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segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

UM OLHAR NA HISTORIA: A MULHER NA ESCOLA (BRASIL: 1549 – 1910)



Maria Inês Sucupira Stamatto – Programa de Pós-Graduação em Educação - UFRN 

Este texto aborda a problemática do processo de escolarização que se realizou no Brasil desde a chegada dos jesuítas até o início da República, sob a ótica do gênero. A situação de exclusão da mulher da escola em outros países, em épocas anteriores, já foi constatada por autores que trabalharam com alfabetização e leitura, e mesmo cantada em prosa e verso, como podemos ilustrar com a “Balada para rezar a Nossa Senhora”: ...Sou mulher pobrezinha e quase no final. Eu nada sei, jamais por mim letra foi lida. Vejo na igreja que freqüento, paroquial, Pintado o céu, onde o alaúde, a harpa é ouvida, E o inferno, onde os danados fervem sem medida: Um me apavora, o outro a alegria em mim derrama... . ( Villón apud in Martins, 2001, p.133.) Poderíamos afirmar que esta realidade já não é mais a mesma? Segundo dados recentes, temos a informação de que 125 milhões de crianças no mundo não freqüentam a escola sendo que dois terços deste número são meninas e que um em cada quatro adultos nos países em desenvolvimento não sabe ler ou escrever, sendo que dois terços deste percentual são mulheres (Mittler, 2002, p.11). Será que no Brasil a situação é ou foi diferente? Como historicamente aconteceu a escolarização da população brasileira, atentando para a questão feminina? Assim, escolhemos como objetivo desta pesquisa observar de que forma ocorreu a inserção da mulher na rede escolar, tanto enquanto aluna como profissional da educação, isto é, em situações do mercado de trabalho deste ramo: professora, diretora, supervisora. Nesta etapa do trabalho optamos por uma abordagem histórica, levantando documentos variados e nos apoiando em bibliografia já produzida sobre o assunto.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Prostituta não é vagabunda

O jornal Beijo da rua é um marco do movimento de conscientização sobre os direitos e a organização das profissionais do sexo

Pedro Lapera


Com o retorno dos movimentos sociais à cena política em meados dos anos 1980, um grupo socialmente invisível entra firme na luta por seu reconhecimento. Com o jornal Beijo da rua como bandeira, as prostitutas reivindicam sua legitimação na esfera pública. Os exemplares produzidos até 1993 do periódico lançado em dezembro de 1988 estão guardados na Coordenadoria de Publicações Seriadas da Fundação Biblioteca Nacional.

Fundado por Gabriela Silva Leite, a Gabi, responsável pela ONG Davida, que mais tarde lançaria a grife Daspu, e editado pelo Iser (Instituto Superior de Estudos da Religião), que tinha como coordenador Rubem César Fernandes, ativista político bastante conhecido que acolheu esta iniciativa. O objetivo do jornal era “mostrar que a prostituta não é uma vagabunda ou então o resultado do capitalismo selvagem, mas sim a linha direta de uma sociedade que morre de medo de encarar sua sexualidade e, consequentemente, se sente profundamente ameaçada quando a prostituta mostra seu rosto”.

O layout do Beijo da rua tem identificação fácil para seus leitores: na primeira página, a coluna da Gabi apresenta o novo número ao lado da seção de poesia, com vários trechos de autores célebres, como Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade, e seus poemas sobre mulheres, prostituição e o universo do prazer. Em seguida, artigos e reportagens sobre temas relacionados à prostituição e à sexualidade: regiões das metrópoles brasileiras ocupadas por prostitutas, michês e travestis; entrevistas com profissionais falando de suas experiências na rua. Encerrando cada edição, uma seção de cartas, que evidencia a formação de uma comunidade em torno do jornal, composta de políticos, prostitutas do Rio de Janeiro e de outros estados, pesquisadores e ativistas dos direitos humanos.

Gabriela Leite qualifica a si própria e seus colaboradores como integrantes do “Exército de Brancaleone”, aludindo ao grupo de maltrapilhos criado pelo italiano Mario Monicelli no cinema. Com este espírito, o periódico questiona, desde seu primeiro número, as estruturas do poder vigente e tenta conscientizar as prostitutas da importância de participarem do jogo político, como comprovam reportagens sobre eleição de representantes, mudanças nas leis penais, civis e trabalhistas que incidem na prática da prostituição. Aliás, uma imagem que expõe a força da ideia dos “maltrapilhos” apropriando-se da cena pública é a do carro abre-alas do desfile da escola de samba Beija-Flor com centenas de figurantes vestidos de mendigos, bêbados e prostitutas, publicada no jornal e descrita na coluna da Gabi na edição de abril-maio de 1989.

Inspiração no Pasquim


Dois pontos costuram as narrativas: a violência policial e a relação entre a prática da prostituição e a ocupação de determinados espaços nas regiões urbanas. Além disso, a Aids – o grande temor dos anos 1980 – também encontra espaço nas páginas de Beijo da rua, ora como assunto de palestras destinadas ao público feminino e LGBT, ora como referência a atitudes preconceituosas, como a frase “Ih, Cazuza!”, proferida com sarcasmo contra travestis, pelo fato de o cantor ter sido a primeira personalidade a assumir publicamente ser portador do vírus.

Entretanto, o tom predominante no jornal está bem longe do pessimismo ou, ainda, da seriedade cara à militância política dos anos 1960. Inspirado em tabloides da imprensa nanica como O Pasquim, Planeta Diário e Lampião da Esquina, Beijo da rua denuncia, comemora e comunica com irreverência que marcou politicamente os anos 1980, como arma contra a cultura do autoritarismo e da sobriedade dos costumes legitimada pelo regime político que acabara de cair. Digna de registro, a reportagem “Travesti: a insustentável leveza de ser”, na qual o antropólogo Jared Jorge Braiterman, ao parodiar o título do consagrado livro de Milan Kundera, afirma que “marginalizados por aqueles que estão no poder, os travestis, apesar disso, criam identidades verdadeiramente pós-modernas no seu desafio aos limites tradicionais do masculino e do feminino, das fronteiras nacionais, da verdade e da fantasia”.

Essa afirmativa vale também para as prostitutas, uma vez que, ao questionarem a rigidez da concepção de sexualidade propagada pela moral dominante, apropriam-se do espaço urbano e passam a integrar uma cartografia afetiva que desafia os tradicionais ocupantes da cena pública. Investindo na história desta cartografia, o jornal publicou uma série de artigos assinados por Jesus Lemos sobre as zonas de prostituição no Rio de Janeiro. Dentre outras, a zona do Mangue, a Cidade Nova, a Vila Mimosa e as praças da República e Tiradentes no período compreendido entre o final do século XIX e a década de 1980.

A força retórica das páginas de Beijo da rua conseguiu superar os impasses e as crises dos anos 1990: a publicação sobreviveu e ganhou, inclusive, uma versão virtual, produzida desde 2004 pela ONG Davida. A necessidade sempre renovada de reafirmar a sexualidade como área do prazer e não das regras morais animou esta sobrevida do jornal.
Revista de História da Biblioteca Nacional

sexta-feira, 24 de março de 2017

Como fazíamos sem... Absorvente íntimo?


Incomodada ficava sua vó.... ficava mesmo!

Redação AH

 Lavadeiras em quadro de artista colombiano, 1923 | Crédito: Eugenio Zerda

Dizia o comercial de TV que incomodadas ficavam as nossas avós. Ele tinha razão. Antes da invenção do absorvente descartável, a mulherada sofria. E improvisava.

De acordo com dados do Museu da Menstruação e da Saúde Feminina, na Antiguidade, em Roma, as mulheres enfiavam pequenos chumaços de lã no interior da vagina para conter o fluxo menstrual. Em algumas tribos da África, usavam rolinhos de grama. As gregas revestiam ripas de madeira com várias camadas de retalho. Já as japonesas se viravam confeccionando canudinhos de papel. Na Indonésia, fibras vegetais eram usadas na tentativa de absorver o fluxo, ao passo que, no Egito, canutilhos de papiro faziam as vezes de absorvente higiênico. Todas essas invenções eram intravaginais – por isso, era melhor deixar um pedacinho para fora, para facilitar a retirada.

Registros arqueológicos mostram que, desde o século 15 a.C, as mulheres já pensavam em alguma espécie de proteção para aqueles dias. Mas uma das referências mais conhecidas acerca do assunto é encontrada nos escritos deixados pelo grego Hipócrates, mencionando expressamente a utilização de protetores intravaginais entre suas contemporâneas – ele viveu de 460 a 370 a.C.

Durante toda a Idade Média uma opção eram as toalhinhas higiênicas, feitas de qualquer resto de tecido – não raro, elas levavam ao surgimento de coceiras, assaduras e irritações no corpo. De todo modo, qualquer coisa devia ser melhor do que o isolamento a que as mulheres de diversas tribos indígenas eram submetidas: elas ficavam longe dos olhos dos outros, sentadas numa espécie de ninho, que absorvia o sangue.

