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segunda-feira, 18 de março de 2013

Notícias História Viva

Túmulos contam histórias de SP por meio de esculturas e desenhos

RENATA MIRANDA

Um palco cinza com uma cortina verde de concreto chama a atenção em meio aos tradicionais crucifixos e mensagens religiosas espalhadas pelos túmulos do cemitério São Paulo, em Pinheiros, zona oeste. Desde meados dos anos 1950, descansam ali, no Mausoléu do Ator, 26 personalidades do meio artístico, entre comediantes, circenses e radialistas que atuaram na capital no início do século 20.
O mausoléu é apenas um entre centenas de túmulos curiosos --seja pelos detalhes incomuns que os ornamentam ou pelas suntuosas esculturas de artistas renomados que os enfeitam--, presentes nos 41 cemitérios públicos e privados da capital. Nos locais, personalidades das histórias paulistana e nacional dividem a atenção com desconhecidos que, às vezes, têm túmulos até mais interessantes que os vizinhos.

A poucos metros de onde estão enterrados os artistas, também no cemitério São Paulo, fica o Mausoléu dos Esportistas Veteranos, onde está o corpo do jogador Arthur Friedenreich, uma das primeiras estrelas do futebol paulista. O túmulo é uma celebração ao esporte e tem, além de desenhos de esportistas, uma escultura de um atleta com os músculos torneados segurando uma espécie de tocha olímpica.
Ilustração Eduardo Medeiros 

A cerca de cinco quilômetros dali, o cemitério da Consolação funciona como um museu a céu aberto, com mais de 300 obras de escultores famosos como Victor Brecheret e Bruno Giorgi.

"As pessoas costumam associar cemitério com morte, mas, se formos observar esses locais pelo lado da cultura, podemos aprender muito sobre a história da cidade", diz o jornalista Douglas Nascimento, editor do site São Paulo Antiga (www.saopauloantiga.com.br ), que investiga casos curiosos da capital.

Foi com esse intuito que o Serviço Funerário do município decidiu organizar visitas monitoradas ao local, onde estão enterrados nomes como Monteiro Lobato e Mário de Andrade. É ali também que está o mausoléu da família Matarazzo, que, com uma série de esculturas, é considerado um dos maiores da América Latina.

O geógrafo e historiador Eduardo Rezende acredita, porém, que ainda falta um programa mais amplo de monitoria que englobe outros cemitérios. "O paulistano deveria fazer mais esse tipo de visita para conhecer a história da cidade", diz Rezende, que pesquisa o assunto há dez anos e já lançou oito livros sobre o tema. "Tem gente que já visitou o Père-Lachaise, em Paris, mas nunca foi até o cemitério do Araçá."

No cemitério da Quarta Parada, na zona leste, um monumento com colunas de estilo romano e uma escultura de leão deitado não chama atenção só pela imponência mas também por sua história. Ali está enterrada uma domadora que morreu em serviço. Seu nome e a data de morte são uma incógnita, já que a placa foi furtada.

Outro túmulo que atrai um grande número de visitantes é o do morador de rua Antonio Bento, mais conhecido como o santo popular Bento do Portão, no cemitério de Santo Amaro, zona sul. Conhecido por realizar milagres, ele tem sua sepultura coberta de placas de agradecimento.

"Hoje em dia quase não temos mais túmulos assim porque, além de custar muito caro, não há mais artistas especializados nesse tipo de escultura", afirma Nascimento, do São Paulo Antiga.

Não são só os enfeites dos túmulos que têm preços altos --as concessões dos terrenos também não são nada baratas. O valor do metro quadrado nos cemitérios Consolação, São Paulo, Araçá e Quarta Parada, que são os públicos mais caros, é R$ 3.662,22, segundo o Serviço Funerário. Assim, um túmulo de cerca de 5 m2 sai por quase R$ 20 mil. O valor pago, no entanto, não garante a manutenção, do espaço, cuja responsabilidade é da família.

