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terça-feira, 19 de janeiro de 2010

O PODER DA CACHAÇA


O PODER DA CACHAÇA

Ademar Vidal


Quem vive no campo é que pode bem avaliar o poder da cachaça entre os homens do povo. Entre os que trabalham na enxada de sol a sol. Até parece que essa gente nela encontra a força de esquecimento tão necessário às agruras de um viver nada fácil. É fonte de alegria falsa, a cachaça como, aliás, o álcool em suas múltiplas formas de bebedeira.

Nada realmente mais importante para o trabalhador de cana que apreciar bom gole depois do longo dia de pesadas e monótonas tarefas. Aquilo desce como bálsamo confortador e compensador de muitas desditas. Poderá faltar dinheiro para tudo, menos para adquirir a "pancada oitavada". Poderá faltar luz e comida em casa, porém o desejo fica morto ante a preponderância da vontade forte, tão forte que supera todas as obrigações sociais. É raro encontrar-se na zona rural, principalmente entre os cassacos de engenho e usina, alguém que não tome o seu "remédio" a horas certas, assim ao quebrar da noite que vem ou, então, ao levantar do dia que chega cheio de esperanças ou indecisões.

O destilador, talvez pelo fato de ser fabricante de cachaça e andar a toda hora sentindo o cheiro vivo do álcool, pegado no serviço lento e paciente, carecendo a todo instante de assistência continuada, talvez seja um dos poucos indivíduos que não beba como vício e mesmo como obrigação de ofício. Quando muito pode prover. Conheço o mestre Benício, que não se lembra de haver se embriagado alguma vez na vida. Faz somente é provar para dar o ponto certo, ver se o corte está direito, se a água não está se infiltrando demais, se o álcool está sendo eqüitativamente compensado num equilíbrio que tanto recomenda a qualidade e o gosto do produto. A vigilância se torna indispensável. Mas o aparelho, por seu turno, também ajuda.

No engenho que tem destilação, quando o alambique é de qualidade (uns dizem que de barro é melhor, porque a cachaça dele sai mais gostosa, outros acham que, se for de cobre, produz por maneira muito superior) fica logo conhecido o líquido que passarinho não bebe", procurado de longe, vem gente do fim do mundo para adquirir algumas doses — e a vendagem conseguintemente é de alarmar, não chegando para quem quer e sim para os merecedores da simpatia do senhor privilegiado.

Acham os entendidos que a cachaça tem "alma". Seria melhor dizer: tem espírito. Faz com que "alimente" e traga a confiança no êxito. Que alimenta, parece que não resta dávida alguma, pois os homens do canavial mal comem, alimentam-se muito pouco e, no entanto, não dispensam a cachaça como ajuda extraordinária. Não se embriagam, mas tomam vastos goles vespertinos e matutinos, já como hábito. Acontece que existem as exceções: então é o que se vê — os viciados que não encontram serviço facilmente, vivendo do favor dos amigos, não conhecendo nada da agricultura e sim como verdadeiros judeus-errantes. Acontece ainda que, nos dias de festa, o que se surpreende é a libertação geral por via da cachaça. Os mais retraídos saem do estilo para tomar parte na dança geral. Todos bebem. A bebedeira é a razão dos folguedos. E é quando se desenrolam os acontecimentos mais curiosos: moradores de respeito subitamente se transformaram em arruaceiros quando não tiveram ensejo de tomar parte em crimes de sangue.

Há engenhos e usinas onde a cachaça é proibida por maneira intransigente, ao ponto do recalcitrante ser posto para fora sem maiores delongas. É mandado sumariamente embora. Dane-se. Vá para o inferno.

Manoel Pichilinga é doente. No trabalho, falam ser completo no cumprimento dos deveres que lhe são conferidos, na qualidade de cassaco da mais ínfima categoria. Percebe dois cruzeiros diários. Na hora da refeição come farinha com o pedaço de qualquer coisa como se fora carne ou bacalhau (que bacalhau, é um peixe que vem do sertão, criado nos açudes, muito seco e salgado de doer na língua, não tendo mesmo gosto algum) e continua depois o serviço até a noitinha. Então ganha a estrada da vila aonde vai dormir. Antes, porém, de fazê-lo toma bebedeira solene, fica de não se sustentar em pé e, cai não cai, se dirige para o seu miserável dormitório. Na madrugada seguinte se levanta e pega no serviço com a disposição de quem teve noite anterior deliciosa de repouso e boa alimentação.

E assim vive, desde anos, esse homenzinho franzino e moço, risonho e respeitador, dizendo sempre isto nas histórias que conta:

— Conheço a alma da aguardente.

— Mas como será essa alma, Pichilinga?

Certa ocasião ele confessou como a costumava ver nos seus momentos de prazer intenso. De primeiro ficava suspenso no ar (o álcool dá esta sensação) e neste instante entrava a sentir a "fumaça que é uma cobra". Como definir isso? Então explicava:

— A fumaça saía da boca sem eu me sentir.

