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quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Picasso, o criador absoluto

O pintor espanhol foi considerado egoísta, mesquinho e até perverso. Entretanto, com sua genialidade, e liberdade soberana, o criador do cubismo mudou a face da arte
por Pascal Marchetti-Leca


O pintor, em seu estúdio, de Vallarius, na França (1948)

O recém-nascido não respira. No dia 25 de outubro de 1881, em Málaga, Maria Picasso y Lopez dá à luz um menino de coração preguiçoso. A parteira mal pode suportar o olhar desolado da mãe. O diagnóstico é funesto: um natimorto. O pai, José Ruiz Blasco, homem de ar fleumático, apelidado por isto de "inglês", cede também à angústia do acontecimento. Desorientado, lívido, impotente, ele percorre todos os cantos da sala.

O irmão de José, o médico Salvador Ruiz Blasco, levado mais pela simpatia familiar do que pela ciência, precipita-se, com um charuto entre os dedos, para o leito de dona Maria. Ele lança um olhar consternado para o sobrinho e, em desespero, sopra fumaça em seu rosto. Contra todas as expectativas a criança reage e, salva pelo charuto, chora pela primeira vez. É o choro de um ressuscitado.

A família trata logo de garantir-se com os nomes e não economiza em relação aos santos protetores: Pablo, Diego, José, Francisco de Paula, Juan Nepomuceno, Maria de los Remedios, Cipriano de la Santissima Trinidad! A precaução parece de fato aconselhável, já que a criança se entrega, durante os meses que seguem à indiferença. Ela não anda nem fala mas, em seu isolamento apaixonado, observa o pai que pinta, incansavelmente, folhagens e pássaros. Por fim, o menino abandona seu mutismo e grita, imperioso, "Piz!, Piz!", abreviação infantil de "lápiz".

Pablo, com o tempo, não se limita mais aos rabiscos. Don José, pouco a pouco, entrega-lhe cores e confia-lhe até mesmo uma natureza-morta para terminar. O resultado é tão convincente que, em um ato emblemático, Don José oferece ao filho sua paleta. "Ele me deu seus pincéis e jamais voltou a pintar", comentou mais tarde Picasso ao seu amigo Jaime Sabartès. Isto não é verdadeiramente exato.

Neste dia, o filho, de uma certa maneira, mata o seu pai, que, apesar de suas tentativas, estava destinado a pintar "quadros para sala de jantar[...]". Esta renúncia motivará o lamento de Blaise Cendrars, triste por jamais haver cruzado, em suas andanças, com esse "Filipe II da pintura moderna, o pai que abdicava e consagrava o império em que o Sol não se levanta ao filho".

Em 1891, Don José que, com o nascimento de Lola em 1884 e, três anos mais tarde, de Concepcion, passa a ser pai de três filhos, é nomeado professor de desenho em La Coruña, no norte da península. Após a exuberância da costa ensolarada, a comedida atmosfera cinzenta da Galícia. Uma Galícia castigada pelos ventos que o falecimento de Conchita, a caçula da família Ruiz, acaba por tornar insuportável. Assim, Don José recebe com alívio a notícia de sua transferência para a Escola de Belas Artes de Barcelona.

JOVEM TALENTOSO

Pablo, muito jovem para integrar a classe superior da prestigiosa academia, obtém porém uma autorização para prestar as provas de admissão. Diz a lenda - e o próprio Pablo, vaidoso, encarregou-se de espalhar - que ele apresentou em poucos dias o trabalho de admissão que os estudantes tinham um mês para preparar. É em La Lonja (nome da escola) que Pablo encontra Manuel Pallarès, amigo por toda a vida: "Picasso tinha uma personalidade forte [...]. Sua habilidade e a rapidez de sua mão nos espantavam. O que os professores diziam não interessava muito a ele; tínhamos a impressão de que ele os ignorava!".

