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domingo, 14 de setembro de 2014

Erros e acertos do fenômeno "O Capital no Século 21"

SAMUEL PESSÔA
ilustração LOURIVAL CUQUINHA
MARTIN JOHN CALLANAN



RESUMO Lançado na França em 2013, livro de Thomas Piketty estourou ao sair em inglês neste ano. Pesquisa do francês e sua equipe gerou valiosa base de dados sobre desigualdade, mas livro, que recupera ideia marxista de compulsão à acumulação, falha ao desconsiderar efeitos do comércio internacional na evolução do capitalismo.

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"O Capital no Século 21" consolida década e meia de trabalho do pesquisador francês Thomas Piketty ao lado de uma equipe de colaboradores, cujos achados foram publicados em outros dois volumes e em diversos artigos acadêmicos nas melhores revistas internacionais. A maior contribuição desse esforço coletivo de pesquisa é um exaustivo trabalho historiográfico que resultou na construção de bases de dados de desigualdade de renda e de riqueza, para diversos países e ao longo de décadas.

É difícil fazer uma avaliação criteriosa do ainda recente volume, que, lançado originalmente em francês, em 2013, pela Seuil, explodiu em nível global a partir de sua tradução para o inglês, neste ano, pela Harvard University Press. A obra chegou às listas de mais vendidos e gerou tal comoção que a editora Intrínseca, que deve lança-lo no Brasil em novembro, já colocou o título em pré-venda em sites de livrarias.

Se o resultado cristalizado na publicação ainda é passível de controvérsias, e elas têm aparecido, provavelmente o esforço coletivo de pesquisa justificaria um prêmio Nobel para a equipe capitaneada pelo docente francês -Piketty, 43, leciona na Escola de Economia de Paris desde 2007 e na Ehess (Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais) desde 2000.
Lourival Cuquinha/Divulgação 


Em artigo publicado há duas semanas, o jornal britânico "Financial Times" questionou a credibilidade dos dados usados na pesquisa e, em sua edição de junho, a revista conservadora "The American Spectator" afirmou que Piketty propõe um "confisco" de fortunas. Mas é difícil imaginar que haja erros de fato grosseiros, a ponto de desqualificar os achados do grupo, e que tenham escapado aos pareceristas dos conceituados "Journal of Political Economy", "Quarterly Journal of Economics" ou "American Economic Review" -publicações em que Piketty e colaboradores publicaram várias das conclusões que estariam no livro.

PROPÓSITOS

A publicação de "O Capital no Século 21" parece atender a dois objetivos de seu autor. Primeiro, defender uma posição política muito clara. O texto é um manifesto de defesa da social-democracia europeia continental com Estado grande e provedor dos serviços e seguros sociais básicos -saúde, educação, previdência e assistência social- e de instrumentos tributários que impeçam a concentração excessiva de renda e riqueza. O volume cumpre muito bem esse objetivo normativo. Os autores liberais e libertários terão trabalho e gastarão muito tutano respondendo ao libelo de Piketty. Trata-se de contribuição importantíssima ao debate público.

O segundo objetivo foi construir uma narrativa do desenvolvimento do capitalismo desde meados do século 19 até os dias de hoje e, possivelmente, para o resto do século 21. Uma narrativa que permita organizar e dar coerência ao conjunto de evidências empíricas desvendadas ao longo do trabalho dos pesquisadores nos arquivos.
Livro
O Capital no Século XXI
Thomas Piketty



Trata-se de uma obra de sistematização. É nesse sentido que o volume assume a grandiloquência de clássicos como "A Riqueza das Nações", de Adam Smith, "Princípios de Economia Política e Tributação", de David Ricardo, ou "O Capital", de Karl Marx. Embora, claro, somente a passagem do tempo dirá se o livro é o clássico que promete ser. Por ora é possível afirmar que a narrativa que o livro nos oferece para organizar os inúmeros achados e fatos empíricos descobertos por Piketty e seus colaboradores é, na melhor das hipóteses, muito incompleta.

Do ponto de vista teórico, o autor parte da rejeição da teoria padrão que os economistas construíram para explicar a poupança, que é a forma de transmissão intertemporal de renda, e, portanto, a acumulação de capital.

Segundo a teoria padrão, a principal motivação para a acumulação de capital é a transferência de renda de um indivíduo para si mesmo, de sua idade ativa para a velhice. A teoria de poupança ao longo do ciclo de vida -que rendeu o Prêmio Nobel de 1985 ao economista ítalo-americano Franco Modigliani- sustenta que as pessoas poupam enquanto trabalham para consumir na velhice.

Entre muitas outras, a teoria de ciclo de vida prevê que a parcela da riqueza transmitida por meio de herança tem que ser relativamente pequena. A herança seria riqueza não intencional deixada pelos pais aos filhos em função de incerteza com relação à data da morte. Como não sabemos o momento exato da morte, ao morrer sempre sobra algo que os filhos herdam.

ACUMULAÇÃO

Para Piketty, a partir de certo nível de riqueza, a renda gerada pelo capital é tão elevada que é possível sustentar com ela níveis elevadíssimos de consumo e simultaneamente acumular e legar para seus herdeiros mais do que se recebeu. O capital se acumula de forma automática. Aqui Piketty ecoa Marx.

Para os que muito têm, é relativamente barato gerir o patrimônio e conseguir retornos elevados, fato não possível para os pequenos poupadores. O elevado retorno à escala da indústria de gestão de riqueza exerce pressão concentradora adicional. Está criado o capitalismo rentista e patrimonialista no qual o acesso à riqueza depende cada vez mais da sorte de nascer na família certa do que de seu esforço e mérito.

É evidente que Piketty se preocupa com o início do patrimônio. Ele argumenta que a acumulação inicial deve-se a sorte, acaso e, muitas vezes, a mérito -esforço, trabalho diligente e inovador, talento. Mas diz que a riqueza, meritória ou do acaso (e, muitas vezes é impossível distingui-las), transforma-se rapidamente em riqueza sem risco e de rendimento perpétuo. A taxa de retorno do capital é a renda percentual do capital, ou seja, uma taxa de retorno de 5% ao ano significa que o fluxo de renda gerado pelo capital equivale a 5% do valor do capital.

Uma vez constituído o patrimônio, a descendência proprietária passa a pertencer ao invejado clube dos indivíduos que, pelo nascimento ou casamento, não precisarão pelo resto de seus dias se preocupar com como pagarão suas contas.

Apesar das diferenças -a acumulação primitiva de Marx resultava de roubo, pirataria e expropriação (aparentemente o capitalismo melhorou)-, para ambos o capital acumula-se automaticamente. O paralelismo com Marx termina aqui. Piketty considera que a economia de mercado com propriedade privada dos meios de produção é a forma mais eficiente de organização da atividade econômica.

Neste aspecto a quarta e final parte do livro tem paralelismo com a Teoria Geral de Keynes: mensagem reformista, que reconhece os méritos, mas identifica falhas no funcionamento da economia de mercado e sugere políticas para "consertar" a máquina.

DISTRIBUIÇÃO

Os economistas trabalham com dois conceitos de distribuição de renda. A distribuição interpessoal da renda descreve como a renda gerada, de capital e de trabalho, é distribuída entre as famílias. A distribuição funcional da renda descreve a divisão da renda entre capital e trabalho.

A distribuição funcional da renda é um conceito simples. Um único número -a parcela do capital na renda, ou seu complemento, a parcela do trabalho na renda- descreve-a integralmente. A distribuição interpessoal da renda é um conceito matemático muito mais complexo do que um número. Para facilitar a análise, os estatísticos inventaram números que sintetizam a desigualdade. Os mais conhecidos são os índices de desigualdade de Gini e de Theil.

Piketty prefere outros indicadores. Para descrever a desigualdade interpessoal de renda, acompanha particularmente a parcela da renda apropriada pelos 50% mais pobres, pelos que estão entre os 50% e 90% mais ricos, os 10% mais ricos, o 1% e o 0,1%.
Martin John Callanan 

O autor assevera que o capitalismo tende à concentração de ambas as distribuições, interpessoal e funcional. Ao longo das três primeiras partes do livro, apresenta para os países europeus e para os EUA a evolução do produto per capita; a evolução da riqueza da economia e da sua natureza, se pública ou privada, da terra, do capital físico ou dívida pública; a evolução da renda do capital; da relação capital-produto; da participação do capital na renda; e, finalmente, a evolução da distribuição interpessoal da renda e da riqueza.

Piketty e seus colaboradores encontraram um ciclo de concentração de renda que termina com a Primeira Guerra. Entre 1914 e 1974 toda a dinâmica se inverte. Há redução da relação capital-produto, reduz-se a participação do capital na renda, e a distribuição interpessoal da renda e da riqueza melhora para os diversos indicadores de desigualdade interpessoal de renda empregados na obra, além da parcela da riqueza existente derivada de herança ter se reduzido expressivamente. A partir de 1974 a dinâmica do capitalismo retorna ao seu curso normal. Há um novo ciclo concentrador.

Segundo o estudioso, a melhora distributiva nas seis décadas entre 1914 e 1974 deveu-se à sucessão de tragédias -duas guerras mundiais e, entre elas, a Grande Depressão- que destruíram muito capital. Adicionalmente, no pós-Guerra houve em diversos países a imposição de impostos confiscatórios sobre a riqueza, além de apoio a instituições que aumentaram o poder de barganha do trabalho frente ao capital e a criação do Estado de bem-estar social. Finalmente, a repressão financeira das décadas de 50, 60 e 70 promoveu redução forçada do endividamento público e houve a estatização de diversos setores.

