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terça-feira, 14 de junho de 2022

CONFERÊNCIA DE BERLIM E O MITO DA PARTILHA DA ÁFRICA


A Conferência de Berlim é um evento histórico muito mencionado em estudos sobre o imperialismo do século 19. Em sua grande maioria, esses trabalhos apresentam o encontro como o momento no qual as nações da Europa se reuniram para, em 1885, partilhar entre si o continente africano. Mas documentos da época indicam que a divisão da África não estava em pauta. Assim, é preciso identificar quais foram as deliberações dessa reunião e por que ela ficou conhecida como a partilha da África.




A conquista do continente africano por países da Europa durante o imperialismo foi um processo que durou décadas e no qual regiões africanas foram progressivamente colocadas sob o controle direto ou indireto de alguma nação europeia. Mas pode-se dizer que a maior parte dessa divisão da África ocorreu entre a segunda metade do século 19 e o início da Primeira Guerra Mundial, em 1914 – com especial aceleração a partir da década de 1880.

Nesse período, foi realizada, entre 15 de novembro de 1884 e 26 de fevereiro do ano seguinte, a Conferência de Berlim. Esse evento diplomático, que envolveu nações da Europa, além de representantes dos EUA e do Império Otomano, está inserido em um contexto de intensificação das disputas imperialistas por regiões estratégicas do continente africano.

A ‘corrida para a África’ – especialmente, a partir das duas últimas décadas do século 19 – foi marcada por interesse crescente pelo rio Congo, e determinados acontecimentos impulsionaram as disputas por essa região.

De modo geral, até a década de 1880, apenas as regiões da costa do continente africano haviam sido ocupadas pelos europeus (figura 1). Um dos fatores que explicam a ausência europeia no interior da África é o desconhecimento ocidental em relação às condições físicas e humanas das regiões além do litoral.

De modo geral, até a década de 1880, apenas as regiões da costa do continente africano haviam sido ocupadas pelos europeus



Figura 1. Mapa da África de 1886 – ano seguinte ao encerramento da Conferência de Berlim –, com a delimitação da bacia do Congo e das possessões europeias – a maioria delas no litoral africano
CRÉDITO: WWW.RAREMAPS.COM/ GALLERY/DETAIL/53964/FREE-CONGO-STATE-NOUVELLE-CARTE-DE-LAFRIQUE CONTENANT-TO-DOSSERAY



Mesmo Portugal, que, pelo menos, desde o século 15 manteve contato com populações africanas ao sul do deserto do Saara, esteve, por séculos, praticamente restrito às regiões costeiras, com localidades pontuais no interior em que tinha um pequeno aparato administrativo. Apesar de tênue e frágil, essa presença na África antes do século 19 foi usada como argumento pelos portugueses para reivindicar importantes regiões em disputa durante o imperialismo.

Algumas das principais vias de acesso ao interior do continente africano eram seus rios, e, nesse sentido, as redes fluviais eram objeto de especial interesse por parte das nações europeias na corrida imperialista. Partindo desse princípio, eventos ocorridos a partir das últimas décadas do século 19 são considerados, por muitos historiadores, fundamentais para explicar a rivalidade da qual foi alvo a região central da África – mais especificamente, a região da bacia do rio Congo.

Em primeiro lugar, em 1880, Pierre Savorgnan de Brazza (1852-1905), explorador de origem italiana vinculado à Marinha francesa, assinou, com o rei Makoko (1820-1892), chefe dos batekês, acordo no qual o soberano africano concordava em ceder seu território à França. A assinatura desse tipo de tratado entre europeus e africanos não era novidade, mas, à diferença daqueles firmados anteriormente, esse foi ratificado pelo governo da França, em 22 de novembro de 1882, o que pôs em alerta as demais nações da Europa em relação à importância dada a ele pelo estado francês.

Bem antes da assinatura desse tratado – desde, pelo menos, a Conferência Geográfica de Bruxelas, em 1876 –, o rei Leopoldo II (1835-1909), da Bélgica, já demonstrava interesse em obter uma colônia em território africano. Agindo em seu nome, o famoso explorador britânico Henry Morton Stanley (1841-1904) assinou centenas de tratados com chefes africanos. Uma consequência da assinatura desses acordos foi o fato de que “em 1883, Leopoldo havia claramente passado à frente da França na corrida pelo Congo”, nas palavras do historiador holandês Henk Wesseling (1937-2018), autor do livro Dividir para dominar: a partilha da África 1880-1914.

Em 1884, Portugal obteve dos britânicos o reconhecimento de sua soberania sobre todo o estuário do Congo, no que ficou conhecido como tratado anglo-português. Alvo de críticas e protestos, esse acordo não chegou a ser ratificado pelo parlamento britânico, mas sinalizou quais eram reivindicações lusas em relação ao que os portugueses consideravam seus direitos históricos à embocadura do Congo e chamou a atenção para os acordos bilaterais que estavam sendo feitos entre as nações europeias.

Diante desse panorama de crescentes iniciativas na região central da África, o chanceler alemão Otto von Bismarck (1815-1898) – que, inicialmente, hesitou em inserir a Alemanha no grupo de países que disputavam territórios coloniais – decidiu, em conjunto com o governo francês, organizar uma conferência em Berlim para tratar de assuntos relevantes naquele momento – em especial, para definir as formas de regulação das navegações fluviais.


As resoluções da conferência

Alemanha e França, de forma conjunta, decidiram previamente quais seriam os três pontos que iriam nortear os debates em Berlim: a liberdade de comércio na bacia e no estuário do rio Congo; a liberdade de navegação nos rios Congo e Níger; e as formalidades que deveriam ser cumpridas para que novas ocupações na costa da África fossem consideradas efetivas.

Pela ata geral da Conferência de Berlim, redigida ao final do encontro, ficou estabelecido que as embarcações com fins comerciais, sem distinção de nacionalidade, teriam livre acesso ao território compreendido pela bacia do Congo e seus afluentes. Essa determinação teve por objetivo impedir a criação de monopólios ao longo de um dos principais rios da África e garantir que as mercadorias que circulassem pela região estivessem isentas de taxas de entrada.

A ata também consagrou o princípio de liberdade de navegação no rio Congo e Níger. Dessa forma, a circulação de navios comerciais ou de transporte de passageiros permaneceria inteiramente livre. Mas, apesar de estabelecer para os dois rios as mesmas regras de liberdade, havia uma diferença fundamental entre eles. Para o Congo, seria instituída uma comissão internacional encarregada de assegurar o cumprimento das determinações da ata. Para o Níger, onde o Reino Unido já tinha domínio de regiões antes da conferência, não haveria um órgão internacional responsável por garantir a execução das decisões do encontro.

Os representantes europeus reunidos em Berlim também definiram as regras de legitimação para as futuras anexações nas costas do continente africano. A partir daquele momento, para que novas possessões ou protetorados fossem considerados efetivos, seria necessário o envio de notificação aos demais países signatários da ata, para viabilizar possíveis reivindicações.