De fato, Pablo sente-se sufocado. Ele ataca o academicismo e, num arroubo de audaciosa independência, parte para uma temporada em Madri. Em 1897 é aprovado, com impressionante facilidade, no concurso da Academia Real de San Fernando, mas não segue o curso. "Por que eu faria o curso?", resume ele, adoecido e sem dinheiro. Ele prefere se recuperar na aldeia de Horta de Ebro, junto com seu amigo Pallarès. É nesta pitoresca região que, segundo o próprio Pablo, ele aprendeu "tudo o que sabe".

Ao retornar para Barcelona, ele se entrega aos prazeres duvidosos da noite e compartilha, nos velhos bairros, das ousadias de uma juventude livre ou até francamente marginal. Logo se torna freqüentador de um café da moda, o Els Quatre Gats, onde apresenta sua primeira exposição em fevereiro de 1900.

Apesar de tudo, Pablo sente-se oprimido neste universo excessivamente familiar. Mais uma vez ele deseja o exílio. "Se eu tivesse um filho que quisesse pintar, não o deixaria na Espanha um instante", queixa-se ele, obcecado pela partida. E o único trampolim da artes é, aos seus olhos, Paris, onde desembarca no final do verão em companhia de seu novo amigo, Carlos Casagemas.

Para ver diretamente os "seus" mestres (Ingres, Lautrec, Van Gogh, Gauguin), ele vai sempre aos museus. Freqüenta, também, os locais enfumaçados da boêmia de Montmartre e, quando da sua primeira exposição na galeria de Vollard, torna-se amigo de Max Jacob. Mas o suicídio de Casagemas, em 17 de fevereiro de 1901, leva-o a uma impenetrável depressão. Sua paleta assume a cor da penúria e do frio, revestindo-se de azul (1901-1904). "Ele acredita que a arte é filha da tristeza e da dor. Ele acredita que a tristeza favorece a meditação e que a dor é o fundo da vida", resume Sabartès.

VIDA EM PARIS


Em 1904 Picasso despede-se da Catalunha e instala-se definitivamente em Paris. Fixa-se no número 13 da rua Ravignan, em um edifício que Jacob batizou de Bateau-Lavoir (lavanderia-barco). Neste local de corredores precários e quartos úmidos (pomposamente chamados de ateliês), encontram-se lavadeiras, artistas e operários. Graças a esta promiscuidade, Picasso encontra Fernande Olivier que, apesar de companheira na miséria, afasta-o da dor andaluz da "fase azul" e abre sua paleta para tons mais quentes, inspirando telas por vezes maneiristas. Saltimbancos e arlequins metafóricos marcam assim a leve tranqüilidade da "fase rosa" (1905-1906), que levará a uma brutal redefinição do volume.

Após uma temporada em Gosol, região espanhola em que ele se abastece, junto com Fernande, de ar fresco, cores e luminosidade, Picasso trata de ampliar as formas. Fortemente influenciada pela arte ibérica, sua obra revela, desde 1906, um primitivismo consentido. Ao retornar novamente para Paris, ele se fecha em si mesmo e, distante dos olhares, dedica-se a uma tela que assinalará o rompimento do artista com quatro séculos de estética.

Em 1907, as portas de seu ateliê são abertas e revelam as ilustres Demoiselles d\\'Avignon. A reprovação é unânime. Acompanhado por Guillaume Apollinaire, Félix Fénéon, crítico da La Revue Blanche, adentra a rua Ravignan. Ele considera longamente a tela e diz: "É interessante, rapaz, você deveria se dedicar à caricatura!". O colecionador Leo Stein julga o quadro uma "terrível confusão". Derain, por sua vez, faz comentários sombrios e visionários. Mais prosaico, o escultor Manolo pergunta: "Responda-me, Pablo, o que você diria se um dia fosse buscar seus pais na estação e eles chegassem com esse tipo de coisa?". Georges Braque, companheiro da iminente corrente cubista, fulmina: "Escute. Apesar de tuas explicações, é como se você quisesse nos fazer comer estopa ou beber petróleo para que cuspíssemos fogo".

Neste concerto de reprovações há uma única exceção: a adesão imediata de um jovem colecionador alemão, Daniel-Henry Kahnweiler, que se tornará um dos maiores marchands do século XX. Talvez ele tenha sido o único a compreender o atestado de nascimento da pintura moderna.

