Mostrando postagens com marcador CIA. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador CIA. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Os arquivos secretos da CIA


As origens, os mistérios (e as conspirações) da agência de espionagem mais poderosa que existe – e como ela mudou a história do planeta

Tiago Cordeiro

A manhã nasceu tranquila. Mas, às 7h48, uma nuvem com mais de 350 aviões japoneses se materializou do nada e bombas começaram a chover sobre a base de Pearl Harbor. Naquele 7 de dezembro de 1941, os americanos levaram a maior rasteira do século – e aprenderam, da forma mais dolorosa possível, a importância da espionagem. Surgiu ali a ideia de criar uma superagência de inteligência, capaz de descobrir os segredos e antecipar as ações de todos os outros países, fossem amigos ou inimigos dos EUA. Mas isso só aconteceria após o fim da 2a Guerra Mundial, em 1947, quando os americanos fundaram a Central Intelligence Agency. De lá para cá, a CIA se tornou conhecida pelo poder sinistro, capaz de influir nos destinos do planeta. Uma impressão ruim, que a agência tentou desfazer com um gesto de transparência: liberou na internet 12 milhões de páginas de documentos secretos, que revelam em detalhes suas ações até a metade da década de 1990 (os mais recentes permanecem confidenciais). Revelamos alguns desses episódios, que tiveram consequências profundas para o Brasil e outros países, ao longo desta reportagem. Mas, para compreendê-los, primeiro é preciso entender a história da CIA – que já começou com um segredinho.
A mão invisível

A sede da CIA fica na cidade de Langley, no Estado da Virgínia, onde trabalham 21.500 pessoas. Esse número não inclui espiões nem informantes, só os funcionários “oficiais”: advogados, programadores, engenheiros, economistas, especialistas em relações internacionais e comunicação, tradutores. Todos passam por três entrevistas (uma com polígrafo, para ver se a pessoa está falando a verdade), além de checagens do estado de saúde, do histórico familiar e laudos psicológicos detalhados.

Oficialmente, a agência tem dois objetivos: reunir informações sobre outros países e defender os segredos dos EUA, desmascarando e caçando os espiões estrangeiros. Mas há um terceiro objetivo, que nunca foi reconhecido oficialmente: realizar ações secretas em outras nações. “Na lei que criou a CIA, esse objetivo não era mencionado. Mas estava implícito para o presidente e o Congresso que a agência iria interferir no cenário político de outros países”, afirma o sociólogo americano David Barrett, autor de cinco livros sobre a agência. Ou seja, derrubar e empossar governos. A CIA conseguiu a primeira vitória já em 1948, na Itália. Ela apoiou financeiramente a Democracia Cristã, que venceu as eleições gerais e se manteve influente até os anos 1980. A ideia era evitar que o país fosse dominado pela esquerda local, de modo a conter a influência da URSS. A mesma coisa aconteceu no Japão, onde os americanos financiaram secretamente uma série de políticos, especialmente o primeiro-ministro Nobusuke Kishi, um ex-criminoso de guerra que governou o país entre 1957 e 1960.

O envolvimento não era meramente político. Em vários países da Europa, a agência financiou jornais, panfletos e programas de rádio que defendiam os interesses dos EUA e seus aliados. Na Grécia, a ação foi mais longe: a partir de 1947, a CIA encheu o país de dinheiro, armas e espiões e transformou Atenas em uma de suas maiores centrais. “A CIA teve um papel crucial para manter a Europa longe do comunismo”, afirmam Victor Marchetti e John Marks no livro CIA & The Cult of Intelligence (sem versão em português).
(Dulla/Superinteressante)


Na América Latina, as coisas deram mais certo ainda. Em 1954, a CIA se instalou na Guatemala e dali seguiu para Panamá, República Dominicana, Guiana, México, Honduras, Uruguai, Chile e Brasil – onde a agência trabalhou para derrubar o governo João Goulart, em 1964. O então presidente John Kennedy e o embaixador americano no País, Lincoln Gordon, apoiavam o golpe militar, e queriam usar os tentáculos da CIA para se aproximar da ditadura brasileira. “A agência pode deixar claro, discretamente, que nós não somos necessariamente hostis a nenhum tipo de ação da parte dos militares, desde que seja contra a esquerda”, afirma Kennedy num documento confidencial da época.

Em outros pontos do mundo subdesenvolvido, os agentes americanos também foram muito bem-sucedidos. Ajudaram a eleger presidentes ou derrubar governos no Vietnã do Sul, no Congo, no Laos, na Tailândia. É verdade que, em alguns casos, depois de vitórias inquestionáveis, a história se voltou contra a CIA: os agentes americanos mudaram o governo do Irã em 1953, mas foram surpreendidos por um golpe liderado pelo aiatolá Khomeini em 1979. O presidente do Vietnã do Sul, Ngo Dinh Diem, que chegou ao poder com apoio direto da agência em 1955, acabou assassinado em 1963 com o apoio da própria CIA, que apoiou os planos golpistas do general Le Van Kim. Mas isso desaguou na Guerra do Vietnã, que durou 19 anos e provocou a morte de quase 60 mil soldados americanos.

No Afeganistão, as coisas também tiveram um desfecho surpreendente. A CIA forneceu armas e dinheiro a forças rebeldes, que resistiram à invasão do país pela União Soviética. Só que, quando os russos foram embora, aqueles mesmos rebeldes fundaram o Talibã – que é inimigo dos EUA, e financiou os ataques de 11 de setembro de 2001. “A guerra secreta contra a União Soviética no Afeganistão deu origem a um inimigo muito mais letal, um grupo fundamentalista radical que foi basicamente criado pela própria CIA”, afirma o historiador americano John Prados, autor do livro The Secret Wars of the CIA(sem versão em português).

