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sexta-feira, 24 de março de 2017

Como fazíamos sem... Absorvente íntimo?


Incomodada ficava sua vó.... ficava mesmo!

Redação AH

 Lavadeiras em quadro de artista colombiano, 1923 | Crédito: Eugenio Zerda

Dizia o comercial de TV que incomodadas ficavam as nossas avós. Ele tinha razão. Antes da invenção do absorvente descartável, a mulherada sofria. E improvisava.

De acordo com dados do Museu da Menstruação e da Saúde Feminina, na Antiguidade, em Roma, as mulheres enfiavam pequenos chumaços de lã no interior da vagina para conter o fluxo menstrual. Em algumas tribos da África, usavam rolinhos de grama. As gregas revestiam ripas de madeira com várias camadas de retalho. Já as japonesas se viravam confeccionando canudinhos de papel. Na Indonésia, fibras vegetais eram usadas na tentativa de absorver o fluxo, ao passo que, no Egito, canutilhos de papiro faziam as vezes de absorvente higiênico. Todas essas invenções eram intravaginais – por isso, era melhor deixar um pedacinho para fora, para facilitar a retirada.

Registros arqueológicos mostram que, desde o século 15 a.C, as mulheres já pensavam em alguma espécie de proteção para aqueles dias. Mas uma das referências mais conhecidas acerca do assunto é encontrada nos escritos deixados pelo grego Hipócrates, mencionando expressamente a utilização de protetores intravaginais entre suas contemporâneas – ele viveu de 460 a 370 a.C.

Durante toda a Idade Média uma opção eram as toalhinhas higiênicas, feitas de qualquer resto de tecido – não raro, elas levavam ao surgimento de coceiras, assaduras e irritações no corpo. De todo modo, qualquer coisa devia ser melhor do que o isolamento a que as mulheres de diversas tribos indígenas eram submetidas: elas ficavam longe dos olhos dos outros, sentadas numa espécie de ninho, que absorvia o sangue.

 
Soluções para higiene feminina em anúncio dos anos 1930

Só no século 19 têm início pesquisas voltadas ao desenvolvimento de apetrechos mais funcionais. Em 1933 o absorvente interno foi patenteado, mas a novidade só chegou ao Brasil 40 anos depois. Por outro lado, toalhas descartáveis já ocupavam as prateleiras desde o fim da Primeira Guerra. Algumas tinham o formato de uma calcinha, ficando presas à cintura, enquanto outras eram presas com alfinetes – os absorventes com fita adesiva chegaram em 1970.

Um alívio sem precedentes, que livrou as mulheres de preocupações, como a de o que fazer para que ninguém visse o varal coalhado de retalhos suspeitos – afinal, as moças de boa família não podiam expor suas intimidades.
Revista Aventuras na História

segunda-feira, 20 de março de 2017

Como fazíamos sem... dentista

Tratar dos dentes já foi um show de horrores

Marcus Lopes

 A dor, na tela de Caravaggio | Crédito: divulgação 

Antes de existirem os cirurgiões-dentistas, a humanidade passou por poucas e boas para tratar a dor de dente. Médicos, monges religiosos e até barbeiros exerciam o ofício, que, durante muito tempo, praticamente se resumia à mera extração – com muita dor, claro.


Em 2012, foi encontrado na Eslovênia, no Leste Europeu, um dos vestígios mais antigos da existência de um dentista. Um dente de aproximadamente 6,5 mil anos de idade foi achado com um preenchimento de cera de abelha na coroa. Os estudos mostraram que o material foi aplicado na época da morte do indivíduo, mas não se sabe se foi antes ou depois. Caso tenha sido antes, provavelmente era para diminuir a dor provocada por uma rachadura nas camadas de esmalte.

Documentos sumérios feitos em tabletes de argila dão conta que, em 2750 a.C., já havia procedimentos cirúrgicos em mandíbulas. Na mesma época foram encontrados, na região da Mesopotâmia, peças para limpeza dentária, como palitos de metal. Na Idade Média, os primeiros a exercer a odontologia foram os monges católicos, que também davam seus pitacos na medicina, realizando tratamentos e cirurgias, já que tinham maior acesso ao conhecimento do que a população em geral. Após a Igreja proibir essa prática, quem herdou a função foram os barbeiros, que teriam aprendido a prática com os religiosos.

Por mais difícil que seja acreditar, durante muito tempo quem tinha dor de dente podia resolver o problema no mercado público. Sim, a profissão de dentista também foi exercida de maneira bastante rudimentar por curiosos que iam às feiras e mercados oferecer serviços de extração e tratamento de dentes, como quem oferece um produto.


A odontologia começou a evoluir de fato por volta de 1700, quando surgiram novos instrumentos, como boticões mais eficientes, e profissionais especializados. Em 1728, o francês Pierre Fauchard escreveu um tratado chamado O Cirurgião-Dentista. Em 1746, Claude Mouton publicou o primeiro trabalho relacionado a prótese dentária e, em 1756, Philip Pfaff lançou a obra Odontologia Alemã. Dois anos antes, em 1754, havia sido criado um boticão especial para a extração dos terceiros molares. O temido motorzinho, que causa tanta aflição nos pacientes, surgiu no fim do século 19, mas só chegou ao que conhecemos hoje no século 20.

TIRADENTES
O dentista prático mais famoso do Brasil foi, sem dúvida, o alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, isso antes de a odontologia ser uma profissão regulamentada. No registro do seu depoimento prestado em 1789, após ser preso no episódio da Inconfidência Mineira, está registrado que o réu “não tinha nesta cidade pessoas de particular amizade, porém conhecia muita gente em razão da prenda de pôr e tirar dentes”. Ou seja, o mineiro não apenas extraía dentes dos seus pacientes mas também repunha os que faltavam, numa espécie de tratamento de prótese. Registros da época apontam ainda que ele exercia muito bem sua profissão no interior de Minas Gerais e tinha, inclusive, conhecimentos básicos de medicina. Entre os bens confiscados do mártir da Inconfidência após a prisão pela Conjuração Mineira constavam um espelho pequeno e um conjunto de ferros de extrair dentes, que foram arrematados pelo dentista prático Francisco Xavier da Silveira. Ele deixou também navalhas de barbear e instrumentos de farmácia.
Revista Aventuras  na História

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Inventos da Antiguidade - Medicina Primitiva



Saiba como a sanguessuga era usada antigamente como elemento de cura e veja seus efeitos em um paciente vivo. Investigue os campos de batalha romanos e suas técnicas e instrumentos cirúrgicos. Veja também como o veneno de uma serpente era usado como remédio no mundo antigo, uma técnica que os médicos atuais estão aprendendo a utilizar novamente.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

A doença do prazer

No início do século XX, a medicina queria imprimir uma conduta que impedisse tanto o excesso quanto a continência sexual

Cristiana Facchinetti


Remédio da década de 1920 promete a cura para a esterelidade e fraqueza senil: era por uma sexualidade cotidiana e disciplinada no seio da famíliaAs demarcações de diferença anatômica e do comportamento sexual, bem como de suas “patologias” eram um desafio para a ciência da segunda metade do século XIX. O surgimento das teorias da hereditariedade aumentava o temor sobre consequências funestas dos desvios nessa área: além de prejudicar física e moralmente o indivíduo, tais anomalias afetariam seus descendentes diretos e, por extensão, ameaçariam o organismo de toda a nação pelo risco de degeneração social.

No Brasil, como na Europa, políticas estatais e científicas se articulavam para estabelecer o controle e a regulação moral dos indivíduos, especialmente no que se refere à saúde e à reprodução da população. Entre nós, porém, havia um obstáculo em especial: a questão racial. Especialmente após a Abolição (1888), a miscigenação tornou-se um tema crucial nos debates científicos. Mais do que a raça negra – considerada primitiva, mas pura – era a mistura racial que, pensava-se, produzia a degeneração. A medicina do período definia a população brasileira como um coletivo de indivíduos mestiços e desequilibrados, de agir impulsivo, instintivo e irracional, incapazes de se submeterem a uma organização política mais evoluída.

Novas especialidades médicas ganharam impulso. Entre elas, a medicina mental, que também sublinhava as “mazelas de nosso laboratórioétnico”, como escreveu o médico Renato Kehl. Esse clima de pessimismo científico era embalado, ainda, pelo crescimento desordenado das cidades, pelas greves e os movimentos urbanos.

No início do século XX, as descobertas da microbiologia adicionaram uma perspectiva social ao “diagnóstico” do brasileiro. Ele se definia, agora, pela falta de saúde e de educação. Além das teorias da hereditariedade, passaram a ser consideradas as influências do meio para as degenerações psicológicas e físicas.
 
