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segunda-feira, 28 de abril de 2014

Reis Magos: origens e tradições populares brasileiras


Bandeira de Folia de Reis
 Xilogravura Bumba-Meu-Boi

Cartaz da “Cabalgata de Reyes Magos” (1999, Sevilha-Espanha)


A história dos personagens cristãos e suas representações na cultura


As celebrações em louvor aos Reis Magos ocorrem basicamente entre o Natal e 6 de janeiro, dia de Santos Reis: é o terceiro momento do ciclo festivo do Natal, que se integra ao patrimônio artístico e cultural. Para alguns, esta alegre manifestação de religiosidade popular teria surgido entre nós; entretanto, ela se originou bem mais remotamente. Esses personagens bíblicos surgem no capítulo 2 do Evangelho de São Mateus, no episódio da Adoração dos Reis Magos, que a eles alude vagamente, sem especificar nomes, categorias, número ou procedência. Após meditação exegética, Apologistas e os Pais da Igreja – Gregório, Ambrósio, Jerônimo, João Crisóstomo, Agostinho e Tomás de Aquino, entre outros, formularam os primeiros dogmas e rituais cristãos e se manifestaram sobre os Magos.

No século VI, os Magos já eram considerados “Reis” e o Papa Leão I, o Grande, fixou-os em número de três. No século XII, em documento atribuído ao monge beneditino inglês Beda, surgem os nomes definitivos: Gaspar, Balthazar e Melchior, e suas descrições foram estabelecidas. Os Magos influenciaram artes e tradições populares desde os primórdios da cristandade. O pesquisador francês Gilbert Vezin, autor da obra clássica “L’Adoration et le cicle des Mages dans l’art chrétien primitif" afirma de modo categórico: “O tema da Adoração dos Magos foi o assunto mais popular e frequente que se expressou na Arte, no Oriente e no Ocidente”.

Na Idade Média, em Creccio-Itália, São Francisco de Assis concebeu, em 1223, a representação da cena da natividade (Presépio), na qual se incorpora a figura dos Reis Magos. Esta criação difundiu-se por toda a cristandade, dando notável impulso ao processo de evangelização da doutrina cristã, passando a estar também presente nos lares mais humildes em zonas rurais e pequenas localidades distantes dos aglomerados urbanos.

Surgiram também estórias e lendas envolvendo os Reis Magos, no sentido de “(...) complementar o que faltava à imaginação popular (...)”, anota o historiador de arte francês Émile Mâle, em artigo publicado nos alvores do século XX, na Gazette de Beaux-Arts. Prossegue o autor: "O povo achava os evangelhos muito suscintos(...). Nenhuma das cenas da infância de Cristo forneceu mais material para o povo que a ‘Adoração dos Magos’. Suas misteriosas figuras mostradas veladamente nos evangelhos despetavam ávida curiosidade nas pessoas.” Dentre essas histórias, sobressai o manuscrito Historia Trium Regum, de Johannes von Hildesheim, carmelita alemão e professor de teologia em Paris, publicado entre 1364-1375, para elucidar a origem dos Magos.

Seus restos mortais, transladados do Oriente para o continente europeu, estiveram desde o século VII abrigados inicialmente num modesto templo construído à época nos arredores de Milão, na Itália. A partir de 1164 seguiram para a Alemanha e encerrados numa urna dourada instalada no altar mor da Catedral de Colônia. Esta grandiosa obra de arte - ouriversaria passou a ser conhecida como “Relicário de Santos Reis”.

O assunto é...

O texto de Hildesheim mereceu ensaio crítico, na reputada coleção "Early English Text Society", em 1876, assinada por seu presidente C. Horstmann, reconhecendo “(...) o grande número de manuscritos espalhados na Inglaterra e por toda Europa cristã, o que comprova a grande popularidade do referido manuscrito”. E conclui: “(...) o assunto dos Três Reis Magos tornou-se um dos temas favoritosda Idade Média, eram os santos mais populares do mundo cristão”. Afora a Terra Santa, as peregrinações a Colônia só eram suplantadas pelas de Roma e de Santiago de Compostela.

A presença dos Magos nas artes visuais alcançou o apogeu na Renascença: artistas de muitas nacionalidades retrataram a Adoração dos Magos. Giotto di Bondone(1266-1337) representou como cometa a estrela que conduziu os Magos do Oriente a Belém, depois de o Cometa Halley passar sobre a Europa, em 1301. O próprio Leonardo da Vinci deixou pintura incompleta da Adoração dos Magos.

No domínio da música clássica, destacam-se as composições de Johann. Sebastian Bach (1685-1750), num ciclo de cantatas dedicadas à solenidade da epifania. Consta que Goethe(Johann Wolfgang von Goethe, 1749-1832), inspirado nos Magos, compôs o poema “Epiphanias”, redescobriu o manuscrito de Hildesheim, em 1818, e se empenhou em traduzi-lo para o alemão, entregando a tarefa ao poeta alemão Gustav Schwab, que não só o traduziu, mas escreveu poema para fazer parte do texto. Publicado em 1821, incorporou pequeno poema de Goethe que conclui: (...) pois, afinal, somos todos Reis Peregrinos, ao alvo querendo chegar.

No medievo, o episódio dos Magos do Oriente era representado nas igrejas européias através dos Dramas (ou Autos) Litúrgicos Medievais, Mistérios ou Officium Stellae. A dramaturgia sobre os Magos se sobressaiu como um dos temas mais apreciados para encenações segundo Karl Young ( The Dramas of the Medieval Church) e William Smoldon(The Music of the Medieval Church Dramas), reconhecidos estudiosos do teatro medieval.

