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quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Por dentro do Mossad, o serviço secreto judaico


Antes de existir o estado de Israel, já havia um serviço secreto judaico. Saiba por que hoje ele é o mais eficiente do mundo e inspira tanto terror e admiração

Eduardo Szklarz

Em 19 de janeiro de 2010, uma loira de batom vermelho embarcou no voo 526 da Air France, em Paris, com destino a Dubai. O funcionário da imigração dos Emirados Árabes Unidos checou o passaporte da moça: a irlandesa Gail Folliard, 23 anos. Pouco tempo depois, a jovem se hospedava no Al Bustan Rotana, um 5 estrelas da cidade. Ninguém desconfiou que a bela garota se tratava de uma agente do Mossad, o serviço secreto israelense. Ela integrava uma operação para matar Mahmoud al-Mabhouh, o maior traficante de armas do Oriente Médio. O árabe estava em Dubai para negociar a compra de mísseis iranianos para o grupo palestino Hamas. Como era de praxe, fez o check-in no Al Bustan Rotana. Só que, desta vez, ele não saiu vivo de lá.

Folliard ficou na cola de Mahmoud. Foi ela que provavelmente o convenceu a abrir a porta de seu quarto, às 20h30, quando dois agentes do Mossad entraram para executá-lo. Funcionários do hotel só acharam o corpo deitado sobre a cama no dia seguinte. "Foi ataque cardíaco", afirmou o médico de plantão. Mas a autópsia revelou que o sangue continha traços de succinilcolina, um poderoso relaxante muscular. A polícia de Dubai concluiu que os agentes do Mossad injetaram a droga na coxa de Mahmoud para impedir que ele reagisse e depois o sufocaram com travesseiros - simulando morte natural. Xeque-mate. Como sempre faz nessas ocasiões, Israel manteve um discurso ambíguo. Não negou nem confirmou que o assassinato havia sido obra do Mossad. "Vocês veem muitos filmes de James Bond", disse aos jornalistas Avigdor Lieberman, ministro de relações exteriores de Israel. Mas os especialistas não têm dúvida: a operação mostrou que o Mossad continua em forma - e de fazer inveja a 007. Nesta reportagem, revelamos os bastidores do melhor serviço secreto do mundo.

Encalço dos inimigos

A semente do Mossad foi plantada nos anos 30, em meio à crescente tensão entre árabes e judeus da Palestina - na época, uma colônia britânica. O agricultor Ezra Danin recebeu uma missão da Haganá, a brigada paramilitar judaica: passar informes sobre árabes que organizavam atentados contra judeus. O negócio de Danin era plantar laranja, mas a Haganá sabia que ele tinha muitos contatos entre o bando inimigo. O pacato camponês largou a enxada e, em pouco tempo, já sabia os endereços, hobbies, placas de carros e clubes que os líderes árabes frequentavam.

"Danin lançou as bases da compilação, da interpretação e do uso de inteligência sobre os árabes nos anos da luta pela Palestina", escrevem o historiador israelense Benny Morris e o jornalista britânico Ian Black no livro Israel¿s Secret Wars (Guerras Secretas de Israel, sem tradução no Brasil). Em 1936, quando estourou uma revolta árabe em larga escala, Danin liderou uma unidade que grampeava telefones, decodificava mensagens e farejava agentes duplos. Em 1940, ele fundou o Shai, o braço de contraespionagem da Haganá. Diversos árabes se tornaram seus informantes - e não só por dinheiro. Na maioria das vezes, sofriam perseguições de outros árabes por fazer negócios com judeus. "Eles temiam por sua vida e tinham fortes razões para se livrar de seus perseguidores. E nós exploramos essas situações na hora de recrutá-los", escreveu Danin anos depois.

Como se vê, antes de declarar sua independência, em 1948, Israel já tinha seu serviço secreto. Mas ele foi criado oficialmente em 1951 como Instituto de Inteligência e Operações Especiais, ou simplesmente Instituto (Mossad, em hebraico). O foco inicial eram os países árabes hostis a Israel. Não havia dinheiro nem gente suficiente para outras missões, como perseguir nazistas pelo mundo. Em 1960, porém, o diretor Isser Harel abriu uma exceção ao saber que Adolf Eichmann vivia calmamente na Argentina. O arquiteto da Solução Final da Alemanha nazista trabalhava na filial da Mercedes-Benz, fingindo ser o mecânico Ricardo Klement.

Um comando do Mossad liderado pelo agente Rafi Eitan sequestrou Eichmann quando ele caminhava pela rua Garibaldi, nos arredores de Buenos Aires, e o manteve por 9 dias algemado à cama de um apartamento alugado. O nazista deixou a Argentina sedado num avião da companhia israelense El Al rumo a Jerusalém, onde foi julgado e condenado por crimes contra a humanidade. Morreu na forca em 1961, no único caso de sentença de morte de uma corte em Israel.