Um símbolo dessa mudança de pensamento é o personagem Jeca Tatu, criado por Monteiro Lobato. Nas crônicas “Uma velha praga”, publicadas no jornal O Estado de São Paulo em janeiro de 1914, o escritor explicita o caráter degenerado do mestiço: o caboclo Jeca Tatu é o “funesto parasita da terra”, descrito como “baldio, seminômade, inadaptável à civilização”, “fronteiriço, mudo e sorna [fingido]”. Em dezembro do mesmo ano, no mesmo jornal, Monteiro Lobato publica Urupês e recupera a imagem do personagem. Desta vez, descreve Jeca Tatu como um doente, vítima da miséria e da indigência. “Jeca não é assim: está assim”, ou seja, é passível de regeneração por meio do saneamento e da educação.

A combinação entre o biológico e o social também repercutiu nos estudos da sexualidade. A medicina mental dedicava-se à trama sexual dos impulsos, considerando não apenas a hereditariedade, mas também os comportamentos sociais e as características físicas e psíquicas dos indivíduos. Por um lado, o ser humano era visto como “um cabide de glândulas”, na expressão de Renato Kehl. Equilibrar suas secreções, os hormônios, era garantia da “plena posse de seu personalismo”, e bastaria uma única glândula funcionar “mais ou menos mal para surgirem os fenômenos nervosos”. Por outro lado, a “fisionomia” mental e moral do indivíduo também seria condicionada pelo meio. Daí a importância da educação para a construção das identidades. Mesmo o instinto sexual, o mais irremediável dos instintos, poderia ser educado.

Para garantir a transformação da “raça brasileira”, frequentemente reconhecida como vítima dos impulsos instintivos e da sensualidade excessiva, a medicina mental, por meio da Liga Brasileira de Higiene Mental, fundada em 1923 pelo psiquiatra Gustavo Riedel (1887-1934), organizou um projeto de educação sexual que se propunha a ensinar “a reprodução, a verdadeira significação do casamento, o combate às doenças venéreas, o problema da prostituição, a higiene social etc.”. Educar significava equilibrar os impulsos: imprimir uma conduta que impedisse tanto o excesso quanto a continência sexual. A peça-chave para essa regulação era o casamento programado por critérios científicos. Ao domesticar os instintos desenfreados por meio de uma sexualidade rotineira e controlada no interior da família, o matrimônio moldaria cidadãos republicanos exemplares: a “esposa-mãe” (“o tipo completo da mulher normal”) e o homem varonil, capaz de sublimar parcialmente seus instintos deslocando-os para o trabalho e para o sustento da família, sua principal função social. Além disso, as escolhas conjugais que contassem com a ajuda de exames pré-nupciais e conselhos médicos proporcionariam uma melhoria substancial da nação, produzindo proles sadias.

Mas esse combate ao imaginário hipersexual da brasilidade nasceu ameaçado. No período do entreguerras (1918-1939), em meio às transformações das grandes cidades brasileiras, a normalidade, longe de estar garantida pela ciência, se tornaria cada vez mais instável.
 
Enquanto a medicina recomendava às mulheres a maternidade e o cuidado das proles, as “boas moças de família” começavam a ter acesso ao estudo e ao trabalho fora de casa, ganhavam o espaço público, circulavam em festas, lojas e teatros, liam romances, iam aos cinemas. Embora ainda não hegemônica, crescia a recusa ao casamento e à maternidade, e também a aquisição de hábitos considerados virilizantes, como o uso de calças, o corte dos cabelos à la garçonne (curto, como de homens) e o hábito de fumar. Cada vez mais se exigia o fim da exclusividade da dona de casa, especialmente na classe média. A utopia médica era arruinada pelo “excesso de intelectualização” feminina, que daria “recursos ao egoísmo, diversão do espírito, orgulho sem limites, malevolência, falta de compreensão completa dos deveres sociais”, como está descrito nos Archivos Brasileiros de Psychiatria Neurologia e Sciencias Affins, de 1906. Como bem definiu Maria Bernadete Ramos, eram as “novas Evas reivindicando democracia sexual”.

No campo da sexualidade masculina, a proliferação da sífilis, desencadeadora de doença mental, denunciava a continuidade dos excessos venéreos na população, limitando o alcance dos projetos de futuro. Novos comportamentos na cidade moderna também se contrapunham ao modelo masculino provedor. Personagens marginais, mas de grande repercussão pública, como João do Rio, Lima Barreto e Oswald de Andrade, são testemunhos seguros – tanto em sua obra quanto em seu estilo de vida – de costumes pouco adequados ao ideal do trabalhador casado. Pululam na literatura da época tipos que reafirmam as “sexualidades interditadas” pelos médicos, como anotou Julio Pires Porto-Carrero: celibatários, libertinos, polígamos, desquitados, uranistas (homossexuais) e “toda a turma de personalidades psicopáticas” que, apesar de seu “grau intelectual alto”, teria “incapacidade acentuada para adaptar-se à norma”.

No conto “História de gente alegre” (1910), de João do Rio, mulheres “unissexuais” se perdem nos excessos da noite, protagonizando cenas de entrega aos seus desejos em público, regados à morfina. Lima Barreto, na crônica “No ajuste de contas”, de 1918, cobrava das feministas burguesas e conservadoras que se colocassem contra o casamento, “que tende a se perpetuar entre nós, aviltando a mulher, rebaixando-a ao estado social da barbárie medieval, de quase escrava; degradando-a à condição de cousa, de animal doméstico, de propriedade nas mãos dos maridos...; não lhe respeitando a consciência e liberdade de amar a quem lhe parecer melhor, quando e onde quiser; contra tão desgraçada situação da nossa mulher casada, edificada com estupidez burguesa e a superstição religiosa, não se insurgem as borra-bostas feministas que há por aí”. Oswald de Andrade, por sua vez, brada em Serafim Ponte Grande (1933) contra a hipocrisia da sociedade, e são múltiplas as suas menções a questões sexuais, relacionamentos fora do casamento e experiências homossexuais.

Enquanto a medicina criava o Brasil fabril e regenerado, intelectuais, artistas, mulheres, homossexuais, negros e mulatos criavam o Brasil febril, moderno-modernista.
 Revista de História da Biblioteca Nacional

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Notícias História Viva

Bactéria da peste negra quase não mudou em mais de 600 anos
Estudo sequenciou código genético da bactéria por completo e constatou que ela é quase idêntica à bactéria dos dias de hoje
iG Brasil 

Cientistas sequenciaram o código genético da peste negra e descobriram que a bactéria Yersinia pestis do século 14 é quase idêntica à versão moderna . Pouca coisa mudou. Há apenas uma dúzia de mudanças entre os mais de 4 milhões de blocos de construção do DNA, de acordo com um estudo publicado online na quarta-feira da revista Nature.

O estudo mostra que a Peste Negra foi mortal por razões além de seu DNA. Tinha a ver com as circunstâncias do mundo naquela época. Com o avanço da ciência e da sociedade hoje é possível combater a peste com um antibiótico. No século XIV, ela dizimou um terço da população europeia.

Museum of London Archaeology

Pesquisadores conseguiram reconstruir o genoma da bactéria original a partir de DNA extraído dos restos mortais de quatro vítimas da doençaDe acordo com a pesquisa, dirigida pelo professor Johannes Krause, da universidade alemã de Tübingen, Ele veio no pior momento possível - quando o clima foi ficando mais frio, o mundo estava no meio de uma longa guerra e da fome, e as pessoas estavam se mudando para bairros mais próximos, onde a doença pode infectá-las e se espalhar facilmente. E foi provavelmente a primeira vez que esta doença em particular, tinha atingido os seres humanos, atacando pessoas sem qualquer proteção inata.

Os pesquisadores chegaram a esta conclusão após reconstruir o genoma da bactéria original a partir de DNA extraído dos restos de quatro vítimas da doença enterradas no cemitério londrino de East Smithfield, construído entre 1348 e 1349 para abrigar vítimas da peste.

As análises indicariam que a devastadora praga do século XIV pode ser a responsável pela introdução e disseminação por todo o mundo das bactérias que ainda circulam na atualidade. 
Além disso, os pesquisadores constataram que a doença hoje em dia é influenciada por fatores ambientais e a própria suscetibilidade do portador. Acredita-se que a Peste Negra se originou em roedores na China e se propagou através das pulgas dos ratos. "É um exemplo histórico fundamental de uma infecção com rápida disseminação e alta mortandade", já que num período de cinco anos reduziu consideravelmente a população da Europa, assinala a revista Nature.