Os representantes europeus reunidos em Berlim também definiram as regras de legitimação para as futuras anexações nas costas do continente africano



Ponto que vale ser destacado sobre as futuras anexações é a delimitação espacial feita pelos representantes europeus. O artigo da ata referente a elas trata apenas das regiões costeiras do continente africano. Isso indica que as deliberações sobre futuras ocupações não teriam validade para todo o continente, deixando de fora as regiões do interior. Esse fato não só refuta as interpretações que atribuem à Conferência de Berlim o papel de partilhar o continente africano, mas também põe em perspectiva as análises segundo as quais esse encontro teria criado as bases para sua futura divisão, pois os critérios de tomada de posse definidos em Berlim não valeriam para todo o continente.

O tráfico de escravos – outro tema debatido pelos delegados presentes em Berlim – aparece de forma superficial no documento final do encontro, no qual apenas um parágrafo é dedicado à questão. Segundo o artigo 9 da ata geral, as nações que exerciam ou passassem a exercer soberania ou influência nos territórios que compreendiam a bacia convencional do rio Congo deveriam proibir que essas regiões fossem usadas como mercado ou via de trânsito para o tráfico de escravos.

O tráfico de escravos – outro tema debatido pelos delegados presentes em Berlim – aparece de forma superficial no documento final do encontro, no qual apenas um parágrafo é dedicado à questão


Elemento que chama a atenção naquele artigo é a restrição do alcance de sua aplicação. A proibição do tráfico – pelo menos, a partir das determinações da ata da conferência – não seria extensiva a todo território africano, mas ficava limitada ao entorno do rio Congo. Nesse sentido, o pouco espaço reservado a esse tema está em desacordo com o lugar que a questão humanitária ocupava na retórica imperialista, sendo esta uma das principais justificativas para as incursões coloniais.


A origem do mito

Diante da discrepância entre a forma como a Conferência de Berlim é apresentada em materiais didáticos – e, até mesmo, em bibliografia especializada sobre o imperialismo – e o que de fato ficou estabelecido a partir do encontro, cabe questionar qual teria sido a origem do mito da partilha de Berlim. Nesse sentido, no livro A partilha da África Negra, o historiador francês Henri Brunschwig (1904-1989) apresenta hipóteses para o surgimento das interpretações equivocadas sobre a conferência.

A primeira constatação feita pelo autor se refere ao caráter tardio dessa atribuição de significado. Isso porque, até por volta da Primeira Guerra Mundial, os historiadores não colocavam a Conferência de Berlim em posição de destaque entre os acontecimentos mais significativos do imperialismo. Mesmo participantes do encontro diplomático, como o britânico Edward Malet (1837-1908), manifestaram descrença quanto à possibilidade de a ata alterar a situação preexistente em relação ao continente africano.

A partir do início do século passado, começaram a surgir, na França, trabalhos sobre o período imperialista segundo os quais a Conferência de Berlim teria consagrado a doutrina do hinterland. Com base nessa doutrina, a posse de um território no litoral dava direito às regiões do interior a determinada nação, a qual poderia recuar suas fronteiras de forma indefinida, até se deparar com uma possessão, zona de influência ou um estado vizinho.

A partir do início do século passado, começaram a surgir, na França, trabalhos sobre o período imperialista segundo os quais a Conferência de Berlim teria consagrado a doutrina do hinterland


Se aplicada ao continente africano, a doutrina do hinterland garantiria, a nações europeias, direito de propriedade sobre regiões do interior do continente, com base na posse de regiões do litoral – este último já praticamente ocupado por europeus, quando a conferência foi realizada. Portanto, na prática, essa doutrina poderia significar a divisão da África. Contudo, não há qualquer referência a esse princípio na ata geral de Berlim, o que torna equivocado dizer que a ocupação do litoral definiu a partilha do interior do continente.

Outro elemento que contribuiu para a consolidação da imagem da conferência foram as representações imagéticas produzidas ao longo do evento. Em 1884, o jornal francês L’Illustration publicou ilustração em que os representantes europeus estavam dispostos ao longo de uma mesa com um mapa da África ao fundo (figura 2). Esse tipo de imagem favorece a leitura de que todo o continente africano estava em debate na conferência e não apenas a região do Congo.

Outro elemento que contribuiu para a consolidação da imagem da conferência foram as representações imagéticas produzidas ao longo do evento



Figura 2. Ilustração da Conferência de Berlim publicada em 1884 pelo jornal francês L’Illustration, com o título A questão do Congo
CRÉDITO:MARY EVANS / IMAGEPLUS



Em janeiro do ano seguinte, o mesmo periódico veiculou caricatura de Bismarck repartindo a África, como se esta fosse um bolo (figura 3), o que reforça a ideia de uma divisão sendo feita no encontro. Essa caricatura pode sugerir que, já em 1885, a conferência era lida como um tipo de partilha, ainda que, para confirmar essa hipótese, seja preciso estudo mais aprofundado das circunstâncias de sua elaboração.



Figura 3. Caricatura do jornal L’Illustration, de janeiro de 1885, com o chanceler alemão Bismarck ‘repartindo o bolo africano’ e com os dizeres ‘a cada um sua parte, se formos bem sábios’
CRÉDITO:MARY EVANS / IMAGEPLUS



Mesmo que seja possível sugerir caminhos que levaram à construção do mito da Conferência de Berlim, é difícil definir qual tenha sido o elemento determinante para que o evento ficasse conhecido como a partilha da África entre os países europeus. De qualquer forma, essa interpretação continua sendo erroneamente reproduzida em materiais sobre o imperialismo do século 19.

Considerando a importância atribuída à conferência a posteriori, é possível que grande parte do interesse que ela tenha suscitado esteja justamente relacionada à alteração de sentido pelo qual o evento passou ao longo do tempo.

Aline Barbosa Pereira Mariano
Programa de Pós-graduação em História,
Universidade Federal Fluminense
Revista Ciência Hoje

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Mitologia dos Orixás


Livro conta sobre Mito dos Orixás
Seitas, religiões e mitos são temas correntes das obras do sociólogo e professor da USP Reginaldo Prandi que lança pela Companhia das Letras Mitologia dos Orixás

Através de contos curtos, sem autor, protagonizados por deuses e deusas, semideuses e heróis divinizados, Reginaldo Prandi conta sobre as origens da religião dos orixás no livro Mitologia dos Orixás, lançado na semana passada pela Companhia das Letras. O livro é uma coleção de 301 relatos mitológicos. As histórias são acompanhadas por ilustrações do artista
plástico Pedro Rafael e por fotos de todos os orixás que se manifestam em cerimônias do candomblé no Brasil

Ao narrar episódios com Exu, Ogum, Iemanjá e Iansã, Mitologia dos Orixás chama a atenção para o vasto patrimônio cultural deixado pelos negros iorubás ou nagôs. O culto aos deuses negros que sobreviveu e prosperou em países da América - em particular no Brasil e em Cuba -, nos últimos anos, tem chegado até a Europa. A obra ainda traduz o que os orixás fazem, querem e prometem. Na sociedade tradicional dos iorubás, é pelo mito que se alcança o passado, se interpreta o presente e se prediz o futuro.