Alguns Autos eram dialogados, outros musicados, como dramas musicais, óperas, ou operetas. Foram famosas as dramatizações do século XII, nas catedrais francesas de Rouen, Limoges e Besançon, cujos originais em latim ainda estão conservados na Biblioteca Nacional da França.

Na Espanha, encenava-se o Auto de los Reyes Magos, de autor desconhecido. Encontrado na Catedral de Toledo, o texto é incompleto e escrito em linguagem castellianizada e influída por el dialecto mozárabe, sendo reconstituído por Ramón Menendez de Pidal, com data provável do século XII, e considerado la pagina más antigua del teatro español.

Presume-se que esta peça se disseminou pela Península Ibérica, influenciando obras similares, abundantes nas literaturas hispânica e lusa. A propósito, cabe mencionar que na Espanha o dia de Reis permanece feriado. Retomando o ensaio de C.Horstmann, se observa um aspecto interessante nas festas medievais dos Reis Magos, de natureza nitidamente profana: “A celebração no dia de Santos Reis era solenizada com incomum alegria e esplendor, com encenações dramáticas dentro da igreja e de mascaradas(sic) fora (...)”.

Émile Male, também referendado anteriormente, registrou a tendência de popularização dos dramas litúrgicos medievais sobre os Magos: “(...) ganhavam o gosto popular e no século XIV o drama dos Magos não se representava somente nas igrejas, mas também em pleno ar livre”. Ele a ilustra, relatando o cortejo dos Reis Magos, dos dominicanos em Milão, em 1336. Esta milenar tradição voltou a ser representada em 1962, após longa interrupção.

Cidades europeias realizam cortejos similares: Florença, Sevilha e Coimbra, dentre outras. No tocante a Portugal, Luiz Francisco Rabelo na “Breve Historia do Teatro Português alude a não aceitar que: “ as manifestações místicas de Idade Média, religiosas ou profanas não houvessem chegado ao extremo ocidental da Península Ibérica”.Mais adiante, conclui:” As Ordens Religiosas que se instalaram em Portugal, certamente trouxeram consigo os mistérios”.

Assim, ordens religiosas na Espanha e em Portugal incorporaram os dramas litúrgicos dos outros países europeus para ensino e propagação da doutrina cristã. Na quadra natalina, grupos peditórios iam de casa em casa, pelas aldeias e freguesias: na Espanha, o costume dos “Villancicos” e, em Portugal, os “Cantares de Janeiras e Reis.”

As tradições populares ibéricas, como dramatizações ou grupos peditórios, foram transplantadas para o Brasil. Os jesuítas que aqui aportaram com o primeiro Governador Geral Tomé de Sousa, em 1549, utilizavam essas tradições sob forma de canto, dança e encenação, na catequese e no ensino a indígenas e colonos portugueses – reinóis. Anchieta, o precursor das letras brasileiras, formado na escola de Gil Vicente, compôs (a pedido do Padre Manuel da Nóbrega), ensaiou e representou sua peça Pregação Universal, reintitulada Na Festa de Natal, na igreja dos Jesuítas em São Paulo de Piratininga (atual cidade de São Paulo), no Natal de 1561, no Ano Novo e Dia de Reis de 1562. Nesse Auto, insere-se ato com a presença dos Reis Magos.

Sobre o auto, o Padre Armando Cardoso, em obra sobre o teatro anchietano, assegura que a peça foi encenada noutros núcleos jesuítas, no litoral brasileiro. Um deles, o dos Reis Magos, localizava-se no Espírito Santo, 20 km ao norte de Vitória - atual localidade de Nova Almeida -, sendo aí erigida a igreja dos Reis Magos, marco jesuítico do Brasil, tombado pelo IPHAN, em 1943.

Outro registro consta do Compêndio Narrativo do Peregrino da América, de Nuno Marques Pereira, citado por Luiz da Câmara Cascudo: “desses grupos pedindo os Reis (no sentido de oferta) na Bahia, na segunda metade do século XVII”. Do Compêndio, o etnógrafo português Leite de Vasconcellos extraiu comentário sobre a presença de mascarados(sic) nas peças jesuítas.

Graciliano Ramos, atento observador de nossos costumes, no conto Um Natal, escreveu:
“O Natal, festa profana, alcança duas outras; Ano Bom e Reis. Começa dia 24 de dezembro e termina 6 de janeiro, representa uma solução de continuidade nas aperreações do sertanejo”. Assim, entre nós, as tradições populares dos Reis Magos derivam de manifestações ibéricas, em rituais litúrgicos e paralitúrgicos que sofreram influências locais, regionais e étnicas. Realizados no interior das igrejas, pouco a pouco, foram se popularizando no meio rural, praças e ruas. No Brasil, são designados por Reisados, “festejam o Natal e os Reis”, segundo Câmara Cascudo. Compreendem: Folias ou Companhias de Reis, Tiração de Reis, Presépio,Pastor, Pastorinhas, Pastoris e o Bumba meu boi do nordeste oriental.

Há, ainda: Cavalo Marinho, Boi de Reis,Reis de Boi, Terno de Reis (baiano e sulino), Reiadas e outras mais expressões dessa tradição popular, disseminada por quase todo território brasileiro.