Os pesquisadores haviam publicado recentemente outro estudo com a o sequenciamento de pequenos fragmentos do DNA bactéria. Nesta análise ela parecia mais diferente da bactéria contemporânea. O estudo publicado esta semana na Nature, que contou com técnica mais apurada e o sequenciamento completo do DNA da bactéria mostrou que elas são muito parecidas. "Elas têm menos diferença do que mãe e filha”, disse Krause.

(Com informações da EFE e da AP)

Peste se propagou pelo mundo há 2.000 anos a partir da Ásia

A partir de cepas bacterianas cientistas reconstituir a origem geográfico da doença, sua idade e dispersão em sucessivas epidemias

AFP
A peste se propagou pelo mundo há mais de 2.000 anos a partir da Ásia, segundo uma equipe internacional que conseguiu fazer a reconstituição das sucessivas ondas epidêmicas através da história e cujo estudo foi publicado no site da Nature Genetics.

As informações recolhidas a partir de cepas bacterianas e de uma coleção única de quase de 300 cepas permitiram aos cientistas reconstituir a origem geográfico da doença, sua idade e dispersão em sucessivas ondas epidêmicas.

A peste é letal quando não é tratada. O agente infeccioso é uma bactéria, a Yersinia pestit, cujo reservatório natural é essencialmente composto de roedores. A transmissão acontece por meio de picadas de pulgas.

Segundo o Museu Nacional de História Natural/CNRS da França (MNHN), co-signatário do artigo (Thierry Wirth e Raphaël Leblois), os resultados significam que a peste surgiu na China há mais de 2.600 anos.

A partir desta região se expandiu em seguida para a Europa Ocidental através da rota da seda (iniciada há mais de 600 anos), para a África (sem dúvida importada no continente pelo navegador Zheng He no século XV) e mais tarde para a América do Norte e Madagascar, no fim do século XIX.

Os dados moleculares permitiram reconstituir com uma precisão surpreendente a chegada da peste aos Estados Unidos via China e Havaí e a propagação do germe a partir dos portos de São Francisco e Los Angeles para o interior do território americano. Os trabalhos demonstraram sobretudo que o conjunto das sucessivas ondas epidêmicas partiu da Ásia Central e da China.

Entre 1347 e 1351, a peste negra, que se expandiu através da Ásia, Europa e África, pode ter reduzido a população mundial de 450 a 350 milhões de pessoas, segundo o University College Cork (Irlanda).

Alemanha, China, Grã-Bretanha, Madagascar e Estados Unidos também participaram nas pesquisas.

Notícias História Viva


Estudo vincula Peste Negra da Idade Média a atual peste bubônica
Exames de DNA de vítimas inglesas mostra que bactéria contemporânea tem muito em comum com agente patogênico da doença medieval

AFP
Uma versão muito menos virulenta da bactéria que provocou a peste negra, a devastadora pandemia que matou um terço da população da Europa no século XIV, ainda existe atualmente, segundo estudo publicado.


Exames de DNA das ossadas de vítimas da terrível doença, encontradas em uma fossa comum de um cemitério medieval de Londres, revelaram parte do mesmo sequenciamento genético da peste bubônica moderna, apesar de seus atributos diferentes.

"Pelo menos esta parte da informação genética variou muito pouco nos últimos 600 anos", afirmou Johannes Krause, um dos autores do estudo, publicado nas periódico Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) dos Estados Unidos.

"Sem sombra de dúvida, o agente patogênico conhecido hoje como Yersinia pestis também foi a causa da peste (negra) na Idade Média", acrescentou.

A peste negra matou um terço da população europeia em apenas cinco anos, de 1348 a 1353, mas os surtos modernos têm sido muito menos mortais.

Um surto em Mumbai, Índia, em 1904, por exemplo, matou 3% da população, apesar de ter ocorrido antes da descoberta dos antibióticos.

Para o estudo, realizado pelo Instituto de Arqueologia Científica da Universidade de Tubingen, na Alemanha, e pela Universidade McMaster, no Canadá, os cientistas extraíram o DNA de 109 esqueletos de uma fossa comum, no cemitério de East Smithfield, em Londres.

Ao comparar o DNA com o de dez esqueletos escavados de um sítio anterior à peste negra, os cientistas puderam demonstrar que não havia sido contaminado por material moderno genético ou bactérias do solo.

Os autores sustentam que a versão da bactéria que causou a peste medieval provavelmente tenha sido extinta, mas sugerem que novas pesquisas poderiam revelar como pôde ter evoluído até se transformar em uma cepa menos virulenta.

A peste negra, que afeta tanto animais quanto humanos, é causada pela bactéria Yersinia pestis, que os roedores transmitem aos humanos através de pulgas infectadas.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Descida ao Inferno


A resistência popular às internações hospitalares na cidade do Rio de Janeiro do século XIX

Márcio de Sousa Soares

Nos dias de hoje, quando alguém se sente mal ou se acidenta, costuma procurar um médico ou, dependendo da gravidade do caso, um hospital. Há um forte consenso de que os médicos são as pessoas mais indicadas para tratar dos doentes e que um hospital dispõe dos melhores recursos para prestar socorro aos enfermos em estado de saúde mais delicado. Mas nem sempre foi assim.

“Deixai toda esperança. Ó vós que entrais!”: estes versos, gravados na porta do inferno imaginado por Dante Alighieri em A Divina Comédia, exprimem perfeitamente a angústia que a perspectiva de uma internação hospitalar despertava entre as camadas populares cariocas no século XIX. A maioria dos hospitais existentes na cidade do Rio de Janeiro até meados do novecentos era formada por instituições de caridade dirigidas por religiosos.
Voltado para os pobres, o socorro hospitalar se destinava a acolher a população carente – deserdada de toda sorte. Na grande maioria das vezes, só se dirigiam espontaneamente a um hospital aqueles que não dispunham de um teto ou não podiam contar com o auxílio de parentes. Somente quando os doentes não tinham qualquer condição de conduzir o tratamento em suas próprias casas é que costumavam ser remetidos à força para os hospitais. Locais de isolamento e reclusão, os hospitais – como todos sabiam – não passavam de depósitos de infelizes em sua última escala antes da morte.
As classes mais altas, quando recorriam à assistência médica, faziam-no em suas próprias casas. Os pobres, por sua vez, em geral não simpatizavam muito com os médicos, nem possuíam os recursos necessários para pagar uma consulta domiciliar. Fatalmente, o contato com os médicos quase sempre ocorria, para desgosto do enfermo, num hospital. Malvistas e temidas pela maior parte da população da época, estas instituições eram o último lugar para onde os doentes desejavam ir.
Devido à presença das tropas portuguesas no Rio de Janeiro, o socorro aos doentes que não podiam contar com o auxílio de parentes tornou-se um problema para a Metrópole desde o início da colonização. Após uma longa viagem, muitos soldados já desembarcavam doentes ou então tombavam feridos. Por determinação da Coroa, eram conduzidos para as residências particulares e, posteriormente, para o hospital construído pela irmandade da Misericórdia.



Somente a partir do século XVIII é que outras irmandades e Ordens Terceiras abriram hospitais para atender a seus confrades. Em 1768, a Santa Casa passou a exigir o pagamento diário de quatrocentos réis por soldado internado. O conde de Azambuja, na época vice-rei, ordenou que se improvisasse um estabelecimento, que seria o primeiro Hospital Militar da cidade. Inicialmente situado no Morro de São Bento, o hospital foi transferido mais tarde para a sede do antigo Colégio dos Jesuítas, no Morro do Castelo.


No Ocidente cristão, pelo menos até meados do oitocentos, o acompanhamento da doença e da agonia que antecede a morte ainda não estava sob o poder da medicina. O tratamento das enfermidades era geralmente conduzido em casa pelos próprios parentes do doente. Por força do catolicismo, quase sempre quem estava à cabeceira de um moribundo era um padre. Mesmo se, porventura, um médico acompanhasse uma pessoa da doença até a morte, seu trabalho se restringia a ajudar o enfermo a se curar ou a morrer. Em uma época em que combater a morte era para muitos uma verdadeira blasfêmia contra as intenções de Deus, a função da medicina não podia assumir um caráter de luta contra a natureza. 


Fazia parte do imaginário coletivo da época que a doença e a hora mortis deviam ser vivenciados no interior das residências. Temia-se, acima de tudo, a morte súbita. A crença na necessidade da preparação para o bem morrer era muito difundida, o que significava o cumprimento de rituais religiosos para garantir a salvação da alma. Só assim o moribundo poderia deixar o mundo com a consciência tranqüila perante Deus e os homens. Causava horror a qualquer pessoa pensar em adoecer ou morrer longe dos parentes ou sem amparo religioso. A preferência, comum a todos os segmentos sociais, é bastante compreensível, considerando-se que, quando um indivíduo adoecia de uma moléstia mais grave, a probabilidade de que este viesse a falecer era muito grande.