E depois:

— Ela saía se enrolando toda e subindo, subindo e, a certa distância do chão, descia devagar, mansinha e já tomando um jeito de bicho.

Então chega a parte final. Pichilinga entrava no mais importante da história.

— Formava-se uma cobra cinzenta (a fumaça tem esta cor) dançando em minha frente ao ponto de despertar desejo da gen te pegar nela (justificava-se a vontade sexual) porque parecia esquisitamente com uma mulher se requebrando.

Aliás, os bêbedos, quando acordam, geralmente pensam ter visto ou sonhado com alguma beldade, é o que quase todos dizem. Que a cachaça tem "alma", tem, assegura Pichilinga. E, como ele, muita gente boa, mesmo senhor de engenho ou dono de usina, quando talvez sejam estes os menos capazes dessa afirmativa, pois não bebem e, quando bebem, se destacam muito na sociedade onde vivem.


(Vidal, Ademar. Lendas e superstições; contos populares brasileiros. Rio de Janeiro, Empresa Gráfica O Cruzeiro, 1950, p.265-267)

Jangada Brasil

AGUARDENTISMO E FOLCLORE


AGUARDENTISMO E FOLCLORE

Vasconcelos Torres


A questão do aguardentismo, no Brasil, tem sido largamente discutida, quer sob o prisma científico, quer sob o ponto de vista da moral. Afirma-se por aí que o brasileiro bebe em demasia e que a garrafa de pinga é a sua companheira inseparável. Nem sempre essas afirmações são dignas de nossa atenção, vez que se apóiam em fatos presumidos. Na verdade, em algumas regiões brasileiras o consumo de aguardente não é pequeno; noutras, porém, a percentagem dos abstêmios é bastante expressiva. Hoje, uma garrafa de cachaça está valendo muito mais que um quilo de feijão e o trabalhador, evidentemente, não deixará de adquirir gêneros em troca de um trago que não lhe custa pouco. Seu salário baixo mal chega para satisfazer as despesas normais e qualquer desvio na renda lhe acarretará um deficit maior. Dessa maneira, a aguardente não é consumida como dantes, quando, a qualquer pretexto, era ingerida em larga escala. Todavia, apesar dos motivos decorrentes da crise atual, o consumidor viciado não se deixa vencer pelos obstáculos e arranja um meio para atender aos reclamos de seu vício.

O Nordeste é uma das regiões brasileiras onde o consumo de aguardente é elevado e seu uso gerou ditos e expressões curiosas. Em Sergipe, por exemplo, existe um rico folclore sobre a cachaça, estudado habilmente pelo senhor José Calasans que; realizando uma interessante pesquisa, teve a ajudá-lo os próprios consumidores.

Os versos dos bebedores exprimem, antes de mais nada, o ambiente social em que vivem os cantadores, na maioria das vezes homens que afogam as suas mágoas na bebida, desajustados de todo gênero, que acreditam nos miraculosos poderes da branquinha.

Nas nossas viagens pelo interior sergipano, não raro, visitamos as bodegas perdidas nas curvas das estradas. Podia faltar tudo, mas o litro de cachaça lá estava na prateleira poeirenta. O campônio chegava e olhava para o bodegueiro; este, num movimento rápido, alcançava a bebida e, silenciosamente, servia ao freguês de todo dia. Os olhos do consumidor faiscavam e, freqüentemente, o bodegueiro associava-se ao prazer do cliente. Havia como que uma felicidade no gesto, quase violento, de despejar o conteúdo do cálice na garganta. Depois, o homem se retirava e o seu trabalho árduo iria ser suavizado pelo contentamento eufórico proporcionado pelo álcool.

O senhor Calasans, falando sobre o ritual dos cachaceiros, diz que "a cerimônia mais comum e mais simples é a que se pratica nas bodegas, ponto de reunião dos bebedores. O interessante ritual compreende, quase sempre, três fases: oferecimento, agradecimento e pedidos, e louvações. O oferecimento é feito pelo pagão, cristo ou sofredor, isto é, a pessoa que paga as despesas". Percorrendo os recantos de Aracaju, o ilustre pesquisador teve ensejo de presenciar oferecimentos em versas, alguns improvisados, outros já conhecidos, como os da autoria de João Martins de Ataíde, etc.

Releva salientar que, de quando em quando, aparece o nome do Brasil. No final de uma quadra, por exemplo, lê-se: "sou cidadão brasileiro, falo em favor do Brasil", ou então: "sou cidadão brasileiro e brigo ,a favor do Brasil". De outras feitas, os temas variam, ora exaltando as qualidades da bebida, ora salientando que o beber é humano, etc.

Tratando da genealogia da cachaça, escreve o professor Calasans: "a genealogia da cachaça constitui um tema predileto dos louvadores. Explicar as origens da purinha é uma preocupação constante dos nossos vates populares. A filiação da cachaça representa, sem dúvida alguma, o tema mais rico do folclore poético da pinga. As variantes recolhidas são inúmeras, em todos os pontos do Estado, Assim como os portugueses, nas louvações ao vinho-verde, não esquecem o papel primordial da uva, os cantores anônimos de nossa terra não olvidam a cana de açúcar". No Brasil, acentua o autor, antes da cachaça existe a cana e também o canavial, sendo cachaça filha daquela e neta desta.