"A Argentina protestou, dizendo que violamos sua soberania, mas a operação não afetou a relação entre os dois países", disse Rafi Eitan por telefone a AVENTURAS NA HISTÓRIA de seu gabinete em Jerusalém, onde hoje lidera o partido político Gil. Com a operação, Eitan e os israelenses mandaram um recado ao mundo: o Mossad podia alcançar o inimigo onde estivesse. E nada poderia detê-lo.

Em 1962, Eitan e seus colegas descobriram que o médico Joseph Mengele, responsável por experimentos macabros em Auschwitz, vivia no interior de São Paulo. "Estivemos lá, conversamos com pessoas que conheciam Mengele e o fotografamos", diz Eitan. "Mas decidimos não capturá-lo porque não estávamos preparados o suficiente. Uma operação desse tipo demanda meses. Logo depois o governo de Israel mudou e a nova administração decidiu cancelar a missão." O nazista morreu em 1979 e foi enterrado em Embu, em São Paulo.

Guerra nas sombras

Nos anos 70, organizações terroristas começaram a recrutar estudantes palestinos na Europa. O Mossad pescava nas mesmas águas. "Os palestinos usavam a saudade de casa e o patriotismo como isca. O Mossad usava dinheiro", diz Aaron J. Klein, ex-membro da Direção de Inteligência Militar de Israel. Numa rápida conversa, o recrutador do Mossad descobria o ponto fraco do estudante que abordava. Se o jovem tinha um parente doente, por exemplo, oferecia tratamento num bom hospital. E conseguia informações valiosas.

Com informações assim, o Mossad saiu à caça do Setembro Negro, o grupo palestino que matou 11 atletas israelenses na Olimpíada de Munique, em 1972. Um dos alvos foi Mahmoud Hamshari, representante da OLP (Organização para a Libertação da Palestina) em Paris. Ele tinha no currículo a explosão de um avião que voava entre Zurique e Tel Aviv em 1970, matando 47 pessoas. Hamshari não titubeou quando um jornalista italiano o convidou para um encontro num café. O repórter era um agente. Enquanto Hamshari saboreava um croissant, agentes invadiram seu apartamento e rechearam o gancho do telefone com explosivo plástico. No dia seguinte, quando a esposa e a filha do palestino já haviam saído, o telefone tocou. "Por favor, posso falar com o doutor Hamshari?", disseram. "É ele", respondeu. A explosão causou um rombo na cabeça do terrorista, que morreu 3 semanas depois. A vítima seguinte foi Abu-Khair, emissário da OLP no Chipre. Seu corpo foi dilacerado por uma bomba sob sua cama no Olympic Hotel. Os chefes do Setembro Negro foram caindo um a um, como peças de dominó.

Em junho de 1976, veio a revanche: uma facção liderada pelo palestino Wadi Haddad sequestrou um avião da Air France e o levou para o aeroporto de Entebe, em Uganda, onde o ditador Idi Amin Dada lhe deu proteção. Os terroristas fizeram de reféns os 105 passageiros judeus (os demais foram liberados) e exigiram que Israel libertasse 53 terroristas. Com orientações do Mossad, Israel enviou 3 aviões Hércules C-130 numa missão de resgate que incluiu 200 soldados, jipes e até um Mercedes-Benz preto idêntico ao de Idi Amin.

"Seis agentes rodearam o aeroporto de Entebe com aparelhos que interferiam no radar da torre de controle. Desse modo, confundiram as autoridades", diz o escritor galês Gordon Thomas no livro Gideon¿s Spies: The Secret History of Mossad (Espiões de Gedeão: A História Secreta do Mossad, sem tradução no Brasil). "Os soldados liberaram os reféns e mataram os terroristas. O único oficial morto foi Yoni, irmão do atual primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu."

Haddad, o cérebro do sequestro, foi fisgado em 1977 com uma caixa de chocolate belga. Os agentes sabiam que ele era chocólatra e envolveram os doces com um veneno letal. A caixa foi dada de presente por um palestino infiltrado. Haddad morreu no ano seguinte, vítima de uma doença misteriosa. A facção que ele liderava se desintegrou e o número de atentados contra alvos israelenses no exterior caiu de imediato.

Mas não se engane: o Mossad também erra, e feio. Em julho de 1973, por exemplo, o marroquino Achmed Bouchini foi alvejado com 10 tiros numa piscina pública da cidade norueguesa de Lillehammer. Os israelenses o confundiram com o terrorista Ali Hassan Salameh, líder do Setembro Negro. (O verdadeiro Salameh foi eliminado em Beirute, em 1979.) Outro papelão foi quando o Mossad tentou matar o líder do Hamas Khaled Meshal na Jordânia, em 1997. Os agentes esguicharam um veneno em seu ouvido, mas foram pegos pela polícia. A Jordânia só os liberou quando Israel entregou o antídoto para a toxina ¿ e o chefão do Hamas sobreviveu.