Affonso M. Furtado da Silva é vice-presidente da Comissão Nacional de Folclore, membro do Conselho Estadual de Cultura/RJ e autor de Reis Magos: história, arte e tradições (Léo
Christiano Editoria)

Colaboração de Affonso M. Furtado da Silva 
 http://www.cultura.rj.gov.br

terça-feira, 27 de setembro de 2011

SERES SOBRENATURAIS: TUTU


Entidade com que se mete medo às crianças quando choram. É roncador. A forma em que o idealizam na Bahia é a de um catitu ou porco do mato. Deste primeiro nome talvez se originasse o termo Tutu, que é popular em todo o Brasil. Ouvi porém dizer que é voz africana e que era usada pelas amas negras. Na Bahia também Tutu-cambê: Olhe o Tutu!... E vem ele! Quando os meninos choram o Tutu vem comer eles... não chore não!

O Tutu-Cambê é um bicho muito feio e só come os meninos bonitos... Aé vem o Tutu!...

Às vezes o Tutu-Cambê, fazendo a devida roncaria, aparece. Para isso cobre-se uma pessoa com um pano andando devagar e roncando.

O Tutu com facilidade se enxota: basta bater-se com o pé no chão e dizer-se: Xô!... Tutu, vai-te embora que o menino não chora mais.

No sul da província de Minas Gerais o Tutu anda oculto atrás das portas e a sua voz é de trovão. Aí é frase popular: "Oia Tutu qui vem comê minino... não como meu fio não, não leva meu fio não, Tutu!...

O Tutu do povo brasileiro é idêntico ao Papão e à Coca de Portugal.

Nas cantigas com que as amas costumam acalentar às crianças quase sempre entra o Tutu. São elas as mais das vezes cantadas de improviso e por isso em muitas nota-se-lhes os defeitos da rima. A seguinte é popular na Bahia; dou-o como documento, porque se refere principalmente ao Tutu-Zambê ou Cambê:

Tutu Zambê

Vem papá sinhazinha;
Tutu vá s’imbora
Sinhazinha ‘stá dormindo.

Tutu Zambê
Vem papá iaiazinha,
Bébe, aí, boi,
Iaiazinha ‘stá dormindo,
Tutu vá ‘s’embora.

Evem o Tutu
Por detrás do murungu,
Pra comer sinhazinha
C’um pedacinho de angu.

Cala a boca, Iaiazinha,
Que seu pai já vem já,
Foi buscar timão de seda,
Forrado de tafetá.

No interior da província do Rio de Janeiro cantam monotonamente as pretas, umas quadrinhas para fazerem as crianças dormir. Uma delas diz assim:

Tutu vá s’embora
Pra cima do telhado,
Deixa o nhonhô
Dormir sossegado.

O senhor doutor Sílvio Romero nos seus Cantos populares do Brasil, v. 1, sob nº 181, coligiu no Rio de Janeiro uma canção que termina com a seguinte estrofe:

Tu-tu-ru-tu-tu
Lá detrás do murundu...
Teu pai e tua mãe
Que te comam com angu.

Também a ouvi cantar no Rio de Janeiro desgarrada da estrofe que a antecede na coleção do senhor doutor Sílvio Romero apenas com variante no segundo verso, que diz:

- Por detrás do murundu...

Na província do Rio de Janeiro igualmente coligi a canção do Tutu, que é muito popular entre as amas negras para acalentar as crianças e que apenas se reduz a estes versos:

Tu-ru-tu-tu
Do velho murundu,
Agarra este menino
Comei-o com angu.

Em Campos, ainda na província do Rio de Janeiro, são populares estas duas estrofes:

Tu-tu-ru-tu
Senhor Capitão,
Pegai este menino
Comei com feijão.

Tu-tu-ru-tu
Por detrás do murundu,
Pegai este menino
Comei com angu.

Ora, como se vê na Bahia diz-se murungu que rima perfeitamente nas canções com "angu", voz africana, e no Rio de Janeiro, murundu, que dão como significação de um pequeno monte, por detrás do qual se acha o Tutu.

Murungu é palavra guarani ou tupi e nome de árvore natural do país, da família das leguminosas (Erythrina corallodendron, Linn). Na Bahia é este o nome que lhe dão; mas no Rio de Janeiro, Maranhão, Pernambuco e Alagoas - o de mulungu. Como o tijim ou jequiriti, a semente desta árvore é muito popular entre as crianças pela beleza de sua cor vermelha. Ainda na farmácia brasileira o murungu é empregado. Trata-se pois de uma árvore cujo nome é constantemente pronunciado com a maior clareza.

Entre os brasileiros é freqüente, como lapso de língua, ouvir-se a transformação do l em r e vice-versa. Se porém a palavra murungu da canção da Bahia é brasileira ou corrupção de murundu das do Rio de Janeiro e esta mulundia africana (mbunda ou angolense), que significa exatamente monte, segundo Cannecattin no Dicionário da língua bunda ou angolense, é o que não posso resolver.

Entretanto se na Bahia é realmente palavra Zambê que aduzem ao Tutu e não Cambê (que pode também ser voz africana ou tupi ou ainda corrupção de "comer" português) e se o murungu da canção é a voz mbunda mulundu alterada, é provável o Tutu brasileiro, mas herdado da raça africana.

Zambê será corrupção de Zambi, palavra angolense que significa Deus? ou de Zumbi, voz também angolense que quer dizer alma do outro mundo? Cambé pode talvez ser corrupção do Tambi, que segundo Batista Caetano significa pêlo erguido; e como na Bahia dão ao Tutu a forma de porco do mato, é natural que o seu cabelo seja erguido, eriçado, como o tem o catitu quando está zangado. Em umas notas que possuo tomadas pelo doutor Batista Caetano do velho caboclo Pedro João Vieira, na antiga aldeia de São José dos Campos, acham-se as palavras Cambê (kamby, ort. de Bat. Caet.) significando leite, e Cambu, mamar. No Vocabulário impresso de Batista Caetano encontra-se além de cambi, leite e cambu, mamar, o verbo cambi, que significa magoar, ofender, machucar, etc. Não se deve ainda esquecer dizer que Camba, voz angolense, significa amigo.

