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quinta-feira, 10 de março de 2011

Jim das Selvas, a concorrência de Tarzan



Túlio Vilela*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
Os quadrinhos de Jim das Selvas deixariam horrorizados os ambientalistas de hoje: numa das primeiras aventuras, o herói mata vários animais selvagens, dentre os quais um tigre, contribuindo para a extinção de várias espécies da fauna local. Além de animais selvagens, Jim das Selvas costumava enfrentar contrabandistas, piratas, mercadores de escravos e, durante a guerra, soldados japoneses.

Naquele momento, o herói lutava contra o imperialismo japonês (responsável por uma série de atrocidades no Oriente, comparáveis às cometidas pela Alemanha nazista na Europa), mas ideologicamente era defensor da continuidade dos imperialismos britânico e norte-americano na Ásia e no Pacífico.

Para competir com os quadrinhos de Tarzan, o King Features Syndicate, agência distribuidora de tiras para jornais, encomendou a criação de uma nova série de aventuras ambientadas na selva. Um concurso interno foi realizado para escolher o desenhista que seria responsável pela arte da série que seria publicada nos jornais aos domingos.

O vencedor foi Alex Raymond (1909-1956), considerado pela beleza de seu traço um dos melhores desenhistas da época. A série criada para concorrer com Tarzan era Jim das Selvas (no original, Jungle Jim), que estreou nos jornais em 1934, junto com outra série também desenhada por Raymond: Flash Gordon, herói cujas aventuras se passam em outros planetas.

Apesar de a assinatura de Raymond ser a única a aparecer nas tiras, as aventuras eram escritas por outro profissional, o roteirista Don Moore, que jamais foi recebeu crédito pelo seu trabalho, permanecendo no anonimato. Moore era também o responsável pelos roteiros de Flash Gordon. Alex Raymond era um desenhista excepcional, que inspirou legiões de imitadores, mas Don Moore estava longe de ser um roteirista acima da média.

Os textos de Moore pareciam mais apropriados para legendas de filmes do cinema mudo que para histórias em quadrinhos. Mesmo assim, graças principalmente aos desenhos de Raymond e de vários assistentes não creditados, Jim das Selvas foi um sucesso. Tanto sucesso que até gerou um seriado de televisão que estreou nos Estados Unidos em 1954.

Johnny Weismuller

No seriado de televisão, que durou vinte e seis episódios, Jim das Selvas foi interpretado por Johnny Weismuller, o mesmo ator (e ex-nadador olímpico) que ficou famoso no papel de Tarzan numa série de filmes feitos para o cinema durante a década de 1940. Weismuller foi escolhido para o papel de Jim das Selvas justamente por causa de sua experiência no papel de Tarzan. Interessante ironia: a adaptação para tv de um herói dos quadrinhos criado para competir com Tarzan teve como astro o mesmo ator que havia interpretado o “homem-macaco”.

Embora criado para competir com Tarzan, Jim das Selvas estava longe de ser um plágio do “rei das selvas”. Outra inegável fonte de inspiração para o filme foi um documentário lançado em 1932 sobre os feitos do caçador Frank Buck na Malásia. Diferentemente de Tarzan, cujas aventuras são ambientadas na África, as aventuras de Jim das Selvas ocorrem em sua maioria na Ásia e na Oceania, em lugares como Sumatra, Malásia, Bornéu e em diversas ilhas do oceano Pacífico.

Jim das Selvas é o apelido de Jim Bradley, um famoso caçador, especialista em armadilhas. Ele também tinha um ajudante que era a representação estereotipada do “outro”, no caso de um asiático: seu nome era Kolu e usava um turbante. Também havia Lilli deVrille, uma criminosa que se regenerou e se tornou a principal namorada de Jim e também “uma das melhores agentes secretas na China”. Constantemente, Jim das Selvas salvava as mocinhas dos perigos, mas quem costumava salvar o próprio Jim era Kolu.

Durante a Segunda Guerra Mundial, os quadrinhos de Jim das Selvas mostraram o herói se alistando no exército norte-americano e enfrentando os japoneses. Na mesma época, o desenhista de Jim das Selvas, Alex Raymond, também lutou na guerra: alistou-se nos fuzileiros navais dos Estados Unidos. Desde então a tira passou a ser desenhada por outros artistas até ser cancelada em meados da década de 1950.

Após voltar da guerra, Raymond não retornou a nenhuma das tiras em que trabalhava e passou a se dedicar a uma nova tira, Nick Holmes, que ele desenhou até morrer em um acidente de carro (Raymond adorava dirigir carros esportivos).

* Túlio Vilela, formado em História pela USP, é professor da rede pública do Estado de São Paulo e um dos autores de Como Usar as Histórias em Quadrinhos na Sala de Aula (Editora Contexto).

