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sexta-feira, 12 de junho de 2009

Dossiê: Povos do mar - As fantásticas (e verdadeiras) aventuras de Marco Polo

A narrativa de uma viagem de 24 anos ao longínquo Oriente, que encantou a muitos durante séculos, teve sua autenticidade confirmada no século XIX
por Jacques Brosse

© AKG IMAGES / IPRESS

Festa na corte do imperador Kublai Khan, que foi visitado por Marco Polo; na página ao lado, o porto de Veneza, início de sua viagem

Quando Marco Polo voltou a Veneza em 1295, seus compatriotas não o reconheceram – o que não foi uma surpresa, já que ele os havia deixado 24 anos antes, quando tinha apenas 17. Foi isso, sem dúvida, que inspirou o relato exagerado, quase lendário, narrado por Giovanni Battista Ramusio (1485-1557), autor que escreveu sobre os Polo, três séculos depois. Marco, Niccolo, seu pai, e Matteo, seu tio, teriam chegado em casa como peregrinos, vestidos com trajes miseráveis.

Tiveram, dificuldade em se fazer reconhecer pelos parentes, que, ocupavam a casa, pensando que estavam mortos. Os três viajantes convidaram, então, todos os seus aparentados para um banquete, no qual surgiram vestidos com hábitos de cetim violeta, logo trocados por outros de seda estampada, ainda mais preciosos, antes de retomarem seus hábitos à moda veneziana. Em seguida, Marco Polo trouxe os trapos com que estavam vestidos quando de sua chegada a Veneza; descosturou-lhes a barra, fazendo tombar “uma grande quantidade de jóias de um valor inestimável, rubis, safiras, granadas, diamantes e esmeraldas”. Imediatamente, sua família “lhes devotou sinais de estima e de respeito”.

Apesar de se tratar apenas de um apólogo, essa cena reflete a emoção que tomou conta dos venezianos ao rever esses três homens, que há tempos se pensava que estavam mortos, e contemplar as riquezas trazidas de países tão longínqüos, dos quais nunca tinham ouvido falar.

Muitos curiosos dirigiam-se à casa dos Polo, em uma pequena praça perto da ponte do Rialto. Com bastante complacência, Marco relatava suas extraordinárias aventuras e descrevia os países que tinha percorrido. Como bom homem de negócios veneziano, avaliava suas enormes riquezas em milhões de moedas de ouro.



IMAGENS: BIBLIOTECA NACIONAL, PARIS

O papa Gregório X entrega documentos aos Polo, destinados ao imperador Kublai Khan; à direita, viajantes venezianos negociam no porto de Ormuz

No início do século XIII, o império veneziano tinha crescido de forma prodigiosa, tirando proveito da Quarta Cruzada, e o doge Enrico Dandolo (1105-1205) havia se autoproclamado “senhor de um quarto e meio do Império Romano”. Até mesmo o Extremo Oriente não era desconhecido pelos venezianos, pois suas galeras traziam de Alexandria carregamentos de especiarias vindos de Cantão, transportados por navios árabes até as costas do mar Vermelho. Entretanto, o ceticismo dos venezianos provinha dos relatos de Marco, dessas riquezas incríveis que, segundo ele, dispunha o soberano de Catai (era assim que ele chamava a China). Era inadmissível que esse estado bárbaro, cuja existência acabara de ser revelada, possuísse uma civilização bem mais evoluída que a européia. Enfim, havia suspeitas sobre as altas funções que Marco Polo assegurara ter exercido nesse império no fim do mundo.

Os Polo tinham regressado bastante ricos. Desde 1296, Marco Polo não hesitou em equipar uma galera de combate da qual se tornou comandante. Participou inclusive da batalha naval na qual, perto da ilha de Curzola, no Adriático, se enfrentaram as frotas veneziana e genovesa; os venezianos foram vencidos, e Marco Polo foi levado para o cativeiro em Gênova, onde ficaria por três anos.

Ali, conheceu Rustichello da Pisa, que não apenas se interessou apaixonadamente por suas histórias, mas se propôs a escrevê-las. Rustichello era um homem de letras. Escrevia em langue d’oil, ou seja, em francês provençal, que era a língua mais falada por aqueles que não empregavam o latim. Era um escritor conhecido, com vários livros, entre os quais uma grande compilação de romances da Távola Redonda. Apesar disso, contentou-se em colocar no papel o que dizia o narrador, afirmando: “Ele [Marco Polo] tinha escrito muito pouco das coisas de que se lembra hoje em dia [...] Agora, escreveu todas essas coisas por meio do senhor Rustichello, cidadão de Pisa, que esteve com ele na mesma torre fortificada de Gênova, em 1298 [...]” Entretanto, Rustichello era um “romancista”, autor de belas histórias lendárias, e essa circunstância bastava para criar em seus leitores uma dúvida sobre a veracidade de seus relatos. Sabe-se que ele cumpriu sua função e que o próprio Marco Polo revisara e completara seu texto, consultando a documentação que havia deixado em Veneza – para onde voltou em 1299 –, já que estavam mencionados acontecimentos aos quais ele só poderia ter tido acesso depois de sua libertação.