SERVIÇO
Cemitério da Consolação. R. da Consolação, 1.660, Consolação, região central. Visitas monitoradas: ter. e sex.: 9h e 14h; agendamento pelo tel. 0/xx/11/3396-3832.
Cemitério da Quarta Parada. Av. Salim Farah Maluf, s/nº, Água Rasa, região leste.
Cemitério do Araçá. Av. Dr. Arnaldo, 666, Cerqueira César, região oeste.
Cemitério Santo Amaro. R. Min. Roberto Cardoso Alves, 186, Santo Amaro, região sul.
Cemitério São Paulo. R. Cardeal Arcoverde, 1.217-A, Pinheiros, zona oeste.
Folha de S. Paulo

domingo, 1 de abril de 2012

Códigos do além



Em um cemitério, salvo alguns corpos, nada está ali por acaso. Cada família povoa o túmulo de sinais religiosos, profissionais, familiares e pessoais. Conheça o significado dos símbolos das sepulturas

Emiliano Urbim, Gabriel Gianordoli, Juliana Cunha e Pedro de Kastro

1. Material
Antes, o chique era mármore de Carrara. Cada vez mais raro e mais caro, foi trocado por mármore comum, granito ou bronze. Isso fez com que as partes mais antigas do cemitério ficassem brancas, enquanto as partes mais recentes são escuras.

2. Pietà
A escultura de Michelangelo é hit da arte tumular. Representa um desejo de que a alma seja bem recebida.

3. Anjo que aponta
Se a mão (geralmente, a direita) indica o céu, a família apostou que o falecido iria para o paraíso sem escalas.

4. Anjo pensativo
Se o anjo está pensativo, com a mão no queixo, está refletindo sobre a vida do falecido. É sinal de que a família não tinha tanta certeza da sua absolvição.

5. Guirlanda
Não, o morto não partiu no Natal. Significa o triunfo da vida sobre a morte, pois as folhas do enfeite nunca perderiam o verde.

6. Pata do felino
Comum no túmulo de patriarcas, lembra que eles eram responsáveis pelo sustento do seu clã, que agora vai precisar de um novo "rei leão" para manter o status.

7. Epitáfio
Esse é decidido antes da morte mesmo: tem quem aproveite para se despedir, tem quem use frases de efeito, enquanto outros mandam mensagens de amor eterno.

8. Túmulo raso
O sepultura mais comum atualmente. A ausência de símbolos também tem uma mensagem: todos são iguais após a morte, estão no mesmo nível.

9. Coluna Quebrada
O que muitos supõem ser fruto de vandalismo na verdade mostra que ali jaz o último membro de uma família tradicional.

10. Escada
Em geral, a escada começa com degraus finos, que ficam largos e em seguida finos. Significa que a vida do morto foi de altos e baixos.

11. Tochas
Quando estão com a chama para baixo, representam a vida que passa. Quando acesas, indicam que a pessoa morreu cedo demais, com a "chama da juventude" ainda acesa.
Fonte Eduardo Rezende, presidente da Associação Brasileira de Estudos Cemiteriais.
Revista Superinteressante

domingo, 20 de março de 2011

Uma Breve História dos Cemitérios


Paulo Hipólito

Sobre o autor[1]

Para que se possa entender a história dos cemitérios, é necessário refletirmos a cerca da evolução da concepção da morte que nortearam as práticas de enterramento desde os primórdios da humanidade. É a partir de uma determinada crença sobre a morte que justificará o destino que os vivos darão aos mortos. Só tendo como guia o imaginário da morte que compreenderemos as várias formas de enterramento na história humana.

Lewis Mumford [2] nos coloca algo interessante acerca da origem dos cemitérios, expondo que “a cidade dos mortos antecede a cidade dos vivos”, uma vez que: “Em meio às andanças inquietas do homem paleolítico, os mortos foram os primeiros a ter uma morada permanente: uma caverna, uma cova assinalada por um monte de pedras, um túmulo coletivo”. O que podemos tirar disso é que, desde os primórdios da humanidade, a preocupação com o “lugar do morto” já se mostrava presente.

No período Neolítico, os cadáveres eram colocados em cavernas naturais onde a entrada era fechada por uma rocha. “Eis a primeiras sepulturas dos povos neolithicos as quais não tardam a sofrer numerosas variantes, segundo o grau de civilização de cada grupo ou tribo, segundo os climas e a constituição geológica do terreno ocupado” [3]. Mas as cavernas não davam conta dos mortos, então passaram a construir sepulturas artificiais.