Heróis e super-heróis na África e na Ásia


Túlio Vilela*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
As histórias em quadrinhos ajudaram a popularizar uma visão estereotipada e fantasiosa da África e da Ásia. Entre essas histórias, merecem destaque as aventuras dos heróis Tarzan, Mandrake, Fantasma, Jim das Selvas e Pantera Negra. Os três primeiros foram criados quando a Grã-Bretanha ainda possuía um império colonial, o último quando vários países africanos e asiáticos já haviam se declarado independentes.

Tais histórias em quadrinhos refletiriam qual visão: a dos colonizadores e exploradores europeus e norte-americanos ou a dos povos nativos da África e da Ásia? Podemos dizer que Tarzan seria um agente a serviço do neocolonialismo? Haveria ainda nesses quadrinhos mensagens racistas? Antes de responder a essas perguntas, vale a pena revisar o conceito de neocolonialismo.

Neocolonialismo

Em fins do século XIX, as potências europeias começaram a reivindicar e conquistar terras na África e na Ásia. Neocolonialismo foi o nome dado ao conjunto de políticas expansionistas e imperialistas praticadas pelas potências européias nos continentes africano e asiático a partir da década de 1880. O prefixo “neo” que significa “novo” é para distinguir essas políticas do “velho colonialismo”, aquele iniciado no século XVI, como consequência das Grandes Navegações, das quais Portugal e Espanha foram as potências pioneiras.

Para justificar a dominação europeia na África e na Ásia, os europeus recorriam a argumentos científicos. O problema é que o discurso dominante na ciência do século XIX estava contaminado pelo racismo, dois exemplos disso são o “darwinismo social”, uma interpretação equivocada e distorcida da teoria formulada pelo naturalista inglês Charles Darwin. Assim, segundo a visão racista da época, brancos europeus eram “superiores” ou “mais evoluídos” que os “negros” africanos. Ainda dentro dessa visão racista, a “raça amarela”, da qual fariam parte chineses, japoneses, coreanos e outros povos asiáticos seria também “superior” aos negros, mas ainda “inferior” aos brancos.

O Neocolonialismo teve início numa época em que muitos achavam que a “era dos impérios” havia terminado, pois com os processos de independência política dos países americanos, as potências colonialistas européias acabaram perdendo colônias que possuíam neste continente. Ledo engano, os avanços tecnológicos trazidos pelas duas primeiras revoluções industriais (das quais a Grã-Bretanha foi pioneira, o que permitiu que o Império Britânico se tornasse o maior de sua época) e a busca por mercados e matérias-primas para os produtos industrializados ampliaram a presença europeia nos continentes africano e asiático.

Exemplo disso é que nas primeiras décadas do século XIX, a presença europeia na África limitava-se a algumas possessões nas áreas costeiras, mas no fim do mesmo século, quase todo o continente africano estava sob domínio de nações europeias. A disputa por possessões no continente africano chegou a tal ponto que, em 1885, foi realizada a Conferência de Berlim, na Alemanha, durante a qual foi realizada a partilha da África, ou seja, foram demarcadas fronteiras para decidir quais “pedaços” da África teria por “direito” cada potência europeia.

Alemanha e Estados Unidos

Vale lembrar que Grã-Bretanha e França, as duas maiores potências coloniais, ganharam um concorrente de peso em fins do século XIX: a Alemanha, cuja unificação foi completada em 1871, após uma guerra contra a rival França. A Alemanha entrou tardiamente na corrida colonial, mas logo passou a ter o segundo maior parque industrial da Europa, perdendo apenas para o da Grã-Betanha. A rivalidade entre as potências colonialistas transformaria a Europa num “barril de pólvora”, cujo “pavio” seria aceso em 1914, quando teve início a Primeira Guerra Mundial.

A política neocolonialista não era exclusiva dos paises europeus. Dois países não-europeus também adotariam práticas expansionistas: os Estados Unidos e o Japão. Se no início os Estados Unidos eram banhados apenas pelo Atlântico, após a expansão em direção ao oeste, com a anexação de territórios que antes pertenciam aos indígenas e ao México, também passariam a serem banhados pelo Pacífico, o que levaria à busca por territórios e mercados nesse oceano e à ampliação tanto da marinha de guerra quanto da marinha mercante.

Dentro do contexto do neocolonialismo, expedições de cunho científico (mas atendendo aos interesses políticos das potências colonialistas) foram realizadas na África e na Ásia, com a participação de estudiosos de diferentes áreas como arqueologia, etnologia, antropologia, geologia, zoologia e botânica entre outras. A África e a Ásia despertavam a curiosidade de europeus e norte-americanos e também serviam de inspiração para a imaginação de escritores de ficção, não apenas de contos e romances, mas também de uma nova mídia surgida com a massificação da imprensa em fins do século XIX e nas primeiras décadas do século XX: as histórias em quadrinhos.