Seitas, religiões e mitos são temas correntes das obras do sociólogo e professor da USP. Prandi recentemente lançou os livros Caminhos de Odu, Um sopro do Espírito: a renovação conservadora do catolicismo carismático, que foi traduzido para o italiano.

Mitologia dos Orixás, de Reginaldo Prandi, 642 págs., editora Companhia das Letras

quarta-feira, 20 de abril de 2011

O que foi o Apartheid na África do Sul?

O termo, em africâner, língua dos descendentes de europeus, significa "separação", e foi atribuído ao regime político de segregação dos negros na África do Sul, que durou, oficialmente, 42 anos
Entrada do Apartheid Museum, em Joanesburgo,
África do Sul: "brancos" e "não brancos".
Foto: The Africa Fellowship/Creative Commons.
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Nelson Mandela deixou a prisão há 20 anos, no dia 11 de fevereiro de 1990. A liberdade do líder foi o mais forte sinal do fim do regime de segregação racial na África do Sul, o apartheid.

Colonizada a partir de 1652 por holandeses e tendo recebido imigrantes de outras partes da Europa e da Ásia, a África do Sul tornou-se, em 1910, uma possessão britânica. Desde a chegada dos primeiros europeus, há mais de três séculos, a história do país africano, que será a sede da Copa do Mundo em 2010, foi marcada pela discriminação racial, imposta pela minoria branca.

Como protesto a essa situação, representantes da maioria negra fundaram, em 1912, a organização Congresso Nacional Africano (CNA) à qual Nelson Mandela, nascido em 1918, se uniu décadas depois. No CNA, Mandela se destacou como líder da luta de resistência ao apartheid.

O pai de Mandela era um dos chefes da tribo Thembu, da etnia Xhosa e, por isso, desde cedo, o garoto foi educado e preparado para assumir a liderança de seu povo. "Ele recebeu o melhor da Educação de sua tribo e foi iniciado em todos os rituais. Mas também teve o melhor da Educação europeia, estudando em bons colégios”, explica Carlos Evangelista Veriano, professor de História da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas).

O apartheid oficializou-se em 1948 com a posse do primeiro-ministro Daniel François Malan, descendente dos colonizadores europeus - também chamados de africâners. “Embora a história oficial omita, sabemos que os ingleses foram os financiadores do apartheid, já que o Banco da Inglaterra custeava todos os atos do governo sul-africano”, afirma Veriano.

Com o novo governo, o apartheid foi colocado em prática, instituindo uma série de políticas de segregação. Os negros eram impedidos de participar da vida política do país, não tinham acesso à propriedade da terra, eram obrigados a viver em zonas residenciais determinadas. O casamento inter-racial era proibido e uma espécie de passaporte controlava a circulação dos negros pelo país. “É importante lembrar que essa política teve clara inspiração nazista”, diz o professor.

Embora tenha sido preso diversas vezes antes, Mandela já cumpria pena desde 1963 quando recebeu a sentença de prisão perpétua. Porém, com o passar dos anos, o mundo passou a se importar mais com a inadmissível situação da África do Sul, que começou a receber sanções econômicas como forma de pressão para acabar com o apartheid. Em 1990, com o regime já enfraquecido, Mandela foi solto, depois de 27 anos no cárcere. O governo, liderado por Frederik De Klerk, revogou as leis do apartheid. Três anos depois, Mandela e Klerk dividiram o Prêmio Nobel da Paz.

Em 1994, nas primeiras eleições em que os negros puderam votar, Mandela foi eleito presidente do país. O filme Invictus, dirigido por Clint Eastwood, em cartaz atualmente nos cinemas, tem como foco a história de Mandela (interpretado por Morgan Freeman) logo que ele assume a presidência. A obra mostra como o líder governou não com a intenção de se vingar dos brancos, mas sim de realmente transformar o país em uma democracia para todos.
Revista Nova Escola

sábado, 12 de março de 2011

Exploração do trabalho escravo na África


Érica Turci*

Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
Desde milênios, em todos os cantos do mundo, a escravidão foi uma prática comum e aceita por diversos povos. Somente a partir do século XIX é que o comércio de pessoas passou a ser criticado, e em muitas regiões foi abolido (pelo menos legalmente). Hoje em dia, apesar da existência de milhões de indivíduos ainda trabalhando como escravos, tal situação é considerada um crime pela comunidade internacional.

Mas o que é ser um escravo? Segundo o Dicionário Eletrônico Houaiss, em sua primeira acepção, escravo é "quem ou aquele que, privado da liberdade, está submetido à vontade absoluta de um senhor, a quem pertence como propriedade".

Um indivíduo pode se transformar em escravo de diversas maneiras:

por ser um prisioneiro de guerra;
por contrair uma dívida, que seria paga com seu trabalho (por um tempo determinado ou pela vida toda);
por ter cometido um crime e sendo, portanto, punido com a escravidão;
por se oferecer como escravo em troca de alimento ou bens para a salvação de sua família ou comunidade em grande dificuldade;
por pertencer a povos inimigos ou ser considerado culturalmente inferior.

Dessa forma, o escravo, sendo uma propriedade, pode ser vendido, emprestado, alugado e até morto, segundo as necessidades do seu senhor.

A escravidão foi praticada por diversos povos durante toda a história, de modos diferentes e específicos. Em algumas civilizações, como no Egito Antigo, por exemplo, o escravo não era a base da produção, sendo o camponês livre obrigado a prestar serviços ao Estado na forma de corveia (trabalho temporário sem remuneração). Aos escravos cabia o trabalho doméstico e militar.

Ao contrário, na Roma Antiga, toda produção das grandes fazendas, todo serviço nas obras públicas (incluindo as diversões nas arenas de gladiadores) recaía sobre a massa de escravos e por isso chamamos a civilização romana de civilização escravista.

Em vários haréns, no Oriente, as concubinas do grande sultão, xeque ou xá, eram escravas e muitas delas eram negociadas ou capturadas na região do Cáucaso (entre a Rússia e o Oriente Médio).Portanto, nem sempre a escravidão foi baseada numa diferença étnica: às vezes um parente distante precisava de ajuda e se submetia a uma escravidão temporária. Ou seja, quando queremos refletir sobre a escravidão, precisamos compreender como ela se desenvolveu para aquele povo específico que estamos estudando.

A escravidão entre os povos africanos
A escravidão existiu na Ásia, na Europa, nas Américas e na África. Muitos dos povos africanos utilizavam escravos para os mais diversos fins, e como cada povo africano tem sua própria organização política, econômica e social, a escravidão na África se desenvolveu de muitas formas.
De uma maneira geral, partindo da história de grande parte desses povos, podemos dizer que existia na África uma escravidão doméstica, e não uma escravidão mercantil, ou seja, entre vários povos africanos, o escravo não era uma mercadoria, mas sim um braço a mais na colheita, na pecuária, na mineração e na caça; um guerreiro a mais nas campanhas militares.