De parte a parte, das raças indígenas e africana, apareciam objetos, trajes, costumes e crenças novas que não tinham equivalente na linguagem dos invasores. A língua dos indígenas de todo o litoral era o tupi, mas a dos negros compreendia diversos grupos formados por idiomas particulares. Daí era grande a confusão de línguas africanas para poder entrar com mais facilidade maior número de palavras, na formação da linguagem brasileira. É costume nosso dizermos de qualquer palavra dos negros da Africa – É voz africana, sem contudo procurarmos designar ou indagar a que língua ou idioma pertence ela. É o mesmo que se dizer - É voz americana, referindo-se a algum termo dos povos indígenas da América, expressão vaga e que não se aplica senão ao continente a que ela se filia. Assim nos primeiros tempos da introdução dos negros as diversas línguas africanas andavam muito em voga, juntamente com o tupi, de modo que a linguagem falada era quase sempre mesclada de vozes que só os naturais e habitantes da terra compreendiam. Muitos desses vocábulos, como se sabe, ainda hoje permanecem; outros porém desapareceram de todo e de alguns que vão aparecendo nos documentos manuscritos até se desconhece o sentido. Não havia dicionaristas da língua portuguesa que o fosse coligindo, só mais tarde o brasileiro Morais e Silva foi que recolheu alguns para o seu dicionário. Aí estão por exemplo as produções do poeta Gregório de Matos, em parte publicadas ultimamente, em que se deparam dezenas de vocábulos por ele empregados, que hoje não se sabe qual a sua origem e o seu verdadeiro sentido. Apesar disso o poeta baiano como lingüista presta auxilio poderoso à linguagem brasileira. É o escritor que nos dá a idéia mais exata do modo de falar e escrever no Brasil no XVII século. O seu vocabulário é riquíssimo, principalmente em locuções e termos populares da Bahia e de Pernambuco, sem excetuar, já os de origem guarani, já os derivados das línguas africanas, e é o único documento daquele século que possuímos neste gênero de estudos.

É pois constante a dúvida de se saber ao certo a língua a que pertence esta ou aquela voz alterada que se encontra na escrita antiga ou mesmo muito popularizada na linguagem da família brasileira.

Hoje é que se discute a procedência das palavras mazombo, mameluco, emboaba, cafuz, cabo-verde, curiboca, carioca e outras muitas. O doutor Batista Caetano, o nosso saudoso Mestre, cuja perda será sempre lamentada por todos os que se interessam por estes assuntos, descobriu visos que a palavra carapuça era abañeênga ou guarani, procurando dar-lhe a etimologia; mas quando leu na carta de Vaz de Caminha que a tripulação da armada de Cabral, que descobriu o Brasil, distribuiu carapuças aos naturais da terra, antes que tivessem os portugueses qualquer contato com eles, viu que tinha caído em erro, erro que o Mestre muito se doía.

A que língua pois pertence a voz Tutu, se de origem africana ou tupi, ou se inteiramente brasileira, e o que não se sabe por ora.


(Vale Cabral. Alfredo do. "Achegas ao estudo do folclore". Em Cascudo, Luís da Câmara. Antologia do folclore brasileiro)

segunda-feira, 21 de março de 2011

Mula-Sem-Cabeça


Castigo da mulher do padre

Da Página 3 Pedagogia & Comunicação
Nas noites de quinta para sexta-feira, uma jovem mulher se transforma na fantástica mula-sem-cabeça, de cujas narinas jorram labaredas incandescentes. Ela está condenada a essa maldição por ter seduzido e se relacionado com um padre, sacerdote católico que fez voto de castidade. Assim a transformação é um castigo pelo pecado cometido por ela.

Esse mito do folclore brasileiro tem origem na península Ibérica e foi trazido pelos colonizadores portugueses para o Brasil, onde se espalhou no imaginário popular. A versão mais comum é justamente a de uma mulher que manteve relações com um padre e que, amaldiçoada por isso, passa a transformar-se em uma mula-sem-cabeça e galopar por diversos povoados, espalhando terror por onde passa. Pela manhã é encontrada chorando, arrependida, já em sua forma humana, nua, e sem recordar-se do terror que espalhou.

"A violência do galope e a estridência do relincho são ouvidas ao longe. Às vezes, soluça como uma criatura humana" conta o folclorista Luís da Câmara Cascudo, em seu "Dicionário de Folclore Brasileiro". Segundo ele, a tradição comum mostra que esse castigo acompanha a amante do padre durante o período que dura o relacionamento dos dois. Ainda segundo o folclorista, há versões que misturam essa lenda com a do lobisomem e dizem que a transformação só ocorre em noites de lua cheia.

As lendas dizem que, se alguém tiver coragem de domar a mula-sem-cabeça e conseguir montá-la a pelo, basta lhe tirar o freio que ela volta à forma humana. Enquanto o cavaleiro permanecer nas mesmas redondezas, ela não vai voltar a se transformar-se. Outras variantes dizem que ela se livra do encantamento, se o padre que foi seu amante renegá-la e amaldiçoá-la sete vezes antes de celebrar a missa.

Um dos elementos mais interessantes do mito é o fato de que as versões dão conta de que a mula, apesar de não ter cabeça, solta fogo pelas "ventas", isto é, pelas narinas. Trata-se de um paradoxo, de um absurdo, pois quem não tem cabeça não tem narinas. Naturalmente, isso reforça o caráter extraordinário ou sobrenatural da personagem.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

As lendas brasileiras – Folclore

lendas01 O folclore brasileiro é rico em lendas, geralmente associadas à natureza. Algumas dessas histórias chegaram aqui com os povos que colonizaram nossas terras, como os portugueses. Outras nasceram com os índios, súditos por excelência da mãe Natureza.

