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terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Carlos Lacerda - A ira sagrada de um polemista



A vida de Carlos Lacerda, um radical ambicioso e brilhante, capaz de derrubar governos

CECILIA PRADA

Em tempos como estes, em que diariamente sucedem-se palpites e vaticínios sobre o destino da mídia escrita, em que a denominada “grande imprensa” – também chamada de “quarto poder” – cotidianamente é acusada de incentivar golpes de Estado e conspirar contra o governo, talvez seja salutar tirar das prateleiras do passado uma figura de jornalista que passou à história como polemista singular, impulsivo, intempestivo e ambicioso, capaz de derrubar governos e estabelecer nos bastidores uma rede de intrigas da qual ele próprio acabou vítima – Carlos Frederico Werneck de Lacerda (1914-1977), glorificado por uns, demonizado por outros. Porque, diga-se o que se disser dele, não incidiu, pelo menos, na abominação estabelecida na Bíblia para os que são “mornos” e devem ser cuspidos da boca do Senhor.

Se o nome ou nomes que recebemos ao nascer não são escolhidos ao acaso, mas obedecem a editos transcendentais das estrelas – como dizem os adeptos da astrologia –, os que foram dados ao menino nascido no Rio de Janeiro em 30 de abril de 1914 e registrado em Vassouras (RJ) resultaram de imposição mais clara da vontade dos familiares, os quais eram políticos e comunistas. Seu avô paterno, Sebastião Eurico de Lacerda, foi ministro da Indústria, Viação e Obras Públicas de 1897 a 1898, no governo de Prudente de Morais, e ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) de 1912 a 1925. Os nomes escolhidos para o rebento foram “Carlos” (Marx) e “Frederico” (Engels) porque seu pai, o jornalista e político Maurício de Lacerda, participou de várias revoluções, foi membro da Aliança Nacional Libertadora (ANL) e acusado de envolvimento na intentona comunista de 1935 – nessa ocasião o jovem Carlos, que desde cedo e até 25 anos seguiu a linha política da família, também teve de se esconder em uma chácara durante algum tempo. Seus tios, Fernando e Paulo de Lacerda, foram líderes do Partido Comunista Brasileiro, então chamado Partido Comunista do Brasil (PCB).

Carlos Frederico, porém, proclamaria sempre que era um grande entusiasta e defensor da democracia e da liberdade de expressão. E somente por volta de 1939 foi que rompeu com os correligionários comunistas, pois então teria percebido que sua doutrina levaria a uma ditadura pior que as outras, porque muito mais organizada e, portanto, muito mais difícil de derrubar.

Sabemos, porém, que sempre que ocorrem súbitas mudanças de opinião política não prevalecem argumentos meramente ideológicos, principalmente quando se trata de personalidades ativas na vida pública. Como se deu então essa passagem, em Carlos Lacerda, do ativismo comunista à posição, mantida até o fim da vida, de aderência total aos princípios conservadores e direitistas, dos quais foi o maior porta-voz e articulador?

Um episódio está ligado a essa “conversão”: o rompimento foi consolidado com a publicação, na revista “Observador Econômico e Financeiro”, de um artigo de sua autoria encomendado pelo Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), no qual contava a história do comunismo no Brasil e afirmava ao final que, graças ao Estado Novo, o PCB havia sido desbaratado e seus líderes, presos. Em consequência, os comunistas acusaram-no de traidor, contrariando sua versão, segundo a qual o próprio comitê central do partido o autorizara a escrever o artigo, já que, se não o fizesse, a incumbência caberia a “um jornalista ferrenhamente anticomunista”.

Detalhes da punição dada a Lacerda pelo “Partidão” circularam no Rio de Janeiro: o “traidor” teria levado uma surra dos companheiros, antes de ser expulso. Aliás, durante sua agitada existência foram várias as surras que recebeu, devido a excessos verbais, dos inimigos do momento – que poderiam, principalmente no caso de políticos, repentinamente se transformar em “amigos”, e vice-versa. E quando se envolveu na campanha pela deposição de Getúlio Vargas, em 1954, o revide dos atingidos por ele chegou mesmo ao famoso atentado da Rua Tonelero, um episódio que teve a capacidade de mudar a história do país.

Nos anos 1940, Carlos Lacerda teria outra “conversão” – ao catolicismo, levado por Alceu Amoroso Lima e Gustavo Corção. A intelectualidade brasileira ecoava a orientação política do Vaticano de Pio XI, que visava a uma aproximação com os setores dominantes da sociedade, com o recrudescimento da intolerância contra os demais credos e contra o marxismo-comunismo.