 
Soluções para higiene feminina em anúncio dos anos 1930

Só no século 19 têm início pesquisas voltadas ao desenvolvimento de apetrechos mais funcionais. Em 1933 o absorvente interno foi patenteado, mas a novidade só chegou ao Brasil 40 anos depois. Por outro lado, toalhas descartáveis já ocupavam as prateleiras desde o fim da Primeira Guerra. Algumas tinham o formato de uma calcinha, ficando presas à cintura, enquanto outras eram presas com alfinetes – os absorventes com fita adesiva chegaram em 1970.

Um alívio sem precedentes, que livrou as mulheres de preocupações, como a de o que fazer para que ninguém visse o varal coalhado de retalhos suspeitos – afinal, as moças de boa família não podiam expor suas intimidades.
Revista Aventuras na História

quarta-feira, 12 de março de 2014

Dia da Mulher: conheça a 'mãe' do automóvel

Bertha Benz, esposa do fundador da Mercedes, foi a primeira testadora de carros da história

Diego Ortiz



Mercedes/Divulgação
Bertha Benz antes do casamento em 1872

Muitos machistas por aí dizem que carro e mulher não combinam, a não ser que seja no banco do carona. Mal sabem eles que o primeiro piloto de testes da história foi uma mulher e, ainda mais, que se não fosse por ela, a incrível Bertha Benz, o automóvel provavelmente demoraria muito a se popularizar.

Bertha Ringer (nome de solteira) nasceu em 1849 em Pforzheim, na Alemanha. Ela ficou noiva de Karl Benz em 1871 e usava o abundante dinheiro de sua família para investir na oficina de criação dele. Mesmo prontos para se casar, Bertha e Karl postergaram a data do enlace pois, pelas leis da época na Alemanha, uma mulher casada não podia administrar a herança da família ou ter um negócio próprio.



Após algumas invenções de Benz saírem do papel e começarem a engrenar na cidade de Mannheim, os dois se casaram em 20 de julho de 1872. Quatorze anos mais tarde, Benz montou, com a ajuda de Bertha, o primeiro Patent-Motorwagen, sua quinta maior invenção. As quatro primeiras foram Eugen, Richard, Clara e Thilde, os primeiros filhos do casal - Ellen nasceu em 1890.

Em 29 de janeiro daquele mesmo ano, Benz conseguiu a patente de número 37435 e se transformou no pai do modelo que passou a ser considerado o primeiro automóvel feito no mundo. Mesmo com a imensa importância histórica de hoje, o Patent-Motorwagen não se converteu em sucesso quando foi lançado, em 3 de julho de 1886. Faltava um algo a mais, que se materializou dois anos depois, pelas mãos e pés de Bertha.



No dia 5 de agosto de 1888, a esposa de Karl, juntamente com os filhos Richard e Eugen, de 14 e 15 anos, respectivamente, sai acelerando os 0,9 cv a 400 rpm do motor monocilíndrico de quatro tempos do Patent-Motorwagen 3 sem avisar o marido e as autoridades locais em uma intrépida aventura de 104 quilômetros na região de Baden, até a casa de sua mãe.

A ideia de Bertha era mostrar ao mundo a funcionalidade do automóvel. Mas não foi nada fácil. O combustível usado pelo motor era a ligroína, solvente derivado da benzina que Bertha comprou em farmácias, um tipo de loja que pouco comum na época. O tubo de combustível ficou entupido e teve de ser desobstruído com a ajuda de um grampo de cabelo. Já a liga de uma meia foi usada para isolar o curto circuito de um fio.



E a aventura teve mais peripécias. Na metade do caminho, já muito cansada, Bertha entrou para a história novamente ao criar o conceito da lona de freio, após ter um problema de desgaste no sistema de frenagem do carro.

Com base nos relatos da esposa após a volta da viagem de quatro dias, Benz fez melhorias no carro. E a história da aventura da primeira piloto de testes do mundo levou uma multidão à oficina de Karl, dando início a uma revolução que ficou conhecida como indústria automobilística.

Para aqueles que discordam do ditado que prega que "por trás de um grande homem sempre há uma grande mulher", a história de Bertha Benz é a personificação disso. 
Jornal O Estado de S. Paulo

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

As mulheres de Henrique VIII


Henrique viii teve seis esposas e quase todas tiveram um destino trágico. Segundo a historiadora e biógrafa inglesa antonia Fraser, autora de As Seis Mulheres de Henrique VIII (Editora record), Catarina de aragão, ana Bolena, Jane Seymour, ana de Cleves, Catarina Howard e Catarina Parr ficaram conhecidas na história como, respectivamente, a divorciada, a decapitada, a morta, a segunda divorciada, a segunda decapitada e a sobrevivente. Seis mulheres e igual número de destinos tristes.

Todas tiveram casamentos arranjados com o monarca Tudor e não conseguiram encontrar felicidade ao lado do rei anglicano. Essa era a sina de viver ao lado do chefe de Estado mais polêmico da inglaterra. No livro, antonia Fraser também relaciona as esposas do Tudor a outros apelidos não menos pejorativos, que eram ditos nos corredores da corte, na época: Catarina de aragão era a esposa traída, pois fora trocada pelo monarca; ana Bolena era a tentadora, pois levou Henrique viii a se desfazer da esposa anterior; Jane Seymour era a boa mulher, jovem, linda e atraente; ana de Cleves era a irmã feia, pois tinha cicatrizes de varíola no rosto e, dizem, nunca deixou de ser virgem (suas núpcias com o rei nunca se consumaram); Catarina Howard era a moça má, pois traiu o monarca inglês com inúmeros homens, até que foi executada; por fim, Catarina Parr ficou conhecida como mãe, pois esteve ao lado do marido até sua morte. a pesquisadora ressalta que as mulheres de Henrique viii tinham uma personalidade forte, mas que tombaram vítimas da obsessão do rei por um herdeiro homem, algo muito importante para os monarcas da época. mesmo sem encontrar a felicidade e a paz, as seis esposas do Tudor entraram para a História junto com o marido em um dos períodos mais marcantes para a inglaterra.


Revista Leituras de História

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Matriarcado - História ou mito?



reprodução
A grande mãe?
Descoberta em 1908, a Vênus de Willendorf foi por muito tempo tida como imagem religiosa
Imagine viver numa sociedade que desconhece a guerra e a violência sistemática, que não possui classes nem estrutura rígida de poder, que não oprime mulheres nem homens e que celebra a vida a ponto de adorar a natureza como expressão de um ser divino. Soa como um sonho dourado de futuro? Pois, em linhas gerais, é assim que muitas pessoas acreditam que foi o passado da humanidade. Essa fase aparentemente idílica é conhecida por alguns como período matriarcal. Tal sociedade teria existido na Europa e na Ásia, pelo menos desde o ano 35.000 a.C. Mas os traços dessa cultura teriam sido progressivamente extintos a partir de 4.000 a.C., quando invasores vindos das estepes teriam tomado os continentes e introduzido o machismo, a cultura da guerra e a sociedade patriarcal.