A agência financiou a tentativa de invasão de Cuba, em 1961, mas não teve sucesso. Ela perdeu todos os embates contra Fidel – a não ser no Congo, em 1965, onde milícias financiadas pelos EUA derrotaram os soldados cubanos, que eram comandados por Che Guevara. Derrotado, Che foi se esconder na Bolívia – onde foi caçado por Félix Rodrigues, um exilado cubano e agente da CIA. Acabou morto em 1967.

Incrivelmente, a CIA não sabia direito o que se passava em seu principal alvo: a URSS. Em 1953, foi pega de surpresa pela morte de Stálin – e não tinha informações sobre seu sucessor, Nikita Kruschev. Outro deslize ocorreu em 1960, quando um avião espião foi abatido ao sobrevoar a URSS. O piloto, Gary Powers, foi capturado e confessou que trabalhava para a CIA. O incidente deu início à fase mais tensa da Guerra Fria. Mas foi o marco zero dos programas de espionagem aérea da agência, que estão operando até hoje – com satélites e drones.

A CIA sempre investiu muito em tecnologia. Inventou câmeras fotográficas e gravadores minúsculos, e até robôs no formato de peixes para investigar a posição de submarinos inimigos. A partir da década de 1990, não se contentou em apenas espionar – e deu início aos ataques com drones armados, os Predator, que a agência opera em parceria com a Força Aérea dos EUA. Eles já realizaram mais de 2 mil missões no Oriente Médio. “O [então] presidente Obama foi um dos maiores entusiastas dessa solução, que envia fotos e vídeos em tempo real e ataca com eficácia sem colocar em risco a vida de militares americanos”, afirma o sociólogo David Barrett.
(Dulla/Superinteressante)


Ao mesmo tempo em que crescia e ganhava poder, a CIA enfrentava oposição em seu próprio país. Nos anos 1970, o Senado descobriu uma série de ações ilegais da agência. “Um dos erros mais graves foi investigar cidadãos americanos, em território americano. A CIA fez isso a mando de vários presidentes. Kennedy mandou investigar jornalistas, Johnson e Nixon pediram detalhes sobre ativistas”, afirma David Barrett. A coisa explodiu com o escândalo Watergate, em 1972, em que Nixon usou ex-funcionários da agência para espionar adversários políticos.

Outro baque veio em 2001, quando o setor de inteligência americano sofreu o maior revés desde Pearl Harbor. A CIA foi criticada por não conseguir prever os ataques do 11 de Setembro e, pela primeira vez em sua história, passou a responder a uma autoridade superior: a Diretoria de Inteligência Nacional (DNI), que manda na agência. Com isso, a CIA perdeu prestígio. Mas ainda é (muito) poderosa. Entre 2003 e 2006, administrou seu próprio centro de interrogatórios dentro do complexo de Guantánamo. Hoje, segundo uma investigação do Senado dos EUA, mantém prisões secretas no Afeganistão e em mais de 30 países, incluindo Austrália, Suécia e África do Sul.

Nos últimos anos, ela voltou seus esforços para a espionagem digital, com sucesso: em 2010, participou da criação do vírus Stuxnet, que infectou e queimou as máquinas de enriquecimento de urânio do programa nuclear iraniano.

A CIA usa seus hackers como soldados, mas também não está a salvo de ataques. O mais embaraçoso aconteceu em 2015. O diretor da agência, John Brennan, teve a conta de e-mail invadida, e as mensagens, publicadas na internet. Numa delas, ele se queixava das críticas feitas à agência, e dizia: “Certas coisas precisam ser feitas em segredo”. Dessa vez, a CIA não conseguiu.
Documentos revelados

Os pontos mais surpreendentes das 12 milhões de páginas confidenciais liberadas pela CIA na internet.

UM TÚNEL (NÃO MUITO) SECRETO
maio/1955
O relatório da CIA descreve um túnel de 450 m construído pelos EUA e pela Inglaterra sob Berlim Oriental, controlada pela URSS. A rede de telefonia da cidade era formada por cabos subterrâneos, e o túnel permitia alcançá-los e grampeá-los. O esquema funcionou por quase um ano, e rendeu 40 mil horas de grampos. Só havia um problema: como a própria CIA descobriu depois, os russos sabiam de tudo desde o início.

ABRE O OLHO, JANGO
8/fevereiro/1963
“Segundo o presidente Goulart, a URSS se ofereceu para construir uma usina hidrelétrica em Sete Quedas, perto da fronteira entre Brasil e Paraguai”, afirma o documento da agência, que manifesta preocupação com a “presença de grande número de soviéticos, por muitos anos, na região do Rio Paraná”. Um ano depois, João Goulart seria deposto – no golpe militar de 1964, que teve o apoio dos Estados Unidos.

URI GELLER É REAL?
agosto/1973
“Geller demonstrou sua habilidade paranormal de forma convincente e inequívoca”, afirma o relatório sobre o israelense Uri Geller, famoso por entortar garfos e realizar outros feitos difíceis de explicar. Ele foi convidado pela CIA para participar de uma semana de experiências. E teria conseguido, entre outras coisas impressionantes, visualizar e desenhar imagens que estavam penduradas numa sala ao lado.

CONTROLE DA MENTE
várias datas
Há muitos documentos da agência sobre o MK-Ultra, programa em que a CIA tentou desenvolver técnicas de lavagem cerebral e controle da mente. A agência fez experiências com LSD e outras substâncias. Oficialmente, o programa foi extinto em 1973, depois de vazar para a imprensa. Mas a CIA não abandonou o tema: produziu um relatório, em 1980, discutindo a viabilidade de “técnicas de perturbação remota”, como “telecinese”.

OBSESSÃO POR FIDEL
várias datas
A CIA elaborou centenas de documentos sobre Fidel Castro, incluindo planos para sabotá-lo e matá-lo. A principal operação ocorreu em setembro de 1960, quando a agência ofereceu dinheiro para que a Máfia americana mandasse alguém matar Fidel em Cuba, pondo veneno em sua comida. Depois de várias tentativas, a missão foi abortada – e a Máfia ameaçou vazar as informações para a imprensa.