O que se sabe é que O livro das maravilhas, também conhecido como A descrição do mundo, foi em seu tempo um best-seller, fato testemunhado pela quantidade considerável de manuscritos que se conservaram até nossos dias. Todas as grandes bibliotecas européias possuem pelo menos um exemplar, ou mesmo dois, do século XIV ou do século XV. Entre as primeiras obras impressas, no final do século XV, existem várias edições do livro de Marco Polo. Mas foi justamente esse sucesso que prejudicou sua credibilidade – as aventuras maravilhosas atraíram um número muito grande de leitores que o viam como ficção. Se o livro inspirou contistas e poetas, jamais foi utilizado por sábios.



MUSEU NAVAL, GÊNOVA

Cristóvão Colombo: leitor de Marco Polo

Antes da primeira viagem de Niccolo e Matteo Polo (1260-1269), dois franciscanos tinham sido enviados à terra de Gêngis Khan (leia mais em História Viva, ed. 21) – frei Jean du Plan Carpin, em 1245, pelo papa Inocêncio IV, e Guillaume de Rusbrouck, pelo rei francês Luís IX, em 1253. Lá chegando, foram bem recebidos, mas o imperador não estava disposto a se converter ao cristianismo. Ao contrário, ele esperava que o papa e o rei da França se reconhecessem como seus vassalos. Sabemos que Kublai Khan, neto de Gêngis Khan, que reinava na China, preocupado em conhecer todas as religiões existentes, entregara uma carta aos irmãos Polo, em 1266, pedindo ao papa que lhe enviasse “cerca de 100 homens sábios para ensinar a doutrina cristã” – ele esperaria em vão.

Entretanto, em 1285, quando Marco, seu pai e seu tio se encontravam na China, Argun, sobrinho de Kublai, que governava a Pérsia, endereçara ao papa Honório IV uma carta propondo-lhe que atacassem em conjunto a Síria muçulmana e a dividissem entre si. Dois anos mais tarde, Argun enviaria ao Ocidente um monge cristão, nascido em Pequim, a fim de estabelecer uma aliança. Rabban Sauma visitaria Roma, Paris e Bordéus, mas sua missão acabaria se tornando inútil, pois as últimas bases fortes mantidas na Síria pelos cruzados acabavam de ser rendidas pelos sarracenos.

O relacionamento entre Roma e a China mongol não terminaria, entretanto. Em 1293, quando os Polo faziam o caminho de volta, um terceiro franciscano, Jean de Montecorvino (1246-1328), chegaria a Pequim. Bem recebido por Kublai, pôde até mesmo fundar uma igreja. Esta, contudo, não sobreviveu após a morte do religioso, em 1328. Marco Polo morreria quatro anos antes, em 8 ou 9 de janeiro de 1324, com 69 anos. Em sua agonia, segundo a crônica de Jacopo d’Aqui, Marco teria afirmado que todos os detalhes de seu livro eram exatos e que não tinha contado nem a metade do que havia visto.



IMAGENS: BIBLIOTECA NACIONAL, PARIS

A pesca de pérolas (à esq.) e homens com cabeça de animal: fragmentos de histórias que povoam o imaginário de Marco Polo

Com a queda, em 1368, da dinastia mongol dos Yuan, a China se fecharia, tornando impossível confirmar esses relatos até o século XVI, época em que os portugueses se instalaram em Macau e da viagem do jesuíta Matteo Ricci. Durante todo esse tempo, lia-se a obra de Marco Polo como entretenimento. Embora com esse enfoque, graças a ela se difundiu em toda a Europa a miragem das riquezas fabulosas do Extremo Oriente. Um dia, alguém quis vê-las. Curiosamente, foi um genovês o primeiro a utilizar A descrição do mundo para fins práticos. Existe ainda em Sevilha o exemplar de um resumo do livro de Marco Polo impresso em Antuérpia, em 1485, cujas margens estão recobertas de anotações feitas por Cristóvão Colombo; quase todas relacionadas a ouro, pedrarias, especiarias. Assim, quando ele parte de Palos em 3 de agosto de 1492, era Catai que desejava atingir pelo oeste, com o propósito de converter, enfim, o Grande Khan e persuadi-lo a marchar contra os turcos enquanto os exércitos cristãos, equipados graças ao ouro que seria trazido, iriam atacá-los pelo oeste. Mas a reputação de Colombo era, igualmente, falsa. Ele não foi um precursor, mas um retardatário, permanecendo assim até o fim. Quando soube que havia descoberto o Novo Mundo, não só se surpreendeu, mas se indignou. Ele nunca teve esse desejo. No ano de 1502, em sua última viagem, partiria mais uma vez à procura de um mar das Índias que até então não tinha atingido e, nas costas da América Central, acreditara ter descoberto Mangi (a China do sul), Ciamba (o Anam, atual Vietnam) e Lachac (a quase-ilha de Málaca, na Malásia), descritos por Marco Polo.

Apenas no século XIX, a obra de Marco Polo começaria a ser reconhecida por seu caráter científico, sendo alvo de edições críticas. Os estudiosos confrontaram-na com fontes chinesas e confirmaram o valor de suas informações. Restava reconstituir o itinerário seguido pelos Polo, o que foi feito por Paul Pelliot que, entre 1906 e 1908, exploraria a Ásia central e, particularmente, os oásis que marcavam as etapas da rota da seda. Então quase tudo que permanecia obscuro em A descrição do mundo tornou-se claro. Marco Polo, subitamente, passava de fantasista à pesquisador bem informado.

