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quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Pós-muro


Em 1989, na Europa do leste, as pessoas queriam solidariedade e liberdade para viver suas vidas fora do controle estatal.

por Slavoj Zizek
(Mais de) Vinte anos depois da queda do Muro de Berlim, é comum ouvir que os acontecimentos daquela época foram milagrosos, um sonho realizado, algo que ninguém teria imaginado mesmo poucos meses antes. Eleições livres na Polônia e Lech Walesa como presidente: quem poderia prever? Mas um milagre ainda maior ocorreu poucos anos depois: as eleições livres e democráticas devolveram os ex-comunistas ao poder, Walesa foi marginalizado e tornou-se menos popular que o próprio general Jaruzelski.

Em geral, essa reversão é explicada pelas expectativas "imaturas" do povo, que simplesmente não tinha uma ideia realista do capitalismo: eles queriam se apoderar do bolo e comê-lo, queriam as liberdades democráticas e abundância material sem ter que se adaptar a uma "sociedade de risco" - por exemplo, sem perder a segurança e a estabilidade (mais ou menos) garantidas pelos regimes comunistas.

Quando a névoa sublime da Revolução de Veludo foi dispersa pela nova realidade democrática e capitalista, as pessoas reagiram de três formas: algumas tiveram saudades dos "bons e velhos tempos" do comunismo, outras abraçaram o populismo nacionalista de direita, e houve ainda as que manifestaram uma espécie de paranoia anticomunista retardada.

As duas primeiras reações são fáceis de compreender, e até se sobrepõem com relativa frequência, tal como na Rússia atual. Os mesmos direitistas que, décadas atrás, gritavam "Antes morto do que comunista" [Better dead than red] agora resmungam "Antes comunista do que comer hambúrgueres". A nostalgia pelo comunismo não deve ser levada muito a sério: longe de expressar um desejo verdadeiro de retornar à cinzenta realidade socialista, é uma espécie de luto, um jeito de se livrar delicadamente do passado. E o populismo nacionalista, longe de ser exclusivo ao Leste Europeu, é uma característica de todos os países apanhados no vórtice da globalização.

Muito mais interessante é a recente ressurreição do anticomunismo por toda parte, da Hungria à Eslovênia. Em outubro de 2006, uma onda de protestos contra o Partido Socialista no poder paralisou a Hungria por semanas. Os manifestantes culpavam os sucessores dos comunistas pela crise econômica no país. Eles negavam legitimidade ao governo que, no entanto, foi eleito democraticamente, e, quando a polícia era usada para restaurar o mínimo de ordem civil, faziam comparações com o Exército soviético que esmagou a revolução de 1956.

Em resumo, diziam que a Revolução de Veludo de 1989 precisava se repetir, já que, por trás da falsa aparência de democracia, nada mudara de verdade, pois as mesmas forças do mal davam as cartas no poder. Em dezembro de 2006, a Polônia endureceu a lei que proibia ex-colaboradores da polícia secreta comunista e pessoas ligadas ao velho regime de assumirem cargos públicos.

Outro aspecto do mesmo processo foi a reabilitação, nos países bálticos e na Eslováquia, dos colaboradores nazistas, transformados em "combatentes anticomunistas". Sua colaboração, e mesmo a participação em massacres de judeus, foi considerada necessária na luta patriótica contra o comunismo. Era um mal menor. Na Revolução de Veludo ucraniana, que levou Viktor Yushchenko ao poder, cantavam-se as mesmas músicas entoadas pelos colaboradores nacionalistas que apoiaram a ocupação alemã.

Não é de se espantar que, pressionado por certos países pós-comunistas, o Parlamento Europeu tenha aprovado uma resolução que equipara o comunismo ao nazismo. E não é de se espantar que, na Eslovênia, a direita populista reprove a esquerda por ser uma "força de continuidade" do velho regime comunista. Novos problemas e desafios são julgados com base em velhos conflitos, e a luta pelos direitos dos gays é soturnamente interpretada como parte de um complô comunista para desmoralizar a nação.

Como e por que esses fantasmas reaparecem em nações onde a maioria dos jovens nem sequer se lembra do comunismo? Os anticomunistas fazem uma pergunta simples - "Se o capitalismo é tão melhor que o socialismo, por que nossas vidas continuam miseráveis?" - e a respondem de maneira direta: é porque ainda não chegamos ao capitalismo, não temos uma verdadeira democracia. Os ex-comunistas ainda estão no poder, disfarçados de proprietários e dirigentes. Precisamos de outro expurgo, a revolução tem que se repetir. É evidente a semelhança que há entre esse discurso e o velho costume comunista de atribuir seus fracassos à perpétua influência das "forças do passado".

Essa nova geração de anticomunistas tem uma imagem da sociedade que é assustadoramente parecida com a imagem do capitalismo alimentada pelos esquerdistas: uma sociedade na qual a democracia formal é uma máscara que esconde a dominação por uma minoria rica. Em outras palavras, os anticomunistas não percebem que aquilo que eles chamam de pseudo-capitalismo pervertido é simplesmente o capitalismo.

Pode-se dizer que, após o colapso dos regimes comunistas, seus antigos partidários, desiludidos, estavam mais preparados para gerir a nova economia capitalista do que os dissidentes do populismo. Enquanto os heróis das manifestações anticomunistas continuaram a acalentar o sonho de uma nova sociedade baseada em justiça, honestidade e solidariedade, os ex-comunistas se acomodaram sem dificuldades às novas regras capitalistas. Paradoxalmente, na nova situação pós-comunista, os anticomunistas insistiram no sonho utópico de uma democracia verdadeira, ao passo que os ex-comunistas aceitaram o mundo cruel da eficiência de mercado, com toda a sua corrupção e truques sujos.

Será que o realismo capitalista é a única resposta para a utopia socialista? O que se seguiu à queda do Muro foi mesmo a era da maturidade capitalista, o abandono de todas as utopias? Será que essa época também não teve uma utopia própria? Novembro de 1989 marcou o início dos "felizes anos 90", o utópico "fim da história" de Francis Fukuyama. Ele anunciou que a democracia liberal havia vencido, que o advento de uma comunidade mundial global e liberal estava por acontecer, e que os obstáculos que se interpunham a esse final feliz eram apenas contingentes (bolsões de resistência onde os dirigentes locais ainda não enxergavam que a hora deles havia acabado).

Em contrapartida, o 11 de Setembro marcou o fim simbólico dos "felizes anos 90". Assinalou o começo de nossa era atual, em que novos muros estão se erguendo por toda parte, entre Israel e a Cisjordânia, em torno da União Europeia, na fronteira dos Estados Unidos com o México - mas também dentro dos próprios países.

Parece que a utopia dos anos 90 de Fukuyama teve que morrer duas vezes: o colapso da utopia política liberal-democrática do 11 de Setembro não afetou a utopia econômica do capitalismo de mercados globais, mas a crise financeira de 2008 certamente o fez. Nos anos 90, acreditava-se que a humanidade havia finalmente encontrado a fórmula para uma perfeita ordem socioeconômica.

A experiência das últimas décadas mostrou claramente que o mercado não é um mecanismo benigno, que funciona melhor quando deixado por sua conta. É preciso violência para criar as condições necessárias a seu funcionamento. A forma com que os fundamentalistas de mercado reagem à desordem que se sucede quando suas ideias são aplicadas é típica dos "totalitaristas" utópicos: eles culpam o fracasso em fazer concessões - ainda há muita intervenção estatal - e exigem uma aplicação ainda mais radical da doutrina de mercado.

Observamos hoje a explosão do capitalismo na China e nos perguntamos quando o país se tornará uma democracia. Mas e se isso nunca acontecer? E se o seu capitalismo autoritário não for apenas a repetição do processo de acumulação capitalista que, na Europa, vigorou do século XVI ao XVIII, mas um sinal do que está por vir? E se a "malévola combinação do chicote asiático com o mercado de ações europeu" (como Trotsky caracterizava a Rússia czarista) provar-se mais eficiente economicamente do que o capitalismo liberal? E se ficar claro que a democracia, tal como nós a entendemos, não é mais a condição e o motor do desenvolvimento econômico, mas um obstáculo?

Se for esse o caso, talvez a decepção pós-comunista não deva ser descartada como sinal de expectativas "imaturas". Nos protestos contra os regimes comunistas no Leste Europeu, as pessoas, em sua maioria, não pediam o capitalismo. Queriam solidariedade e um tipo bruto de justiça, queriam liberdade para viver suas vidas fora do controle estatal, queriam se reunir e falar do jeito que bem entendessem, queriam se libertar da doutrinação ideológica primitiva e da hipocrisia. Aspiravam a algo que podia ser melhor descrito como um "socialismo com face humana". Talvez essa opinião mereça uma segunda chance.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Pós-muro


Em 1989, na Europa do leste, as pessoas queriam solidariedade e liberdade para viver suas vidas fora do controle estatal.

por Slavoj Zizek

Vinte anos depois da queda do Muro de Berlim, é comum ouvir que os acontecimentos daquela época foram milagrosos, um sonho realizado, algo que ninguém teria imaginado mesmo poucos meses antes. Eleições livres na Polônia e Lech Walesa como presidente: quem poderia prever? Mas um milagre ainda maior ocorreu poucos anos depois: as eleições livres e democráticas devolveram os ex-comunistas ao poder, Walesa foi marginalizado e tornou-se menos popular que o próprio general Jaruzelski.

Em geral, essa reversão é explicada pelas expectativas "imaturas" do povo, que simplesmente não tinha uma ideia realista do capitalismo: eles queriam se apoderar do bolo e comê-lo, queriam as liberdades democráticas e abundância material sem ter que se adaptar a uma "sociedade de risco" - por exemplo, sem perder a segurança e a estabilidade (mais ou menos) garantidas pelos regimes comunistas.

Quando a névoa sublime da Revolução de Veludo foi dispersa pela nova realidade democrática e capitalista, as pessoas reagiram de três formas: algumas tiveram saudades dos "bons e velhos tempos" do comunismo, outras abraçaram o populismo nacionalista de direita, e houve ainda as que manifestaram uma espécie de paranoia anticomunista retardada.