No trabalho do senhor Calasans a cada passo reponta um documentário útil, evidenciando a vocação do escritor e o percuciente coletor de reações provocadas pela ação da bebida. Uma quadra catalogada pelo autor exprime perfeitamente o espírito de um autêntico bebedor. É a seguinte:

Se o beber alegra a gente,
O fumarnos dá prazer.
Quem não bebe, quem não fuma,
Que alegria pode ter?

O bom caneador é aquele que não pára no primeiro trago. Assim,

O beber não é tão bom
Quanto é o repetir;
A graça de quem tá bebo
E’ tombar e não cair.

Por fim, o senhor Calasans estuda a relação entre a cachaça e a morte. Recolheu o seguinte verso, cantado pelos ganhadores da porta da igreja de São Salvador:

Cachaça é cuma morte,
Nunca escói a qualidade,
Matando pobres e ricos
E home de autoridade.

Ou então:

Quando eu morrer, minha gente,
Quero que um favor me faça:
Botem dentro do caixão
Vinte litros de cachaça.

A investigação procedida é daquelas que deveriam ser imitadas. O folclore da aguardente nos demais estados é também apreciável, porém, até o momento, ninguém se deu ao trabalho de recolher as cantigas. que falam da cachaça. Por isso mesmo o trabalho do senhor Calasans ainda aparece com o mérito de ter sido o primeiro realizado entre nós. O autor de Aspectos folclóricos da cachaça não esgotou o assunto e prometeu divulgar oportunamente o restante do material que tão pacientemente reuniu. O trabalho publicado, entretanto, por si só, já representa uma contribuição notável aos estudos brasileiros.


(Torres, Vasconcelos. "Aguardentismo e folclore". Brasil açucareiro, janeiro de 1945, p.91-92)

Jangada Brasil

A CACHAÇA NO FOLCLORE DE MINAS GERAIS


A CACHAÇA NO FOLCLORE DE MINAS GERAIS

João Dornas Filho

Há um considerável acervo de material etnográfico a respeito da cachaça no Brasil, país de secular tradição na lavoura e industrialização da cana de açúcar, e ainda não foi reunido, existe esparso por todos os recantos da nossa terra.

Em Minas Gerais, não só nas regiões do cultivo da cana, mas também em qualquer lugar onde existam uma dúzia de casas e uma taverna, o lendário, o anedotário e a poética a respeito do restilo ou aguardente são riquíssimos e de subida importância para o conhecimento da nossa demologia.

É um pequeno material que tenho no meu arquivo o que apresento nestas notas:

A cachaça é minha prima,
o vinho é meu parente.
Não há festa nem festejo
que meus parentes não entre.

Vou mandar fazer um bicame
de madeira de canela,
pra passar toda cachaça
dos quintos pra minha goela.

No fim da minha vida
quero morrer de fartura
O quinto será meu caixão,
o alambique a sepultura.

Em Diamantina anotei a seguinte “oração” dedicada a bebida:

Aguardente é excelente,
quem bebe fica quente;
quem fica quente, dorme;
quem dorme, não peca;
quem não peca vai ao céu;
e para que ao céu vamos,
bebamos,
com a divina graça,
cachaça!
Ela é filha do alambique,
neta do canavial,
nascida aqui no Brasil,
nada tem de Portugal,
E sendo bebida tão singular,
que a uns faz rir, outros chorar,
viva!
E nos livre da polícia! Amém.

De várias procedências, mas sempre de Minas Gerais anotei mais estes versos:

Pedi casamento à moça
e ela mandou me dizer
por velho vizinho dela
que eu deixasse de beber.

Eu mandei dizer a ela
pelo mesmo portador,
que eu não deixo de beber,
nem que perca o seu amor.

Pois a garrafa faço a vela,
do alambique meu caixão
Mesmo depois de morto
me metam um copo na mão.

Debaixo do alambique
risquei a minha sepultura
Eu morrendo de cachaça,
sei que morro na fartura.

Para afogar minhas mágoas,
de vinho vou me fartar.
– Afogue-as antes com água
– Não, que elas sabem nadar.

Eu não bebo mais cachaça
nem que ela vem do céu.
Foi por causa da cachaça
que eu perdi o meu chapéu.

Nesta vida de pobreza,
sou feliz, não sei porque.
Todo sonho de riqueza
só resulta em você.

A caiana tá madura,
tá no ponto de moê
Chora, caiana, chora
que eu não posso te valê.

O restante que ora apresento foi colhido no Triângulo Mineiro. Na primeira estrofe em que a cachaça tem o nome de “mão de vaca”, encontra-se o termo “quitanda” com o sentido de varejo de verduras, legumes e anexos que no centro-oeste de Minas significa, porém biscoitos, sequilhos, etc. Isto parece denunciar que a estrofe é de origem peregrina.