Tarzan, o “homem-macaco”

Tarzan foi criado pela imaginação do escritor norte-americano Edgar Rice Burroughs. Antes de tentar a sorte como escritor, Burroughs tentou ganhar a vida numa série de ocupações, entre as quais, policial, mas fracassou em todas elas. Aos trinta e cinco anos de idade, tinha uma família para sustentar e estava praticamente falido. Assim, tentou a carreira de escritor.

Ele conseguiu vender suas histórias para serem publicadas em revistas de literatura barata então muito populares nos Estados Unidos nas primeiras décadas do século XX. Assim, a primeira história de Tarzan foi publicada em outubro de 1912, numa revista chamada All-Story. Foi um sucesso imediato e Burroughs escreveu vinte e quatro romances sobre o herói das selvas. O escritor enriqueceu, pois detinha os direitos autorais sobre sua criação. Por outro lado, alguns dos artistas que desenharam os quadrinhos para jornais (tiras diárias e páginas para suplementos dominicais) reclamavam que ganhavam pouco, pois a maior parte do lucro ia para Burroughs, e após sua morte em 1950, para seus herdeiros.

Burroughs nunca havia posto os pés na África. O escritor também não se preocupou em pesquisar seriamente sobre o continente africano para escrever as aventuras de Tarzan. Para criar as aventuras de Tarzan, usou apenas sua fértil imaginação e buscou inspiração nos livros de aventura de escritores como Rudyard Kipling, autor de O livro da selva (também conhecido como O livro da Jângal, numa tradução de Monteiro Lobato) e H. Rider Haggard, autor de As minas do rei Salomão.

Na obra de Kipling, ambientada na Índia, o personagem principal era Mogli, o menino-lobo, uma criança órfã adotada por lobos. Para se diferenciar da obra de Kipling e não ser acusado de plágio, Burroughs fez três alterações significativas: mudou a ambientação da Índia para a África, enquanto Mogli foi adotado por lobos, Tarzan foi adotado por macacos, e enquanto Mogli era uma criança indiana, Tarzan era filho de uma família de aristocratas ingleses. Em comum com os livros de Haggard, a obra de Burroughs tinha a ambientação na África e elementos como cidades e tesouros perdidos.

Depressão e entretenimento

Tarzan se tornou um personagem ainda mais conhecido quando foi adaptado para outras mídias como filmes e histórias em quadrinhos. A primeira adaptação de Tarzan para os quadrinhos estreou nos jornais norte-americanos em sete de janeiro de 1929. Antes da década de 1930, os quadrinhos publicados em jornais eram, em sua grande maioria, de teor cômico ou humorístico (daí os quadrinhos em inglês serem chamados de comics). A adaptação de Tarzan para tiras de jornal foi uma das primeiras séries de quadrinhos de aventura a se tornar popular entre leitores de jornais do mundo inteiro. A depressão econômica que se seguiu à quebra da bolsa de Nova York em 1929 não impediu que as tiras de Tarzan continuassem fazendo sucesso.

Origem inverossímil e mensagem neocolonialista

Nos quadrinhos, a origem de Tarzan foi recontada de maneira bastante fiel ao primeiro romance de Burroughs: John Clayton, também conhecido como Lorde Greystoke, viaja com sua esposa da Inglaterra para uma colônia britânica na África; durante a viagem, os marinheiros realizam um motim e o casal é abandonado numa selva africana, onde constroem uma casa na árvore; a esposa enlouquece, adoece e morre; Lorde Greystoke é morto pelo macaco Kershak, o bebê de um ano do casal inglês é encontrado e adotado por uma macaca chamada Kala.

A origem de Tarzan é totalmente inverossímil, mas é justamente em algumas de suas inverossimilhanças é que percebemos uma mensagem de teor neocolonialista, sem falar numa pitada de racismo: Tarzan é filho de ingleses, mas mesmo órfão e privado do contato com outros seres humanos, consegue provar a suposta “superioridade” do homem branco ao superar os grandes macacos em inteligência, a ponto de se tornar o líder deles (após matar Kershak numa luta), e os igualar em força física (o que o torna mais forte que qualquer ser humano, inclusive os negros das tribos próximas ao seu lar).

No primeiro romance escrito por Burrroughs, Tarzan consegue até aprender a ler e escrever sozinho: ao encontrar a cabana onde os pais biológicos viviam, descobre alguns livros no antigo escritório do pai e começa a tentar decifrar os textos e pratica exercícios de caligrafia. Ou seja, a história de Tarzan reflete uma visão de mundo marcada pelo determinismo biológico (o que está intimamente ligado ao darwinismo social): seriam os genes,a ascendência, é que determinariam o sucesso e não o meio social.