As duas primeiras reações são fáceis de compreender, e até se sobrepõem com relativa frequência, tal como na Rússia atual. Os mesmos direitistas que, décadas atrás, gritavam "Antes morto do que comunista" [Better dead than red] agora resmungam "Antes comunista do que comer hambúrgueres". A nostalgia pelo comunismo não deve ser levada muito a sério: longe de expressar um desejo verdadeiro de retornar à cinzenta realidade socialista, é uma espécie de luto, um jeito de se livrar delicadamente do passado. E o populismo nacionalista, longe de ser exclusivo ao Leste Europeu, é uma característica de todos os países apanhados no vórtice da globalização.

Muito mais interessante é a recente ressurreição do anticomunismo por toda parte, da Hungria à Eslovênia. Em outubro de 2006, uma onda de protestos contra o Partido Socialista no poder paralisou a Hungria por semanas. Os manifestantes culpavam os sucessores dos comunistas pela crise econômica no país. Eles negavam legitimidade ao governo que, no entanto, foi eleito democraticamente, e, quando a polícia era usada para restaurar o mínimo de ordem civil, faziam comparações com o Exército soviético que esmagou a revolução de 1956.

Em resumo, diziam que a Revolução de Veludo de 1989 precisava se repetir, já que, por trás da falsa aparência de democracia, nada mudara de verdade, pois as mesmas forças do mal davam as cartas no poder. Em dezembro de 2006, a Polônia endureceu a lei que proibia ex-colaboradores da polícia secreta comunista e pessoas ligadas ao velho regime de assumirem cargos públicos.

Outro aspecto do mesmo processo foi a reabilitação, nos países bálticos e na Eslováquia, dos colaboradores nazistas, transformados em "combatentes anticomunistas". Sua colaboração, e mesmo a participação em massacres de judeus, foi considerada necessária na luta patriótica contra o comunismo. Era um mal menor. Na Revolução de Veludo ucraniana, que levou Viktor Yushchenko ao poder, cantavam-se as mesmas músicas entoadas pelos colaboradores nacionalistas que apoiaram a ocupação alemã.

Não é de se espantar que, pressionado por certos países pós-comunistas, o Parlamento Europeu tenha aprovado uma resolução que equipara o comunismo ao nazismo. E não é de se espantar que, na Eslovênia, a direita populista reprove a esquerda por ser uma "força de continuidade" do velho regime comunista. Novos problemas e desafios são julgados com base em velhos conflitos, e a luta pelos direitos dos gays é soturnamente interpretada como parte de um complô comunista para desmoralizar a nação.

Como e por que esses fantasmas reaparecem em nações onde a maioria dos jovens nem sequer se lembra do comunismo? Os anticomunistas fazem uma pergunta simples - "Se o capitalismo é tão melhor que o socialismo, por que nossas vidas continuam miseráveis?" - e a respondem de maneira direta: é porque ainda não chegamos ao capitalismo, não temos uma verdadeira democracia. Os ex-comunistas ainda estão no poder, disfarçados de proprietários e dirigentes. Precisamos de outro expurgo, a revolução tem que se repetir. É evidente a semelhança que há entre esse discurso e o velho costume comunista de atribuir seus fracassos à perpétua influência das "forças do passado".

Essa nova geração de anticomunistas tem uma imagem da sociedade que é assustadoramente parecida com a imagem do capitalismo alimentada pelos esquerdistas: uma sociedade na qual a democracia formal é uma máscara que esconde a dominação por uma minoria rica. Em outras palavras, os anticomunistas não percebem que aquilo que eles chamam de pseudo-capitalismo pervertido é simplesmente o capitalismo.

Pode-se dizer que, após o colapso dos regimes comunistas, seus antigos partidários, desiludidos, estavam mais preparados para gerir a nova economia capitalista do que os dissidentes do populismo. Enquanto os heróis das manifestações anticomunistas continuaram a acalentar o sonho de uma nova sociedade baseada em justiça, honestidade e solidariedade, os ex-comunistas se acomodaram sem dificuldades às novas regras capitalistas. Paradoxalmente, na nova situação pós-comunista, os anticomunistas insistiram no sonho utópico de uma democracia verdadeira, ao passo que os ex-comunistas aceitaram o mundo cruel da eficiência de mercado, com toda a sua corrupção e truques sujos.

Será que o realismo capitalista é a única resposta para a utopia socialista? O que se seguiu à queda do Muro foi mesmo a era da maturidade capitalista, o abandono de todas as utopias? Será que essa época também não teve uma utopia própria? Novembro de 1989 marcou o início dos "felizes anos 90", o utópico "fim da história" de Francis Fukuyama. Ele anunciou que a democracia liberal havia vencido, que o advento de uma comunidade mundial global e liberal estava por acontecer, e que os obstáculos que se interpunham a esse final feliz eram apenas contingentes (bolsões de resistência onde os dirigentes locais ainda não enxergavam que a hora deles havia acabado).

Em contrapartida, o 11 de Setembro marcou o fim simbólico dos "felizes anos 90". Assinalou o começo de nossa era atual, em que novos muros estão se erguendo por toda parte, entre Israel e a Cisjordânia, em torno da União Europeia, na fronteira dos Estados Unidos com o México - mas também dentro dos próprios países.

Parece que a utopia dos anos 90 de Fukuyama teve que morrer duas vezes: o colapso da utopia política liberal-democrática do 11 de Setembro não afetou a utopia econômica do capitalismo de mercados globais, mas a crise financeira de 2008 certamente o fez. Nos anos 90, acreditava-se que a humanidade havia finalmente encontrado a fórmula para uma perfeita ordem socioeconômica.

A experiência das últimas décadas mostrou claramente que o mercado não é um mecanismo benigno, que funciona melhor quando deixado por sua conta. É preciso violência para criar as condições necessárias a seu funcionamento. A forma com que os fundamentalistas de mercado reagem à desordem que se sucede quando suas ideias são aplicadas é típica dos "totalitaristas" utópicos: eles culpam o fracasso em fazer concessões - ainda há muita intervenção estatal - e exigem uma aplicação ainda mais radical da doutrina de mercado.

Observamos hoje a explosão do capitalismo na China e nos perguntamos quando o país se tornará uma democracia. Mas e se isso nunca acontecer? E se o seu capitalismo autoritário não for apenas a repetição do processo de acumulação capitalista que, na Europa, vigorou do século XVI ao XVIII, mas um sinal do que está por vir? E se a "malévola combinação do chicote asiático com o mercado de ações europeu" (como Trotsky caracterizava a Rússia czarista) provar-se mais eficiente economicamente do que o capitalismo liberal? E se ficar claro que a democracia, tal como nós a entendemos, não é mais a condição e o motor do desenvolvimento econômico, mas um obstáculo?

Se for esse o caso, talvez a decepção pós-comunista não deva ser descartada como sinal de expectativas "imaturas". Nos protestos contra os regimes comunistas no Leste Europeu, as pessoas, em sua maioria, não pediam o capitalismo. Queriam solidariedade e um tipo bruto de justiça, queriam liberdade para viver suas vidas fora do controle estatal, queriam se reunir e falar do jeito que bem entendessem, queriam se libertar da doutrinação ideológica primitiva e da hipocrisia. Aspiravam a algo que podia ser melhor descrito como um "socialismo com face humana". Talvez essa opinião mereça uma segunda chance.
Revista piauí

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Arquivos secretos revelam história alemã


Após a queda do muro de Berlim, a responsável pelos documentos do governo fala dos bastidores de tortura e medo que rondavam o país

Carina Rabelo


Defensora do lema "memórias reveladas para que não se esqueça e nunca mais aconteça", para a ex-ministra alemã Marianne Birthler, 61 anos, sociedade evoluída é aquela que conhece sua história. É no espírito de reconstrução da própria identidade que a Alemanha comemora, no dia 9, 20 anos da queda do muro de Berlim. A reunificação garantiu ao povo alemão o acesso irrestrito aos arquivos secretos da República Democrática Alemã (RDA), a antiga Alemanha Oriental. Os documentos mostram bastidores das operações da Stasi, a temida polícia secreta que espionava, prendia e torturava cidadãos. Em 1991, as violações foram reveladas em 140 quilômetros de papel, 1,3 milhões de fotos e cinco mil filmes e vídeos, 164 mil cassetes e 20 mil disquetes e fitas de áudio.
Nos anos 80, Marianne, que vivia no lado Oriental, se engajou nos grupos de oposição, foi investigada e viu muitos amigos sofrerem perseguições políticas e chantagens da polícia secreta. Considerada referência na defesa do acesso às informações, em 2000 ela assumiu a chefia do departamento dos arquivos da polícia secreta. Atualmente, ocupa cargos no Comitê Alemão do Unicef, no conselho da Transparência Internacional - coalizão global contra a corrupção - e na Grünen Akademie, rede acadêmica ligada ao Partido Verde.


Quando os arquivos da Stasi foram abertos, muitas pessoas ficaram sabendo que o parceiro, o vizinho ou um amigo era espião. Como tem sido a receptividade dos alemães a esses documentos?


MARIANNE BIRTHLER - A aceitação é grande. Não devemos esquecer que os cidadãos da antiga República Democrática Alemã (RDA) conquistaram o direito ao exame dos arquivos depois de terem ocupado entre 1989 e 1990 os escritórios do Ministério de Segurança do Estado. E, até hoje, aproximadamente 1,7 milhão de pessoas apresentaram requerimentos para exame dos documentos, além dos meios de comunicação. Reportagens sobre colaboradores extraoficiais ou os procedimentos do Ministério de Segurança do Estado mostraram às camadas mais amplas da população - também na Alemanha Ocidental - quão pérfidos foram os métodos da Stasi.


Muitas também descobriram que foram vigiadas.

MARIANNE - É óbvio que ler isso nos documentos referentes à própria pessoa também é penoso, mas é, sobretudo, uma oportunidade para recuperar o controle da própria biografia. O ministério muitas vezes interveio na vida dos cidadãos, sem que eles pudessem provar isso. Você não podia frequentar a universidade, não podia trabalhar na sua profissão, não ganhava a residência já prometida. Seus amigos de repente se afastavam, e tudo isso era manipulado pela Stasi.