Na quitanda tem bolacha
na padaria banana
no açougue “mão de onça”
e na venda “mão de vaca”

A vaca, boa
Caxinguelê-ê-ê!
O diabo tá danado
com você!

Outra, que é variante de alguns antecedentes:

Dentro do alambique
façam o meu caixão
Nas garrafas ponham velas
me enterrem com o copo na mão.

Se santo padre soubesse
o gosto que a cachaça tem,
viria lá de Roma,
beber cachaça também.

No nordeste de Minas (Virginópolis, Peçanha, etc.) copiei estas:

A cachaça é moça branca
filha de homem trigueiro;
quem tomar amor por ela
não pode ajuntar dinheiro

Minha caninha verde
que veio de Montevidéu,
veio engarrafada
na capa do meu chapéu.

Vinho de cana é cachaça,
concha pequena é colher,
língua de velha é desgraça,
bicho danado é mulher.

Evidentemente incompleto recolhi ainda no nordeste do estado este diálogo:

O homem
Vou beber,
Vou me embriagar,
Vou cair na rua
Pra polícia me pegar

A mulher
Ó meu maridinho
Dai-me um chapéu,
Que o meu está velho,
Já saiu o vêo!

O marido
Vou beber,
Vou me embriagar, etc.

A mulher
Ó maridinho,
Dai-me um sapato
Que o meu está tão gasto,
Já saiu o salto!

Ainda da zona do nordeste, onde se fabrica boa cachaça muito apreciada pelos entendidos, recebi, por obséquio do senhor Otávio Courb, mais umas estrofes, que são, aliás, variantes dalgumas que já copiei.

A cachaça é minha prima,
o vinho meu primo irmão,
não há função nenhuma
que meus parentes não vão.

A cachaça é moça branca
filha de um homem de bem
quem tomar amor por ela
perde tudo que tem.

Cachaça é sangue de Cristo,
e alma de satanás;
sangue se bebe pouco,
e alma se bebe mais.

Comunicação interessante é a recebida de um filho de Diamantina, informando existir ali um ditado que diz: “Em Diamantina só os sinos não bebem, porque vivem de boca para baixo”...

O pequeno material aqui apresentado traduz uma significante parcela de quanto há por aí para ser coletado, coordenado e estudado em tão interessante capítulo do nosso folclore.


(Dornas Filho, João. “A cachaça no folclore de Minas Gerais”. Estado de Minas. Belo Horizonte, 24 junho 1962, 2º Caderno, p.3-4)

Jangada Brasil

ACHEGAS AO FOLCLORE DA CACHAÇA


ACHEGAS AO FOLCLORE DA CACHAÇA

Veríssimo de Melo

Os nossos prezados amigos e confrades José Calasans Brandão da Silva, da Bahia, e Guilherme Santos Melo, do Espírito Santo, têm divulgado através dos Boletins da Comissão Nacional do Folclore, interessantes contribuições ao folclore da cachaça.

Pelo que já publicaram, com repercussão até mesmo no estrangeiro, e nós bastaremos citar este brilhante trabalho do doutor J. A. Pires de Lima, intitulado "As bebidas alcoólicas no folclore americano", inserto na Revista de Dialectologia y Tradiciones Populares, de Madri, tomo 6, cad.3, 1959, que acabamos de receber, onde há merecidas referências a esses dois estudiosos do populário nacional, não resta a menor dúvida que eles são, no momento, os nossos mais autorizados especialistas no assunto.

E nós podemos garantir que isso vai aqui sem a mais leve ironia, porque, em verdade, uma coisa é ser estudioso da cachaça e outra muito diferente é o de gostar de cachaça, embora haja quem prefira reunir o útil ao agradável.

O assunto é realmente vasto e tem sido abordado, sob variados aspectos, por uma infinidade de escritores nacionais. Só o anedotário, bem coligido, daria para um volume fabuloso. Mas, como acreditamos que o folclore da cachaça está a exigir não artigos ou contribuições esparsas, porém um livro massudo e denso (e este seria um dos livros mais divertidos da bibliografia brasileira), somos de opinião de que ninguém estaria mais capacitado para fazê-lo do que José Calasans ou Guilherme Santos Neves ou os dois juntos.

Contudo, enquanto aqueles nossos amigos não escrevem o livro que estamos esperando, sobre o folclore da cachaça, é sempre oportuno que lhes enviemos contribuições regionais.

Para o capítulo da linguagem popular em torno da "branca", vão aqui estes sinônimos de embriaguez ou de bêbado, todos registrados por nós em Natal, embora saibamos que não é só a cachaça que produz os tipos que iremos examinar, mas todas as bebidas alcoólicas:

Tocado; triscado; bicado; comendo um galo; puxando fogo; puxando um trem; queimado; chumbado; encarraspando; meio fumado; comendo uma cuíca; em água; envenenado; puxando um trote; melado.