O CASO IRÃ-CONTRAS
23/abril/1987
O então diretor da CIA, Robert Gates, instrui os funcionários a não destruir os registros da operação Irã-Contras. Nessa operação ilegal e secreta, que foi executada em 1985 (e acabara de vir à tona), a CIA vendeu clandestinamente armas ao Irã, para ajudá-lo a vencer a guerra contra o Iraque, e usou o lucro desse negócio para financiar os “Contras”, grupo que tentava derrubar a Frente Sandinista, organização de esquerda que governava a Nicarágua.

EM BUSCA DE ETS
1952 a 1996
A agência investigou detalhadamente suspeitas de OVNIs na Alemanha, na URSS, nos EUA, na Inglaterra e na Lituânia – o episódio mais recente, de 1996. Policiais tentaram se aproximar de um objeto que havia caído do céu. “Quando chegaram a 50 metros, a esfera se moveu e decolou rapidamente.” A CIA dava bastante atenção a possíveis discos voadores porque considerava que, se existissem, eles poderiam ameaçar a segurança dos Estados Unidos.

TORTURA COM OUTRO NOME
2004
O relatório fala sobre o “suposto uso” de tortura no interrogatório de acusados de terrorismo. Depois de afirmar que a CIA não encoraja ou endossa nenhum tipo de tortura, o documento descreve “técnicas aprimoradas” que poderiam ser usadas – como o afogamento simulado (waterboarding). Finaliza dizendo que “não há indícios suficientes” para processar nenhum dos supostos torturadores. Em 2006, o afogamento simulado acabou proibido.
Revista Superinteressante

domingo, 13 de setembro de 2009

O surgimento da CIA: Nas garras da águia


O surgimento da CIA: Nas garras da águia
Criada no início da Guerra Fria, a CIA se especializou em sabotar e derrubar governos. Conheça sete casos em que a agência mudou os rumos da história - nem sempre do jeito que ela tinha planejado
por Tiago Cordeiro
Quando a Segunda Guerra acabou, em 1945, os americanos tinham mostrado ao mundo o alcance de seu poderio militar, selando o destino da Alemanha nazista na Europa e tirando o Japão de combate no Pacífico. Por trás desse sucesso, entretanto, se escondia uma perigosa fraqueza. Enquanto os soldados dos Estados Unidos haviam vencido no campo de batalha, os espiões americanos tinham colecionado fracassos, mostrando-se muito inferiores aos agentes britânicos, russos e alemães. Para um país que pretendia conter a crescente influência da União Soviética, era preciso investir num recurso decisivo: informação.

Foi pensando nisso que o presidente americano Harry Truman criou a Agência Central de Inteligência, a CIA (sigla para Central Intelligence Agency), em 1947. Tudo o que ele queria era saber o que acontecia nos países do bloco socialista. A missão incluía, é claro, infiltrar agentes na União Soviética. Mas os diretores da agência logo perceberam que isso era quase impossível – há alguns anos, Richard Helms, diretor da CIA entre 1966 e 1973, chegou a declarar que, naquela época, colocar e manter um espião em Moscou era tão difícil quanto mandar um homem para Marte.

Incapaz de vigiar de perto os rivais da Guerra Fria, os diretores da CIA ampliaram o ramo de atuação da agência. Em vez de se concentrar apenas em investigações, ela passou a intervir diretamente na política de diversos países, sempre procurando destruir qualquer possibilidade de aproximação com Moscou. A primeira intervenção bem-sucedida foi o financiamento do partido Democrata Cristão nas eleições italianas de 1948, para bloquear a ascensão da esquerda na Itália. Em pouco tempo, a CIA estaria apoiando grupos rebeldes e desestabilizando governos por todos os cantos do mundo.

“A agência deveria ser a cura para uma fraqueza crônica: a capacidade de guardar segredo e usar disfarces nunca foi nosso forte”, afirma o jornalista americano Tim Weiner em Legacy of Ashes (“Legado de cinzas”, inédito no Brasil), livro que conta a trajetória da CIA lançado recentemente nos Estados Unidos. “Quando a compreensão falhou, os presidentes do país ordenaram que a CIA mudasse o curso da história à força, por meio de operações clandestinas.” E assim foi. A seguir, você vai conhecer melhor sete momentos em que a agência foi capaz de mudar o mundo. E perceber que as mudanças nem sempre aconteceram do jeito que o governo americano desejava.

A arte de criar inimigos

O alvo da primeira intervenção militar da CIA foi o primeiro-ministro do Irã, Mohammed Mossadegh. Depois de assumir o poder, em 1951, ele propôs a nacionalização das companhias petrolíferas. A proposta irritou profundamente os ocidentais que lucravam com o petróleo iraniano. Nos Estados Unidos, Dwight Eisenhower assumiu a presidência em 1953 e encomendou à CIA a Operação Ajax, cujo objetivo era a deposição de Mossadegh. A ação ficou a cargo de Kim Roosevelt, chefe da divisão da agência no Oriente Médio e neto do ex-presidente Franklin Roosevelt. Com 1 milhão de dólares, ele iniciou uma campanha contra o premiê.

Contratadas pelos americanos, multidões de pessoas, em especial jovens religiosos, foram às ruas pedir a queda de Mossadegh – a agência fornecia a elas dinheiro e infra-estrutura (como carros e escritórios). Ao mesmo tempo, outros grupos, compostos por pessoas humildes, foram contratados pela CIA para fazer manifestações que vinculassem a imagem do premiê a Moscou – com palavras de ordem como “Eu amo Mossadegh e o comunismo”. A um preço de 150 mil dólares, os jornais passaram a criticar o primeiro-ministro. O problema é que o líder dos golpistas, o general Fazlollah Zahedi, não reuniu o apoio necessário.