Há uma equipe que trabalha na colagem dos pedaços de papel dos documentos destruídos após a queda do muro. Quantos se perderam?


MARIANNE - É muito difícil dizer quantos documentos o Ministério de Segurança do Estado conseguiu destruir. Restaram-nos documentos que equivalem a 160 km de papel, além de fitas magnéticas e fotografias. Na dissolução do ministério encontramos mais de 15 mil sacos com documentos rasgados. Esse é o material que os oficiais da Stasi queriam fazer desaparecer completamente. Já conseguimos recompor o conteúdo de 400 sacos e estamos nesse momento desenvolvendo um processo de reconstrução computadorizada. Em Leipzig, por exemplo, os colaboradores da Stasi tinham despedaçado os documentos com uma máquina gigantesca e misturado os fragmentos com água, até formar uma pasta.

Além disso, em 1990 foi destruído, com a concordância dos dirigentes políticos, quase todo o acervo do Departamento de Espionagem no Exterior da Stasi.

O filme "A Vida dos Outros" (2006) mostra como um policial protegeu um investigado por consciência. Há algum paralelo com a realidade?


MARIANNE - O enredo do filme é um conto de fadas. Não temos notícia de oficiais da Stasi que protegeram pessoas espionadas. Isso nem teria sido possível, pois os colaboradores da Stasi também eram supervisionados. Na rotina da Stasi, todas as atividades descritas no filme eram separadas e executadas por colaboradores distintos, que nada sabiam um do outro e, muitas vezes, nem conheciam a finalidade da sua tarefa.

O objetivo era impedir que uma pessoa soubesse demais ou pudesse pôr algo em movimento.


Que tipos de tortura eram praticados pela Stasi?


MARIANNE - Nos anos 50, algumas vítimas relataram que encheram o chão da sua cela com água para que elas não pudessem sentar ou dormir. Era uma forma de provocar a exaustão. Em anos posteriores recorria-se, principalmente à violência psíquica. Assim, os acusados eram pressionados sistematicamente, mediante a ameaça da imposição de penas severas, da prisão arbitrária de pessoas próximas ou da adoção forçada dos filhos. Muitas vezes, a privação do sono era obtida também por meio de interrogatórios noturnos e ininterruptos. Na maioria dos casos, a insônia já resultava das pressões advindas do isolamento na prisão e da incerteza total acerca do destino dos presos. Além disso, as lâmpadas sempre permaneciam ligadas nas celas durante a noite.

Eram muito frequentes?


MARIANNE - As torturas físicas passaram a ocorrer com frequência cada vez menor, à medida que a RDA empenhava- se em ser reconhecida no plano internacional e temia revelações sobre a forma como tratava os presos, sobretudo após a adoção da prática da libertação dos detentos e sua expulsão do país em troca de grandes quantias de dinheiro. Por isso, desde os anos 60, a violência era psíquica, sob a forma da humilhação e da tutela. Até hoje, muitos dos aproximadamente 250 mil presos políticos sofrem as consequências traumáticas das condições desumanas nas prisões.

Como ocorria a venda de pessoas do lado oriental para o ocidental?


MARIANNE - Nessas iniciativas de venda de presos a Stasi atuava em segredo. As negociações eram realizadas com a ajuda de advogados de ambos os lados. Na RDA, a cúpula do Estado influía consideravelmente. No Ocidente, essas transações eram dirigidas por órgãos governamentais. Vendiam-se, sobretudo, presos políticos. Para a RDA, esse comércio era um bom negócio: no total ela recebeu aproximadamente 1,8 bilhão de euros.

Os investigados podem obter informações sobre os torturadores e investigadores, como nome verdadeiro e endereço?


MARIANNE - Os investigados têm livre acesso às suas fichas. Isso também significa que eles podem ler nelas os nomes dos oficiais da Stasi mencionados nos documentos. Muitas vítimas procuraram entrar em contato com os autores, seus investigadores e outras pessoas. Na maioria dos casos, essas tentativas fracassaram diante da falta de disposição dos autores de se expor a tais situações.

Havia núcleos neonazistas investigados pela polícia secreta?


MARIANNE - Sim, como o caso da Divisão SS Walter Krüger, em Wolgast. Foram presos nove jovens adultos, em 1989. Grupos neonazistas na Alemanha Ocidental, como o Grupo de Esporte Defensivo Hoffmann, também eram objetos interessantes para a Stasi. Mais frequente, contudo, era a perseguição de pessoas sob o pretexto de atitudes fascistas, quando elas, na verdade, representavam apenas um estorvo para a política oficial.

A sra. chegou a ser investigada pela polícia secreta?

MARIANNE - Vivi na RDA e trabalhei, primeiro, no comércio exterior. Depois, frequentei um curso pedagógico na igreja evangélica e atuei durante muitos anos com crianças e adolescentes, uma área na qual podíamos trabalhar em relativa liberdade, embora sob fiscalização da Stasi. Em meados dos anos 80 engajei-me cada vez mais na política, na oposição. Muitos amigos, que também atuavam no movimento de base, sofriam perseguição política e eram observados. Sabíamos disso. Mas só após a queda do muro viemos a conhecer as verdadeiras dimensões da observação.

Pelos diversos casos de espionagem e traição, é de se imaginar que havia um clima de desconfiança permanente. Os resquícios desta desconfiança ainda se mantêm entre os alemães?


MARIANNE - A desconfiança é um fenômeno secundário de cada ditadura. Em quem ainda posso confiar? Eis a pergunta. Sabíamos, porém, que a Stasi queria produzir exatamente esse efeito de insegurança e tentamos nos libertar dele. A abertura dos arquivos trouxe à luz muitos casos de traição, mas eles não envenenaram a sociedade, em que pesem as suas consequências dramáticas nos casos individuais. Muito pelo contrário, existe até hoje uma discussão social importante, também muito atual depois das eleições para os parlamentos estaduais, sobre como lidar com ex-informantes e colaboradores de dedicação exclusiva. Vamos aceitar que antigos colaboradores do Ministério de Segurança do Estado ou antigos dirigentes do partido atuem na política, se tornem chefes de partidos políticos e mesmos secretários de Estado? Será que eles podem trabalhar em altos cargos no serviço policial? Essa discussão somente é possível porque os arquivos estão abertos e porque existe o direito à fiscalização. A verdade nos ajuda a reduzir a desconfiança. Mas nem sempre é fácil e confortável conviver com ela.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Muro de Berlim


Publicado em 28 de março de 2010

Vinte anos depois da queda do Muro, os debates sociais na Alemanha indicam uma tendência surpreendente: a crítica ao capitalismo foi redescoberta

Sérgio Costa Fotos: Rogerio Ferrari

Mesmo muito antes da Revolução Francesa, as primeiras reflexões sistemáticas sobre o funcionamento das sociedades já haviam mostrado que a boa vida em comum requer a combinação, em proporções adequadas, de três ingredientes básicos: igualdade, liberdade e solidariedade. Pouca gente duvida, hoje, da imprescindibilidade desses três ingredientes. Apesar disso, as duras disputas em torno da definição do que significa cada um desses termos e, sobretudo, em que proporção cada um deles deve ser incorporado à vida comum marcam a história e a política desde muitos séculos.

Com a divisão da Alemanha no pós-guerra, formas radicalmente distintas de resolver a equação entre igualdade, liberdade e fraternidade passaram a conviver numa proximidade geográfica desconcertante. O Muro de Berlim materializava, precisamente, as tensões que essa proximidade comportava. Agora, 20 anos depois de seu desaparecimento, ocorrido em 9 de novembro de 1989, cabe indagar o que aconteceu com as interpretações antes opostas. Em que medida a adesão à democracia liberal mudou ou mesmo silenciou a crítica ao capitalismo? O que aconteceu desde então?

As duas Alemanhas

A República Democrática Alemã (RDA), ou Alemanha Oriental, em seus 51 anos de existência (1949-1990), apostou numa concepção substantiva de igualdade que implicava condições materiais de vida similares para todos os cidadãos. Em um sentido correlato, a liberdade era definida como liberdade da necessidade. Ou seja, ninguém deveria estar submetido a privações ou constrangimentos materiais que o impedissem de gozar a vida plenamente. A liberdade individual, como se conhece no liberalismo, não era prioridade e se encontrava, antes, submetida aos interesses coletivos. A solidariedade, por sua vez, ganhou a forma da solidariedade estatizada, de sorte que toda a vida associativa, fosse nos clubes de jovens, fosse num clube de caça, era intermediada e regulada pelo Estado.

Independentemente dos erros e acertos pessoais de seus diversos governantes e das condições políticas que cercavam sua existência (o peso do stalinismo, a Guerra Fria etc.), a RDA, ao estatizar todas as esferas da vida, minou as bases da vitalidade e da criatividade sociais. A vida comum, fora dos pouquíssimos espaços não controlados pelo Estado ou vigiados pelos “espiões informais” do governo, era um enorme teatro burocrático. O trabalho, a política, o lazer, a visita ao médico ou à escola, a vida de vizinhança ou o baile de formatura eram todos eles parte de um enredo burocrático único. A circulação de informações nesse sistema totalizante fazia, por exemplo, com que a escolha dos amigos com quem se sentava à mesa do bar no fim de semana ou com quem se compartilhava o drama de um amor malsucedido pudesse ter consequências imediatas para a obtenção de uma promoção na fábrica coletiva ou uma vaga na universidade pública para o filho.

A República Federal da Alemanha (RFA), ou Alemanha Ocidental, por sua vez, fez do desejo de superar o passado nazista sua razão de ser como Estado-nação. Assim, tanto os laços simbólicos aos quais se recorreu para criar a comunidade nacional imaginada quanto as próprias instituições do Estado de direito buscaram proteger o país de uma nova ameaça totalitária. Nesse contexto, a igualdade buscada era a igualdade no direito à liberdade, a liberdade para a vivência plena da própria diferença. Tudo que lembrasse homogeneização e supressão da liberdade individual em nome do povo ou do Estado foi evitado e condenado.