As lendas são histórias populares, que vão passando de geração em geração através de narrativas orais ou escritas.

A Erva-Mateerva mate

Diz a lenda que toda tribo tinha partido para a guerra. Mas um homem, por causa de sua idade avançada, teve que ficar. E ele ficou chorando no alto de uma colina, vendo os jovens guerreiros partirem. Ele se lembrava de quando ele era um valente guerreiro e como, agora, estava fraco e envelhecido. Sua única alegria era sua filha Iari. Ela já tinha recusado muitos pedidos de casamento para ficar ao lado do velho pai. Um dia, chegou ao rancho do velho guarani um viageiro estranho: com roupas coloridas e olhos lembrando o azul do céu longínquo. O velho logo percebeu que o homem vinha de muito longe e recebeu o viageiro com amizade. Iari foi buscar os melhores frutos da floresta e o mel mais doce das abelhas. O velho índio, com os olhos cerrados para melhor lembrar histórias de um mundo afastado no tempo, recordava episódios de sua mocidade. Tudo era feito para que as horas que o estrangeiro passasse naquele rancho fossem agradáveis. No outro dia, com o sol raiando, o viajante já estava pronto para partir. Dirigiu-se então ao velho índio e disse: – Você é uma pessoa muito boa. E a sua bondade merece ser recompensada. Eu sou um mensageiro de Tupã, espírito do bem. Pede o que quiser e eu lhe darei. – Nada mereço pelo que fiz, senhor! – respondeu o guarani. Mas gostaria de um companheiro para a minha velhice, para que minha filha Iari pudesse casar e formar sua própria família. É só o que eu peço: um amigo fiel que fique comigo e me dê ânimo. O mensageiro de Tupã sorriu. Em suas mãos brilhava uma planta repleta de folhagens verdes. O viageiro entregou a planta ao velho e disse: – Deixa crescer esta planta e bebe de suas folhas que você vai ter o companheiro que tanto deseja. Esta erva traz em si a força de Tupã e trará conforto para todos os homens de tua tribo. E Iari será a protetora das florestas. As caminhadas de guerra serão menos cansativas e os dias de descanso mais felizes. E desde então, Caá-Iari é senhora dos ervais e deusa dos ervateiros.

mandiocaA Mandioca

Em uma certa tribo indígena a filha do cacique ficou grávida. Quando o cacique soube deste fato ficou muito triste, pois sonhava que a sua filha iria se casar com um forte e ilustre guerreiro, no entanto, ela estava esperando um filho de um desconhecido. À noite, o cacique sonhou que um homem branco aparecia em sua frente e dizia para que ele não ficasse triste, pois sua filha não o enganará, ela continuava sendo pura. A partir deste dia o cacique voltou a ser alegre e a tratar bem sua filha. Algumas luas se passaram e a índia deu a luz a uma linda menina de pele muito branca e delicada, que recebeu o nome de MANI. Mani era uma criança muito inteligente e alegre, sendo muito querida por todos da tribo. Um dia, em uma manhã ensolarada, Mani não acordou cedo como de costume. Sua mãe foi acordá-la e a encontrou morta. A índia desesperada resolveu enterrá-la dentro da maloca. Todos os dias a cova de Mani era regada pelas lágrimas saudosas de sua mãe. Um dia quando a mãe de Mani foi até a cova para regá-la novamente com suas lágrimas, percebeu que uma bela planta havia nascido naquele local. Era uma planta totalmente diferente das demais e desconhecida de todos os índios da floresta. A mãe de Mani começou a cuidar desta plantinha com todo carinho, até que um dia percebeu que a terra à sua volta apresentava rachaduras. A índia imaginou que sua filha estava voltando á vida e, cheia de esperanças, começou a cavar a terra. Em lugar de sua querida filhinha encontrou raízes muito grossas, brancas como o leite, que vieram a tornar-se o alimento principal de todas as tribos indígenas. Em sua homenagem deram o nome de MANDIOCA, que quer dizer Casa de Mani.

MuiraQuitãmuiraquita

Antigamente havia uma tribo de mulheres guerreiras, as ICAMIABAS, que não tinham marido e não deixavam ninguém se aproximar de sua taba. Manejavam o arco e a flecha com uma perícia extraordinária. Parece que Iací , a lua, as protegia. Uma vez por ano recebiam em sua taba os guerreiros Guacaris, como se fossem seus maridos. Se nascesse uma criança masculina era entregue aos guerreiros para criá-los, se fosse uma menina ficavam com ela. Naquele dia especial, pouco antes da meia – noite, quando a lua estava quase a pino, dirigiam-se em procissão para o lago, levando nos ombros potes cheios de perfumes que derramavam na água para o banho purificador. À meia- noite mergulhavam no lago e traziam um barro verde, dando formas variadas: de sapo, peixe, tartaruga e outros animais. Mas é a forma de sapo a mais representada por ser a mais original. Elas davam aos Guacaris, que traziam pendurados em seu pescoço, enfiados numa trança de cabelos das noivas, como um amuleto. Até hoje acredita-se que o Muiraquitã traz felicidades a quem o possui, sendo, portanto, considerado como um amuleto de sorte.