A chave do êxito

Como o Mossad se tornou o melhor serviço secreto do mundo? Por pura necessidade. Num país cercado de inimigos como Israel, manejar inteligência é crucial para prevenir ataques e punir agressores. "Este é o único país que não terá uma segunda chance se perder uma guerra", dizem os israelenses. O Mossad leva isso muito a sério. E embora esteja na vanguarda no uso de tecnologias, continua fazendo espionagem à moda antiga. Infiltra agentes, alicia informantes e leva a cabo operações encobertas.

Tudo isso demanda muito esforço. Para eliminar Mahmoud al-Mabhouh, por exemplo, 30 agentes do Mossad viajaram a Dubai divididos em equipes. A maior delas, de vigilância, acompanhou cada passo do alvo desde sua chegada ao aeroporto. "Para não chamar a atenção, os agentes mudam de identidade todo o tempo: trocam de roupa, usam bigode, peruca, óculos, maquiagem. Assumem várias feições para espreitar o lobby e os corredores do hotel", diz Klein. "Mulheres são fundamentais na missão. Se o alvo está num bar, um casal vai lá e se senta na mesa ao lado. Ou uma jovem atraente o observa no balcão."

A unidade de assassinato, Kidon, costuma ter 4 pessoas trabalhando em duplas. Operações assim têm ainda o grupo de comando (2, em geral) e uma equipe de suporte, que cuida de passagens, hotéis e aluguel de carros. A ação é monitorada por outro grupo a distância, que pode estar num país europeu ou até mesmo no céu. Isso mesmo: quando kidons eliminaram o terrorista palestino Abu Jihad numa estância em Túnis, em 1988, o grupo de controle sobrevoava a cidade em círculos num Boeing 707. A bordo estava o primeiro-ministro Yitzhak Rabin, que deu sinal verde para a emboscada. Outro Boeing levava equipamentos para bloquear e rastrear comunicações, e dois mais levavam combustível.

A formação dos agentes depende da especialidade. Os que fazem tarefas de escritório ficam na sede do Mossad, em Tel Aviv. Já os kidons treinam longe dali, na área restrita de uma base militar no deserto do Neguev. Eles viajam com frequência a Frankfurt, Roma e outras cidades europeias para exercícios de simulação. Os "alvos" são colaboradores locais que participam como voluntários. "Em geral, os colaboradores acham que se trata de um exercício de proteção a uma sinagoga ou escola e às vezes levam um susto quando percebem que foram roubados no meio da rua ou jogados dentro de um porta-malas", diz Gordon.

Irã, o arqui-inimigo

Não é nenhum segredo que o Irã é o atual arqui-inimigo de Israel. E um dos grandes objetivos do Mossad é impedir que a nação persa desenvolva a bomba atômica. Tal como foi feito com o Iraque. Em 1981, caças israelenses bombardearam um reator nuclear construído por Saddam Hussein usando segredos passados por informantes. Em 1990, o canadense Gerald Bull foi morto com 5 tiros em Bruxelas, quando desenvolvia para Saddam um supercanhão de 150 metros que poderia atingir Tel Aviv e cidades europeias. Hoje Saddam é passado, e os katsas estão dispostos a tudo para frear as ambições dos aiatolás. Isso inclui até as tarefas mais básicas. "O Mossad está desesperado por conseguir gente que saiba farsi, o idioma do Irã, para traduzir conversas e documentos", diz Klein.

A Divisão de Tecnologia é a que mais cresce no Mossad. O motivo é simples: nos anos 70, quando caçava o Setembro Negro, 90% das informações vinham da chamada "inteligência humana" - ou seja, a clássica rede de informantes. Hoje, a maior parte dos dados vem de mensagens de internet, celulares e computadores. Há uma verdadeira guerrilha cibernética contra o extremismo religioso, e nesse campo o Mossad não combate sozinho. Conta com a cooperação de agências como a CIA (EUA), o MI5 (Inglaterra) e o BND (Alemanha).

Aparentemente, o Mossad é o responsável pela morte de pelo menos 3 cientistas atômicos iranianos desde 2010. A vítima mais recente foi Mostafa Ahmadi Roshan. O carro em que viajava explodiu dia 10 de janeiro, depois que um motociclista colocou uma bomba magnética sob o chassi. O Irã culpou Israel e os EUA pelo ataque. Agentes do Mossad também teriam ajudado os EUA a fabricar o Stuxnet e outros vírus de computador usados pela Casa Branca para atrasar o programa nuclear iraniano.

O próprio ofício de espião mudou. Antes, o sujeito construía uma carreira no Mossad, passava por várias funções até ocupar cargos de chefia. Foi o caso de Efraim Halevy, diretor do Instituto entre 1998 e 2002, que dedicou 28 anos à espionagem. "Hoje, os contratos tendem a ser menores. A pessoa presta um serviço por 5 anos, digamos, e depois vai trabalhar em outro lugar", diz Klein.