Moderno, efetivamente, por se tratar de um homem de negócios e administrador, ele era, todavia, um homem de seu século. Impregnado de sua ideologia, recolocava os dados empíricos a partir de uma concepção de mundo que, evidentemente, não é mais a nossa. Com isso, a reputação de modernista adquirida nos séculos XIX e XX tornou-se tão falsa quanto aquela que ele teve por muito tempo, a de um contador de histórias fantásticas. Mas não seria justamente esta ambigüidade que nos faz lê-lo hoje em dia com tamanho prazer?

Jacques Brosse é escritor, jornalista e pintor. Ganhador do Grande Prêmio de Literatura da Academia Francesa, escreveu, entre outros livros, L´homme dans lê bois (O homem na floresta, 1976).

Revista Historia Viva

Dossiê: Povos do mar - A onda vermelha do norte

Vindos da Escandinávia meridional, da costa da Alemanha e dos Países Baixos, os povos bárbaros se uniram para expulsar os romanos da Bretanha
por Jean-Yves Marin

© THE BRIDGEMAN ART LIBRARY / KEYSTONE

Elmo do período migratório viking, do século V, feito de ferro e bronze. Museu Histórico de Estocolmo

Jordanes, historiador godo, nos diz que “é da Ilha de Scanzia, que podemos chamar de fábrica de nações ou reservatório de povos, que os godos parecem ter saído (...)”. Essa Scanzia, a atual Escandinávia, era povoada por um grande número de nações. A maioria dos grupos, que participaram das migrações, era proveniente da Escandinávia meridional, outros da costa da Alemanha e dos Países Baixos. Suas tradições marítimas faziam com que estivessem em permanente contato e que começassem a investir juntos sobre a Bretanha, no final do século III, destruindo a autoridade de Roma na ilha.

Nesse “oceano germânico” que é o Báltico, emigrantes originários de povos inexoravelmente confundidos, começaram a expandir-se, tanto na direção leste quanto oeste. É muito difícil distingui-los uns dos outros, pois só os mais importantes, ou os que foram mais felizes na guerra, deixaram o nome na posteridade. O velho fantasma da coesão étnica foi espantado pelos fatos. Nada serve para procurar a origem de um grupo determinado, pois todos provêm de agrupamentos posteriores às migrações.

Um clã escolheu seguir um chefe de prestígio, tido como invencível, sem se preocupar com o lugar de onde viera. Esse fenômeno foi reforçado no noroeste da Europa por uma semelhança de línguas, tanto que os lingüistas chamaram de velho saxão e velho inglês uma espécie de matriz comum a toda uma era geográfica que englobava aquela área. Desde finais do século III, tornou-se claro o perigo que os francos e os saxões representavam para a parte setentrional do Império Romano. O mar do Norte estava a ponto de se tornar “germânico”, ou seja, ali, a potência romana estava mais ou menos ausente.

Foi nesse contexto que em março de 286 a Gália e a Bretanha insular (atual Grã-Bretanha) reuniram-se num único setor militar, cujo comando foi confiado a um homem de armas de origem bárbara, Caráusio. No início, sua autoridade limitava-se ao litoral da Gália e à ilha da Bretanha, mas em razão de vitórias obtidas rapidamente a partir daquele ano, Caráusio se impôs de tal maneira que governou durante uma década esse que chamamos o primeiro Estado britânico-gaulês. De imediato, ele tentou aumentar suas possessões continentais, sem deixar a Gália do Norte. Comportava-se como um verdadeiro césar romano. Em 289, o imperador Diocleciano enviou um exército comandado por Maximiano para enfrentá-lo, mas foi vencido durante uma batalha naval.

Poder restabelecido

Caráusio não foi reconhecido por Diocleciano; para marcar sua autoridade ele multiplicou as operações militares, até ser assassinado. Certos de sua inferioridade nesse campo, a fim de evitar uma nova batalha naval, os romanos, sob o comando de Constâncio, desembarcaram perto da ilha de Wight e restabeleceram o poder de Roma na região.

Durante a primeira metade do século IV, a Bretanha insular, que havia se tornado novamente romana, conheceu segurança e prosperidade relativas. Prontamente voltaram a eclodir guerras intestinas, o que enfraqueceu bastante o exército romano. A partir de 354, o perigo delineava-se mais uma vez: os francos e os saxões de um lado, os pictos e os escotos de outro, assediavam as zonas de domínio romano. No continente, as incursões bárbaras ameaçavam a Gália do norte, interrompendo as rotas de abastecimento. Apesar dos decididos e corajosos esforços do imperador Juliano, que em pessoa liderou o combate em todas as frentes do norte do Império, a situação se degradou. Quando de sua morte, em 365, ocorreu uma nova invasão dos alamanos na Gália, e os ataques bárbaros recomeçaram na Bretanha.