A África segundo os quadrinhos de Tarzan

Nos quadrinhos, Tarzan passou pelas mãos de uma série de desenhistas, a maior parte bastante competente do ponto de vista técnico, pois sabiam tornar convincentes as tramas mais inverossímeis. O primeiro artista a desenhar uma versão em quadrinhos de Tarzan foi o canadense Harold Foster (1892-1982), que ficou famoso anos mais tarde por criar seu próprio personagem: o Príncipe Valente.

Entre os artistas que desenharam as aventuras de Tarzan no decorrer das décadas podemos destacar Rex Maxon, Burne Hogarth, Jesse Marsh, Bob Lubbers, Russ Manning, Gil Kane, Gray Morrow, Joe Kubert e John Buscema entre outros. Alguns deles desenharam apenas as tiras diárias e as páginas dos suplementos dominicais, outros desenharam histórias que foram publicadas exclusivamente em gibis mensais. Quanto aos roteiristas que escreveram as histórias (boa parte delas, adaptações dos livros de Burroughs), a maioria permaneceu anônima, entre as exceções estão Archie Goodwin, Roy Thomas e o já citado Kubert, que além de desenhar também escrevia.

Tarzan questiona os valores da chamada “civilização”. Ao criar Tarzan, Burroughs pode ter sido influenciado pela idéia ingênua do “bom selvagem” (“o homem nasce bom, mas a sociedade o corrompe”) criada pelo filósofo iluminista Rousseau. A idéia do “bom selvagem” influenciou também na criação da figura romântica e idealizada do índio em obras literárias como O Guarani do escritor José Alencar, ele Tarzan prefere viver com simplicidade e em harmonia com a natureza a viver numa grande metrópole. Tarzan é um produto da indústria cultural e já foi licenciado para vender mercadorias tão diversas quanto camisetas e brinquedos, mas em suas aventuras, o rei da selva não demonstra interesse nos supostos confortos ou atrativos da sociedade de consumo.

* Túlio Vilela, formado em História pela USP, é professor da rede pública do Estado de São Paulo e um dos autores de Como Usar as Histórias em Quadrinhos na Sala de Aula (Editora Contexto).
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domingo, 6 de março de 2011

O Fantasma: primeiro herói mascarado dos quadrinhos


Túlio Vilela*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
A tira diária do Fantasma estreou nos jornais norte-americanos em 17 de fevereiro de 1936. Tratava-se de mais uma criação do roteirista Lee Falk, o criador de Mandrake. Caso raro na história dos quadrinhos: Falk conseguiu criar dois personagens de grande sucesso, sendo que sua segunda criação, o Fantasma, conseguiu superar em popularidade sue personagem anterior, Mandrake.

O Fantasma não foi o primeiro herói dos quadrinhos a ter a maior parte de suas aventuras ambientadas na selva, mas em termos de originalidade superava antecessores como Jim das Selvas. A tira do Fantasma podia não ser tão bem desenhada quanto a de Tarzan ou de Jim das Selvas, mas a qualidade dos roteiros de Falk superava de longe o trabalho de seus contemporâneos. As primeiras tiras do Fantasma foram desenhadas pelo próprio Falk, antes que ele se dedicasse exclusivamente aos roteiros e passasse logo a tarefa para o desenhista Ray Moore (1905-1984), o primeiro de uma série de artistas a desenhar o herói (sem contar os inúmeros assistentes que trabalharam anonimamente nas tiras).

Colonialista ou anticolonialista?

Do ponto de vista político, o Fantasma é um herói bastante ambíguo. As tiras do herói já foram acusadas por seus críticos de reproduzirem o discurso neocolonialista. Afinal, o Fantasma era um homem branco, descendente de britânicos e que reinava sobre uma tribo de pigmeus. Seus antepassados se empenharam para lutar contra piratas chineses, mas nenhuma nação lucrou mais com a pirataria no passado que a Grã-Bretanha. Por outro lado, algumas aventuras mostram o herói como um defensor da soberania dos povos africanos e asiáticos. O Fantasma é colonialista ou anti-colonialista? A julgar por várias de suas histórias, ele consegue ser ambos ao mesmo tempo. Talvez, essa ambiguidade seja um das características que tornam o Fantasma um personagem mais “humano”, pois com todo mero mortal, o herói também tem suas contradições.

Em parte, a ambigüidade política do Fantasma se deve ao fato do roteirista Lee Falk ter sido sensível às mudanças de opinião do público e às transformações políticas e sociais no decorrer das décadas. Inicialmente, nos primeiros anos da série, prevalecia o caráter neocolonialista e os estereótipos racistas em relação a africanos (quase sempre mostrados como selvagens, imaturos, ignorantes e supersticiosos) e asiáticos (mostrados quase sempre como sádicos e maquiavélicos, mesmo quando na forma de sensuais vilãs). Após o término da Segunda Guerra e com a desintegração dos impérios coloniais europeus na África e na Ásia, passou a prevalecer uma caracterização mais favorável dos povos africanos e asiáticos.