Essa dinâmica foi quebrada pelo neoliberalismo de Reagan e Thatcher. O pacote de políticas que inclui a desregulamentação dos diversos mercados, forte redução das barreiras comerciais nos anos 80, e, nos anos 90, das barreiras à mobilidade internacional de capitais, além da privatização de diversos setores produtivos, alterou o poder de barganha do trabalho nos países centrais. Sem a regulação estatal, o capitalismo retomou seu rumo concentrador. Voltamos à dinâmica da "belle époque".

Se nada for feito retornaremos ao mundo de Jane Austen ou Balzac, no qual a melhor forma de alcançar uma vida confortável é casar com a pessoa certa. O livro documenta em detalhes a familiaridade que os escritores do século 19 tinham com o funcionamento do capitalismo patrimonialista.

O elemento final de preocupação de Piketty é a manutenção das instituições democráticas. Para ele, a dinâmica normal de uma economia de mercado que resulta necessariamente no capitalismo patrimonialista coloca em risco a democracia como a conhecemos. Ele afirma que a democracia seria incompatível com excessiva concentração de riqueza.

PORÉNS

O primeiro reparo que se pode opor à narrativa de Piketty se refere à tendência de elevação da participação do capital na renda conforme a quantidade de capital cresce. Evidentemente, quando a quantidade de capital se eleva, sua taxa de retorno cai.

A questão é a intensidade dessa queda. Se a taxa de retorno cair proporcionalmente menos do que a quantidade de capital, a participação do capital na renda se eleva. Se a queda da taxa de retorno for proporcionalmente maior do que a elevação da quantidade de capital, a participação dele na renda se reduzirá "pari passu" à elevação da relação capital-produto.

Em qual mundo vivemos? Segundo o livro, em um mundo no qual a acumulação de capital eleva a participação do capital na renda.

O autor considera que a forte flexibilidade tecnológica permite que a queda do retorno do capital, diante do aumento de sua quantidade, seja pequena. A flexibilidade tecnológica significa que é relativamente simples substituir trabalho por capital. Ou seja, quando a quantidade de capital se eleva, o retorno não se reduz muito, pois seria relativamente fácil transferir atribuições do trabalho ao capital.

Diversas estimativas sugerem, no entanto, o oposto. Não seria tão fácil assim substituir trabalho por capital. Portanto, conforme o estoque de capital cresce, seu retorno cai mais do que proporcionalmente. Por que motivo Piketty obteve resultado oposto? A maior falha analítica de uma narrativa tão abrangente do desenvolvimento do capitalismo desde o século 19 até hoje é não ter incorporado a questão do comércio internacional de bens e serviços e da mobilidade internacional de capital.

PAX

Um dos períodos de plena prevalência do capitalismo patrimonialista é, segundo Piketty, a "belle époque", final de um período que os historiadores econômicos conhecem por Pax Britannica.

Essa época se inicia com o fim das guerras napoleônicas, seguido pela suspensão das leis que impediam a Inglaterra de importar cereais (as "Corn Laws") e pelo desenvolvimento do telégrafo e do navio a vapor e de casco de metal.

Tais inovações tecnológicas, em associação com o domínio britânico sobre os mares, geraram a primeira grande globalização, inaugurando o comércio de longo curso de commodities agrícolas e minerais, além de forte mobilidade de capital. Havia investimentos britânicos em ferrovias mundo afora.

É desse período o expressivo desenvolvimento econômico do Cone Sul latino-americano, São Paulo incluída, dos EUA, e do Canadá, Austrália e Nova Zelândia. A Pax Britannica terminou tragicamente com a eclosão da Primeira Guerra.

É impossível entender o que ocorria com a remuneração do capital e do trabalho nos países centrais sem considerar o comércio e o seu impacto sobre a remuneração dos fatores de produção. Certamente a menor queda do retorno do capital nesses países resultava não de maior flexibilidade tecnológica, mas sim da possibilidade de vender bens manufaturados a mercados que ofertavam bens primários.

É surpreendente que Piketty não considere com cuidado os estudos de diversos historiadores sobre o tema. É impossível entender a evolução da renda dos fatores de produção no período em questão sem um diálogo minucioso com os trabalhos de John Williamson, John O'Rourke, Ronald Findlay e Alan Taylor, entre outros, frutos de pesquisas que se estenderem pelas últimas duas décadas.

GLOBALIZAÇÃO

Analogamente, o período de 1914 até o pós-Guerra é conhecido pelo forte fechamento das economias ao comércio e à mobilidade de fatores. Parte da queda do retorno do capital nas economias centrais resultou dessa dinâmica.

O grau de abertura do mundo só veio a ultrapassar os níveis observados até 1914 na virada dos anos 1980 para os anos 1990 -a segunda grande globalização teve início na década de 1970, e a ela se deve boa parcela da moderação na queda do retorno do capital e da tendência recente à elevação da participação do capital na renda nos países centrais. Por outro lado, a nova globalização explica boa parte da queda de pobreza que tem ocorrido na Ásia nas últimas décadas, provavelmente a maior da história.

É difícil imaginar que a incorporação de 1/3 da humanidade ao mercado internacional de trabalho não afetaria a evolução da renda do capital e da renda do trabalho nos países centrais. Ou seja, a dinâmica que Piketty enxerga como uma realidade tecnológica e regulatória interna às nações possivelmente sofreu forte influência do comércio internacional.

É preciso lembrar que, se considerarmos indicadores sintéticos de desigualdade, como Gini ou Theil, ela vem se reduzindo nas últimas décadas. Apesar de a desigualdade ter se elevado nos países centrais e na Ásia, ela tem se reduzido no mundo. O motivo é que a queda da desigualdade entre os países, em função do crescimento da Ásia, tem mais do que compensado a elevação da desigualdade no interior de cada país. Ou seja, a desigualdade em um país hipotético fruto da união de EUA com China, por exemplo, tem caído.

As conclusões de Piketty com relação à evolução futura da taxa de retorno do capital e da relação capital-produto não são imunes à dinâmica global. A continuidade do forte processo de acumulação de capital na Ásia provavelmente produzirá, após o esgotamento do crescimento do volume de comércio, redução bem mais acentuada do que ele imagina nas taxas de retorno do capital. Parece, aliás, que já estamos atingindo este ponto.

CONTENDA

O volume apresenta outras deficiências e imprecisões técnicas que têm motivado intenso debate entre acadêmicos. (Para os leitores interessados, um apêndice trata sobre esses temas.)

No capítulo dedicado à descrição da fortíssima elevação da concentração ocorrida na economia americana nas últimas quatro décadas, Piketty se mostra ciente de que o processo do lado de cá do Atlântico é diverso do que ocorre na outra margem. Enquanto na Europa já há sinais de aumento da desigualdade liderada pela desigualdade do capital, nos EUA aumentou fortemente a desigualdade da renda do trabalho.

Sabe-se que a fortíssima elevação da desigualdade de renda do trabalho está associada à elevação da remuneração do talento.

Certamente a diferença de salário que há entre Neymar e qualquer jogador de futebol da terceira divisão não resulta do esforço e do empenho de Neymar ao longo dos treinamentos em toda sua vida. O diferencial resulta de seu maior talento, incluindo aí a sorte de ter particular capacidade pra recuperar-se de contusões. Argumentos análogos aplicam-se a artistas, esportistas, inovadores e inventores, presidentes de grandes empresas, operadores do mercado financeiro, os melhores médicos e advogados em suas especialidades etc.

A fortíssima concentração da renda do trabalho na porção de 1% mais ricos está associada principalmente aos elevados salários dos presidentes de empresas e operadores do mercado financeiro. Como documentado no volume de Piketty, os elevados rendimentos dessas duas categorias profissionais explica aproximadamente 90% do fenômeno. O resto do fenômeno resulta da elevação da renda dos profissionais mais destacados em outras carreiras que dependam do talento pessoal.

Com relação aos CEOs, Piketty defende que os ganhos não são fruto direto da produtividade, mas resultantes da cooptação dos conselhos de administração das empresas pela diretoria, que consegue impor à assembleia de acionistas a sua própria escala de remuneração.

A explicação dada pelo autor é muito pouco convincente. Há evidência de que a remuneração dos CEOs das empresas não listadas em bolsa, cujo capital é controlado por poucos (e nas quais, portanto, a cooptação não deveria ocorrer), aumentou da mesma forma. Além disso, outras atividades tiveram forte elevação de ganhos.

Existem pesquisas que apontam exatamente a globalização das empresas americanas e sua capacidade para acessar grandes mercados como explicação para as elevadas remunerações. Há, ainda, trabalhos que apontam a capacidade das empresas americanas de transplantar parte da produção para economias emergentes como explicação para o menor crescimento dos salários nos EUA nas últimas décadas. Como Piketty desconsidera em seu livro o comércio e a mobilidade internacional de capitais, não pode dialogar com esta leitura alternativa.

LIÇÕES

Não obstante, é verdade que a desigualdade do trabalho de hoje pode tornar-se desigualdade do capital amanhã e desigualdade de heranças depois de amanhã. E os EUA caminhariam céleres em direção ao capitalismo patrimonial da "belle époque".

Rejeitada a grande história proposta no volume, resta sua mensagem normativa, a defesa intransigente da social-democracia, mas principalmente as características associadas à evolução da desigualdade interpessoal de renda e de riqueza e ao crescimento do peso da riqueza herdada na riqueza total.