diamante potiraOs Diamantes

Segundo a lenda, um casal de índios vivia, juntamente com sua tribo, à beira de um rio da região Centro-Oeste. Ele, um guerreiro poderoso e valente, chamava-se Itagibá, que significa “braço forte”. Ela, uma jovem e bela moça, tinha o nome de Potira, que quer dizer “flor”. Viviam os dois muito felizes, quando sua tribo foi atacada por outros selvagens da vizinhança. Começou a guerra e Itagibá teve que acompanhar os outros guerreiros que iam lutar contra o inimigo. Quando se despediram, Potira não deixou cair uma só lágrima, mas seguiu, com o olhar muito triste, o marido que se afastava em sua canoa que descia o rio. Todos os dias, Potira, com muita saudade, ia para a margem do rio, esperar o esposo. Passou-se muito tempo. Quando os guerreiros da tribo regressaram à sua taba, Itagibá não estava entre eles. Potira soube, então, que seu marido morreu lutando bravamente. Ao receber essa notícia, a jovem índia chorou muito. E passou o resto da vida a chorar. Tupã, o deus dos indíos, ficou com dó e transformou as lágrimas de Potira em diamantes, que se misturaram com a areia do rio. É por isso, dizem, que os diamantes são encontrados entre os cascalhos e areias do rio. Os diamantes são as lágrimas de saudade e de amor da índia Potira.

O Fogolenda do fogo Minara

Esta lenda e representada por Minarã, índio que guardava somente para si os segredos do fogo e somente havia uma lareira em toda a terra conhecida pelos Caiangangues. A luz e o calor vinham só do sol. Não havia recurso contra o frio e os alimentos eram comidos crus. Sua cabana era constantemente vigiada e sua filha, Iaravi, era quem mantinha o fogo sempre aceso. Os Caiangangues, porém, não desistiam de saber o segredo do fogo também. Necessitavam do fogo para sua sobrevivência e não se conformavam com a atitude egoísta de Minarã. Foi assim que Fiietó, inteligente e astuto jovem da tribo, decidiu tirar de Miranã o segredo do fogo. Transformado em gralha branca- Xakxó- partiu voando para o local da cabana e viu que Iaravi banhava-se na águas do Gôio-Xopin, rio largo e translúcido. Fiietó lançou-se no rio e deixou-se levar pela correnteza disfarçado de gralha. A jovem índia fez o que Fiietó previa. Pegou a gralha e levou-a para dentro da cabana e colocou-a junto à lareira. Quando secou suas penas, a gralha pegou uma brasa e fugiu. Minarã, sabendo do ocorrido, perseguiu a gralha que se escondeu numa toca entre as pedras. Minarã chuçou a toca até que viu a vara ficar manchada de sangue. Pensando que havia matado Xakxó, regressou contente à sua cabana. De fato, a vara ficou manchada de sangue porque Fiietó, esperto, esmurrara seu próprio nariz para enganar o índio egoísta. Saindo de seu esconderijo, a gralha voou até um pinheiro. Ali reacendeu a brasa quase extinta e com ela incendiou um ramo de sapé levando-o também no bico. Mas com o vento, o ramo incendiou-se cada vez mais e, pesado, caiu do bico de Xakxó. Ao cair atingiu o campo e propagou-se para as matas e florestas distantes. Veio a noite e tudo continuou claro como o dia. Foi assim dias e dias. De todas as partes vieram índios que nunca tinham visto tamanho espetáculo e cada um levou brasas e tições para suas casas.

peixe boiO Peixe-Boi

Para explicar a origem do Peixe-Boi os índios contavam uma lenda que dizia que em uma certa tribo indígena, habitante do vale do Rio Solimões, no Amazonas, foi realizada uma grande festa da moça nova e pela ação de Curumi. O pajé mandou que a moça nova e o Curumi mergulhassem nas águas do rio. Quando mergulharam o pajé jogou, em cima de cada um deles, uma tala de canarana. Quando voltaram à tona já haviam se transformado em PEIXE-BOI.

A partir deste casal nasceram todos os outros peixes-boi. É por esse motivo que eles se alimentam de canarana.

Os Rioslenda-do-rio-

A origem dos rios Xingu e Amazonas também faz parte do imaginário indígena. Dizem que antigamente era tudo seco. Juruna morava dentro do mato e não tinha água nem rio. Juriti era a dona da água, que a guardava em três tambores.

Os filhos de Cinaã estavam com sede e foram pedir água para o passarinho, que não deu e disse: “Seu pai é Pajé muito grande, porque não dá água para vocês?” Aí voltaram para casa chorando muito. Cinaã perguntou porque estavam chorando e eles contaram.

Cinaã disse para eles não irem mais lá que era perigoso, tinha peixe dentro dos tambores. Mas eles foram assim mesmo e quebraram os tambores. Quando a água saiu, Juriti virou bicho. Os irmãos pularam longe, mas o peixe grande que estava lá dentro engoliu Rubiatá (um dos irmãos) , que ficou com as pernas fora da boca.

Os outros dois irmãos começaram a correr e foram fazendo rios e cachoeiras. O peixe grande foi atrás levando água e fazendo o rio Xingu. Continuaram até chegar no Amazonas. Lá os irmãos pegaram Rubiatá, que estava morto. Cortaram suas pernas, pegaram o sangue e sopraram. Rubiatá virou gente novamente. Depois eles sopraram a água lá no Amazonas e o rio ficou muito largo. Voltaram para casa e disseram que haviam quebrado os tambores e que teriam água por toda a vida para beber.