E lá se foi o tempo em que os espiões agiam sem deixar rastros. Imagens de Gail Folliard e dos outros agentes que viajaram a Dubai, registradas nas câmeras do hotel, foram parar no YouTube. Mas o que vemos na internet são disfarces. A verdadeira identidade deles continua um mistério. Mas no futuro bancar o James Bond vai ser mais difícil. A maioria dos aeroportos europeus deverá contar com aparelhos que detectam medidas biométricas - a identificação da íris ou da retina. Segundo Rafi Eitan, isso não vai inviabilizar as atividades de inteligência no futuro. "As agências vão encontrar formas de superar as dificuldades", diz Eitan. "Já penso nisso de vez em quando, mas não quero dar ideias aos inimigos."

O que era a organização Setembro Negro

Fundação - 1970

Membros em Munique - 8 pessoas

Como agiam - Em células de 4 pessoas. Era ligada à Fatah, da OLP


A Operação no aeroporto de entebe

Reféns - 105 passageiros judeus

Baixas - 1 militar e 3 reféns

Missão - Foi a ação de resgate mais complexa e perfeita da História


O pouso do avião inimigo

Nos anos 1960, o Iraque contava com o caça soviético Mig-21, bem superior ao francês Mirage, usado pelos israelenses. O Mossad convenceu o piloto iraquiano Munir Redfa a contrabandear um Mig-21 para Tel Aviv. Ele era cristão e queria se ver livre da perseguição religiosa imposta pelo governo muçulmano. "Com o caça nas mãos, os israelenses estudaram sua performance e garantiram a vitória contra os vizinhos árabes na Guerra dos Seis Dias, em 1967", diz o pesquisador Matt Webster no livro Inside Israel's Mossad (Por dentro do Mossad, inédito no Brasil). Redfa levou a família toda para Israel, com a promessa de proteção e emprego até o fim da vida.


"Um informante é como um limão. Não esprema demais"
Aaron J. Klein trocou o posto de capitão da inteligência militar de Israel pelo jornalismo. Autor de Contra-Ataque, sobre a caçada aos terroristas da Olimpíada de Munique de 1972, ele conversou com Eduardo Szklarz
Como é a cooptação dos informantes do Mossad?
O rastreamento do informante leva anos. Em geral, a aproximação acontece fora do país inimigo e não é feita em nome de Israel. As informações são obtidas de forma gradual. É como um limão: não esprema demais para que nada de mal aconteça. É importante não pedir que a fonte se arrisque muito nem que forneça a informação importante de uma vez. O principal é que ela não seja pega pelo inimigo. O processo pode durar décadas. Em geral, a motivação é o dinheiro.
E o recrutamento dos agentes da organização?
Por meio de amigos, do Exército ou até de envio de currículo ao site do serviço secreto. No Mossad, não há só agentes que participam em missões. O treinamento é longo. Nos primeiros dias, por exemplo, os alunos saem com o supervisor, que lhes diz: "Estão vendo a varanda naquele edifício? Quero ver vocês lá em 5 minutos". Em situações assim, a pessoa deve ser convincente para fazer o dono do apartamento abrir a porta, por exemplo. Devem reagir rápido.
Quanto recebe um agente da Cesarea, a unidade responsável por missões encobertas?
Muito dinheiro. Em geral, essas pessoas trabalham por 5 anos, muitas horas por dia. A pessoa não vê a família por semanas.
Essas pessoas recebem outra identidade?
Em Israel, usam a identidade original e o nome de nascença. Quando vão a campo, recebem a identidade específica para cada missão. Podem usar até 4 ou 5 identidades num mesmo dia.
Quanto o governo de Israel investe por ano para manter o Mossad?
Essa é uma informação secreta. Mas não creio que algum primeiro-ministro de Israel tenha negado um pedido do Mossad.

Três agentes exemplares

Isser Harel, O mestre da espionagem

Nascido na Rússia em 1912, foi um dos pais da inteligência israelense. Fundou o Shin Bet, o serviço de segurança do país, e no Mossad criou a Cesarea ¿ divisão responsável por operações encobertas. Harel arquitetou o sequestro de Adolf Eichmann. Também cultivou boas relações com outras agências. Em 1956, por exemplo, entregou à CIA uma cópia do discurso secreto feito pelo líder soviético Nikita Kruschev no 20º Congresso do Partido Comunista. Seu apelido entre os colegas era "Isser, o Pequeno", pois media cerca de 1,60 m.

Cheryl Ben-Tov, a loira fatal

A americana Cheryl Ben-Tov (codinome Cindy) tinha 20 e poucos anos quando entrou para o Kidon, a unidade de elite do Mossad. Em 2004, foi a Londres para ¿pescar¿ Mordechai Vanunu, cientista que estava revelando à imprensa britânica os segredos do programa nuclear israelense. Cheryl seduziu Vanunu e o convidou para uma viagem romântica a Roma. Lá, 5 agentes o sequestraram e o levaram de volta a Israel, onde foi condenado por traição a 18 anos de prisão. Cheryl trabalha hoje como corretora imobiliária em Orlando, Flórida.