Com a institucionalização da medicina acadêmica no Brasil, os hospitais assumiram aos poucos uma nova dimensão na prática e na consciência médica, em sintonia com a crescente onda cientificista que caracterizou o mundo ocidental ao longo do século XIX. Dispostos a transformar o que acreditavam ser um verdadeiro “caos urbano” – uma cidade “suja” e “doente” – em um espaço “civilizado”, os intelectuais que integravam a Academia Imperial de Medicina passaram a recomendar às autoridades públicas uma reordenação das instituições hospitalares existentes na Corte.



Na opinião médica, os hospitais deveriam ser reestruturados para garantir o isolamento dos enfermos. Na época, acreditava-se que certas substâncias que exalavam dos corpos doentes faziam daquelas instituições um foco de infecção ou de contágio. Para tentar conter a disseminação das doenças, passou-se a recomendar o trancamento das portas dos hospitais no intuito de isolar os enfermos. Assim, as instituições foram transformadas em verdadeiras prisões, o que só aumentou ainda mais a desconfiança e o pavor da população pobre.

Os membros da Academia Imperial de Medicina, que discutiam as condições de salubridade pública em suas reuniões e publicações, passaram a tachar de insalubres e impróprias não só as instalações hospitalares, mas também muitos hábitos da população que até aquele momento não haviam despertado maiores inquietações no que se refere à saúde pública. É, portanto, à luz dessa nova consciência que devem ser compreendidas as terríveis descrições contidas nos diversos relatórios elaborados pelas comissões médicas nomeadas para diagnosticar as condições de insalubridade da Corte.

A Santa Casa de Misericórdia era o maior hospital da cidade no século XIX, recebendo cerca de 4.500 doentes por ano, segundo uma estimativa feita em 1833. Mesmo assim, as pessoas mais pobres tentavam evitar ao máximo a internação, tamanho era o quadro de penúria reinante ali. 
Havia ainda o medo e a certeza de que dificilmente escapariam da morte – como atestavam os elevados índices de mortalidade ali verificados. Dependendo da enfermidade, o doente já sabia de antemão que suas chances de sobrevivência seriam muito pequenas. Este foi o caso das vítimas da explosão do vapor Especuladora, ocorrida em 1844. Do total de 42 feridos queimados no acidente, nada menos que 39 faleceram nas primeiras 48 horas após a entrada na Santa Casa. As possibilidades de saírem vivas dali também não eram nada promissoras para as pessoas internadas com tuberculose. Segundo um relatório médico da época, dos 1.225 tuberculosos recolhidos na Santa Casa entre 1839 e1841, nada menos do que 77,7% faleceram. O que mais espanta é que a grande maioria sucumbiu antes do primeiro mês de internação.

Segundo os médicos que atuavam na Misericórdia, a voracidade com que a tísica consumia os doentes era explicada pelo fato de que a maioria deles só era internada depois de esgotadas todas as tentativas não-hospitalares de cura. Ao avaliar o índice de mortalidade apresentado pelo resumo estatístico da Clínica de Cirurgia da Faculdade de Medicina relativo ao ano de 1844, o doutor Roberto Jorge Haddock Lobo comentou que “... é só no último recurso que os doentes, de ordinário dominados pelo horror que erroneamente lhes inspira o hospital, se determinam a recolher-se a essa Pia Casa, tarde e a más horas”.



Diante da dor, do isolamento e do receio de uma morte solitária, não é de se estranhar que a fuga de doentes dos hospitais fosse um fato corriqueiro, segundo as freqüentes denúncias feitas pelos médicos da época. O pavor inspirado pela Santa Casa era ainda mais acentuado pela expressiva quantidade de enterros diários que ocorriam no cemitério mantido pelo hospital. Reservado aos escravos e aos indigentes, o campo santo da Misericórdia sepultou no biênio 1838-1839 nada menos do que 3.194 pessoas! Não se pode deixar de sublinhar que números tão elevados alimentavam, e muito, a desconfiança dos cativos em relação aos médicos e aos hospitais. Levando em conta a opinião corrente sobre a relação entre doença e feitiço, a historiadora Mary Karash levantou a hipótese de que, para os africanos da cidade, a morte rápida no hospital poderia resultar da feitiçaria dos brancos contra sua gente. É bastante plausível supor que, entre a população escrava, os médicos pudessem ser identificados negativamente como “feiticeiros brancos”, sobretudo para os doentes recém-traficados, que, não raro, eram remetidos para a Santa Casa de Misericórdia, onde a grande maioria vinha a falecer.

Se nos casos de doenças endêmicas a possibilidade de ter que ir a um hospital despertava pavor nas pessoas, o que dizer das épocas dos grandes surtos epidêmicos de cólera e de febre amarela, quando os índices de internação e de mortalidade atingiram níveis até então nunca vistos? Os próprios médicos reconheciam que, além de padecer de sofrimentos físicos desumanos, os enfermos ainda tinham de enfrentar o desconforto das acomodações oferecidas pelas instituições e pelas enfermarias improvisadas na cidade. Nessas ocasiões, os hospitais geralmente ficavam abarrotados com pessoas que tombavam doentes pelas ruas ou com marinheiros em trânsito, recolhidos pelas Comissões de Polícia Médica, sendo internados independentemente ou contra sua própria vontade.

A voracidade com que as epidemias devoravam os adoentados reforçava a idéia do caráter súbito deste tipo de enfermidade. Dos vinte primeiros doentes de febre amarela tratados pelo doutor Roberto Lallemant, em 1850, nas enfermarias da Santa Casa de Misericórdia, quase todos morreram no prazo máximo de 48 horas após darem entrada no Hospital. O doutor José Pereira Rego era um dos que acreditavam na instantaneidade do ataque provocado pela cólera. Por ocasião do surto epidêmico ocorrido em 1855, o médico assegurava que pessoas saudáveis eram acometidas repentinamente pela doença e tombavam enfermas pelas ruas. Por conta dessa crença em seu caráter fulminante e da proporção tomada pela epidemia, notou que “o mal, apesar dos cuidados prodigalizados pelo governo, pela classe médica e pelos cidadãos encarregados de distribuir os socorros públicos, progredia em sua marcha destruidora, espalhando o terror e a consternação em todos os habitantes desta populosa cidade”.

No imaginário popular do século XIX, era bastante difundida a crença de que as doenças tinham uma natureza sobre-humana, e eram associadas, por exemplo, à feitiçaria, à ação de um “mau-olhado” ou como conseqüência de um pecado. Sendo assim, a cura dos enfermos dependeria, em última instância, da vontade de Deus, e não dos remédios, pois a enfermidade seria um castigo divino ou fruto das artimanhas do demônio. 



Muitas pessoas buscavam a proteção ou o restabelecimento da saúde por meio das mais variadas práticas mágico-religiosas. Estes procedimentos eram uma complexa combinação entre o auxílio espiritual e a aplicação de diversas mezinhas domésticas (remédios caseiros), sangrias, ou de alguns “remédios secretos” – fartamente anunciados nos jornais da época e que prometiam tudo curar. Freqüentemente, a cura era atribuída a talismãs, objetos de devoção, sacramentos ou a interferências divinas da Virgem Maria ou dos santos – como atesta o relato do viajante Thomas Ewbank sobre a enorme quantidade de ex-votos depositados nas igrejas da cidade.

Até meados do século XIX, os profissionais da medicina eram alvo de profunda desconfiança e de descrédito, posto que não gozavam de reconhecimento social suficiente para lhes assegurar o “monopólio da competência” na arte de curar. Afinal, no imaginário popular, as explicações para as origens das doenças e as possibilidades de cura passavam longe daquelas apresentadas pela ciência médica.

Em lugar dos médicos, a maioria das pessoas costumava recorrer aos saberes práticos e ao poder espiritual atribuídos àqueles que tradicionalmente se dedicavam à arte de curar. Barbeiros, parteiras, boticários, benzedores e os famosos cirurgiões negros: todos estes se encontravam distantes da formação acadêmica em Medicina, tendo sido quase sempre desqualificados pelos médicos como “curandeiros” ou “charlatões”. 

Apesar de todo o poder e a influência conquistados aos poucos pelos médicos ao longo da segunda metade do século XIX, a resistência dos segmentos populares às novas concepções e práticas ditadas pela medicina permanecia muito grande, adentrando as primeiras décadas da República. Para os médicos, o grande problema a ser resolvido era a “ignorância” dos doentes, que insistiam em adiar ao máximo a entrada ou em fugir dos hospitais. Mas, para os pobres, era a própria internação que representava uma grande probabilidade de apressar o encontro fatal com uma indesejada morte solitária.

