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segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Semana Histórica

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Eduardo Marculino<>

Todos nós viemos da África

Evidências arqueológicas reforçam a teoria, baseada em estudos de DNA, de que o Homo sapiens surgiu no leste da África há quase 200 mil anos e migrou para os outros continentes



De alguns milhares a 6 bilhões
Recentes descobertas arqueológicas confirmam estudos genéticos segundo os quais toda a nossa raça se origina de um pequeno grupo de humanos que viviam há 80 mil anos no leste da África. Com idade entre 33 mil e 39 mil anos, o crânio Hofmeyr (à esquerda), da África do Sul, é muito parecido com o de seus contemporâneos europeus.

As modernas análises por DNA já confirmaram: todos nós descendemos de alguns milhares de africanos – entre 2 mil e 6 mil, provavelmente – que viveram há 80 mil anos e partiram de seu lar na África Oriental numa única onda migratória, terminando por povoar todos os outros continentes. Segundo esses estudos, a migração foi rápida – nossos antepassados chegaram à Ásia 60 mil anos atrás, e a Europa foi ocupada há 40 mil anos. Mas, para diversos especialistas, esses dados ainda não eram convincentes. Eles alegavam falhas na datação e nas premissas que originaram os estudos. Sua exigência era simples: evidências arqueológicas que endossassem as descobertas feitas via DNA.

Com o tempo, essas evidências estão surgindo – algumas novas, outras antes esquecidas e agora revisitadas. E o painel que estão compondo revela uma extraordinária aventura: a de uma raça – o Homo sapiens – que, de repente, saiu de sua terra-mãe para conquistar um planeta.

O primeiro indício arqueológico a confirmar a tese dos estudos de DNA foi a pesquisa realizada em 1992 por Paul Mellars, professor da Universidade de Cambridge e uma das maiores autoridades do mundo em rotas de migração utilizadas pelo homem primitivo, a partir de um ovo de avestruz de cerca de 35 mil anos encontrado na Índia. As gravações inscritas na casca do ovo eram muito semelhantes às de uma peça ocre de aproximadamente 75 mil anos de idade descoberta na África do Sul, a dez mil quilômetros de distância. A semelhança de outros objetos da mesma época encontrados na Índia e no Sri Lanka – pontas de flechas, pás de pedra primitivas e pequenas contas feitas de carapaça de avestruz – com os produzidos por africanos 40 mil anos antes reforçaram a idéia de Mellars de que havia ligação entre as duas populações.

DURANTE UM BOM tempo essa linha de pesquisa não foi aprofundada, talvez porque a tese de Mellars tenha sido divulgada apenas em publicações arqueológicas indianas, cuja importância era desconsiderada no Ocidente. Quinze anos depois, porém, surgiram novidades a partir da pesquisa feita por uma equipe internacional liderada pelo paleontólogo Alan Morris, da Universidade da Cidade do Cabo, a respeito do crânio Hofmeyr.

Considerado antes uma relíquia sem grande valor, esse crânio humano havia sido encontrado em 1952 perto da cidade sul-africana de Hofmeyr, durante as obras para a construção de uma represa. Como nenhuma matéria orgânica restara na peça, ela não havia sido submetida a uma datação por carbono-14 – e, assim, tornara- se uma simples curiosidade no escritório de Morris, onde ser via como peso para papéis.

Um antigo colega de Morris, Frederick Grine, da Universidade Estadual de Nova York, mudou esse estado de coisas. Grine sugeriu a Morris que se fizesse a datação dos grãos de areia alojados na cavidade que havia abrigado o cérebro, e a idéia deu certo: especialistas atribuíram à relíquia uma idade entre 33 mil e 39 mil anos. Isso colocava o crânio dentro de um período – entre 75 mil e 20 mil anos atrás – que originou o menor número de descobertas de restos humanos na África, enquanto homens anatomicamente modernos despontavam na Ásia e na Europa.