O Estado de bem-estar organizou a solidariedade distributiva no âmbito de programas de tributação dos ricos e benefícios sociais para os pobres, compensando, de alguma forma, o agravamento das desigualdades sociais que o capitalismo sempre produz. Contudo, a solidariedade social, em seu sentido amplo, isto é, como redes de cooperação e associação entre os diferentes grupos da sociedade, era atividade livre de qualquer controle e intervenção do Estado. Isso permitiu o florescimento de uma sociedade civil vibrante e dinâmica, capaz de produzir inovações e transformações sociais de enorme importância. Mencione-se, a título de exemplo, o vigoroso movimento de mulheres, o movimento ambientalista ou o desafio da heteronormalidade por meio da legitimação de formas múltiplas e diversas de sexualidade e de vida em família.

A Alemanha reunificada

Do ponto de vista do direito internacional, a reunificação das Alemanhas representou uma anexação da RDA pela RFA. A anexação foi consentida tanto pela própria RDA quanto pelos vencedores da Segunda Guerra Mundial, Estados Unidos, Inglaterra, França e União Soviética. A anexação implicou a extensão da área territorial de vigência da constituição da RFA para o território da RDA e a transformação dos estados e municípios da RDA em novos estados e municípios da RFA. A unificação levou não só a economia da RDA, baseada em fazendas coletivas pouco produtivas e plantas industriais da década de 1930, à desgraça. Também muitas biografias pessoais e familiares moldadas para atender às necessidades de uma economia e uma sociedade que já não existiam mais se viram privadas de sua razão de ser.

A perda de referências produziu reações regressivas, como a xenofobia, mas também bem-humoradas, como a Ostalgie. A palavra, que junta leste (Ost) com nostalgia (Nostalgie), nomeia a atitude autoirônica de cultuar e colecionar os produtos e as lembranças da RDA. Ainda hoje lojas descoladas de Berlin-Mitte oferecem esses ícones do passado a preço de ouro como parte de um estilo que tem o seu charme.

A anexação da RDA pela RFA, contudo, não levou as ideias de igualdade, liberdade e solidariedade vigentes na RFA a se estender, imediatamente, por todo o território unificado. Tampouco implica que tenham se mantido inalteradas desde então. Na verdade, essas concepções são, ainda hoje, objeto de negociações permanentes no âmbito da política e do cotidiano no país, refletindo, naturalmente, mudanças observadas fora da Alemanha, como a intensificação da globalização ou a integração europeia.

Menciono, a seguir, alguns temas discutidos com enorme interesse na Alemanha hoje, que exemplificam como distintas interpretações da vida comum se apresentam e se confrontam publicamente.

Os grandes temas da agenda hoje

A crise financeira dos dois últimos anos levou à necessidade de controle estatal sobre a economia para o centro da agenda política na Alemanha. A euforia com os poderes autorreguladores do capitalismo que se seguiu à queda do Muro apresenta, no momento, um claro retrocesso. Há consenso entre as diferentes forças políticas de que é necessário que o Estado controle a economia. As divergências articulam-se em torno do quanto e do como.

Os argumentos usados para a defesa de formas mais ou menos estritas de controle nos interessam aqui. Eles questionam o sentido mesmo da produção e do comércio de mercadorias e serviços, denunciando como operadores financeiros irresponsáveis teriam transformado o mercado financeiro internacional num cassino de poucos milionários e economias inteiras falidas. Seria necessário, por isso, que o Estado reativasse seus controles tributando, redistribuindo e fazendo valer o sentido social da produção de riquezas.

O que essas discussões parecem mostrar é que, 20 anos depois da queda do Muro, a crítica ao capitalismo continua viva, ou, quem sabe seria mais justo afirmar, foi redescoberta. A novidade é seu alcance: a crítica não visa mais à superação do capitalismo, mas a seu controle e à sua subordinação aos interesses da sociedade.

Nesse debate, saltam aos olhos os confrontos entre distintas concepções de igualdade. Para os liberais, como aqueles representados pelo partido que agora está assumindo o poder ao lado dos democratas cristãos, os controles estatais sobre a economia devem ser mínimos. Afinal, só mesmo o mercado livre de controle e amarras poderia garantir a plena vigência da igualdade de oportunidades e do princípio meritocrático. O partido das esquerdas, derivado em parte do partido socialista único da RDA, defende uma intervenção muito mais ampla do Estado sobre a economia. O sentido é controlar a especulação financeira e promover uma ampla redistribuição de sorte a garantir o igual direito a uma vida digna, entendida como o suprimento pelo Estado das necessidades fundamentais de todos, independentemente de méritos pessoais.

Privacidade

Outro tema discutido com fervor atualmente é o acesso do Estado a informações pessoais, como a troca de e-mails ou as movimentações bancárias. Desde os atentados de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos, a pressão pelo controle estatal da privacidade cresceu enormemente. A disputa dá-se em torno de diferentes formas de engenharia social e, indiretamente, diferentes concepções de liberdade. Enquanto, por exemplo, os democratas cristãos mais conservadores argumentam que a renúncia a parte da proteção da privacidade significa mais segurança contra o terrorismo e, por decorrência, mais liberdade, verdes e liberais afirmam exatamente o contrário. Para esses, só a proteção à privacidade garante segurança e liberdade. Conforme entendem, a liberdade individual supõe o conhecimento e o consentimento pessoal de cada informação privada a que o Estado tem acesso. Ademais, acreditam que o armazenamento de informações pessoais, mesmo que seja feito pelo Estado, faz crescer o risco de mau uso das informações, aumentando a insegurança individual.

Nas discussões em torno das políticas de imigração, questão igualmente central na agenda política da Alemanha hoje, são sobretudo os sentidos da solidariedade que estão em debate.

Imigração

A RDA e a RFA apresentam histórias de imigração bastante distintas. Na RDA, os imigrantes não passaram de um número reduzido e eram originários fundamentalmente de países socialistas como Polônia, Moçambique e Vietnã. Eram tratados como trabalhadores temporários que não deviam constituir família no país. Imigrantes que ficassem grávidas podiam escolher entre abortar ou retornar a seu país de origem.

Na RFA, os imigrantes também chegaram como trabalhadores convidados, mas logo conquistaram o direito de trazer suas famílias. Independentemente de viverem no lado leste ou oeste da Alemanha, imigrantes e seus descendentes, apesar de constituírem quase 10% da população e já viverem, em alguns casos, há mais de 40 anos no país, não são vistos como membros da nação. Jovens de extrema direita declararam partes do território da antiga RDA como áreas livres de estrangeiros, usando da agressão e da perseguição para garantir seus objetivos. Outros setores conservadores entendem que imigrantes vivem em sociedades paralelas e que, portanto, não deveriam ser beneficiários da solidariedade institucional promovida pelo Estado.

A questão é complexa, na medida em que faltam, no debate, soluções que gerem ao mesmo tempo possibilidades e laços de pertença para os imigrantes sem assimilá-los na comunidade nacional imaginada. Além disso, as muitas posições envolvidas fazem embaralhar os campos progressistas e conservadores, tornando o debate político difícil e impenetrável.

Assim, por exemplo, muitos grupos gays e feministas, ao denunciar o sexismo ou a homofobia, sobretudo de imigrantes de origem turca ou árabe, contribuem para a estigmatização de minorias étnicas. Os grupos estigmatizados, por sua vez, contra-atacam valendo-se de ainda mais sexismo e mais homofobia. Desse modo, legitimam as reservas dos grupos conservadores, realimentando o ciclo da rejeição mútua.

Muitas Alemanhas

As duas Alemanhas, enquanto existiram, representaram, emblematicamente, dois modelos distintos de interpretar e combinar igualdade, liberdade e solidariedade. De alguma forma, as posições representadas pelas duas Alemanhas estão presentes ainda hoje no debate político. Não obstante, concorrem com uma variedade de outras posições e possibilidades. Desse ponto de vista, a Alemanha são muitas. Há uma Alemanha social-democrata, uma Alemanha neoliberal, uma Alemanha de muçulmanas que falam várias línguas, mas que nunca mostraram seu rosto em público. Não há mais, como havia há 20 anos, barreiras físicas dividindo essas muitas Alemanhas. Parece, contudo, que elas nunca foram tão alheias umas às outras.

Revista Cult

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

O muro e a perplexidade

O muro cortava o quintal das casas, dividia calçadas, atravessava cemitérios, violava túmulos.Em algumas ruas, sobravam aos moradores 40 cm apertados de calçada para chegar em casa
por Ignácio de Loyola Brandão
Arquivo Última Hora/AESP

Em janeiro de 1962, famílias separadas pela barreira ainda podiam manter contato visual em ocasiões especiais, como o casamento

Quando, em março de 1982, o avião sobrevoou Berlim, preparando-se para aterrissar, eu, o olho pregado na janela, procurei “o muro”. Encontrei uma linha cinza que serpenteava pela cidade. Mais tarde descobri um dos apelidos do muro: serpente petrificada.

Desembarquei, me esperavam, queriam que eu fosse ao Möhrig, uma das tradicionais conditoreien(confeitarias) berlinenses, com seus bolos cremosos. Desapontei, dizendo: "Não! Quero ver o muro". Não continha minha ansiedade. Como seria? Uma muralha como a da China, alta, pesadona, intransponível, monumental?

Quando cheguei a Bernauerstrasse, a avenida ao longo da qual a barreira separando leste e oeste foi erguida, tive uma decepção. O muro tinha uns dois metros e meio de altura, parecia inocente, apenas uma parede plantada no meio da rua. Então era aquilo? O muro que causava a famosa síndrome que acometia todo berlinense e o obrigava a deixar a cidade de tempos em tempos?

No fim de minha estada, eu também sentia a síndrome. Tinha me acostumado, ainda que fosse difícil, a andar, andar e dar com ele. Para qualquer lado, lá estava a parede cinza de concreto. A sensação de ser prisioneiro logo me ocupou. Em Berlim Ocidental, diziam, havia a liberdade, só que encerrada dentro de uma parede de módulos de concreto com 155 km de extensão.