Em 367, os saxões, que até então só tinham empreendido algumas ações isoladas, atacaram em conjunto e acrescentaram suas investidas às dos pictos e dos escotos, provocando um desastre total: o exército romano foi derrotado às portas de Londres. A conjunção de forças bárbaras, de interesses contraditórios entre si mas determinadas a expulsar os romanos da ilha, tinha se revelado eficaz. No entanto, pela última vez os romanos conseguiram restabelecer o controle da situação. Valentiniano I reuniu às pressas suas melhores tropas, que desembarcaram em Richborough e marcharam sobre Londres.

A Bretanha romana foi reconquistada, e as fronteiras restauradas e reforçadas. Parece que a ação de piratas saxões que ameaçavam cortar relações com o continente foi considerada mais perigosa do que as investidas dos pictos ao norte e as dos escotos na Irlanda. O dispositivo de defesa da costa foi repensado em razão da terrível derrota de 367. Mas como a ilha da Bretanha ficava na periferia do Império, assim que o perigo se delineou no continente, sua defesa foi novamente negligenciada; as melhores tropas retomaram o caminho da Itália. Na Gália, as usurpações sucederam-se, até que Estilicão, novo senhor do Ocidente, reforçou mais uma vez os dispositivos defensivos ao fazer uma inspeção, em 396. Foi nesse contexto de relativa paz recuperada que houve a grande invasão de 406, na Gália: os germânicos passaram pelo Reno na direção de Mogúncia e, como resume de modo lapidar o historiador Lucien Musset, “tudo desmoronou”. Isolada do continente, a ilha da Bretanha conheceu sucessivamente três invasores, em alguns meses. Bem informados, os saxões precipitaram-se rumo à Bretanha insular para ali permanecer e criar um novo reino. O historiador grego Zózimo escreveu a esse respeito: “Os bretões, em recusa à dominação romana, viviam a seu próprio modo, sem obedecer às leis romanas”. Eles devastaram o país. Nas raras fortalezas onde ainda havia resistência, os pedidos de ajuda multiplicaram-se, mas era muito tarde. O Império já não tinha meios de intervir.

Em 410, Honório, impotente, respondeu aos bretões que eles mesmos deviam enfrentar o perigo saxão. O Império Romano não renunciou formalmente à Bretanha, mas dali em diante sua influência sobre a ilha terminaria. Somente o sudeste resistiu durante algum tempo, mas como a rota marítima da região do Pas-de-Calais (no extremo norte da atual França) estava praticamente interrompida, o último bastião mergulhou no isolamento.

Alguns vestígios da organização política romana permaneceram entre os bretões em luta contra os saxões, como menciona a obra que descreve a vida de São Germano de Auxerre, que foi à ilha em 419. Por meio dela, ficamos sabendo que os saxões faziam incursões até as portas de Londres. Por ocasião de uma segunda visita dele, entre 440 e 444, a situação parecia ainda mais precária. Vários sintomas indicam que em meados do século V teria acontecido a derrocada da administração. Definitivamente, eram os últimos contatos dos bretãos com o continente. - Tradução de Marly N. Peres

Jean-Yves Marin é curador do Museu da Normandia e especialista em arqueologia urbana.

Revista Historia Viva

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Dossiê: Povos do mar - Bandidos nada simpáticos

A literatura celebra os piratas desde a Antigüidade. Não é raro encontrarmos, em romances e poemas, piratas transformados em modelo de coragem. Mas a realidade é mais crua. Os saqueadores dos mares não eram coroinhas. Eram, sobretudo, ladrões sem fé e sem lei, que os Estados procuravam eliminar... quando não os recrutavam
por Michel Vergé-Franceschi

©GIRAUDON/KEYSTOCK – KEYSTONE

A mais tradicional maneira de executar os inimigos era obrigá-los a andar, com os olhos vedados, sobre uma prancha até cair no mar. Walking the plank, óleo sobre tela, de Howard Pyle, 1887

Na região do Caribe dos séculos XVI-XVIII, o flibusteiro era um pirata, um irmão da costa, um saqueador dos mares, produto de um conglomerado humano cosmopolita. Voltaire, em seu ensaio “Essai sur les moeurs”, escreve: A França só entrou nessa partilha [de Santo Domingo] com a Espanha pela audácia [...] de um povo novo que o acaso compôs de ingleses, bretões e, sobretudo, normandos. Eles foram denominados bucaneiros, flibusteiros. Esses marinheiros, revoltosos e desertores, seduzidos pelo clima das Antilhas, decidiram expulsar os bandos selvagens da parte norte de Santo Domingo, em vez de voltar às brumas do norte. Eles passaram a comer carne assada em fogo de lenha, cantando ao redor do fogo, e fazendo barulho à maneira dos caribenhos, isto é, fazendo boucan (barulho). No fim da primavera, os flibusteiros do mar das Antilhas caçavam os galeões espanhóis carregados de ouro e prata. A bordo de navios pequenos e rápidos, armados com poucos canhões lançadores de pedras, esperavam suas presas fumando tabaco. De surpresa, faziam a abordagem, geralmente em pares de amigos íntimos, donde veio o nome irmãos da costa. A arma branca era a preferida, a se acreditar na imagem do pirata com a faca entre os dentes. O canhão era supérfluo. Em 1696, um flibusteiro confiou ao padre Labat, um missionário francês que reuniu suas observações sobre a vida dos bucaneiros em Voyage aux îles de l’Amérique, que sua artilharia de seis minúsculos canhões era mais por cerimônia que por necessidade, já que eles só empregavam as duas peças de caça quando combatiam um barco pela frente ou por trás; seus fuzis bastavam para importunar o adversário até que seu capitão julgasse conveniente fazer a abordagem.