Mergulhando na história política do país no período de 1930 a 1964, vemos agora, com o distanciamento de meio século, uma característica primordial da época: na esquerda ou na direita, em todas as correntes ideológicas foi constante o desejo, mal dissimulado em uns, explícito em outros, de um governo forte, ditatorial, personalista, sob o pretexto de se dar ao povo brasileiro – diziam políticos de todo naipe – “democracia, justiça e melhores condições de vida”. Da revolução de Vargas ao estabelecimento efetivo da ditadura militar em 1964 – que duraria 21 anos –, nosso país tornou-se palco de conflito contínuo entre facções aparentemente opostas, mas na realidade muito semelhantes, calcadas abertamente nos regimes totalitários que infestavam o planeta, do nazismo-fascismo ao comunismo soviético.

Se o sonho de governar rasgando a Constituição e dissolvendo o Congresso teve dois momentos explícitos – o Estado Novo e o golpe de 1964 –, ele germinou também amplamente na mente de outras figuras que passaram à história, intelectuais, políticos, governantes: de Luís Carlos Prestes (na intentona de 1935) a Plínio Salgado (com sua tentativa de golpe integralista em 1938), de Jânio Quadros a João Goulart – e inclusive a Carlos Lacerda, que visava chegar à presidência da República. Juscelino Kubitschek constituiu, nesse particular, exceção absoluta – fez sempre questão de governar com a Constituição na mão.

Carisma

Muito culto, dotado de grande inteligência e de um extraordinário poder de expressão verbal e escrita, atraente fisicamente, Lacerda tinha tudo para se tornar um líder político desde a juventude. Nas fileiras comunistas opôs-se sempre a Vargas e manteve-se coerente nessa posição, fazendo da luta contra seus seguidores – explícitos ou embuçados – uma linha constante, através dos anos. Esteve por trás, inegavelmente, das várias conspirações que visaram depor Getúlio e, depois de seu suicídio, perseguiu incansavelmente os que seriam seus continuadores, de Juscelino Kubitschek a Jânio Quadros e João Goulart.

A carreira política de Lacerda, no entanto, tornou-se mais uma consequência de sua intensa e incansável trajetória como jornalista. Ele tem sido comparado, pela audácia das posições que assumia e pelo vigor do que escrevia, com outro jornalista político, Cipriano Barata, do século 19. Como aconteceu com a maioria dos profissionais da imprensa, atravessou, na mocidade, um período em que não tinha mais onde escrever – os donos de jornais temiam sua veemência imprudente, que poderia metê-los em grandes encrencas.

Foi assim que em 1947, após ter sido demitido do “Correio da Manhã” por ter feito mira em suas críticas em um amigo de Paulo Bittencourt, dono desse diário carioca, resolveu fundar seu próprio jornal, levando consigo o título da coluna que lhe dera fama, “Tribuna da Imprensa”. Teve ajuda financeira tanto do Banco de Crédito Real de Minas Gerais como de senhoras da sociedade que eram suas fãs inveteradas – uma de suas paixões, plenamente correspondida, foi pela atriz Maria Fernanda, filha da poeta Cecília Meireles. Outra, como nos conta seu principal biógrafo, John W. Foster Dulles, foi a atriz americana Shirley MacLaine.

De 1949 a 1960 Lacerda transformou a “Tribuna da Imprensa” em púlpito de pregação contra corrupções e negociatas generalizadas e contra todos os seus desafetos, isto é, os que não pensassem como ele. Era insaciável e obcecado nos ataques, como disse o jornalista Hélio Fernandes em entrevista concedida em 1977 a Sebastião Nery: “Seus inimigos que ficassem atentos, [Lacerda] acertaria as contas com os comunistas, com quem sentasse na cadeira de presidente da República, com generais, empresários que viviam de subsídios do governo e com os adversários, de modo geral. De seu alcance não fugiriam nem os udenistas [membros da União Democrática Nacional (UDN), partido ao qual o próprio Lacerda era ligado] que contrariassem suas ideias e posições”.

Outro jornalista famoso de sua época, Murilo Melo Filho, da revista “Manchete”, diria dele: “Nunca vi uma pessoa tão extremada e tão apaixonada pela vida. Tudo nele era grande: as qualidades e os defeitos. Idealista, ele tinha o entusiasmo próprio da juventude. Ficava tão absorvido com o trabalho na ‘Tribuna’ que às vezes nem sequer ia para casa. Dormia na redação, em cima de mesas forradas com jornais”.