Uma vez, acompanhando alunos do Instituto Ibero Americano, que estudavam com o professor Berthold Zilly, fiz um estranho périplo. Durante dias, seguimos a pé, ao longo do muro. Quando chegava a noite, comíamos e íamos dormir.Retornávamos no dia seguinte, seguíamos do mesmo ponto. Desisti na altura dos 50 km, a meninada prosseguiu.

O muro cortava o quintal das casas, dividia calçadas, atravessava cemitérios, violava túmulos. Em algumas ruas, sobravam aos moradores 40 cm de calçada para chegar em casa. A parede criou "o lado de cá" e o "lado de lá". De cá, o Ocidente. De lá, o Oriente. Todavia, descobri que do outro lado se dizia também: o lado de cá e o lado de lá. O mundo depende da perspectiva.

Então, o muro caiu. Eu não estava na cidade. Quem estava era o escritor Rubem Fonseca. No dia seguinte, Rubem e Ute Hermanns, tradutora e ensaísta, andavam pelas proximidades. Um repórter da TV Manchete ouviu-os falando português e os entrevistou. Rubem, um gozador, deu um nome qualquer, não me lembro qual. Digamos José da Silva. Somente no Rio de Janeiro, na redação,
reconheceram o Rubem, que é famoso por não dar entrevista. Não como Rubem, sim como José.

Quando voltei a Berlim após a queda, tive sensações estranhas na altura de Steinstücken, o esquisito bairro de mansões antes cercado pelo muro, como se contido em uma gota. Naquela tarde, pessoas faziam cooper, outras andavam de bicicleta, velhotas caminhavam fazendo crochê. Naturalmente, como se nada tivesse se passado ali durante 28 anos. No entanto, as torres de vigia ainda estavam de pé. Ali de onde os guardas vigiavam e atiravam para matar. A perplexidade continuava.

Ignácio de Loyola Brandão é escritor e jornalista. Autor de Zero (Brasília-Rio), Não verás país nenhum (Codecri) e O verde violentou o muro (Global), já recebeu vários prêmios por sua obra, entre os quais o Jabuti e o Pedro Nava (Academia Brasileira de Letras)

Revista História Viva

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Durante 40 anos, Alemanha fez parte de bloco liderado pela ex-URSS

IAGO BOLÍVAR

Durante as quatro décadas em que ficou separada da Alemanha Ocidental, a República Popular da Alemanha foi integrada a um bloco econômico, militar e ideológico comandado pela ex-União Soviética, como parte do núcleo que ficou conhecido como "segundo mundo", representado pelas nações comunistas desenvolvidas.

As fronteiras do bloco foram oficializadas durante as conferências organizadas pelos aliados --entre elas as de Ialta e Teerã e Potsdam-- nos anos finais da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e logo depois do conflito, mas a definição delas só foi feita de fato no campo de batalha.

Yevgeny Khaldei - 1945/AP/ITAR-TASS

Soldado ergue bandeira soviética em Berlim após a derrota nazista

A extensão do domínio comunista no Leste Europeu correspondeu ao avanço do Exército Vermelho contra os nazistas, que os levou a capturar Berlim em 1944, marcando o fim de seis anos de conflito na Europa.

Entre os países que ficaram sob a "esfera soviética", na linguagem diplomática, estavam a Tchecoslováquia --que havia sido invadida pela Alemanha nazista-- aliados de Hitler (Hungria, Romênia e Bulgária) e a Polônia, cuja parte oriental a própria ex-União Soviética havia invadido no final dos anos 30, de acordo com um pacto de partilha assinado com Hitler. O acordo foi quebrado em 1941, quando a Alemanha lançou a Operação Barbarossa, de invasão dos domínios e do território soviético.

Sobre as repúblicas bálticas (Estônia, Letônia e Lituânia), vistas como historicamente pertencentes à Rússia, o domínio soviético acabou sendo total --foram absorvidas na URSS. Nos demais países, a estratégia foi transformá-los em Estados-satélites.

O processo seguiu linhas gerais semelhantes. Primeiramente, formou-se uma aliança de partidos socialistas, comunistas e "antifascistas" para teoricamente disputar eleições livres. Depois, com diferença de ordem de país para país, foram dados os passos seguintes: as forças vistas como burguesas foram perseguidas; as eleições moldadas no estilo soviético de votação; o próprio partido comunista sofreu expurgos para alijar possíveis lideranças nacionais ou muito independentes e os governos eleitos colocaram em prática o modelo soviético de estatização dos meios de produção.


Arte/Folha Online


Colaboração

O resultado foi que, quatro anos após o fim da Segunda Guerra, havia um cinturão de "repúblicas populares" obedientes a Moscou entre a União Soviética e a Europa ocidental. Tentativas de caminho independente foram suprimidas.

A Tchecoslováquia, que manteve parte da estrutura anterior do Estado, com um Parlamento, cogitou receber ajuda americana do Plano Marshall [plano econômico de recuperação da Europa], mas foi dissuadida por forte pressão soviética. O mesmo acabou acontecendo com a Polônia, a quem foi fornecido um empréstimo de Moscou.

Formalmente independentes, os países continuavam com tropas do Exército Vermelho em seus territórios e foram enquadrados em organizações que eram espelhos das novas instituições do oeste do continente. À Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) opunha-se o Pacto de Varsóvia; à Organização de Cooperação e de Desenvolvimento Econômico (OCDE), correspondia o Conselho para Assistência Econômica Mútua, (Comecon), que a partir do final dos anos 50 passou a ser visto como a alternativa à Comunidade Econômica Europeia, antecessora da União Europeia.

Fora do financiamento americano para a recuperação econômica do pós-guerra, os países desenvolveram estratégias de colaboração técnica e trocas comerciais entre eles, dificultadas pela falta de uma moeda conversível como a adotada no oeste.

Apesar da supremacia soviética, as tentativas de fazer com que a planificação das economias nacionais passasse a ser coordenada acabaram sendo em grande parte infrutíferas, assim como os ensaios de divisão de tarefas econômicas --a Romênia, por exemplo, se opôs a ser relegada apenas ao papel de fornecedor de produtos agrícolas, sem industrialização.

Um dos elementos-chave para o desenvolvimento do bloco nos anos iniciais foi a virtual quebra de patentes da desenvolvida economia alemã, o que permitiu um avanço significativo nas indústrias da região. O preço a pagar foi o desestímulo à inovação tecnológica, o engessamento em uma economia de escala reprodutora que, mesmo com mudanças legais nos anos 70, acabaram levando a um fosso tecnológico nos bens de consumo TVs, carros, eletrodomésticos-- em relação ao ocidente.

Tecnologia

Na outro extremo, a ex-União Soviética conseguiu manter uma tecnologia avançada em setores de ponta, como armas nucleares, mísseis balísticos e na área aeroespacial, da qual os maiores símbolos foram o lançamento do primeiro satélite artificial, o Sputnik em 1957, e a primeira viagem do homem ao espaço, Yuri Gagarin, em 1961, eventos que desencadearam a reação americana de levar o homem à Lua, em 1969.


Libor Hajsky -21.ago.1968/AP-CTK

Manifestantes atacam tanque durante invasão de Praga para reprimir reformas

Mas, no solo, o descontentamento crescia com a supressão das liberdades "burguesas" de livre expressão, religião e livre empresa, apesar de uma elevação geral do nível de vida quando comparada ao período das guerras mundiais e mesmo ao anterior, embora os governos ocidentais também fizessem grandes avanços na área social, classificados pelos soviéticos de concessões pífias e tentativas vãs de conter a luta de classes.

O levante popular na Hungria em 1956 contra o governo stalinista do país foi contido por tanques soviéticos, e em 1968 uma força conjunta de cinco países do Pacto de Varsóvia invadiu a Tchecoslováquia para encerrar com a política de liberalização do líder tcheco Alexander Dubcek.

A falta de colaboração ativa dos EUA e da Europa ocidental em apoio às tentativas de abertura mostraram claramente que, na Europa, os limites da Cortina de Ferro seriam respeitados e que cabia à ex-União Soviética decidir o futuro de cada um dos países da região.

Resistência

Apesar da posição ocidental, a leste da fronteira entre as duas Europas nem todos os países comunistas se submeteram ao domínio soviético. A primeira resistência importante e com consequências duradouras foi a atitude de independência do general Josip Broz Tito em relação ao ditador soviético Joseph Stálin, que levou à expulsão da Iugoslávia do Cominform, a aliança de partidos comunistas.

Tito havia liderado a resistência aos nazistas nos Bálcãs e não se via como um devedor em relação à ex-União soviética, mas como um líder em igualdade de condições com Stálin, uma situação única no bloco.


Koca Sulejmanovic - 26.dez.2006/Efe

Visitante observa os retratos de Tito (à esq.) e Stálin, expostos em Belgrado em 2006; os dois líderes comunistas romperam em 1948


No outro extremo ideológico, --dentro da limitada gama da época e região-- a Albânia, pequeno país agrícola cuja integração com a Bulgária foi inutilmente defendida por Tito, em desafio à União Soviética, acabou se isolando cada vez mais com o passar dos anos pelo inflexível stalinismo de seu ditador, Even Hoxa. Após a morte de Stálin, em 1953, ele se opôs às críticas feitas ao ex-ditador soviético pelo novo líder da URSS, Nikita Kruschev, que empreendeu uma campanha de denúncias dos massacres e expurgos ordenados pelo antecessor.

Hoxa voltou-se então para Mao Tse Tung. A China comunista se tornou o principal parceiro comercial e fonte de financiamento e ajuda técnica da Albânia, mas a aproximação chinesa com os EUA no governo do presidente americano Richard Nixon deterioraram os laços, e Hoxa rompeu definitivamente as relações com a China em 1978, denunciando o "revisionismo chinês" e proclamando a Albânia o único Estado comunista do mundo. O gesto garantiu a simpatia de militantes comunistas em vários países, mas aprofundou o isolamento da Albânia.

Decadência

A crescente falta de dinamismo econômico do bloco soviético nos anos 60 foi em parte compensada por um boom no início da década seguinte, devido ao fornecimento de petróleo e gás russos de jazidas cuja exploração foi em grande parte financiada pelos estados-satélites. O crescimento foi ainda mais significativo porque coincidiu com estímulos dados pelo próprio ocidente na política de "détente", uma tentativa de diminuir as tensões com o bloco comunista por meio de concessão de crédito e de licenças tecnológicas.