A tática do pirata do mar das Antilhas se resumia a uma única palavra: abordagem. O êxito dependia da determinação, ou melhor, da temeridade dos homens do navio. Numerosos, eles manejavam o sabre de abordagem e o punhal. Combatiam aos pares, porque sempre se juntavam em duplas e se chamavam, um ao outro, de matelot [marinheiros], sendo mattenoot aquele que compartilhava alternadamente a mesma rede que seu irmão. Vitoriosos, esses celibatários sem família faziam a festa, embebedavam-se à vontade de rum da Jamaica e partilhavam amigavelmente as mulheres indígenas ou pilhadas.


©BETTMANN/CORBIS – STOCK PHOTOS

Saque a galeão espanhol (nanquim). Sem butim, sem soldo: este era o lema do navio pirata

A pirataria é uma mitologia composta de ganhos espetaculares, de liberdade absoluta em locais insulares e encantadores. Por isso a perenidade da pirataria ou, melhor, das piratarias ao longo das eras, porque cada época engendrou seus candidatos a piratas: marinheiros e revoltosos, clandestinos e renegados, apátridas e flibusteiros, marginais e rebeldes. O fato de o pirata travar uma guerrilha sangrenta era quase ignorado. Embora a literatura celebre a pirataria desde a Antigüidade romana – o pirata é um dos personagens dos romances da época imperial: erigido, muitas vezes, em modelo, uma espécie de Robin Hood do mar, ele era mais facilmente encontrado nos livros de aventura do que na realidade. O pirata era uma pessoa má, um bandido, um marginal associado por razões pouco confessáveis a outros marginais – indisciplina, deserção, motim, crime, assassinato, rapina, a avidez de ganho. Com os outros marginais, formava uma sociedade, cuja hierarquia repousava na força, qualidade reconhecida por todos, por ser a única fonte do butim. Ele era astuto, feroz e carregava a inteligência do mal. Entretanto, essa sociedade, como os bandos e o meio social, possuía regras próprias, disciplina interna, chefe (como Olonnais, Morgan, Grammont) reconhecido por sua coragem, intrepidez e faro. O chefe era temido por sua ferocidade, e respeitado por seu senso de justiça, porque sabia repartir eqüitativamente as presas (Labat). Tudo isso em teoria, naturalmente, porque são numerosos os exemplos discordantes. Foi o que aconteceu depois do saque do Panamá. Os flibusteiros ficaram literalmente a ver navios quando Morgan fugiu com a maior parte do butim. Sem nenhum escrúpulo ou constrangimento, Morgan abandonou seus homens sem víveres e sem navio!

As mulheres faziam parte do butim conforme revela Oexmelin, cirurgião dos flibusteiros, autor de uma Histoire des aventuriers et des boucaniers d’Amérique (1686): Quando dois bucaneiros encontram uma bela mulher, para evitar a disputa decidem quem casará com ela lançando uma moeda. Casará aquele que for favorecido pela sorte, mas seu camarada era recebido na casa: a isso se chamava a matelotage... Outro costume: o sobrevivente dos dois era o herdeiro de fato de seu companheiro. O capitão e seus homens firmavam um contrato ou chasse-partie, no qual tudo era previsto para a duração de uma campanha: cada homem levava seus víveres, suas armas, suas munições. O soldo de cada mercenário saía do butim. Sem butim, sem soldo. O capitão retinha uma parte para amortizar as despesas do navio, além do soldo do carpinteiro (100 a 150 piastras) e do cirurgião (200 a 250 piastras), e recebia até seis vezes a parte de um marinheiro (a piastra era uma antiga moeda de prata, de valor variável de acordo com o país e a época). O imediato tinha direito a duas partes. O marinheiro a apenas uma. O grumete, a meia. Os feridos e estropiados recebiam 600 piastras pelo braço direito; 500 pelo esquerdo ou a perna direita; 400 pela esquerda; 100 por um olho ou um dedo. Ao final da campanha, cada membro da tripulação ganhava a liberdade levando sua parte. Naquele momento, cessava a autoridade do capitão.

©BETTMANN/CORBIS – STOCK PHOTOS

Sem dó nem piedade: o estupro das mulheres dos inimigos estava incluído no butim


O pirata, seja qual for a época considerada, o teatro de operações escolhido ou o butim alcançado, era um bandido voraz. Ele atacava outro navio no mar, se possível ricamente carregado, que pilhava depois de eliminar a tripulação, vencida pela abordagem e morta, porque não havia quartel. Nessa característica, o pirata se parecia com os ladrões de estrada, que assaltavam carruagens e diligências em terra. Em outros casos, o bucaneiro desembarcava numa terra ocupada, transformando, então, a imagem clássica do pirata dos mares em outra, a de bárbaro ou de barba-ruiva. No primeiro caso, trata-se do frisão (natural da Frísia, região que hoje faz parte dos Países Baixos) que arrasava as costas do mar do Norte e do Canal da Mancha; do bárbaro que pilhava as costas do mar Negro e devastava o Egeu; do franco embarcado nas costas do Ponto Euxino (antigo nome do mar Negro) para devastar as da Sicília e da África. O barbaresco, vindo da África do Norte, arrasava os grupos nas costas cristãs da Provença e do Languedoc (na antiga França) ou da península italiana. O flibusteiro das Antilhas evoluiu muitas vezes para esse tipo de pirataria quando, em vez de atacar navios, passou a atacar as ricas cidades hispano-americanas: Vera Cruz e Campeche (no México), Panamá, Cartagena-das-Índias (Colômbia).