Esses povos africanos preferiam as mulheres como escravas, já que eram elas as responsáveis pela agricultura e poderiam gerar novos membros para a comunidade. E muitas das crianças nascidas de mães escravas eram consideradas livres pela comunidade. A grande maioria dos povos africanos eram matrilineares, ou seja, se organizavam a partir da ascendência materna, partindo da mãe a transmissão de nome e privilégios. Dessa forma, uma mãe escrava poderia se tornar líder política em sua sociedade, por ter gerado o herdeiro à chefia local.

Além disso, um escravo que fosse fiel ao seu senhor poderia ocupar um cargo de prestigio local, inclusive possuindo escravos seus. Assim, nem sempre ser escravo era uma condição de humilhação e desrespeito. Mesmo representando uma submissão, tratava-se de umasituação que muitas vezes era a mesma que a de outras pessoas livres.

Os árabes e o tráfico de escravos africanos
Ao lado da escravidão doméstica também existia o comércio de escravos. Algumas sociedades africanas viviam da guerra para a captura de pessoas para serem vendidas a outros povos que necessitavam de escravos. Como na África existiam várias etnias, vários grupos políticos diferentes (os africanos não eram um único povo), as guerras entre eles eram muito frequentes, e uma consequência disso era escravização dos vencidos, que podiam ser vendidos, segundo a necessidade do vencedor.

O comércio de pessoas se intensificou no século VII, quando os árabes conquistaram o Magreb e o leste africano. Os árabes eram grandes mercadores de escravos, e conseguiam suas mercadorias humanas em diversas regiões: Espanha, Rússia, Oriente Médio, Índia e África. Os escravos comprados nessas regiões eram vendidos principalmente na península Arábica, mas também podiam ser vendidos em regiões mais distantes, como na China.

Com o aumento da demanda por escravos nos portos africanos controlados pelos árabes, aumentou também o número de povos africanos que passaram a viver (e sobreviver) da captura de inimigos ou de grupos mais fracos, para vendê-los. Acredita-se que entre os séculos VII e XIX, em torno de 5 milhões de africanos tenham sido comprados na África pelos árabes.

Nesse processo, muitas tribos, cidades, reinos africanos se fortaleceram, pois controlavam as rotas de comércio de escravos. E quanto mais fortes e ricos se tornavam, mais tinham condições de oferecer mais mão de obra escrava para os árabes. Foi o caso do Reino de Mali, Reino de Gana, as cidades iorubas, o Reino do Congo e as cidades suaílis, e várias outras.

Os portugueses e o tráfico de escravos africanos
Apesar de o comércio de escravos já ser praticado na África, foi com a chegada dos portugueses nesse continente que o tráfico escravista se configurou na maior migração forçada de povos da história. Os pesquisadores apresentam números diferentes, que vão de 8 milhões até 100 milhões de pessoas obrigadas a deixar a sua terra natal, atravessar o oceano Atlântico para ser escravo em regiões distantes.

Quando os portugueses chegaram a Ceuta, no início do século XV, iniciaram a captura e escravização dos africanos das redondezas, com a justificativa de que eram prisioneiros de guerra e muçulmanos, considerados inimigos da fé católica europeia.

A partir de então, em pleno processo de Expansão Marítima, os portugueses avançaram em direção ao sul, na costa atlântica da África, em busca de riquezas para serem comercializadas e foram descobrindo o comércio de escravos. Num primeiro momento, o comércio de gente não interessou aos navegadores portugueses, já que a Europa não tinha necessidade de mão de obra escrava.

Quanto mais os portugueses avançavam na costa africana, mais sentiam a necessidade de se estabelecer em alguns pontos de comércio, para consolidar sua exclusividade na região. Em 1455 os portugueses construíram sua primeira feitoria na África: o forte de Arguim (na região da Senegâmbia, atualmente Mauritânia). Para manter essa feitoria, os portugueses passaram a utilizar escravos africanos e a comercializá-los.

Muitos portugueses tentavam capturar os africanos, mas em pouco tempo perceberam que era mais lucrativo entrar nas redes de comércio de escravos já existentes, e por isso começaram a buscar essa mercadoria junto aos povos do litoral. Um dos primeiros povos aliados dos portugueses no tráfico de escravos foram os jalofos, na Senegâmbia. Em troca de escravos, os jalofos conseguiam cavalos dos portugueses (um cavalo era trocado por 15 ou 20 escravos) e armas de fogo, o que aumentava o seu poder de guerra e de conquista de mais escravos.

Com o início da colonização das ilhas de Cabo Verde, São Tomé e Príncipe (na segunda metade do século XV), a necessidade de mão de obra aumentou, e a compra de escravos foi a solução encontrada pela Coroa portuguesa. Por essa mesma época, os portugueses chegaram à Costa da Guiné (atualmente desde a Guiné até a Nigéria), onde encontraram povos ricos que já negociavam com os árabes e puderam comercializar ouro, especiarias e escravos. Tamanha era a riqueza da região que os portugueses passaram a chamá-la de Costa do Ouro, Costa da Mina e Costa dos Escravos.

Em 1482, o navegador português Diogo Cão chegou até ao Reino do Congo e conseguiu fazer alianças com o manicongo ("senhor do Congo") Nzinga Kuvu. Nessas alianças existiam interesses mútuos: os portugueses queriam ter maior acesso às redes de comércio da África, e o manicongo pretendia obter as técnicas de guerra e de navegação dos portugueses. Inclusive o manicongo se converteu à religião católica, passando a se chamar dom João.
Por quatro séculos, a maior fonte de escravos do tráfico atlântico português se deu a partir do Reino do Congo e do reino vizinho, Andongo, chamado pelos portugueses de Angola. Isso ocorreu principalmente quando os portugueses conseguiram o direito de negociar mão de obra para exploração espanhola da América (o direito de Asiento) e passaram a precisar de mão de obra para desenvolver sua própria colônia americana: o Brasil.