A possível existência de uma fase matriarcal na história da civilização foi sugerida no século 19 e chegou a ser considerada um fato histórico por importantes arqueólogos e antropólogos até meados do século passado. Ao longo dos últimos 20 anos, porém, houve uma reviravolta no debate, e hoje boa parte da comunidade científica tende a rejeitar a idéia. Fora da academia, porém, a convicção de que houve um passado onde as relações entre homens e mulheres eram igualitárias permanece forte entre os adeptos das religiões neopagãs e as feministas. Mas ambos os grupos estão mostrando que são capazes de aceitar o revisionismo histórico sem abrir mão de suas crenças fundamentais.
A hipótese matriarcal surgiu em 1861, quando o suíço Johann Bachofen sugeriu a existência de sociedades matriarcais na pré-história. Suas idéias influenciaram fortemente antropólogos e arqueólogos do final do século 19 e começo do século 20. Quando os pesquisadores da chamada era do gelo (40.000 - 10.000 a.C.) desencavaram grande quantidade de estátuas femininas conhecidas como vênus (essa que você vê acima é a vênus de Willendorf), foram rápidos em identificá-las como representações de deusas-mãe. Em 1901 o arqueólogo britânico Sir Arthur Evans descobriu a civilização minóica, que teve seu auge na Grécia entre os século 27 e 11 a.C., e afirmou tratar-se de uma sociedade matriarcal.
Para explicar mais exatamente o que isso seria, foram surgindo mais especulações: além da descendência matrilinear, nesses povos as mulheres ocupariam os postos de liderança e até os bens herdados seriam passados de mãe para filha. Em 1958 foi descoberto na Turquia um imenso povoado do período neolítico (8.000-5.000 a.C.). Batizado de Çatalhouyk, era uma cidade que abrigava 8.000 moradores em 2.000 casas, construídas umas sobre as outras, numa área de 26 acres.
O descobridor, o arqueólogo inglês James Mellaart, estava bem familiarizado com a idéia de matriarcado ancestral. Por isso, ao encontrar em suas escavações estátuas mostrando poderosas figuras femininas, ele não exitou em identificá-las como representações de deusas, e sugeriu que a base da estrutura social em Çatalhouyk era matriarcal.
As descobertas de Mellaart, divulgadas nos anos 1960, chamaram a atenção de Marija Gimbutas, uma arqueóloga lituana residente nos Estados Unidos. Gimbutas se interessava pela "velha Europa", que era como chamava as culturas que habitaram o continente durante o período neolítico. Gimbutas estudou os artefatos produzidos numa extensa área, que ia da Rússia até a Itália, Turquia e Grécia. Ela defendia a tese de que todas essas sociedades compartilhavam uma mesma matriz cultural. O ponto central dessa cultura era o culto a uma deusa que simbolizava a Natureza, cujas raízes antiquíssimas remontariam ao paleolítico. Seu modo de vida, que ela chamava de matrifocal, seria agrária e não-violento.
Ruína dá pistas para entender modo de vida e relações entre os sexos na pré-história
PINTURAS
A maior parte das pinturas mostra homens e caçadas. Os retratos sugerem que os homens controlavam os festins rituais
ÍCONES ESTRANHOS
Esculturas de cabeças de boi encontradas em santuários chegaram a ser apontadas como símbolos de uma deusa antiga, pois representariam o útero (cabeça) e as trompas de falópio (chifres). Mas hoje tais idéias são contestadas
TRABALHO
O cultivo de plantas era uma atividade feminina. Mas outras tarefas, como a produção de ferramentas, não parecem ter sido privilégio de nenhum sexo
UMA CASA
A entrada era pelo telhado, e um forno garantia o aquecimento ambiente. Os mortos eram enterrados no subsolo das casas.
DESCENDÊNCIA
Alguns corpos tiveram sua cabeça removida e enterrada em outro lugar. Isso sugere que fossem chefes de linhagens, e que a descendência era transmitida
tanto pelo pai como pela mãe
COLMÉIA
Não havia ruas, pois as casas eram erguidas sob o telhado de uma habitação anterior. Foram encontrados 18 níveis de construção
Gimbutas explicava ainda o fim da antiga Europa: uma cultura invasora teria aos poucos submetido os povos locais. Ela identificou essa cultura com os kurgans, um povo que veio das estepes russas em 3.500 a.C. Gimbutas acreditava que os kurgans fossem uma cultura nômade e guerreira, que teria introduzido o cavalo e o idioma original indo-europeu na Europa. As idéias de Gimbutas se tornaram muito populares nos anos 1970. Surgiram seguidoras que usaram seu modelo para explicar também a pré-história de sociedades fora da "velha Europa", como a hindu. Mas a maior parte do seu público estava longe da academia, entre as feministas e os adeptos das religiões neo-pagãs.
A antropóloga americana Cynthia Eller, uma estudiosa do movimento neo-pagão, está na linha de frente do combate ao legado de Gimbutas. Ela causou polêmica ao lançar em 2000 o livro "O Mito da Deusa", no qual dissecava a crença num matriarcado pré-histórico. "Sociedades tem costumes diferentes. A idéia de que povos separados por milhares de quilômetros tivessem a mesma religião e os mesmos costumes não faz sentido", ataca. "E o fato de cultuar uma deusa não implica numa vida boa para as mulheres. Na Índia existem muitas deusas, e isso não se reflete nas condições da população feminina".
As críticas de Eller encontram eco na pesquisa arqueológica mais recente. Desde 1993 retomaram-se as escavações em Çatalhouyk. As novas pesquisas não sugerem que as mulheres usufruíssem de status especial, embora a vila pareça não ter abrigado grandes distinções entre os papéis sociais dos dois sexos.
O paraíso perdido
A suposta era matriarcal, que teria existido até cerca de 3.500 a.C., é descrita como uma época tranqüila e criativa. Para a antropóloga Cynthia Eller, a narrativa é apenas um mito moderno que explica a origem do sexismo. Confira:
Pacífica
Nessas sociedades as armas seriam usadas apenas para caçar. Os homens não receberiam treinamento militar, e as cidades não tinham muros
Igualitária
As mulheres não seriam submissas aos homens. Elas ocupariam posições de poder, e seriam honradas pela capacidade de conceber. A descendência pela linhagem materna
Religiosa
A principal atividade seria o culto a uma deusa-mãe, e as mulheres seriam reverenciadas como sacerdotisas e representações dessa deusa
A invasão
Os kurgans, uma cultura que vivia nas estepes às margens do Mar Negro, teriam migrado para o sul e dominado as sociedades matriarcais
O fim
Os invasores teriam trazido o cavalo domesticado e o idioma indo-europeu original. Eles influenciaram a cultura dos seus conquistados, introduzindo as práticas militares, as divindades guerreiras e a crença numa "inferioridade feminina" que embasariam a atual "idade patriarcal"
Brinquedo ou ícone?
reprodução
Muitas Vênus
Predominância de esculturas femininas durante o paleolítico foi apontada como sinal de alto status feminino na época
A interpretação das estátuas neolíticas como representações de uma deusa está sob fogo cerrado. "Estátuas de deusas-mães costumam mostrá-las segurando crianças, parindo ou copulando. Não é o caso das vênus, onde a mulher parece ser objetificada", analisa o britânico Timothy Taylor, especialista em arte pré-histórica. "Não há consenso sobre o significado das vênus entre os estudiosos, mas a teoria do matriarcado tem pouquíssimo apoio", diz. Ele aponta mais novidades. "Hoje conhecemos fortificações e covas coletivas que datam do período neolítico, mostrando que já existia matança e violência antes dos kurgans", diz. Além disso, questões como a domesticação do cavalo e a difusão das línguas indo-européias têm se mostrado muito complexas para serem explicadas só através de uma invasão.
reprodução
Poderosas
Estátuas de Çatalhouyk mostram mulheres fortes
As novas idéias não parecem embaraçar feministas ou neo-pagãos. A escritora Rose Marie Muraro, referência do feminismo no Brasil e autora de um livro sobre a sociedade matrifocal, não desqualifica as contestações. "Agora as opiniões se inclinam num sentido, mas já apontaram na direção oposta. É assim que funciona o debate científico", diz. "O essencial é que ou construímos uma sociedade calcada em valores como cooperação e respeito à natureza ou não haverá futuro".
O pesquisador Cláudio Quintino, autor de "A Religião da Grande Deusa", também acolhe ambas as visões. "Não acho que haja evidência de um culto à deusa vindo da pré-história. Penso que nossa sociedade sofre de uma carência do elemento feminino, que se manifesta pela religião várias vezes ao longo da história, sem necessidade de continuidade entre as manifestações", explica. "E essa necessidade é ainda mais premente hoje". Ou seja, quem acredita na importância de criar um mundo mais aberto aos valores femininos, seja na área da espiritualidade, dos relacionamentos ou em ambas, nada tem a temer por parte da ciência.
Revista Galileu



sábado, 14 de julho de 2012

A mulher sob o prisma patriarcal brasileiro


Kellen Jacobsen Follador
Levando  em  consideração  que  o  Brasil  foi  colonizado  por  ocidentais,  podemos concluir que os homens no Brasil possuíam os mesmos conceitos, em relação à mulher, que os moradores  do  velho  continente.    Assim,  desde  o  período  colonial  a  exigência  de  submissão, recato  e  docilidade  foi  imposta  às  mulheres.  Essas  exigências  levavam  à  formação  de  um estereótipo que relegava o sexo feminino ao âmbito do lar, onde sua tarefa seria a de cuidar da casa, dos filhos e do marido, e, sendo sempre totalmente submissa a ele.
Ratificando   as   proposições   de   Souza   acreditamos   que   poderes   absolutos   eram destinados  ao  homem,  chefe  e  senhor  da  família  na  sociedade  patriarcal  brasileira,  enquanto que  às  mulheres  era  destinada  a  obrigatoriedade  da reclusão  ao  lar,  com  sua  vida  doméstica junto da criadagem escrava20. No período colonial as mulheres não podiam freqüentar escolas, ficando  dessa  forma  excluídas  do  âmbito  da  educação  formal,  destinada  apenas  aos  homens. 
Em contrapartida eram treinadas para uma vida reclusa, onde o casamento, a administração da casa,  a  criação  dos  filhos  eram  seus  maiores  deveres,  além  de  ter  que  "tolerar  as  relações extra-matrimoniais dos maridos com as escravas”21. 
Logicamente  que  as  exceções  existiam  e  as  mulheres  mais  humildes  não  podiam “desfrutar”  desse  papel  social  que  via  como  ideal  para  a  mulher  a  vida  reclusa  em  seu  lar. 
Precisavam  trabalhar  e,  desta  forma,  adentravam  ao espaço  público,  reservado  aos  homens, pois,  o  sustento  da  família  em  muitos  casos  era  tarefa  delas.  Afora  essas  exceções,  não podiam  sair  desacompanhadas  e  sua  passagem  pelos  espaços  públicos  só  era  bem  aceita  se relacionada às atividades da Igreja, como missas, novenas e procissões, o que para as jovens daquela época era uma forma de lazer.
Toda  essa  vigilância  em  torno  da  mulher  era  necessária  para  se  resguardar  a virgindade,  a  idelidade  e  a  honra.  Caso  fosse  solteira,  a  mulher  era  vigiada  para  que mantivesse  essa  qualidade,  pois  de  sua  castidade  e  pureza  dependia  a  honra  de  todos  os homens  da  família,  ou  seja,  irmãos  e  pai.  Quando  casada  a  mulher  era  vigiada  porque  dela também dependia a honra do marido, tanto no que dizia respeito à fidelidade e a legitimidade da prole, quanto no que se referia à própria masculinidade do marido. Assim, cabia à mulher, em  parte,  a  responsabilidade  pela  manutenção  da  honra  dos  homens  da  família  a  qual pertencia. 
Durante  o  período  colonial,  as  mulheres  no  Brasil  não  tiveram  muito  espaço  para expressar seus pensamentos e para gozar de algum lazer, senão as festividades relacionadas à Igreja Católica. O controle exercido pelos homens sobre elas atingia todos os campos de suas vidas,  como  o  controle  dentro  de  casa  desde  a  infância,  o  controle  ideológico  mantido  pelos ideais  de  recato,  respeito,  humildade  e  pela  falta  de  instrução;  por  fim,  a  escolha  de  um marido que certamente manteria o mesmo controle sobre ela. 

