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sábado, 21 de março de 2009

Porque Felipe, o Belo, rei da França combateu a ordem do Templo?

Em 1310, o rei Felipe, o Belo (à esq.) observa um grupo de Templários a caminho da execução. Templários sendo conduzidos para execução sob olhar de Felipe IV, pergaminho, escola francesa, século XIV, Bibliothèque de l’Arsenal, Paris
Dois especialistas, Yvan Gobry e Georges Bordonove, apresentam duas versões diferentes para o fim dos Templários
por Janine Trotereau

Em 1310, o rei Felipe, o Belo (à esq.) observa um grupo de Templários a caminho da execução. Templários sendo conduzidos para execução sob olhar de Felipe IV, pergaminho, escola francesa, século XIV, Bibliothèque de l’Arsenal, Paris

Motivos pessoais
Yvan Gobry

A ambição do rei foi o principal motivo da prisão dos Templários. Felipe, o Belo foi o primeiro rei capetiano a utilizar exércitos mercenários. Precisava de dinheiro para pagá-los. Antes, os senhores armavam seus próprios cavaleiros e o rei não intervinha, financeiramente falando. Agora, o Grão-Mestre do Templo, Jacques de Molay, refugiado em Chipre, última terra cristã no Oriente, colocava à disposição um verdadeiro tesouro para financiar uma nova cruzada para reconquistar a Palestina. Quando voltou para a França, trouxe o tesouro e depositou-o na casa-mãe em Paris. Felipe, o Belo esperava colocar as mãos nessa excepcional fortuna e sobre os bens imobiliários da Ordem. Entretanto, estes últimos foram distribuídos pelo papa para a Ordem dos Hospitalários.

Enquanto estavam na Palestina, os Templários não representavam nenhum perigo para a Coroa. Mas quando, terminadas as cruzadas, voltaram para a Europa Ocidental, e particularmente para a França – quatro quintos da Ordem eram franceses - o rei se viu diante de uma tropa de 30 mil homens armados que conheciam perfeitamente as artes da guerra.

Os Templários poderiam facilmente ter derrubado o poder. Certamente eles não o fariam jamais, pois eram dedicados à Santa Sé, à Terra Santa e às virtudes religiosas.

Motivos políticos
Georges Bordonove

Em 1291, a queda de São João de Acre marcou o fim do reino de Jerusalém. Os Templários, mergulhados em seu quixotismo religioso, não pensaram de modo algum em procurar um local para se fixarem, como fizeram os cavaleiros Teutônicos na Prússia, ou os Hospitalários em Malta.

A França transformou-se de Estado feudal em um Estado moderno fortemente centralizado. Felipe, desejando controlá-lo, retirou, pouco a pouco, as atribuições dos grandes senhores feudais. Com os Templários, ele descobriu um verdadeiro Estado dentro do Estado, ainda mais temível do que qualquer principado feudal subsistente. O rei, não podendo aceitá-lo, tentou obter a fusão das duas ordens religiosas-militares, Templários e Hospitalários, com o objetivo de impor um de seus filhos como Grão-Mestre à frente dessa nova Ordem. Desse modo, esperava poder controlar essas forças militares que ele temia e dispor facilmente de suas riquezas. O projeto fracassou, em grande parte devido à falta de visão de Jacques de Molay, o Grão-Mestre então em função, que não compreendeu a que perigo, ele expôs a ordem da qual era responsável. Se ele tivesse aceitado a fusão, jamais teriam ocorrido os processos contra o Templo.

Revista História Viva

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Templários: entre a cruz e a coroa

A popularidade do mito criado em torno da Ordem esconde o papel original que os cavaleiros desempenharam no embate entre o papado e as monarquias nacionais no século XIV


Templários sendo levados para a prisão, pergaminho de Cronicas da França, Escola Francesa, século XIV, Biblioteca Britânica, Londres
Templários são presos no século XIV por ordem do rei Felipe, o Belo

A Idade Média é um tema profundamente atual. O período é hoje tema de filmes, espetáculos, romances, festas medievais, lojas e restaurantes, sites da internet, jogos como RPG etc. Mesmo de um ponto de vista acadêmico, algumas obras recentes mostram uma verdadeira obsessão pelas origens medievais da Europa e da própria União Européia.

A Ordem dos Templários constitui um dos temas que melhor ilustram o fascínio exercido pela Idade
Media nos dias de hoje. Uma rápida consulta em qualquer sítio de busca na internet mostra a atualidade do interesse pela Ordem dos Templários. Muito se tem escrito sobre o caráter místico da Ordem, seu papel como guardiã de segredos e tesouros
da Igreja e até mesmo sobre seu caráter “demoníaco”. Por outro lado, a própria história da Ordem fornece elementos que ajudam a entender essa lenda contemporânea. O processo movido contra a Ordem pelo rei da França, Felipe IV, no início do século XIV, na medida em que incluía acusações de heresia e bruxaria, em muito contribui hoje para a associação entre os Templários e o ocultismo.

O fato é que as apropriações contemporâneas obscureceram a originalidade e o significado da Ordem no período medieval. Em que pese sua fundação em um contexto cruzadístico (mais precisamente em 1120), a história dos Templários insere-se mais profundamente no projeto de Reforma da Igreja (também conhecido como Reforma Gregoriana), levado a cabo pelo papado a partir da metade do século XI. Este último buscou se servir da Ordem como um instrumento de transformação, de pacificação e de controle da sociedade.

Em 1139, através da bula Omne datum Optimum, os Templários foram colocados sob a proteção direta do papado, obtendo autonomia em relação às autoridades episcopais. Alain Demurger afirma que essa tendência à instrumentalização dos cavaleiros se acentuou durante as Cruzadas, já que essas peregrinações armadas rumo a Jerusalém combinavam o valor penitencial da peregrinação à ideologia dos “movimentos de paz”, intensificando o processo de sacralização da guerra empreendido pelos reformadores gregorianos.

Mas a conformação dos cavaleiros à ideologia eclesiástica não significava uma renúncia completa ao mundo, tal como acontecia entre os monges, e sim a submissão de suas atividades guerreiras aos desígnios do Cristo, como bem lembrou Jean Flori. Em outras palavras, eles se tornavam “cavaleiros de Cristo”, perfeitamente integrados à sociedade cristã e aos seus objetivos, e não mais cavaleiros em busca da simples glória terrena. É precisamente na conciliação de duas esferas até então incompatíveis – a vida militar e a vida religiosa – que reside a originalidade da Ordem dos Templários. A intervenção do rei da França, Felipe IV, que ordenou em 1307 a prisão de todos os Templários presentes no reino, o confisco de seus bens, bem como os processos políticos movidos contra eles, marcaram a crise do papado e o fortalecimento das monarquias nacionais.
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Marcelo Cândido da Silva é professor de história medieval da Universidade de São Paulo (USP), Coordenador do Laboratório de Estudos Medievais (LEME) e autor de A realeza cristã na Alta Idade Média (Alameda, 2008).

Revista História Viva