Expansão rápida
A disseminação do Homo sapiens pela Terra se deu a partir de uma única onda migratória, que em apenas 10 mil anos levou a raça até a Austrália. Depois, a migração avançou para o norte.

Entre 60 mil e 80 mil anos atrás
Um grupo entre 2 mil e 6 mil humanos que habitavam a África Oriental desenvolveu habilidades mentais que o capacitaram a sobreviver melhor do que seus predecessores em condições difíceis. Essa população cresceu rapidamente e se espalhou pela África.

Entre 50 mil e 60 mil anos atrás
Usando a Península Arábica, esses humanos começaram a migrar para a Ásia. A ocupação foi feita seguindo a linha do litoral, chegando ao sudeste do continente. Alguns desses migrantes chegaram à Austrália.

Entre 40 mil e 50 mil anos atrás
A partir do litoral, esses povos foram para o norte, pelo Oriente Médio. Um grupo seguiu pelo sul da atual Rússia e dividiu-se – parte foi para a Europa, parte para a Ásia. Alguns entraram na Europa via Turquia; outros povoaram a costa mediterrânea da África.

O passo seguinte foi dado pela paleoantropóloga Katerina Harvati, do Instituto Max Planck de Antropologia Evolucionária em Leipzig, na Alemanha. Ela submeteu o crânio a medições tridimensionais a fim de compará- lo com amostras de ossos modernos europeus, asiáticos e bosquímanos sul-africanos, além de crânios de humanos da Idade da Pedra e do homem de Neandertal. Resultado: o crânio de Hofmeyr era muito parecido com os dos primeiros humanos modernos europeus, os mais distantes em termos geográficos.

Essa semelhança indica que, há uns 35 mil anos, os humanos modernos sul-africanos e europeus partilhavam um ancestral comum muito recente, provavelmente membro de um povo da África Oriental que migrara entre 50 mil e 60 mil anos atrás.


As semelhanças nas gravações da pedra sul-africana (esquerda), feitas há 75 mil anos, e as da casca de ovo indiana (direita), de 35 mil anos atrás, indicam que os responsáveis por elas tinham as mesmas origens.
Uma das rotas desses viajantes levou ao sul, mas outra seguiu na direção nordeste, envolvendo inclusive uma travessia de mar – no Estreito de Bab-al-Mandeb, que separa o Iêmen, no sul da Península Arábica, de Djibuti, no nordeste da África. Depois da travessia, os migrantes seguiram a linha do litoral, chegando à Índia e rumando depois para a Indonésia e a Austrália, onde chegaram há cerca de 50 mil anos. Essa teoria é reforçada por esqueletos com idade entre 45 mil e 50 mil anos encontrados no sul da Austrália e na ilha de Bornéu.

O estímulo para a criatividade
Iniciada há cerca de 70 mil anos, a glaciação Wisconsin, última etapa da mais recente Era do Gelo, pode ter criado as condições climáticas que impulsionaram o Homo sapiens a empreender sua migração. Embora não tenha reduzido muito as temperaturas na África, ela diminuiu a evaporação dos oceanos, o que levou a uma queda nas precipitações pluviométricas e, no caso africano, a secas drásticas. Outro fato veio piorar a situação: a explosão do vulcão Toba, na Indonésia, há 74 mil anos. As nuvens de cinzas liberadas pelo vulcão tomaram a atmosfera terrestre, reduzindo a passagem da luz solar por vários anos e resfriando ainda mais a superfície do planeta.

Quem tinha mais chances de sobreviver nessas condições diferenciadas? Aqueles com maior capacidade cerebral, que podiam criar novas idéias, ferramentas, armas, invenções e artes. Esse estímulo forçado à criatividade dado pela natureza foi um fatorchave na ascensão do Homo sapiens a rei da Terra.