O escândalo suscitado pelas infernais Demoiselles não deteriora porém as amizades de Picasso nem diminui seu ardor pelo trabalho. Manolo, Jacob, Apollinaire e Jarry continuam a freqüentar o Bateau-Lavoir. Durante o resto do tempo, Fernande e Pablo vão até a Closerie des Lilas para participar dos saraus literários de um apaixonado grupo, o Verso e Prosa.

A guerra dispersa os boêmios de Montmartre. Todos são mobilizados. Sozinho, Picasso experimenta, na capital, o mal-estar de um exilado que perdeu as referências. Convidado por Jean Cocteau, poeta espiritual e inquieto, ele decide ir a Roma, para desenhar o figurino e o cenário de Parade, balé de um excepcional coreógrafo, Serge de Diaghilev. Nas margens do Tibre, ele se enamora de uma bailarina do espetáculo, Olga Kokhlova, com quem se casa em Paris, a 12 de julho de 1918. Em 11 de novembro, a capital está em festa. Neste dia, Picasso junta-se à alegre multidão para melhor desfrutar da vitória.

Nas arcadas da rua Rivoli, uma brisa ergue o véu de uma viúva que, repentinamente, esconde seu rosto. A alma espanhola de Picasso vê neste fato uma sombria premonição, e, cheio de superstições, ele decide retornar para sua casa, onde é informado da morte de Guillaume Apollinaire, seu mais antigo amigo parisiense. O choque é imenso. Ele jura jamais pintar um auto-retrato!

No pós-guerra, as obras cubistas, em razão de sua agressividade, são freqüentemente qualificadas de "alemãs". Picasso, felizmente, adquiriu na Itália um interesse maravilhado pela pintura da Renascença e, como o clima favorecia um classicismo renovado, ele executa uma série de retratos inspirados em Ingres. Criticado, ele responde: "Digo as coisas da maneira como sinto que devem ser ditas!". Cocteau fala, então, de um "retorno à ordem".

Fascinado pela estatuária antiga da Roma imperial, Picasso renova em seguida a estética do nu mediante figuras monumentais que louvam a beleza rústica, exaltam a fecundidade e celebram a embriaguez dos prazeres da praia. Mas, farto de harmonia, ele oferece, com a tela Dança (1925), uma concessão frenética ao surrealismo nascente. As telas que ele pinta então são atravessadas pela mesma agitação convulsiva. Elas fixam visões grotescas e expressam obsessões eróticas que se prestam a interpretações freudianas.

Com o retorno da calma, a serenidade recobrada de suas telas terá as curvas de Marie-Thérèse Walter (O sonho). Paralelamente, ele esculpe (Banhistas), cultiva a arte da colagem (Mulher no Jardim), dedica-se à gravura e, mais especialmente, a seus temas favoritos (O Minotauro e as corridas), de que a água-forte Minotauromaquia é a expressão mais acabada.

HORRORES DA GUERRA

Em 1937, os representantes da Frente Popular encomendam a Picasso uma tela para ornar o pavilhão espanhol durante a Exposição Universal organizada pelo governo francês. O artista inicia então Guernica que, em uma fúnebre cavalgada, evoca o ataque da pequena cidade basca atingida pelo bombardeios alemães favoráveis a Franco. Em 4 de junho, o único quadro histórico do século XX sai do ateliê e grita a abominação de seu autor pelo fascismo e pela violência cega. Durante a ocupação, um oficial nazista entra no ateliê da rua Grands-Augustins e, percebendo um clichê da tela, pergunta, diante desta "arte degenerada": "Foi o senhor que fez isto?". Impassível, Picasso responde: "Não, foi o senhor!".

Guernica marca o período mais trágico de sua produção. As obras que se seguem traduzem a angústia da guerra (Pesca Noturna em Antibes, 1939), as misérias da Ocupação, a obsessão de enganar a fome ocasionada pela pobreza (Natureza-Morta com Crânio de Boi, 1942), a sede de comunhão na adversidade (Homem com Carneiro, 1943). São preocupações que levam o artista a comentar: "A pintura não é feita para decorar apartamentos; é um instrumento de guerra ofensivo e defensivo contra o inimigo!".