Bibliografia
ALENCASTRO, Luiz Felipe. O trato dos viventes: formação do Brasil no Atlântico Sul. São Paulo: Cia das Letras, 2000.
GIORDANI, Mário Curtis. História da África anterior aos descobrimentos. Rio de Janeiro: Vozes, 1985.
FLORENTINO, Manolo. A diáspora africana. Revista História Viva. Duetto. nº 66.
MATTOS, Regiane Augusto. História e cultura afro-brasileira. São Paulo: Contexto, 2007.
MUNANGA, Kabengele. Origens africanas do Brasil contemporâneo. São Paulo: Global, 2009.
RISÉRIO, Antonio. Escravos de escravos. Revista Nossa História. Biblioteca Nacional. nº 4.
SILVA, Alberto da Costa. A África explicada aos meus filhos. Rio de Janeiro: Agir, 2008.
SILVA, Daniel B. Domingues. Parceiros no tráfico. Revista História Viva. Duetto. nº 66.
SOUZA, Marina de Mello. África e Brasil africano. São Paulo: Ática, 2005.
VISSIÈRE, Laurente. O lucrativo tráfico de escravos brancos. Revista História Viva. Duetto. nº 80.
*Érica Turci é historiadora e professora de história formada pela USP.

http://educacao.uol.com.br

sábado, 4 de dezembro de 2010

Máscaras africanas 3

Mbunda máscara SACHIHONGO makisi para a dança, 34 centímetros
Assim como outros grupos da região Lunda Chokwe-contato com o Mbunda na máscara formas Makisi Zâmbia na cerimônia de circuncisão. Há 18 trajes e 22 máscaras diferentes, mas apenas um feito de madeira, SACHIHONGO, ele fornece o caçador com arco e flecha Dar. Normalmente, as bochechas infladas, linhas da testa e cores. Antigo peça com os restos da cortina. A peça veio anos atrás por Peter Loebarth, Hameln
coma MAU máscara hiena sou, 27cm
O MAU viver no norte do Dan no Senegal. Eles têm sua tradição herdada do Mande-coma-colar para todos os homens circuncidados. (Komo-Bund na Bamana) coma usa dois tipos de máscaras que ocorrem quando a feitiçaria ameaça a vila. Eles são semelhantes às máscaras Dan. Esta é uma máscara de hiena com um rosto humano. Seus cães são sacrificados.
Prov. Kegel Lore, Konietzko, Magin
Ref: Enciclopédia Schaedler, p. 275, 41.Auktion Zemanek
CUBA máscara mboom, 34 centímetros
Existem três tipos de máscara de dança quadra no Bushoong CUBA, o governador de ... moshambwoy Klan Cuba, mboom e amwaash ngady que woot woot representam e esposa do TWA. O mais conhecido é o bwoom ou mboommáscara, repleta de conchas e búzios cobre e decorados com miçangas, na maioria dos casos. O crânio da máscara é feita de pele de gato selvagem.
Este clássico de idade é igual a máscaras impressionante no Real belga Tervuren Museu e outros museus como a última imagem é agora visível.
Em muito bom estado e muitos antigos sinais de desgaste, do bom e velho patina dentro. Este clássico velha forma, o "Cego" é dançada (não há fendas dos olhos) vem da ex- Coll. Peter Loebarth, Hameln.
Idoma okua máscara, 25cm
Raros máscara clássica da Nigéria. O "okua", disse máscaras foram encontrados na Idoma sul. Eles eram usados pelos bailarinos durante as cerimónias fúnebres têm cicatrizes típicas levantadas e uma boca aberta. 17 anos atrás, essa máscara veio de Bruxelas, conhecida a uma coleção privada alemã. A qualidade superior. Original cegos radicais, a base original.
Chamba máscara espírito arbusto, 70cm
História da arte é o grande resumo máscaras de animais concebidos com bocas enormes e cabeçotes hemisféricos de Chamba, no dia 17 Século em Mumuyeárea imigraram, ou o preto (fêmea) pode ser pintada macho) (red. Com um novo chefe de circuncisão, ou funeral em que nasceram. Ehem. Coll. Dr. Grelck. Bem-ended. Origem: Nigéria - Chamba
BAULE máscara lua goli, 27cm
O Baule da Costa do Marfim para conhecer um grupo de diferentes tipos de máscaras, que são chamados Goli. O goli aparecem em momentos de perigo. Com a ajuda de uma conexão com os poderes sobrenaturais que é feito, o que pode ter uma influência positiva ou negativa em cada indivíduo.
Essa máscara é uma máscara de lua muito raro. Restos patina preto, levantou tatuagens, de madeira clara.
Da coleção ex-Stuttgart.
DAN máscara bico gagon, 24cm
Bico do DAN, Costa do Marfim, de tingidos de madeira preta com peles de animais ao redor do bico, patina brilhante.
Talvez este tipo de máscara foi os vizinhos, os MAU afetados.
O jogo foi há 29 anos em novembro de 1980 na Ketterer de 3200, - DM ganhou, além de um subsídio e as despesas e vem de uma famosa colecção privada, CA.
Bom cópias do leilão estão incluídos na peça. Socketed.
máscara de dança BETE, 27cm
Os adoradores vivem em uma pequena parte do Sudeste Cote d'Ivoire. Raramente são máscaras com um par de presas, os elementos de estilo de Dan, Wobe ou restritivas (Nós) aderir. A maioria de máscaras para os grupos Ocidental são comuns.
Top pedaço de Berlim coleção particular. Bem-ended. Estas máscaras são do 1940-1950.
Chokwe phewo máscara, 23cm
Expressiva máscara Phewo do Chókwè, Dem.Rep.Kongo da colecção privada ex-Berlim. Raffiageflecht original e de cortina de pano vermelho. Bem-ended. Nesta máscara do Chókwè da região do Congo já se pode ver a influência de seus vizinhos Pende.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Corrida às terras férteis


Convencidos de obter grandes lucros, muitos bancos, fundos de investimento, grandes grupos industriais, Estados e milionários privados planejam instalar, na África, fazendas-empresa gigantes, a fim de produzir alimentos e biocombustíveis exclusivamente para exportação

por Joan Baxter

Entre 18 e 19 de novembro de 2009, o Centro de Conferências Elizabeth II, em Londres, acolheu investidores britânicos em Serra Leoa. No fórum, o ex-primeiro-ministro Tony Blair, cuja fundação para a África patrocinou o evento, incitava os participantes a adquirirem propriedades rurais num país que, em suas palavras, “dispõe de milhões de hectares de terras aráveis1.” Levado pelo seu entusiasmo, Blair parece ter se esquecido dos milhões de serra-leoneses que dependem das culturas que produzem nestas áreas.

Convencidos de obter grandes lucros, muitos bancos, fundos de investimento, grandes grupos industriais, Estados e milionários privados planejam instalar, na África, fazendas-empresa gigantes, a fim de produzir alimentos e biocombustíveis exclusivamente para exportação. Essas operações de venda de lotes e arrendamento em longo prazo são prontamente rotuladas como programas de desenvolvimento para o benefício mútuo, tanto dos poderes financeiros envolvidos quanto dos países africanos.

Entre os defensores desta abordagem estão a Sociedade Financeira Internacional (IFC), do Banco Mundial2, e o Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA), agência especializada das Nações Unidas. Apesar da relutância inicial de seu diretor-geral, Jacques Diouf, que a descreveu como “uma forma de neocolonialismo”, a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) acabou apoiando a proposta.

Numerosos são os exemplos dessa liquidação de terras que está acontecendo na África. A China teria obtido, na República Democrática do Congo (RDC), uma concessão de 2,8 milhões de hectares para implantar o maior palmeiral do mundo3. Philippe Heilberg, CEO do fundo de investimentos nova-iorquino Jarch Capital e ex-representante da gigante de seguros American International Group (AIG), alugou, do senhor da guerra Paulino Matip4, de 400 mil a 1 milhão de hectares no sul do Sudão. Recentemente, o Congo ofereceu a industriais do setor agroalimentício da África do Sul dez milhões de hectares da preciosa floresta tropical – área já declarada como ameaçada.