Durante a última Era do Gelo, os antigos europeus tiveram tempo e recursos para desenvolver suas habilidades artísticas, como demonstram as pinturas rupestres encontradas em cavernas do continente.

CURIOSAMENTE, NOSSOS antepassados não aproveitaram o vale do rio Nilo para chegar à costa do Mediterrâneo. Em vez disso, conforme estudos de DNA publicados em 2007 na revista Science, eles a atingiram entre 40 mil e 50 mil anos atrás, após passar pela Península Arábica, pelo Oriente Médio (onde parte deles seguiu rumo norte, dividindo-se entre a Europa Oriental e a China) e a partir daí na direção oeste, chegando à Europa pela atual Turquia e ao litoral norte da África através da Península do Sinai.

Todas essas rotas migratórias colocaram nossos antepassados em contato com as mais diversas condições ambientais – diferenças geográficas, climáticas, de fauna e de flora, por exemplo – e, em particular, com outras espécies humanas, estabelecidas naquelas regiões havia milhares de anos. Eles superaram todos os obstáculos e adaptaram-se a esses ecossistemas variados.

Descobertas recentes na Rússia e na Ucrânia, por exemplo, mostram que o Homo sapiens foi mais capaz de enfrentar climas rigorosos do que o homem de Neandertal. Os pesquisadores encontraram ali o mais antigo sinal de arte decorativa – um rosto semi-acabado gravado na presa de marfim de um mamute, datado em 45 mil anos. Os vestígios do homem de Neandertal na área vão até 115 mil anos atrás, com o início da Era do Gelo; depois disso, esse povo partiu para o sul e nunca mais voltou. Resistindo ao clima severo daquelas terras, o Homo sapiens já mostrava que vinha para ficar.

A pergunta que surge daí é inevitável: o que tornou nossos ancestrais aptos a – de repente, em termos arqueológicos – espalhar-se pelos continentes e conquistar o planeta? Só para relembrar, o crânio mais antigo de um Homo sapiens, encontrado em Omo (Etiópia), tem cerca de 195 mil anos de idade. O que, depois de uns 115 mil anos, lhes permitiu tomar a África e, em seguida, o mundo?

É bem provável que uma grande mudança tenha ocorrido então. Diversos pesquisadores falam de uma “explosão de criatividade”, um aumento na capacidade de processamento cerebral suficiente para permitir ao Homo sapiens a criação da primeira linguagem complexa, de novas estruturas sociais, de maneiras mais eficientes de produzir ferramentas, de padrões diferentes de arte – enfim, dos elementos que compõem uma cultura mais avançada. Arqueólogos também falam de indícios de que objetos eram transportados por longas distâncias, o que leva à suspeita de que já havia alguma forma rudimentar de economia, na qual itens como adornos, alimentos e ferramentas eram trocados.

Outro fator indicativo de que alguma coisa extraordinária aconteceu no cérebro do Homo sapiens foi a descoberta de esqueletos de homens anatomicamente modernos nas cavernas de Skhul e Qafzeh, em Israel, datados entre 90 mil e 100 mil anos. Nos dois locais foram encontrados itens com ocre e adornos, uma evidência de que ali se faziam ritos funerários com oferendas para os mortos. Tais características de uma consciência mais elevada, porém, não foram suficientes para fazer esses ancestrais se fixarem ali de vez: os restos de homens de Neandertal encontrados em camadas do solo mais antigas e mais recentes mostram que aquela passagem do Homo sapiens pelo Oriente Próximo foi efêmera.

A migração seguinte, entretanto, já não abriu mais espaços para os rivais. Em alguns milhares de anos, os homens de Neandertal – que ocuparam a Europa por pelo menos 300 mil anos – foram totalmente substituídos por nossos ancestrais. Em todos os outros lugares onde houve competição, a superioridade cerebral do Homo sapiens prevaleceu. O passo seguinte, e inevitável, veio na medida da ambição da raça: o próprio planeta.