Emboscadas perfeitas

Os piratas faziam o reconhecimento da costa na proximidade de um estreito, numa rota marítima freqüentada. Tendo necessidade de uma base logística – água potável, víveres, madeira para lenha e reparos navais, minicanteiro de reparos ou construção –, davam preferência às ilhas. Situadas em encruzilhadas, a ilhas permitiam vigiar as rotas marítimas. Os piratas gostavam de ficar ao largo da Citera antiga (ilha grega do mar Egeu, entre o Peloponeso e Creta, também conhecida como Cérigo), da Sicília, da Sardenha, das Baleares ou da Córsega. Malta, Creta, Tinos foram ninhos de piratas. Os Grimaldi enriqueceram como piratas a partir de seu rochedo em Mônaco. (Os Grimaldi constituíam uma antiga família nobre de Gênova, à qual pertenciam, até 1733, os príncipes de Mônaco. Nessa época, foram substituídos. Em 1949, os Grimaldi voltaram ao trono de Mônaco com Rainier III.) O mesmo aconteceu no Atlântico, onde os flibusteiros se baseavam na ilha La Tortue, na costa do Haiti, onde se situava a cidade e o porto de Caiena.

Em La Tortue, a principal base pirata nas Antilhas durante o século XVIII, os bucaneiros esperavam o navio mercante que passava, isolado ou em comboio, com guarda ou desprotegido, e se lançavam sobre a presa com um navio veloz: hemolia, dos gregos; lemboi, dos bucaneiros da Ilíria (região balcânica próxima ao Adriático), bergatins (escuna de velas quadradas de dois mastros) dos barbarescos, flibots (pequena embarcação com dois mastros, com fundo chato) dos flibusteiros. Na ponta do mastro, um crânio e duas tíbias embranquecidas pelo sol se destacavam sobre um pavilhão negro ondulando ao vento. Todos os navios-piratas se pareciam: lastro leve e velocidade aumentada pelos cascos untados com sebo para diminuir a resistência da água. Pequenas, rápidas, fáceis de manobrar, repletas de homens e munidas de pouca artilharia, essas embarcações precisavam correr os mares para alcançar suas presas, ultrapassá-las e forçá-las a parar. Uma vez pilhado o adversário, era preciso repartir depressa o butim e procurar refúgio em águas inacessíveis para os grandes navios oficiais, no meio de recifes, de rochedos e em locais de grande profundidade.


©PALÁCIO DE VERSALHES, FRANÇA

“Mary Tudor, rainha da Inglaterra”. Pirataria de Estado caracterizou a dinastia dos Tudor


O pirata era, sobretudo, aquele que perseguia e atacava qualquer navio no mar, sem nenhuma consideração por pavilhão. Para o flibusteiro, não existiam amigos ou aliados. Assim pensava o velho Abraham Duquesne (1570–1635), pirata normando que capturava navios mercantes bretões sob pretexto de serem estrangeiros. Richelieu teve a maior dificuldade de se fazer obedecer por esse mundo tão matizado do mar, tão distante das leis e das regras de terra.

O pirata era um perigo para todos aqueles que cruzavam seu caminho – foram responsáveis pelo nascimento do seguro marítimo –, mas era também um perigo para a civilização, porque se colocava fora da norma. Sem pertencer a um Estado ou a uma estrutura, o pirata era, enfim, o único homem livre das sociedades pré-revolucionárias. Políticos de todos os tempos combateram esses marginais armados, perigosos para os marinheiros, perigosos para os Estados, perigosos para as trocas, para os comércios longínquos e para o grande negócio marítimo. Corinto moveu guerra aos piratas. Pompéia também, assim como Luís XIV, mais tarde, no Mediterrâneo, porque no Atlântico, o Très Chrétien se aliou aos flibusteiros para atacar o rico entreposto espanhol de Cartagena-das-Índias em 1697. Os Estados tiveram, enfim, uma atitude excessivamente ambígua para com os piratas: em época de paz, quiseram erradicar a pirataria e comerciar livremente, assegurando a liberdade dos mares; mas, se viesse a guerra, procuravam seduzir os excelentes soldados que mantinham tal ou qual base de apoio (Santo Domingo ou a Ilha de la Tortue). Essas bases eram, então, cedidas aos piratas e, com isso, a pirataria está na origem de numerosas colônias inglesas e francesas na região do Caribe.

