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segunda-feira, 28 de abril de 2014

Notícias História Viva

Missão espanhola faz descoberta que pode rever cronologia faraônica
Estudo escavou restos de um muro e colunas de mausoléu na região de Al Asasif

EFE

Uma missão de arqueólogos espanhóis e egípcios fez uma descoberta em uma tumba no sul do Egito que abre portas à reinterpretação da cronologia faraônica, pois poderia demonstrar que Amenhotep III e seu filho Amenhotep IV, conhecido como Akenaton, reinaram juntos.
EFE/ Ministério de Antiguidades do Egito
Amuletos e estátuas foram expostos junto a três esqueletos humanos e um sarcófago

A missão, liderada pelo arqueólogo espanhol Francisco Martín Valentín, escavou os restos de um muro e as colunas do mausoléu de um ministro da XVIII dinastia faraônica (1569-1315 a.C.) na região de Al Asasif, na província meridional de Luxor.

O grande diferencial da descoberta, explicou Valentín à Agência Efe, é que na escavação foram encontradas gravuras com os nomes de Amenhotep III e Amenhotep IV juntos.

Isto, segundo o especialista, "pode confirmar que os dois reis governaram juntos entre nove e dez anos dos 39 de Amenhotep III, já que os textos das colunas explicam que eram soberanos do Alto e do Baixo Egito". "Não há nada semelhante na história faraônica", afirmou taxativamente Martín Valentín.

O chefe do departamento de Egiptologia do Ministério de Antiguidades egípcio, Ali Asfar, destacou a importância dos nomes destes dois faraós aparecerem juntos. Asfar reconheceu que é muito complicado estabelecer as datas exatas dos reinados faraônicos, mas admite que este caso poderia obrigar a uma revisão das cronologias já estabelecidas, pois "confirmaria que ambos reinaram juntos".

Os reinados de Amenhotep III, também conhecido como Amenofis III, e de Amenhotep IV, que entrou para a história sob o nome de Akenaton, estão entre os mais relevantes do Egito Antigo por razões diferentes. O pai governou um país que conheceu um dos maiores períodos de prosperidade e estabilidade interna de sua história, com um longo mandato de quase quatro décadas.


Até agora, os especialistas pensavam que o filho havia se rebelado contra a forma do pai de conduzir o reinado e que, após sucedê-lo no trono após sua morte, adquiriu o nome de Akenaton e instaurou pela primeira vez o monoteísmo, com Aton como deus oficial.

No entanto a descoberta, explicou Martín Valentín, dá a entender que pai e filho estavam de acordo nessa autêntica revolução, já que compartilharam o reinado por uma década. A missão escolheu a tumba do ministro real, identificado como Amenhotep Huy, com a convicção que nela poderiam ser encontrados documentos que confirmassem o reinado conjunto.

"Desde 2009 trabalhamos neste lugar, onde escavamos cerca de 400 metros quadrados, e esperamos novas descobertas nos 600 metros quadrados que ainda faltam", disse o arqueólogo, antes de acrescentar que ninguém tinha escavado antes esse mausoléu inacabado.

Segundo o espanhol, Amenhotep III governou entre 1397 e 1340 antes de Cristo, por cerca de 38 anos, enquanto Amenhotep IV esteve à frente do país entre 1360 e 1348 a. C, ou seja, por 17 anos. A descoberta indicou que foram nesses dez anos de reinado conjunto que teria explodido a chamada "revolução atoniana". "Acho que tanto o pai como o filho, ou toda a família real, promoveram essa revolução, que deslocou o deus Amon, que era venerado em Tebas, capital faraônica de então", comentou Martín Valentín. 
Jornal O Estado de  S. Paulo

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Notícias História Viva

Faraó Ramsés 3º morreu com golpe na garganta, afirma pesquisa

REINALDO JOSÉ LOPES

Um crime que prescreveu há mais de 3.000 anos finalmente foi elucidado: o faraó Ramsés 3º foi mandado para o Outro Mundo por meio de uma facada na garganta, afirmam pesquisadores.

A conclusão vem de uma detalhada análise forense da múmia do monarca egípcio, despachado para o reino dos mortos no ano 1155 a.C., provavelmente. O estudo, que incluiu tomografias computadorizadas e análises de DNA, está na revista médica "BMJ".
France Presse 
Múmia do faraó Ramsés 3º

A partir da leitura de um antigo texto egípcio, o chamado Papiro Judicial de Turim, já se sabia que Ramsés 3º tinha sofrido um atentado em seu harém. Os responsáveis parecem ter sido uma das esposas dele, a rainha Tiy, e o filho do casal, Pentawere.

O papiro, porém, dava a entender que o faraó havia conduzido o julgamento dos traidores -o que a tomografia indica ter sido impossível.

É que o golpe de faca cortou a traqueia, o esôfago e uma série de vasos sanguíneos grandes, chegando até a raspar uma das vértebras do pescoço. A morte do rei deve ter sido instantânea.

A análise de DNA do estudo comparou, além disso, o cromossomo Y (a marca genética da masculinidade) do faraó com a múmia de um homem misterioso, achada no mesmo complexo real onde Ramsés 3º foi enterrado.

Resultado: o mesmo cromossomo. Juntando isso ao fato de que o homem não identificado morreu por volta dos 20 anos de idade, os cientistas especulam que se trate de Pentawere, o príncipe traidor de seu pai.

A equipe do estudo foi liderada por Zahi Hawass, ex-czar de antiguidades do Egito, e pelo paleopatologista Albert Zink, da Academia Europeia em Bolzano, Itália.
Jornal Folha de S. Paulo

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Notícias História Viva

Descoberta no Egito tumba que conserva cores vivas após 4.200 anos

DA EFE, NO CAIRO

EPA
Tumba de 4.200 anos descoberta no Egito; supreendentemente, cores na parede ainda preservam cores vivas

Como se tivessem sido pintados ontem, assim podem ser descritas as cores da tumba construída há 4.200 anos no sítio arqueológico de Saqara, 25 quilômetros ao sul do Cairo e apresentado pelo chefe do Conselho Supremo de Antiguidades egípcio, Zahi Hawas.

"São as cores mais incríveis jamais encontradas em uma tumba", disse Hawas aos jornalistas, que sob o forte sol de julho tentavam tomar nota das antiguidades encontradas e das explicações do egiptólogo mais famoso do país.

Para chegar a tumba, que na realidade são duas, é preciso percorrer vários quilômetros por uma inóspita pista de areia, de onde é possível ver a pirâmide escalonada do faraó Zoser.

Na cripta descansam os restos de dois altos funcionários da 5ª dinastia faraônica (2.500-2.350 a.C): Sin Dua, sepultado na sala principal do túmulo, e seu filho Jonso, cujos restos foram depositados em uma sala adjacente à de seu pai.

Ambos ostentam os cargos de "supervisor de funcionários", títulos dos quais não se tinha conhecimento até agora, e de "chefe dos escribas", entre outros.

No entanto, o que chama mais atenção na descoberta são as cores luminosas com as quais a "porta falsa" da tumba de Jonso está pintada, porta pela qual, como acreditavam os egípcios, a alma do morto devia entrar no mundo dos mortos.

Sobre um fundo branco, nítidos tons de marrom, rosa, amarelo, azul e preto mostram quem foi o chefe dos escribas, junto a hieróglifos que indicam seus diferentes cargos e seu nome.

"O túmulo do filho, Jonso, é único e incrível" explicou o especialista, que acrescentou que na "porta falsa" há "um altar de sacrifícios" e pode se ver Jonso "em diferentes posições que mostram a beleza" das cores. "Uma beleza que possivelmente nunca foi encontrada em outra tumba", disse Hawas.

Na sala reservada a Sin Dua, com dimensões maiores e, assim como a de Jonso, enterrada a quatro metros de profundidade, também se destacam as cores nítidas da "porta falsa", na qual Sin Dua aparece sentado em frente a uma mesa de oferendas.

"Como estas cores, na minha opinião as mais incríveis descobertas em uma tumba, puderam se manter durante 4.200 anos?", questiona Hawas, que ressaltou que os trabalhos de catalogação e conservação começaram no momento da descoberta.

Perante a "porta falsa" da tumba de Sin Dua foi encontrado também um poço, agora coberto, de 16 metros de profundidade, no qual foram encontrados os restos do caixão do morto, afetado pela umidade.

Além disso, os arqueólogos desenterraram diversos artefatos e objetos utilizados nos ritos fúnebres do antigo Egito que, aparentemente, se mantiveram a salvo dos saqueadores de túmulos graças à profundidade na qual foram depositados.

Entre eles, vários recipientes de pedra em formato de pato que continham ossos destas aves, uma cabeça de madeira e um pequeno obelisco de 30 centímetros.