No dia do golpe, 7 de julho, tudo saiu errado: os dissidentes foram presos e Mossadegh se manteve no poder. Mas Kim Roosevelt não desistiu. Em 19 de agosto, ele e um grupo de religiosos, liderados pelos aiatolás Ahmed Kashani e Ruhollah Khomeini, levaram centenas de pessoas armadas às ruas. O ataque à guarda de Mossadegh custou 200 vidas. Dessa vez o premiê não resistiu. Em seu lugar, assumiu Zahedi. “Gerações de iranianos cresceram sabendo que o governo americano tinha interferido em sua soberania. No médio prazo, essa ação foi péssima para a imagem dos Estados Unidos no Oriente Médio”, afirma Tim Weiner em seu livro.

O golpe mais duro contra os americanos veio em 1979. Foi quando o aiatolá Khomeini liderou a revolução que transformou o Irã em uma república islâmica. No mesmo ano, Khomeini deteve 52 americanos na embaixada dos Estados Unidos em Teerã. Eles só foram libertados após 444 dias – durante os quais a CIA participou de diversas ações de resgate malsucedidas. Meio século após a intervenção planejada pela agência, o Irã é uma enorme pedra no sapato da política externa americana.

Um golpe exemplar

Jacobo Arbenz Guzmán assumiu a presidência da Guatemala em 1951 e, apesar de não ser um aliado declarado da União Soviética, iniciou um projeto de nacionalização de empresas. Foi o suficiente para que ele se transformasse em motivo de inquietação nos corredores da CIA. Com o sucesso do golpe contra o premiê do Irã, em 1953, Guzmán se tornou a bola da vez. “Na maior parte dos casos, as ações da agência foram e são motivadas diretamente pelo presidente. No Irã, por exemplo, a ordem de Eisenhower foi muito clara. No caso da Guatemala, entretanto, a iniciativa da CIA foi preponderante. Nada teria acontecido sem o interesse da agência”, diz o historiador especializado na CIA John Prados, autor do livro Safe for Democracy: The Secret Wars of the CIA (“Seguro para a democracia: as guerras secretas da CIA”, sem tradução no Brasil). Desde o primeiro momento, a agência já sabia quem gostaria de ver no poder no lugar de Guzmán: o coronel Carlos Castillo Armas.

Em dezembro de 1953, começou a Operação Sucesso, orçada em 3 milhões de dólares. O dinheiro bancou a construção de campos de treinamento para militantes pró-Castillo. Em 18 de junho de 1954, o general e umas poucas centenas de guerrilheiros, usando armamento de idade e qualidade variável (incluindo rifles com símbolos nazistas que haviam sido usados na Segunda Guerra), derrotaram os 5 mil homens do Exército do país. Em 8 de julho, Castillo assumiu o poder. Começavam ali quatro décadas de revoluções e ditaduras, que provocariam a morte de 200 mil civis.

Mais até do que a ação no Irã, a operação na Guatemala tornou-se o maior modelo de conduta da agência americana. “No Irã ainda aconteceram alguns erros de avaliação, e a CIA contou com alguma sorte. Na Guatemala, a estratégia foi aplicada de forma impecável”, diz John Prados. “A proposta de dar dinheiro, armas e treinamento para grupos de oposição, somada a uma campanha de formação de opinião pública contra o presidente a ser deposto, funcionou ali tão bem que se tornou referência para todas as vezes em que a agência quis interferir na política externa de algum país. O padrão seria seguido à risca, por exemplo, no Chile.”

Rei posto, rei morto

Foi sob as bênçãos americanas que Ngo Dinh Diêm, primeiro presidente do Vietnã do Sul, chegou ao poder em 1955. Afinal, ele deveria fazer frente ao governo comunista do Vietnã do Norte – o país estava dividido em dois desde que a Primeira Guerra da Indochina, no ano anterior, colocara fim a quase um século de ocupação francesa. O governo de Diêm, entretanto, foi uma catástrofe. Católico (em um país em que 90% da população era budista), perdulário e apoiado por uma polícia secreta adepta da tortura, ele provocou a ira de grupos religiosos budistas e de setores do Exército, que organizaram dois golpes de Estado contra ele, em 1960 e em 1962.

No ano seguinte, o governo americano decidiu apoiar um novo presidente. Diêm foi convidado a se afastar do cargo e procurar exílio em território americano, mas se recusou a deixar o poder e, de aliado, passou a ser alvo de Washington. Ainda em 1963, um golpe liderado pelo general Tran van Don com apoio da CIA levou um grupo rebelde a cercar Diêm dentro de seu palácio. Ele escapou, mas no dia seguinte, 2 de novembro, negociou a rendição. O presidente se entregou pacificamente, mas foi imediatamente executado.

A versão oficial de que Diêm havia cometido suicídio não convenceu, e a agência americana foi acusada de ter apertado o gatilho. “Não acredito que a CIA tenha sido diretamente responsável pelo assassinato do presidente. Mas ela deu suporte operacional, e o governo americano vinha sinalizando que daria apoio ao sucessor de Diêm. Essas duas atitudes pavimentaram o assassinato”, afirma Malcolm Byrne, diretor de pesquisa do National Security Archive, em Washington.

Mesmo com o apoio americano, nenhum outro governante do Vietnã do Sul conseguiria estabilidade política. Logo as duas metades do país mergulhariam num conflito que custaria a vida de cerca de 3 milhões de vietnamitas e tragaria também os Estados Unidos. Entre 1965 e 1973, a Guerra do Vietnã matou 58 mil americanos e feriu outros 300 mil. À CIA, restou monitorar a carnificina. “Durante a Guerra do Vietnã, a postura da agência foi impecável. Seus relatórios sobre o fracasso do esforço militar americano em atingir com seriedade o exército de Ho Chi Mihn [o líder do Vietnã do Norte] são alguns dos textos analíticos mais corajosos escritos sobre o assunto no período”, afirma Byrne.