“Banco de terras”

Em novembro passado, sob a liderança do empresário saudita, de origem etíope, Mohamed Ali Al-Amoudy, cinquenta das maiores empresas a Arábia Saudita organizaram um fórum na Etiópia, com vistas a implantar fazendas exclusivamente para a exportação5. Enquanto isso, o indiano Sai Ramakrishna Karuturi, competindo com a gigante do agronegócio Cargill, alega que ter o maior “banco de terras” da África negra, principalmente com base na Etiópia6. Enquanto esse país, atingido pela seca, apela para a ajuda alimentar, o seu governo, que já cedeu 600 mil ha, se prepara para colocar mais 3 milhões ha no mercado7.

Muitos líderes africanos parecem seduzidos pela ideia de que a exportação de produtos alimentícios é a solução para a escassez e desemprego endêmicos. Eles são apoiados principalmente pela IFC. Buscando criar um “clima favorável aos negócios”, essa sociedade instalou agências de promoção de investimentos nos países envolvidos, que têm como missão ajudar os empresários a enfrentar obstáculos à liberdade comercial – representados por impostos e leis locais (direitos trabalhistas, direitos humanos, proteção do meio ambiente) e até mesmo pela soberania nacional.

O argumento mais frequente é a subutilização das terras. Ignora-se, contudo, que as áreas em repouso ou improdutivas permitem a regeneração de solos e rios. Além disso, as populações locais retiram dessas áreas florestais “não utilizadas” inúmeros recursos como alimentos, fibras, especiarias, oleaginosas, condimentos e plantas medicinais.

O Instituto de Pesquisa em Políticas Alimentares (IFPRI), em Washington, estima que, nos últimos dois anos, 20 milhões de hectares de terra, foram vendidos ou arrendados por períodos que variam de 30 a cem anos, em pelo menos 30 países, sobretudo na África8. A ONG Grain, que tenta identificar essas operações, disse que elas são pouco transparentes, e muitas vezes tão rápidas, que é difícil precisar os números9.

Alguns contratos, celebrados em alto nível, são obtidos discretamente, por trás de portas fechadas, muitas vezes com a cumplicidade dos chefes costumeiros. Apesar de considerados guardiões da terra, esses líderes locais se deixam convencer em troca de empregos de baixa remuneração na plantação dos investidores.

Preocupados com a falta de terra cultivável e querendo garantir sua segurança alimentar, os ricos Estados do Golfo Pérsico e vários países asiáticos estão entre os primeiros nesse “mercado”. Já para os operadores financeiros e os grandes grupos industriais, o objetivo é produzir biocombustíveis a partir de alimentos (cana-de-açúcar, óleo de palma, mandioca, milho) ou pinhão manso, uma planta considerada por alguns como o “ouro verde”, pois produz óleo com propriedades próximas ao diesel. Tudo isso em países africanos em luta constante por sua própria segurança alimentar, devido ao esgotamento dos recursos hídricos e as alterações climáticas, pelas quais eles não são nem um pouco responsáveis.

Crise de alimentos

A exploração intensiva das terras poderia também afetar o equilíbrio natural. Os pequenos produtores, que plantam a maior parte dos alimentos essenciais do continente por meio da agricultura de subsistência, participam na preservação da biodiversidade10 com colheitas repletas de variados vegetais. Porém, eles estão cada vez mais ameaçados pelos gigantes do agronegócio e sua monocultura (ver box).

A crise global de alimentos acelerou a corrida por terras na África. No entanto, os 1 bilhão de desnutridos do mundo não são vítimas da penúria, e sim da falta de acesso aos alimentos, cujos preços continuaram a subir em 2008. Esse aumento, fora de qualquer proporção é, em parte, devido aos ventos da especulação decorrente da decisão dos países europeus e dos Estados Unidos de se voltarem para os biocombustíveis. É irônico notar que os americanos, apesar de estimulares a luta contra as mudanças climáticas, são em parte responsáveis pela anexação de terras agrícolas. A crise econômica, também, tem desempenhado um papel neste movimento: depois da quebra, em setembro de 2008, a comunidade financeira começou a procurar novos investimentos, seguros e muito rentáveis. A seu ver, “a terra é um investimento tão seguro ou ainda mais seguro do que o ouro11.”

O relator especial sobre o Direito à Alimentação da ONU, Olivier De Schutter, lamentou que os líderes africanos assinem acordos sobre a questão sem consultar os respectivos parlamentos. Além disso, eles são colocados uns com os outros, como concorrentes, em vez de trabalhar em conjunto para impor condições aos investidores estrangeiros tais como desenvolvimento da infraestrutura ou a reserva de pelo menos metade da colheita para os mercados locais.“Quando a comida é escassa, os investidores procuram um Estado fraco que não imponha suas regras”, comentou, cinicamente, Philippe Heiberg, presidente do banco nova-iorquino Jarch Capital12.

Mesmo assim, várias organizações africanas tentam fazer com que suas vozes sejam ouvidas. Este é o caso da Copagen, uma coligação pan-africana que reúne cientistas e agricultores e trabalha para defender a soberania sobre as sementes e alimentos. Em 17 de outubro de 2009, 27 associações que a integram assinaram uma carta pedindo aos líderes do continente que retirassem seu apoio à agricultura industrial. Até agora não receberam qualquer resposta.

Financiamentos internacionais

É verdade que muitas das operações de monopolização das terras agrícolas ainda estão em fase de projeto. Mas, a não ser por acidente, um “projeto” é feito para ser concluído. Por outro lado, a compra massiva dessas terras, com a única finalidade de especulação financeira, traz consigo as raízes de conflito, desastre ambiental, o caos político e a fome, em um grau nunca antes conhecido. No âmbito da reunião mundial da cúpula sobre segurança alimentar, em Roma, em novembro passado, a FAO disse que estava trabalhando com a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), o FIDA e o Banco Mundial, num “código de boa conduta” para os empresários estrangeiros. Regulamentos internacionais também poderiam incentivar os investimentos agrícolas “responsáveis”. Esses compromissos, contudo, são muito fracos.

As soluções existem. A concessão de microcréditos, a construção de estradas para facilitar a venda de produtos agrícolas nos mercados locais, o acesso à formação para permitir que os agricultores melhorem suas técnicas de cultivo, já orientadas para a biodiversidade, suas colheitas e o armazenamento e a redução das importações, que desvalorizam seu trabalho, seriam um investimento muito mais construtivo no capital humano e na agricultura da África.
Joan Baxter é jornalista e escritora, autora de Poeira de nossos olhos - Um olhar sem piscar da África, Wolsak e Wynn Publishers Ltd., Hamilton (Ontário, Canadá), 2008.