O ato de beber, além do clássico matar o bicho (aliás este é o bicho mais difícil de ser morto que se tem notícia na história), temos também empinar a coruja, ou simplesmente tomar uma.

Sinônimos de certa quantidade de cachaça, entre vários outros, são estes: grog, bicada, lenhada, trago, chamada, dose, lapada, pancada, talaga e uma.

Contudo, a nossa maior contribuição neste artigo será no que se refere às marcas de aguardente. Certa vez na Prefeitura de Natal, reunimos um grupo de operários e alguns funcionários (estes eram folcloristas...) e começamos a perguntar quem se lembrava (só por ouvir dizer) de rótulos de cachaça. Da colheita, que foi farta, destaco estas marcas, suprimindo muitas outras de nomes inexpressivos:

Mocotolina; Dois Tombos; Olho d’Água; Serra Grande; Chuva Grossa; Pitu; Chora no Copo; Quebra Jura; Inspiração; Bomba Atômica; Penicilina; Cigana; Neblina; Destacada; Lourinha; Galo (que eles chamam "marca galo"); Mulata; Gilda; Escandalosa; Tiquira; Bagaceira; Vergonha; Juízo (para que se diga: "Tome Vergonha! Tome Juízo"); Grã-Fina; Asa Branca; Aratu; Bateria; Espiridina; Bofetada; V-8; Moleque no Frevo; Meu Desejo; Chica Boa; Várzea Grande; Pé de Serra; Fosqueira; Maliciosa; Bumba; Chora na Rampa; O-bá; Tambu; Monte Castelo; Volúpia; Cruz Vermelha e Trompete.


(Melo, Veríssimo de. "Achegas ao folclore da cachaça". Em Diário de Natal. Natal, 15 de dezembro de 1950)

Jangada Brasil

AINDA O FOLCLORE DA CACHAÇA


AINDA O FOLCLORE DA CACHAÇA

Téo Brandão

O segundo motivo abordado por José Calasans na sua interessante obra Cachaça, moça branca, diz respeito ao culto à bebida. Revela o folclorista sergipano a existência de um verdadeiro culto à cachaça em Maroim (Sergipe) que ele denominou de “culto da serpente venenosa do alto mar”, culto que ele equipara à célebre procissão ou festa do deus Baco, realizada na antiga província de Pernambuco e descrita por Pereira da Costa.

Em Alagoas, embora como em todo o Brasil, haja devotos da “Santa caninha” e estes sejam denominados de “irmãos da opa”, não há nem houve, ao que me consta, nenhum culto religioso organizado nos moldes daquele de que nos noticia o ensaísta de Aracaju.

Contudo, se não há um culto religioso, há pelo menos um culto cívico ou melhor uma macaqueação ou arremedo de organização militar com o grêmio tradicional e bastante conhecido, mormente na época carnavalesca, do 44º Espadas d’Água.

Este célebre batalhão de “pés de cana” é formado por um certo número de aficionados da “branquinha” e se apresenta organizado em estado-maior, quartel general, oficialidade, possuindo hino, ordens do dia, etc.

Inquirindo um dos seus “comandantes” a respeito da origem da denominação de 44º Espadas d’Água, nada nos pode responder, afirmando que o nome era muito antigo e que já existia quando “verificara praça” há trinta e tantos anos passados. Nessa data ou em época pouco anterior, lembramo-nos de que em Viçosa saía por ocasião do Carnaval um Clube Carnavalesco “Espadas d’Água”. Também informante residente nesta capital diz-nos que aí por 1910 existiu em Maceió um Clube Carnavalesco Espadas d’Água — naturalmente predecessor da atual organização.

O que parece é que a criação de tal organismo se deve à influência de Pernambuco pois, refere-nos Pereira da Costa no verbete “Espada d’Água” de seu precioso Vocabulário pernambucano que “em 1900 fundou-se no Recife o 13º Batalhão Espada d’Água, sob o comando do marechal Maia Maravilhoso” e quem em 1902 já tinha filial em Tejipió” (A Pimenta, 1902).

Quanto à adoção do número 44, ou foi “meramente” acidental ou poderia significar o número dos primitivos componentes do grupo.

A sua organização íntima foi-nos prometida por altos oficiais do quadro mas infelizmente até o momento de traçar estas notas não chegou às nossas mãos. Veio-nos, porém, o hino do Batalhão, letra (diz a cópia que nos foi fornecida) do capitão Chico Papaovo (?) para ser cantada com a música da Tirolesa. Hino portanto, recente, a menos que não seja substituído de algum outro mais antigo:

Estr.
44,
Espada d’água – força de grande valor

44,
Tem general, só não tem governador.

I
Eu vou passar a vida inteira
Na bebedeira, na bebedeira...
Honrando as nossas tradições
Tomando cana de alambique aos garrafões.

II
Viva o nosso chefe em ação
O general Luís Falcão
Que comanda de boa fé
A nossa carga de cavalaria a pé

Da existência desta corporação é que talvez tenha vindo a expressão comum em certas rodas de “bebaças” para os indivíduos que se encontram embriagados de “fardados”, dizendo-se além disso que o indivíduo está de “talabarte e perneira” quando a embriaguez é completa.