Pirataria de Estado

Uma das principais causas do desenvolvimento das frotas de guerra permanentes dos Estados, quaisquer que fossem, foi a eliminação da pirataria. Tucídides fala de expedições atenienses contra ninhos de bucaneiros. Plutarco evoca a luta contra os dolopes (antigos habitantes da Tessália) que se tornaram corsários por falta de recursos agrícolas. Otaviano lutou ferozmente contra os ilirianos em 35 da nossa era. Rodes chegou a criar um tipo de embarcação especial para dar combate aos piratas, a trihemolia, mais rápida que a trirreme (galera grega com três fileiras de remadores sobrepostos), e Luis XIV mandou construir galeotas (pequena galé movida a remos e a vela) com bombas específicas, em 1678, para bombardear Argel e Trípoli. A hansa (associação comercial da Idade Média) jamais se cansou de tentar libertar o mar Báltico e o mar do Norte de toda pirataria desde 1168.

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O corsário francês Jean Bart comanda ataque a um navio flibusteiro inglês. Tanto a Inglaterra como a França incentivavam a “guerra de corsos”. Gravura de Morel-Fatio. Séc. XIX. Museu Naval do Louvre

A pirataria não foi, pois, um tema de romance. Foi um caso militar, que exigiu despesas dos Estados para combatê-la. Ela exigia uma resposta: navios, guerras, leis. Todos os litorais, todas as ilhas, foram obrigados a fazer pesados sacrifícios financeiros para construir fortins e torres (na Córsega), para pagar torregiani (os guardas de torres) e organizar milícias. É verdade que a pirataria foi um reflexo da fraqueza dos Estados, mas também pôde se tornar – fato menos conhecido – pirataria de Estado. Foi assentada na pirataria que a Inglaterra dos Tudor fundou seu poderio, a partir do século XVI, atacando os ricos galeões espanhóis nas costas americanas. Foi atacando navios franceses, em plena paz, que os ingleses asseguraram a vitória na Guerra dos Sete Anos (1756-1763), privando a armada francesa dos marinheiros capturados em mais de 250 navios mercantes desde 1755. Entre 1740 e 1744, franceses e ingleses já haviam começado as hostilidades. Antes da guerra, portanto, que foi declarada apenas em 15 de março de 1744. Feito prisioneiro nessas condições, em 11 de novembro de 1755, no golfo da Gasconha, o visconde Joubert de Bouville, bisneto de
Demarets e da irmã de Colbert, recusouse a ser libertado pelos ingleses na qualidade de prisioneiro de guerra, e preferiu pagar seu resgate!

A pirataria é um tema difícil, tratado muitas vezes como mera epopéia caribenha. O pirata viril e bronzeado, de camisa rasgada, olho de vidro e perna de pau, com o sabre de abordagem na mão, de pé diante dos cofres de ouro e pedrarias, é quase inteiramente uma imagem de Epinal.

A pirataria não tem idade de ouro, nem idade simplesmente: é um fenômeno inscrito nos tempos. Se os habitantes da Etólia, na Grécia antiga, fizeram dela um instrumento de política exterior, chegando a firmar tratados de garantias contra suas próprias ações mediante indenizações com suas futuras presas, a pirataria existe ainda hoje. Está presente nos mares da China, e a espoliação fraudulenta de companhias de seguro continua sendo praticada sob o nome de “barataria”, um tipo de pirataria, pois a carga é roubada, o navio destruído, rebatizado ou escamoteado, e o prêmio do seguro recebido!


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Piratas avaliam o resultado obtido em pilhagem, logo após o saque

Todo aquele que acumulasse muitas capturas e butins tornava-se herói rapidamente aos olhos de seus camaradas; aos olhos das pessoas honestas, um terror. Desses heróis aterrorizantes, as fontes medievais conservaram os nomes, ou melhor, as façanhas: Henri le Pêcheur, conde de Malta em 1218; Benedetto Zaccaria, pirata, comerciante e, depois, almirante genovês; Roger de Lauria, pirata aragonês que saqueou o litoral do Languedoc à Sicília no século XIII; Roger de Flor, templário catalão, almirante da Sicília, que devastou o Egeu no século XIV.

Nobliarquia

A época moderna, dos séculos XVI a XVIII atlânticos, não teve, porém, o monopólio da pirataria. O pirata das plagas caribenhas do período elisabetano ou colbertiano não era um homem novo: era herdeiro de uma multidão de aventureiros, produto dos invasores de antanho, porque toda invasão (normanda, saxônia ou sarracena) já fora uma empresa de pirataria. Como ocorrera antes, a época moderna procurou se defender do pirata, fosse armando com canhões seus navios mercantes, fosse escoltando-os com navios de guerra. Por conta dos piratas, o direito internacional foi endurecido, e todo capitão que conseguisse capturar corsários no mar tinha o direito de enforcá-los no ato, na verga mais alta do navio apresado. Mas quando as nações se tornaram piratas, como a Inglaterra de Elizabeth I, os sucessos obtidos sobre os galeões espanhóis pelos Drakes e Raleighs foram tais que já não se podia limitar a pirataria à noção de empresa privada.

A pirataria de Estado caracterizou a Inglaterra dos Tudor, que associava capitais públicos a capitais privados para apresar sua parte dos metais preciosos na rota transatlântica do império espanhol.