Dez milhões contra um

“Não vejo por que devemos deixar um país se tornar marxista só porque seus cidadãos são irresponsáveis.” Em junho de 1970, foi assim que Henry Kissinger, então conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos, justificou reservadamente a liberação de uma parcela de 165 mil dólares para que a CIA continuasse sustentando uma violenta campanha de difamação contra Salvador Allende. Candidato à presidência do Chile, o socialista contava com grande apoio popular, e os americanos temiam que sua vitória nas eleições fizesse com que o Chile se tornasse aliado da União Soviética.

Apesar de todos os esforços, a campanha não funcionou: Allende foi eleito em 4 de setembro de 1970. Dez dias depois, Kissinger liberou outros 250 mil dólares para ações contra o presidente. O chefe da CIA no Brasil, David Atlee Phillips, veterano do golpe de Estado orquestrado pela agência na Guatemala, foi convocado para coordenar a derrubada de Allende. Além de uma campanha de convencimento da imprensa e dos formadores de opinião chilenos, em 1972 começaram a acontecer atentados contra indústrias nacionalizadas pelo governo. Nessa época, militares com tendências políticas de direita já tinham recebido um bocado de armamento e treinamento dos americanos. Em 11 de setembro de 1973, Allende se viu cercado por uma parcela de seu Exército no palácio presidencial e se matou com um tiro de rifle (um AK-47 que ele supostamente teria ganhado de presente de Fidel Castro).

A queda de Allende custou 10 milhões de dólares – toda essa ajuda havia sido enviada por baixo do pano, já que, no início da década de 70, a CIA não precisava prestar contas sobre como usava seu dinheiro. Quem assumiu o poder foi Augusto Pinochet, que mantinha contato direto com o escritório da CIA em Washington. Depois do fim de seu governo, em 1990, soube-se que a atuação da agência não acabara com o golpe: vários agentes da CIA foram acusados de participação em episódios de tortura que provocaram a morte de 3200 pessoas no Chile. Por toda a América Latina, incluindo o Brasil, a agência se preocupava em manter a direita no poder – e a esquerda longe dele. O sucesso no Chile demonstrou de uma vez por todas a capacidade americana de moldar a situação política do continente à sua imagem e semelhança.

Da glória às trevas

Em 11 de fevereiro de 1979, Adolph Dubs, embaixador americano no Afeganistão, foi seqüestrado por um grupo de rebeldes muçulmanos. Ele acabou sendo morto três dias depois, durante a operação policial de resgate. O episódio ilustra bem o caos em que o país estava metido, no meio de uma revolução islâmica. Para completar o cenário – e aumentar a preocupação dos Estados Unidos –, a União Soviética se preparava para invadir o Afeganistão.

Enquanto 30 mil soldados de Moscou se aproximavam da fronteira, um relatório da CIA ao presidente Jimmy Carter afirmava: “Os soviéticos estão relutantes em empregar muitas forças de terra no Afeganistão”. Quando a invasão se tornou óbvia, a agência começou a mobilizar agentes de seus escritórios na Ásia para apoiar as tropas de resistência. Até 1988, quando os russos se retiraram do Afeganistão, nada menos que 250 milhões de dólares haviam saído das contas da CIA para as mãos dos rebeldes. “O apoio à resistência afegã foi um dos poucos momentos da história da agência em que ela se mostrou capaz de, indiretamente, minar o poder soviético”, afirma o historiador David Barrett, da universidade de Villanova, nos Estados Unidos. “O atoleiro do Afeganistão teve um grande peso no contexto da decadência da URSS.”

Embora aparentemente tenha contribuído para o fim da União Soviética, a atuação da CIA no Afeganistão teve um lado amargo para os americanos. Enquanto resistiam aos russos, os grupos islâmicos apoiados pela agência tiveram a participação de um milionário saudita chamado Osama bin Laden. Em sinal de gratidão, nos anos 90, ele ganhou abrigo no Afeganistão. A partir dali, planejou uma série de atentados contra os Estados Unidos – que culminaram na derrubada do World Trade Center, em Nova York, em 2001.

A CIA se empenhou em perseguir o ex-aliado a partir de 1996. “Tivemos Bin Laden na mira por duas vezes em 1997. Nós sabíamos onde ele estava e por onde ia passar”, afirma Michael Schauer, que na época dirigia a unidade da CIA que caçava o terrorista. “Mas o presidente Bill Clinton não nos autorizou a matá-lo. Ele achava que Bin Laden era uma referência muito importante para o mundo islâmico e não queria comprar essa briga.” Depois disso, a CIA nunca mais foi capaz de localizá-lo.

Relações perigosas

A família Somoza permaneceu 43 anos no comando da Nicarágua. Em julho de 1979, entretanto, a ditadura foi derrubada pelos rebeldes do Partido Sandinista. Um ano e meio depois, ao assumir a presidência dos Estados Unidos, Ronald Reagan declarou que o governo sandinista (que tinha como um dos líderes Daniel Ortega, o atual presidente da Nicarágua) estava se aproximando demais de Cuba e ajudando a financiar revoltas comunistas na América Latina. Autorizada por Reagan, a CIA deu apoio a um grupo de anti-sandinistas, que logo cresceu e ficou conhecido como Contras. Até 1989, o confronto entre eles e as forças do governo deixaria um saldo de cerca de 30 mil mortos.

Descrita assim, a ação na Nicarágua parece seguir o roteiro básico das intervenções da CIA. Mas, dessa vez, a agência estava contrariando o Congresso americano. Desde 1973, havia uma comissão parlamentar para monitorar atividades secretas realizadas a mando do poder Executivo. Em 1981, quando a autorização para agir na Nicarágua se tornou pública, o Congresso aprovou uma lei proibindo a CIA de financiar os Contras.