A história segundo o DNA

A genética ofereceu um novo caminho para se estudar a história humana: o DNA, ou, mais precisamente, o cromossomo masculino (o “Y”), e a mitocôndria, a parte da célula que responde pela produção de energia. Como ambos não sofrem a mistura de genes do pai e da mãe durante a fecundação, as mutações que apresentam servem como verdadeiros “códigos de identificação” dos diversos povos.

Ao migrar para outro ambiente, um povo passa a acumular em seu código genético mutações diferentes daquelas pessoas que permaneceram no mesmo local. Depois de alguns milhares de anos, os migrantes dão origem a novas populações. Os geneticistas concluíram que a humanidade nasceu na África porque em nenhum outro continente há tanta diversidade genética. Já os europeus são os caçulas: têm “apenas” 40 mil anos de idade, ante 80 mil dos africanos e 50 mil dos asiáticos.


Revista Planeta

O poder da escravidão: um comentário aos "Senhores sem escravos"


O poder da escravidão: um comentário aos "Senhores sem escravos"

Rafael de Bivar Marquese
Professor no Departamento de História da Universidade de São Paulo


Os pesquisadores da escravidão brasileira, ao se voltarem nas duas últimas décadas para a investigação sistemática em arquivos com o emprego de novas lentes teóricas, descortinaram aspectos antes insuspeitados de nosso passado escravista. Dentre o grande leque de temas investigados, as normas e práticas legais relacionadas ao cativeiro ocuparam papel de relevo. Como ressalta Keila Grinberg no artigo submetido a debate, "muitos historiadores, nos últimos anos, estudaram as formas pelas quais sistemas de direito simultaneamente contribuíram para perpetuar o poder dos proprietários sobre seus escravos e serviram como base a partir da qual escravos e libertos conseguiram desafiar o poder de seus senhores" 1. A autora destas palavras é, certamente, uma das especialistas que mais tem se destacado na exploração do assunto. Ela agora nos oferece um texto no qual propõe discutir as "práticas de re-escravização no Brasil do século XIX, refletindo sobre suas possibilidades efetivas e os significados a este processo atribuídos pelos diversos agentes sociais envolvidos" 2.

Meu rápido comentário procurará, por um lado, apontar para alguns dos significados macro-políticos das ações de escravidão estudadas por Grinberg, isto é, dos elementos estruturais que as conformaram. Quero, com isso, ressaltar o papel do Estado no conjunto das relações escravistas, algo que foi relativamente negligenciado pela historiografia da escravidão brasileira em seu movimento de renovação. Por outro lado, pretendo igualmente discutir em poucas linhas o conceito de sociedade escravista. O objetivo, aqui, é tão somente indicar a necessidade de esforços teóricos adicionais para se dar conta da especificidade da sociedade escravista brasileira.

***

A principal conclusão do texto é a de que foram os senhores com poucas posses, não raro filhos e netos de ex-escravos ou eles próprios egressos do cativeiro, que, ao longo do século XIX, acionaram a justiça para re-escravizar homens e mulheres usualmente libertados em testamento. Com poucos recursos físicos para impor sua vontade de poder, esses sujeitos contavam com o aparato do judiciário para manter a posição senhorial, o que fizeram com afinco muito em razão de um quadro econômico mais amplo que, a partir da década de 1830, trouxe elevação substantiva nos valores dos escravos. Tal descoberta empírica, por si instigante, todavia suscita uma pergunta que não foi formulada pela autora: o que essas práticas revelam sobre a natureza do Estado nacional e da sociedade escravista brasileira no século XIX?