Em contraste, a década de 70 foi marcada pela crise do petróleo, que minou as economias ocidentais, o que, em comparação aumentou a visibilidade do sucesso econômico do leste. O fim da détente, em meio ao crescimento das tensões, problemas de pagamento dos créditos e uma crescente ineficiência da máquina burocrática planificada fizeram com que o bloco entrasse em um processo de crescente estagnação, que perdurou do fim da década de 70 até a implosão do sistema comunista de molde soviético na região após as políticas de abertura de Gorbatchov, nos anos 80.


Marek Zarzecki/REUTERS/Kfp

Sindicalista polonês Lech Walesa é levado por grevistas em 1980; em meio a crise econômica, ele fundou sindicato não comunista

A segunda metade da década de 80 foi cheia de presságios do fim do "segundo mundo". O crescimento do sindicato Solidariedade, na Polônia, o visível enfraquecimento soviético durante a invasão do Afeganistão e o sucesso em imagem, mas fracasso em resultados econômicos, das políticas de abertura de Gorbatchov encorajaram manifestações de descontentamento interno e impulsionaram o apoio cada vez mais ativo do Ocidente a grupos locais descontentes.

Colapso

Em 25 de Outubro de 1989, o porta-voz da Chancelaria russa forneceu a senha para o colapso do bloco. Em entrevista ao programa da TV americana "Good Morning America", Gennadi Gerasimov tentou resumir um discurso do ministro das Relações Exteriores soviético, Eduard Shevardnadze, que falara que os soviéticos reconheciam a liberdade de escolha de todos os países, incluindo os membros do Pacto de Varsóvia.

"Nós temos agora a doutrina de Frank Sinatra. Ele tem uma música, "I Did It My Way" [Eu fiz do meu jeito, trecho da música "My Way"]. Assim, cada país decide sobre o seu próprio caminho a tomar". Questionado sobre se isso incluía a possibilidade do fim do domínio dos partidos comunistas nas "repúblicas populares", ele disse: "Com certeza [...] estruturas políticas devem ser decidido pelo povo que vive lá".

O fim da ameaça explícita de uma retaliação do Exército Vermelho encorajou os insatisfeitos e aqueles que já estavam em ação contra os regimes locais.

A Hungria, que passara por uma reforma liberalizante, já havia aberto a fronteira com a Áustria nos meses anteriores, permitindo a fuga de milhares de seus cidadãos e de alemães. Quinze dias depois da declaração do porta-voz soviético, simbolicamente usando uma canção americana em uma TV americana, os alemães escolheram o próprio jeito de reabrir o caminho fechado por um muro desde 1961 entre Berlim ocidental e Berlim oriental.

A partir de então, as repúblicas populares enfrentaram revoluções em grande parte pacíficas, e o segundo mundo deixou de existir, com seus países tentando integrar-se ao sistema econômico e político dos vizinhos vistos como inimigos durante meio século.

Folha de São Paulo

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Berlim, 20 anos sem muro

Berlim, 20 anos sem muro
1989. A população pôs abaixo o muro, expondo o desmanche do chamado mundo comunista, encabeçado pela União Soviética, então mergulhada em uma profunda crise econômica, política e de identidade

Maria Antonieta del Tedeso Lins


Jacques Langevin/Sygma/Corbis/Latinstock


Os dois lados e todas as gerações se envolveram na derrubada do muro

O MESMO IMPULSO
Acabar com as divisões mobilizou pessoas dos dois lados

AÇÃO COLETIVA
Portão de Brandemburgo, no antigo lado oriental, ocupado pela população em festa após a derrubada

EUFORIA LIBERTÁRIA
Berlinenses dos dois lados, armados de martelos e picaretas, destroem o muro e fazem história

Comemorações em vários formatos, publicações, lembranças pessoais, fotos e lágrimas novamente despertadas marcam esse aniversário tão particular. Há vinte anos desmoronava o muro de Berlim e, junto com ele, a divisão de um país, a separação de famílias e de amigos. O muro, construído em 1961, foi também, por anos, o símbolo dos tempos em que o mundo esteve dividido em dois blocos e da guerra fria travada entre eles.

A história é bem conhecida. No começo da noite da quinta-feira, 9 de novembro de 1989, em uma conferência de imprensa transmitida ao vivo por rádio e televisão, Günter Schabowski, membro do Politburo do Partido Socialista Unificado da Alemanha (SED, sigla em alemão), lê um comunicado do conselho de ministros, segundo o qual as regras para autorização de viagens internacionais seriam modificadas e as restrições abolidas. Quando perguntado por um jornalista a partir de quando valeriam as novas regras, Schabowski respondeu: "Imediatamente". Na verdade, a decisão ainda não era oficial. Mas a notícia foi levada na hora pelos ventos a leste e a oeste. Logo se espalhou, também pela República Federal da Alemanha (RFA), a informação de que o muro estava aberto. Na hora, muita gente se dirigiu aos postos de fronteira e pediu aos guardas que abrissem. Esses não tinham recebido instruções sobre como reagir; obviamente, era uma situação imprevista em meio a um período de muitas mudanças e manifestações, na República Democrática da Alemanha (RDA) e em outros países socialistas europeus. Sem violência, a primeira passagem pelo muro foi aberta ainda naquela noite, em torno das 23 horas, e milhares de pessoas foram de um lado para o outro. Mesmo antes da construção do muro, desde junho de 1952, os berlinenses ocidentais não podiam mais passar livremente à parte oriental. Destruir com marretas o símbolo da separação e da falta de liberdade era o mínimo a fazer naquele momento...

A história de quem viveu em um país dividido, do reencontro com parentes, da recepção dos alemães orientais no oeste, da explosão na demanda por bananas - inacessível no leste antes da "virada" - são episódios carregados de emoção. Qualquer pessoa que se propusesse a reconstituir, mesmo se apenas por pequenos trechos, a "história da vida privada" da reunificação alemã, encontraria rico e interessante material on-line nas conversas com quem participou de um momento ou outro da história e até nas recordações de quem por lá passou antes ou depois de o muro cair. Desde os alemães no exterior, que não hesitaram em pegar o primeiro voo para assistir à transformação de sua própria história, como os cidadãos dos dois lados, curiosos em se conhecer e a seus tão distintos modos de vida. É divertido o blog de um alemão ocidental (adolescente em 1989), que conta ter tomado um avião em Frankfurt na sexta-feira 10 de novembro e só voltado na segunda-feira seguinte, feliz e atordoado, mas certo de que seu professor de história não se importaria por ele ter perdido a prova.

Deixemos para outras mídias os relatos mais emocionados.

O antigo chanceler alemão ocidental Willy Brandt, prefeito de Berlim na época da construção do muro, conseguiu que fosse assinado, em dezembro de 1972, um tratado entre as duas Alemanhas no qual os países renunciariam ao uso da força e respeitariam a soberania de cada um. Ficou conhecido como o Chanceler da Paz. Foram muitos os passos e as iniciativas para a reaproximação, mas a real transição política nos regimes socialistas europeus começou para valer em 1985, com a abertura na URSS. Entre conversas com os Estados Unidos, com vistas à redução dos conflitos armados pelo mundo, visitas e entrevistas transmitidas por TV aos soviéticos, as relações entre os dois lados do mundo foram se distendendo.

Em 1989, a União Soviética se retirou do Afeganistão sem ter logrado uma vitória. Havia uma clara intenção de limitar seus gastos militares e de pôr fim à corrida armamentista. Ao mesmo tempo, foi concedido aos cidadãos soviéticos o direito de viajar para fora do país e de voltar. A União Soviética se afundava em uma crise econômica e política. A pressão por mudanças na RDA veio, primeiro, de fora. Na primavera daquele ano, os cidadãos esperavam por autorizações de viagem que não eram concedidas. Chegaram as férias de verão e milhares de alemães orientais ocuparam a representação permanente da RFA em Berlim Oriental, as embaixadas tcheca, húngara e polonesa, querendo sair do país. Muitos jovens foram para a Hungria com o objetivo de passar para a Áustria e depois para a RFA. Em setembro, os húngaros abriram a passagem para a Áustria aos alemães orientais. Aí começava a cair o muro, de fato.

Na Polônia, um líder do Solidariedade, um sindicato de trabalhadores, foi eleito primeiro ministro. Em Leipzig, a Igreja de São Nicolau se transformou em um centro de resistência e orações pela paz. As manifestações reuniam cada vez mais gente. Em outubro de 1989, quando Mikhail Gorbachev visitava Berlim Oriental para as comemorações de 40 anos da RDA, os manifestantes gritaram por sua ajuda. As manifestações conti-nuaram sempre maiores. culminando no histórico 9 de novembro de 1989.

Derrubado o muro, era preciso reunificar o país. A data oficial da reunificação política foi 3 de outubro de 1990. As primeiras eleições na Alemanha reunificada aconteceram em dezembro do mesmo ano. Antes disso, estabeleceu-se uma unificação monetária, econômica e social. Dá para imaginar o esforço de integração de um país no outro, a começar pela conversão das moedas. O marco oriental seria substituído pelo marco alemão ocidental (o Deutschmark, DM), mas a que taxa de câmbio? Decidiu-se por várias: os salários, as pensões, os aluguéis seriam na base do 1 por 1; os créditos e as obrigações de empresas e particulares, 2 por 1; o valor de propriedades, as dívidas e as poupanças seriam convertidos a taxas diferentes em função de sua idade e dos valores. A produtividade nas duas Alemanhas também era muito diferente, assim como a qualidade dos produtos vendidos, dos imóveis e do padrão de vida.