Tamba-Tajatamba taja

Na tribo Macuxi havia um índio forte e muito inteligente. Um dia ele se apaixonou por uma bela índia de sua aldeia. Casaram-se logo depois e viviam muito felizes, até que um dia a índia ficou gravemente doente e paralítica. O índio Macuxi, para não se separar de sua amada, teceu uma tipóia e amarrou a índia à sua costa, levando-a para todos os lugares em que andava. Certo dia, porém, o índio sentiu que sua carga estava mais pesada que o normal e, qual não foi sua tristeza, quando desamarrou a tipóia e constatou que a sua esposa tão querida estava morta. O índio foi à floresta e cavou um buraco à beira de um igarapé. Enterrou-se junto com a índia, pois para ele não havia mais razão para continuar vivendo. Algumas luas se passaram. Chegou a lua cheia e naquele mesmo local começou a brotar na terra uma graciosa planta, espécie totalmente diferente e desconhecida de todos os índios Macuxis. Era a TAMBA-TAJÁ, planta de folhas triangulares, de cor verde escura, trazendo em seu verso uma outra folha de tamanho reduzido, cujo formato se assemelha ao órgão genital feminino. A união das duas folhas simboliza o grande amor existente entre o casal da tribo Macuxi. O caboclo da Amazônia costuma cultivar esta curiosa planta, atribuindo a ela poderes místicos. Se, por exemplo, em uma determinada casa a planta crescer viçosa com folhas exuberantes, trazendo no seu verso a folha menor, é sinal que existe muito amor naquela casa. Mas se nas folhas grandes não existirem as pequeninas, não há amor naquele lar. Também se a planta apresenta mais de uma folhinha em seu verso, acredita-se então que existe infidelidade entre o casal. De qualquer modo, vale a pena cultivar em casa um pezinho de TAMBA-TAJÁ.

Diz a lenda que uma linda jovem da cidade de Anan tinha como diversão predileta fazer penar duras paixões em numerosos admiradores. Por um sorriso de Hoan-Lan, era este o seu nome, o jovem Kien-Su tinha cinzelado o ouro mais fino e trabalhado com infinita paciência as mais lindas pegas de jade. Depois de adornar-se com todos os presentes, a ingrata Hoan-Lan riu-se do rapaz. Desesperado, Kien-Su acabou com a própria vida, jogando-se no Rio Vermelho. Assim foi com vários pretendentes, como o pintor Nzuyen-Ba, que penetrou selva adentro, Ma-Da, que se envenenou e Cunz-Lie, que enlouqueceu. Todos por terem sido desprezados por Hoan-Lan. Um certo dia, o poderoso deus das cinco flechas decidiu castigar a maldade da bela mulher. O castigo escolhido foi fazer com que ela se apaixonasse perdidamente pelo belo Mun-Say. E assim aconteceu: em seu leito de nácar e sedas bordadas, Hoan-Lan desesperava-se com a indiferença de Mun-Say, que sempre respondia: – Não me interessas, rapariga. És como todas as outras, não serve nem para atar as fitas da sandália da mulher que amo. Perturbada, Hoan-Lan foi procurar o deus da montanha de Tan-Vien, no meio de uma noite escura. Ao chegar junto ao trono de ônix do poderoso gênio, ela prostrou-se e implorou: – Cura-me pois sofro horrorosamente. Amo Mun-Say e ele me despreza. – É justo o castigo, respondeu o gênio, porque tens feito o mesmo aos teus apaixonados. Vai-te daqui. Nada conseguirá. Na saída do templo, Hoan-Lan encontrou-se com uma bruxa de pés de cabra. – Formosa jovem, disse a bruxa, sei que és muito desgraçada. Queres vingar-te de Mun-Say? Vende-me tua alma e juro-te que mesmo que nunca te ame, Mun-Say não amará outra mulher. Hoan-Lan aceitou o contrato. A bruxa fez um feitiço com uma folha de palmeira e enterrou-a. Pronunciou então umas palavras desconhecidas e desapareceu. Um dia, vendo de longe seu amado Mun-Say, Hoan-Lan correu para ele e, quando se preparava para abraçá-lo, o jovem transformou-se numa árvore de ébano. Nesse momento, apareceu a bruxa que, soltando uma gargalhada, disse a Hoan-Lan. – Dessa maneira, o teu amado, embora nunca te ame, jamais será de outra mulher. – Bruxa infame, exclamou a jovem, que fizeste ao meu adorado? Devolva-me ou mate-me. – Contratos são contratos, replicou a bruxa. Cumpri o que prometi. Tua alma me pertence. E, soltando uma última gargalhada, desapareceu. Hoan-Lan caiu chorando ao pé da árvore: “Perdoa-me, Mun-Say. Tenha para mim uma só palavra de amor, de indulgência, de compaixão. Não vês como me arrasto a teus pés, como sofro?” Mas a árvore nada respondia. Ela ficou parada ali durante muito tempo. Um dia, passou por lá um gênio que se compadeceu de sua dor. Acercando-se dela, colocou um dedo em sua testa e disse: – Mulher, procedeste muito mal, mas tua dor purificou tua alma. Estás perdoada e vai deixar de sofrer. Antes que a bruxa venha buscar tua alma, vou converter-te numa flor. Ficarás sendo, no entanto, esquisita e requintada, revelando o que foi tua vida maldosa. Quem vir tuas pétalas facilmente adivinhará o que foi teu espírito caprichoso, volúvel e cruel, a tua preocupação constante com a elegância. Concedo-te um bem: não te separarás do bem que adoras e viverás de tua seiva, parasita do teu amado. Enquanto o gênio falava, a túnica rósea de Hoan-Lan ia empalidecendo e tomando uma delicada cor lilás. Os olhos da jovem brilhavam como pontos de ouro e suas carnes tomaram a tonalidade de nácar. Os seus formosos braços enrolaram-se na árvore, numa derradeira súplica. E foi assim que apareceu a primeira orquídea no mundo.