A educação feminina no período colonial era, geralmente, restrita aos cuidados com a casa, marido  e filhos.  A  mulher aprendia  a  costurar, bordar, cozinhar  e,  as mais abastadas,  a pintar e tocar algum instrumento. A leitura e escrita deveriam ser as  mínimas possíveis, isso  dependendo  da  rigorosidade  do  pai,  que,  em  muitas  vezes  não  permitia  que  as  filhas aprendessem  a  ler  e  escrever.  A  educação  era  ministrada  somente  aos  homens,  e,  tanto  as mulheres  brancas  ricas  e  pobres,  quanto  as  negras,  fossem  elas  escravas,  alforriadas  ou mestiças, não tinham acesso à instrução. Um ditado da época demonstra muito bem a opinião masculina acerca da instrução feminina, onde menciona que “mulher que sabe muito é mulher 
atrapalhada, para ser mãe de família, saiba pouco ou saiba nada”22.   
O  ditado  popular  menciona  que  a  mulher  ideal  era  aquela  que  “sabia  pouco  ou  sabia nada”.  Podemos  perceber  a  falta  de  conhecimento  não  somente  relacionada  à  instrução intelectual,  mas  também  à  instrução  sexual  que  serviria  para  sua  vida  enquanto  mulher  e esposa.  Ribeiro  menciona  que,  quando  as  mulheres  se  casavam,  seguiam  para  a  lua-de-mel sem  informações  sobre  sexo  ou  mesmo  sobre  o  que  ocorreria.  O  sexo  ocorria  às  escuras, sendo  o  corpo  feminino  coberto  por  um  lençol  que  permitia  apenas  a  visão  dos  órgãos sexuais.  O  prazer  sexual  masculino  ficava  a  cargo  das  negras  escravas,  e,  à  esposa  era proibido sentir tal prazer já que o sexo cabia somente à reprodução23.
Apesar  de  todos  esses  modelos  e  regras  que  as  mulheres  deveriam  seguir  para  serem qualificadas como honradas, existiam aquelas que não se encaixavam em tais modelos, fosse por situações passageiras ou permanentes, ligadas ao modo de vida. Geralmente esses padrões eram ditados para as mulheres brancas, pois as escravas, negras alforriadas e mestiças já eram mal  vistas  pela  sociedade,  consideradas  como  mulheres  sem  honra.  Porém,  mesmo  as mulheres  brancas  nem  sempre  conseguiam  manter  esse ideal,  como  era  o  caso  das  mulheres pobres.  Elas  precisavam  trabalhar  fora  de  seus  lares  e  isso  já  as  caracterizavam,  na  maioria dos casos, como mulheres públicas.  
Nesse contexto havia três classificações para as mulheres: honradas, desonradas e sem honra.  As  mulheres  desonradas  eram  aquelas  que  praticavam  relações  extra-conjugais, perdiam  a  virgindade  antes  do  casamento  ou  possuíam  um  comportamento  desajustado socialmente.  Elas  manchavam  a  honra  da  família  ou  de  seus  maridos  e,  por  isso,  eram exemplarmente  punidas  pelos  familiares  ou  condenadas  ao  ódio  da  sociedade.  As  mulheres honradas eram aquelas que seguiam os padrões e normas que a sociedade impunha, seguindo também  o  ideal  de  pureza  mariano. Deveriam  exaltar  as  virtudes  de  uma  vida  recatada  e submissa ao poder masculino, ora do pai, ora do marido. Por fim, as mulheres sem honra eram aquelas,  na  maioria,  ligadas  direta  ou  indiretamente  à  prostituição,  e,  aquelas  ligadas  ao submundo das ruas. As escravas, por exemplo, eram consideradas mulheres sem honra.  
No  geral,  a  existência  dessas  mulheres  ligadas  à  prostituição  era  aceita  na  sociedade pelas  famílias  ricas  e  pela  Igreja,  já  que  ambos  segmentos  viam-nas  como  uma  forma  de proteger  a  sexualidade  das  virgens  de  boa  família. Cabia  ainda  a  essas  mulheres  a  iniciação sexual dos varões das famílias abastadas. A prostituição era, em muitos casos, a única forma de algumas mulheres pobres e marginalizadas sobreviverem e sustentarem a família.  
O  sustento  da  família  fez  com  que  a  mulher  pobre  no  período  colonail  brasileiro desempenhasse inúmeras funções, tidas muitas vezes como  masculinas, como era o caso das tropeiras  e  cocheiras.  A  grande  maioria  das  mulheres  pobres  possuía  atividades  como lavadeiras,  cozinheiras,  domésticas  e  vendedoras  ambulantes,  afirmando  Nader  que  “a sociedade  brasileira,  que  se  pautou  no  poder  masculino,  jamais  prescindiu  da  mão-de-obra feminina”24.  O  trabalho  feminino  era  muito  importante  no  comércio  de  gêneros  alimentícios que  invadia  as  ruas  das  cidades,  onde  eram  vendidos  bolos,  doces,  hortaliças,  derivados  do leite,  entre  outras  guloseimas  preparadas  pelas  mulheres.  Segundo  Mergár,  entre  os  séculos XVIII e XIX o pequeno comércio fixo ou ambulante era atividade quase que exclusivamente feminina. Essas atividades estavam ligadas às camadas inferiores da sociedade e aos escravos,  que muitas vezes iam à cidade vender os produtos advindos das fazendas de seus senhores25. 
Como  podemos  perceber,  as  mulheres  pobres,  bem  ou  mau,  podiam  “desfrutar”  de uma liberdade impensada pelas mulheres de boa família. Essas últimas viviam sob a proteção dos olhares masculinos e enclausuradas em suas casas. O enclausuramento foi amenizado com o  fim  da  colonização  quando  o  Brasil  passou  por  um leve  processo  de  urbanização  após  a chegada da Família Real. 
A vinda da Família Real portuguesa para sua mais rica colônia proporcionou algumas mudanças,  principalmente  na  cidade  do  Rio  de  Janeiro.  Como  salienta  Manoel,  a  abertura comercial  para  um   mercado   mundial  proporcionou  a   “penetração  do  capitalismo  e   a gravitação do universo do neocolonialismo” possibilitando a percepção de novas perspectivas para o universo feminino, como uma maior participação social26. 
Conforme  Souza,  com  a  vinda  da  Família  Real  também foram  verificadas  mudanças em relação aos costumes familiares. A clausura do lar para as mulheres estava com seus dias contados. Elas passaram a freqüentar os espaços públicos, como as ruas, os teatros, os bailes e os salões de beleza. Com o tempo, surgiu uma rede de estabelecimentos, principalmente lojas, que possuíam como maior clientela as senhoras integrantes da elite imperial27. 
Já em meados do século XIX, durante a era Imperial, as mulheres lutaram para ampliar seus  papéis  na  sociedade.  O  patriarcalismo  e  sua  disciplina  rígida  excluíram  as  mulheres  da cena  social,  porém  nesse  período  já  era  aceito  o  fato  de  mulheres  transitarem  pelas  ruas  das cidades  a  fazer  compras,  passeios  ou  mesmo  a  trabalho.  Logo,  “pôde-se  ver  avanços  na  luta por  direitos  no  campo  do  trabalho,  da  educação  e  da  política”,  setores  antes  destinados exclusivamente aos homens28. 
O século XIX trouxe mudanças para as mulheres, tanto na Europa quanto na América. 
Foi um século no qual, em países mais desenvolvidos, elas buscaram seus direitos e tentaram igualá-los aos dos homens. No Brasil o patriarcalismo ainda era forte, porque mesmo com sua Independência   as   características   principais   da   sociedade   se   mantiveram,   isto   é,   o patriarcalismo  baseado  num  meio  de  produção  escravocrata.  Segundo  Souza,  a  maior transformação  ocorreu  “[...]  na  década  de  1870,  quando  mudanças  socioeconômicas  foram 
minando as bases do patriarcalismo”29. 
Na  educação  também  podemos  verificar  algumas  alterações.  As  mulheres  da  elite tiveram  mais  acesso  à  instrução,  que  era  ministrada  em  suas  próprias  residências,  e,  nesse momento  aceita  como  lago  positivo  pelos  homens.  Entendia-se  por  instrução  feminina  a dança,  o  aprendizado  de  piano,  a  escrita  e  a  leitura.  Livros  eram  escritos  especialmente  para esse  público,  não  exigindo  de  suas  leitoras  um  esforço  de  reflexão  e  compreensão30.  Assim, traziam temas que não levantavam nenhuma discussão acerca da sociedade, mas, abordavam principalmente  o  amor,  já  que,  o  grande  desejo  da  maioria  dessas  mulheres  era  o  de  se casarem.  Na  verdade,  as  mulheres  deveriam  ser  educadas  e  não  instruídas,  e,  esse  fato  é notável  pelos  aprendizados  destinados  a  elas,  que  não  tinham  nenhum  teor  de  análise  crítica da sociedade ou conteúdos científicos. Em relação às mudanças Cerdeira destaca que,   
 Ela  não  mais  permanece  reclusa  à  casa-grande,  freqüentando  festas,  teatros  e  indo  à  Igreja,  o que  possibilita  um  aumento  em  seus  contatos  sociais.  Sua  instrução  geral,  porém,  permanece desvalorizada,  uma  vez  que  a  sociedade  espera  que  ela  seja  educada  e  não  instruída.  À  sua educação doméstica  acrescenta-se  o  cuidado  com  a  conversação,  para torná-la  mais  agradável nos eventos sociais31.  
Como mencionado, as mulheres recebiam uma determinada educação para aquilo que a  sociedade  esperava  delas.  Como  destacado  por  Hahner  “o  sistema  escolar  brasileiro exprimia  o  consenso  social  sobre  o  papel  da  mulher.  Ensinava-se  a  ela  só  o  que  fosse considerado  necessário  para  viver  em  sociedade”32.  Agora  elas  precisavam  falar  bem  em público,  ter  familiaridade  com  algumas  artes  como  a  dança,  a  música  e  até  mesmo  outro idioma, no intuito de serem companhias agradáveis aos seus maridos e às pessoas com quem ele   mantinha   relações   de   amizade   ou   negócios.   Isso  ocorria   principalmente   quando freqüentavam ambientes públicos elitistas, como bailes e teatros.   
Apesar  dessas  mudanças,  as  mulheres  da  elite  continuavam  limitadas  porque  não possuíam  nem  autonomia,  nem  igualdade  perante  os  homens,  já  que,  a  estrutura  social, cultural  e  econômica  era  apanágio  masculino.  As  limitações  eram  mais  exacerbadas  em relação  às  mulheres  menos  privilegiadas  que  se  mantinham  na  ignorância  por  não  poderem desfrutar  dos  mesmos  privilégios  que  suas  colegas  da  elite.  As  mulheres  pobres,  quando possível,  freqüentavam  as  escolas  normais,  que  não possuíam  boa  qualidade,  e  cursavam  ao máximo  o  ensino  primário.  O  ensino  era  privilégio  de  poucos  e  a  maioria  da  população brasileira era composta por analfabetos33.  
A  primeira  lei  referente  à  educação  feminina,  que  data  de  1827,  menciona  que  as meninas  podiam  freqüentar  a  escola  somente  até  o  nível  elementar,  sendo-lhes  vedado  o ingresso nas instituições de ensino superior. Dava-se destaque às prendas domésticas, como a costura, em detrimento da escrita e aritmética que, aliás, era diferente da aritmética  ensinada aos meninos.  
A  partir  da  segunda  metade  do  século  XIX,  a  instrução  tornou-se  mais  acessível  às mulheres  que  tiveram  a  oportunidade  de  cursar  o  ensino  primário  e  secundário.  Com  uma maior  instrução  elas  podiam  se  dedicar  ao  magistério,  reafirmando  a  “idéia  de  que  a  mulher seria  por  natureza  uma  educadora”34.  As  escolas  normais  destinadas  a  formar  professores primários  preparavam-nas  para  a  carreira  de  ensino  e  permitiam  que  elas  continuassem  a investir em sua educação. O magistério era visto pela sociedade como uma profissão honrada, 
destinado  apenas  às  “mulheres  dignas”35.  Por  sua  vez,  Franco  acredita  que  devido  a  sua doçura,  paciência  e  compreensão  a  mulher  passou  a  representar  o  modelo  ideal  para  o exercício  do  magistério,  visto  que,  o  homem  com  o  autoritarismo  típico  à  época  era inadequado, porquanto, amedrontaria as crianças36. 