A origem do Fantasma

Apesar do nome, o Fantasma nada tem de sobrenatural. O que diferencia o Fantasma da maioria dos heróis dos quadrinhos é que, apesar de sua força e astúcia, ele nada tem de invulnerável. Embora seja conhecido como o “espírito que anda” ou o “homem que não morre”, ele nada tem de imortal: na verdade, trata-se de uma dinastia de justiceiros mascarados, quando um Fantasma morre, ele deve ser sucedido pelo seu filho.

Essa dinastia surgiu na época das Grandes Navegações, quando o sobrevivente de um ataque de piratas chineses a um navio inglês naufragou em Bengala e foi socorrido pela tribo dos pigmeus Bandar. Após encontrar na praia o corpo do pirata que assassinou seu pai, o náufrago britânico jura sobre a caveira do assassino do pai combater a “pirataria sob todas as formas”. Nesse mesmo juramento, o náufrago também diz que seus descendentes seguiriam seus passos.

O nome desse náufrago era Sir Christopher Standish, mas em versões posteriores da história, todos os Fantasmas passaram a ter o mesmo nome: Kit Walker. Essa história foi contada pelo 21º Fantasma à Diana Palmer, uma jovem da alta sociedade americana. Cada Fantasma deve revelar essa história à mulher com quem pretende se casar e como os Fantasmas jamais são rejeitados, Diana aceitou se tornar noiva do misterioso mascarado. Aliás, Diana, com quem o Fantasma de fato se casou numa história publicada em 1978 (o noivado foi longo, ainda bem que os heróis dos quadrinhos envelhecem devagar) era a mulher ideal para se casar com o herói: diferentemente das “mocinhas” de outros quadrinhos, Diana além de bonita era inteligente, corajosa, conhecia defesa pessoal e estava sempre envolvida em causas humanitárias.

O Fantasma vive na África ou na Ásia?

A localização geográfica do país onde o Fantasma vive sempre intrigou muitos de seus leitores. Afinal, o Fantasma vive num país da África ou da Ásia? Inicialmente, Falk ambientou as aventuras do Fantasma no golfo de Bengala, uma região da Índia, então sob domínio britânico. Na segunda aventura do Fantasma, Falk escreveu que o Fantasma vivia na “costa de Bengala” (Bengal no original em inglês), na Birmânia, então uma possessão britânica no sudeste asiático. Apesar da ambientação asiática, as aventuras apresentavam elementos que remetiam mais ao continente africano, tais como a tribo dos pigmeus Bandar, que protegem o esconderijo do Fantasma de quaisquer intrusos com suas zarabatanas envenenadas.

Na clássica história O fantasma vai à guerra, publicada durante a Segunda Guerra Mundial, o herói lidera um movimento de resistência contra a invasão japonesa em “Bengali” (repare na mudança de grafia). Esse fato reforça a localização geográfica do país do Fantasma em algum lugar da Ásia ou mesmo da Oceania, pois o expansionismo japonês ocorreu em territórios desses dois continentes. Segundo alguns estudiosos, Falk sempre foi ambíguo em relação à localização geográfica do país do Fantasma, que estaria situado em alguma região imaginária entre a África e a Ásia. Isso ajuda a explicar certas incoerências como animais selvagens que vivem apenas em um ou outro continente vivendo na mesma região.

A partir da década de 1960, Falk decidiu alterar a localização geográfica do país do Fantasma que desde então passou a ser identificado como um país africano. Numa história publicada em 1964, o endereço para correspondência do Fantasma aparece como:

Senhor Walker

Caixa postal 7, Morristown, Bengali, África...

Mais tarde, o país do Fantasma foi rebatizado de “Bangalla” (nas histórias publicadas no Brasil, aparece grafado como ‘Bangala”, com um “l” a menos). Na mesma época, Falk criou também um país vizinho para Bengalla: Ivory-Lana, cujo nome foi certamente inspirado na Costa do Marfim pois ivory significa ‘marfim’ em inglês.

Outro detalhe importante da “africanização” das histórias do Fantasma foi o aumento do número de personagens negros relevantes, dentre os quais o próprio presidente de Bangala, o doutor Lamanda Luaga, ex-chefe de uma equipe médica da ONU, da qual Diana Palmer fazia parte. A Patrulha da Selva, fundada por um dos antepassados do atual Fantasma, nas primeiras histórias era mostrada como uma espécie de “polícia colonial” formada apenas por patrulheiros brancos.

Em histórias mais recentes, a Patrulha da Selva passou a ser formada em sua maioria por patrulheiros negros, que combatem contrabandistas e outros tipos de criminosos. Tais mudanças nas histórias do Fantasma refletem as mudanças no contexto geopolítico após os movimentos de independência dos paises africanos e asiáticos que ganharam força após o fim da Segunda Guerra Mundial.