Segundo Hawas, postado em uma plataforma de madeira situada sobre o poço, os egípcios da 5ª e 6ª dinastias costumavam colocar em suas tumbas obeliscos como símbolo de sua crença no deus sol Ra.

Estes sepulcros "fazem parte de um enorme cemitério descoberto recentemente na área de Saqara por uma missão arqueológica egípcia que trabalha na região desde 1988", explicou Hawas.

Esta necrópole, da qual não se tinha notícia, como comentou Hawas, se encontra dentro do complexo arqueológico de Saqara, em uma área conhecida como "Yiser al Mudir" e na qual o arqueólogo egípcio espera realizar muitas descobertas.

Antes de abandonar a tumba subindo por uma escada de madeira rudimentar e junto com seu inseparável chapéu, Hawas fez questão de lembrar aos jornalistas: "Você nunca sabe os segredos que as areias do Egito podem esconder".
Folha de São Paulo

Notícias História Viva

Arqueólogos descobrem estela da época do faraó Apries
DA EFE

CSA/Efe
A peça consta de duas partes de pedra arenosa que têm esculpidos em hieróglifos o nome do faraó Apries

Uma equipe de arqueólogos egípcios descobriu uma estela (bloco de pedra) que data da época do faraó Apries, da 26ª Dinastia (589-570 a.C.), na província de Ismailiya, a leste do Cairo, informou nesta terça-feira o Conselho Supremo de Antiguidades.

A peça consta de duas partes de pedra arenosa que têm esculpidos em hieróglifos o nome do faraó Apries, quinto monarca da 26ª Dinastia, detalhou o secretário-geral da instituição, Mohammed Abdel Maqsud.

Em comunicado, o pesquisador afirmou que a descoberta da estela, que tem várias inscrições em hieróglifos, aconteceu em uma jazida arqueológica situada no lado oeste do Canal de Suez.

A equipe do Conselho Supremo de Antiguidades iniciou há três anos as escavações nessa jazida e já chegou a várias descobertas históricas.

O chefe do conselho lembrou que as descobertas arqueológicas comprovam que o local não era só uma antiga fortaleza militar de mercenários gregos, mas um assentamento egípcio construído pelo faraó Psamético 1º, segundo rei da dinastia.

Ele explicou que há dois anos foi descoberto um grande conjunto de armazéns na região, além de olaria de fabricação local e importada das ilhas do leste da Grécia, o que revela os prósperos laços comerciais que os egípcios mantiveram com os gregos.
Folha de São Paulo

quinta-feira, 7 de julho de 2011

A vingança dos faraós negros


Durante séculos, os reis do Egito escravizaram os negros da civilização cush. Mas um dia eles revidaram. Tomaram o poder e viraram faraós. Agora, seu reinado acaba de ser reconstituído pela arqueologia. E pela informática.
Escravos que viraram senhores
No ano de 715 a.C., o rei negro Shabaka, do povo cush do sul do Nilo, invadiu o Egito, derrotou os inimigos e corou-se faraó (como eram chamados os soberanos egípcios) na capital, Tebas. Começava ali a 25ª dinastia dos faraós — a dinastia cushita —, que iria durar 52 anos. Nada mau para quem foi escravo durante dois milênios.
Os gregos chamavam os cush de ethiope, que quer dizer "rosto tisnado". Eles eram negros africanos que absorveram a cultura egípcia, misturaram com a sua e retomaram, com estilo próprio, a construção de pirâmides, mil anos depois de elas terem sido abandonadas pelos egípcios. Napata, a capital cush no pé da montanha sagrada de Gebel Barkal, chegou a ter 94 pirâmides.
Os faraós negros governaram o Egito da cidade de Tebas, até o ano 663 a.C. Mas a cidade de Meroe, no sul do Nilo, o centro econômico do império cush, durou 900 anos. Foi tão influente que deu origem à cultura meroíta (de Meroe), como prolongamento da civilização cush. Só foi destruída no século III da nossa era, pelos vizinhos da Núbia. Os cush viraram núbios. No século III, os romanos incorporaram e cristianizaram todos os povos da região. Depois, no século XIV, os núbios foram convertidos ao islamismo.
Sabe-se pouquíssimo sobre essa cultura ancestral, que evoluiu paralelamente à egípcia. O inglês F. L. Griffith descobriu os hieróglifos cush em 1911. E as ruínas de Gebel Barkal só foram encontradas em 1923, pelo arqueólogo inglês G.A. Reisner. Mas há dois anos, pesquisadores espanhóis da Fundação Jordi Clos, de Barcelona, começaram a escavar no local e desenterraram vestígios sensacionais.

Novas descobertas
"Procuramos túmulos em toda a área perto da montanha", diz a arqueóloga Francesca Berenger, "e não apenas nas pirâmides." Em 1996, a equipe localizou o túmulo, magnificamente decorado, de um faraó desconhecido, Semesu Uhemu. Em janeiro passado, achou o de uma rainha. "É cedo para especular", diz Francesca, "mas a área no pé da montanha tem dúzias de túmulos não descobertos que vão revelar muita coisa."
Os computadores têm ajudado os arqueólogos na reconstrução das ruínas. Baseados em gravuras e desenhos antigos, ou cópias de estátuas, os pesquisadores produziram perfeitas "fotos do passado" em estúdios de computação gráfica. Os desenhos das pirâmides de Gebel Barkal, feitos pelo francês Fréderic Caillaud no século XIX, orientaram a reconstrução integral dos monumentos (veja a página 63). Os computadores também ajudam a decifrar os hieróglifos cush comparando-os com as escrituras de outros mausoléus.

Uma outra arquitetura de pirâmides
Durante a dinastia cushita, os faraós reinaram em Mênfis e Tebas, mas construíram seus túmulos em Napata, a capital de origem. A cidade ganhou um Templo de Amon, além de monumentos e estátuas.
As pirâmides cush tinham, em média, 12 metros de largura por 15 de altura. Eram bem menores que as egípcias: Quéops, a maior de todas, tem 230 metros de largura por 147 de altura. Os mausoléus cushitas eram mais pontudos, com 68 graus de inclinacão (contra 51 graus de Quéops). Além disso, tinham uma capela, anexa, com porta de entrada.
Os cush cultuavam deuses egípcios e africanos, como Apedemek, o deus-leão. Napata foi sempre a capital religiosa, mas Meroe prosperou como pólo econômico. Eles eram fazendeiros, comerciantes e tinham uma avançada metalurgia alimentada a lenha.
No começo da era cristã, rainhas poderosas marcaram a cultura meroíta — as kandake. Em afrescos, elas são retratadas como mulheres grandes e agressivas, que arrastavam inimigos pelos cabelos. No ano 23 d.C., o prefeito romano no Egito invadiu Napata e recebeu uma delegação meroíta chefiada por uma kandake. Contou que ela tinha "seios maiores que bebês gordos".
Muita coisa se desconhece. A começar pelos hieróglifos. "Pusemos mil inscrições no computador", diz o lingüista Jean Leclant. "São nomes de reis e seus familiares. Mas não sabemos o que dizem. Para entender o alfabeto, precisaríamos comparar dois textos idênticos, um em egípcio e outro em meroíta". Restam ainda muitos capítulos inéditos da história dos faraós negros.

Para saber mais

À Procura dos Mundos Perdidos. Henri-Paul Eydoux. São Paulo, Melhoramentos, 1967.
As Primeiras Civilizações. Os Impérios de Bronze. Pierre Lèvêque. São Paulo, Edições 70, 1990.
Em 4 000 anos de história egípcia, de 4500 a.C. a 332 a.C, 31 dinastias se sucederam. Desde a primeira, os faraós já escravizavam os povos negros do sul. Os cushitas carregaram muita pedra para as pirâmides.
Em 1915 a.C., o faraó Sesostris dominou toda a região ao sul da segunda catarata do Nilo (veja mapa na página 62). Houve várias rebeliões. Em 1514 a.C., Amenhotep, de Tebas, sufocou os últimos revoltosos. A região virou uma colônia até que, com as guerras civis egípcias, em 1075 a.C, os cushitas reconquistaram a independência.
No ano 800 a.C., um poderoso reino cush começou a florescer. A partir de 730 a.C, os reis Kashta e, depois, Piankhi invadiram e conquistaram o Egito. Em 715 a.C., Shabaka completou a conquista e fundou a 25ª- dinastia.
Devotos do deus Amon, os cushitas identificavam-se com a opulência de Tebas e consideravam os egípcios do norte como degenerados. Uma invasão síria, em 663 a.C, acabou com o império dos faraós negros.
Revista Superinteressante

domingo, 14 de novembro de 2010

O SAQUE DE TUMBAS NO TEMPO DOS FARAÓS

O SAQUE DE TUMBAS NO TEMPO DOS FARAÓS
Moacir Elias Santos.