Com relação à defesa da social-democracia, a maior limitação do texto parece ser a análise estreita dos motivos que justificaram a revolução neoliberal dos anos 80. Parece que não havia excessos no Estado de bem-estar social, que a inflação não grassava e que a carga tributária não caminhava para limites insustentáveis.

O autor vê a revolução neoliberal como se motivada exclusivamente pela vaidade de ingleses e americanos que não entendiam que o crescimento da Europa continental era simplesmente recuperação do espaço perdido por consequência dos tumultos da primeira metade do século 20.

Apesar de o livro terminar menor do que iniciou, deixa três lições fundamentais.

Primeiro, que o estudo da desigualdade interpessoal requer o emprego de diversos conceitos. O uso indiscriminado dos coeficientes de Gini ou Theil pode obscurecer dinâmicas importantes, principalmente na ponta superior da renda.

Segundo, é impossível investigar a evolução da desigualdade de renda com bases de dados que não coletam com precisão a desigualdade de capital. E, para esta, é necessário recorrer ao registro tributário. Terceiro, há tendência recente de forte concentração de renda nas economias centrais e, em particular, há um processo de elevação do peso da riqueza herdada na riqueza total.

A despeito das deficiências da narrativa histórica que o autor se propõe fazer, esses aprendizados justificam plenamente o impacto que o livro vem causando no debate público internacional.

SAMUEL PESSÔA, 51, é pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia/FGV, sócio da consultoria de investimentos Reliance e colunista da Folha.
LOURIVAL CUQUINHA, 39, é artista plástico. Inaugura neste sábado a individual "Territórios e Capital: Extinções", no MAM-Rio, e participa da coletiva "Multitude", no Sesc Pompeia.
MARTIN JOHN CALLANAN, 32, artista britânico, ganhou neste ano o Prêmio Philip Leverhulme. Na série "The Fundamental Units", fez macro-fotografias das moedas de menor valor ativas em 166 países, como a de 1 centavo de euro
Folha de S. Paulo

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Marxismo: coisa do passado?

A espécie de socialismo que triunfou de modo limitado no século XX foi aquele que Marx chamou de "vulgar". Nele, a regulamentação jurídica da produção e da distribuição, em teoria em prol da coletividade, foi confundida com o socialismo
por Vitor Bartoletti Sartori *



György Lukács » Foi um filósofo húngaro. Sua obra História e Consciência inicia a corrente de pensamento que passou a ser conhecida como marxismo ocidental. O livro é notável pela contribuição ao debate concernente à relação entre sociologia, política, filosofia e marxismo, e pela reconstituição da teoria marxista da alienação antes de os escritos de juventude de Marx terem sido publicados.

Social-democracia » Ideologia política de esquerda lançada no fim do século XIX por partidários do marxismo que acreditavam que a transição para uma sociedade socialista poderia ocorrer sem uma revolução, por meio de uma evolução democrática. Embora a ideologia pregue uma gradual reforma legislativa do sistema capitalista, a fim de torná-lo mais igualitário, o conceito tem mudado com o passar das décadas.


Quando se fala de marxismo hoje, muitos torcem o nariz dizendo se tratar de uma visão de mundo ultrapassada e, depois da falência do chamado "socialismo real", comprovadamente fadada ao fracasso. No entanto, é preciso notar que, mesmo que reiteradamente se diga que o marxismo está morto, a publicação de textos de Karl Marx e Friedrich Engels continua. Seriam os marxistas cegos? Meros utopistas? Acreditamos que não. A publicação recente de O Socialismo Jurídico de Engels pode mostrar que aqueles que melhor expuseram as críticas àquilo que foi chamado de "socialismo" no século XX são os próprios fundadores da tradição marxista.

É bom destacar que enquanto as publicações de Marx e Engels e de marxistas como György Lukács crescem, certa tradição marxista não pode mais ser encontrada nas livrarias: os livros de Stalin, por exemplo, sequer são editados na atualidade. Ou seja, é preciso notar que as obras dos fundadores da tradição marxista talvez possam ser extremamente atuais. Aquilo defendido nelas também. No entanto, a visão de mundo corporificada no "marxismo oficial" dos partidos ligados à extinta URSS certamente perdeu sua força. O marxismo, assim, pode não estar morto, mas o stalinismo está.

Papel do Direito 
As duas principais - embora não as únicas - formas pelas quais a esquerda se articulou no século XX foram, de um lado, a social-democracia, no Ocidente, e de outro lado o "comunismo", de molde soviético.

A primeira tradição primou pela universalização dos direitos sociais, do direito ao trabalho e dos direitos civis, buscando diminuir as desigualdades sociais no terreno capitalista. Eventualmente, chegou a ponderar uma transição gradual e progressiva ao socialismo. Doutro lado, aqueles que tiveram a URSS e a transição revolucionária ao socialismo ("em um só país", como defendeu Josef Stalin) por modelo, primaram pela propriedade estatal dos meios de produção, o que, supostamente, configuraria a coletivização da produção social. Desta última perspectiva, seria central a busca de um Direito socialista, não mais calcado na propriedade privada, mas na propriedade coletiva.

Socialismo jurídico » Concepção de mundo surgida no final do século XIX, segundo a qual a regulamentação jurídica da sociedade seria capaz de suprimir os vícios decorrentes do modo de produção capitalista.

Por conseguinte, a primeira questão a observar é o papel que desempenhou o Direito nessas concepções: ele foi central. A esfera jurídica foi considerada "instrumental" tanto para a ampliação das conquistas social-democratas como na regulamentação da propriedade juridicamente coletiva. A esquerda, pois, permaneceu, em grande parte, no "terreno do Direito". Fez justamente aquilo que Engels criticou ainda no século XIX, em sua obra O Socialismo Jurídico.

Isso dito, é preciso apontar que tanto os social-democratas como o marxismo oficial nominalmente apoiaram-se em Marx, assim disse o maior colaborador do autor alemão: "O direito jurídico, que apenas reflete as condições econômicas de determinada sociedade, ocupa posição muito secundária nas pesquisas teóricas de Marx" (ENGELS; KAUTSKY, 2012, p. 34).


É preciso notar que as obras dos fundadores da tradição marxista talvez possam ser extremamente atuais

Há duas hipóteses a considerar: ou a esquerda não podia buscar auxílio no autor de O Capital, ou essa esquerda não soube, não pôde (ou não quis) compreender de modo adequado a teoria em que se baseou. Sobre essas hipóteses, é bom lembrar que o próprio Marx, em sua Crítica ao Programa de Gotha, teceu comentários ácidos acerca do movimento socialista de sua época, movimento esse que buscava o chamado "direito ao fruto integral do trabalho": "O socialismo vulgar (e a partir dele, por sua vez, uma parte da democracia) herdou da economia burguesa o procedimento de considerar e tratar a distribuição como algo independente do modo de produção e, por conseguinte, de expor o socialismo como uma doutrina que gira principalmente em torno da distribuição" (MARX, 2012, p. 33).
O socialismo que triunfou no século XX, ainda que de modo limitado, foi o que, em prol da coletividade, teve uma regulamentação jurídica da produção e da distribuição confundida com o socialismo


Na passagem, Marx critica aqueles que, tal qual a social-democracia do século XX, não buscaram a transformação substancial da produção social, deixando intocados os alicerces da relação-capital e: "o processo que cria a relação-capital não pode ser outra coisa que não o processo de separação entre o trabalhador e a propriedade das suas condições de trabalho, um processo que, por um lado, transforma os meios sociais de subsistência e de produção em capital, por outro, os produtores imediatos em operários assalariados" (MARX, 1988, p. 252).

Caso se queira falar em socialismo, seria preciso, segundo o autor, superar a separação entre o trabalhador e suas condições de vida. É sobre essa base que se assenta o modo de produção capitalista, tendo por tarefa essencial à política anticapitalista a supressão daquilo que Marx chamou acima de relação-capital.

O autor de O Capital defende a transformação das bases da produção social. E, aqui, já se pode dizer: aqueles que entendem a distribuição de renda como uma medida socialista, como os militantes que o autor alemão criticava, deixariam justamente aquilo que precisaria ser questionado intacto. Tratar de "expor o socialismo como uma doutrina que gira principalmente em torno da distribuição" seria um erro crasso, pois. Dando-se independência à distribuição ter-se-ia, na melhor das hipóteses, um "socialismo vulgar". Portanto, aos olhos do autor, a tradição social-democrata pode ser vista como aquela que, juntamente com parte dos "democratas" de sua época, "herdou da economia burguesa" equívocos que precisam ser ultrapassados por aqueles que buscam um socialismo digno de tal nome.

Essa busca somente seria possível com a supressão da relação-capital. E nesse último ponto é preciso apontar: as duas passagens de Marx mencionadas logo acima não atingem só a esquerda social-democrata. Os autointitulados comunistas não passam incólumes às críticas do autor.

As duas principais formas pelas quais a esquerda se articulou no século XX foram a social-democracia e o "comunismo" soviético

Trabalhador x propriedade
Na URSS, muito embora possam ter ocorrido alguns avanços em pontos específicos, como saúde e educação, a "separação entre o trabalhador e a propriedade das suas condições de trabalho" permaneceu. Continuaram a existir "meios sociais de subsistência e de produção" como capital, e "produtores imediatos" como "operários assalariados" - por conseguinte, a relação-capital permaneceu nas sociedades de tipo soviético. E, da perspectiva marxista, talvez se possa dizer que esse tenha sido o problema fundamental dessas sociedades.
A social-democracia primou pela universalização dos direitos sociais, do direito ao trabalho e dos direitos civis, buscando diminuir as desigualdades sociais do capitalismo e ponderando uma transição gradual e progressiva ao socialismo

A fonte das vicissitudes da sociedade capitalista, mesmo que modificada, esteve presente de modo que, ao final, o socialismo do tipo soviético girou, principalmente, "em torno da distribuição".
Direito: impensável além do capital

Ser radical é tomar as coisas pela raiz. Segundo o marxismo, no capitalismo, a raiz, a base da sociedade, está assentada na perpetuação da relação-capital. Uma crítica radical, pois, tem consigo busca da supressão da mencionada relação. E essa última traz consigo as figuras do burguês e do trabalhador assalariado.