Crítica aos ditadores

Nas histórias do Fantasma, já apareceram vilões de todas as etnias e de ambos os sexos. A maioria é formada por estrangeiros brancos que pretendem explorar ou enganar as tribos locais. Entre os vilões asiáticos, os mais famosos foram os Singh, uma dinastia de piratas chineses. Entre os vilões negros, um dos mais recorrentes é o general Bababu, que apareceu pela primeira vez numa história publicada nos jornais em 1963. Nessa história Bababu, chega ao poder num golpe de Estado contra o governo democraticamente eleito de Luaga. É claro que o Fantasma consegue derrotar Bababu e devolver Luaga ao poder. Depois dessa história, o general Bababu retornnou várias vezes, sempre tentando tomar o poder em Bangala e em Ivory-Lana.

O general Babau é um personagem que reflete uma triste realidade de muitos paises africanos: a instabilidade política e econômica dos recém-independentes paises africanos favoreceu a eclosão de guerras civis e o surgimento de ditaduras. Daí, a semelhança em histórias publicadas nas décadas de 1970 e de 1980, entre o general Bababu e ditadores africanos da vida real como Idi Amin, que governou Uganda de 1971 a 1979, e Robert Mugabe, que governa o Zimbábue (antiga Rodésia) desde 1980. Em 1998, quando participava de um salão internacional de quadrinhos nas Astúrias, Falk, afirmou que uma das histórias em que aparecia o general Bababu foi censurada na Argentina durante a ditadura militar que vigorou nesse pais de 1976 a 1982. O motivo da censura foi a crítica que a história mencionada fazia aos regimes ditatoriais.

Em fins da década de 1970, as histórias do Fantasma passaram a abordar cada vez mais temas como ditaduras e desrespeito aos direitos humanos. A própria Diana havia se tornado uma funcionária da ONU e investigava governos acusados de praticar crimes contra os direitos humanos. Mais um exemplo de como Lee Falk era um roteirista "antenado" no que acontecia no momento: na mesma época, o presidente dos Estados Unidos era Jimmy Carter, do Partido Democrata, político conhecido pelo discurso em "defesa dos direitos humanos".

Para saber mais:

CONROY, Mike. 500 Great Comic Book Action Heroes. Hauppauge, NY: Barron’s Educational Series, 2003.

GOULART, Ron (ed.). The Encyclopedia of American Comics: From 1897 to the Present. Nova York: Facts on File, 1990.

LUCCHETI, Marco Aurélio & ROSA, Franco de (org.). Fantasma: A biografia oficial do primeiro herói fantasiado dos quadrinhos. São Paulo: Opera Graphica Editora, 2009.

ROVIN, Jeff. The Encyclopedia of Superheroes. Nova York: Facts on File, 1985.

SHEPHERD, Jim & STUBBERSFIELD, Barry. The Phantom Encyclopedia. Frew Publications: Austrália, 2008, 2a edição, 1a edição 2007.

* Túlio Vilela, formado em História pela USP, é professor da rede pública do Estado de São Paulo e um dos autores de Como Usar as Histórias em Quadrinhos na Sala de Aula (Editora Contexto)

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quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Corrida às terras férteis


Convencidos de obter grandes lucros, muitos bancos, fundos de investimento, grandes grupos industriais, Estados e milionários privados planejam instalar, na África, fazendas-empresa gigantes, a fim de produzir alimentos e biocombustíveis exclusivamente para exportação

por Joan Baxter

Entre 18 e 19 de novembro de 2009, o Centro de Conferências Elizabeth II, em Londres, acolheu investidores britânicos em Serra Leoa. No fórum, o ex-primeiro-ministro Tony Blair, cuja fundação para a África patrocinou o evento, incitava os participantes a adquirirem propriedades rurais num país que, em suas palavras, “dispõe de milhões de hectares de terras aráveis1.” Levado pelo seu entusiasmo, Blair parece ter se esquecido dos milhões de serra-leoneses que dependem das culturas que produzem nestas áreas.

Convencidos de obter grandes lucros, muitos bancos, fundos de investimento, grandes grupos industriais, Estados e milionários privados planejam instalar, na África, fazendas-empresa gigantes, a fim de produzir alimentos e biocombustíveis exclusivamente para exportação. Essas operações de venda de lotes e arrendamento em longo prazo são prontamente rotuladas como programas de desenvolvimento para o benefício mútuo, tanto dos poderes financeiros envolvidos quanto dos países africanos.

Entre os defensores desta abordagem estão a Sociedade Financeira Internacional (IFC), do Banco Mundial2, e o Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA), agência especializada das Nações Unidas. Apesar da relutância inicial de seu diretor-geral, Jacques Diouf, que a descreveu como “uma forma de neocolonialismo”, a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) acabou apoiando a proposta.