Introdução
Os viajantes e antiquários que chegaram ao Egito posteriormente à invasão napoleônica, em 1798, depararam-se com uma fonte de renda sem igual: as antigüidades. A “coleta”, na realidade uma pilhagem, destes artefatos era financiada pelas autoridades européias e propiciou a formação de núcleos de antigüidades egípcias em inúmeros museus espalhados pelos continentes.
Dentre os antiquários destacamos o italiano Giovani Baptista Belzoni, e entre inúmeros saqueadores conhecidos, mencionaremos o clã dos Abd el-Rassoul. Belzoni foi, talvez, o principal responsável pelo achado, entre 1816 e 1819, das múmias e parte dos artefatos egípcios atualmente conservados no Museu Nacional do Rio de Janeiro. Posteriormente, em 1871, dois saqueadores, os irmãos Ahmed e Mohamed Abd el-Rassoul encontraram o que viria a ser uma das maiores descobertas da Arqueologia: o primeiro “Esconderijo Real” em Deir el-Bahari. Nestes dois casos, o antiquário e os saqueadores, segundo suas narrativas, depararam-se com um contexto perturbado1 nas tumbas. Tais relatos confirmam que estes indivíduos não foram os únicos responsáveis pela perturbação das mesmas, pois esta já ocorrera anteriormente à sua descoberta, em tempos faraônicos.
Revela-se, portanto, dois momentos de interferência no contexto original das tumbas, um primeiro relacionado ao período faraônico e outro no século XIX. Deste modo, consideramos relevante para o estudo de coleções, como a do Museu Nacional, a compreensão de como aconteceram estes saques e de como eles influenciaram na reunião de peças pertencentes a diferentes épocas e que acabaram associando-se a um mesmo contexto.
Preparação para a Vida Futura
Nenhuma crença foi tão marcante na sociedade egípcia, ao longo de cinco mil anos, quanto a da vida após a morte. Nos túmulos pré-dinásticos, simples covas circulares cobertas de madeira, encimada por uma pilha de rochas e sedimentos, o
morto era inumado em posição fetal, com a face voltada para o Oeste. Ao seu redor, eram depositados vasos cerâmicos, facas de sílex, adornos, entre outros objetos (El-Mahdy, 1995: 118). Tais evidências refletem, respectivamente, o renascimento e a preocupação com o bem estar do morto no outro mundo. Em épocas dinásticas, notadamente após o Primeiro Período Intermediário, a vida além-túmulo seria acessível a todos os egípcios que providenciassem a mumificação de seus corpos, procedimento este extremamente necessário para a sobrevivência das demais partes que formavam o indivíduo1.
Igualmente importante era a preparação de um enxoval funerário, o qual incluía, além de alimentos e bebidas, o mobiliário que o falecido utilizou durante a vida (roupas, cosméticos, jóias, móveis ferramentas, etc.), bem como uma série de outros bens especialmente confeccionados para o uso na vida futura (Budge, 1995: 168).
Segundo o Livro dos Mortos, após o funeral, o akh do morto dirigia-se ao horizonte ocidental, onde ficava a Sala do Julgamento presidida pelo deus Osíris (El-Mahdy, 1995: 154). Perante quarenta e dois deuses, o morto declarava sua inocência, enquanto em uma balança o seu coração (representação da consciência) era pesado contra a pena da deusa Maat (representação do equilíbrio), com o objetivo de verificar que o morto não houvesse mesmo cometido as quarenta e duas ações que contavam da “confissão negativa” (encantamento n° 125), como vemos abaixo:
“Ó tu, cujos passos são longos, que vens de Heliópolis, eu não menti.” e,
“Ó tu, que és abraçado pelo fogo, que vens de Khereha, eu não roubei.” (Faulkner, 1993: 31)
A razão destas ações serem negadas demonstra que as mesmas faziam parte do cotidiano egípcio. Os próprios símbolos formadores das palavras “mentira e “roubo” refletem igualmente seu significado. Na palavra mentira, grg, o determinativo é um pequeno pássaro que representa ações pequenas ou mundanas; e na palavra roubo, awAi, o determinativo é um homem batendo com um bastão, sem dúvida uma ação repressora ou condenatória, o que demonstra que extraía-se confissões de quem roubava através de bastonadas nas palmas das mãos e nas solas dos pés.
O morto, caso fosse considerado transgressor de alguma das quarenta e duas ações condenadas, fato que nunca aparece representado nas vinhetas dos papiros, teria seu akh devorado por uma criatura híbrida chamada Ammit2, a “engolidora de
almas”. Se fosse considerado puro, tornar-se-ia um justificado, mAa-xrw, e passaria a viver eternamente no reino do deus Osíris.
As Tumbas
Para os egípcios, a palavra pr, significava casa; esta mesma palavra era também utilizada para denominar a “tumba”, “Casa da Eternidade” (Faulkner, 1976: 89). Os tipos de construções funerárias variaram muito no decorrer da história egípcia. Construíram-se tumbas de adobe3, mastabas, pirâmides e hipogeus4, todos com o mesmo objetivo: preservar o morto e seu enxoval funerário. Deveriam, portanto, ser estruturas eternas, um local seguro, resistente ao tempo e protegido contra os animais (Budge, 1995: 315).
Os sepulcros estavam localizados em áreas estratégicas, longe das enchentes periódicas do Nilo e respeitando duas concepções simbólicas: o deserto ocidental onde tudo perece e o local onde o sol se põe, ou seja, a morte (Lurker, 1995: 14).
As construções eternas permaneceram, mas foram lesadas pela sua própria imponência: despertaram a atenção e, conseqüentemente, a cobiça entre os homens. A eternidade dos mortos estava ameaçada pela atividade de saqueadores movidos pela busca de tesouros.
Os arquitetos dos Antigo e Médio Reinos, conscientes dos saques, tentaram resolver o problema incluindo passagens secretas, fossos e câmaras falsas no interior das tumbas. Todas as modificações foram ineficientes, muitas das mastabas e pirâmides em Gizé, Sakara, Dashur, Hawara, Lisht e El-Lahun foram encontradas completamente vazias (El-Nawaway, 1980: viii). Até a XVII dinastia, muitos sepulcros reais eram ligados aos templos funerários, onde os sacerdotes faziam oferendas diárias ao Ka do rei morto. Este culto funerário, na maioria dos casos, não perdurava senão por algum tempo após a inumação real; quando abandonado, o complexo funerário ficava à mercê de saqueadores (Desroches-Noblecourt, 1984: 50).
No início da XVIII dinastia, os faraós, preocupados com os constantes roubos, decidiram esconder os hipogeus, separando-os dos templos funerários. Amenhotep I foi o pioneiro na construção de sua tumba subterrânea na margem ocidental de Tebas, em um vale deserto chamado Biban el-Moluk, conhecido atualmente como “Vale dos Reis”. Seu sucessor, Tothmés I, também adotou a construção de um hipogeu. Durante seu reinado, Ineni, um alto funcionário e arquiteto real, registrou a seguinte inscrição em sua própria tumba:
“(...) Eu supervisionei a escavação da tumba de Sua Majestade na rocha, sozinho, sem ninguém ver ou ouvir (...)” (Harris e Weeks, 1973: 102).
Esta inscrição é clara quanto à precaução no relativo à segurança da tumba. Mas até que ponto havia sigilo sobre a construção?
A Vila de Deir el-Medina e os Saques
Os trabalhadores e artesãos que construíam e decoravam as tumbas durante o Reino Novo habitavam em uma vila, localizada num pequeno vale na margem ocidental de Tebas, conhecida atualmente como Deir el-Medina. O nome provém do árabe “Monastério da Cidade”, devido à presença de um pequeno templo dedicado a deusa Hátor5, construído no período Ptolomaico e utilizado pelos coptas como monastério.
A administração desta vila, bem como a da necrópole, estavam sob as ordens de um prefeito, governante de Tebas ocidental “Cidade dos Mortos”, enquanto em Tebas oriental, onde a maioria da população habitava, havia outro prefeito, o governante da “Cidade dos Vivos”.