Nos anos 50, Picasso realiza um estranho diálogo com o passado, inspirando-se nos mestres. Temos, assim, Mulheres da Argélia segundo Delacroix (1955), As Meninas segundo Velásquez (1957) e Almoço na Relva segundo Manet (1960). Sem dúvida, ele apresenta aqui a parte mais enigmática de um trabalho no qual, segundo Frédéric Gaussen, confia "aos seus antecessores mais sensíveis o cuidado de cantar para ele a violência erótica que arrebatou sua existência".

Seu engajamento político no seio do Partido Comunista - do qual torna-se membro em 1944 - leva-o a participar, junto com a intelectualidade progressista, de três congressos internacionais para os quais desenha a célebre Pomba da Paz (1949) e as duas pinturas de parede A Guerra e A Paz (1952).

Para digerir os "terríveis desgostos da realidade", Picasso não é refratário a nenhum gênero. Com a sua "liberdade soberana", para empregar as palavras de Malraux, ele continua, apesar da idade, a dar livre curso ao seu gênio proteiforme: pintura, evidentemente, mas também litografia, gravura, escultura, cerâmica. Torero, hasta la muerte, isto é, até este 8 de abril de 1973, quando, surpreendendo o solitário de Mougins, a morte entra sorrateiramente num quarto em que, pela primeira vez, as paredes "vencem o sono".

Pascal Marchetti-Leca é professor na Universidade da Córsega e autor de Innominata (Dcl, 2001).

Revista Historia Viva

quinta-feira, 16 de julho de 2009

As mulheres de Picasso


As mulheres de Picasso
O genial pintor espanhol foi um marido infiel, ciumento e, dizem, um amante eclético. Ele adorava as mulheres. E elas o amavam
Mariana Balboni
Poucos viveram paixões tão intensas como Pablo Picasso. Um dos maiores gênios da pintura contemporânea, ele transpôs para as telas seu fascínio pelas mulheres, exaltando sensualidade e erotismo. Protagonizou inúmeras conquistas, foi o namorado amoroso, o amante infiel e o marido cruel. Suas mulheres passavam de deusas, quando apaixonado, a monstros torturados, no fim da relação. Poucas sobreviveram ao término do romance. Mas de uma forma ou de outra, todas influenciaram seus traços, especialmente as sete mulheres com quem conviveu: Fernande, Eva, Olga, Marie-Thérèse, Dora, Françoise e Jacqueline.

Alguns críticos afirmam que o trabalho do pintor está tão relacionado ao seu apego pelo sexo oposto que as fases de sua carreira poderiam ser definidas de acordo com as amantes com quem esteve envolvido. Assim, o neoclassicismo dos anos 20 são os “anos Olga”, as banhistas do começo dos anos 30 marcam a “era Marie-Thérèse”, os retratos do fim dos anos 40, o “período Françoise”.

“Nem tudo em Picasso, é claro, se explica por suas amantes”, diz Carlos von Schmidt, crítico de arte e autor de Na Cama com Picasso. Para ele, as mulheres eram personagens que o autor dispunha de acordo com sua vontade. “As mudanças de estilo do pintor podem ser atribuídas à chegada de um novo amor, ao fim de um antigo romance, ou aos dois ao mesmo tempo.” E isso não é pouco.

Fernande Olivier é a primeira da lista. Conheceu o pintor em 1904, no Bateau-Lavoir, como era chamado o cortiço de madeira que abrigou o primeiro ateliê do artista em Paris. Com 23 anos, era quatro meses mais velha que ele. Elegante, bonita e determinada, viveu com Picasso os anos de pobreza e boemia.

“Mesmo sem influenciar diretamente a obra do artista, foi ela quem lhe proporcionou a estabilidade para fazer a transição entre a chamada fase azul (1901-1904), caracterizada pela tristeza, miséria e morte, e a fase rosa, mais lúdica e alegre, repleta de figuras circenses”, afirma Dominique Dupuis-Labbé, curadora do Museu Picasso em Paris. “Sensual e voluptuosa, ela trouxe felicidade e apaziguou os tormentos de Picasso.”