Campanhas e crises

O fato de ter jornal próprio possibilitou a Lacerda manter longas e acérrimas campanhas contra o alvo da vez, que às vezes era até mais de um. Esbravejava com a ira sagrada de um Danton contra os assuntos mais comezinhos, como o desperdício do dinheiro público que constituía a compra de um casal de girafas para o Zoo do Rio de Janeiro.

Ficou famosa a campanha que moveu contra um rival de jornalismo, Samuel Wainer, proprietário do “Última Hora”, ligado ao grande inimigo, Getúlio Vargas – acusava-o de só ter podido criar e manter seu jornal devido a um financiamento ilícito obtido por favor do presidente, no Banco do Brasil. Foi tido como “permanentemente oposicionista” ao governo e realmente desestabilizou com sua oratória e seus artigos três governos, o de Vargas, o de Jânio Quadros e o de João Goulart.

Seus inimigos o apelidaram de “O Corvo” e “O Demolidor” – a maioria de seus contemporâneos, como o veterano jornalista Villas-Bôas Corrêa, vê nele qualidades de coragem e ousadia, mas lamenta os defeitos de seu radicalismo cego. Ele seria “muito bom para destruir, mas na hora de construir....” – o que não é exatamente verdade, pois Lacerda, que foi o primeiro governador do estado da Guanabara (1960-65), mostrou nesse cargo capacidade de ótimo administrador e empreendedor, enfrentando questões relacionadas à qualidade de vida da cidade multiproblemática que era o Rio de Janeiro da época, onde não havia nem mesmo um sistema racional de distribuição de água à população ou infraestrutura viária adequada ao trânsito.

Contra Getúlio

Como comunista militante, o jovem Lacerda planejou, em janeiro de 1931, incentivar marchas de desempregados no Rio de Janeiro e em Santos (SP), durante as quais ocorreriam ataques a casas comerciais. Essa espécie de “conspiração”, descoberta e desbaratada pela polícia, foi noticiada até no “The New York Times”. Embora desligado dos comunistas alguns anos mais tarde, ainda durante o Estado Novo assumiu como sua causa principal a derrubada de Vargas e dos movimentos políticos trabalhistas.

Nos anos 1950, já filiado à UDN, batalhou pela não eleição de Vargas e foi certamente a pessoa mais ativa em continuar a atacá-lo após a volta dele ao poder – englobando em seu ódio todos os políticos que considerava como continuadores do “varguismo” – até Juscelino Kubitschek. Lacerda conservou e cultivou sua atitude de violenta rejeição a JK – que passou à história como conciliador, eficiente e democrata, sendo conhecido pelo carisma pessoal que possuía e que fazia dos inimigos amigos.

Com o dono da “Tribuna da Imprensa” isso não foi possível. Como diz um dos biógrafos de JK, Claudio Bojunga, a única pessoa que Juscelino temia era Lacerda – o presidente confessava mesmo que ele era a primeira pessoa em quem pensava, a cada manhã. O jornalista moveu-lhe campanha cerrada, empenhado em não deixar que assumisse, depois de eleito, o cargo de presidente. Chegou mesmo a chamá-lo, em um artigo, de “cafajeste máximo” – tentava desmoralizá-lo, porque sabia que não poderia nunca vencê-lo nas urnas. No entanto, muitos anos mais tarde, quando Juscelino – que fora por ele incluído, com Jango, em sua Frente Ampla para a Redemocratização do País – morreu, Lacerda não hesitou em dizer: “A qualidade mestra de JK era a tolerância, a compreensão, o respeito à inteligência. Que sua morte sirva para restabelecer essas virtudes no Brasil”.

Em agosto de 1953, Lacerda fundou no Rio de Janeiro o Clube da Lanterna, que, congregando diversos parlamentares, principalmente udenistas, tinha por objetivo combater o governo Vargas. Tornou-se presidente de honra da nova entidade e apertou o cerco contra Getúlio, que já lutava para se defender da acusação de governar “em um mar de lama”. A situação agravou-se repentinamente no dia 5 de agosto de 1954, quando Lacerda foi vítima de um atentado, na porta de sua casa, na Rua Tonelero – que causou a morte do major da aeronáutica Rubens Vaz, que o escoltava. Ferido apenas no pé, ainda no pronto-socorro o jornalista atribuía o crime ao governo. Com o envolvimento provado no atentado do chefe da guarda presidencial, Gregório Fortunato, e até do irmão de Getúlio, Bejo Vargas, um manifesto de 30 militares exigiu no dia 23 de agosto, com o apoio maciço da aeronáutica, a renúncia do presidente – que preferiu suicidar-se, na madrugada de 24 de agosto.