Márcio de Sousa Soares é autor da dissertação “A Doença e a Cura: saberes médicos e cultura popular na corte imperial” pela Universidade Federal Fluminense, 1999, e doutor em História Social pela mesma universidade.
Revista de História da Biblioteca Nacional

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Medicina versus magia



Até o século XIX, população contava com feitiços para curar doenças

Flavio Coelho Edler
A medicina e a feitiçaria já estiveram muito mais próximas do que se pode imaginar. Durante o Brasil Colônia até o século XIX, a produção de remédios com o uso de animais ligados ao universo mágico, como o morcego e o cão negro, não era exclusividade de curandeiros. Médicos e boticários também receitavam substâncias cujo significado difere muito do que hoje entendemos por ciência, utilizando até mesmo cadáveres humanos em suas fórmulas.

Naquela época, a quantidade de médicos no país era mínima, mas não faltavam representantes das mais variadas ocupações para aplicar todo tipo de feitiços, como barbeiros, sangradores e mezinheiros (que aplica mezinhas, isto é, medicamentos caseiros). Esses terapeutas populares tratavam de doenças e de problemas cirúrgicos com ervas medicinais, amuletos e práticas como o catimbó – culto de possessão, de origem indígena, de caráter mágico-curativo – e o calundu, designação genérica de um ritual associado a danças e cantos coletivos, em que ocorria a invocação de espíritos, adivinhações e curas mágicas, de origem africana, com elementos do catolicismo.

Os físicos – como eram então chamados os médicos – e cirurgiões não tinham uma posição de relevo na sociedade. Esse cenário só mudou a partir da metade do século XVIII, quando, já formados em universidades europeias e membros de academias literárias e científicas, eles passaram a ocupar uma posição mais privilegiada.

Com prestígio muito abaixo do que possuem hoje, doutores, cirurgiões e boticários diplomados não reconheciam a proximidade de sua profissão com a feitiçaria. Pelo contrário, esforçavam-se para estabelecer a diferença entre os dois domínios, reivindicando ao governo a restrição e a regulamentação do ofício dos curandeiros. Para isso, contavam com o apoio da Igreja e das Ordenações do Reino. A Igreja Católica estabelecia a fronteira cultural entre o universo demoníaco e a cura médica associada aos saberes universitários. A medicina procurava desvalorizar o conhecimento terapêutico popular, distinguindo os procedimentos “científicos” das crenças consideradas “supersticiosas”.

Gradualmente, a medicina oficial foi ganhando força. Algumas medidas foram decisivas para que isso acontecesse. Desde 1826, D. Pedro I já havia concedido o monopólio dos diplomas em cirurgia às escolas médico-cirúrgicas do Rio e da Bahia. Em 1828, foi extinta a Fisicatura-mor, órgão do governo responsável pela fiscalização sanitária e regulamentação das artes terapêuticas. Sangradores e curandeiros foram definitivamente postos na ilegalidade. Em 1832, as duas escolas médico-cirúrgicas, que datavam de 1808, tornaram-se Faculdades de Medicina. Finalmente, em 1850, foi criada a Junta Central de Higiene Pública, logo após a primeira epidemia de febre amarela. Mas boa parte dessas medidas era “para inglês ver”, e existiam de sobra vendedores ambulantes de remédios secretos na corte ou nas províncias.

A população ainda não associava competência terapêutica aos diplomas oficiais. As autoridades, por sua vez, faziam vista grossa aos anúncios que ofereciam curas imediatas para os mais diversos males, como pernas inchadas, cancros, carbúnculos (um tipo de infecção grave), moléstias dos olhos, surdez, escrófulas (forma de tuberculose), embriaguez e morfeia (hanseníase).

Em um artigo publicado no periódico Archivo Médico Brasileiro em 1848, seu autor atestava que, na Corte, a cura da bebedeira era monopólio dos curandeiros. Uma “velha do Castelo” administrava um remédio composto de urina de gato e assafétida (um tipo de planta), e um morador da Prainha indicava à sua clientela negra uma infusão com “fedorenta”, seguida de uma purga com aloés (planta) para curar o vício da cachaça.

O uso dos remédios prescritos por médicos ou por curandeiros indicava a que camada da sociedade o cliente pertencia. O acesso aos produtos das farmácias, boticas e drogarias, muitos deles importados, eram quase sempre uma prerrogativa dos brancos ricos. A imensa população de pobres e escravos contava com remédios caseiros, fórmulas feitas com ervas nacionais e outros produtos recomendados ou administrados por curandeiros, sangradores e barbeiros – estes, além dos cortes de cabelo e de barbas, praticavam sangrias, aplicavam ventosas, sanguessugas, faziam curativos e arrancavam dentes. As receitas utilizadas por esses profissionais eram desprezadas pelos “civilizados”, por serem consideradas indignas de gente fina ou delicada. No Diário de Pernambuco, em 1837, a famosa coluna do “Carapuceiro” ridicularizava as ações terapêuticas de “negros boçais”, “caboclos estúpidos” e “velhas comadres”.

A repressão aos curandeiros, antes tolerados, recrudesceu a partir da década de 1870, quando o poder público ampliou o cerco às práticas e concepções populares de cura nos principais centros urbanos. A lei passou a ser aplicada com mais rigor, principalmente na capital do Império. O Código Penal de 1890, da nascente República, embora garantisse a liberdade de consciência e culto, sancionava a perseguição aos terapeutas populares, criminalizando as práticas do espiritismo, da magia, do uso de talismãs e das cartomancias quando empregadas para a cura de moléstias. O exercício do ofício de curandeiro também era formalmente proibido e estava sujeito a penas de prisão e multa.

As associações médicas de grande prestígio, como a Academia Nacional de Medicina e a Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro, influíram na elaboração desses dispositivos legais. Elas reivindicaram o monopólio da assistência médica para os doutores diplomados e associaram as práticas terapêuticas populares à fraude e ao charlatanismo. Ao longo dos séculos, o saber científico foi ganhando cada vez mais terreno. Hoje, é muito mais comum uma pessoa confiar em um bom antibiótico do que recorrer a um feitiço para acabar com uma infecção.

Flavio Coelho Edler é pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz e autor da tese “A constituição da Medicina Tropical no Brasil oitocentista: da Climatologia à Parasitologia Médica” (Uerj, 1999).


Saiba Mais - Bibliografia

CHALHOUB, Sidney. Cidade Febril. Cortiços e epidemias na corte imperial. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

GIUMBELLI, Emerson. O cuidado dos mortos: uma história de condenação e legitimação do espiritismo. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 1997.

Revista de História da Biblioteca Nacional

Pronto-socorro colonial - A Igreja se rende aos índios



Os jesuítas tentaram, mas não resistiram às plantas medicinais utilizadas pelos índios da Província do Paraguai

Eliane Cristina Deckmann Fleck
O primeiro remédio desenvolvido no Brasil a partir da flora nacional só chegou ao mercado em 2005. É um anti-inflamatório derivado da erva-baleeira, planta nativa da Mata Atlântica que havia séculos era usada pelos índios com o mesmo objetivo. Se o potencial dessas plantas ainda é pouco explorado hoje, era totalmente ignorado pelos primeiros jesuítas que chegaram à América portuguesa. Ao assumirem o papel de médicos nos povoados que fundaram, esses religiosos buscaram tratar as doenças com os métodos e remédios da metrópole. Mas, aos poucos, perceberam que a farmacopeia indígena seria mais útil do que imaginavam.  

O poder de observação também fez com que os jesuítas adotassem outras práticas que hoje parecem muito óbvias, como o isolamento de doentes, o enterro adequado dos mortos e a limpeza das enfermarias e hospitais. Eles investiram ainda no treinamento de enfermeiros e fabricaram instrumentos cirúrgicos, mas não abandonaram as práticas mágico-rituais de cura.

Apesar de a Igreja Católica não considerar o alívio aos doentes como uma atividade de religiosos, os jesuítas tinham desde 1576 uma autorização do papa Gregório XIII para praticar a medicina em regiões onde faltassem médicos. Os noviços, por exemplo, eram obrigados a fazer estágios em hospitais durante um mês. Para tratar as doenças, a medicina praticada na Europa naquele período recorria a métodos como a purga e a sangria, além de unguentos mercuriais (compostos de mercúrio, sebo e banha, que eram usados para curar úlceras venéreas, especialmente a sífilis), pó de unicórnio (pó extraído, presumidamente, do chifre de unicórnio e que curava feridas), bezoar (pedra ou nódulo calcário que era usado como antídoto para venenos) e bebidas feitas à base de vinho e azeite.
Ao chegarem à Província Jesuítica do Paraguai – região que se estendia entre o Brasil e o Peru, até o Rio da Prata e o Oceano Atlântico –, os religiosos não tiveram acesso fácil a esses remédios tradicionais.  Mesmo assim, principalmente nas primeiras décadas do século XVII, recusaram-se a usar as ervas, folhas, resinas e bálsamos adotados pelos indígenas, condenando os métodos de cura empregados pelos xamãs, como a sucção e a escarificação (pequenas incisões).