Eli Cohen, O espião de Damasco

Nos anos 60, o negociante sírio Kamal Amin Thabit se tornou íntimo da elite governante de seu país. Tão íntimo que virou conselheiro do ministério de defesa. Ninguém imaginava que ele se chamava Eli Cohen, era egípcio e vinha de uma família judaica ortodoxa. Cohen enviou a Tel Aviv segredos militares que seriam cruciais para a vitória de Israel na guerra de 1967. Entre eles, a localização das tropas sírias nas colinas do Golã. Em 1965, foi desmascarado quando transmitia mensagens via rádio e enforcado em praça pública.

Saiba mais
Livros
Gideon's Spies: The Secret History of Mossad, Gordon Thomas, Thomas Dunne Book, 1999.
Contra-Ataque, Aaron Klein, Ediouro, 2005.
Revista Aventuras na História 

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Batismo de Sangue

Depois de uma espera de 1.878 anos, os judeus ganhamum país. Mas a independência de Israel não encerra a longa marcha: a diplomacia fracassou e a guerra com os árabes continua

O nascimento de uma nação: palco improvisado, estrelas de Davi e a histórica declaração do patriarca David Ben-Gurion

As cadeiras vieram emprestadas de cafés vizinhos. Os microfones, de um empório musical. Dois carpinteiros chamados às pressas ergueram o palco de madeira em tempo recorde. Um retrato do pioneiro sionista Theodor Herzl foi colocado em posição de destaque no salão principal, ladeado por duas bandeiras gigantes com a estrela de Davi (símbolo ancestral do povo judeu), lavadas e passadas de forma expedita para a ocasião. Em um piscar de olhos, o Museu Nacional de Tel-Aviv transformou-se para sediar uma cerimônia aguardada pelos hebreus há exatos 1.878 anos – desde que a destruição do Segundo Templo pelos romanos, em 70 d.C., acabou com a soberania dos judeus em Jerusalém e deu início à segunda diáspora dos seguidores de Isaac. No compromisso deste 14 de maio de 1948, porém, a história seria finalmente reescrita: a terra prometida estava voltando às mãos dos judeus.
Os convites para a reunião, marcada para as 16 horas, foram impressos na véspera e distribuídos apenas na manhã do dia do evento, com um pedido de segredo aos cerca de 250 convidados para evitar qualquer interferência externa. Entre os locais, porém, foi impossível segurar a alvissareira notícia, que rapidamente se espalhou por Tel-Aviv e levou, já por volta do meio-dia, uma multidão a cercar o local da congregação. De qualquer forma, poucas horas depois de o mandato britânico na Palestina ter se encerrado, sem maiores sobressaltos, em uma cerimônia célere, demarcada pelas firmes batidas do martelo de nogueira de David Ben-Gurion, presidente do Conselho Provisório de Estado sionista, a criação da nação judaica na Palestina – o estado de Israel – foi solenemente anunciada aos quatro ventos.

O troco árabe: destruição em Tel-Aviv

Lida por Ben-Gurion e assinada pelos 24 dos 37 membros da assembléia presentes ao histórico evento, a declaração de independência do mais novo país do globo buscou no passado histórico e no presente político as bases morais e legais para sua fundação. O documento notificava que a Terra de Israel era o local de nascimento do povo judeu e que o movimento sionista era testemunho do papel representado pela Palestina em sua história e religião. Dizia também que a declaração de Balfour e a partilha das Nações Unidas, além do sacrifício dos pioneiros sionistas e da tormenta sofrida com o Holocausto, davam aos judeus o direito inalienável de estabelecer seu estado no Oriente Médio. A cerimônia, transmitida pela Kol Yisrael, "a voz de Israel", tornada rádio oficial do novo estado sionista, provocou uma explosão incontida na população hebraica em todos os rincões da Palestina. Enquanto dentro do Museu Nacional de Tel-Aviv o público, emocionado, entoava a plenos pulmões a Hatikvah (tradicional canção judaica que celebra a esperança), do lado de fora do recinto, assim como em diversas cidades da nova nação – à exceção de Jerusalém, que se encontrava sem eletricidade –, populares ganhavam as ruas para congratular-se uns aos outros.
Combates ferrenhos - Em meio aos festejos, contudo, era possível notar no semblante de David Ben-Gurion que o calejado líder não comungava do regozijo de seus pares. Antes de sair do local, acompanhado da mulher, Paula, confidenciou, diligente, a um de seus auxiliares: "Não sinto alegria dentro de mim. Apenas uma ansiedade profunda, como no último 29 de novembro [data do anúncio da partilha da ONU, aceita pelos judeus mas rejeitada pelos países árabes], em que eu mais parecia um lamentador num banquete." Se, para muitos, o dia 14 de maio marcava o fim de um périplo de dois mil anos por um lar nacional, para Ben-Gurion era apenas o começo. E a história não demorou a prová-lo correto.
Os ataques árabes vieram de imediato. Exércitos de cinco países – Líbano, Síria, Egito, Iraque e Transjordânia (a Legião Árabe, treinada pelos britânicos) – acometeram, naquela mesma tarde, o território então dominado pelos judeus em diversos pontos de suas fronteiras. Combates ferrenhos se seguiram nas duas últimas semanas deste mês, com os defensores buscando manter suas posições contra as investidas na maioria das vezes desorganizadas dos vizinhos. A diferença na quantidade e qualidade de armamentos é abismal – o arsenal judeu é escasso e antiquado, por conta da restrição britânica de importação de armas durante o mandato, enquanto o árabe é mais moderno e volumoso, arrematado em boa parte da própria Grã-Bretanha. Ainda assim, os hebreus, com suas forças bem coordenadas, lograram importantes êxitos militares, frustrando a previsão de um acachapante massacre árabe.