A LuaLenda da Lua

Naquele tempo não existiam estrelas ou lua. E a noite era tão escura que todos se encolhiam dentro de casa com medo dela. Na tribo, só uma índia não tinha medo. Ela era uma índia clara e muito bonita, mas era diferente das outras. E por ser diferente, nenhum índio queria namorar com ela, e as índias não conversavam com ela. Sentindo-se só, começou a andar pelas noites. Todos ficavam surpresos com aquilo, e quando ela voltava, dizia a todos que não havia perigo. Mas havia outra índia, feia e escura, que ficou com inveja da índia clara. E por isso, tentou sair uma noite também. Mas não conseguiu enxergar na escuridão e tropeçou nas pedras, cortou os pés nos gravetos e se assustou com os morcegos. Cheia de raiva, foi conversar com a cascavel. – Cascavel, quero que morda o calcanhar da índia branca para que ela fique escura, feia e velha, e que ninguém mais goste dela. Na mesma hora, a cascavel se pôs a esperar a índia clara. Quando ela passou, deu o bote. Mas a índia tinha os pés calçados com duas conchas e os dentes da cobra se quebraram. A cobra começou a amaldiçoá-la e a índia perguntou porque ia fazer aquilo com ela. A cascavel respondeu: – Porque a índia escura mandou. Ela não gosta de você e quer que você fique escura, feia e velha. A índia branca ficou muito triste com tudo aquilo. Não poderia viver com pessoas que não gostassem dela. E não agüentava mais ser diferente dos outros índios, tão branca e sem medo do escuro. Então, fez uma linda escada de cipós e pediu para que sua amiga coruja a amarasse no céu. Subiu tanto, que ao chegar ao céu estava exausta. Então dormiu numa nuvem e se transformou num belíssim astro redondo e iluminado. Era a lua. A índia escura olhou para ela e ficou cega. Foi se esconder com a cascavel em um buraco. E os índios adoraram a lua, que iluminava suas noites, e sonharam em construir outra escada para poder ir ao céu encontrar a bela índia.

acaiO Açai

Há muito tempo atrás, quando ainda não existia a cidade de Belém, vivia neste local uma tribo indígena muito numerosa. Como os alimentos eram escassos, tornava-se muito difícil conseguir comida para todos os índios da tribo. Então o cacique Itaki tomou uma decisão muito cruel. Resolveu que a partir daquele dia todas as crianças que nascessem seriam sacrificadas para evitar o aumento populacional de sua tribo. Até que um dia a filha do cacique, chamada IAÇÃ, deu à luz uma bonita menina, que também teve de ser sacrificada. IAÇÃ ficou desesperada, chorava todas as noites de saudades de sua filhinha. Ficou vários dias enclausurada em sua tenda e pediu à Tupã que mostrasse ao seu pai outra maneira de ajudar seu povo, sem o sacrifício das crianças. Certa noite de lua IAÇÃ ouviu um choro de criança. Aproximou-se da porta de sua oca e viu sua linda filhinha sorridente, ao pé de uma esbelta palmeira. Inicialmente ficou estática, mas logo depois, lançou-se em direção à filha, abraçando – a . Porém misteriosamente sua filha desapareceu. IAÇÃ, inconsolável, chorou muito até desfalecer. No dia seguinte seu corpo foi encontrado abraçado ao tronco da palmeira, porém no rosto trazia ainda um sorriso de felicidade e seus olhos negros fitavam o alto da palmeira, que estava carregada de frutinhos escuros. Itaki então mandou que apanhassem os frutos em alguidar de madeira, obtendo um vinho avermelhado que batizou de AÇAÍ, em homenagem a sua filha (IAÇÃ invertido). Alimentou seu povo e, a partir deste dia, suspendeu sua ordem de sacrificar as crianças.

O guaranálenda-do-guarana

É representada por uma criança que uma tribo de índios da Amazônia que acreditava era conhecida por ter muitos índios fortes e corajosos, por sempre ter muita caça e uma plantação maravilhosa. Os índios da tribo eram muito felizes, e acreditavam que toda aquela sorte era por causa do jovem filho do cacique. A criança era cercada de cuidados e sempre tinha gente vigiando para que nenhum mal lhe acontecesse. Mas um dia, os guerreiros se descuidaram e o menino saiu para brincar na floresta. Índios de uma tribo inimiga, com muita inveja da sorte dos índios da outra aldeia, aproveitaram a situação e chamaram o espírito do mal, Jurupaí. – Jurupaí, espírito do mal! Nós precisamos de sua ajuda. – E o que vocês querem de mim? – Queremos que acabe com a felicidade daquela tribo inimiga. Mate o indiozinho filho do cacique! Jurupaí, que adorava fazer o mal, transformou-se em cobra, procurou o menino e o picou. Os índios encontraram-no morto, e choraram muito sua perda. Tristes, chemaram por Tupã, espírito do bem. Tupã escutou as lamentações e veio em socorro da tribo. – Vocês me chamaram e eu vim. Não se entristeçam por causa da morte do indiozinho. Plantem seus olhos na terra fofa e reguem com suas lágrimas. Assim, o menino, e a sorte que ele trazia, continuarão com vocês! Assim os índios fizeram. Em poucos dias, nasceu um plantinha travessa, que logo cresceu e deu frutos. E seus frutos pareciam os olhos do pequeno menino. Aquela frutinha continuou dando sorte para a tribo, fortalecendo os fracos, conservando os jovens e rejuvenescendo os velhos. Era o guaraná.


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