Enquanto isso, longe da América Latina, Irã e Iraque estavam em guerra. “O governo americano estava financiando abertamente o Iraque, mas também queria apoiar o Irã, na esperança de que os dois países se exaurissem”, diz o historiador David Barrett. Em 1982, o clima no Oriente Médio azedou de vez: apoiado pelos Estados Unidos, Israel invadiu o Líbano. Em represália, grupos libaneses seqüestraram 12 cidadãos americanos entre 1982 e 1985. Reagan tinha pressa em libertá-los.

Diante desse cenário, a CIA resolveu matar três coelhos com uma paulada só. Organizou um esquema de tráfico de armas para o Irã. Em troca, os iranianos deveriam convencer os libaneses a soltar os reféns. Do dinheiro obtido com a venda das armas, parte era depositada pela CIA em contas na Suíça. Lá, os recursos ficavam à disposição dos Contras da Nicarágua. Quando descoberto, em 1986, o esquema Irã-Contras provocou o maior escândalo da história da CIA. “A agência esteve perto de desaparecer”, afirma Barrett. Só oito reféns foram soltos – os outros foram assassinados, incluindo William Buckley, diretor do escritório da CIA no Líbano. O fim do conflito Irã-Iraque, em 1988, não trouxe benefícios para os Estados Unidos. Já os sandinistas continuaram no poder até 1990. “A partir do episódio Irã-Contras, a CIA teve muito mais dificuldade em derrubar presidentes”, diz o historiador. “Os países malvistos pelos americanos puderam respirar mais tranqüilos.”

Chute para fora

“O Iraque é o lugar mais perigoso do mundo.” A frase soa atual, mas está completando 50 anos. Foi com ela que Allen Dulles, então diretor da CIA, começou uma reunião em 1958. Estava assustado com o golpe de Estado de 14 de julho daquele ano, que havia derrubado a monarquia iraquiana, aliada dos Estados Unidos. O poder passou às mãos de Abdul Karim Qasim. Em 1963, veio o troco: a agência apoiou o golpe que colocou o general Abdul Salam Arif no governo. Ele morreu em 1966 e deu lugar a seu irmão, que, dois anos depois, foi deposto por Ahmed Hassan al-Bakr. Inicialmente apoiado pela CIA, ele acabou se aproximando da União Soviética.

No decorrer da década de 70, entretanto, Al-Bakr foi perdendo influência para seu vice-presidente, Saddam Hussein, que assumiu o poder em 1979. Saddam era visto pelos americanos como um aliado útil, embora não muito confiável. Entre 1980 e 1988, ele obteve polpudos empréstimos americanos para sustentar a guerra contra o Irã. Quando resolveu invadir o Kuwait, em 1990, Saddam já não contava com a simpatia dos americanos. A ação contra o vizinho e seus campos de petróleo foi uma provocação inaceitável. Uma coalizão liderada pelos Estados Unidos atacou o Iraque em janeiro de 1991 e derrotou as forças de Saddam antes do fim de fevereiro.

O presidente iraquiano, entretanto, seguiu no poder. Em janeiro de 2002, o diretor da CIA, George Tenet, recebeu a missão de provar que o ditador armazenava “armas de destruição em massa” no Iraque. O objetivo era torná-lo um alvo da Guerra Contra o Terror lançada pelo governo de George W. Bush. O país foi atacado em 2003, viveu momentos de guerra civil e segue ocupado pelos americanos. Saddam foi caçado, julgado e executado. E as tais armas nunca apareceram. “É verdade que Saddam alimentava a ilusão de que tinha as armas. Mas Tenet forçou a mão com base em informações que não tinha, torcendo para que depois o Exército encontrasse as armas”, escreve Tim Weiner. O erro custou a demissão de Tenet e uma nova quebra na relação de confiança entre a agência e a presidência. “Por causa do terrorismo, a agência nunca teve tanto dinheiro à disposição”, diz o historiador John Prados. “Mas dinheiro não é tudo. A CIA ainda precisa recuperar a fé da Casa Branca.”



Secretas, mas nem tanto
Conheça outras agências de inteligência
• Criado em 1909, o MI6, o serviço de inteligência britânico, é o único, entre os mais importantes do mundo, que não foi criado durante a Segunda Guerra ou imediatamente depois dela. Na Guerra Fria, o MI6 infiltrou mais espiões na União Soviética do que a CIA.

• Entre as façanhas do Mossad, o serviço secreto israelense, fundado em 1949, está ter encontrado vários criminosos de guerra nazistas – como Adolf Eichmann, seqüestrado na Argentina em 1960 e julgado, condenado e executado em Israel dois anos depois.

• A Força Secreta de Inteligência Australiana (ASIS, na sigla em inglês) é tão competente e discreta que foi criada em 1952, mas permaneceu desconhecida do público até 1974, quando acabou exposta por uma reportagem do jornal The Daily Telegraph.

• Fundada em 1954 e extinta em 1991, a KGB, a antiga agência soviética, era especialista em bloquear a ação de espiões inimigos. Durante as quatro décadas de Guerra Fria, a CIA só conseguiu manter em Moscou três agentes capazes de roubar segredos militares russos.