Fernande viu o jovem indeciso tornar-se o artista que conquistaria o mundo. Em casa, no entanto, ele permanecia inseguro. Ciumento, adorava exibi-la em público, mas a deixava trancada (literalmente) quando saía sozinho. Separaram-se em 1912, quando Picasso já se encontrava com Eva Gouel, uma jovem de 25 anos, casada, que havia conhecido em um circo.

Eva foi, ao que tudo indica, o grande amor do pintor. E ele deixou pública essa paixão, escrevendo em seus quadros da época frases como “Eu amo Eva” e “Minha Formosa”, nome de uma canção que ouvia nas boates de Montmartre nas noites que saía para cortejá-la. O caso de amor foi interrompido prematuramente: Eva morreu de tuberculose, em 1915, deixando o pintor arrasado.

Schmidt, entretanto, afirma que Picasso não foi assim tão devoto a esse amor. “Nos anos com Eva, continuou a ter outras amantes, até mesmo nos meses que antecederam a sua morte”, diz.

Em 1917, Picasso conhece a bailarina russa Olga Koklova, com quem se casa um ano depois. A união com a jovem de 27 anos surpreendeu aos amigos mais próximos, pois era a primeira vez que o pintor se submetia aos caprichos de uma mulher. Possessiva, ciumenta e fútil, Olga queria um universo de luxo que Picasso sempre ridicularizou. Enquanto esteve com ela, o indomável touro espanhol se acalmou, passou a freqüentou a alta sociedade parisiense e a retratar condes, princesas e baronesas.

No início do casamento, ele pintou Olga e o filho Paulo, nascido em 1921. Mas logo veio a crise conjugal e os reflexos sobre suas pinturas. “Aparecem as primeiras marcas das deformações da década seguinte”, diz Dominique. Com brigas e reconciliações, a relação durou até 1935, quando Picasso a deixou. Mas eles nunca se divorciaram. Olga morreu de câncer em 1955.

Marie-Thérèse Walter entrou na vida do pintor numa tarde de janeiro de 1927, quando passeava perto das Galeries Lafayette, lojas de departamento parisienses. Com 17 anos e muito simples, não tinha a menor idéia de quem era o artista, nem de como ele viria a transformar sua vida. Era atraente e loira, com lindos olhos azuis. No dia em que completou 18 anos, Picasso, com 46, a levou para cama. Tornou-se sua eterna amante, a menina-mulher que realizou todos os seus desejos eróticos e fantasias sexuais. Segundo Schimidt, ela era submissa e dependente, satisfazia-o sem complicações, experimentando do sadismo ao masoquismo. Nunca moraram juntos, mas mantiveram uma relação pelo menos até 1943. Costumava visitá-la toda semana, com o consentimento da mulher que estivesse ao seu lado oficialmente. Escreveu-lhe cartas de amor diariamente, por longos períodos. Em 1935, tiveram uma filha, Maria de la Concepcion, apelidada de Maya e nunca reconhecida.

A amante clandestina teve forte presença nas obras de Picasso, que exaltou as linhas e formas sensuais de seu corpo em obras de grande erotismo. Inspirou também duas figuras femininas de Guernica, o célebre painel que denuncia as atrocidades da guerra civil espanhola. Enforcou-se em 20 de outubro de 1977, quatro anos depois de Picasso morrer.

No inverno de 1936, uma mulher morena de cabelos pretos e olhos verdes, sentada no Deux-Magots, restaurante que o pintor freqüentava, lhe chamou a atenção. Dora Maar era atraente e não convencional. Pintora, fotógrafa e inteligente, foi amante de Picasso por sete anos. Incentivou-o a assumir posicões políticas contra os governos de força, e em 1937 teve papel fundamental na execução de Guernica. Ela fotografou passo a passo a produção, ajudou a concebê-lo e até a pintá-lo.