Entre os recursos usados pelos jesuítas para driblar a falta de remédios ocidentais estavam as terapias mágico-rituais: a administração dos sacramentos, o licor de São Nicolau – um óleo associado às relíquias desse santo –,  a água benta e o azeite benzido com a invocação de nomes de santos. Esses “remédios” eram utilizados em situações como picadas de cobras, mal dos olhos, dores musculares e até contra doenças como coqueluche, lepra, varíola e sarampo, que atingiam os indígenas. Alguns padres chegaram a afirmar que haviam conseguido curas milagrosas por meio do batismo e da bênção. “Os indígenas dizem que, quando o padre lhes põe a mão na cabeça, sentem-se curados”, relatou o religioso Marcial de Lorenzana em carta de junho de 1610.

Os jesuítas não ficaram só na reza, e partiram para experiências com as plantas locais. Em 1626, o padre Juan de Salas preparou um xarope contra uma “enfermidade de catarro” que atingiu quase todo um povoado, curando alguns índios. Outro religioso observou que o agrião, planta rica em ácido oxálico, provocou melhora em indígenas que sofriam de disenteria. Nos anos 1630, já havia notícias de boticas – o equivalente às farmácias da época – nas quais podiam ser encontrados produtos como águas simples e espirituosas (águas florais e destiladas), infusões, xaropes, bálsamos e sais preparados no próprio povoado.

Em 1695, o padre Antônio Sepp tentou utilizar a técnica europeia da sangria para aliviar um surto de varíola hemorrágica na redução – povoado jesuíta – de Nossa Senhora da Fé, no atual estado do Mato Grosso do Sul. Encarregou músicos e ferreiros da fabricação de instrumentos para isso, mas admitiu que o uso de “facas, pregos e ossos pontiagudos” nas sangrias era pouco eficiente e que os métodos europeus eram impotentes nesse caso. Para Sepp, só seria possível curar os doentes com o uso de “remédios caseiros” e de outros “próprios da farmacopeia indígena”, aliados a uma dieta de suco de limão e água fresca com mel.   

Exemplos como esses mostram que foi a necessidade que fez diminuir a resistência dos jesuítas aos “remédios locais”. O que mais se lê em suas cartas é que “faltava tudo” na Província do Paraguai. Carne – “alimento substancioso que fortalece os enfermos” – era artigo raro. “Fora raízes de totora (espécie de junco comestível) e pescado, não existem outros alimentos. Os mosquitos são sem conta (...) Nem de dia, nem de noite deixam sossegar os homens (...) Certas vezes, passo um pouco de papa de milho por não haver outra coisa”, contou o padre Marcial de Lorenzana em 1610.

Às vezes, devido às pragas e secas, não havia o que comer, como relatou um religioso da redução de Santa Maria do Iguaçu (no oeste do atual estado do Paraná), o que deixava os habitantes dos povoados fracos e sujeitos a doenças. A fome e a saúde precária dos índios preocupavam os padres, porque atrapalhavam seus planos de convertê-los ao cristianismo. Os religiosos acabaram percebendo que a melhor maneira de conquistar a confiança dos índios era conseguir curá-los e arranjar algo para eles comerem. “Este meio tem sido o melhor para domesticar os indígenas, sobretudo os mais novos”, confirmou o padre Nicolas Mastrillo Durán em carta da década de 1620.

Assim como o uso das ervas tradicionais indígenas, o isolamento dos doentes só foi adotado após muita observação dos padres jesuítas. Eles perceberam que os jovens encarregados de atender os enfermos eram contagiados e morriam. Foi durante uma epidemia de sarampo e outra de diarreia que o religioso Jerónimo Porcel, segundo registro de 1638, providenciou o isolamento dos doentes em um hospital improvisado, em que eram assistidos por indígenas membros de congregações e irmandades, também responsáveis pela limpeza das salas e dos instrumentos cirúrgicos.

Em outra carta, de 1747, o padre José Cardiel conta que durante uma epidemia de varíola foram construídas duas cabanas bem longe da missão de Nossa Senhora do Pilar (instalada junto aos índios pampas) para que funcionassem como enfermarias de um hospital. Uma delas destinava-se aos que apresentavam alguns sintomas e a outra, aos que já estavam em estado adiantado da doença.

Um costume europeu que foi abandonado nos povoados missioneiros – por uma questão de higiene – era o de enterrar os mortos no interior das igrejas. Para esta finalidade, foram construídos cemitérios. Durante uma epidemia de sarampo, o padre Cardiel comentou que, para que fosse conservada a limpeza e evitado o mau cheiro no templo, somente os membros da alta hierarquia da Igreja poderiam ser enterrados no seu interior. Eles deviam ser colocados em caixões a uma profundidade mínima de 1,5 metro. Além disso, os pisos das igrejas passaram a ser ladrilhados, porque os padres observaram que o chão de pedra provocava muita umidade no inverno tropical e os índios acabavam adoecendo por causa da pouca roupa que usavam.

Apesar do êxito de algumas experiências e da observação cada vez maior da natureza, procedimentos mágico-rituais continuaram sendo postos em prática. Isto pode ser constatado nas preces e procissões – seguidas de autoflagelação e confissões – que alguns padres adotaram durante uma epidemia de varíola. Outro exemplo foi relatado pelo padre Cardiel: religiosos da região do Rio da Prata constataram que muitas indígenas grávidas que haviam contraído varíola morriam um pouco antes do parto, sem que seus bebês fossem batizados. Preocupado em garantir o batismo aos que estavam por nascer – e a consequente salvação de suas almas –, um dos missionários teria oferecido às mulheres “alguns goles de vinho com pimenta moída” – uma mistura que podia provocar o aborto – para apressar o parto e, assim, batizar os bebês antes de sua morte. Este procedimento, ao ser adotado em várias missões, teria, segundo Cardiel, provocado um acalorado debate entre doutores da Universidade de Córdoba, que o consideraram lícito por causa de seu “santo fim”.
Experiências feitas com plantas medicinais nativas, providências como o isolamento de doentes, o enterro adequado e a assepsia dos ambientes das enfermarias e hospitais, associadas à manutenção de práticas mágico-rituais tradicionais, parecem mostrar que os jesuítas não deixaram de lado seu maior objetivo: garantir a saúde das almas e dos corpos daqueles que buscavam converter.

Eliane Cristina Deckmann Fleck é professora da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), e autora da Tese "Sentir, Adoecer e Morrer: Sensibilidade e Devoção no Discurso Missionário Jesuítico (século XVII)" (PUC-RS, 1999). 


Saiba Mais - Bibliografia

ALMEIDA, Carla Berenice Starling de. Medicina Mestiça.  São Paulo: Annablume, 2010.

CARNEIRO, Henrique. Filtros, mezinhas e Triagas: as drogas no mundo moderno. São Paulo: Xamã, 1994.

EDLER, Flávio Coelho. Boticas e Pharmacias - Uma História Ilustrada da Farmácia no Brasil. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2006.

RIBEIRO, Márcia Moisés. A Ciência dos Trópicos. A Arte Médica no Brasil do século XVIII. São Paulo: Hucitec, 1997.

Revista de História da Biblioteca Nacional

sexta-feira, 27 de julho de 2012

História da Cirurgia


Como eram feitas as cirurgias no passado

Serrar a perna sem anestesia, instrumentos com o sangue de outros pacientes e experiências mal-sucedidas faziam com que a cirurgia fosse temida como a morte no passado, conta o inglês Richard Hollingham

Tiago Mali


Sua mãe, enfermeira, sempre lhe disse: desconfie dos cirurgiões. O escritor inglês Richard Hollingham seguiu à risca os conselhos e descobriu em arquivos guardados nos porões de Londres histórias do lado obscuro da prática desses profissionais, quando a falta de higiene e de anestesia tornavam qualquer operação uma situação arriscadíssima. Entre picadores de gelo usados para furar o cérebro e corações de pessoas vivas tomados “de aluguel”, o jornalista da BBC conta na entrevista abaixo algumas das histórias impressionantes que encontrou durante sua pesquisa para seu livro “Sangue e Entranhas, A Assustadora História da Cirurgia”.


* O que mais o surpreendeu na pesquisa da história da cirurgia?
É chocante ver como, freqüentemente, os cirurgiões não tinham a menor ideia do que estavam fazendo e, mesmo assim, as pessoas confiavam neles. Se você for operado hoje, a não ser que seja uma cirurgia pioneira, você tem 99% de chance de não ter nenhuma complicação. Antes, era o oposto. Havia uma certa arrogância em muitos dos cirurgiões do passado que os levavam a conduzir procedimentos sem pensar nas consequências. 