Numerosos são os exemplos dessa liquidação de terras que está acontecendo na África. A China teria obtido, na República Democrática do Congo (RDC), uma concessão de 2,8 milhões de hectares para implantar o maior palmeiral do mundo3. Philippe Heilberg, CEO do fundo de investimentos nova-iorquino Jarch Capital e ex-representante da gigante de seguros American International Group (AIG), alugou, do senhor da guerra Paulino Matip4, de 400 mil a 1 milhão de hectares no sul do Sudão. Recentemente, o Congo ofereceu a industriais do setor agroalimentício da África do Sul dez milhões de hectares da preciosa floresta tropical – área já declarada como ameaçada.

“Banco de terras”

Em novembro passado, sob a liderança do empresário saudita, de origem etíope, Mohamed Ali Al-Amoudy, cinquenta das maiores empresas a Arábia Saudita organizaram um fórum na Etiópia, com vistas a implantar fazendas exclusivamente para a exportação5. Enquanto isso, o indiano Sai Ramakrishna Karuturi, competindo com a gigante do agronegócio Cargill, alega que ter o maior “banco de terras” da África negra, principalmente com base na Etiópia6. Enquanto esse país, atingido pela seca, apela para a ajuda alimentar, o seu governo, que já cedeu 600 mil ha, se prepara para colocar mais 3 milhões ha no mercado7.

Muitos líderes africanos parecem seduzidos pela ideia de que a exportação de produtos alimentícios é a solução para a escassez e desemprego endêmicos. Eles são apoiados principalmente pela IFC. Buscando criar um “clima favorável aos negócios”, essa sociedade instalou agências de promoção de investimentos nos países envolvidos, que têm como missão ajudar os empresários a enfrentar obstáculos à liberdade comercial – representados por impostos e leis locais (direitos trabalhistas, direitos humanos, proteção do meio ambiente) e até mesmo pela soberania nacional.

O argumento mais frequente é a subutilização das terras. Ignora-se, contudo, que as áreas em repouso ou improdutivas permitem a regeneração de solos e rios. Além disso, as populações locais retiram dessas áreas florestais “não utilizadas” inúmeros recursos como alimentos, fibras, especiarias, oleaginosas, condimentos e plantas medicinais.

O Instituto de Pesquisa em Políticas Alimentares (IFPRI), em Washington, estima que, nos últimos dois anos, 20 milhões de hectares de terra, foram vendidos ou arrendados por períodos que variam de 30 a cem anos, em pelo menos 30 países, sobretudo na África8. A ONG Grain, que tenta identificar essas operações, disse que elas são pouco transparentes, e muitas vezes tão rápidas, que é difícil precisar os números9.

Alguns contratos, celebrados em alto nível, são obtidos discretamente, por trás de portas fechadas, muitas vezes com a cumplicidade dos chefes costumeiros. Apesar de considerados guardiões da terra, esses líderes locais se deixam convencer em troca de empregos de baixa remuneração na plantação dos investidores.

Preocupados com a falta de terra cultivável e querendo garantir sua segurança alimentar, os ricos Estados do Golfo Pérsico e vários países asiáticos estão entre os primeiros nesse “mercado”. Já para os operadores financeiros e os grandes grupos industriais, o objetivo é produzir biocombustíveis a partir de alimentos (cana-de-açúcar, óleo de palma, mandioca, milho) ou pinhão manso, uma planta considerada por alguns como o “ouro verde”, pois produz óleo com propriedades próximas ao diesel. Tudo isso em países africanos em luta constante por sua própria segurança alimentar, devido ao esgotamento dos recursos hídricos e as alterações climáticas, pelas quais eles não são nem um pouco responsáveis.

Crise de alimentos

A exploração intensiva das terras poderia também afetar o equilíbrio natural. Os pequenos produtores, que plantam a maior parte dos alimentos essenciais do continente por meio da agricultura de subsistência, participam na preservação da biodiversidade10 com colheitas repletas de variados vegetais. Porém, eles estão cada vez mais ameaçados pelos gigantes do agronegócio e sua monocultura (ver box).

A crise global de alimentos acelerou a corrida por terras na África. No entanto, os 1 bilhão de desnutridos do mundo não são vítimas da penúria, e sim da falta de acesso aos alimentos, cujos preços continuaram a subir em 2008. Esse aumento, fora de qualquer proporção é, em parte, devido aos ventos da especulação decorrente da decisão dos países europeus e dos Estados Unidos de se voltarem para os biocombustíveis. É irônico notar que os americanos, apesar de estimulares a luta contra as mudanças climáticas, são em parte responsáveis pela anexação de terras agrícolas. A crise econômica, também, tem desempenhado um papel neste movimento: depois da quebra, em setembro de 2008, a comunidade financeira começou a procurar novos investimentos, seguros e muito rentáveis. A seu ver, “a terra é um investimento tão seguro ou ainda mais seguro do que o ouro11.”