O assalariamento, por sua vez, pressupõe tanto a relaçãocapital como o mercado. No caso, o mercado de trabalho, no qual a força de trabalho é uma mercadoria como outra qualquer. Em uma crítica marxista verdadeira é preciso considerar a mercantilização da vida cotidiana - nesta última, na sociedade capitalista, o homem aparece reduzido a uma engrenagem na reprodução social. Para que essa crítica possa ter fundamentos sólidos, é bom entender os mecanismos capitalistas em sua complexidade, a qual envolve a esfera jurídica. "O desenvolvimento pleno do intercâmbio de mercadorias em escala social - isto é, por meio da concessão de incentivos e créditos - engendra complicadas relações contratuais recíprocas e exige regras universalmente válidas, que só poderiam ser estabelecidas pela comunidade - normas jurídicas estabelecidas pelo Estado. [...] Além disso, uma vez que a concorrência, forma fundamental das relações entre livres produtores de mercadorias, é a grande niveladora, a igualdade jurídica tornou-se o principal brado de guerra da burguesia" (ENGELS; KAUTSKY, 2012, p. 19).

A expansão do mercado em escala tendencialmente universal é uma exigência da produção capitalista. Ela traz consigo o domínio político do Estado e a regulamentação do Direito, os quais darão uma veste jurídica ao caráter universal do mercado.

Os indivíduos passam a se deparar com seus semelhantes como concorrentes potenciais, sendo, a despeito de suas diferenças reais, considerados "livres produtores de mercadorias" e "iguais" perante o Direito. Na esfera jurídica, pois, têm-se a igualdade e a liberdade, grandes ideias da burguesia em sua fase ascensional e revolucionária (basta pensar na Revolução Francesa) como essenciais.

No entanto, esses ideais, segundo Engels, estão realizados na própria sociedade capitalista - não são incompatíveis com a dominação. Antes, são componentes da igualdade e da liberdade jurídicas, as quais dizem respeito, em verdade, à concorrência, à situação do homem como vendedor de mercadorias. Portanto, os ideais mencionados, ao menos na forma como aparecem no discurso burguês, têm um solo específico, aquele da produção capitalista. Eles não podem ultrapassar esse solo.

Com a concorrência, "a igualdade jurídica tornou-se o principal brado de guerra da burguesia" porque a "concessão de incentivos e créditos" e a compra da força de trabalho alheia sustentam a relação entre trabalho e capital, e essa relação configura o burguês como tal. Vê-se, assim, que a defesa do discurso jurídico liga-se à consolidação da ordem capitalista. Porém, não é só: dado que o papel central do Direito é essencial no encobrimento das desigualdades reais presentes na sociedade, segundo Engels, a "concepção jurídica de mundo" torna-se clássica para a burguesia. "A bandeira religiosa tremulou pela última vez na Inglaterra no século XVII, e menos de cinquenta anos mais tarde aparecia na França, sem disfarces, a nova concepção de mundo, fadada a se tornar clássica para a burguesia, a concepção jurídica de mundo" (ENGELS; KAUTSKY, 2012, p. 18).

Se a concepção religiosa fora "clássica" para a nobreza, a concepção jurídica assim pode ser considerada para a burguesia. Tem-se uma "nova concepção de mundo". Ela tem seu solo nas relações econômicas engendradas na separação entre o trabalhador e os meios de produção. Está também relacionada com a consolidação do trabalho assalariado em escala tendencialmente universal. Tratase de uma concepção de mundo que visava à preservação da nova ordem tal qual a visão teológica buscara preservar a ordem feudal: "trata-se da secularização da visão teológica. O dogma e o direito divino eram substituídos pelo direito humano, e a Igreja pelo Estado" (ENGELS, KAUTSKY, 2012, p. 18).

Para Engels, pois, o Direito tem uma função essencialmente conservadora na sociedade capitalista. Ele mascara as relações reais, dando a elas uma veste de "igualdade" e de "liberdade" - por conseguinte, para aqueles que buscam uma crítica radical ao capitalismo, vale aquilo que György Lukács disse: é preciso "afirmar, teórica e praticamente, a prioridade do conteúdo político-social em relação à forma jurídica" (LUKÁCS, 2007, p. 57). O autor de O Socialismo Jurídico, inclusive, é explícito quando se trata da necessidade da crítica à concepção jurídica de mundo por parte daqueles engajados no movimento dos trabalhadores. "A classe trabalhadora [...] não pode exprimir plenamente a própria condição de vida na ilusão jurídica da burguesia. Só pode conhecer plenamente essa condição se enxergar a realidade das coisas, sem as coloridas lentes da burguesia" (ENGELS; KAUTSKY, 2012, p. 21).

A concepção jurídica de mundo, pois, é indissociável do domínio capitalista, sendo incapaz de ir "além do capital".


Conclui-se, desse modo, que em ambas as figuras pelas quais a esquerda se apresentou preponderantemente no século XX, como disse Engels acerca do socialismo jurídico, deixou-se - mesmo que com tensões que não podem ser analisadas aqui - "de modo mais ou menos intacto o cerne do problema, a transformação do modo de produção" (ENGELS; KAUTSKY, 2012, p. 20).

Em ambos os casos mencionados se permaneceu, em grande parte, no nível da distribuição de bens e de renda. A superação da relação-capital (com a consequente transformação real do modo de produção) acabou sendo vista, no melhor dos casos, como uma tarefa futura. Pode-se dizer que a espécie de socialismo que triunfou de modo limitado no século XX foi aquele que Marx chamou de "vulgar" - nele a regulamentação jurídica da produção e da distribuição, em teoria, em prol da coletividade, foi confundida com o socialismo.

Portanto, deve-se perceber que uma crítica às experiências passadas pode vir da direita ou da esquerda - o século XXI vem sendo aquele do triunfo do neoliberalismo, da crítica de direita. Assim, é preciso ver a crítica marxista também. Ela, em considerável parte, baseia-se na crítica à "total incapacidade de compreender aquilo que ultrapasse o estreito horizonte jurídico" (ENGELS; KAUTSKY, 2012, p. 35). Ou seja, tem-se postura contrária tanto ao capitalismo como às formas ilusórias de superá- lo, como o socialismo vulgar.

A postura marxista é radical, certamente - busca a transformação substantiva da tessitura da sociedade. No entanto, diante de uma sociedade em que o "socialismo real", a social-democracia e o projeto neoliberal foram golpeados de modo sério, o radicalismo consequente talvez seja proveitoso.
Marx teceu comentários ácidos acerca do movimento socialista de sua época, que herdou da economia burguesa o procedimento de considerar e tratar a distribuição como algo independente do modo de produção


O marxismo hoje 
Agora já se pode dizer: tanto a socialdemocracia como o "socialismo real" ficaram vinculados, mesmo que com tensões, ao domínio do capital. Ou seja, seguindo Marx e Engels, ao contrário do que se diz muitas vezes hoje, a esquerda não fracassou por querer demais.

O que O Socialismo Jurídico esclarece para o presente não diz respeito só à necessidade da crítica à "concepção jurídica de mundo"; a obra deixa claro que sem a radicalidade não há crítica verdadeira ao capitalismo. Quando se trata de "transformação do modo de produção", não há meio termo. A busca de uma sociedade mais humana, uma sociedade emancipada, não vem com as conquistas parciais que pressupõe o capitalismo; também não parte pela mera mudança do regime de propriedade (da propriedade juridicamente individual para a propriedade coletivo-estatal).

Pode-se dizer que a espécie de socialismo que triunfou de modo limitado no século XX foi aquele que Marx chamou de "vulgar"

A teoria marxista pode ser mais atual do que nunca por ser a única capaz de ir às raízes dos problemas que afligem a vida do homem da sociedade capitalista. Diante do fracasso relativo da esquerda do século XX e das desigualdades e distorções geradas pelo neoliberalismo, a mencionada obra de Engels pode nos fazer questionar os próprios fundamentos da sociedade contemporânea - esse seria o único caminho para um mundo essencial e verdadeiramente melhor.

* Vitor Bartoletti Sartori é mestre em História pela PUC-SP, doutorando em Filosofia do Direito pela USP e autor do livroLukács e a Crítica Ontológica ao Direito.

Referências 
ENGELS, Friedrich; KAUTSKY, Karl. O Socialismo Jurídico. Trad. de Márcio Naves e Lívia Cotrim. São Paulo: Boitempo, 2012.

LUKÁCS, György. O Jovem Marx e Outros Escritos Filosóficos. Trad. de Carlos Nelson Coutinho e José Paulo Netto. Rio de Janeiro: UFRJ, 2007.

MARX, Karl. Crítica ao Programa de Gotha. Trad. de Rubens Enderle. São Paulo: Boitempo, 2012.