Os trabalhadores viviam isolados em aproximadamente setenta casas cercadas por uma muralha. A única entrada da vila localizava-se ao Norte, sob vigilância constante – controlava-se a entrada e saída de bens através de registro e inspeção. A construção das tumbas era efetuada por dois grupos, cada um com cerca de sessenta homens, escolhidos de acordo com o local onde moravam: à direita ou à esquerda da rua central da vila (Baines & Málek, 1996: 100). Permaneciam no vale durante uma semana egípcia (dez dias) e retornavam para descanso quando substituídos pelo outro grupo de trabalhadores. Dois “chefes dos trabalhadores” supervisionavam os grupos, sendo um para os trabalhadores que ficavam na vila e o outro para os que estavam no Vale dos Reis. Ao término de cada mês, os trabalhadores e artesãos recebiam seu salário pago em espécie (grãos, legumes, peixes, óleo, entre outros) (Taylor, 1995: 36).
De um depósito, chamado de sebakh, localizado próximo ao templo da deusa Hátor, provêm as informações mais interessantes sobre o cotidiano desta comunidade há mais de três mil anos. A missão francesa descobriu inúmeros registros em hierático6, ou em hieróglifos cursivos, escritos sobre ostracas (lascas de calcário ou fragmentos de cerâmica). Muitas outras foram encontradas misturadas à massa de tijolos de adobe, nas paredes das casas (Desroches-Noblecourt, 1984: 46). Os dados provenientes de escavações arqueológicas, ostracas e papiros demonstram que inúmeros habitantes de Deir el-Medina estavam envolvidos com os saques de tumbas.
Segundo uma ostraca (Cairo n° 25521) e um papiro (Salt n° 124), Paneb, o chefe dos trabalhadores no reinado do faraó Siptah II (início da XX dinastia), estava envolvido em uma série de irregularidades. Utilizou sua posição para proveito próprio: ordenou que um trabalhador estucasse a câmara funerária de sua tumba, e de outro exigiu que pintasse seu ataúde. Utilizou-se, ainda, de bens do Estado para seus propósitos o mais grave, porém, é que provavelmente assassinou Neferhotep, o outro chefe dos trabalhadores, que o havia denunciado. Outro crime de Paneb só foi descoberto pelos arqueólogos que escavaram sua casa: um fragmento de madeira recoberto com folhas de ouro, pertencente ao faraó Ramsés III, foi encontrado em sua adega (Desroches-Noblecourt, 1984: 48). Paneb conseguiu ocultar seu envolvimento com o saque da tumba real, confirmando assim que o governo raramente agia, devido a ausências de denúncias.
Durante os reinados dos Raméssidas (c. 1200 – 1085 a. C.) os roubos tornaram-se mais do que evidentes. Em 1126 a. C., Paser, o prefeito da cidade dos vivos, em Tebas oriental, iniciou uma investigação, na qual apuraria quais eram as tumbas reais violadas. Na realidade, esta investigação deveria ter sido efetuada por Pawero, o prefeito da cidade dos mortos, já que a necrópole estava sob sua administração. Paser já suspeitava que Pawero estava envolvido com os saques, queria denunciá-lo e aos roubos. Havia uma rivalidade entre os dois prefeitos. Um documento, o papiro Amherst, encontrado nos anos 1850 em Tebas e conhecido desde 1874, atualmente na Pierpont Morgan Library, Nova Iorque, completa a história. Paser localizou os suspeitos (El-Nawaway, 1980: ix). Um deles, chamado Amonpanefer, (El-Mahdy, 1995: 26) narra assim os acontecimentos:
“ No 13° ano do faraó, meu senhor, quatro anos atrás, eu concordei com o carpinteiro Seteknakht [em roubar as tumbas da necrópole]. Nós procuramos e nós encontramos a tumba [do rei Sobekemsaf], e de sua esposa real Nebkhaas7. Ela estava protegida e selada com gesso, mas nós forçamos a entrada. Nós abrimos seus ataúdes e os tecidos, nos quais eles estavam envolvidos, e encontramos a nobre múmia do rei, trajada como um guerreiro. Havia muitos amuletos ugiat8 e ornamentos em seu pescoço, e uma máscara de ouro sobre ele. A nobre múmia do rei estava completamente coberta com ouro e seus ataúdes eram decorados com ouro e prata dentro e fora, e incrustados com pedras preciosas de todo o tipo. Nós pegamos o ouro, que nós encontramos na nobre múmia deste deus, e seus amuletos ugiat, e os ornamentos, os quais estavam em seu pescoço e os das bandagens, nas quais ele jazia. Nós encontramos a rainha, similarmente adornada, e nós pegamos tudo o que encontramos sobre ela também, nós colocamos fogo nas faixas, nós roubamos seus atavios, os quais nós encontramos sobre eles, objetos de ouro prata e bronze e dividimos entre nós. Nós dividimos o ouro, o qual nós encontramos sobre estes dois deuses e sobre suas múmias, em oito partes... depois nós atravessamos [o rio] em direção a Tebas. Poucos dias depois, os superintendentes do distrito ouviram sobre nosso
saque no ocidente e eles prenderam-me e mantiveram-me na sala do prefeito de Tebas (...)” (Harris e Weeks, 1973: 104).
Após a comprovação do roubo da tumba de Sobekemsaf e de Nebkhaas, Paser solicitou ao tjati9 Khaemwese uma inspeção na necrópole, afim de identificar quais tumbas haviam sido violadas. O papiro Abbott, conservado no Museu Britânico em Londres, descreve esta inspeção e aponta que apenas uma tumba real foi encontrada saqueada:
“A pirâmide do faraó Setkhemre-Shedtawy, filho de Ra, Sobekemsaf: os ladrões arrombaram por um túnel através da câmara inferior da pirâmide para o saguão central da tumba do superintendente do celeiro do rei, Menkheperre Nebamon. A câmara funerária do rei foi encontrada vazia de seu senhor, como estava a câmara funerária da rainha, Nebkhaas, sua consorte. Os ladrões deixaram cair suas mãos sobre eles: O tjati, os nobres e os mordomos investigaram isto, e a maneira pela qual os saqueadores colocaram suas mãos sobre o rei e sua consorte foi determinada (...)” (Harris e Weeks, 1973: 105).
Este fato demonstra uma contradição entre as declarações de Paser e de Pawero. Isto se devia, provavelmente, ao envolvimento deste último com os saques. Ele próprio deve ter conduzido a investigação e as ações de inúmeros saqueadores certamente foram ocultadas.
Ainda no mesmo papiro, os inspetores se referem a violações de tumbas privadas e descrevem o caráter destrutivo das ações dos saqueadores:
“ Os túmulos e tumbas na qual os privilegiados dos primeiros tempos, as habitantes e as pessoas da terra do descanso, no Ocidente da cidade: eles foram encontrados pelos saqueadores, que os violaram todos, arrancando seus donos de seus ataúdes e suas faixas, jogando-os através do deserto, e pilhando seu enxoval funerário, com o qual eles estavam, junto com o ouro e a prata e os objetos que estavam entre suas faixas” (Harris e Weeks, 1973: 105).
Tal relato seria suficiente para condenar Pawero por negligência. No entanto, ele ainda conseguiu assegurar seu posto e mantinha o mesmo discurso. Paser, por seu lado, continuou insistindo em provar que os roubos realmente existiam e obteve confissões de alguns saqueadores. Porém, perante o tjati, eles negavam seu envolvimento.
Paser tomou uma última decisão – listou as tumbas saqueadas para comunicar ao faraó os roubos. Entretanto, um comentário com Nesuamon, o mordomo real, prejudicou seu plano. Nesuamon escreveu uma carta a Khaemwese,
afirmando: “seria uma ofensa se um na minha posição ouvisse tal coisa e a ocultasse” (Harris e Weeks, 1973: 107).
Kaemwase opunha-se às acusações de saques que, para ele, não tinham fundamento. Esta atitude teve como principal conseqüência a continuação da ação dos saqueadores. Paser só conseguiu conter os roubos depois de doze meses, quando uma nova tumba havia sido violada. Khaemwase, então, teve que admitir a existência dos saques e provavelmente foi deposto.