A estas atividades pseudo-militares possivelmente se prende também uma cançoneta que ouvi muitas vezes na minha infância, e que se não nos enganamos é por sua vez paródia de outra canção, da mesma época que o professor Luís Lavenere registra na segunda edição de sua interessante e preciosa coleção Nossas cantigas:

”Assentei praça na polícia eu digo.
Por ser amigo da distinta farda.
Agora é tarde: me recordo e penso.
Trabalho imenso, não se folga nada.

Adeus, compadre, adeus também amigos.

Há 12 anos que na praça eu vivo,
Tomando cálice de cognac fino
Vou vencer batalhas e sofrer castigos”

mas da qual só conseguimos as duas estrofes que aqui vão transcritas até que um “veterano” do 44 ou das “tropas irregulares” possa um dia enviar-me o restante:

“Tomei um porre na semana santa
Que a vizinhança de mim teve dó:
Segunda-feira fui saindo à rua
Vestindo a calça pelo paletó.

Adeus, Levada, bairro da cachaça
Assentei praça com destino ao Rio,
Um alagoano como eu não corre
Ou mata de morre mas sustenta o brios.”


Voltando porém às manifestações de culto religioso da cachaça podemos ainda informar que tivemos certa feita notícia da existência entre nós de uma ladainha possivelmente símile do decálogo que Americano do Brasil (Cancioneiro de trovas do Brasil Central), registra e José Calasans transcreve, a qual entretanto não foi possível chegar ainda em nossas mãos.

Todavia podemos assegurar que o culto à bebida referendado por orações não existe só em Sergipe, Bahia ou Pernambuco. Em Paraíba transcreveu Sabino Campo em seu romance “Catimbó” um interessante “Creio em Deus Padre” recitados pelos crentes da “cotréia”:

“Creio na fertilidade do solo todo produtor, criador da casa e da caninha; creio na aguardente, nosso alimento, a qual foi concebida por obra e graça do alambique; nasceu da puríssima cana, padeceu sob o poder da moenda, foi derramada e sepultada no copo, desceu ao fundo da caldeira, ao terceiro dia ressurgiu da garrafa, subiu ao céu da boca, está no tonel, bem arrolhado, de onde há de vir alegrar os grandes e os pequenos. Creio no espírito de 40º, na santa safra anual, na comunicação dos pifões, na remissão dos chinfrins, na ressurreição dos pileques e na ressaca eterna, amém”.

Também em Minas Gerais o meu prezado confrade e querido amigo Saul Martins me mandou como saudação de Natal, uma variante deste credo, por ele coligido num botequim de Belo Horizonte no dia 20 de dezembro de 1951:

“Creio tenho fé e esperança nos grandes canaviais, na utilidade do gole e todo produto da cana e caninha;

Creio na aguardente que é o nosso alimento, o qual foi concebido por obra e graça do alambique.

Nasceu de um puríssimo canudo, padeceu sob os apertões e pressões das moendas, foi derramado e sepultado no cocho; no terceiro dia ressurgiu da garrafa, subiu ao céu da boca dos cachaceiros e paus d’água, está nas garrafas bem arrochadas, de onde há de vir alegria pra os grandes e pequenos.

Creio no espírito de 40º, na santa safra de mel, na diminuição dos impostos, na remissão dos sem pena, na eternidade da cana, na salvação dos pinguços, na ressaca eterna, assim seja”.


(Brandão, Téo. “Ainda o folclore da cachaça”. Diário de Notícias. Rio de Janeiro, 21 setembro 1952)

Jangada Brasil

A CACHAÇA, VISTA PELO FOLCLORE


A CACHAÇA, VISTA PELO FOLCLORE

Hernani de Carvalho


• Entende-se por cachaça a aguardente obtida pela fermentação e conseqüente destilação da garapa ou do caldo de cana-de-açúcar, gramínea que se desenvolve bem em todo o território brasileiro.

• A cachaça é procedente de vegetação rendosa, ‘barata e de ciclo vegetativo rápido: a cana-de-açúcar. Igualmente, a sua fabricação depende de maquinário barato. A fábrica de cachaça descreve-se assim: uma coberta sem paredes laterais; uma moenda movida por uma junta-de-bois, onde as canas são moídas; a garapa vai para os tanques onde se opera a fermentação, que consiste na transformação da sacarose (açúcar) em álcool etílico e água. A garapa fermentada e, em seguida, levada para o alambique, onde o álcool etílico, com o calor da fornalha do alambique, volatiza-se e passa às serpentinas refrigeradas, onde se liquefaz e é recolhido em recipientes apropriados, chamados tonéis. Quanto mais velha nos tonéis, tanto mais saborosa a cachaça.