Para encaminhar uma possível resposta à indagação, é útil lembrar a diferença que o sociólogo Orlando Patterson estabelece entre os determinantes privados e os determinantes públicos da relação escravista. O ajuste do escravo à sua condição englobou sempre dois eixos: suas relações diretas com seu senhor e suas relações com a comunidade externa aos laços de subordinação pessoal; mediando-as, haveria um terceiro eixo de relações, aquelas entre seu senhor e comunidade externa. Os determinantes privados se reportavam ao primeiro eixo, ao passo que os determinantes públicos diziam respeito ao segundo e terceiro eixos. Nos termos de Patterson, "o senhor, não obstante quão independente desejasse ser nas relações com seu escravo, precisava de sua comunidade tanto para confirmar como para sustentar seu poder". Comunidade, aqui, deve ser entendida em um sentido lato, englobando não apenas o conjunto dos demais senhores de escravos e homens livres como igualmente o poder político. Patterson adverte ainda que essas correlações variaram no tempo e no espaço, conforme as respostas dos escravos à sua condição, a composição das camadas senhoriais e o caráter do poder político em questão.3 Ou seja, caso não se leve em conta a natureza do Estado e suas relações com homens livres e escravizados, não será possível compreender devidamente a sociedade escravista submetida a exame.

Grinberg anota em seu texto que não encontrou, na centena de casos que consultou, "senhores de muitas posses envolvidos, em nenhuma época do século XIX, em nenhuma região" 4. Pode-se afirmar que os grandes proprietários não recorreram à justiça para re-escravizar ex-cativos ou indivíduos nascidos livres por terem recursos físicos e materiais para impor seu domínio. O braço do Estado era por eles mobilizado apenas em casos extremos de contestação, como fugas coletivas ou rebeliões. Os escravos que escapavam de suas garras em fugas individuais se viam perseguidos por capitães do mato e anúncios na imprensa, e seus nomes eram arrolados – mesmo que longos anos após a evasão – nos inventários post-mortem. É bem provável que os pequenos proprietários analisados por Grinberg, quando diante da fuga de seus cativos, recorressem aos mesmos recursos, mas o fato de somente eles abrirem ações de escravidão indica uma clara assimetria nas relações dos diferentes senhores com o Estado.

Que os pequenos proprietários contavam com o apoio estatal para a manutenção de seu poder, comprovam-no os diversos casos arrolados por Grinberg. A justiça – vale dizer o Estado – era vista como a instância que sancionava a escravidão. Um claro indicativo disto é dado pelo gráfico 4, que se remete à pesquisa de Ricardo Salles sobre Vassouras no século XIX: por meio da leitura de seus resultados, observa-se que as grandes escravarias desse município cafeeiro foram montadas nas décadas de 1830 e 1840, durante a vigência do tráfico transatlântico ilegal, proibido nas letras da lei por decreto regencial de 7 de novembro de 1831.5 Torna-se evidente, portanto, que os determinantes públicos da escravidão no Império do Brasil ofereceram as condições políticas e jurídicas para que os proprietários possuidores de africanos ilegalmente escravizados se sentissem seguros no domínio de seus cativos.6 Esse poder concentrado nas mãos dos senhores foi percebido com nitidez pelos grupos sociais subalternos, como se nota em vários temores populares citados por Grinberg a respeito das práticas concretas de re-escravização no Império.

Os trabalhos anteriores da autora e de outros historiadores, no entanto, registraram como esse mesmo Estado reconhecia com freqüência a liberdade de escravos por meio de ações impetradas em seus tribunais.7 A explicação que a historiografia tem dado a este aparente paradoxo aponta – sob a inspiração de E.P.Thompson – como a esfera jurídica operou no Brasil e alhures como um campo de lutas e contestações. Mas a constatação, caso se esgote em si, não nos ajuda a avançar muito. Veja-se o exemplo de uma boa coletânea recente a respeito dos direitos na história do Brasil. Alguns dos historiadores que nela colaboraram, ao examinarem o tema da escravidão, documentaram a inflexão que houve, a partir de meados da década de 1860, nas batalhas entre senhores e escravos no campo judicial, quando se inverteram tendências anteriores que favoreciam os proprietários em ações de liberdade ou na interpretação do conteúdo da lei de 1831.8 Nenhum desses autores – dentre os quais se inclui Grinberg – avançou uma explicação substantiva para tal virada. No artigo que ora discutimos, a análise se encerra no início da década de 1870. Não sabemos porque Grinberg procedeu desta forma, mas creio que não é descabido aventar que algo semelhante ao que identificou nos casos examinados em seu artigo inscrito na mencionada coletânea tenha aqui se verificado, isto é, uma sensível diminuição nas ações de escravidão após fins da década de 1860.