Um novo tjati, Nebmare-Nakht, com empenho, conseguiu prender quarenta e cinco saqueadores. No ano 19 do reinado de Ramsés XI, aproximadamente 1095 a. C., um interrogatório foi efetuado no templo da deusa Mut10 (Desroches-Noblecourt, 1984: 49). Entre os envolvidos estavam o inspetor do templo de Amon, Payesokar, o queimador de incenso do templo de Amon, Shed-Khonsu, o trombeteiro do templo de Amon, Amonkhaw, o estrangeiro, Userhet-Nakht, e o queimador de incenso Nesamon (Harris e Weeks, 1973: 108-111). As confissões foram obtidas através de bastonadas. Os papiros, entretanto, não mencionam o fim desta história. Os envolvidos no saque das tumbas tebanas provavelmente foram condenados e mortos.
As tentativas de fiscalização das tumbas continuaram. Horemkhenesi, chefe dos trabalhadores, deixou registrado em um grafite (n° 2138), a leste da entrada da tumba de Seti II, o seu trabalho:
“Ano 20, segundo mês do verão, (...), a vinda do sacerdote-wab de Amon-Ra, rei dos deuses, o maior no grupo do local da verdade, Horemkenensi, para fazer a inspeção inicial no grande vale, com os agentes do grupo, os quais estavam sob seu comando: Heramonpena, (...), Kenamon e Sapaankh” (Taylor, 1995: 18).
Com a morte de Ramsés XI, o Egito entrou em um novo período de conturbação social. O Vale dos Reis não era, agora, um local seguro, nem mesmo para os vivos. Temerosos, os últimos trabalhadores de Deir el-Medina mudaram-se para o Sul, refugiando-se no interior das muralhas do templo de Medinet Habu. Posteriormente a esta mudança, os trabalhadores foram dispersos, sendo alguns recrutados pelo exército (Taylor, 1995: 38).
Preocupados com a segurança das múmias, os oficiais continuaram fiscalizando as tumbas conhecidas e começaram uma busca para encontrar as tumbas antigas. Iniciou-se um novo processo, em meados da XXI dinastia, uma espécie de confisco de bens que não haviam sido levados pelos saqueadores. Este episódio é às vezes descrito como “a saga das múmias errantes”. Os sacerdotes do templo de Karnak recolheram as múmias que ainda se encontraram nas tumbas.
Muitas estavam danificadas e foram restauradas, reenfaixadas e depositadas em “novos” ataúdes, pertencentes a outros indivíduos cujas múmias provavelmente haviam sido destruídas (El-Nawaway, 1980: x).
Inúmeras múmias passaram por várias tumbas, até serem depositadas em dois “esconderijos reais”. Este fato ocorreu no início da XXIII dinastia, durante o reinado do faraó Sheshonq I (c. 945 a. C.). O primeiro esconderijo era a tumba da rainha Inhapi, onde quarenta múmias (sendo trinta e duas de personalidades régias e oito sacerdotais) foram inumadas (El-Mahdy, 1995: 36-37). No segundo esconderijo, a tumba do faraó Amenhotep II, foram depositadas dez múmias reais e outras seis não identificadas.
Em períodos posteriores, outros sepultamentos coletivos devem ter sido organizados da mesma maneira. Destes, certamente, como já observamos, são provenientes as múmias e diversos artefatos da coleção do Museu Nacional do Rio de Janeiro.
As últimas tentativas de conter os saques das tumbas foram eficazes. O “descanso” das múmias só foi novamente perturbado dois mil anos depois, quando antiquários e saqueadores as descobriram no século XIX.
Conclusão
A preparação para uma vida futura, segundo a religião egípcia, devia incluir nos túmulos objetos que o morto iria reutilizar. Tais objetos foram o principal alvo da atividade dos saqueadores. Na tentativa de contê-los, antes mesmo dos saques serem efetuados, sua prática já era condenada pela ideologia religiosa. A arquitetura funerária foi modificada, as tumbas imponentes foram substituídas pelos discretos hipogeus, construídos longe dos templos funerários.
A própria vila de Deir el-Medina, construída isoladamente, representa uma tentativa efetiva de vigilância do Estado sobre a população de trabalhadores e artesãos encarregados da construção das tumbas. Mesmo assim os saques ocorriam e, em algumas ocasiões, contavam com o apoio de autoridades responsáveis pela manutenção das tumbas, como comprovado pelas descrições contidas nos papiros e nas ostracas provenientes da vila. Estas atitudes eram combatidas por outras pessoas de posição equivalente que denunciaram estas ocorrências. Como última medida, os sacerdotes procuraram reunir as múmias restantes e artefatos funerários, e os depositaram em tumbas coletivas. Este material corresponderia ao que foi encontrado no século passado por antiquários e saqueadores e veio a constituir as coleções de museus atuais, como o Museu Nacional no Rio de Janeiro.
Os fatores relativos aos saques contribuíram para estabelecer um contexto comum a estas coleções, que se incorporou à sua história e por isto se tornam imprescindíveis para seu estudo, já que ser tornaram mais uma regra do que exceção em se tratando de tumbas egípcias.
Agradecimentos
O autor agradece ao egiptólogo Prof. Dr. Ciro Flamarion Cardoso (Titular de História Antiga e Medieval da Universidade Federal Fluminense), a leitura do manuscrito e valiosas observações a ele efetuadas.
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Notas
1 Por contexto entendemos aqui a localização espaço-temporal de todo conjunto da cultura material que encontra-se em um sítio arqueológico. Quando este contexto (a exemplo uma tumba contendo uma múmia junto a seus pertences) é violado, os artefatos são geralmente remexidos, removidos e até mesmo roubados, isto significa que foram retirados de sua posição original (a que os antigos egípcios tinham deixado), alterando assim o referido contexto, tornando-o perturbado.
2 Segundo a religião egípcia um indivíduo era composto por diversas partes: possuía um corpo físico (Khet); uma sombra (Shut); um nome (Ren); um coração (Ib); o “princípio de sustento” (Ka);e o “princípio de “mobilidade” (Ba). Estas partes separavam-se no instante da morte, e voltavam a se reunir após a mumificação do corpo e a realização de determinados rituais: surgindo então o Akh (princípio da imortalidade), configurando assim um morto transfigurado que existia eternamente.
3 Deusa híbrida, representada com uma cabeça de crocodilo, a parte dianteira do corpo de leão e a parte posterior de hipopótamo.
4 Material composto por argila e fibras de vegetais, muito empregado na confecção de tijolos secos ao sol.
5 Tumbas subterrâneas escavadas na rocha.
6 Deusa do amor, da música e da dança. Dentre suas várias representações, a mais comum é a de uma mulher coroada com o disco solar entre cornos bovinos.
7 Escrita cursiva simplificada desenvolvida a partir dos hieróglifos.
8 O faraó Sobekemsaf e sua esposa, bem como os outros soberanos da XVII dinastia, foram enterrados em Dra Abu el-Naga. As tumbas desta necrópole foram escavadas por Auguste Mariette, antes de 1860. Ele descobriu uma série de objetos com inscrições, fragmentos de ataúde “rishi” (com decoração em forma de plumas de pássaro), armas e jóias. Sobekemsaf reinou provavelmente entre 1630 e 1550, dividindo estes setenta anos com outros reis. Sua tumba foi saqueada provavelmente em 1080 a. C., permanecendo intacta por cerca de 550 anos, se considerarmos a data mais antiga, ou cerca de 500 anos com a data mais recente. 9 Amuleto na forma do olho do deus Hórus ( ), utilizado popularmente para proteção.
10 Título equivalente a Vizir ou Primeiro Ministro.
11 Deusa considerada o “Olho de Ra”, representada como uma mulher portando a coroa do Alto e Baixo Egito.
Revista GAIA - UFRJ