21 SOUZA, Eros de; BALDWIN, John R. A construção social dos papéis sexuais femininos. Psicologia, reflexão e crítica. v. 13, n.03, 2000, p. 03. Disponível em: . Acesso em: 15 jun. 2007. 
22 RIBEIRO, Arilda Inês Miranda. Mulheres educadas na colônia. In: LOPES, Eliane (Org.). 500 anos de 
educação no Brasil. Belo Horizonte: Autêntica, 2007, p. 79.
23 Idem, p. 83. 
24 NADER, Maria Beatriz. Op. cit., p. 197. 
25 MERGÁR. Op. Cit. p. 97. 
26 MANOEL, Ivan Aparecido. Igreja e educação feminina (1859-1919): uma fase do conservadorismo. São Paulo: Unesp, 1995, p. 22. 
27 SOUZA. Op. cit., p. 82. 
28 SOUZA; BALDWIN. Op. cit., p. 03. 
29 SOUZA. Op. cit., p. 82. 
30 SOUZA. Op. cit., p. 80. 
31 MERGÁR. Op. cit., p. 93. 
32 HAHNER. June E. Emancipação do sexo feminino: a luta pelos direitos da mulher no Brasil (1850-1940). 
Florianópolis: Mulheres, 2003, p. 73. 
33 SOUZA.Op. cit., p. 82. 
34 FRANCO, Sebastião Pimentel. As escolas femininas de formação para o magistério no Espírito Santo: 
Primeira República. Dimensões – Revista de História da Ufes. Vitória: Ufes, n. 16, 2004, p. 312. 
35 HAHNER. Op. cit., p. 78-79. 
36 FRANCO, Sebastião Pimentel. Do privado ao público:  o papel da escolarização na ampliação de espaços sociais para a mulher na Primeira República. Tese de Doutorado. Universidade de São Paulo, 2001, p. 85. 
Parte integrante do artigo A MULHER NA VISÃO DO PATRIARCADO BRASILEIRO: UMA HERANÇA OCIDENTAL 
Revista fato&versões