1 Serra Leoa aberta para negócios, Awoko, Freetown, Serra Leoa. 23 de novembro, 2009.
2 Segundo o relatório da IFC, publicado em julho de 2009, um recorde $ 2 bilhões de dólares foram investidos, em 2009, na indústria de agroalimentos, ou, 42% a mais que no ano passado.
3 Olivier De Schutter, relator especial da ONU pelo Direito à Alimentação, publicou, em 11 de junho, 2009, uma chamado para a inclusão de um conjunto de princípios relacionados aos direitos humanos como base mínima nos contratos.
4 Daniel Shepard e Anuradha Mittal, “A Grande toma de terras: corrida para as terras cultiváveis do mundo ameaça a segurança alimentar dos pobres”, Oakland Institute, Oakland, Califórnia, 2009.
5 Wudineh Zenebe, Al-Amoudi esforços para iniciar os agroinvestimentos sauditas, Addis Fortune, Addis Abeba, 29 de novembro, 2009.
6 Asha Rai, O jardineiro constante, The Times of Índia, Bombaim, 26 de setembro, 2009.
7 A Etiópia está entregando 2,7 milhões de hectares, Daily Nation, Addis Abeba, 15 de setembro, 2009.
8 Joachim Von Braun e Ruth Suseela Meinzen-Dick, Aquisição de terras por investidores estrangeiros nos países em desenvolvimento: riscos e oportunidades, IFPRI, Policy Brief 13, International Food Policy Research Institute, Washington, abril, 2009.
9 “Precisamos acabar com o acaparamento mundial de terras!” Declaração de Grain, na Reunião de Cúpula Mundial da Alimentação, em Roma, 16 de novembro, 2009.
10 Miguel A. Altieri, Agroecologia, pequenas propriedades e soberania alimentar, The Monthly Review, Nova Iorque, julho-agosto, 2009.
11 Chris Mayer, Esse ativo é como o ouro, só que melhor, DailyWealth, Vancouver, 4 de outubro, 2009.
12 Knaup, Horand e Von Mittselstaed, Os investidores estrangeiros arrebatam terras cultiváveis africanas, Der Spiegel, Hamburgo, 31 de julho, 2009.

Le Monde Diplomatique Brasil

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Rumo a uma descolonização da história do Mediterrâneo


Rumo a uma descolonização da história do Mediterrâneo

Da África para a Grécia

AutorVincent Azoulay

Para o historiador da Grécia clássica, a obra de Yvon Thébert pode parecer à primeira vista marginal, uma vez que lida diretamente com assuntos grega em um único artigo[1]

[1] Y. Thébert (1980: 96-115). ...
resultado
. No entanto, apesar de isolado, implanta um fecundo caminho de pensamento, que deve ser melhor conhecida entre os gregos.Publicado na revista Diógenes , em 1980, este trabalho simboliza um efeito de reflexo negando as categorias e divisões herdadas do passado recente ou distante, para proporcionar uma visão renovada de um tema polêmico: as relações entre gregos e bárbaros no período clássico.

2

Como outros antes dele, Yvon Thébert se recusa a aprovar o projeto, seguindo os gregos antigos, uma luta repetida eternamente entre civilização e barbárie Oriente grego, mas ele não tem a intenção de endossar uma abordagem mais oposto, agora representada pelo grupo giram em torno de Martin Bernal[2]
[2] M. Bernal (1996). ...
Na sequência
que pretende proclamar a suposta superioridade da civilização "afro-asiática" no mundo grego que não seriam, em última instância, o otário passado. Na verdade, a perspectiva "culturalista" são tão racistas como os outros e tendem a congelar os gregos, asiáticos ou africanos em identidades imutáveis e, em seguida, fantasiou que belo jogo de blocos opostos.

3

Em uma ruptura com a historiografia tradicional, Yvon Thébert oferece um helenismo sócio-político, que se recusa a considerar a gregos nem atenienses como uma massa monolítica. Para este fim, Yvon Thébert de uma dupla hipótese: em primeiro lugar, o discurso dos gregos sobre os bárbaros "é de nenhuma maneira uma abordagem científica para o mundo exterior", mas antes revela uma ideologia para uso interno ; o discurso sobre o Outro é parte do jogo político que tem lugar dentro do polis grega, e refletem, principalmente, a "ideologia dos grupos dominantes destas cidades, incluindo Atenas, obviamente, ocupa um lugar importante[3]
[3 ] Y. Thébert (1980: p. 97). ...
continuou
. " viés Segundo: esta imagem não é de forma estática, mas evolui com o tempo, de acordo com uma dinâmica ligada aos interesses mudança dessas elites.

4

Naturalmente, estas hipóteses de investigação merecem ser criticados. Assim, o artigo que às vezes mostram um funcionalismo que pode deixar cético, de acordo com Yvon Thébert, as representações não têm autonomia limpa eles seriam varridos como palha simples ao mais leve mudança na situação política. No entanto, essas imagens, como imaginário como elas são, contudo, reais efeitos políticos, que muitas vezes persistem para além da evolução geopolítica, já que não servem a funções políticas óbvias.

5

No entanto, o artigo contém uma exposição de inegável poder, sugerindo um esquema evolutivo atraente, o que distingue quatro períodos e muitos projetos diferentes dos persas.

6

• A primeira fase é marcada pela interpenetração dos mundos grego e persa. No final da viª século e nas guerras mediana, começou um sistema de fluido de oposição, que é persa parceiros integrados no jogo político grego. Como observado Yvon Thébert durante as guerras mediana, é aliado ou oposição aos persas que eram aliados ou contra as cidades gregas.

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O que é surpreendente é que Yvon Thébert surge aqui como um precursor das atuais pesquisas sobre a aristocracia grega arcaica. Não só as cidades gregas não têm uma imagem fixa da Pérsia, mas estas distinções são jogados dentro das cidades, e até mesmo dentro da aristocracia de cada cidade. De fato, a aristocracia arcaica não apresentar uma frente unida contra os persas. Relatórios no Exterior, na realidade, expressando as tensões e lutas ideológicas dentro dela: ao lado de uma tendência aristocrática disposta a cumprir com o dominante valores cívicos agora, implanta uma elite tradicional, ansioso para reafirmar sua superioridade, demonstrando a sua riqueza e privilegiado as relações com os deuses e heróis, assim como o Oriente eo luxo[4]
[4] Ver, por exemplo I.Morris...
resultado
.Links com os persas, portanto, sujeitas a um confronto dentro da aristocracia das cidades, revelando um fluido do sistema de oposição, que a definição do Stranger é realmente sobre os critérios de diferenciação interna.

8

• Após as guerras mediana, abre-se uma segunda fase que inicia um novo quadro radicalmente do bárbaro. Os atenienses a empreender uma reconstrução sistemática do passado, levando a uma política ruptura radical entre a Europa e Ásia[5]
[5] Esta abordagem foi retomada e desenvolvida sem referência ...
resultado
. Ésquilo e Heródoto, em particular, se opõem ao mundo das cidades, onde a comunidade pode prosperar, graças à liberdade, à capacidade humana, e no Oriente dominado por uma monarquia teocrática, que cria uma servidão generalizada. Esta nova imagem está diretamente ligada à afirmação da democracia dentro da cidade: Atenas usa a representação do bárbaro para desenhar uma fronteira ideológica lugar no coração do mundo grego autêntico, o mundo da cidade que são excluídos e tiranos reis espartanos, rejeitou o lado do despotismo oriental.