_______. O Capital. Vol. II. Trad. de Regis Barbosa e Flávio R. Kothe. São Paulo: Nova Cultural, 1988.

MÉSZÁROS, István. Para Além do Capital: Rumo a uma Teoria da Transição. Trad. de Paulo Cezar Castanheda e Sérgio Lessa. São Paulo: Boitempo, 2002
Revista Sociologia

terça-feira, 9 de outubro de 2012

O DESAFIO DA RAZÃO: MANIFESTO PARA A RENOVAÇÃO DA HISTÓRIA


Eric Hobsbawm
É tempo de restabelecer a coalizão daqueles que desejam ver na história uma pesquisa racional sobre o curso das transformações humanas, contra aqueles que a deformam sistematicamente com fins políticos e simultaneamente, de modo mais geral, contra os relativistas e os pós-modernos que se recusam a admitir que a história oferece essa possibilidade. A análise é de Eric Hobsbawm.

"Até agora, os filósofos não fizeram mais do que interpretar o mundo; trata-se de mudá-lo." Os dois enunciados da célebre "Teses sobre Feuerbach", de Karl Marx, inspiraram os historiadores marxistas. A maioria dos intelectuais que aderiram ao marxismo a partir da década de 1880 —entre eles os historiadores marxistas— fizeram isso porque queriam mudar o mundo, junto com os movimentos operários e socialistas; movimentos que se transformariam, em grande medida devido à influência do marxismo, em forças políticas de massas.

Essa cooperação orientou de maneira natural os historiadores que queriam transformar o mundo na direção de certos campos de estudo —fundamentalmente, a história do povo ou da população operária— os quais, se bem atraíam naturalmente as pessoas de esquerda, não tinham em sua origem nenhuma relação particular com uma interpretação marxista. Por outro lado, quando esses intelectuais deixaram de ser revolucionários sociais, a partir da década de 1890, com freqüência também deixaram de ser marxistas. 

A revolução soviética de outubro de 1917 reavivou esse compromisso. Lembremos que os principais partidos social-democratas da Europa continental abandonaram completamente o marxismo apenas na década de 1950, e às vezes ainda depois disso. Essa revolução gerou, também, o que poderíamos chamar de uma historiografia marxista obrigatória na URSS e nos Estados, que depois foi adotada por regimes comunistas. A motivação militante foi reforçada durante o período do antifascismo. 

A partir da década de 1950 essa tendência começou a decair nos países desenvolvidos —mas não no Terceiro Mundo— apesar de que o considerável desenvolvimento do ensino universitário e a agitação estudantil geraram, dentro da universidade, na década de 1960, um novo e importante contingente de pessoas decididas a mudar o mundo. Contudo, apesar de desejar uma mudança radical, muitas delas já não eram abertamente marxistas, e algumas já não eram marxistas em absoluto. 

Esse ressurgimento culminou na década de 1970, pouco antes do início de uma reação massiva contra o marxismo, mais uma vez por razões essencialmente políticas. Essa reação teve como principal efeito —exceto para os liberais, que ainda acreditam nisso— o aniquilamento da idéia de que é possível predizer, apoiados na análise histórica, o sucesso de uma forma particular de organizar a sociedade humana. A história havia se dissociado da teleologia. 

Considerando as incertas perspectivas que se apresentam aos movimentos socialdemocratas e social-revolucionários, não é provável que assistamos a uma nova onda politicamente motivada de adesão ao marxismo. Mas devemos evitar cair em um centrismo ocidental excessivo. A julgar pela demanda de que são objeto meus próprios livros de história, comprovo que ela se desenvolve na Coréia do Sul e em Taiwan, desde a década de 1980, na Turquia, desde a década de 1990, e que há sinais de que atualmente avança no mundo árabe. 

A virada social 
O que aconteceu com a dimensão "interpretação do mundo" do marxismo? A história é um pouco diferente, ainda que paralela. Concerne ao crescimento do que se pode chamar de reação anti-Ranke, da qual o marxismo constituiu um elemento importante, apesar de que isso nem sempre foi totalmente reconhecido. Tratou-se de um movimento duplo. 

Por um lado, esse movimento questionava a idéia positivista segundo a qual a estrutura objetiva da realidade era, por assim dizer, evidente: bastava com aplicar a metodologia da ciência, explicar por que as coisas tinham ocorrido de tal ou qual maneira e descobrir wie es eigentlich gewessen (como ocorreu realmente). Para todos os historiadores, a historiografia se manteve e se mantém enraizada em uma realidade objetiva, ou seja, a realidade do que ocorreu no passado; contudo, não está baseada em fatos e, sim, em problemas, e exige investigação para compreender como e por que esses problemas —paradigmas e conceitos— são formulados da maneira em que são o em tradições históricas e em meios socioculturais diferentes. 

Por outro lado, esse movimento tentava aproximar as ciências sociais da história e, em conseqüência, englobá-las em uma disciplina geral, capaz de explicar as transformações da sociedade humana. Segundo a expressão de Lawrence Stone, o objeto da história deveria ser "propor as grandes perguntas do por quê". Essa "virada social" não veio da historiografia, senão das ciências sociais —algumas delas incipientes como tais— que naquele momento firmavam-se como disciplinas evolucionistas, ou seja, históricas. 

Na medida em que é possível considerar Marx como o pai da sociologia do conhecimento, o marxismo —apesar de ter sido denunciado erradamente em nome de um suposto objetivismo cego— contribuiu para dar o primeiro aspecto desse movimento. Além disso, o impacto mais conhecido das idéias marxistas —a importância outorgada aos fatores econômicos e sociais— não era especificamente marxista, ainda que a análise marxista pesou nessa orientação, que estava inscrita em um movimento historiográfico geral, visível a partir da década de 1890, e que culminou nas décadas de 1950 e 1960, para benefício da geração de historiadores à qual pertenço, que teve a possibilidade de transformar a disciplina. 

Essa corrente socio-econômica superava o marxismo. A criação de revistas e instituições de história econômico-social às vezes foi obra —como na Alemanha— de socialdemocratas marxistas, como ocorreu com a revista Vierteljahrschrift em 1893. Não aconteceu da mesma maneira na Grã Bretanha, nem na França, nem nos Estados Unidos. E inclusive na Alemanha, a escola de economia, marcadamente histórica, não tinha nada de marxismo. Somente no Terceiro Mundo do século XIX (Rússia e os Balcãs) e no do século XX, a história econômica adotou uma orientação principalmente social-revolucionária, como toda "ciência social". Em conseqüência disto, foi muito atraída por Marx.

Em todos os casos, o interesse histórico dos historiadores marxistas não se centrou tanto na "base" (a infra-estrutura econômica) como nas relações entre a base e a superestrutura. Os historiadores explicitamente marxistas sempre foram relativamente escassos. 

Marx influenciou a história principalmente através dos historiadores e dos pesquisadores em ciências sociais que retomaram as questões que ele colocava, tenham eles trazido, ou não, outras respostas. Por sua vez, a historiografia marxista avançou muito em relação ao que era na época de Karl Kautsky e de Georgi Plekhanov, em boa parte graças à sua fertilização por outras disciplinas (fundamentalmente a antropologia social) e por pensadores influenciados por Marx e que completavam seu pensamento, como Max Weber. 

Se destaco o caráter geral dessa corrente historiográfica, não é por vontade de subestimar as divergências que contém, ou que existiam no seio de seus componentes. Os modernizadores da história colocaram-se as mesmas questões e consideravam-se comprometidos nos mesmos combates intelectuais, seja que tenham buscado inspiração na geografia humana, na sociologia durkheimiana e nas estatísticas, como na França (simultaneamente, a escola dos Anais e Labrousse), ou na sociologia weberiana, como a Historische Sozialwissenschaft na Alemanha Federal, ou mesmo no marxismo dos historiadores do Partido Comunista, que foram os vectores da modernização da história na Grã Bretanha, ou que, pelo menos, fundaram sua principal revista. 

Uns e outros consideravam-se aliados contra o conservadorismo na história, mesmo quando suas posições políticas ou ideológicas eram antagônicas, como Michael Postan e seus alunos marxistas britânicos. Essa coalizão progressista encontrou expressão exemplar na revista Past & Pressent, fundada em 1952, muito respeitada no ambiente dos historiadores. O sucesso dessa publicação foi devido que os jovens marxistas que a fundaram opuseram-se deliberadamente à exclusividade ideológica, e a que os jovens modernizadores provenientes de outros horizontes ideológicos estavam dispostos a juntar-se a eles, uma vez que sabiam que as diferenças ideológicas e políticas não eram um obstáculo para o trabalho conjunto.

Essa frente progressista avançou de maneira espetacular entre o final da Segunda Guerra Mundial e a década de 1970, naquilo que Lawrence Stone denomina "o amplo conjunto de transformações na natureza do discurso histórico". Isso até a crise de 1985, quando ocorreu a transição dos estudos quantitativos para os estudos qualitativos, da macro para a micro-história, das análises estruturais aos relatos, do social para os temas culturais. Desde então, a coalizão modernizadora está na defensiva, igual que seus componentes não marxistas, como a história econômica e social. 

Na década de 1970, a corrente dominante em história tinha sofrido uma transformação tão grande, especialmente sob a influência das "grandes questões" colocadas ao modo de Marx, que escrevi estas linhas: "Com freqüência é impossível dizer se um livro foi escrito por um marxista ou por um não-marxista, a menos que o autor anuncie sua posição ideológica. Espero com impaciência o dia em que ninguém se pergunte se os autores são marxistas ou não". Mas, como também apontava, estávamos longe de semelhante utopia.