sexta-feira, 13 de julho de 2012

História do trabalho da mulher


Greicy Mandelli Moreira Rochadel
O homem sempre necessitou no auxílio da mulher, e, talvez, segundo a Bíblia, este tenha recebido a obrigação de trabalhar por causa da própria mulher.
 “Guardiã da lareira, Vestal em Roma, colhendo, tecendo os primeiros fios, a mulher é sempre a companheira e auxiliar dos encargos da família[1].”
Porém, era mal criada, mal compreendida, mal estudada, quando não se mostrava bela, não conseguia deixar de ser uma mera escrava do homem.
Inicialmente, nos primórdios das relações inter pessoais, a mulher era vista apenas como apta a realizar os afazeres domésticos, cuidando também da prole. Vivia alheia aos acontecimentos externos. Era escrava do homem e a este devia obediência.
A mulher judia era absolutamente inferior ao homem, considerando que pela Lei de Elias, sucessor de Moisés, se a mulher deixasse a comida queimar ou se o homem encontrasse uma outra mulher, mais bonita que a sua, o homem poderia abandoná-la.
A mulher palestina não podia estudar, e, até completar treze anos de idade, poderia ser vendida e casada, conforme a vontade de seus pais.
Com o intuito de constituir uma prole bonita e sadia, os gregos davam-lhe educação. Os atenienses mantinham suas esposas enclausuradas, enquanto instruíam suas outras mulheres. As mulheres gregas executavam apenas trabalhos domésticos, as demais que ousavam trabalhar no comércio, eram desprezadas.
Os anos e séculos se arrastavam, e as mulheres pareciam não evoluir para a sociedade. São Tomás de Aquinochegou a chamar a mulher de “erva má”.
Na Idade Média, a mulher passa a exercer certos ofícios, porém nunca chegava a nenhuma posição de destaque. Era descriminada e considerada sempre aprendiz, em todos os ramos de atividade do trabalho.
No Brasil, enquanto os homens não eram protegidos pelo Estado, as mulheres eram completamente abandonadas. A mulher vivia trancafiada no lar até durante o Império. A mulher solteira auxiliava sua mãe nos afazeres domésticos diários, a mulher casada acompanhava o marido, carregando seus pertences e lhes servindo constantemente.
A transformação das condições da mulher deve-se ao cristianismo a aos homens de pensamento e visão.
A Encíclica Rerum Novarum rezava sobre a proteção do trabalho da mulher que: “... o que um homem válido e na força da idade pode fazer, não será eqüitativo exigi-lo duma mulher ou duma criança. Especialmente a infância, - e isto deve ser estritamente observado, - não deve entrar na oficina senão quando a sua idade tenha suficientemente, desenvolvido nela as forças físicas, intelectuais e morais..."
 A igreja, porém, continuava defendendo a clausura no lar, em nome do matrimônio e do bem da família, sustentava que quanto mais a mulher saísse de casa mais contatos teria com as tentações do mundo. Os pensadores passaram a exaltá-la em seus poemas e obras literárias. Porém, nota-se que o trabalho da mulher surgiu da necessidade de mão de obra barata.
Na Idade Moderna, com o desenvolvimento industrial, a mulher assume novas ocupações, as mesmas antes ocupadas pelo homem.
A Revolução Industrial, trouxe a disputa do trabalho entre o homem e a mulher. A mulher possuía mão-de-obra mais barata que o homem, porém, produzia menos em virtude de suas ocupações domésticas.
As mulheres sujeitavam-se a jornadas de 14 a 16 horas por dia, condições prejudiciais á saúde e muitos outros abusos, para não perderem o emprego. Nesta época, não havia nenhum tipo de proteção para a mulher gestante.
Segundo o socialista Sidney Webb:...”as mulheres ganham menos que os homens não só porque produzem menos, mas também porque aquilo que produzem é avaliado no mercado de trabalho por um valor inferior.”
As relações de trabalho não eram interferidas pelo Estado, sendo que a mulher recebia seus salários conforme a vontade do patrão.
Surge a necessidade de uma política protecionista em relação a mulher,porém, a limitação da jornada de trabalho da mulher e a proibição do trabalho noturno , resultou em um barateamento ainda maior do trabalho da mulher.
Observa-se que no Tratado de Versalhes os homens já se sentiam ameaçados e preocupados com a proteção do trabalho da mulher: “A trabalho igual deve-se pagar salário igual, sem distinção de sexo do trabalhador” e “ deve-se organizar, em cada Estado, serviço de inspeção que compreenda mulheres, a fim de assegurar a aplicação de leis e regulamentos para proteção dos trabalhadores[2].”
Observa-se que a mulher desempenhava um papel secundário, em virtude da imposição patriarcal, que a julgava frágil e incapaz para realizar certas funções.
Surge na Inglaterra o “Coal Mining Act”, em 1842, que proibia o trabalho da mulher em subterrâneos. Depois o “Factory Act”, em 1844, que limitou a jornada de trabalho da mulher a 12 horas de trabalho, proibindo-a no período noturno. O “Factory and Workshop Act”, em 1878, vedou o emprego da mulher em trabalhos perigosos e insalubres.
Internacionalmente, a própria Constituição da OIT (Organização Mundial do Trabalho) realça a necessidade de proteção do trabalho da mulher, tanto que passam a ser editadas convenções sobre o tema.
A Convenção n. 3, de 1919, regulamenta o trabalho da mulher antes e após o parto. Ela foi ratificada no Brasil através do Decreto n. 51.627, de 1962, que dispunha: “em hipótese alguma, deverá o empregador estar obrigado, pessoalmente, a custear as prestações referentes á licença-maternidade, a qual ficará a cargo de um sistema de seguro social obrigatório, ou de fundos públicos.”
Neste entendimento, a responsabilidade pelo pagamento do salário-maternidade ficou a cargo da Previdência Social, enquanto perdurar a relação de emprego, sendo esta uma prestação de natureza previdenciária, como nos ensina Sonia Bossa[3].
A Convenção nº 4, proíbe o trabalho da mulher em indústrias, salvo o trabalho em oficinas de família. A Convenção n. 41, de 1934, dispõe sobre o trabalho noturno da mulher. Várias outras Convenções trataram de diferentes temas condizentes com o trabalho da mulher.
No entanto, a Declaração Universal dos Direitos do Homem, de 1948, versa sobre um dos principais temas relacionados com o trabalho da mulher: as regras de não-discriminação por motivo de sexo. Já o pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, de 1966, determina a igualdade de direito entre homens e mulheres.
O artigo 11 da Convenção da ONU sobre Eliminação de todas as Formas de Discriminação contra a mulher, de 1979, trata da não-discriminação da mulher nas relações de emprego, conferindo igualdade de remuneração entre homens e mulheres para os trabalhos de igual valor.
No Brasil, o Decreto n. 21.417-A, de 1932, foi a primeira norma que tratou do trabalho da mulher, proibindo o trabalho noturno das 22 ás 5hs, e, proibindo a remoção de pesos. Este mesmo Decreto concedia á mulher dois descansos diários de meia hora cada um para fins de amamentação dos filhos, durante os primeiros seis meses de vida.
A Constituição de 1934 proibiu a discriminação da mulher quanto a salários, vedou o trabalho em locais insalubres, garantiu o repouso antes e depois do parto, sem prejuízo do salário e do emprego, assegurando instituição de previdência a favor da maternidade.
A Constituição de 1937 garantiu assistência médica e higiênica á gestante, antes e depois do parto, sem prejuízo do emprego e do salário.
Em 1943, foi editada a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), consolidando todas as matérias relativas ao trabalho. A primeira alteração foi em 1944, quando admitiu-se o trabalho noturno da mulher se esta fosse maior de 18 anos, e, somente em algumas atividades.
Em 1946, a Carta Magna proibia a diferença salarial por motivo de sexo, além de prever todos os direitos anteriormente assegurados pelas Constituições.
A Constituição de 1967 inovou no sentido de prever a aposentadoria da mulher aos trinta anos de trabalho, com salário integral.
Atualmente, o trabalho da mulher, registra uma participação muito expressiva no contexto mundial, através de uma luta pela igualdade em todos os níveis da sociedade. Entretanto, a mulher continua tendo o seu trabalho explorado. A política protecionista considerada, na maioria das vezes, exagerada, provoca no patrão um certo tipo de reação em admitir o trabalho da mulher.
Como se manifesta Dra. Ana Britto da Rocha Acker:
“Mas hoje a tecnologia acabou com este conceito de que a mulher é mais fraca, já que para movimentar máquinas imensas só se precisa apertar um botão. Vê-se agora muito mais o intelecto e a capacidade de produção. A proteção agora é para o humano, o emocional e aí tanto entra o homem como a mulher. O ideal, é claro para os dois, seria não haver trabalho noturno, já que é uma hora destinada ao repouso, mas o funcionamento de uma cidade exige que nem todos parem.”[4]
Conclui-se que, atualmente, a mulher se impõe no mercado de trabalho, competindo com igualdade de condições tecnológicas e culturais com os homens, em conseqüência do processo de globalização e desenvolvimento da humanidade, porém, por outro viés o protecionismo, quando exagerado, é capaz de ser prejudicial á mulher, podendo ser interpretado como ameaça ao empregador.
No que concerne à proteção à maternidade, as medidas legais tem um objetivo de caráter social, uma vez que, ao proteger a maternidade está-se preservando a mãe e mulher trabalhadora, estimulando e mantendo a mulher empregada. Assim, conserva-se as forças vitais da mulher (necessárias ao perfeito exercício profissional) e permite que ela cumpra normalmente com as funções maternas.
Notas:

[1] TÁCITO, Trabalho Feminino, 1938, pág.9.
[2] Tratado de Versalhes, Parte XIII, VI e XIX.
[3] BOSSA, Sonia. Direito do Trabalho da Mulher, pg.9. Editora Oliveira Mendes. São Paulo. 1998.
[4] Ex juíza do Trabalho In “Jornal O Globo”, de 18/9/1977.
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sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

A década em que a mulher voltou a ser feminina




O período entre guerras viu a silhueta se ajustar no corpo a roupa esportiva nascer. No Brasil, costureiras copiavam a Europa
Redação iG Moda

Após a crise de 29 e a euforia dos “anos loucos” de uma década marcada pelo pós-guerra e pela efervescência artística (anos 20), os anos 30 chegaram sem ousadia, inclusive na moda. A silhueta resgata a forma do corpo da mulher, perdida nos vestidos tubulares e com a cintura deslocada da década de 20, e até propõem decotes, mas sem exageros.

O comprimento da vez era longo, tanto para as saias, vestidos e até os cabelos. A modelagem, ajustada ao corpo e reta, ganhava estrutura com boleros e minicapas. Tudo produzido com tecidos e materiais como a casimira e o algodão, mais baratos, por conta do baixo orçamento herdado da crise de 29.

A grande revolução dos anos 30 foi a volta da cauda nos vestidos de baile, idealizada por Lanvin, mas sem as extravagâncias dos anos 20.

O chapéu volta ao posto de acessório número 1 (banido nos anos 20 por conta da moda de cabelos à La garçonne – curtinhos). O modelo capeline era o preferido, usado em quase todas as ocasiões.

Como novidade e uma ponta de ousadia, surgiram os decotes, a maioria da parte das costas, e o corte enviesado. Os seios voltaram a ter forma. As lingeries eram então feitas de malha. Surgiam os sutiãs e as cintas modeladoras (grand corsets), que até hoje prometem fazer milagres nos corpos femininos.

Em um tempo de paz, embora um segundo conflito mundial tenha eclodido no fim da década de 30, a vida ao ar livre ganhava força e com ela a prática de esportes e a exposição diária ao sol. Seguindo esse movimento, a moda adaptou saiotes e anáguas, que encurtaram, possibilitando à mulher bronzear as pernas.

Da necessidade de uma roupa apropriada para a prática de esportes, surge o short, para homens e mulheres. Uma das atividades físicas preferidas dos anos 30 era andar de bicicleta. Os óculos escuros transitam aqui do funcional ao fashion, protegendo os olhos contra raios solares e imortalizando figuras da música e do cinema. Os primeiros esboços do maiô começam a aparecer.