Supondo correta a hipótese de que as ações de escravidão refluíram a partir dessa data, pode-se propor um enquadramento mais amplo para a questão. A Constituição do Império do Brasil foi firmada, em 1824, projetando o futuro com base na escravidão negra. A consulta dos diários das Cortes de Lisboa (1821-1822) e da Assembléia Constituinte do Rio de Janeiro (1823) permite ver como esse compromisso com o porvir do escravismo foi equacionado justamente por meio da definição do estatuto que os egressos do cativeiro teriam na ordem social e política do novo Estado nacional.9 Noutros termos, os atores sociais que construíram o arranjo constitucional brasileiro atrelaram a manutenção do escravismo e do tráfico negreiro à concessão da cidadania para os libertos nascidos no Brasil, valendo-se, para tanto, de uma leitura particular da dinâmica da escravidão na América portuguesa, que combinava o assombroso volume do trato transatlântico com taxas relativamente elevadas de alforria.10 Em 1850, a equação tráfico negreiro / altos índices de manumissão / cidadania para libertos brasileiros e seus descendentes parece ter sofrido revés. Há indícios consistentes de que, em uma espécie de ajuste para a reprodução demográfica da escravidão, as taxas de alforria diminuíram de modo sensível, em diferentes espaços no Brasil, com o fim definitivo do tráfico transatlântico. O ponto de inflexão decisivo, contudo, veio somente em 1871. A aprovação da Lei do Ventre Livre – a primeira disjunção profunda entre Estado imperial e classes senhoriais – representou um obstáculo concreto à expansão da escravidão, e, não por acaso, abriu caminho para a articulação do movimento antiescravista e para a reforma eleitoral de 1881, o que, por sua vez, quebrou com o esquema de participação política dos libertos desenhado pela Constituição de 1824.11

Não cabe aqui discutir as diversas explicações fornecidas pela historiografia para a gênese da Lei do Ventre Livre, mas simplesmente destacar que, até aquela data, as opiniões antiescravistas correntes no Brasil desde a década de 1820 não haviam conseguido se estruturar em um movimento político orgânico. O contraste com outros espaços é elucidativo. O famoso episódio Somerset, ocorrido na Inglaterra em 1772, se do ponto de vista formal não constituiu uma ação de escravidão ou de liberdade tal como as que Grinberg analisou para o Brasil, não obstante envolveu a esfera judicial na deliberação da condição civil (livre ou escrava) de um cativo do Novo Mundo. James Somerset era um escravo virginiano que havia se mudado com seu senhor para a Inglaterra. O proprietário, desejando retornar à América, porém enfrentando a resistência do cativo, acorrentou-o em um barco destinado à Jamaica. Somerset, então, com o auxílio dos antiescravistas ingleses, deu início a um pleito judicial demandando sua liberdade. A decisão final do caso em 1772, favorável a Somerset, sugeria que a escravidão era incompatível com as leis da Inglaterra, e, por este motivo, gerou grande comoção pública, levando vários contemporâneos e futuros historiadores a enxergá-lo como o ponto fundador na história do movimento antiescravista inglês.12 Ora, nenhuma ação de liberdade ou de escravidão no Brasil monárquico foi capaz de catalisar as vozes antiescravistas, convertendo-as em movimento político. A fissura que permitiu isso partiu do próprio Estado, quando o Imperador – via Conselho de Estado – colocou na agenda do Império, muito em resposta ao resultado da Guerra Civil norte-americana e ao quadro imediato da Guerra do Paraguai, a questão da abolição gradual do cativeiro por meio da libertação do ventre das escravas.