A grande comoção popular causada pelo suicídio de Vargas, com ações contra a “Tribuna da Imprensa” e outros jornais antigetulistas, obrigou Lacerda a sair do Rio de Janeiro e esconder-se durante breve tempo. Em janeiro de 1955, já publicava um artigo defendendo abertamente a intervenção militar, preconizando que o governo fosse entregue a “mãos fortes” e conclamando à “união das forças democráticas”, que, a seu ver, encontravam-se ameaçadas com a possibilidade de vitória de Kubitschek. Dali por diante, até o golpe ditatorial de 1964, ele manteria uma aliança com os militares, tomando parte na organização de pequenos movimentos de revolta, como os episódios de Jacareacanga, no Pará, e Aragarças, em Goiás.

A renúncia de Quadros

Durante esses anos todos Lacerda deu prosseguimento à sua própria carreira política, nas fileiras da UDN. Foi eleito deputado federal e posteriormente governador do estado da Guanabara. Apoiara Jânio Quadros na campanha à presidência, mas indispôs-se com ele devido à atitude personalista, fazendo alvo de sua crítica a política externa, que incluía a aproximação com Cuba. Exatamente sete anos após o suicídio de Vargas, em agosto de 1961, Jânio inesperadamente renunciava, depois de oito meses de governo – o motivo imediato desse gesto fora um pronunciamento feito na véspera pela televisão por Lacerda, no qual o jornalista atacava o presidente por ter dado uma condecoração a Che Guevara e denunciava que ele estaria preparando “um golpe de gabinete” e propondo “uma reforma por decreto e com o fechamento do Congresso”.

Conforme é relatado no livro 1961 – Que as Armas Não Falem, de Paulo Markun e Duda Hamilton, o governador da Guanabara chegara a Brasília no dia 18 de agosto para conferenciar com o presidente – dizia-se que ia em busca de empréstimo para seu jornal, que estava em sérias dificuldades. Hospedara-se no próprio Palácio da Alvorada e mantivera conversas particulares com Jânio e com o ministro da Justiça, Oscar Pedroso Horta – a quem fora encaminhado pelo próprio presidente. Quando voltou ao Alvorada, no entanto, Lacerda foi recebido apenas pelo mordomo, com um detalhe: estava com a valise do governador na mão, despedindo-o. Furioso, ao voltar para o Rio de Janeiro Lacerda lançaria seu ataque a Jânio – com o resultado que se sabe.

Seu fervor “revolucionário” recrudesceu durante o agitado e curto período do governo Jango – o inimigo da vez. Lacerda apoiou plenamente o golpe militar de 1964 e muito batalhou para torná-lo eficiente: tinha a certeza de que seria escolhido por seus amigos militares para governar o Brasil. Quando isso não aconteceu, virou a casaca e passou a defender a formação de uma Frente Ampla (foi procurar seus inimigos figadais de outrora) para a derrubada da ditadura. Em 1968, porém, foi preso e pouco depois cassado – vítima da própria serpente ditatorial que nutrira. Após uma semana em greve de fome, conseguiu ser libertado por estar com a saúde debilitada, sob risco, segundo relatou em suas memórias, de entrar em coma diabético. Em 30 de dezembro teve os direitos políticos suspensos por dez anos.

No início de 1969 viajou para a Europa e, em maio, seguiu para a África como enviado especial de “O Estado de S. Paulo” e do “Jornal da Tarde”. De volta ao Brasil, dedicou-se às atividades empresariais, nas companhias Crédito Novo Rio e Construtora Novo Rio, e editoriais, na Nova Fronteira e na Nova Aguilar, todas de sua propriedade. Sob o pseudônimo de Júlio Tavares, colaborou ainda em “O Estado de S. Paulo” e no “Jornal do Brasil”. Faleceu no Rio de Janeiro em 21 de maio de 1977.
Revista Problemas Brasileiros - SESC