O processo todo de reunificação custou tempo, dinheiro e muita solidariedade, especialmente porque os gastos foram cobertos por ampliação da carga tributária. O governo alemão utilizou-se de um dispositivo previsto na reforma fiscal de 1955, que permitia ao Estado cobrar um imposto adicional sobre a renda das pessoas e lucros das empresas por tempo indeterminado. O imposto solidário foi introduzido a partir de 1991 e depois renovado no âmbito do Programa Federal de Consolidação (Pacto Solidário), de 1995, sem prazo final. O valor arrecadado até meados da década atual gira em torno de 10 bilhões de euros ao ano. Os gastos foram enormes para construir um novo país, incorporando a antiga RDA ao padrão econômico e de seguridade social ocidental. Aí estão eles 20 anos depois, bem-sucedidos, cidadãos europeus, embora alguns - entre os mais velhos, mas também entre quem nem chegou a conhecer a RDA - com certa nostalgia dos tempos do leste (a chamada ostalgie). Dizem que o muro ainda existe na cabeça de algumas pessoas.

A dissolução da União Soviética e a reunificação alemã marcaram o fim do século XX, como disse o historiador Eric Hobsbawm. A queda do muro foi um processo democrático, de sucesso e emocionante. Mas ela representa muito mais que um fenômeno histórico marcante: chegou ao fim a separação do mundo em dois.

O mundo mudou muito desde então. Para pensar apenas no lado econômico, entraram em cena atores que estavam "do lado de lá" durante a Guerra Fria, como a Rússia e a China. Os volumes transacionados no comércio internacional, os fluxos de capital, a integração dos mercados, a interdependência entre países, tudo cresceu muito.

O sistema financeiro internacional, em particular, vem nos mostrando seu poder de criação e destruição. Houve liberalização excessiva no mundo pós-Guerra Fria? Deveríamos olhar de volta para os padrões de maior intervenção do Estado e controle sobre as atividades econômicas? Sim, não ou talvez... Abertura "selvagem", desregulamentação, insuficiência dos mecanismos de controle e monitoramento podem permitir que os mercados produzam catástrofes. Mas controle excessivo, ausência de oportunidades e a burocracia produziram ineficiência, falta de liberdade e de democracia e ainda sofrimento.

Transformações nas relações econômicas internacionais estão sempre em curso. Assim como o muro caiu apenas depois de anos de Glasnost, de manifestações populares e negociações, a nova ordem econômica mundial vai sendo construída no curso da história. E agora estamos no momento-chave dessa história. O gigante país socialista remanescente diz que se cansou de acumular dólares. E agora? Isso é outro pedaço da história em movimento...

Fonte das informações sobre a economia alemã:
Hasse, Rolf H., Schneider, H. e Weigelt, K. Diccionario de Economía Social de Mercado. Política Económica de la A a la Z. 3a ed. Buenos Aires: Konrad

Revista Brasileiros

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Muro de Berlim - A revolução que salvou o mundo

Há vinte anos, os alemães-orientais derrubaram o Muro de Berlim, libertando-se de quatro décadas de totalitarismo e enterrando para sempre a experiência comunista. Os efeitos do regime falido são sentidos até hoje na antiga Alemanha Oriental, mas prevê-se que em dez anos não haverá diferenças no país reunificado

Diogo Schelp, de Berlim


Peter Turnley/Corbis /Latinstock

A QUEDA
Em 11 de novembro de 1989, dois dias depois de os alemães-orientais forçarem a passagem para o Ocidente, os guardas do regime comunista ainda tentavam, sem muita vontade, impedir que o muro fosse desmantelado

Em Berlim, para lembrar é preciso olhar para baixo. As cicatrizes estão marcadas no chão da capital da Alemanha. Discreta, quase imperceptível, uma estreita faixa de paralelepípedos corta uma avenida de asfalto impecável, invade a calçada e desaparece sob a parede de um moderníssimo prédio. Em outros trechos, a menção ao símbolo maior da Guerra Fria traz uma mensagem mais direta: placas de metal encravadas no solo com a inscrição "Muro de Berlim – 1961-1989" informam que por ali passava a barreira que dividiu a Alemanha, a Europa, a Terra. A queda do muro, em 9 de novembro de 1989, foi um desses eventos raros em que a ruptura com o passado é tão brusca que uma única data marca o início de uma nova era. O efeito mais óbvio daquela noite de outono berlinense, em que os alemães-orientais forçaram a abertura das fronteiras para o oeste, foi dar um fim ao conflito entre Estados Unidos e aliados no mundo civilizado e União Soviética. A Guerra Fria, como se chamava esse conflito, se não resultou em embate direto entre as duas superpotências nucleares, por causa do risco de aniquilamento total, configurou o planeta em metades capitalista e comunista que descarregavam a tensão permanente em guerras localizadas, como a da Coreia e a do Vietnã. Com a queda do muro, a Alemanha voltou a ser uma só nação e ficou evidente quem eram os vencedores: o capitalismo, a democracia, a liberdade. O ano de 1989 representou, assim, o fim da história para o comunismo, um regime que, nos países em que se instalou à força de baionetas, ceifou 100 milhões de vidas e eliminou o horizonte de progresso material e espiritual de quem estava sob seus tacões. Nos dois anos seguintes, o império soviético esfacelou-se por completo. Hoje, o sistema que o engendrou sobrevive como curiosidade quase que zoológica apenas numa ilha do Caribe e na metade de uma península asiática. Até a poderosa China, nominalmente comunista, aderiu ao capitalismo, embora esteja a milhões de anos-luz de ser democrática.

Evidentemente, não foi preciso esperar até 1989 para constatar o fracasso do socialismo. A própria construção do Muro de Berlim, iniciada em 13 de agosto de 1961, foi motivada pela incapacidade do sistema de cumprir as promessas de uma vida melhor à população. Até aquela data, 3 milhões de pessoas haviam fugido da Alemanha Oriental para a Ocidental. "Para evitar o colapso do país por falta de gente, o regime comunista precisou prender os seus cidadãos, e não havia maneira mais barata de fazer isso do que construir um muro", diz o historiador inglês Frederick Taylor, autor de Muro de Berlim – Um Mundo Dividido – 1961-1989. Na órbita soviética, cultivava-se a ideia de que, como os alemães eram um povo eficiente, seriam capazes de fazer o socialismo funcionar e, assim, transformar o seu país numa vitrine do sistema. De fato, os alemães-orientais eram mais eficientes do que os seus companheiros do Leste Europeu. Tanto que exacerbaram, mais do que em qualquer outra latitude, o único atributo comunista: o total controle do estado sobre os cidadãos. Controle este que se estendia aos intestinos das crianças. Na pré-escola, todas eram obrigadas a ir ao banheiro na mesma hora.



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OPRIMIDOS E OPRESSORES
À esquerda, crianças comemoram a chegada dos aviões aliados a Berlim, bloqueada pelos soviéticos em 1948. À direita, em 1962, guardas da RDA recolhem o corpo de Peter Fechter, morto ao tentar pular o Muro de Berlim

Não havia uma Polônia Ocidental ou uma Hungria Ocidental, mas havia uma Alemanha Ocidental. Para além de se haver com a total irracionalidade de um sistema que havia banido a propriedade privada e a liberdade de opinião e associação, a República Democrática Alemã (RDA), como era chamada oficialmente a Alemanha Oriental, tinha de se confrontar com a laboriosidade dos alemães-ocidentais, que, dos escombros da II Guerra, construíram uma das nações capitalistas mais pujantes do planeta. No fim da década de 70, os dirigentes da Alemanha Oriental admitiram, para sua vergonha, que o desenvolvimento tecnológico da RDA estava duas décadas atrasado em comparação ao da República Federal da Alemanha (RFA). Provavelmente o abismo era ainda maior, e ele só fez aumentar com o passar do tempo. Em Berlim Oriental, a paisagem urbana era dominada por Trabants, um modelo de carro da década de 50 produzido na RDA. Enquanto no Ocidente a indústria automobilística equipava os veículos com acessórios eletrônicos cada vez mais modernos, o Trabant funcionava com um motor de dois tempos. Para comprar um, era preciso colocar o nome numa lista e esperar quinze anos. "Como resultado, um Trabant usado era mais caro do que um novo", diz o historiador berlinense Hanno Hochmuth. Uma contradição mais do que dialética.

A baixíssima produtividade da indústria da RDA é considerada um dos principais fatores que levaram à queda do muro. Não havia imprensa livre no país, mas não era preciso recorrer aos jornais para verificar o desastre econômico. As fábricas obsoletas, muitas das quais com equipamentos da década de 30, ora não contavam com peças de reposição para as máquinas, ora ficavam sem matéria-prima para produzir. A oferta de produtos era muito limitada. Café e banana, por exemplo, eram artigos de luxo. Como em outros países comunistas, as pessoas acostumaram-se a sair de casa sempre munidas de sacolas. Se encontrassem uma fila na porta de uma loja, entravam, mesmo sem saber o que estava à venda.

A falta de produção e, consequentemente, de recursos explica em parte por que a RDA gostava tanto de fazer presos políticos. A liberdade de cada um deles podia ser vendida por até 100 000 marcos ao governo da Alemanha Ocidental, o equivalente hoje a 50 000 euros. Entre 1963 e 1989, 3,5 bilhões de marcos ocidentais foram parar nos cofres do regime comunista por causa desse tipo de sequestro oficial. O principal objetivo do estado policial da Alemanha comunista, no entanto, era manter a submissão ideológica de seus cidadãos. Nisso, a eficiência também era germânica. A Stasi, corruptela em alemão para Segurança de Estado, era um ministério que abarcava inúmeras funções de repressão, desde a espionagem internacional e doméstica até a investigação criminal. Seus mais de 90 000 funcionários diretos e 180 000 informantes vasculharam em detalhes a vida de um em cada três habitantes da Alemanha Oriental. "Não dava para saber em quem confiar, pois houve casos de dedos-duros entre casais, irmãos e até pais e filhos", diz o historiador Bernd Floriath, pesquisador da repartição pública que administra os arquivos da Stasi. "Na minha ficha, por exemplo, descobri que minha vizinha contava até o número de garrafas de vinho da minha lata de lixo." Uma questão incômoda na Alemanha atualmente é se pessoas que espionaram para a Stasi no passado podem ocupar cargos públicos de destaque. Muitos ex-colaboradores da repressão comunista estão hoje ascendendo na política. A maioria é filiada ao partido Die Linke (A Esquerda), um herdeiro do Partido Comunista da RDA cuja representação no Parlamento alemão aumentou em 30% após as eleições deste ano. A chanceler Angela Merkel é um dos poucos políticos oriundos da Alemanha Oriental sem um passado a esconder.