Embora as cavernas representarem as primeiras formas de sepulturas, elas não serão as formas predominantes de enterramento no período Neolítico. Havia o chamado dolmens, que em betão significa mesa de pedra, círculo de pedra ou pedra erguida. Embora tivesse havido dolmens em tamanhos colossais – 12 ou 15 metros de diâmetro – geralmente o dolmens era

[...] formado por quatro lousas toscas collocadas n’uma cova e cobertas por uma quinta apenas apparente á superfície do solo.Tem a fórma d’uma pyramide troncada medindo approximadamente um metro em largura e profundidade, de modo que o cadaver só pode alli ser recolhido assentado e dobrado sobre si mesmo. [4]

Percebemos, então, que os primeiros seres humanos já demonstravam um certo respeito pelos seus mortos, reservando-os um lugar adequado para eles. Seja pelo mal da putrefação do cadáver, ou pela inexplicável razão para desaparecimento repentino da força motora do corpo, o morto foi ganhando o seu espaço e dedicação no mundo dos vivos. Muitos povos, mesmo não compreendendo o motivo para a perda da atividade motora, sabiam que se tratava de um novo estágio do corpo. Então alimentavam a crença de que, nesse outro estágio, os mortos continuavam a ter as mesmas necessidades das que tinham em vida. Por isso os mortos eram enterrados usando os objetos que mais gostavam, além de ainda serem postos alimentos sobre suas sepulturas [5].

A falta de explicação para o fenômeno da morte é o que levará muitas sociedades, principalmente os egípcios na antiguidade clássica, a crerem na vida após a morte. Daí os cuidado para que o corpo não se desintegrasse – os processos de mumificação – se tornaram uma peculiaridade dos egípcios. Já os faraós, alem de serem mumificados, eram postos em templos gigantescos – as pirâmides – simbolizando a importância que eles representavam para a sociedade e seu poder central.

Na antiguidade Greco-romana, os mortos eram os primeiros que “recepcionavam” os viajantes: “a primeira coisa que saudava o viajante que se aproximava de uma cidade grega ou romana era a fila de sepulturas e lápides que ladeavam as suas estradas” [6]. Com os gregos e os romanos irão surgir muitos dos costumes que perdurarão até hoje, como transcrever inscrições nas lápides tumulares, pôr flores sobre os túmulos, além de alimentos. Foram a partir desses costumes que a memória do morto passou a ser preservada e cultuada, assumindo diversas feições ao longo dos tempos [7].

A prática dos romanos em enterrar seus mortos em beiras de estradas mudará conforme o avanço do cristianismo na sociedade. Só então que “[...] surgiu a tendência de aglomerar os defuntos nas proximidades dos lugares sagrados, como tumbas de santos e igrejas, na perspectiva do Juízo Final e da ressurreição dos corpos” [8]. Como o enterro estava – e ainda está – relacionado à crença na ressurreição do corpo, qualquer outro destino para o morto – como a cremação, por exemplo – era repudiado pela doutrina cristã, sob alegação de que outras práticas anulavam a imagem que se tem do sono a espera do despertar [9].

Segundo Araújo [10], os cemitérios similares aos que vemos hoje só surgem em plena Idade Média, quando os mortos passam a lotar as dependências da igreja e o seu redor. A igreja será quem primará em preservar os túmulos, o que fará com que o cemitério se construa em seu redor, conforme cita Schmitt: “(...) o cemitério é cercado por um muro, sobre o qual o bispo, quando de suas visitas paroquiais, lembra constantemente a necessidade de conserválo para separar o espaço sagrado do espaço profano e impedir os animais de vagar entre as sepulturas” [11].

No período medieval, o cemitério representará muito mais que uma necrópole, ou seja, uma cidade restrita aos mortos. Segundo Fargette-Vissière[12], os cemitérios medievais eram espaços bastante procurados e, porque não, cobiçados pelas pessoas da época. Neles eram desenvolvidas muitas atividades sociais:

De dia ou de noite, era neles que a população das maiores cidades européias buscava se divertir, quando não fixar residência provisória ou definitiva. Além disso, as necrópoles eram também um espaço de cidadania, pois lá sempre estavam juízes a comunicar sentenças, e o equivalente aos prefeitos de hoje a dar publicidades a suas ações. Esses locais funcionavam ainda como cartórios a céu aberto. Não que as condições ajudassem, pois já havia acúmulo de corpos e problemas de higiene e limpeza. Mas, de fato, os cemitérios atraíam. Eram um componente da urbanidade de então, construída através dos séculos e com origens bastantes remotos