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

José de San Martin


José de San Martin nasceu em 1778, num povoado às margens do Rio Uruguai, filho de um governador espanhol com a sobrinha do conquistador do Chaco, na atual Argentina. Mudou-se para a Espanha com a família, em 1783. Estudou no Colégio dos Nobres, em Madri, onde aprendeu latim, francês, alemão, retórica, matemática, história e geografia. Iniciou o aprendizado militar com apenas 11 anos e, em 1797, tornou-se subtenente no exército espanhol. Depois de passar por Londres, viajou para Buenos Aires, em 1812, participando ativamente do movimento de independência. Comandou a expedição ao Chile, em 1817, e governou o Peru entre 1821 e 1822. Considerado na Argentina como o "Pai da Pátria", sua atuação militar é comparável à de Simón Bolívar. Morreu na França, em 1850, aos 72 anos de idade.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Adam Smith

A ciência econômica é relativamente recente, tem pouco mais de 200 anos. Apesar disso, os antigos tratavam dela sem saber que era de importância fundamental para as relações humanas e sociais. Iniciou-se a Economia com Adam Smith, que poderia ser denominado de patrono da disciplina, já que foi este grande pensador quem lhe deu status de matéria e criou um pensamento sistemático e estruturado em torno dela, publicando a Riqueza das Nações em 1776, na Inglaterra.

Sem medo de exagerar, poderíamos dizer que a Economia é a "Rainha das Ciências Sociais", por ser ela fator determinante nas outras ciências sociais (Sociologia, Política, Estudos Sociais). Seu estudo se tornou obrigatório desde o segundo grau até a universidade. Consta nos cursos de Direito, Engenharia, Psicologia, Administração, Medicina etc... À análise econômica tem se acrescentado instrumentos estatísticos e matemáticos para torná-la mais precisa e, desta forma, poder fazer previsões com maior grau de certeza.

Adam Smith (1723-1790)

Retrato de um Professor Distraído.

"A única beleza que tenho se encontra nos meus livros", esta foi a forma pela qual Adam Smith descreveu a si mesmo. Certamente, o famoso perfil de sua fotografia nos mostra um rosto simples. Além do mais, Smith tinha uma curiosa forma de lento caminhar, cambaleando-se, que um amigo apelidou de "Vermicular" e era propenso a notórios acessos de distração. Esse professor distraído nasceu em 1723 na cidade de Kirkcaldy, na Escócia.

Kirkcaldy orgulhava-se de uma população de 1500 pessoas, e na época em que Smith nasceu, pregos ainda eram usados como dinheiro por alguns habitantes.

Desde os primeiros anos, Smith foi um aluno capaz e com futuro promissor. Era evidente que sua carreira tinha de ser o magistério e, por isso, aos 17 anos, foi para Oxford, graças a uma bolsa de estudos, fazendo uma viagem a cavalo, e ali permaneceu por seis anos. Mas Oxford não era, ainda naquela época, a cidadela do saber que mais tarde se tornou. Havia pouco ou nenhum ensino sistemático e os estudantes ficavam em liberdade para educar-se por si mesmos, contanto que não lessem livros perigosos. Smith quase foi expulso por possuir uma cópia do Tratado da Natureza Humana, de David Hume, um livro que hoje conceituamos como uma das obras de arte filosóficas do século XVIII.

Depois de Oxford, Smith regressou à Escócia, onde obteve o título de professor de filosofia moral na Universidade de Glasgow. A Filosofia Moral cobria um amplo território na época de Smith. Temos apontamentos de suas conferências nas quais falava de direito, organização, impostos e "política". Nesta última palavra se referia à administração de assuntos domésticos, o que hoje denominamos Política Econômica. Em 1750 Smith publicou The Theory of Moral Sentiments, uma notável investigação sobre moral e psicologia.

Depois de regressar à Escócia, em 1776, Smith compôs lenta e cuidadosamente A Riqueza das Nações.

Quando concluiu a obra, enviou uma cópia a David Hume, de quem era grande amigo. Hume lhe escreveu: Euge! (bem feito em grego). Querido senhor Smith: estou encantado com o seu trabalho, você tem escrito uma obra que mudará para sempre o conceito que a sociedade tem de si mesma.

Adam Smith tornou-se famoso por sua obra mestra, Riqueza das Nações, publicada em 1776, ano da declaração de Independência dos Estados Unidos. Levando em conta todas as circunstâncias torna-se difícil saber qual dos documentos possui maior importância histórica. Na declaração de Independência se fez um novo chamado para criar uma sociedade dedicada à "Vida, Liberdade e à Procura da Felicidade". A Riqueza das Nações explicou como trabalha este tipo de sociedade.