Desde então, pelo contrário, foi necessário sublinhar com maior energia qual pode ser a contribuição do marxismo para a historiografia. Coisa que não acontecia há muito tempo. Também porque é preciso defender a história contra aqueles que negam sua capacidade de ajudar-nos a compreender o mundo, e porque novos desenvolvimentos científicos transformaram completamente o calendário historiográfico. 

No plano metodológico, o fenômeno negativo mais importante foi a edificação de uma série de barreiras entre o que ocorreu, ou o que ocorre, em história e nossa capacidade para observar esses fatos e entendê-los. Esses bloqueios obedecem à recusa em admitir que existe uma realidade objetiva, e não construída pelo observador com fins diversos e mutáveis, ou ao fato de afirmar que somos incapazes de superar os limites da linguagem, ou seja, dos conceitos, que são o único meio que temos para poder falar do mundo, incluindo o passado. 

Essa visão elimina a questão de saber se existem esquemas e regularidades no passado, a partir dos quais o historiador pode formular propostas significativas. Contudo, também há razões menos teóricas que levam a essa recusa: argumenta-se que o curso do passado é contingente demais, ou seja, que é preciso excluir as generalizações, uma vez que praticamente tudo poderia ocorrer ou teria podido ocorrer. De modo implícito, esses argumentos miram todas as ciências. Vamos passar por alto tentativas mais fúteis de voltar a velhos conceitos: atribuir o curso da história a altos responsáveis políticos ou militares, ou à onipotência das idéias ou dos "valores"; reduzir a erudição histórica à busca —importante mas em si insuficiente— de uma empatia com o passado. 

O grande perigo político imediato que ameaça a historiografia atual é o "antiuniversalismo": "minha verdade é tão válida quanto a sua, independente dos fatos". Esse antiuniversalismo seduz naturalmente a história dos grupos identitários em suas diferentes formas, para a qual o objeto essencial da história não é o que ocorreu, mas como isso que ocorreu afeta os membros de um grupo em particular. De modo geral, o que conta para esse tipo de história não é a explicação racional, mas a "significação"; não o que ocorreu, mas como sentem o que ocorreu os membros de uma coletividade que se define por oposição às demais em termos de religião, de etnia, de nação, de sexo, de modo de vida, ou de outras características. 

O relativismo exerce atração sobre a história dos grupos identitários. Por diferentes razões, a invenção massiva de contra-verdades históricas e de mitos, outras tantas tergiversações ditadas pela emoção, alcançou uma verdadeira época de ouro nos últimos trinta anos. Alguns desses mitos representam um perigo público —em países como a Índia durante o governo hinduísta, nos Estados Unidos e na Itália de Silvio Berlusconi, para não mencionar muitos outros dos novos nacionalismos, acompanhados ou não de manifestações de integrismo religioso. 

De qualquer modo, se por um lado esse fenômeno deu lugar a muito palavrório e bobagens nas margens mais longínquas da história de grupos específicos —nacionalistas, feministas, gays, negros e outros— por outro, gerou desenvolvimentos históricos inéditos e extremamente interessantes no campo dos estudos culturais, como o "boom da memória nos estudos históricos contemporâneos", como Jay Winter o denomina. Os Lugares de Memória, coordenados por Pierre Nora, é um bom exemplo. 

Reconstruir a frente da razão 
Diante de todos esses desvios, é tempo de restabelecer a coalizão daqueles que desejam ver na história uma pesquisa racional sobre o curso das transformações humanas, contra aqueles que a deformam sistematicamente com fins políticos e simultaneamente, de modo mais geral, contra os relativistas e os pós-modernos que se recusam a admitir que a história oferece essa possibilidade. Dado que entre esses relativistas e pós-modernos há quem se considere de esquerda, poderiam surgir inesperadas divergências políticas capazes de dividir os historiadores. 

Portanto, o ponto de vista marxista é um elemento necessário para a reconstrução da frente da razão, como foi nas décadas de 1950 e 1960. De fato, a contribuição marxista provavelmente seja ainda mais pertinente agora, dado que os outros componentes da coalizão dessa época renunciaram, como a escola dos Anais de Fernand Braudel e a "antropologia social estrutural-funcional", cuja influência entre os historiadores foi tão importante. Esta disciplina foi particularmente perturbada pela avalanche em direção à subjetividade pós-moderna. 

Contudo, enquanto os pós-modernos negavam a possibilidade de uma compreensão histórica, os avanços nas ciências naturais devolviam à história evolucionista da humanidade toda sua atualidade, sem que os historiadores percebessem cabalmente. E isto de duas maneiras. Em primeiro lugar, a análise do DNA estabeleceu uma cronologia mais sólida do desenvolvimento desde o aparecimento do homo sapiens como espécie. Em particular, a cronologia da expansão dessa espécie originaria da África para o resto do mundo, e dos desenvolvimentos posteriores, antes do aparecimento de fontes escritas. Ao mesmo tempo, isso evidenciou a surpreendente brevidade da história humana —segundo critérios geológicos e paleontológicos— e eliminou a solução reducionista da sociobiologia darwiniana. 

As transformações da vida humana, coletiva e individual, durante os últimos dez mil anos, e particularmente durante as dez últimas gerações, são consideráveis demais para serem explicadas por um mecanismo de evolução inteiramente darwiniano, pelos genes. Essas transformações correspondem a uma aceleração na transmissão das características adquiridas por mecanismos culturais e não genéticos; poderia dizer-se que se trata da revanche de Lamarck contra Darwin, através da história humana. E não serve de muito disfarçar o fenômeno com metáforas biológicas, falando de "memes" ao invés de "genes". O patrimônio cultural e o biológico não funcionam da mesma maneira. 

Em síntese, a revolução do DNA requer um método particular, histórico, de estudo da evolução da espécie humana. Além disso, vale a pena mencioná-lo, proporciona um marco racional para a elaboração de uma história do mundo. Uma história que considere o planeta em toda a sua complexidade como unidade dos estudos históricos, e não como um entorno particular ou uma região determinada. Em outras palavras: a história é a continuação da evolução biológica do homo sapiens por outros meios. 

Em segundo lugar, a nova biologia evolucionista elimina a estrita distinção entre história e ciências naturais, já eliminada em grande medida pela "historicização" sistemática destas ciências nas últimas décadas. Luigi Luca Cavalli-Sforza, um dos pioneiros multidisciplinares da revolução DNA, fala do "prazer intelectual de encontrar tantas semelhanças entre campos de estudo tão diferentes, alguns dos quais pertencem tradicionalmente aos pólos opostos da cultura: a ciência e as humanidades". Em síntese, essa nova biologia nos liberta do falso debate sobre o problema de saber se a história é ou não uma ciência. 

Em terceiro lugar, ela nos leva inevitavelmente para a visão de base da evolução humana adotada pelos arqueólogos e os pré-historiadores, que consiste em estudar os modos de interação entre nossa espécie e seu meio ambiente, alem do crescente controle que ela exerce sobre esse meio. O que eqüivale essencialmente a fazer as perguntas que já fazia Karl Marx.

Os "modos de produção" (seja qual for o nome que se quiser dar-lhes) baseados em grandes inovações da tecnologia produtiva, das comunicações e da organização social —e também do poder militar— são o núcleo da evolução humana. Essas inovações, e Marx era consciente disso, não ocorreram e não ocorrem por elas mesmas. As forças materiais e culturais e as relações de produção são inseparáveis; são as atividades de homens e mulheres que constroem sua própria história, mas não no "vácuo", não fora da vida material, nem fora do seu passado histórico. 

Do neolítico à era nuclear 
Consequentemente, as novas perspectivas para a história também devem nos levar a essa meta essencial de quem estuda o passado, mesmo que nunca seja cabalmente realizável: "a história total". Não "a história de tudo", mas a história como uma tela indivisível onde todas as atividades humanas estão interconectadas. Os marxistas não são os únicos que se propuseram esse objetivo —Fernand Braudel também fez isso— mas foram eles que o perseguiram com mais tenacidade, como dizia um deles, Pierre Vilar. 

Entre as questões importantes que suscitam estas novas perspectivas, a que nos leva à evolução histórica do homem é essencial. Trata-se do conflito entre as forças responsáveis pela transformação do homo sapiens, desde a humanidade do neolítico até a humanidade nuclear, por um lado, e por outro, as forças que mantêm imutáveis a reprodução e a estabilidade das coletividades humanas ou dos meios sociais, e que durante a maior parte da história as neutralizaram eficazmente. Essa questão teórica é central.

O equilíbrio de forças inclina-se de maneira decisiva em uma direção. E esse desequilíbrio, que talvez supere a capacidade de compreensão dos seres humanos, supera com certeza a capacidade de controle das instituições sociais e políticas humanas. Os historiadores marxistas, que não entenderam as conseqüências involuntárias e não desejadas dos projetos coletivos humanos do século XX, talvez possam, desta vez, enriquecidos por sua experiência prática, ajudar a compreender como chegamos à situação atual.

Eric Hobsbawm
Carta Maior
Tradução: Naila Freitas / Verso Tradutores

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Desafios, limites e novas pistas no retorno de Marx


Platéia na última edição do Colóquio Internacional Marx e Engels, realizado na Unicamp entre 6 e 9 de novembro (Foto: Divulgação)
Em outubro 1997, quando as bolsas de valores de Hong Kong começavam a cair alimentando uma espiral de pânico e crashes, John Cassidy narrou nas páginas da cultuada revista New Yorker um interessante diálogo que manteve com um amigo seu, executivo de um grande banco de investimentos em Wall Street. “Quanto mais tempo passo em Wall Street mais convencido fico de que Marx estava certo”, disse o executivo. Vários pânicos e crashes depois, em março de 2005, o Financial Times comentava que Colin Graham, da Merrill Lynch Investment Management, aconselhava seus ouvintes a terem cautela com os hedge funds relembrando o que havia aprendido em seus primeiros dias na empresa justamente naquele fatídico outubro de 1997: “nosso chefe saiu e comprou Das Kapital para ver o que ocorreria quando o capitalismo ruísse.”