Vimos que os cemitérios medievais eram muito animados, mas não para por aí. Alguns construíam até tabernas em suas dependências, pois esses locais representavam autênticos lugares de sociabilidade; um verdadeiro ponto de encontro para quem procurava diversão. “Os cemitérios nesta época eram completamente integrados à comunidade, localizando-se no centro da mesma, servindo depois do sepultamento como pasto para o gado, local de feiras, jogos, atalhos para outras áreas e depósitos de lixo” [13]. Os cemitérios também eram muito procurados pelos casais, visto ser um lugar tranquilo para o namoro, e pelas pessoas que buscavam um relacionamento: os jovens “[...] cortejavam as moças à sombra dos ossários e dançavam entre os túmulos a farândola, uma dança medieval muito popular, em que vários participantes fazem uma roda, que evolui para outras formações” [14].

Mesmo a Igreja Católica tendo proibido muitas das práticas sociais antes desenvolvidas dentro dos cemitérios, estes ainda continuaram sendo um local de intensa agitação até o século XIX, quando os cuidados com a higiene transportará os cemitérios para longe das cidades.

Aqui no Brasil, até a primeira década do século XIX, os mortos eram enterrados apenas trajando um manto cobrindo o corp, posto que os cuidados com a higiene não havia se tornado praxe no Brasil imperial [15]. Nos cemitérios de pretos, nas principais cidades brasileiras, os escravos eram lançados em covas muito rasas e, depois de um tempo, os corpos ficavam expostos ao ar livre, sendo que as pessoas nem se preocupavam com isso. As pessoas conviviam pacificamente com os odores exalados pelos mortos.

Quando a preocupação com a higiene passou a ser tema central no império brasileiro, a partir da segunda metade do século XIX, visto que já era uma realidade na Europa, os governos passaram a aderir a esse novo padrão, reorganizando o espaço e a relação dos mortos com os vivos. Segundo Reis, “uma organização civilizada do espaço urbano requeria que a morte fosse higienizada, sobretudo, que os mortos fossem expulsos de entre os vivos e segregados em cemitérios extra-muros.” [16].

Nessa perspectiva, os cemitérios vão agora se afastar das cidades, estabelecendo-se a divisão entre as cidades dos vivos e dos mortos. “Hoje, em algumas cidades, a zona urbana cresceu tanto que de novo aproximou os mortos dos vivos” [17], como é o caso do cemitério São João Batista de Guarabira-PB, assim como o cemitério de mesmo nome, no bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro.

Percebe-se, no entanto, que os cemitérios se afastaram das cidades, mas não das igrejas, sendo que cada novo cemitério construído terá sua capela situada no centro da necrópole, onde são feitas missas e orações aos mortos. Esse padrão será o que prevalecerá ainda nos dias atuais, mesmo surgindo outras tipos de cemitérios e práticas de enterramento.

Referências:

ARAÚJO, Thiago Nicolau de. Túmulos celebrativos do Rio Grande do Sul:múltiplos olhares sobre o espaço cemiterial (1889 – 1930). Porto Alegre: EDIPUCRS, 2008.

BAYARD, Jean-Pierre. Sentido Oculto dos Ritos Funerários: morrer é morrer?São Paulo: Paulus, 1996.

CRUZ, Manoel Pereira da. Cemitérios. Dissertação (Mestrado em Medicina). Porto: Escola Médico-cirúgica, 1882.

FARGETTE-VISSIÈRE, Séverine. Os animados cemitérios medievais. História Viva. 67 ed, p. 48-52, maio, 2009.

FARIA, Sheila de Castro. Viver e morrer no Brasil colônia. São Paulo: Moderna, 1999.

MUMFORD, Lewis. A cidade na história: suas origens, transformações e perspectivas. Trad.: Neil R. da Silva. 4 ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

REIS, João José. A morte é uma festa: ritos fúnebres e revolta popular no Brasil do século XIX. São Paulo: Companhia das Letras, 1991.

ROSA, Edna Terezinha da. A relações das áreas de cemitérios com o crescimento urbano. Dissertação (Mestrado em Geografia). Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina, 2003.

SCHMITT, Jean Claude. Os vivos e os mortos na sociedade medieval. Trad.: Maria Lucia Machado. São Paulo: Cia das Letras, 1999.


[1] Graduado em História pela Universidade Estadual da Paraíba – UEPB.

[2] MUMFORD, Lewis. A cidade na história: suas origens, transformações e perspectivas. Trad.: Neil R. da Silva. 4 ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998, p.13.