* Você pode citar exemplos dessa arrogância levou a erros?
O exemplo clássico de é Walter Freeman, que desenvolveu a operação de lobotomia [cirurgia de remoção de partes do cérebro que se acreditava curar a loucura]. Ele usou um número muito pequeno de evidências que esse tipo de operação poderia funcionar com loucos agressivos — talvez isso até funcionasse em poucos casos. Mesmo sem uma base confiável, fazia várias operações. Freeman perfurava um buraco, sem assepsia, na cabeça da pessoa e retirava partes na frente do cérebro. Para agilizar esse processo, desenvolveu uma técnica muito pior, a lobotomia transorbital. Chegou a fazer 25 operações em um dia enfiando um picador de gelo no topo do globo ocular, e fazendo que ele passasse por um osso bem fino até chegar ao cérebro, que seria lesionado. É chocante que ele achasse que isso funcionava e mais chocante ainda que as pessoas deixaram isso acontecer.

Editora Globo
O médico Walter Freeman fazendo uma lobotomia pelo globo ocular com o objetivo de curar doenças psiquiátricas // Reprodução
* Havia menos cuidado que hoje para fazer experimentos cirúrgicos?
A história da cirurgia é cheia de exemplos em que cirurgiões testaram no escuro para ver o que acontecia. Agora não é mais o caso, com o sistema de regulamentação moderna que temos no mundo. 

* Quais foram os mais perigosos experimentos de cirurgiões?
É importante ressaltar que, na imensa maioria dos casos, os experimentos bizarros eram feitos como última alternativa, numa tentativa desesperada de salvar alguém que já iria morrer. Um desses casos foi a técnica de circulação cruzada. Antes da invenção da máquina coração-pulmão [que mantém a circulação e oxigenação do sangue fora do coração quando o órgão está sendo operado]. Tínhamos crianças doentes com um buraco ou mal funcionamento de veias no coração. Não havia forma de tratá-los, estavam condenadas a morrer. Se você tivesse qualquer chance de tratar uma pessoa assim, você deveria tentar. Foi o que fez o cirurgião americano Walton Lillehei (1918-1999). Para continuar filtrando o sangue durante uma cirurgia cardíaca, ele conectava as veias do paciente no coração de uma outra pessoa saudável, liberando o órgão lesionado para que fosse operado. O problema, é que você pode matar o paciente e a pessoa saudável. Ainda assim, na época, foi uma forma de salvar as vidas de crianças desesperadamente doentes e, em muitos casos, funcionou.


* Qual era o significado de ser operado antigamente? 

No século 17, 18 e na maior parte do 19 você só era operado em situações extremas, era o último recurso. A chance de morrer era gigantesca. A razão mais comum para alguém passar por uma cirurgia era a amputação. Era necessária quando havia fratura exposta, porque o osso ficava de fora e causava infecção, a perna gangrenava e a pessoa morria. A opção é cortar uma parte da perna. Mas isso era feito sem anestésicos e sem assepsia. Dependendo da habilidade do cirurgião, era morte na certa. O período mais perigoso da cirurgia foi entre o desenvolvimento da anestesia (1846) e a invenção de antissépticos (final do século 19 e começo do século 20). Quando a cirurgia se tornou sem dor, os cirurgiões ganharam a oportunidade de manter o corpo do paciente aberto por mais tempo, para curar mais problemas. Só que muito mais pessoas morreram, já que o período que o corpo era exposto a uma infecção aumentava e ainda não havia um entendimento entre os médicos da importância da limpeza e do uso de substâncias que matavam os microorganismos que causavam infecções. 

* Quão precária era a higiene?
Era chocante. Não se sabia de microorganismos. As pessoas achavam que havia algum miasma, algo no ar que causava infecção. Até onde os cirurgiões sabiam, não importava realmente quão sujo algo estava porque não havia razão para não estar sujo. Havia cirurgiões que reaproveitavam bandagens e emplastros sujos de sangue e pus em outros pacientes. Por que não? Não se sabia de razão para que isso não fosse feito. Nada era esterilizado. Os bons cirurgiões trabalhavam bem rapidamente, o que minimizava o risco de infecção, mas essa não era a razão pela qual eles trabalhavam rapidamente. Faziam isso para minimizar o sofrimento do paciente, já que não havia anestesia. Os locais de operação eram encardidos, extremamente sujos. Os cirurgiões tiravam roupas limpas com as quais vinham das ruas para colocar um jaleco sujo. Você tinha uma sala cheia de pessoas respirando sobre o paciente, sangue e sujeira no chão. 

* Os pacientes tentavam fugir das cirurgias?
Os principais cirurgiões vitorianos tinham porteiros que transportariam os pacientes de uma ala do hospital para a sala de cirurgia. Durante o transporte havia seguranças acompanhando a maca para impedir que o paciente escapasse. Muitos ajudantes também tinham a função de segurar o paciente na mesa de cirurgia para que ele não se mexesse muito quando fosse se debater. Se você estivesse numa mesa cirúrgica na época, veria uma série de estudantes olhando para você e te segurando enquanto o cirurgião, sem anestesia serrava a sua perna. Era certamente uma experiência horrível. 
Revista Galileu

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Medicina versus magia

Remédios de comadres
Nos tempos coloniais, a população confiava mais em curas mágicas do que nos médicos diplomados
Flavio Coelho Edler

A medicina e a feitiçaria já estiveram muito mais próximas do que se pode imaginar. Durante o Brasil Colônia até o século XIX, a produção de remédios com o uso de animais ligados ao universo mágico, como o morcego e o cão negro, não era exclusividade de curandeiros. Médicos e boticários também receitavam substâncias cujo significado difere muito do que hoje entendemos por ciência, utilizando até mesmo cadáveres humanos em suas fórmulas.

Naquela época, a quantidade de médicos no país era mínima, mas não faltavam representantes das mais variadas ocupações para aplicar todo tipo de feitiços, como barbeiros, sangradores e mezinheiros (que aplica mezinhas, isto é, medicamentos caseiros). Esses terapeutas populares tratavam de doenças e de problemas cirúrgicos com ervas medicinais, amuletos e práticas como o catimbó – culto de possessão, de origem indígena, de caráter mágico-curativo – e o calundu, designação genérica de um ritual associado a danças e cantos coletivos, em que ocorria a invocação de espíritos, adivinhações e curas mágicas, de origem africana, com elementos do catolicismo.

Os físicos – como eram então chamados os médicos – e cirurgiões não tinham uma posição de relevo na sociedade. Esse cenário só mudou a partir da metade do século XVIII, quando, já formados em universidades europeias e membros de academias literárias e científicas, eles passaram a ocupar uma posição mais privilegiada.

Com prestígio muito abaixo do que possuem hoje, doutores, cirurgiões e boticários diplomados não reconheciam a proximidade de sua profissão com a feitiçaria. Pelo contrário, esforçavam-se para estabelecer a diferença entre os dois domínios, reivindicando ao governo a restrição e a regulamentação do ofício dos curandeiros. Para isso, contavam com o apoio da Igreja e das Ordenações do Reino. A Igreja Católica estabelecia a fronteira cultural entre o universo demoníaco e a cura médica associada aos saberes universitários. A medicina procurava desvalorizar o conhecimento terapêutico popular, distinguindo os procedimentos “científicos” das crenças consideradas “supersticiosas”.

Gradualmente, a medicina oficial foi ganhando força. Algumas medidas foram decisivas para que isso acontecesse. Desde 1826, D. Pedro I já havia concedido o monopólio dos diplomas em cirurgia às escolas médico-cirúrgicas do Rio e da Bahia. Em 1828, foi extinta a Fisicatura-mor, órgão do governo responsável pela fiscalização sanitária e regulamentação das artes terapêuticas. Sangradores e curandeiros foram definitivamente postos na ilegalidade. Em 1832, as duas escolas médico-cirúrgicas, que datavam de 1808, tornaram-se Faculdades de Medicina. Finalmente, em 1850, foi criada a Junta Central de Higiene Pública, logo após a primeira epidemia de febre amarela. Mas boa parte dessas medidas era “para inglês ver”, e existiam de sobra vendedores ambulantes de remédios secretos na corte ou nas províncias.

A população ainda não associava competência terapêutica aos diplomas oficiais. As autoridades, por sua vez, faziam vista grossa aos anúncios que ofereciam curas imediatas para os mais diversos males, como pernas inchadas, cancros, carbúnculos (um tipo de infecção grave), moléstias dos olhos, surdez, escrófulas (forma de tuberculose), embriaguez e morfeia (hanseníase).