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A conquista do navio inglês Kent por Robert Surcouf (7/10/1800), óleo sobre tela. C. de1850, de Louis-Ambroise Garneray (1783-1857)

Entre 1560 e 1620, da morte de Maria Tudor (1558) à de Elisabeth (1603), essa pirataria conheceu um de seus períodos de glória e de lucro. Nos anos 1550-1570, franceses e, sobretudo, ingleses se atiraram sobre o comércio espanhol, prejudicando suas rotas e limitando seus lucros, mas a porcentagem de perdas resultantes disso não foi comparável às causadas pelas tempestades. O impacto foi mais psicológico do que econômico, ainda que Dürer tenha se demorado em Anvers apreciando os tesouros saqueados por franceses de um navio espanhol que transportava uma parte dos tesouros do imperador asteca Montezuma.

Como essa pirataria parecia mais lucrativa do que na realidade, as grandes potências não pararam de engajar esses guerreiros dos mares para transforma-los em corsários. Foi o caso dos marinheiros de Dieppe, de La Rochelle, de Saint Malo, mas também de Argel, de Túnis, de Trípoli, de Salé, pilares de regências magrebinas. São comuns as objeções, injustas, aos marinheiros, e a sua classificação arbitrária em três categorias: os piratas, os corsários, os oficiais de marinha. Nada é mais falso: o pirata era certamente um bandido, mas tão logo o rei reconhecia suas competências, o admitia ao seu serviço, concedia-lhe autorização para perseguir o inimigo – eis, então, o nosso pirata transformado em corsário. Se o antigo bandido usando o mesmo sabre de abordagem obtivesse êxito em sua nova carreira de corsário, era promovido a capitão dos navios do rei, como Abraham Duquesne, o Velho, pirata temível, corsário talentoso e, depois, respeitável oficial de Luis XIII! Ao longo da vida, Ducasse, nascido huguenote, pôde ser o chefe dos flibusteiros de La Tortue, tenente-general das armadas navais e o velho calvinista que morreu condecorado com o Tosão de Ouro pelo Rei Católico! Ducasse é o exemplo típico do flibusteiro oficial-general. Graças ao dinheiro cobiçado, apresado e confiscado na região do Caribe, ele pôde dar um dote de 400 mil libras a sua filha única, e fazer dela a duquesa de La Rochefoucauld! Esplêndida promoção conseguida com o aporte fornecido pelos 1.600 flibusteiros de Santo Domingo, apanhados de passagem pelo barão de Pointis, em 1697, em sua excursão para saquear Cartagena-das-Índias. Os flibusteiros participaram da campanha navegando ao lado da frota do rei. Ali, além de nove milhões em prata ou em barra, o que foi tomado em pedrarias e prataria é inconcebível, escreveu Saint-Simon. Cartagena-das-Índias era o entreposto mais rico de toda a América Latina.



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Perseguição a navio mercante: eram necessárias embarcações ágeis para facilitar a pilhagem

Os piratas formavam uma sociedade cosmopolita. Vindos da Holanda, da Zelândia, da Frísia, de Flessingue, de Dunkerque, de Honfleur, de Saint-Malo, do País Basco, da Provença ou da Bretanha, se associaram por toda parte em barbarescos, tratantes do mar, flibusteiros da região antilhana, irmãos da costa, piratas de Formosa sob as ordens do rei Koxinga, estabelecido na ilha em 1661. Piratas, eram também contrabandistas, porque era preciso escoar as cargas capturadas, no mais das vezes bens comestíveis, madeira, conservas salgadas, peixe seco – mais do que pérolas, esmeraldas e rubis. É fato que no meio do triângulo das Bermudas, as “ilhas do tesouro” fascinavam, as minas de cobre de Cartier foram tomadas por minas de ouro, a mica por diamantes, e a Louisiana de Law (John Law foi o criador da Companhia Francesa das Índias) prometia rochedos de diamantes, mas a realidade foi bem outra. A pirataria se transformou, muitas vezes, num comércio na ponta da lança (isto é, em contrabando) que se fazia com as colônias ibéricas da América do Sul e Central. Daí a sedentarização dos piratas, o que contribuiu para o povoamento das Antilhas.

As nações civilizadas acabaram sendo mais ladras que os piratas. Em 1697, os flibusteiros tiveram uma grande discussão com Pointis exigindo seu quinhão, cuja maior parte pretendiam contrabandear. Percebendo que o barão, oficial-general de Luís XIV, zombava deles, retornaram a Cartagena, pilharam-na de novo, e fizeram um rico butim, encontrando muita prata, diz ainda Saint-Simon.

A pirataria desapareceu da região do Caribe ao fim da Regência, devido à onipresença da armada real. Os flibusteiros abandonaram esse ofício que se tornara perigoso demais, para investir, graças a seus butins, nas vastas propriedades dedicadas à grande plantação açucareira. - Tradução de Celso Paciornik

Michel Vergé-Franceschi é professor de História Moderna da Universidade de Savóia e publicou grande número de obras, entre as quais Histoire de Toulon, PortRoyal. Ele dirigiu o Dictionnaire d’Histoire Maritime e é laureado pela Academia Francesa e pela Academia da Marinha.

Revista Historia Viva