[3] CRUZ, Manoel Pereira da. Cemitérios. Dissertação (Mestrado em Medicina). Porto: Escola Médico-cirúgica, 1882, p.10.

[4] Idem, p.13.

[5] ARAÚJO, Thiago Nicolau de. Túmulos celebrativos do Rio Grande do Sul:múltiplos olhares sobre o espaço cemiterial (1889 – 1930). Porto Alegre: EDIPUCRS, 2008, p.30.

[6] MUNFORD, Op. Cit., p.13.

[7] BAYARD, Jean-Pierre. Sentido Oculto dos Ritos Funerários: morrer é morrer? São Paulo: Paulus, 1996, 133.

[8] FARGETTE-VISSIÈRE, Séverine. Os animados cemitérios medievais. História Viva. 67 ed, p. 48-52, maio, 2009, p.49.

[9] ROSA, Edna Terezinha da. A relações das áreas de cemitérios com o crescimento urbano. Dissertação (Mestrado em Geografia). Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina, 2003, p.16

[10] ARAÚJO, Op. Cit., p.36.

[11] SCHMITT, Jean& Claude. Os vivos e os mortos na sociedade medieval. Trad.: Maria Lucia Machado. São Paulo: Cia das Letras, 1999, p.204.

[12] FARGETTE-VISSIÈRE, Op. Cit., p.49.

[13] ROSA, Op. Cit., p.17.

[14] FARGETTE-VISSIÈRE, Op. Cit., p.51.

[15] FARIA, Sheila de Castro. Viver e morrer no Brasil colônia. São Paulo: Moderna, 1999, p.56.

[16] REIS, João José. A morte é uma festa: ritos fúnebres e revolta popular no Brasil do século XIX. São Paulo: Companhia das Letras, 1991, p.247.

[17] FARIA, Sheila de Castro. Viver e morrer no Brasil colônia. São Paulo: Moderna, 1999, p.57.

http://www.historiaehistoria.com.br

sábado, 1 de agosto de 2009

Père Lachaise: o cemitério das celebridades


Père Lachaise: o cemitério das celebridades
Père Lachaise: criadoseguindo o ideal de igualdadeda revolução francesa
por Leandro Narloch
Após a Revolução Francesa, em 1789, os novos líderes da França tiveram a idéia de construir um cemitério diferente em Paris. Não dava mais para seguir enterrando ricos atrás das igrejas e pobres em seu destino mais comum, as valas sem identificação. Foi assim que surgiu, em 1804, por ordem de Napoleão Bonaparte, o Père Lachaise, primeiro cemitério laico e primeiro jardim público da cidade, no qual qualquer pessoa poderia entrar.

O nome veio do jesuíta Père François de La Chaize, com quem Luís XIV, o Rei Sol, costumava se confessar. O terreno era propriedade dos jesuítas até 1762 – nesse ano, eles foram expulsos da França e o lugar ficou sem proprietário. Mas o cemitério demorou a cair no gosto dos parisienses. Ficou vazio até 1817, quando a administração da cidade resolveu passar para lá os restos mortais dos escritores Molière e La Fontaine. Deu certo. O espaço passou a ser disputado entre os burgueses e enterrar gente famosa ali virou moda.

Hoje, o Père Lachaise é um museu a céu aberto sobre a história da França e da cultura ocidental. Recebe 2 milhões de turistas por ano. Tem 690 mil monumentos funerários, que abrigam filósofos como Auguste Comte, pintores como Modigliani, figuras da música que vão de Chopin a Jim Morrison. Também há cantoras, como Maria Callas, alas para heróis militares e políticos, além do túmulo do célebre casal medieval Aberlardo e Heloísa.



Museu de túmulos
Dois milhões deturistas visitam o cemitériotodos os anos
1. Abelardo (1079-1142) e Heloísa (1101-1164)

Protagonista do caso de amor mais trágico da Idade Média, o filósofo francês Abelardo, que enfatizava a razão sobre a fé, foi condenado por heresia em 1140. Apaixonado por sua aluna Heloísa, casou com ela em segredo. Quando a família dela descobriu, Abelardo foi castrado e nunca mais a viu. Viveu monasticamente por mais dois anos até sua morte, aos 63. Antes de morrer, Heloísa pediu que fosse enterrada ao lado do amado. Seu último desejo foi atendido.