Em um artigo publicado no periódico Archivo Médico Brasileiro em 1848, seu autor atestava que, na Corte, a cura da bebedeira era monopólio dos curandeiros. Uma “velha do Castelo” administrava um remédio composto de urina de gato e assafétida (um tipo de planta), e um morador da Prainha indicava à sua clientela negra uma infusão com “fedorenta”, seguida de uma purga com aloés (planta) para curar o vício da cachaça.

O uso dos remédios prescritos por médicos ou por curandeiros indicava a que camada da sociedade o cliente pertencia. O acesso aos produtos das farmácias, boticas e drogarias, muitos deles importados, eram quase sempre uma prerrogativa dos brancos ricos. A imensa população de pobres e escravos contava com remédios caseiros, fórmulas feitas com ervas nacionais e outros produtos recomendados ou administrados por curandeiros, sangradores e barbeiros – estes, além dos cortes de cabelo e de barbas, praticavam sangrias, aplicavam ventosas, sanguessugas, faziam curativos e arrancavam dentes. As receitas utilizadas por esses profissionais eram desprezadas pelos “civilizados”, por serem consideradas indignas de gente fina ou delicada. No Diário de Pernambuco, em 1837, a famosa coluna do “Carapuceiro” ridicularizava as ações terapêuticas de “negros boçais”, “caboclos estúpidos” e “velhas comadres”.

A repressão aos curandeiros, antes tolerados, recrudesceu a partir da década de 1870, quando o poder público ampliou o cerco às práticas e concepções populares de cura nos principais centros urbanos. A lei passou a ser aplicada com mais rigor, principalmente na capital do Império. O Código Penal de 1890, da nascente República, embora garantisse a liberdade de consciência e culto, sancionava a perseguição aos terapeutas populares, criminalizando as práticas do espiritismo, da magia, do uso de talismãs e das cartomancias quando empregadas para a cura de moléstias. O exercício do ofício de curandeiro também era formalmente proibido e estava sujeito a penas de prisão e multa.

As associações médicas de grande prestígio, como a Academia Nacional de Medicina e a Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro, influíram na elaboração desses dispositivos legais. Elas reivindicaram o monopólio da assistência médica para os doutores diplomados e associaram as práticas terapêuticas populares à fraude e ao charlatanismo. Ao longo dos séculos, o saber científico foi ganhando cada vez mais terreno. Hoje, é muito mais comum uma pessoa confiar em um bom antibiótico do que recorrer a um feitiço para acabar com uma infecção.

Flavio Coelho Edler é pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz e autor da tese “A constituição da Medicina Tropical no Brasil oitocentista: da Climatologia à Parasitologia Médica” (Uerj, 1999).


Saiba Mais - Bibliografia

CHALHOUB, Sidney. Cidade Febril. Cortiços e epidemias na corte imperial. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

GIUMBELLI, Emerson. O cuidado dos mortos: uma história de condenação e legitimação do espiritismo. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 1997.

Revista de História da Biblioteca Nacional

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Leonardo da Vinci: A Lição de Anatomia


Desde 1487, Leonardo começou a dissecar corpos na implementação proposta de um grande tratado sobre a anatomia, ele quer muito ilustrado. Não só está interessado no aspecto dos músculos e órgãos, égement tentando entender o funcionamento e fez algumas descobertas importantes. O pintor, ele está examinando em especial os músculos ea circulação. mestre anatômicas Muitos sobreviveram.

" Nas escolas de médicos anatomia, ele dissecou os cadáveres de criminosos, indiferente ao e repugnante aspectos desumanos do presente estudo, apenas ansiosa para saber como ele poderia representar o mais adequado em sua pintura os músculos diferentes e Juntas, a sua extensão e flexão .
Paolo Giovio, Vida de Leonardo da Vinci (circa 1527)

Como a maioria dos artistas do Renascimento italiano, Leonardo da Vinci considera a representação da figura humana como um dos objetos essenciais do art. No entanto, para descrever completamente um corpo humano, ele deve indicar em sua aparência externa, mas também compreender o seu funcionamento interno. Para atingir esse objetivo, assim como Masaccio (1401-1428), Donatello (1386-1466), Antonio Pollaiuolo (1432-1498) e Michelangelo (1475-1564), Leonard observa atentamente esculturas antigas e contemporâneas e esqueletos. Ele também se dedica a dissecção. Segundo uma nota que datam dos últimos anos de sua vida, ele dissecou mais de vinte mortos. As dissecações primeiro são realizadas em Milão, de cerca de 1487, com a idéia de escrever um tratado geral sobre a anatomia, organizado pelo crescimento progressivo do corpo humano, desde a sua infância no útero com a idade adultos.

2Etude d'embryons, Windsor
Estudo anatômico do feto no útero, por volta de 1510, caneta, lave
giz marrom e vermelho, 30,4 x 22 cm, Windsor Castle, Royal Library
(RL19102r)

Entre 1510 e 1511, da Universidade de Pavia, Leonard continua este negócio, incentivado por Marcantonio della Torre, que o introduziu em A utilidade das partes do corpo a partir do grego Galeno (2 º século dC), os escritos de "iraniano Avicena (10 º -11 ºséculos) e curto medieval manual dissecção Anothomia , o italiano Mondino de 'Liuzzi (1316). Finalmente, em Roma, entre 1513 e 1516, o professor participa do hospital Santo Spirito in Sassia, onde dirigiu várias autópsias. O Tratado de anatomia nunca surgiu, centenas de autógrafos, desenhos, muitas vezes anotadas as explicações e lendas no entanto ter sobrevivido. Para a maioria deles são preservados em três manuscritos da coleção real Inglês na Windsor.

1Etudes anatomiques de l'épaule, Windsor
Estudos anatômicos da musculatura do pescoço, ombros e
peito, por volta de 1509-1510, caneta e lavagem marrom sobre giz preto, 28,9 x 19,8
cm, o Castelo de Windsor, Royal Library (RL19001v)

Algumas dessas folhas refletem grandes descobertas : Leonard reconhece o papel do coração na circulação sanguínea (" uma invenção ", devido a William Harvey a 17 º século), identifica também a existência de quatro câmaras do coração como Vesalius e Descartes haverá sempre apenas dois. No entanto, não é por causa desses resultados, ainda que por vezes espectaculares, o trabalho de Leonardo no campo da anatomia é agora considerado como um precursor. Em primeiro lugar, a importância que atribui à ilustração dos fenômenos observados é inédita: a imagem foi previamente raramente ocupou muito espaço para que na ciência da anatomia, uma abordagem que tem crescido continuamente desde . Além disso, a ambição dos florentinos é ir mais além do que seus contemporâneos, especialmente na representação do movimento. Isto é provavelmente porque os estudos anatômicos de Leonardo são todos topográficos e fisiológicos : o mestre registra o aparecimento de diferentes partes do corpo, mas pede também, e sobretudo, para compreender o funcionamento dos músculos e órgãos.

3Etudes de jambes d'homme et de cheval, Windsor
Estudos anatômicos da musculatura da perna e comparação
este músculo em humanos e cavalos, cerca de 1507, caneta, lave marrom
e giz vermelho, 28,2 x 20,4 centímetros Windsor Castle, Royal Library (RL12625r)

Por exemplo, o estudo do músculo é sempre em relação às condições de movimento ea força de caráter. por vários desenhos, mas também notas Illustrated, como aquela em que ele diz : " Você quer dizer que o bom funcionamento dos membros, ou seja, no ato de levantar-se depois de deitado, em movimento, correndo e pulando atitudes diversas, levantar e carregar pesos pesados, jogar objetos fora e natação. E assim, para cada movimento, você mostra o que os membros e determinar quais músculos, incluindo o jogo de braços . " Todos os elementos são considerados separadamente, em seguida, reconstruir o corpo inteiro, às vezes, por analogia, a substituição de órgãos de animais para os órgãos humanos não pode ser conhecido diretamente : o estudo do feto humano é enriquecido por que do útero de bovinos, as pernas do homem confrontado com as do cavalo. Em estudos anatômicos de Leonardo, no entanto, tão inovador, os erros são muitos, especialmente porque os desenhos não são feitas diretamente durante a dissecação, mas no final do workshop, a partir de observações gravadas em um caso específico. Em suma, também neste domínio, como na maioria das áreas de investigação que Leonardo estava interessado, a arte é " coisa mental ", é sempre carregado de uma reconstrução da mente.

Fagnart Laure é FNRS pesquisador na Hhistoire Departamento de Arte e Tecnologia da Arte (Modern Times). Ela lançou recentemente Da Vinci, na França. Coleções e colecionadores, XV e XVII- th séculos

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