ali era pouco encantadora. Em Topkapi, a vida das mulheres se organizava em torno de três pátios. O primeiro e mais central era reservado à mãe do sultão. Junto a ele ficavam os apartamentos da Validé, os mais luxuosos do harém, com salão, quarto, aposento para orações, móveis para repouso, toalete e banho turco.

Os dois outros pátios - a oeste, o das kadins e, a leste, o das concubinas - também eram ladeados por apartamentos, na verdade uma profusão de pequenos quartos, tetos ornados de arabescos dourados e paredes recobertas por cerâmicas esmaltadas de Iznik. Alguns dispunham até de torneiras.

O harém era uma prisão de luxo para as mulheres do sultão. Nem sempre aquelas "deixadas à própria sorte" estavam numa situação pior. As kalfas, escolhidas pela sultana Validé, eram as administradoras de alto nível do harém. Reconhecíveis pelo vestido de cauda forrado, eram dignitárias cujo bastão cerimonial simbolizava o poder. Sob suas ordens, um exército de servidoras remuneradas, as djariyes, consumia-se em trabalhos de intendência: limpeza, lavanderia, aquecimento e abastecimento.

As outras mulheres - sem dúvida as mais invejadas - passavam os dias em uma ociosidade ritmada pelo ritual do banho turco, cujos prazeres foram descritos em 1717-1718 por lady Mary Wortley Montague, esposa do embaixador britânico: "Os primeiros sofás eram cobertos por almofadas e ricos tapetes nos quais estavam sentadas as damas. (...) Tantas belas mulheres nuas em diferentes atitudes, umas conversando, outras com trabalhos de costura, outras bebendo café ou sorvetes à base de suco de fruta". Mais tarde, elas podiam ser encontradas nos jardins. Thomas Dallam, inglês fabricante de órgãos, conseguiu vê-las em 1599, graças à indiscrição de um janízaro, e escreveu: "Elas não traziam nada sobre a cabeça senão um pequeno boné dourado, que cobria apenas o topo; nem faixas de tecido em torno do pescoço nem nada, mas belos colares de pérolas, uma jóia pendente sobre o busto e nas orelhas. As túnicas [...] eram de cetim, vermelhas, azuis ou de outras cores, tendo, na cintura, um cordão de cor contrastante. Essas jovens vestiam calças de algodão branco como a neve e tão fino quanto uma gaze, pois pude discernir a pele de suas coxas através dele". Era ali também que elas dançavam, fumavam o narguilé, jogavam xadrez e se enchiam de doces, uma vez que os sultões gostavam de mulheres de contornos generosos. Por vezes bordavam, pois, como recorda o viajante italiano Pietro della Valle (1586-1652), elas não tinham rivais na arte de "bem trabalhar o linho e em outras obras que faziam também com seda de diversas cores, (...) nas quais aparecia o mesmo motivo nos dois lados, tecidos com ouro e prata em telas brancas muito finas e transparentes, e em alguns tecidos".

No entanto, todos esses lazeres não ocultavam sua ocupação principal: a espera do sultão. Seriam escolhidas? Ou deveriam antes embelezar a nova escrava observada pelo mestre? Porque a sultana Validé era a grande fornecedora de jovens beldades. Quando seu filho a visitava, ela pedia sempre às jovens escravas que servissem o café. Se o sultão prestasse atenção em alguma, dizia-se que ela estava gödze, "no olho". Escoltada pelo chefe dos eunucos, a "feliz eleita" era perfumada, enfeitada suntuosamente e vestida pelas mulheres do harém, antes de ser conduzida até os aposentos do sultão.