O relator especial sobre o Direito à Alimentação da ONU, Olivier De Schutter, lamentou que os líderes africanos assinem acordos sobre a questão sem consultar os respectivos parlamentos. Além disso, eles são colocados uns com os outros, como concorrentes, em vez de trabalhar em conjunto para impor condições aos investidores estrangeiros tais como desenvolvimento da infraestrutura ou a reserva de pelo menos metade da colheita para os mercados locais.“Quando a comida é escassa, os investidores procuram um Estado fraco que não imponha suas regras”, comentou, cinicamente, Philippe Heiberg, presidente do banco nova-iorquino Jarch Capital12.

Mesmo assim, várias organizações africanas tentam fazer com que suas vozes sejam ouvidas. Este é o caso da Copagen, uma coligação pan-africana que reúne cientistas e agricultores e trabalha para defender a soberania sobre as sementes e alimentos. Em 17 de outubro de 2009, 27 associações que a integram assinaram uma carta pedindo aos líderes do continente que retirassem seu apoio à agricultura industrial. Até agora não receberam qualquer resposta.

Financiamentos internacionais

É verdade que muitas das operações de monopolização das terras agrícolas ainda estão em fase de projeto. Mas, a não ser por acidente, um “projeto” é feito para ser concluído. Por outro lado, a compra massiva dessas terras, com a única finalidade de especulação financeira, traz consigo as raízes de conflito, desastre ambiental, o caos político e a fome, em um grau nunca antes conhecido. No âmbito da reunião mundial da cúpula sobre segurança alimentar, em Roma, em novembro passado, a FAO disse que estava trabalhando com a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), o FIDA e o Banco Mundial, num “código de boa conduta” para os empresários estrangeiros. Regulamentos internacionais também poderiam incentivar os investimentos agrícolas “responsáveis”. Esses compromissos, contudo, são muito fracos.

As soluções existem. A concessão de microcréditos, a construção de estradas para facilitar a venda de produtos agrícolas nos mercados locais, o acesso à formação para permitir que os agricultores melhorem suas técnicas de cultivo, já orientadas para a biodiversidade, suas colheitas e o armazenamento e a redução das importações, que desvalorizam seu trabalho, seriam um investimento muito mais construtivo no capital humano e na agricultura da África.
Joan Baxter é jornalista e escritora, autora de Poeira de nossos olhos - Um olhar sem piscar da África, Wolsak e Wynn Publishers Ltd., Hamilton (Ontário, Canadá), 2008.


1 Serra Leoa aberta para negócios, Awoko, Freetown, Serra Leoa. 23 de novembro, 2009.
2 Segundo o relatório da IFC, publicado em julho de 2009, um recorde $ 2 bilhões de dólares foram investidos, em 2009, na indústria de agroalimentos, ou, 42% a mais que no ano passado.
3 Olivier De Schutter, relator especial da ONU pelo Direito à Alimentação, publicou, em 11 de junho, 2009, uma chamado para a inclusão de um conjunto de princípios relacionados aos direitos humanos como base mínima nos contratos.
4 Daniel Shepard e Anuradha Mittal, “A Grande toma de terras: corrida para as terras cultiváveis do mundo ameaça a segurança alimentar dos pobres”, Oakland Institute, Oakland, Califórnia, 2009.
5 Wudineh Zenebe, Al-Amoudi esforços para iniciar os agroinvestimentos sauditas, Addis Fortune, Addis Abeba, 29 de novembro, 2009.
6 Asha Rai, O jardineiro constante, The Times of Índia, Bombaim, 26 de setembro, 2009.
7 A Etiópia está entregando 2,7 milhões de hectares, Daily Nation, Addis Abeba, 15 de setembro, 2009.
8 Joachim Von Braun e Ruth Suseela Meinzen-Dick, Aquisição de terras por investidores estrangeiros nos países em desenvolvimento: riscos e oportunidades, IFPRI, Policy Brief 13, International Food Policy Research Institute, Washington, abril, 2009.
9 “Precisamos acabar com o acaparamento mundial de terras!” Declaração de Grain, na Reunião de Cúpula Mundial da Alimentação, em Roma, 16 de novembro, 2009.
10 Miguel A. Altieri, Agroecologia, pequenas propriedades e soberania alimentar, The Monthly Review, Nova Iorque, julho-agosto, 2009.
11 Chris Mayer, Esse ativo é como o ouro, só que melhor, DailyWealth, Vancouver, 4 de outubro, 2009.
12 Knaup, Horand e Von Mittselstaed, Os investidores estrangeiros arrebatam terras cultiváveis africanas, Der Spiegel, Hamburgo, 31 de julho, 2009.

Le Monde Diplomatique Brasil