O conde Bernardotte: missão espinhosa

No calor da guerra, com a comunidade internacional clamando por uma solução pacífica e os exércitos chegando ao limite de suas forças, o Conselho de Segurança das Nações Unidas apresentou, no dia 20, uma proposta de trégua – bem recebida por ambos os lados e aprovada nove dias depois. O cessar-fogo, negociado pelo conde sueco Folke Bernardotte, mediador da ONU, entra em vigor no dia 11 de junho e é válido por um mês – período em que nenhum imigrante poderá ser recrutado, e que todos os combatentes estarão proibidos de receber qualquer tipo de armamento. Enquanto isso, o Conselho de Segurança prepara um novo plano de conciliação – que, seja qual for, miseravelmente estará fadado ao fracasso. A partir de agora, não há dúvidas, apenas as armas falarão por árabes e judeus.
Corrida contra o tempo - Legitimada tanto pela declaração de Balfour, em 1917, como pela partilha aprovada pelas Nações Unidas, no ano passado, a instalação de um estado judeu na Palestina esteve perigosamente ameaçada nos dias que precederam o anúncio em Tel-Aviv. E não somente por conta da batalhas entre árabes e judeus pelo controle das cidades deixadas para trás pelos britânicos, às vésperas do encerramento do mandato. Nem por causa da ameaça de invasão dos países árabes, cuja oposição à idéia já era conhecida de cor e esperada pelos sionistas. Reunidas em palácios de governo e nas Nações Unidas, as grandes potências mundiais buscaram até o último suspiro evitar a independência de Israel – cada uma, claro, visando resguardar seus interesses no Oriente Médio.
A Grã-Bretanha, que desde o anúncio da partilha havia adotado uma política de não-cooperação com as Nações Unidas na questão Palestina para não melindrar seus aliados árabes, recorreu de forma esbaforida ao órgão no final de abril, quando os hebreus consolidaram sua vitória em Haifa. A mera sugestão de ameaça à soberania árabe trouxe arrepios aos súditos da rainha, que, poucas semanas antes, ainda manifestavam a certeza de que os árabes rapidamente conquistariam os territórios destinados às comunidades judaicas. No início daquele mesmo mês, o comandante das forças britânicas na Palestina, general sir Gordon Macmillan, havia dito que os árabes "não teriam dificuldade em dominar todo o país". (De forma menos técnica, o secretário das Relações Exteriores bretão, Ernest Bevin, prevera ainda no ano passado que os judeus teriam suas "gargantas cortadas".)
Com a demonstração de força dos judeus nas batalhas pré-14 de maio, porém, Arthur Creech-Jones, secretário colonial da Grã-Bretanha, propôs em 23 de abril que a Assembléia Geral da ONU pensasse em um objetivo "mais modesto" do que a partilha – uma solução paliativa sem a pretensão de resolver o conflito entre árabes e judeus. Desta vez, garantia o dignitário, a coroa ofereceria todo seu auxílio. Os diplomatas consideraram que o súbito desejo de engajamento britânico era por demais tardio e ignoraram o apelo.

Na resistência: integrantes da Haganá resgatam homem ferido em bombardeio egípcio


As ações de bastidores dos Estados Unidos da América, por sua vez, geraram desdobramentos até à véspera da retirada britânica – e reverberaram, curiosamente, menos nas Nações Unidas do que entre o Conselho Provisório de Estado sionista. Até o início deste ano, os americanos acreditavam que a divisão da Palestina aconteceria de forma cirúrgica. Contudo, a escalada das hostilidades e a pressão da Liga Árabe em Washington e nas companhias de petróleo – que controlavam, em dados do ano passado, 42% das reservas do Oriente Médio e desenvolviam planos de expansão – levaram os americanos a rever paulatinamente sua posição pró-sionista e recomendar, em 19 de março, a suspensão da partilha, para horror da Agência Judaica. Warren Austin, embaixador dos EUA no Conselho de Segurança, sugeriu que fosse adotada uma administração conjunta da ONU na Palestina.
Mal recebido pelas outras delegações, o plano foi considerado um ataque à autoridade das Nações Unidas. A União Soviética, mantendo sua posição pró-partilha, protestou, argumentando que os Estados Unidos estavam preocupados apenas com o petróleo árabe e que não havia bases legais para sustar o plano aprovado em novembro. Indignado, o secretário-geral da ONU, o norueguês Trygve Lie, propôs que tanto ele como o representante americano renunciassem aos respectivos postos em protesto à afronta – ação negada por Austin. Na virada do mês, a Liga Árabe e a Agência Judaica rechaçaram oficialmente o plano de administração conjunta por um ano – mas os Estados Unidos não desistiram, clamando ainda por uma trégua temporária.
Pulga atrás da orelha - No início de maio, Dean Rusk, secretário-assistente de Estado, mandou um recado aos sionistas. A declaração de independência deveria ser ao menos protelada; caso contrário, Washington poderia bloquear as transferências de fundos filantrópicos dos judeus americanos para a nação caçula. Impressionado, o chefe da Agência Judaica na América, Nahum Goldmann, transmitiu as informações à central – Ben-Gurion, contudo, não se deixou intimidar, e, no dia 4, devolveu um cabograma a Rusk negando o adiamento. Quatro dias depois, o secretário de Estado George Marshall e o subsecretário Robert Lovett encontraram-se na capital com Moshe Shertok, ministro das Relações Exteriores da administração provisória judaica. Desta vez, não houve ameaças: os americanos apenas ponderaram que a invasão dos árabes era iminente, e que, se os judeus insistissem na emancipação imediata, não deveriam recorrer à ajuda dos Estados Unidos – que ainda mantinham, apesar dos protestos em diversas cidades, o embargo de armas ao Oriente Médio.