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

A AMBIGÜIDADE DA MULHER-FARAÓ: GÊNEROS MASCULINO E FEMININO NAS REPRESENTAÇÕES DA RAINHA-FARAÓ HATSHEPSUT (SÉCULO XV a.C.)

Aline Fernandes de Sousa
Aluna do curso de Graduação em História da Universidade Federal Fluminense.

O Egito Antigo sempre despertou grande interesse, não só do meio acadêmico como também do público em geral. Tal atração pode ser em parte explicada pela forma peculiar na qual foi organizado o poder nesta sociedade e pelos mitos que o cercavam. A monarquia divina fazia com que, após ascender ao poder, o faraó mais do que simples sustentáculo de uma civilização se tornasse o pilar cósmico que impedia que o caos voltasse ao mundo organizado, já que a idéia de que era descendente do demiurgo criador fazia dele um deus, um Hórus vivo1. A figura divina e poderosa do governante, caracteristicamente masculina, deveria ser visível e entendida por toda sociedade. A arte, desta maneira, era utilizada como um dos instrumentos de manipulação e divulgação do poder e da ligação real com os deuses. A chamada arte canônica ou oficial, instituição do Estado egípcio e submetida a regras rígidas, baseava-se fortemente na ideologia da monarquia divina. As imagens dos soberanos eram sempre idealizadas, já que representações de velhice, deformidade e movimento violento, eram praticamente inexistentes. O faraó como homem era sempre representado no apogeu de sua vida e como um deus era retratado com perfeição e vigor.
Por volta do século XV a.C., um acontecimento pouco comum criou um desafio para os artífices: a ascensão de uma mulher como faraó. Como representar esse ser, meio humano e meio divino, que ocupava um papel essencialmente masculino, mas que era antes de tudo uma mulher?
A rainha Hatshepsut, sexta governante da XVIIIª dinastia2, mais do que comandar uma terra, se fez representar como um autêntico faraó no auge do seu poder. Assim, a arte teve um forte papel na sua tentativa de legitimação do seu reinado. Sua imagem exigiu da arte oficial adaptações que dessem conta do novo quadro que se apresentava.
Este artigo, parte de uma pesquisa monográfica em andamento, pretende analisar algumas representações de Hatshepsut pensando como os gêneros feminino e o masculino foram trabalhados nessas obras e seu impacto nas diretrizes artísticas provenientes da monarquia divina. Faz-se necessário explicitar que, em virtude dos limites do presente artigo, não conseguiremos abarcar a totalidade das imagens da soberana, apenas nos concentraremos nas representações mais relevantes para o desenvolvimento do tema.
A transformação da rainha em faraó
Hatshepsut3 vai aparecer pela primeira vez nas fontes em uma estela de Thutmes II4 como sua principal esposa e sob o título de “Esposa do deus”5. Como única filha da esposa real Ahmose e do faraó Thutmes I, casou-se com o meio-irmão, filho de uma esposa secundária, para que este pudesse ascender ao trono. Com a morte deste faraó apenas alguns anos depois e tendo a rainha, assim como sua mãe, apenas uma filha – Neferura -, mais uma vez foi necessário escolher o descendente de uma esposa secundária para suceder o soberano. Por ter o herdeiro de Thutmes II – Thutmes III - pouca idade, com sua coroação Hatshepsut acabou assumindo o poder do país como regente, o que não era incomum para uma rainha.
Mesmo com o início do reinado de Thutmes III, a regente Hatshepsut continuou a usar a insígnia de esposa principal do rei e, principalmente, de “Esposa do deus”. Ainda no período de regência ela mandou construir dois obeliscos, em uma ação caracteristicamente real. Como regente, Hatshepsut reforçou sua autoridade através de imagens, títulos e ações.
Pesquisas indicam que por volta do sétimo ano de regência do reinado de Thutmes III, Hatshepsut abandonou os títulos referentes à rainha e utilizou insígnias de rei, chegando inclusive a adotar um nome de trono - Maatkare. Para suportar sua legitimidade como governante, Hatshepsut desenvolveu textos que a mostravam sendo escolhida por seu pai (Thutmes I) como sua sucessora e sendo apresentada aos deuses como tal. O desenvolvimento do mito do nascimento divino, na qual ela teria sido gerada através da união do deus Amon com sua mãe Ahmosé, também foi utilizado para reforçar sua legitimação.
Hatshepsut, como mulher, não podia tomar parte nas campanhas militares, com isto, preferiu não estabelecer nenhuma operação de guerra como fizeram seus antecessores. Ela adotou uma política de fortalecimento das defesas egípcias e promoveu a economia através de expedições comerciais em terras estrangeiras, como a realizada na terra de Punt6. Como faraó, também priorizou a construção de monumentos e edificações. Entre as grandes construções do período está a de seu templo em Deir el-Bahri.
Ao se tornar rei, Hatshepsut transferiu o ofício de “Esposa do deus” para a sua filha Neferura, cuja figura ganha proeminência no reinado da mãe. Autores como Gay Robins acreditam que a emergência da figura de Neferura se deu pela necessidade do faraó Hatshepsut ter seu contraponto “feminino” em alguns rituais que exigiam a presença da “mãe do rei” ou da “esposa do rei” (ROBINS, 1993, p. 49).
Não se sabe como Hatshepsut morreu, nem como ela deixou o trono. O único dado concreto que temos é que no ano 22 de reinado, Thutmes III aparece governando sozinho. As fontes demonstram que, nos últimos anos de reinado, este faraó procurou apagar a memória de Hatshepsut, provavelmente pelo fato de que, após a estabilidade conseguida em seu governo solitário, ter sido antecedido por uma mulher não corresponderia a maat7. Porém, não há consenso quanto a isso.
Quando analisamos essa exceção, ou seja, a possibilidade de uma mulher exercer o poder como faraó e na ambigüidade de sua figura, devemos ter em mente o importante conceito de gênero. Este deve ser relacionado a “papéis socialmente construídos” (SOIHET, 1997). Isso significa que o gênero não necessariamente está ligado aos sexos biológicos, sendo estes, portanto, papéis intercambiáveis. Assim, o faraó, tendo um forte aspecto masculino, pôde perfeitamente ser uma mulher, como no caso de Hatshepsut, mesmo que para isto em muitas representações seus aspectos femininos tivessem que ser suprimidos como veremos mais adiante.
A construção da imagem de Hatshepsut: o choque e o encontro do masculino com o feminino.
Para os egípcios o mundo era uma totalidade coerente e a explicação da realidade era construída através de mitos. Nesta forma de pensamento eram empregadas inúmeras oposições que se complementavam e conduziam a uma síntese. No imaginário egípcio, a união desses opostos promoveria a criação. Dentro dessa perspectiva, o masculino e o feminino eram encarados como complementares e seu contraste era visto como o principal exemplo do que é dinâmico. Mesmo pertencendo a um princípio único, a cada um caberia uma esfera de ação. Às mulheres caberiam as funções de gerar, curar e manter o equilíbrio e aos homens as funções de julgar, guerrear e conduzir (SOUZA, 2003 , p.64.). Por ser o faraó considerado um Hórus vivo, a ocupação do trono do Egito por uma mulher era uma transgressão à ordem. Assim, a ascensão de Hatshesput necessitava de uma legitimação, ou seja, de obras e ações que explicassem e justificassem seu lugar no trono do Egito. Suas representações deveriam resolver o problema estético que se apresentava, trabalhando o aspecto feminino proveniente da sua condição de mulher e com o aspecto masculino oriundo de sua posição como faraó. Ao longo da trajetória desta personagem inúmeras soluções foram encontradas e estas variaram de acordo com a posição ocupada por Hatshesput na política egípcia.
Ainda como esposa de Thutmes II, Hatshepsut é retratada tradicionalmente como uma consorte real, com paramentos e insígnias referentes a sua posição como o adorno de cabeça em formato de abutre típico das rainhas, por exemplo. Com a morte do faraó e a chegada ao trono de Thutmes III, Hatshepsut começa a atuar como regente. Sabemos que ao longo desse período Thutmes III foi representado menos freqüentemente que Hatshepsut, e quando eles eram retratados em uma mesma cena, a rainha era indubitavelmente o “parceiro” dominante. Observamos a partir daí modificações em sua imagem. A produção desse período pode ser interpretada como obras de transição, já que começam a aparecer algumas características próprias dos faraós nas representações de Hatshepsut. A figura 1 é um exemplo desse momento, onde percebemos a mescla de alguns atributos. Esta escultura encontrada na cidade de Tebas e atualmente exposta no museu Metropolitan em Nova York, mostra Hatshepsut em trajes femininos, mas usando o turbante nemes, peça reservada ao faraó. O texto localizado ao lado de suas pernas reforça tal análise ao mostrar mais uma junção de características8. Nesta inscrição, ela já adota o nome de trono Maatkare, porém, os títulos e epítetos ainda são femininos. Uma cena não visível nesta imagem, na parte posterior, do trono é ainda mais impressionante. Nela temos a representação da deusa em forma de hipopótamo – Ipi - protetora de mulheres grávidas e crianças; sendo desta maneira, associada às rainhas. Todas essas características indicam, portanto, que essa obra é oriunda do período em que a rainha fazia a transição de regente para soberana.


FIGURA 1 - Estátua da rainha Hatshepsut em trajes femininos usando o turbante nemes, atributo reservado ao faraó no poder. À direita: detalhe da inscrição contida na parte frontal da peça
Referência: http//www.metmuseum.org/works_of_art - 22 fev. 2007

Com sua ascensão ao trono do Egito como faraó, as representações de Hatshepsut sofreram significativas modificações. Com sua transformação em autêntico soberano, tornou-se clara a necessidade de produzir um conjunto de imagens equivalentes ao novo papel desempenhado pela governante. Assim, nada seria mais natural do que o surgimento de obras que retratassem Hatshepsut como um autêntico faraó, com a conseqüente supressão de seus traços femininos. Entretanto, para além do óbvio aparecimento de imagens masculinizadas, o que observamos é uma pluralidade na forma como sua figura foi trabalhada.
A análise das fontes oriundas do que podemos chamar de período “faraônico” de Hatshepsut permitem uma divisão das imagens em dois grupos principais:
1. Hatshepsut totalmente masculinizada.
2. Hatshepsut em representações que podemos chamar de andróginas, onde o corpo, posição e paramentos masculinos são suavizados por traços delicados.
Em imagens onde Hatshepsut aparece masculinizada, como a da figura 2, a supressão total de seus atributos femininos faz com que a produção artística siga as diretrizes tradicionais de representação de um faraó. Especificamente nesse exemplo, vemos Hatshesput fazendo oferenda de ungüentos ao deus Hórus trajando uma indumentária própria dos faraós, como a barba real. Se olharmos para figuras como essa sem termos idéia de quem se trata, fica praticamente impossível saber que a imagem retratada é de uma mulher. O mesmo acontece na figura 3 onde Hatshepsut, usando o turbante afnet, a barba real e vestindo o saiote shemdyt é retratada em posição de oferenda. Nessa escultura vemos que foi dada ênfase aos seus traços em detrimento ao corpo, porém, estes, apesar de harmoniosos, não remetem a uma grande feminilidade como ocorre com um número significativo das suas imagens.
O segundo grupo de imagens é muito interessante e contém algumas das representações mais graciosas da governante. A figura 4 é talvez uma das imagens mais famosas da soberana e nela é facilmente percebida a junção dos atributos femininos e masculinos. A cabeça de Hatshepsut é representada com a barba real e o fragmento do turbante em sua cabeça indica que usava a coroa dupla. A cor avermelhada de sua pele é uma característica das imagens masculinas, sendo também própria das do faraó. É interessante notar que este fragmento de estátua é composto por traços delicados. O nariz retilíneo dá um aspecto suave ao rosto, os lábios grossos estão em forma de um leve sorriso e ficam evidentes para o observador as linhas femininas do rosto, mesmo com as insígnias e símbolos estando relacionados ao seu papel como faraó.