• Como se verifica, a obtenção da cachaça é baratíssima: e, por isso mesmo, é vendida a baixo custo no varejo, nas bodegas e nos botequins. A cachaça é a bebida do pobre, no Brasil. O roceiro, quando vai à venda fazer as suas compras costumeiras, leva uma garrafa vazia para trazê-la cheia de cachaça. A rigor, todos os roceiros têm sempre em casa uma garrafa de cachaça para um gole ou uma bicada, de vez em quando, ou oferecer um gole a uma visita.

• A cachaça, nos nossos sertões, é mezinha para males físicos e mesmo morais: há contrariedade? toma-se um gole e tudo desaparecerá; reina alegria? saúda-se esta alegria com uma bicada; dói o dente? bochecha-se cachaça e a dor some; há falta de apetite? tome-se um aperitivo de cachaça e a fome volta voraz; falta coragem para resolver um negócio sério? uma lambada forte de cachaça, torna-se corajoso; falta-lhe disposição de falar em público? uma chamada boa de cachaça torna-o orador; faz frio? toma-se uma talagada de cachaça e esquenta-se; faz calor? toma-se um golinho de cachaça e refresca-se; enfim, a cachaça transforma a personalidade do amante do álcool etílico. É necessário distinguir-se o amante da cachaça do cachaceiro: o primeiro, bebe-a aristocraticamente (...) ao passo que o último se dá ao uso desbragado da cachaça, prejudicando-se...

• Por causa da popularidade da cachaça os seus apelidos são numerosos e pitorescos: branquinha, mata-bicho, tira-teima, malfadada, desgraçada, para-ti, abrideira, água bruta, água-de-briga, água-que-gato-não-bebe, água-que-passarinho-não-bebe, bagaceira, baronesa, bicha, bico, branca, brasa, brasileira, cândida, caiana, cana, caninha, canjica, catuta, caxaramba, caxiri, cobreiro, corta-bainha, camulaia, dindinha, dengosa, desmancha-samba, dona branca, elixir, engasga-gato, espírito, esquenta-por-dentro, filha-de-senhor-de-engenho, fruta, gás, girgolina, gororoba, gramática, homeopatia, imaculada, já-começa, jerebita, jinjibirra, jura, legume, malunga, mamãe-de-luanda, mamãe-de-aruanda, mamãe-sacode, marafa, maria-branca, meu-consolo, moça-branca, patrícia, perigosa, pinga, prego, purinha, rama, remédio, restilo, samba, sete-virtudes, sinhazinha, sumo-de-cana, suor-de-alambique, tafiá, teimosa, tiquira, tome-juízo etc. etc. Note-se que estes apelidos da cachaça são regionais, pois em cada região do Brasil tem o seu pitoresco em ser apelidada pelos seus bebedores.

• Antigamente dizia-se, pejorativamente, "que a cachaça era bebida de negro". Hoje, a cachaça popularizou-se de tal modo que os brancos superaram em muito o consumo da "tome-juízo"... Para amenizar, quando o branco quer beber uma cachaça no botequim, ou na bodega, ou na taberna, ele não pede uma dose de cachaça: "traga-me uma batida de limão!, o garçom já sabe o que o freguês quer...

• Quando a cachaça era bebida de negro (e subia para a cabeça, quando se "entornava" muito, dizia-se embriaguez, bebedeira, mona, porre, pifão, puxando-um-fogo e que tais. Estes designativos que menosprezam o alcoólatra da cachaça, com a entrada dos brancos para o cordão da "branquinha" tudo se modificou: — uma dose de uma cachaça é uma "batida"; um porre de cachaça é uma crise etílica passageira; um cálice de cachaça na mesa de um bar chique chama-se abrideira; um coquetel à base de cachaça antes de um jantar chique chama-se aperitivo.

• A cachaça tem um cheiro característico de garapa fermentada. Então, no Nordeste e no Norte brasileiros, quando se serve uma dose de cachaça vêm, também, umas rodelas de caju ou de outros frutos cheirosos para que o hálito não fique cheirando da "branquinha"... Lá, chama-se a isso tira-gosto...

• Quando um bebedor de cachaça excede-se na bebida das "batidas", sobrevém o pifão, na linguagem popular. Mas, se o bebedor de cachaça é grã-fino o fato anormal não se chama pifão, o nome técnico chama-se intoxicação etílica. Até entre as classes sociais há diferenciação entre os termos dos cachaceiros...

• No ritual dos feiticeiros, a cachaça é fartamente usada nos "despachos", nos "banhos-de-descarga" e na deglutinação pelos "cavalos" (médiuns), em estado de transe, durante os "trabalhos-de-terreiro", com o nome de marafa.

• Existe na sabedoria popular uma comparação numerosa em que figura a cachaça:
Diabo, mulher e cachaça são três tentações...
Cachaça e mulher endoidecem os homens...
Rabo-de-saia e cachaça fazem os homens virar a cabeça...
A cachaça é como o homem que ama uma mulher ruim: quanto mais bebe, tanto mais tem vontade de amá-la...
A cachaça e a mulher são capazes de fazer um frade-de-pedra pecar...
A cachaça e a mulher se parecem: quando a cachaça é deglutida pelo bebedor, este faz caretas e esgazeia os olhos; a mulher faz caretas e esgazeia os olhos, no paroxismo do amor...