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AMEAÇAS AO MURO
No alto, Kennedy olha por cima do muro, em 1963. À esquerda, guarda encarregado de vigiar a barreira foge para o lado ocidental. À direita, igreja situada na "zona da morte" é implodida, em 1985

As informações recolhidas pela Stasi eram usadas para punir os cidadãos que não se mostrassem "bons comunistas". Função semelhante tinham as diversas organizações militares ou paramilitares da RDA. "A militarização da sociedade tinha como objetivo quebrar a vontade própria do indivíduo e começava já no jardim de infância", diz Tom Sello, um dos 3 000 alemães-orientais que se arriscaram a fazer oposição na Alemanha Oriental. Entre outras atividades, as crianças tinham de fazer simulações de manobras contra hipotéticas invasões capitalistas. Na adolescência, os alunos eram pressionados a aderir à Juventude Livre Alemã, uma organização paramilitar que tinha entre suas atividades quebrar as antenas de TV dos moradores que assistiam aos canais ocidentais. Impedidos de viajar, era assim que os cidadãos sob o regime comunista verificavam que a vida do outro lado era muito melhor. A região de Dresden, onde as características topográficas dificultavam a captação de sinais de TV do Ocidente, era chamada de Vale dos Inocentes.

Muro derrubado, a Alemanha voltou a ser um só país em 1990. Até agora, o custo da reunificação já bateu em 1,5 trilhão de euros. No início, o processo produziu uma espécie de milagre alquímico: os alemães-orientais puderam trocar seu dinheiro por marcos alemães-ocidentais, então uma das moedas mais fortes do mundo, na proporção de 1 para 1. No mercado negro a proporção era de 1 para 5. Quase vinte anos depois, os efeitos são vistosos na infraestrutura. A porção oriental de Berlim reluz como a parte ocidental e as rodovias no antigo território oriental são melhores do que as do resto da Alemanha. Mas os problemas permanecem, se não insuperáveis, bastante grandes. Os subsídios governamentais atraíram empresas para o leste, mas não na proporção necessária para empregar todos os trabalhadores. Além disso, os sindicatos alemães não aceitaram que os salários fossem mais baixos nos estados que compunham a Alemanha Oriental, o que seria natural dada a menor qualificação dos trabalhadores de lá. Desse modo, as empresas em busca de mão de obra mais barata preferiram instalar-se, em sua maioria, nas outras ex-repúblicas comunistas – que adoraram, é claro, receber o investimento.

O corolário do sindicalismo míope é que o desemprego entre os alemães-orientais é o dobro do registrado no restante da Alemanha e, nos últimos vinte anos, a migração para a parte ocidental fez a região perder 8% de sua população. Um passeio a pé por Halle, uma importante cidade industrial nos tempos da RDA, deixa claro o perfil dos que saem do leste: há poucas mulheres jovens nas ruas. Uma em cada cinco residências de Halle está abandonada, e o governo chegou a demolir modernos conjuntos habitacionais cons-truídos após a reunificação, por falta de gente para morar. "O erro maior é acreditar que os problemas econômicos e demográficos são culpa da reunificação ou da transição para o capitalismo", diz Udo Ludwig, do Instituto de Pesquisas Econômicas de Halle. "Na verdade, tudo isso ainda é efeito das décadas em que estivemos apartados do resto da Alemanha." É como um braço amputado: depois de reimplantado, custa a fun-cionar normalmente.

A Alemanha Ocidental tornou-se uma potência exportadora nos anos 50 e 60, quando tinha pouca concorrência internacional. Já a Alemanha Oriental fez a transição para a economia de mercado em um momento em que a disputa é bem mais acirrada: além de todo o Leste Europeu, há a China, o novo chão de fábrica do mundo. Pouco a pouco, no entanto, a diferença entre os alemães está diminuindo. O PIB per capita no leste da Alemanha é de 75% da média nacional. "Os alemães-orientais devem alcançar a proporção de 85% em dez anos", diz Wolfgang Tiefensee, até o mês passado titular do Ministério para a Reconstrução do Leste. Desde 2005, as ofertas de emprego na região aumentaram. E mesmo os que não têm trabalho vivem melhor com a renda do seguro-desemprego do que há vinte anos sob o comunismo. Como explicar, então, a onda de "ostalgia" (neologismo que une as palavras ost, leste em alemão, e nostalgia)? "A questão é que centenas de milhares de pessoas perderam a posição de destaque que tinham na RDA e hoje têm de se contentar com atividades de status mais baixo", diz Rainer Eckert, diretor do Fórum de História Contemporânea de Leipzig.

Como não poderia deixar de ser, a reunificação alçou a Alemanha a um novo patamar de liderança externa e a queda do muro deu impulso à União Europeia. "A UE expandiu-se rapidamente para o leste, onde se mostra fundamental para melhorar a gestão pública e manter a estabilidade", diz o historiador inglês Tony Judt, especialista em Europa. O fim do comunismo, representado pela derrubada do muro, também propiciou a aceleração do processo de globalização econômica e o enfraquecimento das visões estatizantes em países como o Brasil e a Índia, hoje duas potências emergentes. Há vinte anos, porém, a primeira-ministra inglesa Margaret Thatcher e o presidente francês François Mitterrand tinham calafrios ao imaginar a possibilidade da reunificação do país. "Gosto tanto da Alemanha que prefiro duas", dizia Mitterrand. Recentemente, a divulgação de gravações feitas pelos russos revelou que Thatcher chegou a pedir ao líder soviético Mikhail Gorbachev que impedisse a reunificação. Em 1990, Thatcher disse a Gorbachev: "Toda a Europa está assistindo a tudo isso não sem uma dose de temor, lembrando muito bem quem começou as duas guerras mundiais". Lothar de Maizière, o último governante da RDA, diz que foi o chanceler da Alemanha Ocidental, Helmut Kohl, quem conseguiu convencer Mitterrand de que não era preciso se preocupar com as ambições da Alemanha. Thatcher era mais resistente. "Eu próprio tentei tranquilizá-la, dizendo que ninguém na Alemanha pensava em fazer reivindicações de território ou colocar em dúvida as fronteiras existentes", conta De Maizière.



Fotos Peter Turnley/Corbis/Latinstock e Sygma/Corbis/Latinstock

PROTAGONISTAS
À esquerda, Gorbachev e Erich Honecker, líder da RDA, ambos de chapéu, um mês antes da queda do muro. À direita, Reagan e Thatcher, em 1987

As preocupações de Thatcher eram perfeitamente justificadas para alguém que conheceu as agruras da II Guerra e se criou politicamente no período de tensões da Guerra Fria. Para não causar mais problemas, a Alemanha derrotada em 1945 emergiu do conflito partilhada pelas forças de ocupação. Foram criados um setor americano, um francês, um inglês e um soviético. Esse padrão se repetiu na capital, Berlim, encravada no coração do território alemão sob influência soviética. Em 1949, a Alemanha foi dividida em dois estados, um comunista e um capitalista. Nesse contexto, Berlim tornou-se o palco de alguns dos momentos mais críticos da Guerra Fria. Em 1948, Stalin, que queria Berlim inteira para si, ordenou um bloqueio à parte ocidental – furado por uma ponte aérea organizada pelos americanos. Ninguém resumiu tão bem o significado de Berlim como centro de resistência ao totalitarismo comunista quanto o presidente americano John Kennedy, em visita à cidade, em 1963. Em discurso aos moradores da parte ocidental, ele disse: "Todos os homens livres, onde quer que vivam, são cidadãos de Berlim. E é assim, como um homem livre, que me orgulho dessas palavras: eu sou berlinense!".

O Muro de Berlim não teria caído em 1989 se não fosse pelo líder soviético Mikhail Gorbachev. "O russo, ele próprio às voltas com reformas na União Soviética, deu espaço às outras repúblicas comunistas do Leste Europeu para experimentarem algum tipo de abertura", diz o americano Michael Meyer, autor do livro 1989 – O Ano que Mudou o Mundo. O presidente americano Ronald Reagan, Thatcher e Kohl souberam aproveitar a disposição de Gorbachev de reduzir as tensões entre os blocos comunista e capitalista, e a nova realidade política foi interpretada da seguinte forma no Leste Europeu: "O líder soviético não está disposto a usar a força para salvar o comunismo". Em maio de 1989, Miklós Németh, o primeiro-ministro reformista da Hungria, mandou desativar a cerca elétrica na fronteira de seu país com a Áustria. Estava aberta a primeira brecha na Cortina de Ferro. Atropelado pelas reformas iniciadas nos países vizinhos e pela crescente onda de protestos, o governo da RDA ensaiou uma tímida lei que permitiria aos cidadãos viajar ao exterior. No dia 9 de novembro, ao final de uma entrevista coletiva com jornalistas ocidentais, o porta-voz do regime Gunter Schabowski comentou as novas regras para viagens. "Quando isso entra em vigor?", perguntou um jornalista. "Imediatamente", respondeu Schabowski, um pouco confuso.

Na verdade, o plano era que as viagens pudessem ser feitas a partir do dia seguinte e de maneira organizada. Mas, logo nas primeiras horas após a entrevista, uma multidão começou a se aglomerar nos postos de controle do muro e a exigir o direito de passar para o outro lado. Um chefe da guarda acabou cedendo. A festa atravessou a madrugada e continuou no dia seguinte, quando marretas e picaretas começaram a ser empregadas para arrancar os primeiros pedaços do muro. A razão imediata que levou à queda dessa barreira ignóbil foi a mesma que justificou a sua construção: o desejo dos cidadãos de deixar para trás a claustrofobia do regime comunista. Vinte anos após a queda do muro, os pés dos berlinenses ignoram as linhas que sinalizam a localização da barreira da vergonha. Eles cruzam de um lado para outro sem tomar conhecimento da extinta divisão entre leste e oeste. Não podia haver exaltação maior à liberdade.


Saiba mais http://veja.abril.com.br/111109/revolucao-que-salvou-mundo-p-126.shtml

Revista Veja