As vozes provenientes dos lugares mais inesperados anunciando que Marx estava vivo se tornaram mais fortes e numerosas nos últimos anos. Repetidamente, o autor d’O capital foi interpretado por inesperados leitores como um profeta da globalização, um arauto do colapso do capitalismo ou um defensor do determinismo econômico. Mas não foi apenas por leitores apressados – e amedrontados – que Marx foi lembrado. A reemergência do conflito social e os movimentos altermundialistas de resistência às políticas neoliberais encontraram muitas vezes na obra de Marx um ponto de apoio e uma fonte de inspiração. A retomada da mobilização sindical na Europa a partir de 1995; os protestos que tiveram lugar depois da manifestação de Seattle por ocasião da reunião da Organização Mundial do Comércio, em 1999; a organização do Fórum Social Mundial a partir de 2001; e os levantes populares que ocorreram na Argentina, Equador e Bolívia, nos primeiros anos deste século, desenharam um contexto favorável à difusão da teoria marxista.


Revalorização internacional
Desde que sua enésima morte foi anunciada, imediatamente após a queda do muro de Berlim, jovens pesquisadores (e outros nem tanto) se puseram a trabalhar sobre as ruínas de uma apropriação dogmática do marxismo. A crítica à transformação pelo stalinismo do marxismo em uma ideologia de Estado implicava encarar o desafio de uma reconstrução crítica do pensamento de Marx. 

Aos poucos o trabalho desses pesquisadores assentou as bases para uma lenta, mas segura revalorização da obra de Marx na qual as certezas eram deixadas de lado para abrir lugar à pesquisa paciente e rigorosa. Já em meio aos escombros era possível vislumbrar esse trabalho, mas ele começou a emergir e a tornar-se mais visível em 1995 com a realização do Congrès Marx International, organizado pela revista Actuel Marx. Em sua primeira edição o congresso aglutinou cerca de cem revistas e instituições constituindo uma rede plural de pesquisadores. Um ano depois, teve lugar na University of Massachusetts-Amherst, no Estados Unidos, a conferência Politics and Languages of Contemporary Marxism, organizada pela Association for Economic and Social Analysis e pela revista Rethinking Marxism. 

O Congrès Marx International realizou em 2007 seu quinto encontro, mesmo número de edições que a Rethinking Marxism Conference completou no ano anterior. Mais recentemente, a revista britânica Historical Materialism, publicada desde 1997, iniciou uma importante série de conferências anuais. Também merece destaque o evento, embora de menor dimensão, organizado em 2006 pela revista Capital & Class, também na Inglaterra, bem como a URPE Summer Conference, que tem lugar anualmente desde 2001 nos Estados Unidos, promovida pela Union of Radical Political Economics.


A experiência do Cemarx
O desenvolvimento dessa revalorização da obra de Marx seguiu no Brasil um ritmo desigual e combinado. A ascensão às esferas de poder nacionais e subnacionais de partidos e lideranças políticas que em algum momento tiveram o marxismo como uma referência produziu um fenômeno de transformismo de intelectuais que passaram a ocupar posições nos aparelhos de Estado abandonando uma perspectiva crítica. Contraditoriamente foi na tentativa de compreender o que estava ocorrendo no Brasil e no mundo que o marxismo foi novamente convocado a ocupar um lugar de destaque no debate contemporâneo. As universidades brasileiras não são o locus exclusivo dessa revalorização, mas têm, sem dúvida, um importante papel. 

Expressões desse movimento são as atividades do Centro de Estudos Marxistas (Cemarx), sediado no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas e a organização por esse Centro do Colóquio Internacional Marx e Engels. Desde 1999 o Colóquio é realizado bianualmente, reunindo pesquisadores de todo o país e convidados internacionais que assumem o pensamento de Marx e Engels como um objeto de pesquisa e/ou como um método de investigação. A evolução desse evento surpreende. No 1º Colóquio, em 1999, foram apresentados 31 trabalhos. Em sua 5º edição realizada entre 6 e 9 de novembro de 2007, inscreveram-se 300 comunicações e 100 painéis e foram selecionados para participar do evento 160 comunicações e 73 painéis. 
Experiências similares, algumas delas explicitamente inspiradas no Cemarx, começam a surgir em outras universidades. Na Universidade Federal do Rio de Janeiro, os professores Aloísio Teixeira e José Ricardo Tauile, falecido em 2005, criaram no Instituto de Economia o Laboratório de Estudos Marxistas. Na Universidade do Estado da Bahia, foi fundado em 2006 um centro de estudos homônimo ao da Unicamp. Em 2007 tiveram início as atividades do Núcleo Interdisciplinar de Estudos e Pesquisas sobre Marx e o Marxismo na Universidade Federal Fluminense. Na Universidade de São Paulo foi realizado, neste ano, sob a iniciativa dos professores Ricardo Musse e Ruy Braga, ambos do Departamento de Sociologia, o 1º Colóquio Marx e os Marxismos. Também em 2007 ocorreu em Salvador o 3º Encontro Brasileiro de Educação e Marxismo, reunindo quase mil participantes. 
O marxismo tem marcado presença também nas associações nacionais de pesquisa e pós-graduação. Merecem destaque o Grupo de Trabalho Marxismo, ativo desde 2003 na Associação Nacional de Pós-graduação em Filosofia; o Simpósio Marxismo e Multidisciplinaridade realizado em 2007 no espaço da Associação Nacional de História; e o Seminário Temático Marxismo e Ciências Sociais, realizado no 31º Encontro da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais, em 2007. 

Por último caberia citar a intensa atividade editorial que tem distinguido a recente evolução do marxismo brasileiro. Revistas como Crítica Marxista, Outubro, Margem Esquerda e Novos Rumos já se encontram plenamente consolidadas, deixando para trás uma longa linhagem de publicações efêmeras ou esporádicas. A publicação de novas edições de obras de Marx pelas editoras Civilização Brasileira e Boitempo, o relançamento dos seis volumes da História do Marxismo no Brasil, pela editora da Unicamp, e a reedição da monumental História da Revolução Russa de Leon Trotsky pela jovem editora Sundermann, marcam esse novo momento editorial. 


Novas direções para a pesquisa
Quatro parecem ser as direções sobre os quais esse diversificado movimento de renovação dos estudos marxistas tem fixado a atenção. Em primeiro lugar o desenvolvimento da crítica da economia política tem assumido como objeto as transformações da economia capitalista e, particularmente, os fenômenos de mundialização e financeirização do capital e as novas formas do imperialismo. A caracterização do neoliberalismo como um momento atual do capitalismo tem motivado importantes debates e os problemas teóricos da análise desse momento tem exigido uma abordagem inovadora tanto da teoria do valor, como da teoria do imperialismo.

Em segundo lugar, a crítica da divisão do trabalho enfrenta a análise das transformações nos processos de trabalho decorrentes da utilização de novas tecnologias e da reorganização gerencial do espaço da produção de mercadorias por meio dos processos de reengenharia, terceirização, downsizing, etc., bem como o estudo da reação das classes trabalhadoras a esses processos. Aqui os problemas teóricos mais importantes são a relevância do trabalho como uma categoria chave da análise social, a permanência das classes trabalhadoras como sujeitos sociais ou políticos, a nova morfologia dessas classes e as práticas de resistência e emancipação afirmadas por elas.
Em terceiro lugar, a crítica da política tem tratado das novas formas que a dominação política capitalista assumiu, bem como os movimentos de oposição a essa dominação, em um contexto no qual o regime democrático liberal dá sinais em nosso país de uma longevidade sem precedentes e o neoliberalismo impõe uma profunda reconfiguração das relações entre política e economia. As questões apresentadas nesta direção dizem respeito fundamentalmente à definição do Estado-nação e da política. Discussões sobre as formas atuais do Estado capitalista e sua relação com as classes sociais, liberdade e igualdade, nação e nacionalidade, estratégia socialista no século XXI e a emergência de novos atores políticos têm recebido forte atenção por parte dos pesquisadores. 
Por último, a crítica da ideologia encontra-se às voltas com a análise do processo de mercantilização das relações sociais e o novo lugar funcional que a cultura, aproximando-se da economia, passou a ter na organização do modo de produção capitalista. Na medida em que a produção estética passou a integrar o processo de produção de mercadorias, novos problemas foram colocados para a pesquisa crítica. O debate sobre o pós-modernismo e a lógica cultural do capitalismo embora tenha arrefecido nos últimos anos, permanece importante.
Os desafios levantados por essas quatro críticas são grandes e um novo “retorno” a Marx torna-se necessário para esses estudos merecerem o adjetivo marxista. Não se trata mais de encontrar o “verdadeiro” Marx para contrapô-lo às interpretações consideradas desviantes. Se há algo que o século XX ensinou foi a duvidar dos dogmas. Esse retorno só fará sentido se enfrentar de modo crítico os desafios impostos pela sua obra, reconhecer seus limites e encontrar nela novas pistas para a análise do presente.
Alvaro Bianchi é professor do Departamento de Ciência Política do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp (IFCH) e diretor do Centro de Estudos Marxistas (Cemarx)
Jornal da UNICAMP

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Karl Marx, o filósofo da revolução

O pensador alemão, um dos mais influentes de todos os tempos, investigou a mecânica do capitalismo e previu que o sistema seria superado pela emancipação dos trabalhadores
Márcio Ferrari (novaescola@atleitor.com.br)





Karl Marx


A evolução do pensamento pedagógico
Numa de suas frases mais famosas, escrita em 1845, o pensador alemão Karl Marx (1818-1883) dizia que, até então, os filósofos haviam interpretado o mundo de várias maneiras. "Cabe agora transformá-lo", concluía. Coerentemente com essa idéia, durante sua vida combinou o estudo das ciências humanas com a militância revolucionária, criando um dos sistemas de idéias mais influentes da história. Direta ou indiretamente, a obra do filósofo alemão originou várias vertentes pedagógicas comprometidas com a mudança da sociedade (leia quadro na página 54). "A educação, para Marx, participa do processo de transformação das condições sociais, mas, ao mesmo tempo, é condicionada pelo processo", diz Leandro Konder, professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.