2. Jim Morrison (1949-1971)

Esta é a relíquia que mais dá dor de cabeça à administração do cemitério – a ponto de ter vigilância o dia todo. Tudo porque, em 1991, no 20o aniversário da morte do líder da banda The Doors, uma multidão de fãs alucinados foi visitar o túmulo – a polícia teve de usar bombas de gás. Jim Morrison morreu em julho de 1971, na banheira de sua casa, vítima, segundo os médicos, de coma alcoólico.

3. Frédéric Chopin (1810-1849)

Contrariado com as revoluções populares na França, onde morava, o compositor polonês Chopin abandonou os recitais parisienses em 1848, partindo para a Inglaterra e Escócia. Lá, difundiu ainda mais sua fama. Cada vez pior por causa da tuberculose, voltou a Paris em novembro, morrendo no ano seguinte. Seu túmulo, a principal atração de uma viela de compositores do cemitério, é o mais visitado pela comunidade polonesa.

4. Auguste Comte (1798-1857)

Considerado o pai da sociologia, Comte sofria de depressão profunda, tentou o suicídio diversas vezes e morreu sozinho, de gripe. Depois da morte da mulher, Clotilde, passou a divulgar sua corrente filosófica, o positivismo, como religião. Seu cortejo foi acompanhado, além dos amigos, por quatro mulheres – entre elas, a escritora luso-brasileira Nísia Floresta.

5. Édit Piaf (1915-1963)

A cantora francesa jaz no mesmo túmulo ocupado por quatro familiares. Filha de um acrobata alcoólatra, Édit cantou na rua dos 16 aos 20 anos, até ser descoberta, cantar em cabarés e virar amiga de poetas e escritores franceses. Morreu de câncer no fígado. Seu enterro causou o primeiro grande congestionamento em Paris desde a Segunda Guerra Mundial.

6. Oscar Wilde (1854-1900)

Autor do livro O Retrato de Dorian Gray, o escritor irlandês ficou dois anos na cadeia por causa de seu homossexualismo – saiu de lá em 1897. Morreu em Paris, miserável, de meningite, três anos depois (ele também tinha sífilis). Seu túmulo tem um anjo com um grande pênis – o membro já foi roubado diversas vezes. A escultura também recebe vários beijos com batom dos visitantes.

7. Sarah Bernhardt (1844-1923)

Amiga de Oscar Wilde e uma das primeiras celebridades mundiais, a atriz francesa, a predileta do imperador Napoleão III, causou polêmica na virada do século 20 por usar calças, interpretar homens e ter amantes mulheres. Representante do imperialismo cultural francês da época, Sarah veio três vezes ao Brasil. Durante uma peça de teatro no Rio de Janeiro, em 1905, levou um tombo no palco que abalaria sua saúde para sempre. Depois de ter a perna amputada em 1915, morreu de problemas renais.

8. Marcel Proust (1871-1922)

O proximidade da morte foi corriqueira na vida do autor de Em Busca do Tempo Perdido. Em 1905, após receber uma fortuna de herança de sua mãe e cada vez mais doente e alquebrado, recolheu-se a sua casa, em Champs Elysées, em Paris, e escreveu os sete volumes de sua obra-prima (Proust considerou a obra acabada várias vezes, para depois voltar a dar retoques nela). Viveu meio enclausurado até sua morte, de bronquite.

9. Allan Kardec (1804-1869)

Fundador do espiritismo – cujo túmulo é o mais visitado pelos brasileiros –, Kardec, ou Hyppolyte Leon Denizard Rivail, foi um cético professor de física, química, lingüística e astronomia. Em 1854 deparou com fenômenos estranhos, como mesas que se mexiam sozinhas. Estudou os fatos e escreveu O Livro dos Espíritos. Kardec morreu do coração.

10. Honoré de Balzac (1799-1850)

O grande novelista da vida social francesa, autor de A Comédia Humana, escreveu uma das cenas do livro O Pai Goriot no próprio cemitério onde hoje está enterrado. Viciado em café e em escrever, Honoré de Balzac trabalhava normalmente durante 15 horas por dia. Em 1849, ele decidiu largar o trabalho e ir para a Polônia, em busca da dama polonesa Eveline Hanska. Morreu três meses depois de se casarem. Jaz em um túmulo adornado por um busto feito pelo escultor Auguste Rodin.

Revista Aventuras na Historia