Por meio do cinema, que ganha voz nos anos 30, as mulheres se espelham nas estrelas como Greta Garbo, magra, bronzeada e esportiva. Outras celebridades da época que marcaram o estilo dos anos 30 foram Katharine Hepburn, Marlene Dietrich e Mae West. Esta última, estrela de clássicos dos anos 30 como "Night After Night" e "She Done Him Wrong", foi inspiração para a estilista Elsa Schiaparelli, em 1938, que lançou o perfume "Shocking", com frasco no formato do busto da atriz hollywoodiana.

Na maquiagem, a beleza marcava as pálpebras e sobrancelhas com lápis e não economizava no pó de arroz bem claro, quase branco.

Em 1935, o italiano Salvatore Ferragamo lança sua marca de sapatos. Nasce então uma das mais luxuosas e tradicionais maisons italianas, a Salvatore Ferragamo. A crise na Europa faz a empresa utilizar materiais mais baratos, de onde surgiram os primeiros registros de materiais sintéticos para a produção de calçados. Ferragamo inventou a palmilha compensada. Dona Gabriella Pascolato, falecida no mês de agosto de 2010 e fundadora da empresa têxtil brasileira Santacônstancia, era amiga e cliente de Ferragamo, quando ela ainda morava na Itália. Em sua biografia (“Gabriella Pascolato ¬ Santa Constância e Outras Histórias”. Editora Jaboticaba), Dona Gabriela afirma que só o designer italiano conseguia elaborar sapatos confortáveis para ela, que tinha o pé chato.

No final dos anos 30, com a aproximação da Segunda Guerra Mundial, que estourou na Europa em 1939, as roupas já apresentavam uma linha militar, assim como algumas peças já se preparavam para dias difíceis, como as saias, que já vinham com uma abertura lateral, para facilitar o uso de bicicletas.

Brasil
No Brasil, cuja economia não foi tão duramente atingida como a dos Estados Unidos com a crise de 29, e com o sistema de moda diferenciado do americano, a moda seguiu seu ritmo de sempre – com costureiras caseiras – sem sentir as perdas das ainda raras confecções atingidas pela recessão dos anos 1930.

A moda brasileira alinhava-se à tendência europeia, por meio principalmente das revistas vindas da França e Itália. Pela primeira vez, são aprimorados os trabalhos de adaptação da moda do velho Mundo (por meio das costureiras) ao clima brasileiro.

Surgem as “garden parties”, festas feitas pela elite brasileira à tarde, nos jardins das grandes mansões, localizadas na Zona Sul do Rio de Janeiro e em Petrópolis. O dress code da ocasião eram vestidos chiques e diáfanos (esboços do que seriam as transparências de hoje). Também eram bem-vindos casacos de pele e boleros. A elite brasileira lia revistas como Rio Magazine, Chuvisco e Sombra.

O salto alto era a tendência da vez. As bolsas, pequenas. As joias eram grandes, com pedras coloridas e pérolas. A calça comprida feminina começa a dar as caras, no modelo pantalona, mas só atinge o auge da popularização nos anos 60.

No Rio de Janeiro, as mulheres que queriam se vestir como as europeias iam à Casa Canadá, fundada em no início dos anos 30 por Jacob Feliks. Por lá, a elite carioca tinham em mãos produtos importados, da “última moda”. No início, a casa comprava em Paris o que era moda e fazia cópias no Rio. Vendia, consertava, reformava e guardava as peles mais chiques do país, na época. A Casa Canadá funcionou na Rua Gonçalves Dias, até 1934. Famosa, a Casa abriu uma loja ainda maior, desta vez na Rua Sete de Setembro, uma espécie de maison.

Também no começo dos anos 30, em São Paulo, destacou-se o trabalho de Rosa de Libman, uruguaia chegada no Brasil no início de 1935, em companhia do marido, o Sr. Max Libman. Na rua Rua Barão de Itapetininga, Rosa de Libman abriu sua butique de artigos luxuosos, como peles e o que mais fosse novidade na Europa, chamada Madame Rosita. A loja ficou conhecida pelos badalados desfiles de moda que apresentava no Brasil. Um que ficou conhecido foi realizado em 1938, no Teatro Municipal de São Paulo (embora o primeiro desfile profissional no Brasil seja de 1944).

A ascensão de Rosa de Libman veio ao longo dos anos 40. Ela foi considerada a “primeira dama” da Alta Costura Brasileira e conquistou grandes títulos, como “Sapatinho de Ouro” e “Agulha de Ouro”. Também foi a primeira representante feminina da Alta Costura a ser membro da “Chambre Sindicale de la Haute Couture Francaise”.
Fontes:
História da Moda no Brasil, de Gilda Chataignier
História da Moda, uma Narrativa, de João Braga
Gabriella Pascolato Santa Constância e Outras Histórias, de Sérgio Ribas
http://ultimosegundo.ig.com.br/

domingo, 30 de outubro de 2011

Carlota Pereira de Queirós


Carlota Pereira de Queirós nasceu em São Paulo, em 1892.

Em 1926, formou-se em medicina, ocasião em que recebeu o prêmio Miguel Couto pela sua tese. Chefe do laboratório de clínica pediátrica da Faculdade de Medicina de São Paulo em 1928, no ano seguinte viajou para a Suíça comissionada pelo governo para estudar dietética infantil.

Durante a Revolução Constitucionalista, movimento de contestação à Revolução de 1930, ocorrido em São Paulo em 1932, organizou, à frente de 700 mulheres, a assistência aos feridos. Em maio de 1933, foi a única mulher eleita deputada à Assembléia Nacional Constituinte, na legenda da Chapa Única por São Paulo. Na Constituinte, Carlota integrou a Comissão de Saúde e Educação, trabalhando pela alfabetização e assistência social. Foi de sua autoria o primeiro projeto sobre a criação de serviços sociais, bem como a emenda que viabilizou a criação da Casa do Jornaleiro e a criação do Laboratório de Biologia Infantil.

Após a promulgação da Constituinte em 17 de julho de 1934, teve o seu mandato prorrogado até maio de 1935. Ainda em 1934, ingressou no Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. Eleita pelo Partido Constitucionalista de São Paulo, no pleito de outubro de 1934, permaneceu na Câmara até 1937, quando foi instaurado o Estado Novo (1937-1945). Durante esse período lutou pela redemocratização do país.

Eleita membro da Academia Nacional de Medicina em 1942, fundou, oito anos depois, a Academia Brasileira de Mulheres Médicas, da qual foi presidente durante alguns anos. Apoiou o golpe militar que derrubou o presidente João Goulart, em 1964.

Faleceu em São Paulo, em 1982.
CPDOC-FGV

A primeira eleita



Há 76 anos, Carlota Pereira de Queiroz abria os caminhos para a igualdade de gênero no País e a entrada da mulher na política brasileira
Revista Brasileiros - Edição 41 - Dezembro/2010
Jorge Caldeira

Carlota Pereira de Queiroz (1892-1982) foi a primeira mulher a ser eleita no Brasil para a Constituinte de 1934. Médica, ficou conhecida por seu trabalho durante a Revolução de 1932, quando organizou o atendimento aos combatentes feridos. Na esteira dessa revolução, foram convocadas eleições, as primeiras nas quais mulheres puderam votar e serem votadas.

Do trabalho dos congressistas, resultou a primeira Constituição em que os direitos da mulher se equiparavam formalmente aos dos homens. Ao final dos trabalhos, Carlota Pereira de Queiroz fez um discurso, do qual foi retirado o trecho ao lado, avaliando os avanços na condição da mulher:

"Ao ocupar novamente a tribuna desta Casa, a que muito me honro de pertencer, sejam as minhas primeiras palavras de regozijo, por ver, definitivamente, confirmada, entre nós, a colaboração da mulher na política do País, com a eleição de várias representantes femininas para as assembléias constituintes estaduais.

Coube-me o privilégio de ser a iniciadora dessa nova época. Coincidência apenas, nada mais. Há sempre uma série de fatores que preparam um fenômeno social, e só a casualidade faz com que seja este ou aquele o primeiro por ele atingido. O indivíduo, em tais situações, nada significa, nunca se trata de uma consagração pessoal. No caso em questão, foi exatamente o que se deu.

Situações como essa, em que me vi arrastada pela deliberação coletiva de um povo, que, por força de circunstâncias, me elegeu como sua primeira representante feminina para o Parlamento, caberiam melhor a espíritos combativos, que se lançassem na luta, com largas visões de futuro. Mas nunca foi esse o meu feitio. E, receosa de vir a prejudicar até o êxito futuro dessa causa tão promissora, procurei agir com prudência, para que ela viesse a realizar um dia os altos fins a que estava destinada. Agora, sentindo já a continuação dessa modesta obra de principiante, sinto-me quase envaidecida da missão que me coube preencher.

Perdoem-me, portanto, as minhas colegas femininas, se cheguei a desapontá-las com o meu modo de agir, apagado e tranquilo, que lhes há de ter parecido até de todo improdutivo... Não me acodem remorsos neste momento, porque já me é dado contemplar, cheia de orgulho, as minhas continuadoras. Ao menos, prestei-lhes o serviço de não lhes perturbar a marcha triunfante...