O norueguês Lie, da ONU: uma afronta


Shertok lamentou o fato de os americanos não terem mantido o apoio à resolução da partilha, e atribuiu de antemão boa parte do futuro derramamento de sangue na Palestina ao recuo dos Estados Unidos, que teria encorajado os árabes em sua beligerância. E, nesse ponto, a resposta de Marshall colocou uma pulga atrás da orelha do judeu. "Compreendo o peso de suas palavras. Não sou eu quem devo dizer-lhe o que fazer. Porém, como militar, gostaria de alertá-lo: não confie em seus consultores militares. Sim, eles acabaram de registrar alguns sucessos. Mas o que acontecerá se houver uma invasão prolongada? Isso irá enfraquecê-los. Tive esta experiência na China. No começo, foi uma vitória fácil. Agora eles estão lutando há dois anos e perderam a Manchúria". As palavras de Marshall ainda ecoavam nos ouvidos dos líderes sionistas na Palestina quando os membros da Administração Nacional – embrião de um gabinete recém-criado pelo conselho provisório – reuniram-se para decidir, em 12 de maio, pela proclamação imediata ou não do estado judeu. As deliberações duraram nada menos do que onze horas. Golda Meyerson, diretora do departamento político da Agência Judaica, relatou o fracasso de sua negociação com o rei Abdullah da Transjordânia, em uma viagem secreta àquele país – a derradeira tentativa de um compromisso pacífico entre as partes.
O jovem oficial Yigael Yadin, comandante de operações da Haganá, força de defesa judaica, apresentou seu relatório sobre o teatro de operações aos membros. As tropas hebraicas haviam garantido o controle das linhas de comunicação no interior da Palestina, mas em algumas regiões a situação era crítica. Metade de Jerusalém, por exemplo, estava nas mãos dos árabes – incluindo a malha rodoviária dos arredores, pela qual a Legião Árabe naquele momento marchava rumo à cidade. Yadin também demonstrava preocupação quanto à escassez do arsenal judeu. Pessoalmente, o comandante acreditava que, com a evacuação britânica programada para dali a dois dias, armas e material humano poderiam ser rapidamente integrados às tropas, com 50% de chances de sucesso contra o assalto árabe. Cauteloso, não descartava que uma trégua temporária fosse interessante, para possibilitar o reforço das tropas judaicas sem sacrificar os objetivos políticos.
Ben-Gurion, porém, acreditava que a proclamação da independência fortaleceria o ânimo e o espírito não somente dos combatentes, mas também da população, que precisaria estar preparada para a inevitável perda de territórios e vidas. Já o adiamento poderia representar um anticlímax e abalar o moral das tropas. Ao final da assembléia, convocou-se o sufrágio que definiria o próximo passo. Por uma apertada margem de seis votos a quatro, o gabinete decidiu rejeitar a proposta americana de trégua e declarar, assim que a Union Jack fosse baixada em Jerusalém, dali a dois dias, a criação do estado judeu na Palestina. Contatado por telefone em Nova York, o tarimbado Chaim Weizmann, chefe da Agência Judaica, assentiu. "Proclamem o estado, não importa o que aconteça." Após dar sua sentença, o veterano explodiu, em iídiche. "O que estão esperando, os idiotas?"

Presidentes: Truman e Weizmann (à dir.)