Conexão Brasil
A CIA também esteve aqui
Durante a Guerra Fria, as mudanças políticas no Brasil eram vigiadas de perto pela CIA. No instável início de 1964, a agência manteve homens em alerta em diversas capitais do Brasil. No dia 30 de março, véspera do golpe militar que derrubou o presidente João Goulart, um relatório elaborado por agentes em Belo Horizonte informava: “Uma revolução organizada por forças anti-Goulart vai definitivamente acontecer esta semana”. E também fazia uma previsão equivocada: “A revolução não vai se resolver rapidamente e vai ser sangrenta. As lutas vão continuar por um longo período na região norte”. Preocupada com uma eventual aproximação de Goulart com os países socialistas, a CIA chegou a levantar dinheiro para doar a seus opositores – não se sabe, entretanto, se alguma quantia foi entregue. Os agentes também estavam de prontidão para transferir aos golpistas cerca de 100 toneladas de armas leves e munição, que seriam enviadas a mando do presidente americano Lyndon Johnson e entregues em Iguape, no litoral sul de São Paulo. Como Goulart foi deposto rapidamente, o carregamento acabou nem saindo do solo americano.

Vaga para moços de fino trato
Saiba como arrumar emprego na CIA
Em 1992, o então diretor da CIA (e atual secretário de Defesa americano) Robert Gates precisou contratar um agente que conhecesse o idioma do Azerbaijão. “O candidato falava a língua azeri com fluência, mas não escrevia inglês tão bem, e por isso foi reprovado”, Gates diria, anos depois. “Só que eu já tinha centenas de pessoas que falavam inglês. Virei para os responsáveis pelo processo de seleção e perguntei: ‘O que vocês fizeram?!” Desde então, a situação mudou. Hoje, a agência valoriza a fluência em idiomas estrangeiros e o contato com outras culturas. Para entrar na CIA, é preciso ser cidadão americano e ter mais de 18 anos (passagem pelo Exército é recomendável). A gama de cargos que a agência mantém é vasta – vai de cartógrafo até agente paramilitar – e um espião em começo de carreira ganha cerca de 3100 dólares.

Saiba mais
LIVROS

Legacy of Ashes, Tim Weiner, Random House, 2007

O jornalista do The New York Times conta os bastidores da história da CIA desde sua criação até 2007.

Todos os Homens do Xá, Stephen Kinzer, Bertrand Brasil, 2004

Conta a deposição do premiê iraniano Mohamed Mossadegh, o primeiro golpe de Estado com apoio da CIA.

Safe for Democracy: The Secret Wars of the CIA, John Prados, Ivan R. Dee, 2006

Descreve as principais ações da CIA, bem-sucedidas ou não, planejadas para desestabilizar governos estrangeiros.

SITE

www.gwu.edu/~nsarchiv/NSAEBB/NSAEBB118/index.htm Página da Universidade George Washington, em inglês, tem diversos documentos sobre a ajuda americana ao golpe militar no Brasil, em 1964.

Revista Aventuras na Historia

domingo, 1 de março de 2009

A mão invisível da CIA na União Européia

De 1949 a 1959, em plena Guerra Fria, a CIA despejou o equivalente a US$ 50 milhões em movimentos pró-europeus, dentre os quais o do britânico Winston Churchill e o do francês Henri Frenay. Seu objetivo? Conter o comunismo
por Rémi Kauffer
AGIP/RUE DES ARCHIVES

Truman e Churchill em 1952: a Cia financiou organizações criadas pelo líder britânico, que não queria tirar os recursos do seu próprio bolso

Em 1948, a Europa estava dividida em duas. Metade do continente havia aderido ao socialismo e a outra metade, que permanecia fiel ao capitalismo, vivia sob a ameaça de uma invasão total do Exército Vermelho. Um pequeno círculo de americanos lançou então as bases do Comitê para uma Europa Unida (American Committee for United Europe), o Acue, oficialmente criado em 5 de janeiro de 1949, na sede da Fundação Woodrow Wilson, em Nova York. Políticos, juristas, banqueiros e sindicalistas se misturavam no interior de seu conselho diretivo. Robert Paterson, o secretário da Guerra; Paul Hoffman, o chefe de administração do Plano Marshall (ver glossário); Lucius Clay, o administrador da zona de ocupação na Alemanha. Mas o principal do Acue eram os homens do serviço secreto e a outra sigla que estava por trás do comitê. A CIA, a Agência Central de Inteligência, criada em 15 de setembro de 1947 por uma lei de segurança nacional assinada pelo presidente Harry Truman, envolvida em uma história que revela como os americanos, no pós-guerra, apoiaram os movimentos que defendiam a unificação da Europa como antídoto contra Stalin.

Basta ver quem era seu presidente: William Donovan. Nascido em 1883 em Buffalo, o advogado irlando-americano conhecia bem a Europa. Em junho de 1942, criou o Office of Strategic Services (OSS), o serviço secreto americano da Segunda Guerra Mundial, que chefiaria até setembro de 1945, quando o órgão foi dissolvido. “Wild Bill” teceu relações privilegiadas com a CIA.

Outro importante membro do comitê era Allen Dulles, ex-membro do OSS e um dos redatores da lei que criou a CIA. Dulles acreditava que em matéria de ação clandestina, público e privado deveriam unir forças. Em 1950, reassumiria oficialmente uma posição no serviço secreto, e logo em seguida estava à frente da agência – de fevereiro de 1953 a setembro de 1961.
Surpreendente caldeirão, no comitê personalidades da alta sociedade e/ou do serviço secreto coabitavam com os dirigentes da poderosa central sindical American Federation of Labor, a AFL, com quem compartilhavam a aversão pelo comunismo.


AGIP/RUE DES ARCHIVES

Reunião do Conselho Europeu em 1952, com os chanceleres da Alemanha, Grã-Bretanha e França: integração da Europa seria "antídoto" contra Stalin

Para enfrentar a União Soviética, Washington desenvolveu dois conceitos-chave: a “contenção” e o Plano Marshall. A idéia da contenção foi desenvolvida por George Kennan, em julho de 1947: “O elemento maior da política dos Estados Unidos relativamente à União Soviética deve ser uma barreira, de longo prazo, paciente, mas firme, às tendências expansionistas russas”.