FIGURA 2 - Relevo em pedra calcária representando Hatshepsut fazendo oferenda de ungüentos ao deus Hórus (1473 a 1458 a.C.)
Referência: HAGEN, Rainer. Egipto: pessoas, deuses e faraós. Taschen, 2005, p. 200.

FIGURA 3 - Estátua de granito vermelho do faraó Hatshepsut em posição de oferenda (1473 a 1458 a.C.)
Referência: HAGEN, Rainer. Egipto: pessoas, deuses e faraós. Taschen, 2005, p. 122

A ambigüidade também é percebida nas representações da rainha sob a forma de esfinge (figura 5), pois, no entendimento egípcio, esta figura era basicamente masculina. Nas inúmeras esfinges encontradas em seu templo em Deir el-Bahri, vemos que o rosto da rainha sobressai da juba com a mesma expressão graciosa de suas estátuas antropomorfas. Na imagem disponível vemos a sua representação em pose clássica de esfinge e utilizando, mais uma vez, a barba real, onde os lábios finos, juntamente com os olhos e sobrancelhas pequenas conferem a escultura traços femininos e delicados.
Com relação às representações oriundas do período faraônico, mais especificamente a maneira pela qual a ambigüidade foi utilizada e em que momento foram desenvolvidas três hipóteses relativas às representações imagéticas desta rainha a serem comprovadas. Antes de expô-las faz-se importante atentar para um dos aspectos evidenciados pela pesquisa: a fusão entre os gêneros feminino e masculino é mais evidente na estatuária, o que é previsível em virtude da maior riqueza de detalhes que a técnica de escultura permite.

FIGURA 4 - Cabeça de estátua em pedra calcária pintada de Hatshepsut
Referência: DIETRICH, Wildung. A décima Oitava Dinastia. In: TIRADRITTI, Francesco (Ed.). Tesouros do Egito do Museu do Cairo. São Paulo: Manole, 1998, p. 163


FIGURA 5 - Esfinge de Hatshepsut em pedra calcária pintada (1470 a.C.). À direita: Esfinge de Ammenemes II em granito vermelho/ 1900 a.C. Imagem que demonstra a diferença entre a suavidade e a feminilidade emergente dos traços da esfinge de Hatshepsut das feições destacadas pela esfinge de Ammenemes II.
Referência: ALDRED, Cyril. Egyptian art in the days of the pharaohs, 3100 – 320 BC. London: Thames and Hudson, 1985, p. 149 e 154

A primeira hipótese a ser comprovada é que em representações onde Hatshepsut é retratada sozinha, ou seus traços femininos são preponderantes ou sua figura ganha um aspecto andrógino, como nos exemplos apresentados. A segunda hipótese é que na maioria das representações onde Hatshepsut faz parte de cenas onde estão homens e deuses, como forma de auto-afirmação de seu poder, o aspecto masculino de sua condição de faraó é reforçado. Fica claro que, por serem mais comuns as representações de ação e de cenas com conjunto de figuras em relevos, as imagens da governante com aspectos exclusivamente masculinos são mais recorrentes nessas obras.
Finalmente, a terceira hipótese corresponde à idéia de que o forte impacto causado na arte canônica pela necessidade de se adaptar o aspecto feminino proveniente do sexo biológico de Hatshepsut a imagem de caráter masculino proveniente da sua posição como faraó, ocasionará, nos primeiros anos de reinado absoluto de Thutmes III, uma temporária suavização nas formas e o aparecimento de traços femininos em suas imagens, demonstrando uma profunda influência das representações feitas da mulher-faraó. Esta influência fica bastante explícita na estátua de Thutmes III em mármore branco (figura 6), onde o faraó aparece em posição de oferenda com dois vasos nu, usando o turbante nemes e o saiote shemdyt. A elegância juvenil do corpo, o perfil nobre do rosto, onde parece aflorar um sorriso fino e amável, encontram-se nesta estátua real. O interessante dessa representação é que a ênfase do retrato não está na aparência atlética e no físico, destacados na maioria das imagens posteriores desse faraó. Como reforço do que dissemos, podemos comparar as imagens da rainha Hatshepsut com a de Thutmes III. A figura 7 mostra a soberana retratada na mesma posição da estátua de Thutmes III apresentada anteriormente. É possível perceber uma grande semelhança entre as estátuas para além de sua posição; esta também ocorre nas feições e nas formas delicadas dos corpos representados.

FIGURA 6 - Estátua do faraó Thutmés III em mármore branco em posição de oferenda.
Referência: DIETRICH, Wildung. A décima Oitava Dinastia. In: TIRADRITTI, Francesco (Ed.). Tesouros do Egito do Museu do Cairo. São Paulo: Manole, 1998.


FIGURA 7 - Estátua em granito de Hatshepsut utilizando a coroa branca e em posição de oferenda. Forte aspecto masculino em sua representação (1460 a.C.)
Referência: ALDRED, Cyril. Egyptian art in the days of the pharaohs, 3100 – 320 BC. London: Thames and Hudson, 1985, p. 155

Por fim, através dos exemplos apresentados, pode-se perceber que a solução estética utilizada para o problema de representação, oriundo da ambigüidade proveniente da figura da rainha-faraó Hatshepsut, foi bem sucedida. Graças ao prestígio da soberana e de suas obras, a aplicação de traços femininos em figuras tradicionalmente masculinas resultou em uma suavização do rosto nas representações régias que terminaram por influenciar a iconografia do início do reinado solitário do faraó Thutmes III, o mesmo que, após seu misterioso desaparecimento, foi responsável pela destruição dos ornamentos e das imagens da rainha que se tornou faraó.

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PRESEDO, F. El Arte del Antiguo Egipto. Madrid: Anaya, 1989.
ROBINS, Gay. Women in Ancient Egypt. Cambridge (Massachusetts): Harvard University Press, 1993.
SOIHET, Rachel. História, Mulheres, Gênero: Contribuições para um Debate. In:
AGUIAR, Neuma (org) Gênero e Ciências Humanas – desafio às ciências desde a perspectiva das mulheres. Rio de Janeiro, Ed. Rosa dos Tempos, 1997.
SOUZA, Anna Cristina F. de. Nefertiti: sacerdotisa, deusa e faraó. Androginia e poder nas imagens de Amarna. Niterói: UFF, 2003 (Dissertação de Mestrado).
VALBELLE, Dominique. O artesão. In: DONADONI, S. (org.). O Homem Egípcio. Lisboa: Editorial Presença, 1994.
WIESNER, J. Egipto. Lisboa: Editorial Verbo, 1970.

Notas
1 Segundo um dos mitos de criação do universo presente no Egito, Hórus seria filho do casal divino Osíris e Ísis, estes originados do primeiro casal - Nut e Geb – criado pela ação do demiurgo criador. Assim, ao ser coroado, cada faraó tornava-se a encarnação de Hórus e, consequentemente, descendente em linha direta do deus primordial, sendo, portanto, dono do mundo e de tudo que ele contivesse. 2 Esta dinastia corresponde a ascensão do faraó Ahmés I (1550-1525 a.C.) até o reinado do faraó Horemheb (1323-1295 a.C.).
3 Hatshepsut governou de 1473 a 1458 a.C.
4 Período atribuído ao seu reinado: 1492 a 1479 a.C.
5 O papel de “Esposa do deus” foi adotado pela primeira vez pela rainha Ahmés-Nefertari, esposa do faraó Ahmés (1550-1525 a.C.) e avó de Hatshepsut. Este título dava a mesma um poder não só religioso, já que estava relacionado ao nascimento divino do soberano onde acreditava-se que Amon-Rá manteria relações com a rainha com o intuito de gerar um novo rei, como também político, já que a adoção deste título tornava-a referência para a sucessão dinástica.
6 O país de Punt, desde que começou a ser mencionado nas inscrições egípcias, foi descrito como uma região cheia de maravilhas e de fabulosas riquezas. Entretanto, localização exata de Punt continua sendo assunto controverso, mas as opiniões variam entre a Somália, costa sudeste do Sudão ou a Eritréia, como zonas prováveis desse país.
7 Maat: deusa que personificava a ordem, equilíbrio e justiça.
8 A tradução da inscrição presente nesta peça foi retirada do site do Metropolitan Museum.