• Entre os bebedores de cachaça nos botequins, nas bodegas ou nas tabernas, nota-se que eles não bebem sós: estão sempre acompanhados de "irmãos-da-opa". Logo que o garçom traz as "batidas", antes de deglutidas, eles se brindam e enaltecem as virtudes da "água-que-passarinho-não-bebe"...

• Nas rodas de intelectuais bebedores de cachaça vale a pena a gente ficar de fora ouvindo dissertações eruditas em prosa e verso. Intelectual que não bebe cachaça, parece-me, é falho de inspiração...

• A política é como a cachaça: a princípio, é uma abrideira; depois, é um aperitivo; depois, é uma batida; depois, passa a ser um hábito; daí, pula para a área do vício; e passa a embriagar-se; nessa altura, ninguém poderá mais abandoná-la...

• Os cantadores e os violeiros do Nordeste, com a sua verve cabocla, são férteis em versos, endeusando a cachaça:

"Cachaça é bebida boa
O povo chama "branquinha":
Botam mel para ficar doce
Então chamam "meladinha",
Mas sai com as pernas trançando
Como quem cose bainha!"

* * *

"Nasci para beber no mundo
Quantidade essa tão pouca,
Quando levo o copo à boca
Meu desejo é ver o fundo..."


"Hoje bebe todo mundo
Deputado e senador,
Babe o soldado, o sargento,
O juiz, o promotor.
Como é que pode deixar
De beber o cantador?"


* * *

"O meu boi morreu,
O que será da vaca,
Pinga com limão
Cura urucubaca..."

* * *

Superstições em torno da cachaça

1) quando se vai beber a cachaça, o bebedor, antes de tocar o cálice na boca, derrama um gole para "salvar os santos";

2) roubar Santo Onofre dá sorte à pessoa que o roubou, mas é preciso deixar cachaça e farinha para o santo beber e comer; é pau-d’água (Deus me perdoe...); não deixará faltar "nada de provisões de boca" ao seu dono;

3) os bebedores, depois de deglutirem a cachaça, deixam um pouquinho no cálice ou no copo e atiram-no para um lado: é para o diabo ou para os caboclos...;

4) os cachaceiros, depois de deglutirem um copázio de cachaça, cospem para um lado; acreditam ser "simpatia" para não se embriagar...

Pitorescos da cachaça

• "Ter cachaça por alguém" é expressão corriqueira empregada amiúde, quando se quer manifestar estima imoderada por determinada coisa ou pessoa.

• Em Brasília, na capital federal, entre os candangos, quando alguém convida os amigos: "vamos beijar os santos?" Quer dizer: "Vamos beber uma cachaça?" Igualmente, em Brasília, quando se pede ao garçom: "traga-me um leite de camelo". Quer dizer: "traga-me uma mistura de cachaça e cinza!" Outras vezes, ouve-se este convite: "Vamos molhar a goela?" Quer dizer: "Vamos beber cachaça?"

• Ainda outro modismo de convite: "Vamos molhar a palavra?" Quer dizer: "Vamos tomar uma dose de cachaça?"

• Outro modismo muito em voga em todo o sertão: "Vamos matar-o-bicho?" Quer dizer: "Vamos tomar um gole de cachaça?"

• Há um modo de convite gozado: "Vamos verificar se está chuviscando?" Quer dizer: "Vamos bebericar cachaça nas tavernas ou botequins?"

• Outra modalidade de convite, comum no sertão: "Vamos tomar uma talagada?" Quer dizer: "Vamos tomar uma cachaça?"

• Às vezes, o convite varia: "Vamos tomar uma chamada?" Quer dizer: "Vamos tomar uma cachaça?"

• Verifica-se, pela índole dos convites, que, entre os irmãos-da-opa, reina uma cordialidade e uma delicadeza invejáveis...

• Os cachaceiros contumazes, quando "matam o bicho", dão um estalo com a língua no céu da boca, fazem uma careta e trauteiam: "Eta coisa ruim, mas eu gosto dela assim mesmo..."

• No linguajar dos sertanejos verifica-se amiúde a deturpação de certos termos que são inteiramente desvirtuados. Por exemplo: o termo despotismo, que significa nos dicionários: autoridade de déspota. E déspota significa tirano. Pois bem, despotismo, na linguagem matuta, significa grande quantidade de qualquer coisa. Na minha fazendola de Campos, no estado do Rio de Janeiro, ouvia, amiúde, o emprego de despotismo pelos camponeses locais e eles explicavam-me o significado deturpado. O meu folclore registrou a deturpação curiosa e pitoresca. Beber-se cachaça em grande quantidade é um despotismo.


(Carvalho, Hernani de. No mundo maravilhoso do folclore. Rio de Janeiro, Tipografia Batista de Souza, 1966, p.155-159)

Jangada Brasil