No século 20, o pensamento de Marx foi submetido a numerosas interpretações, agrupadas sob a classificação de "marxismo". Algumas sustentaram regimes políticos duradouros, como o comunismo soviético (1917-1991) e o chinês (em vigor desde 1949). Muitos governos comunistas entraram em colapso, por oposição popular, nas décadas de 1980 e 1990. Em recente pesquisa da rádio BBC, que mobilizou grande parte da imprensa inglesa, Marx foi eleito o filósofo mais importante de todos os tempos.

Luta de classes

Na base do pensamento de Marx está a idéia de que tudo se encontra em constante processo de mudança. O motor da mudança são os conflitos resultantes das contradições de uma mesma realidade. Para Marx, o conflito que explica a história é a luta de classes. Segundo o filósofo, as sociedades se estruturam de modo a promover os interesses da classe economicamente dominante. No capitalismo, a classe dominante é a burguesia; e aquela que vende sua força de trabalho e recebe apenas parte do valor que produz é o proletariado.

O marxismo prevê que o proletariado se libertará dos vínculos com as forças opressoras e, assim, dará origem a uma nova sociedade. Segundo Marx, o conflito de classes já havia sido responsável pelo surgimento do capitalismo, cujas raízes estariam nas contradições internas do feudalismo medieval. Em ambos os regimes (feudalismo e capitalismo), as forças econômicas tiveram papel central. "O moinho de vento nos dá uma sociedade com senhor feudal; o motor a vapor, uma sociedade com o capitalista industrial", escreveu Marx.

A obra de Marx reúne uma grande variedade de textos: reflexões curtas sobre questões políticas imediatas, estudos históricos, escritos militantes - como O Manifesto Comunista, parceria com Friedrich Engels - e trabalhos de grande fôlego, como sua obra-prima, O Capital, que só teve o primeiro de quatro volumes lançado antes de sua morte. A complexidade da obra de Marx, com suas constantes autocríticas e correções de rota, é responsável, em parte, pela variedade de interpretações feitas por seus seguidores.

Trabalho e alienação

Em O Capital, Marx realiza uma investigação profunda sobre o modo de produção capitalista e as condições de superá-lo, rumo a uma sociedade sem classes e na qual a propriedade privada seja extinta. Para Marx, as estruturas sociais e a própria organização do Estado estão diretamente ligadas ao funcionamento do capitalismo. Por isso, para o pensador, a idéia de revolução deve implicar mudanças radicais e globais, que rompam com todos os instrumentos de dominação da burguesia.

Marx abordou as relações capitalistas como fenômeno histórico, mutável e contraditório, trazendo em si impulsos de ruptura. Um desses impulsos resulta do processo de alienação a que o trabalhador é submetido, segundo o pensador. Por causa da divisão do trabalho - característica do industrialismo, em que cabe a cada um apenas uma pequena etapa da produção -, o empregado se aliena do processo total.

Além disso, o retorno da produção de cada homem é uma quantia de dinheiro, que, por sua vez, será trocada por produtos. O comércio seria uma engrenagem de trocas em que tudo - do trabalho ao dinheiro, das máquinas ao salário - tem valor de mercadoria, multiplicando o aspecto alienante.

Por outro lado, esse processo se dá à custa da concentração da propriedade por aqueles que empregam a mão-de-obra em troca de salário. As necessidades dos trabalhadores os levarão a buscar produtos fora de seu alcance. Isso os pressiona a querer romper com a própria alienação.

Um dos objetivos da revolução prevista por Marx é recuperar em todos os homens o pleno desenvolvimento intelectual, físico e técnico. É nesse sentido que a educação ganha ênfase no pensamento marxista. "A superação da alienação e da expropriação intelectual já está sendo feita, segundo Marx", diz Leandro Konder. "O processo atual se aceleraria com a revolução proletária para alcançar, afinal, as metas maiores na sociedade comunista."

Aprendizado para a mente, o corpo e as mãoes



Litografia do século 19 mostra metalúrgica


italiana: Marx aprovava ensino nas fábricas.Combater a alienação e a desumanização era, para Marx, a função social da educação. Para isso seria necessário aprender competências que são indispensáveis para a compreensão do mundo físico e social. O filósofo alertava para o risco de a escola ensinar conteúdos sujeitos a interpretações "de partido ou de classe". Ele valorizava a gratuidade da educação, mas não o atrelamento a políticas de Estado - o que equivaleria a subordinar o ensino à religião. Marx via na instrução das fábricas, criada pelo capitalismo, qualidades a ser aproveitadas para um ensino transformador - principalmente o rigor com que encarava o aprendizado para o trabalho. O mais importante, no entanto, seria ir contra a tendência "profissionalizante", que levava as escolas industriais a ensinar apenas o estritamente necessário para o exercício de determinada função. Marx entendia que a educação deveria ser ao mesmo tempo intelectual, física e técnica. Essa concepção, chamada de "onilateral" (múltipla), difere da visão de educação "integral" porque esta tem uma conotação moral e afetiva que, para Marx, não deveria ser trabalhada pela escola, mas por "outros adultos". O filósofo não chegou a fazer uma análise profunda da educação com base na teoria que ajudou a criar. Isso ficou para seguidores como o italiano Antonio Gramsci (1891-1937), o ucraniano Anton Makarenko (1888-1939) e a russa Nadia Krupskaia (1869-1939).

Biografia

Karl Marx nasceu em 1818 em Trier, sul da Alemanha (então Prússia). Seu pai, advogado, e sua mãe descendiam de judeus, mas haviam se convertido ao protestantismo. Estudou direito em Bonn e depois em Berlim, mas se interessou mais por filosofia e história. Na universidade, aproximou-se de grupos dedicados à política. Aos 23 anos, quando voltou a Trier, percebeu que não seria bem-vindo nos meios acadêmicos e passou a viver da venda de artigos. Em 1843, casou-se com a namorada de infância, Jenny von Westphalen. O casal se mudou para Paris, onde Marx aderiu à militância comunista, atraindo a atenção de Friedrich Engels, depois amigo e parceiro. Foi expulso de Paris em 1845, indo morar na Bélgica, de onde também seria deportado. Nos anos seguintes, se engajou cada vez mais na organização da política operária, o que despertou a ira de governos e da imprensa. A Justiça alemã o acusou de delito de imprensa e incitação à rebelião armada, mas ele foi absolvido nos dois casos. Expulso da Prússia e novamente da França, Marx se estabeleceu em Londres em 1849, onde viveu na miséria durante 15 anos, ajudado, quando possível, por Engels. Dois de seus quatro filhos morreram no período. O isolamento político terminou em 1864, com a fundação da Associação Internacional dos Trabalhadores (depois conhecida como Primeira Internacional Socialista), que o adotou como líder intelectual, após a derrota do anarquista Mikhail Bakunin. Em 1871, a eclosão da Comuna de Paris o tornou conhecido internacionalmente. Na última década de vida, sua militância tornou-se mais crítica e indireta. Marx morreu em 1883, em Londres.

Tempo de utopias e rebeliões na Europa




Militares cercam estátua de Napoleão
derrubada durante a Comuna de Paris:
Marx chega às ruas.


Marx viveu numa época em que a Europa se debatia em conflitos, tanto no campo das idéias como no das instituições. Já na universidade, as doutrinas socialistas e anarquistas se encontravam no centro das discussões dos grupos que Marx freqüentava. Alguns dos pensadores que então alimentavam as esperanças transformadoras dos estudantes hoje são chamados de "socialistas utópicos", como o britânico Robert Owen (1771-1858) e os franceses Charles Fourier (1772-1837) e Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865). Dois momentos da história européia foram vividos por Marx intensamente e tiveram importantes reflexos em sua obra: as revoltas antimonárquicas de 1848 - na Itália, na França, na Alemanha e na Áustria - e a Comuna de Paris, que, durante pouco mais de três meses em 1871, levou os operários ao poder, influenciados pelas idéias do próprio Marx. A insurreição acabou reprimida, com um saldo de 20 mil mortes, 38 mil prisões e 7 mil deportações.

Para pensar

A alienação de que fala Marx é conseqüência do afastamento entre os interesses do trabalhador e aquilo que ele produz. De modo mais amplo, trata-se também do abismo entre o que se aprende apenas para cumprir uma função no sistema de produção e uma formação que realmente ajude o ser humano a exercer suas potencialidades. Você já pensou se a educação, como é praticada a seu redor, procura dar condições ao aluno para que se desenvolva por inteiro ou se responde apenas a objetivos limitados pelas circunstâncias?
Revista Nova Escola