Revista GAIA - UFRJ

domingo, 31 de janeiro de 2010

Tutankhamon - Novos Achados

Os arqueólogos fizeram uma abertura na porta larga o bastante para poderem entrar naquela sala que foi chamada de "antecâmara". Media 3,70 x 8,00 e tinha 2,5 metros de altura. Empilhada junto a cada uma das paredes, mas com uma certa ordem, havia uma grande quantidade de objetos.

Tudo parecia recente: uma impressão digital na superfície pintada, flores incrivelmente bem conservadas, uma lâmpada que parecia ter sido apagada há pouco, um recipiente com argamassa utilizada para rebocar a porta...

Ao longo de uma parede via-se três divãs dourados em cujos lados haviam sido esculpidos animais que projetavam sombras grotescas, iluminadas pelas lanternas dos exploradores.

À direita da entrada duas estátuas do faraó, pintadas de negro e dourado, em tamanho natural, voltadas uma para a outra, guardavam uma porta selada.

Rodeando essas figuras havia dezenas de objetos empilhados: porta-jóias, vasos de alabastro, pequenas capelas negras fechadas, caixas brancas ovais, carruagens desmontadas, um retrato do faraó...

O solo estava coberto de cascalhos, de fragmentos, de elementos vegetais provenientes de ramos e cestos espalhados.

Os ladrões que haviam entrado na tumba por duas vezes haviam desprezado certos objetos. Tiraram o fundo de uns pequenos cofres, abriram cestos, esvaziaram os vasos de óleos... mas tudo ali oferecia um espetáculo ímpar aos exploradores.

O diário de escavação de Carter relacionou 171 móveis e objetos diferentes nessa antecâmara, isso sem se levar em consideração que alguns desses objetos eram cofres com vários elementos no seu interior.

Nessa sala também havia uma capela feita de madeira dourada, com meio metro de altura, que mostrava suas portas abertas, violadas pelos ladrões.

Nela deveriam estar duas estátuas (uma do rei e outra da rainha), de ouro maciço. A capela estava montada sobre um trenó de madeira laminada de prata. O grupo estatuário nunca foi encontrado.

As estátuas pintadas de negro que mencionamos antes traziam o nome do "Ka Real de Horakhty, o Osíris-Tutankhamon" tinham 1,70 metro e guardavam uma porta lacrada. Além dessa porta Carter percebeu que havia uma outra na parede ao lado da qual estava empilhada a maior parte dos objetos que estavam na antecâmara. Nela os pesquisadores viram que já havia um pequeno buraco, talvez feito pelos ladrões.

A sala a que dava acesso mostrava estar em grande desordem, possivelmente porque havia sido utilizada pelos ladrões para o exame dos "tesouros". Mas a essa sala retornaremos mais adiante.

O que realmente preocupava Carter era o lugar onde poderia estar o sarcófago do rei. Teria sido saqueado? A múmia teria sido destruída por algum governante posterior, num ato de revanche contra os que participaram da reforma de Akhenaton ? Teria sido violada pelos ladrões na busca de amuletos valiosos ?



Em 17 de fevereiro de 1923 os arqueólogos derrubaram solenemente a parede guardada pelas duas estátuas negras do rei. Cerca de 20 convidados estavam presentes, enfastiados, comentando estarem prestes a testemunhar a abertura de mais uma tumba vazia.

Carter foi lentamente retirando a argamassa e cada uma das pedras que bloqueavam aquela passagem. Quando a abertura estava suficientemente larga, penetrou na câmara seguido de Carnarvon.

Passados 20 minutos regressaram em silêncio e com ar de estupefação à antecâmara.

Gestos acompanhando esse ar fizeram com que os convidados avançassem numa corrida desenfreada para o buraco aberto na porta, pisoteando-se uns aos outros. Restaurada a ordem, todos, dois a dois, puderam entrar naquela sala.

Ali viram colares espalhados pelo chão, caixas em formas de capelas e pilones, uma grande capela de madeira decorada que ocupava quase toda a sala, odres de vinho, remos de madeira, uma trombeta de prata, lâmpadas de alabastro, estátuas...

Essa sala, batizada pelos exploradores de "câmara mortuária", era a única decorada da tumba. Estava um metro abaixo do nível do solo da antecâmara e dela os arqueólogos podiam ver uma outra sala que não estava bloqueada.

Os pesquisadores se aproximaram da grande capela dourada e viram que suas portas tinham trancas de ébano. No chão, frente à capela, notaram que jazia um selo de terra com o cartucho da necrópole, destinado a lacrar as trancas. Aquele selo havia sido rompido pelos salteadores que tinham conseguido chegar à múmia do rei.

Quando as pesadas portas da capela foram abertas, Carter viu-se frente a um fino dossel de linho, amarelado pelo tempo, no qual estavam presas margaridas de bronze dourado. Havia bastões, armas, recipientes de alabastro e outras miudezas.

Por trás do dossel, o indício mais importante: a porta de uma segunda capela, também de madeira dourada, trazia na tranca o lacre (selo) da necrópole tebana...intacto! Este selo ou lacre (foto acima) era usado para fechar e selar túmulos, para que ninguém entrasse depois de o defunto ser enterrado. Os selos eram de argila e tinham gravado o nome e várias imagens que faziam referência a necrópole.

Dentro da câmara funerária do túmulo de Tutankhamon, Carter encontrou quatro santuários (capelas). Neste segundo santuário (capela) ainda continha o selo (lacre), nele vê-se um chacal, que representa o Deus Anupu, guardião das necrópoles, e nove personagens cativos, ajoelhados e com as mãos atadas nas costas.

Abertas as portas dessa segunda capela (santuário), mais objetos foram encontrados: arcos cerimoniais, flechas, abanadores... e uma terceira capela decorada como as anteriores.

Quando foram abertas as portas dessa capela, mais uma foi encontrada. Sua forma diferia das três anteriores. A cada objeto encontrado pelos arqueólogos eram desvendados os segredos das cerimônias funerárias e da vida do jovem rei sepultado naquela tumba.

As capelas representavam as que foram erigidas por Ísis nos lugares santos onde havia encontrado as partes do corpo de Osíris. O rei morto representava, agora, o próprio deus morto, pronto a ressuscitar num outro mundo, unindo-se à própria essência divina.


Bem, as portas da quarta capela foram abertas. Havia um brilho dourado no que viam, diferente do brilho do ouros das capelas anteriores.

Era o de um sarcófago de quartzito amarelo, belo na sua decoração e muito bem guardado pelas capelas externas. Estava-se cada vez mais próximo da múmia do rei.
misteriosantigos.com

quarta-feira, 17 de junho de 2009

O rei está nu(a) - Hatshepsut

Por que Hatshepsut resolveu governar o Egito como se fosse homem?
Foto de Kenneth Garrett


Em uma cena festiva, Hatshepsut se posta diante de seu enteado, Titmósis III, os dois vestidos como faraós, sendo que os títulos sobre suas cabeças referem-se a ambos como sendo uma só pessoa.
Foto de Kenneth Garrett


Um vale escarpado no Deserto Ocidental abraça o templo mortuário de Hatshepsut. Atrás da crista da serrania jaz a grande depressão geológica conhecida agora como vale dos Reis, o cemitério real em que fica a entrada para sua tumba. O pai da rainha foi talvez o primeiro faraó a preparar o local para seu descanso final, dando início à tradição que iria perdurar por mais de quatro séculos.
Foto de Kenneth Garrett


Onde estava Hatshepsut? Um século atrás, dois corpos de mulher foram achados em uma tumba menor, removidos para lá por sacerdotes que queriam escondê-los de ladrões. Testes recentes revelaram a identidade das múmias: a ama de leite de Hatshepsut (à esq.) e Hatshepsut (à dir.)
Foto de Kenneth Garrett


Visitantes do Templo de Amon, em Karnak, observam as imagens de Hatshepsut como um faraó viril que foram arrancadas a talhadeira anos depois de sua morte. O suspeito é seu enteado, movido pela esperança de impedir que parentes da mulher-faraó usassem aquelas figuras como apoio a suas pretensões ao trono.
Foto de Kenneth Garrett


Um rosto luminoso pintado no calcário do templo mortuário de Hatshepsut em Deir el Bahri, revela características que a mulher-faraó compartilhava com parentes próximos: nariz aquilino, boca larga e lábio superior proeminente. "A família toda era dentuça", explica a arqueóloga Betsy Bryan.
Foto de Kenneth Garrett


O obelisco de Hatshepsut, esculpido em um só bloco de granito, ergue-se a 30 metros sobre as ruínas de Karnak. Desafiando as tentativas de apagar Hatshepsut da história, ele permanece esplendoroso como o mais alto monumento do Egito.
Foto de Kenneth Garrett

National Geographic Brasil