Embora não me arrogue direitos de líder feminista, mesmo porque sempre fui contrária às organizações partidárias exclusivamente femininas, cabe-me hoje uma pequena responsabilidade no modo por que foi orientada, no seu início, a colaboração da mulher na política, entre nós. E, por essa razão, sinto-me obrigada a fazer algumas considerações a respeito da situação da mulher, em face da nova Constituição Brasileira. Justifica essa minha atitude um artigo recentemente publicado na revista americana Equal Rights, da Comissão Interamericana de Mulheres, que acabo de receber dos Estados Unidos. Esse fato levou-me à convicção de que o posto de única mulher eleita é de repercussão muito maior do que parecia ter à primeira vista, porque representa um passo a mais na evolução de um problema mundial. Assinado pelas senhoras Helen Will Wood e Betty Gram Swing, membros da Comissão Intercontinental de Ratificação e Adesão, representa o referido artigo, intitulado "An Appraisal of the New Constitution of Brazil", uma grande deferência prestada por aquela agremiação à nova Constituição brasileira. E, em homenagem à sua diretoria, que assim nos distingue, é que dele me ocupo perante esta Assembléia.

Em relação ao sufrágio universal, aos direitos e garantias dos cidadãos e à legislação do trabalho, consideram, aquelas autoras americanas, que a Constituição brasileira alcançou fins muito elevados. Julgam-na demasiado longa, mas bastante clara. Afirmam ainda que é obra de um povo progressista e amante da liberdade, porque reconhece a igualdade de todos perante a lei, permite às mulheres o exercício de cargos públicos, institui o concurso obrigatório para admissão aos mesmos e favorece a completa expansão cultural da mulher, admitindo-a nos cursos universitários.

Essa opinião, por todos os modos respeitável, sobre o assunto precisa acabar por nos convencer, a nós, mulheres brasileiras, de que o chamado problema do 'feminismo' deixou de existir entre nós com a promulgação da nova Constituição."

Claro, ainda haveria um longo caminho até a Presidência da República. Mas, como dizia Mao Tse Tung: "Toda longa marcha começa com um primeiro passo".

O texto acima faz parte do livro Brasil - A História Contada por Quem Viu, organizado por Jorge Caldeira e publicado pela Editora Mameluco.
Revista Brasileiros

quinta-feira, 14 de abril de 2011

O Papel da Mulher no Imaginário Medieval

ALVA, Blanca Beatriz Díaz (UFPR)1
O papel da mulher na vida política e religiosa dos séculos XII e XIII deve ser colocado como fundamento do que poderíamos chamar de o renascimento da sensibilidade na Idade Média. A mulher podia rivalizar em sabedoria com os monges mais letrados de seu tempo. Assim, devemos destacar, por exemplo, Hildegard de Bingen, Heloísa, Leonor de Aquitânia, Branca de Castella, Matilde de Magdeburgo, Beatriz de Nazarê, Margarita Porete, Duoda, dentre outras (PERNOUD, 1984). Um dos aspectos mais originais da espiritualidade ocidental do século XIII, na opinião de ANDRÉ VAUCHEZ (1995), é esse lugar ocupado pelas mulheres. Desde o século XII, Hildegard de Bingen esforçara-se por liberar a mulher de todas as suspeitas que faziam pesar sobre ela o papel essencial desempenhado por Eva no pecado original e na fraqueza intelectual e moral que toda uma tradição literária de origem antiga lhes atribuía, tradição na qual os autores medievais insistiam. Esse discurso misógino, embora não tendo desaparecido, não foi o único que se fez ouvir. Assiste-se ao surgimento de uma espiritualidade feminina que não era uma simples copia da dos homens. Essa evolução operou-se lentamente de modo discreto, sem que fosse abertamente questionado o duplo postulado que caracterizava ost at us da mulher na Igreja medieval, isto é, a igualdade de ambos os sexos no plano da Redenção e a subordinação ao homem no campo social e religioso. Mas, a mediados do século XIII tornou-se evidente para os clérigos que um certo número de mulheres, voltadas para experiências de vida espiritual intensa, adquiriram nesses domínios uma ampla autonomia, e até uma certa superioridade em relação aos homens. PERNOUD (1993, p. 61) dirá: “Elas estão presentes em todos os aspectos da vida cotidiana, como veremos em documentos e arquivos, todo o tempo elas estão intervindo em Jerusalém, e nos campos ao redor da cidade, trata-se de uma presencia ativa, variada, responsável”.

Há um aspecto da espiritualidade cristã que triunfou também nos séculos XII e XIII: a promoção da mulher mediante o culto da Virgem. Por tal motivo, em aqueles séculos, em quanto a corrente ascética da Igreja anatematizava a mulher e o amor, a corrente mística, com São Bernardo, os espiritualizava, vendo na Madre de Deus a grande salvadora. Por exemplo, a influência de São Bernardo na vida de Dante Alighieri é visível já que o Poeta encerra os três últimos cantos doParaí so com a figura do servo fiel de Maria para, junto com ele, saudar a glória da Virgem cujo fulgor incendeia o centro da Rosa.

A importância da mulher no imaginário medieval tem suas raízes na velha cultura aristocrática grega. A virtude (ou Aret é) da mulher sempre foi a formosura. Isso é tão evidente como a valorização dos homens por seus méritos corporais e espirituais. O culto da beleza feminina corresponde ao tipo de formação cortesã de todas as idades cavalheirescas. A mulher, no entanto, não surge na Grécia antiga apenas como objeto da solicitação erótica do homem, mas também na sua firme posição social e jurídica de dona de casa. Suas virtudes são, a esse respeito, o sentido da modéstia e o desembaraço no governo do lar. Assim, por exemplo, Penélope é mais louvada por sua moralidade rígida e virtudes caseiras. Inclusive a pura beleza de Helena, que tantas desgraças trouxe sobre Troia, basta para que os anciãos da cidade se desarmem diante sua simples presença e atribuam aos deuses toda a culpa de sua autoridade. NaO dis eia, Helena retorna a Esparta com o primeiro marido e, no entanto, aparece como o protótipo da grande dama, modelo de distinguida elegância e de soberana forma e representação social.
A posição social da mulher jamais voltou a ser tão elevada como neste período homérico (JAEGER, 1989).

O efeito mais profundo da espiritualidade medieval foi a nova atitude face ao amor terreno, que surgiu primeiro na Provença influenciando radicalmente toda a literatura européia. Temos que reconhecer que o louvor e a transfiguração da amada, na poesia do amor, surgida da própria natureza do êxtase sensual, permite ao amante só perceber o objeto de seu desejo e tudo o que a ele respeita; nos leva a uma poesia do amor onde o desejo sensual chega a se fundir com as bases metafísicas de uma cultura, em relação às preocupações mais sérias do homem. Nesse contexto surgiu a Vita Nuova (Vida Nova) de Dante, uma de suas obras de juventude.

Na Vita Nuova, Dante já nos revela a exaltação do amor por uma mulher chamada Beatriz Portinari, amor que começara desde terna idade. Este amor será retomado depois noConví vio (Banquete), escrito entre 1304-1308, mas já não com o nome de Beatriz senão com o nome de donna gentile. No passo de uma obra para outra, Dante muda também seu gênero literário: no primeiro, poesia, no segundo prosa. Na primeira de suas obras, o Autor trata de seu primeiro amor, muito diferente do segundo amor, como aparece noBan quet e, pois quando Dante apaixona-se pela donna gentile, Beatriz já era morta. No Banquete, o amor por Beatriz não é negado, antes disso Dante expressamente declara que não pretende em parte alguma derrogar a Vida Nova, isto é, sua primeira obra, mais ao contrário auxiliá-la. Isso pode significar que oBanquet e é uma continuação da Vida Nova, com a diferencia de um estilo mais grave e com uma doutrina filosófica mais abundante. Este novo amor, depois de Beatriz, é o que ele chama “belíssima e honestíssima filha do imperador do Universo, à qual Pitágoras pus o nome de Filosofia”, um amor novo, um novo pensamento, que é virtuoso (Conv., II, XV, 12).

Desse modo, o Poeta combina a poesia do Dolce Stil Nuovo com a doutrina filosófica escolástica, com sua própria forma de pensar e com sua própria experiência política.Eros e política juntam-se na poesia amorosa do século XIII. Assim, Dante dá forma poética às doutrinas filosóficas e, para ele e para os poetas de seu grupo, Amor (Eros) tornou-se o apetite racional pela sabedoria ou filosofia. Sem duvida, a filosofia dantesca do Banquete serve como chave da Commedia e da Monarchia.
O objetivo deste trabalho é explicitar o caráter pedagógico e sensível da figura da mulher na sua obra mais filosófica, o Banquete ou Convivio.

1 Pesquisadora da Linha Cultura, Saberes e Práticas Escolares do Programa de Pós-graduação em Educação da UFPR. E-mail: beadoce@terra.com.br. IV Jornada de Estudos Antigos e Medievais – ISBN 85-99726-01-3 Maringá-PR, 06 e 07 de Outubro de 2005