Passaram juntos os anos de ocupação da França na Segunda Guerra, quando Picasso foi proibido de realizar exibições. No período, Dora aparece em vários telas. As mais marcantes mostram uma mulher desfigurada, chorando.

Foi a amante que mais sofreu com a separação. Trocada por Françoise Gilot, entrou em processo esquizofrênico e foi internada num hospital para doentes mentais. Depois, passou anos reclusa num convento. Morreu sozinha em seu apartamento, em Paris, aos 90 anos.

Picasso conheceu sua nova companheira, Françoise, em 1943, no restaurante La Catalan, enquanto jantava com Dora. Encantou-se com a estudante de cabelos ruivos e grandes olhos verdes. Ela tinha 21 anos. Picasso, 62. Tiveram dois filhos, Claude, nascido em 1947, e Paloma, em 1949. Retratada como a mulher-flor, Françoise era sua nova modelo, a deusa da luz e da fecundidade.

A vida com Picasso trouxe momentos apaixonantes e extremamente criativos, mas também lhe apresentou a angústia e a frustração. Dominador, possessivo e mulherengo, continuava pregando o amor livre. Ela conviveu com as visitas semanais de Picasso à Marie-Thérèse, com as loucuras de Olga e a autodestruição de Dora Maar.

A crescente indiferença do pintor e a tensão entre o casal colocaram um ponto final no relacionamento de dez anos. Em 1953, fez as malas e partiu com as crianças, deixando um Picasso perplexo. Foi a única mulher que mostrou determinação para abandoná-lo. Em 1964, publicou Life with Picasso – The Love Story of a Decade (Vida com Picasso – A História Romântica de uma Década). Em suas memórias, ela se retrata como uma jovem seduzida, manipulada e traída por um sádico Picasso. Ultrajado, o pintor tentou proibir a circulação do livro. Não conseguiu, mas desde aquele momento nunca mais recebeu os filhos.

Jacqueline Roque foi a última mulher de Picasso. Moraram juntos por 20 anos, até a morte do pintor, em 1973. Conheceram-se quando Picasso ainda vivia com Françoise, em 1952. Era jovem e bonita, como todas as musas do artista.Tinha cabelos negros, olhos azuis e feições marcadas por traços fortes. Para Schmidt, Jacqueline foi “arrumada” para Picasso pelo casal Remié, amigos de longa data do pintor : “Com 71 anos, ele era um ótimo partido para uma mulher de 26, divorciada e com uma filha”. Em 1961, casaram-se.

Jacqueline tornou-se secretária, agente, enfermeira, protetora e controlou a vida do pintor, isolando-o de amigos e familiares. Cultivava uma veneração doentia pelo marido, tratando-o respeitosamente de monseigneur (meu senhor). Musa dos últimos anos, foi a mulher que Picasso retratou de forma mais obsessiva e com quem mais produziu. Para ela, Picasso deixou em testamento, uma fortuna estimada em 250 milhões de dólares. Mas o dinheiro não lhe poupou de um fim trágico. Matou-se em 1986, com um tiro na cabeça.

Picasso exercia um magnetismo tão grande sobre suas amantes que a vida realmente deixava de fazer sentido sem ele. Costumava se retratar como um minotauro, um ser monstruoso, fruto de amores que vão além do entendimento, protagonista de relações violentas, eróticas e cruéis. Foi essa sexualidade selvagem que transpirou pelo desenho de suas mulheres. Na Paris do século passado, Picasso devorou pessoas e eventos com grande paixão, e transformou-as em arte.



Na cama e na tela
As musas que fizeram a cabeça de Picasso
Fernande Olivier (de 1904 a 1912)

Elegante, bonita e determinada, tinha 23 anos quando conheceu Picasso. Viveu com ele os anos de pobreza e boemia. Deixou-o em 1912, mas nunca superou a separação. Morreu pobre e sozinha em 1956

Nu deitado (Fernande), 1906

Além de posar para Picasso, ela lhe proporcionou estabilidade e segurança para experimentar novas cores e estilos, o que acabou sendo a transição entre a fase azul, caracterizada pela tristeza, miséria e morte, e a fase rosa, mais lúdica e alegre, repleta de figuras circenses. Foi sua musa até o início da fase cubista