Resta, contudo, o fato de as ações de liberdade terem sido bastante comuns no Brasil. Aqui nos aproximamos do problema da natureza da sociedade escravista brasileira. Grinberg ressalta que as ações de escravização foram aparentemente exclusivas do Brasil. Já gozávamos das duvidosas honrarias de sermos a região que mais importou escravos da África e o último país do ocidente que aboliu a escravidão. E por que tais ações judiciais só se fizeram presentes nestas paragens? A resposta me parece simples. Não houve, em outros espaços americanos, uma combinação equivalente de tráfico transatlântico elevadíssimo e prática ampla e disseminada da alforria. Foi a produção constante de grupos sociais egressos do cativeiro que levou pequenos proprietários, também egressos do cativeiro, a acionarem a justiça para manter sua posição de senhores.

A particularidade nos remete diretamente ao conceito de sociedade escravista. Como se sabe, a partir de fins da década de 1960 ganhou popularidade entre os especialistas a formulação de Moses Finley, que diferenciou as sociedades com escravos das sociedades genuinamente escravistas pela centralidade da instituição, nessas últimas, para a produção material e o modo de vida de suas elites dominantes. A discussão foi atualizada recentemente por Ira Berlin, que procurou imprimir dinamismo ao conceito ao examinar as variações da escravidão em solo norte-americano, no tempo e no espaço.13 No entanto, tanto em um como em outro autor, a alforria está ausente do horizonte teórico. Para Berlin, a restrição acentuada das manumissões seria inclusive um dos traços que marcariam a passagem de uma sociedade com escravos para uma sociedade genuinamente escravista. Esse enquadramento historiográfico deita suas raízes na virada do século XVIII para o século XIX, mais precisamente no movimento antiescravista anglo-saxônico e francês, a matriz dos primeiros estudos sistemáticos da escravidão greco-romana e da própria escravidão moderna. Os abolicionistas oitocentistas tinham em mira os sistemas do Caribe e do Sul dos Estados Unidos, que se caracterizavam justamente pela virtual ausência de alforrias. Deste foco político, elaborou-se uma idéia de escravidão que a concebia como uma relação que contrapunha em termos absolutos senhores e escravos, concepção esta que encontrou larga carreira nas pesquisas históricas sobre a instituição. Em que pese toda sua avaliação erudita a respeito do papel da ideologia moderna na configuração dos estudos sobre a escravidão antiga, Finley caiu na mesma armadilha que procurou criticar, ao não enxergar o papel estruturante que as manumissões tiveram para o escravismo no mundo romano.14

Berlin ao menos é cuidadoso ao caracterizar o peso diferenciado da alforria em diferentes tempos e espaços da história norte-americana. Seu modelo, porém, definitivamente não é válido para compreender o caso brasileiro. Na história dos processos globais de escravização, as sociedades que ingleses e franceses construíram a partir de fins do século XVII no Caribe e no Sul da América Setentrional representam a exceção, e não a regra, dentre outras coisas devido aos limites colocados à prática da alforria.15 Neste sentido, a abordagem proposta por Igor Kopytoff e Orlando Patterson, que encaram a escravização, a situação de escravidão e a manumissão como partes de um mesmo processo institucional, é bem mais operacional para dar conta de sociedades escravistas como a islâmica, a romana e a brasileira.16 O que falta aos modelos de Kopytoff e Patterson é a apreensão da historicidade da articulação de sistemas escravistas como o brasileiro à formação da economia-mundo capitalista. Se este não é o lugar apropriado para tocar adiante tal tarefa, não há dúvidas que trabalhos como os que Keila Grinberg vem nos oferecendo fornecem riquíssimo material empírico para tanto.