Quanto ao Plano Marshall, ele tem o nome de seu inventor, o general George Marshall, então ministro das Relações Exteriores do governo Truman. Ao oferecer ajuda na recuperação dos arruinados europeus, os Estados Unidos resolviam dois problemas. Puxar o tapete sob os pés dos partidos comunistas, através da melhora do nível de vida dos países atingidos e impedir sua própria indústria de mergulhar na decadência, abrindo as portas de novos mercados.

Para a dobradinha Marshall–Kennan, nada melhor como ferramenta do que a CIA. “Eles me chamam de pai da informação centralizada, mas eu preferia que eles se lembrassem de mim por causa de minha contribuição para a unificação da Europa”, suspirava Donovan, em outubro de 1952. Construir a Europa era preencher um vazio continental que tinha vantagens só para Stalin – em última instância, portanto, era proteger os Estados Unidos. Nos espírito dos homens da CIA, não havia nada de mais nobre do que uma ação clandestina a serviço da liberdade.

Enquanto isso, Winston Churchill, derrotado nas eleições legislativas de 1945, buscava a formação de um eixo anglo-franco-alemão, em uma “espécie de Estados Unidos da Europa”. Em maio de 1948, Duncan Sandys, seu genro, moldou o Congresso Europeanista de Haia sob medida para o sogro. E em outubro de 1948 Churchill criou o United European Movement – o Movimento Unido Europeu, do qual era o presidente de honra, ao lado de dois democratas-cristãos, o italiano Alcide de Gasperi e o alemão Konrad Adenauer, e de dois socialistas, o francês Léon Blum e o belga Paul-Henri Spaak.

Infelizmente para os “amigos americanos”, Churchill propôs objetivos europeus bastante limitados.


TAL/RUE DES ARCHIVES

O Exército Vermelho ocupa Berlim em 1945. O medo de uma invasão soviética assombrava a Europa Ocidental e seus aliados nos Estados Unidos

O Comitê e a tendência “federalista” de Henri Frenay queriam ir muito mais longe. Nos piores momentos da Segunda Guerra Mundial, Frenay, fundador do movimento da Resistência francesa Combat (ver glossário), concebeu a idéia de um continente unificado, com uma base supranacional. Em novembro de 1942, escreveu para De Gaulle que era preciso ir além da idéia de estado-nação: reconciliar-se com a Alemanha do pós-guerra e construir uma Europa federativa.

Com orientação de esquerda, a União Européia dos Federalistas, a UEF, foi criada em 1946. Frenay tornou-se o presidente do escritório executivo, secundado pelo ex-comunista italiano Altiero Spinelli e pelo austríaco Eugen Kogon. A CIA teria de optar então entre o velho leão inglês e o pioneiro da Resistência francesa.

A favor de Churchill contavam sua natureza de estadista, de aliado de guerra e sua preferência declarada pelos Estados Unidos; contra ele falavam sua recusa obstinada do modelo federalista, tão caro aos europeanistas americanos. Em março de 1949, Churchill se encontrou com Donovan, em Washington. Em junho, escreveu pedindo um aporte emergencial de recursos (pessoalmente muito rico, Churchill não tinha a menor intenção de recorrer ao próprio bolso). Comitê e CIA, a principal fornecedora de fundos, desbloquearam então uma primeira fatia, equivalente a pouco menos de 2 milhões de euros em valores atuais-, que permitiram “preparar” as primeiras reuniões do Conselho da Europa de Estrasburgo.

Para apoiar seus parceiros do Velho Continente, o Acue e a CIA montaram complexos circuitos financeiros. Os dólares do Tio Sam – equivalentes a 5 milhões de euros, entre 1949 e 1951, e depois o mesmo montante anualmente, na seqüência – vinham essencialmente de fundos alocados à CIA pelo Departamento de Estado americano. Em outubro de 1951, a volta de Churchill ao poder não interromperia o fluxo de dinheiro: entre 1949 e 1953 a CIA deu ao seu movimento o equivalente a mais de 15 milhões de euros, deixando a seus parceiros europeus a tarefa de redistribuir uma parte desse dinheiro a seus rivais da UEF.

Para Frenay, estava claro: a Europa federativa constituía então o único escudo eficaz contra o expansionismo comunista. A UEF não era rica. A saúde financeira viria do aliado americano? Sim, garantiam desde meados de 1950 os homens do Acue a um representante francês da UEF em visita a Nova York. De acordo com a posição oficial do governo americano, favorável à integração européia, sua ajuda não exigiria nenhuma contrapartida, política ou de outro tipo, condição sine qua non aos olhos de Frenay. A partir de novembro de 1950 o Acue financiaria com cerca de 600 mil euros uma das iniciativas mais significativas de Frenay e dos federalistas de esquerda: a criação, em Estrasburgo, de um Congresso dos Povos Europeus, também chamado de Comitê Europeu de Vigilância – em paralelo ao oficialíssimo Conselho da Europa de Churchill.

Para a CIA não eram os meios conservadores que precisavam ser convencidos, mas a esquerda anti-stalinista européia, da qual Frenay era um dos maiores representantes. Em 1952, o Acue financiou o efêmero Comitê de Iniciativa para a Assembléia Constituinte Européia, do qual Spaak seria presidente e Frenay secretário-geral. Por meio de fundações privadas mais ou menos fictícias, começou um procedimento de pagamentos aos federalistas de esquerda, por contatos paragovernamentais americanos.

Em 1958 a volta ao poder do general De Gaulle, radicalmente hostil às teses federalistas, aniquilou as últimas esperanças da UEF e de seus amigos americanos. À dissolução do Acue em maio de 1960, seguiu-se o fim dos financiamentos ocultos. Em 12 anos, a CIA pagou o equivalente a 50 milhões de euros. Sem jamais suas ações terem sido pegas em flagrante!

Rémi Kauffer é professor do Instituto de Estudos Políticos de Paris e membro do comitê editorial da revista Historia

Revista Historia Viva