Se a noite "corresse bem", ou seja, se o sultão lhe tivesse "prestado justiça", ela tornava-se ikbal, favorita. Compreende-se que tais práticas - num mundo fechado - tenham gerado rivalidades agudas. Assim, quando Solimão começou a notar Hurrem, a circassiana Mahidevran, mãe de Mustafá - o filho mais velho do sultão - e, por esse título, futura Validé, considerando que todas as mulheres do harém desde já lhe deviam submissão, arranhou o rosto da rival chamando-a de "carne podre". Informado dessa história, Solimão exilou a primeira kadin em Bursa, onde ela morreu, esquecida por todos, em 1581. O abandono pelo sultão era dramático. Aquelas que haviam desagradado ao mestre ou a quem ele não mais prestava justiça iam engrossar as fileiras das esquecidas no Palácio das Lágrimas.

A mulher velha e os eunucos
A vida no harém era complexa. Sob a tranqüilidade luxuosa escondia-se o sexo prisioneiro e mudo em que todo mundo pensava. Um sexo canalizado por uma mulher velha, Validé, e vigiado por seres híbridos, os eunucos.

O harém era um lugar de poder, ao mesmo tempo fechado e "público", como observou Jean Chardin, viajante francês do século XVII. Contrariando a opinião do filósofo árabe Averróis (1126-1198), de que, "nesses Estados, as mulheres não são consideradas capazes de nenhuma virtude humana", é preciso reconhecer que, além de saber tecer bordados e poesias, ao contrário das hóspedes do harém persa, as otomanas dominavam a arte de tecer intrigas, designando e derrubando vizires.

Sua fonte de informação era direta, como evidencia um orifício circular aberto em uma parede acima da sala do Conselho, o Divã, desde o século XVI, um ouvido do harém que recolhia em primeira mão os projetos e decisões políticas. Tarkhan Khadidje, sultana Validé no reinado de Mehmet IV, foi mais longe: escondida atrás de uma cortina, participava das reuniões do Divã, onde fazia sentir sua influência. Os sultões estavam a tal ponto sob a ascendência do harém que o embaixador de Veneza escreveu a respeito de Murad III: "As mulheres e os eunucos estão sempre ao redor dele e em geral podem ter a última palavra".

Se o poder dos eunucos era grande, o das Validés era imenso, reconhecido tanto por aliados quanto por adversários políticos, dentro e fora do império. Caso o sultão fosse menor de idade ou um degenerado - o que acontecia com freqüência - ou demasiado ocupado por jogos eróticos, era a sultana Validé quem assegurava o essencial do poder. A população de Istambul não se enganava a esse respeito, e costumava dizer: "Todo bem e todo mal vem da Rainha Mãe".

Nurbanu, mãe de Murad III, embora vivesse em um palácio fora dos muros da cidade, controlava tudo. Contribuindo para manter a paz entre a Sereníssima e a Sublime Porta, ela solicitou sedas e brocados diretamente ao representante de Veneza por sua diplomacia. "Sultana Rainha Mãe do Grande Senhor", ela se correspondia também com a "Rainha Mãe do Rei", Catarina de Médici, na França, e opinou sobre os tratados estabelecidos entre os dois países. Como aconteceu com Hurrem, ela deixaria de si mesma uma imagem fecunda, fazendo construir com seus próprios recursos, em Uskudar, subúrbio asiático de Istambul, uma mesquita celebrando a glória de Alá, um hospital, um hammam (estabelecimento de banhos) e três escolas corânicas, além de oferecer uma sopa popular para os pobres e miseráveis.

Mulheres excepcionais, as Validés detinham o poder. Para conquistar a posição e nela permanecer, sabiam como tirar partido dos ambiciosos, estimulando a corrupção, um mal que devoraria o Império Otomano até sua queda. Reinando em seu jardim do Éden sobre um mundo bem real, elas regeram durante quatro séculos a sorte dos otomanos, deixando ao mesmo tempo às imaginações fecundas do Ocidente o perfume proibido que fez a sedução e o mistério do harém.

Yves Bomati é doutor em letras e ciências humanas e historiador das religiões. Publicou, com Houchang Nahavandi, Shah Abbas, empereur de Perse, 1589-1629 (Xá Abbas, imperador da Pérsia), Éditions Perrin, 1998

Revista Historia Viva