A Filosofia de Smith

Devido ao mercado se regular por sua própria conta, Smith se opõe com veemência à intervenção do governo, que acabaria intervindo para satisfazer seu próprio interesse, prejudicando, desta forma, as forças da concorrência. É por isso que o “laissez-faire” (deixar fazer) se converte em sua filosofia fundamental, não porque Smith se oponha a idéia da responsabilidade social, e sim porque está convencido de que isto se conseguirá de forma mais eficiente através do mecanismo da mão invisível, e não por meio da intervenção do governo.

Sua defesa do laissez-faire não fez de Adam Smith um conservador comum, “A Riqueza das Nações” está cheia de comentários críticos sobre os meios ruins e rapinagem industrial. O livro simpatiza abertamente com os trabalhadores e se preocupa com eles, algo não muito popular na época de Adam Smith. Se Adam Smith defende com paixão o “Sistema de Liberdade Natural”, ou seja, o sistema baseado na liberdade econômica é porque ele acreditava que beneficiaria o público em geral e não os interesses mesquinhos de qualquer classe individual.

Smith na Atualidade

Torna-se evidente que Adam Smith escreveu sobre um mundo há muito tempo desaparecido. A fábrica de dez pessoas, ainda pequena, era tão importante na época que era tida como modelo. Nesse mundo, ainda havia vestígios das restrições mercantilistas, e inclusive feudais, determinando quantos aprendizes podia contratar um patrão. Os sindicatos eram considerados ilegais na sua maioria, quase não existia legislação social e a grande maioria da população era muito pobre.

Apesar disso, Smith captou os atributos fundamentais no sistema econômico que ainda não estavam completamente desenvolvidos na sua época:
1. Uma sociedade de pessoas competitivas à procura de lucro, que pudessem assegurar seu ordenado, fornecimento material, mediante o mecanismo auto-regulador do mercado.
2. Este tipo de sociedade tende a acumular capital e, ao fazê-lo, estimula sua produtividade e riqueza.

O interessante das observações de Smith é que muitas delas ainda são de grande relevância para o mundo moderno. Os economistas da atualidade ainda continuam sendo seus alunos.

Livro de Adam Smith: Riqueza das Nações
Investigação sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações


(...)
“O crescimento e a riqueza das cidades comerciais e industriais contribuíram para o melhoramento e o cultivo dos países a que pertenciam de três maneiras diferentes.
Em primeiro lugar, oferecendo à produção bruta do campo um mercado imediato e considerável, estimularam o cultivo e melhoramento do mesmo. Esse benefício não se confinou apenas aos países nos quais essas cidades se situavam estendendo-se em maior ou menor grau a todos aqueles com os quais mantinham relações comerciais.
Facultavam a todos eles um mercado para parte ou a totalidade da sua produção bruta ou manufaturada, estimulando consequentemente em todos eles a indústria e a agricultura. Era, no entanto, o país em que essas cidades se situavam que derivava desse mercado os maiores benefícios, em consequência da sua proximidade. Uma vez que o transporte da produção bruta vendida na cidade saía mais barato, os comerciantes podiam pagar por ela aos produtores um preço dos produtos originários de regiões mais distantes.
Em segundo lugar, a riqueza adquirida pelos habitantes das cidades era frequentemente investida na compra de terras que se encontravam à venda, a maior parte das quais estava por cultivar. Os mercados ambicionam geralmente tornar-se proprietários rurais e, quando realizam esse objetivo, fazem-no geralmente com grande eficiência. O mercador é um homem que está habituado a investir o seu dinheiro em projetos rentáveis, enquanto que o proprietário rural tem o costume de o gastar em despesas. O primeiro só abre mão do seu dinheiro quando vê que o recuperará com lucros; enquanto que o segundo, depois de abrir mão dele não espera tornar a vê-lo. Esses hábitos diferentes condicionam naturalmente o caráter e a disposição de um e outro em todos os assuntos de negócios. O mercador é geralmente um empresário ousado, o proprietário rural um empresário tímido. O primeiro não tem medo de investir de uma vez só grandes capitais no melhoramento das suas terras, desde que haja uma probabilidade grande de que o valor dessa terra se eleve proporcionalmente à despesa de que o valor dessa terra se eleve proporcionalmente à despesa com ela feita. O segundo, mesmo quando tem algum capital, o que nem sempre é o caso, raramente ousa investi-lo dessa maneira.”