Êxitos e temores - Horas depois da cerimônia de proclamação de independência em Tel-Aviv, Chaim Weizmann foi nomeado presidente de Israel, e Ben-Gurion, primeiro-ministro. Em seguida, o Conselho de Estado revogou por unanimidade o Livro Branco de 1939, documento inglês que regulava a imigração de judeus para a Palestina. Ainda no dia 14 de maio, por intercessão direta do presidente Harry Truman, os EUA, apesar de toda a oposição à independência, foram os primeiros a reconhecer o estado de Israel, causando surpresa entre os diplomatas das Nações Unidas. Andrei Gromyko, representante da União Soviética, criticou os americanos, por colocar a assembléia em uma "posição ridícula". Fontes próximas a Truman garantem que o comandante-em-chefe andava descontente com as trapalhadas de seus assessores e que sentiu a importância estratégica de se antecipar a Moscou no reconhecimento dos sionistas – além de tudo, não custa lembrar que este é um ano eleitoral na América, e os votos da enorme comunidade judaica podem ser decisivos.
A União Soviética reconheceu Israel dois dias depois – a confirmação dos comunistas já era esperada, tendo em vista que a criação de um estado judeu moderno, com forte espírito nacionalista, era mais interessante para as pretensões históricas de Moscou de ter uma base no Oriente Médio do que a consolidação de um regime árabe retrógrado, dependente da Grã-Bretanha. A Coroa, por sua vez, comunicou apenas que a Palestina não mais fazia parte da Comunidade Britânica, e, acenando seu pendor em direção aos antigos aliados, garantiu que iria cumprir seus tratados de fornecimento de armas aos árabes – a menos que as Nações Unidas afirmassem que estes estivessem agindo ilegalmente de alguma forma.
Crucial para a nação caçula, a batalha diplomática só não era mais importante do que a contenda bélica que se descortinava na Palestina. Desde a aprovação da partilha, a Haganá concentrava-se em dois objetivos: o primeiro, a segurança da comunidade judaica durante o período da retirada britânica, e o segundo, a defesa do território contra a possível e provável invasão árabe em larga escala a partir do dia 14 de maio. O êxito das tropas judaicas na primeira questão, registrado ao longo das últimas semanas com a tomada de cidades estratégicas como Haifa – subjugada em 21 de abril após três dias de embates contra os árabes – foi coroado com a conquista da Galiléia setentrional, no início de maio. Na última peleja, em Safed, remota comunidade montanhesa em que 1.400 judeus viviam cercados por dez mil árabes, as tropas do comandante Yigal Allon repeliram os mercenários sírios comandados por Adib al-Shishakli, causando a fuga dos habitantes árabes.

Sob nova direção: judeus trocam placa

Dessa forma, o norte da Palestina estava controlado, assim como o litoral: Jaffa, última cidade dominada pelo inimigo, caiu na manhã do dia 14 de maio – mais uma vez, 70.000 árabes deixaram suas casas em terror. Livre da responsabilidade de proteger seus enclaves (à exceção de Jerusalém, o cenário parecia todo favorável aos judeus), a Haganá pôde finalmente concentrar todas as suas forças na contenda contra os exércitos invasores.
Rumo à Galiléia - Às vésperas do início da guerra, as forças árabes, somadas, eram pouco maiores que as de Israel – aproximadamente 32.500 homens contra 30.000. A vantagem dos atacantes, porém, era seu maior poder de fogo, que incluía forças aéreas à disposição. Divididas em nove brigadas pelo chefe da Haganá, as forças de Israel foram distribuídas em quatro fronts: três unidades no norte, duas na costa (para proteger Tel-Aviv), duas no sul e duas nas montanhas da Judéia, a fim de defender Jerusalém e conquistar a posse das estradas nas redondezas da cidade.
No norte, os libaneses que seguiam rumo à Galiléia, assim como os iraquianos e sírios que atacaram colônias judaicas no vale do rio Jordão, não têm se mostrado ameaças sérias para as forças da Haganá. Suas investidas estão sendo facilmente controladas pelos israelenses. As mais duras batalhas são disputadas na Judéia – onde permanece o cerco da Legião Árabe do rei Abdullah a Jerusalém – e no sul. Ali, os egípcios, avançando com duas brigadas, já conquistaram Gaza, e agora seguem, a despeito de feroz resistência, a passos largos rumo a Tel-Aviv. Pelos últimos relatos do front, o brigadeiro Muhammad Naguib, comandante da Segunda Brigada egípcia, está a perigosos 25 quilômetros da periferia da urbe.
Perder o controle da espetacular cidade de 250.000 habitantes, berço e sede do recém-criado estado de Israel, será um golpe quase fatal para os judeus, em que pese todo e qualquer outro sucesso no teatro de operações. Por isso, o general Yadin já convocou reforços vindos de Jerusalém, e, de acordo com fontes militares israelenses, poderá a qualquer momento engendrar uma emboscada noturna contra os egípcios, extraindo da escuridão e da surpresa a força necessária para derrotar os inimigos. Manter Tel-Aviv em segurança antes da trégua programada para 11 de junho é condição sine qua non para que, no período de cessar-fogo, Israel reorganize seu exército e planeje com cautela os próximos passos na guerra contra os árabes. Sem isso, o estado de Israel corre o risco de se esvair pouco tempo depois do nascimento – e David Ben-Gurion e seus pares sionistas estarão mais distantes do sonho de desfrutar do solo sagrado que, acreditam, foi prometido por Deus a seus antepassados.
Revista Veja na História