9

No entanto, essa nova imagem não é duas vezes ainda não desprezo. É simplesmente um mundo da Ásia cortar drasticamente o original da Grécia. Melhor ainda, muitos autores contribuem para o continente asiático, naturalmente destinados ao despotismo.

10

Assim, foi construída no plano ideológico, uma imagem de entrada dupla: primeiro, o "Bárbaro" é um razoável, presa àarrogânciacontra a qual oferece uma muralha de Atenas, mas por outro lado, ele prontamente admitem posse na Ásia, especificamente reconhecido como não-europeus. Thébert de Yvon, esta imagem se encaixa perfeitamente com a política externa de Atenas, já que a cidade democrática, não de modo a tentar conquistar o Império Persa, mas apenas para manter e consolidar sua hegemonia sobre as cidades gregas, localizada na periferia da Egeu.

11

Se a reconstrução transporta até à adesão, mas que merece algumas nuances. De fato, pesquisas recentes destacaram a persistência, em Atenas, outra imagem do bárbaro como nos círculos aristocráticos de democrático. Os arqueólogos demonstraram que, mesmo após as guerras mediana, os objetos da Pérsia - como o guarda-chuva ou o pavão - continuar a ser valorizado pela elite das cidades gregas, que afirma que através do seu status distintivo[6]
[ 6] Miller MC (1997: 135-258). ...
resultado
. Mais preocupante ainda, "perseries" - como o "turqueries" doXVIIIth century - conhecidas formas de democratização, em seguida, na segunda metade do Vº século, e isto em flagrante contradição com a retórica oficial violentamente anti- persa[7]
[7] MC Miller (1997: 251-256). ...
resultado
. O Odeon foi construído no tempo de Péricles e desenha livremente a partir da arquitetura real da Apadana em Persépolis: Esse mimetismo é certamente um estranho dizer que o novo poder imperial de Atenas sobre as cidades da Liga de Delos , usando o vocabulário visual arquitetônico específico para o "inimigo"[8]
[8] MC Miller (1997: 218-242). ...
resultado
. Na prática, a diferença entre a Grécia ea Ásia está longe de terminar.

12

• Após a Guerra do Peloponeso, abre-se uma terceira fase, durante o qual os persas são reintegradas no jogo político grego, no contexto do que é chamado de "Panhellenic Conferência. Na verdade, se trata de uma situação mais tradicional em que os persas são considerados parceiros no jogo político e sistematicamente integrados em alianças que são feitas e desvendar - como o que aconteceu no período arcaico . Melhor ainda, este é Panhellenic Congresso dos persas parceiros preferenciais devido ao seu poder económico e militar: o corte construído em vº século depois desaparece com o colapso do império ateniense, o estabelecimento da hegemonia espartana, a cidade de Esparta nunca ter os mesmos interesses que Atenas, na Ásia Menor ...

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Entretanto, paralelamente a este políticos panhellenism desenvolve durante o primeiro semestre de ivº século, um alto-falantes Panhellenic que caracteriza a agressividade contra os persas. Associado com particular nomes Górgias e Lysias, Xenofonte e, especialmente, de Isócrates, a corrente crítica bárbaros tão virulento, em total contradição com a prática política da época. O "Bárbaro" é uma formidável ser que reconheçamos a especificidade: Pérsia agora é concebida como inferior e indigno de possuir a terra em que reina.

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Novamente, esse padrão geralmente requer algum nuance. Se você não pode negar que a imagem das mudanças Pérsia durante IVº século, os alto-falantes Panhellenic não deve esconder as profundas contradições que habitam esse fluxo: de acordo com momentos e contextos políticos retóricos, as representações dos persas pode variam em tudo e tudo isso, inclusive em um único autor[9]
[9] Refiro-me a V.Azoulay...
resultado
.

15

• De acordo com Yvon Thébert esta vingança panhellenism em primeiro lugar, sem influência, mas, na minha opinião este é o mais questionável de seu trabalho, ele encontrou uma concreta gradualmente durante um quarto ea fase final, culminando conquistaria a Ásia por Alexandre. Esta perturbação é explicada pela profunda crise e os riscos de revoluções sociais que iria passar por Grécia, durante o segundo semestre doIVº século. Esse impasse socioeconômico e levar a uma precipitada militar para exportar tanto quanto possível, no Oriente, as contradições internas nas cidades.

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Isso, eu acho que ele, caindo o mito da "crise do IVº século "que os historiadores estão agora de volta - não era esse o caso quando se escreve Yvon Thébert. Essa transformação da imagem do bárbaro também não é o fato de as classes dominantes aristocratas atenienses, mas sim mais ou menos desfiliado (acho que Isócrates ou Xenofonte), cujo pensamento é, quase por acaso, cumprir projetos da monarquia macedónia[10]
[10] V. Azoulay (2004: 445-447). ...
resultado
. Isso explica a conquista definitiva da Ásia, não a nova imagem do bárbaro ateniense desenvolvida por alguns intelectuais, nem a suposta crise na cidadeIVº século, mas sim o regime político-militar macedônio: na medida em que o Exército é a única estrutura unitária sobre a qual construir a monarquia macedónia, que condiciona em grande parte a política de conquista lançado por Filipe II e concluído por Alexandre.

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Essas críticas são, obviamente, poucos significativos em termos de ruptura introduzida pela obra historiográfica de Yvon Thébert. Com estes pensamentos, torna-se possível abandonar a idéia, ainda a maioria, que a visão grega dos bárbaros é limitada a uma combinação de fascínio de um mundo de mistério e medo de um perigo constante.

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Não se pode lamentar o baixo impacto de suas idéias no meio dos gregos - pelo menos na França, porque este artigo já foi traduzido para várias línguas, incluindo árabe e Português. Para meu conhecimento, apenas Hartog cotação de passagem em suas reflexões sobre a fronteira na Grécia antiga[11]
[11] F. Hartog (1996: 238 n. 11). ...
resultado
. É uma anedota particularmente revelador da ignorância que este trabalho, apesar de fundador, foi o assunto: após a publicação no "Le Monde" em uma entrevista que define o conteúdo do artigoDiógenes[12]
[12] Y. Thébert (1981)....
Na sequência
- Pierre Vidal-Naquet tinha acusado de plagiar idéias Yvon Thébert Nicole Loraux, cujo livro sobre oInvenção de Atenas acabara de ser publicado[13]
[13] N. Loraux. ...
resultado
. Depois de receber o item Diógenes devidamente assinado, P. Vidal-Naquet, obviamente, tinha enviado uma carta de desculpas. Isto mostra, em última instância, o trabalho que ainda precisa ser feito para manter esse pensamento vivo - o que este artigo tem como objetivo, espero eu, em seu caminho.
revue afrique et histoire