Eva Gouel (de 1911 a 1915)

Tinha 25 anos quando conheceu Picasso. Era delicada, sensível e casada. Mas logo trocou o marido pelo pintor. Morreu de tuberculose, em 1915, deixando Picasso arrasado

Violão “Eu Amo Eva”, 1912

Eva não chegou a posar para Picasso que, nessa fase, não retratava pessoas. No entanto, ele não deixou de manifestar sua paixão escrevendo em vários quadros cubistas “Eu amo Eva”

Olga Koklova (de 1917 a 1935)

Casou-se com Picasso em 1918, aos 27 anos. Possessiva, fútil e ambiciosa, manteve a união estável até a chegada do filho, Paulo, em 1921. As brigas violentas levaram à separação. Desequilibrada, por anos perturbou o pintor e suas amantes. Morreu de câncer em 1955

Olga Koklova em uma Poltrona, 1917

Quis transformar Picasso no artista da alta sociedade parisiense. Durante os “anos Olga”, ele chegou a retratar condes, princesas e baronesas, retornando ao período clássico

Marie-Thérèse Walter (de 1927 a 1943)

Marie-Thérèse Walter conheceu Picasso aos 17 anos. Atraente, loira e com lindos olhos azuis, foi a eterna amante do pintor. Em 1935, tiveram uma filha, Maya. Sempre dependeu do artista. Enforcou-se em 1977, quatro anos após sua morte

Moça em frente do espelho, 1932

A amante clandestina teve forte presença nas obras de Picasso, que exaltou as linhas e formas sensuais de seu corpo voluptuoso em obras de grande erotismo. A “era Marie-Thérèse” marcou a fase lírica, sensual e surrealista

Dora Maar (de 1936 a 1944)

Amante de Picasso por oito anos, era inteligente e bonita. Morena de olhos verdes, foi musa dos surrealistas e também pintora e fotógrafa. Das mulheres do artista, foi a que mais sofreu com a separação. Chegou a viver internada em sanatórios e conventos, e morreu sozinha aos 90 anos

A Mulher Chorando, 1937

Teve papel fundamental na execução de Guernica. Acompanhou, fotografou e até chegou a ajudar Picasso a pintar o mural. No início dos anos 40, suas feições estão presentes em vários trabalhos, principalmente os que mostram uma mulher desfigurada, chorando

Françoise Gilot (de 1943 a 1953)

O pintor com 62 anos, encantou-se pela estudante de 21, cabelos ruivos e olhos verdes. Com os dois filhos, Claude e Paloma, viveram uma serena união familiar por dez anos. Mas, em suas memórias, diz-se uma jovem seduzida, manipulada e traída por Picasso

Mulher numa Poltrona, 1946

Retratada como a mulher-flor, foi sua modelo durante o fim dos anos 40, que ficaram conhecidos como “período Françoise”

Jaqueline Roque (de 1952 a 1973)

Foi a última mulher de Picasso. Moraram juntos por 20 anos, até a morte do pintor, em 1973. Era jovem e bonita, tinha cabelos negros, olhos azuis e feições marcadas por traços fortes. Cultivava uma veneração pelo marido e afastou-o de familiares a amigos. Suicidou-se em 1986

Retrato de Jaqueline Roque com as Mãos Cruzadas, 1954

Musa dos últimos anos, foi a mulher que Picasso retratou de forma mais obsessiva e com quem mais produziu. Era também sua secretária e agente, cuidava das exposições, das galerias e dos marchands


Saiba mais
Livros

Na Cama com Picasso, Carlos von Schmidt, Artes/Digital, 1997 - Leitura agradável, com passagens picantes

Life with Picasso, Françoise Gilot & Carlton Lake, Anchor, 1989 - Memórias da ex-mulher de Picasso sobre a vida do casal. Dá para entender porque o pintor tentou impedir a publicação do livro

Site

www.musee-picasso.fr

Inclui análises de especialistas sobre a influência das mulheres na vida e na obra do artista. Em francês

Revista Aventuras na Historia