Notas

Almanack Braziliense

Santas e dóceis ou insubmissas e desgraçadas? Uma análise de trajetórias de mulheres resgatadas da escravidão na África central no contexto colonial


Santas e dóceis ou insubmissas e desgraçadas? Uma análise de trajetórias de mulheres resgatadas da escravidão na África central no contexto colonial (1870-1945)

Patrícia Santos Schermann
Professora de História da África - Unifesp


Em 2000, na Basílica de São Pedro, ganhava a glória dos altares através do Papa João Paulo II, Josephina Bakhita, religiosa da congregação das Canossianas, resgatada da escravidão, que passou a ser denominada como a "Grande Irmã Universal". Naquele ano, acreditava-se exaltar não só a África, mas o papel da mulher cristã negra na ação catequética e missionária da Igreja. Bakhita, a santa da África contemporânea tinha uma imagem, que foi estampada nos principais periódicos católicos e na imprensa laica, jovial, serena e com um olhar profundo que convida a quem a vê a se condoer e a se unir a obra católica do século XXI de se "salvar a África pela África", ou seja, de promover vocações religiosas e laicas para se garantir o futuro do Cristianismo no continente. De acordo com um dos seus hagiógrafos, Roberto Zanini, a santa representa:

Para a África, Bakhita é a esperança de libertação. Para a relação com o mundo muçulmano, uma ponte do diálogo. Para a raça negra, um sinal do resgate da plena dignidade. Para todos os homens e mulheres, uma santa, isto é, uma irmã e um modelo na caminhada rumo a um mundo novo.1

Acreditava-se com isso também que a Igreja estaria, dentro dos vários discursos de reparação realizados pelo Papa João Paulo II, se reconciliando com as modernas nações africanas e se libertando da incômoda relação com o passado colonial do século XIX até o fim da Segunda Guerra Mundial e de pecados mais antigos, dentre os quais a omissão com relação à escravidão atlântica.

A Irmã Bakhita, sorella universale, iria reconciliar os cristãos de hoje da África com os antigos evangelizadores do passado, convidando ao perdão, a valorização da ação filantrópica e de combate à escravidão a despeito de ser no "alvorecer" do Colonialismo.

Com esse intento, publicou-se em várias línguas a Storia Meravogliosa, ou seja, a hagiografia de Ida Zanollini que popularizava para o mundo a figura da Sorella Moretta, como Bakhita foi conhecida pelos fiéis das paróquias de Schio. Além disso publicou-se revistas, histórias infantis baseadas nessa obra e no processo seu de beatificação e canonização.

Assim, desenvolvia-se uma ação romana de uma possível valorização e de destaque do papel do cristianismo africano, de acordo com entrevistas dadas por bispos, conselheiros missionários, agentes pastorais por todo mundo.

A ação de se canonizar Bakhita fora encarada também por uma das suas biógrafas, Maria Luísa Dagnino, como uma forma de "dar a voz" para os que não a possuem . Além disso, também era tarefa da autora ressaltar como que a personagem soube utilizar e vivenciar como ninguém " o valor do silêncio":

10 de fevereiro de 1993. Outra surpresa – o Papa João Paulo II está na África para a sua décima visita apostólica. Quis concluí-la em grande estilo: enfrentando riscos ergueu corajosamente a voz em defesa dos sem voz. Expressou comovida admiração por todos os que perseveraram na fé e rejubilou-se com todos porque , no dia 10 de fevereiro de 1993, "Bakhita retornou a cãs" justamente na capital do Sudão, Cartum. A Madre Geral das Canossianas – M. Elide Testa entregou ao Papa um busto com o relicário da Beata Bakhita. Na imensa praça Verde da capital, um milhão de jubilosos sudaneses, juntamente comk o Santo Padre João Paulo II e ao acerbispo Gabriel Zubeir Waco, uniram suas vozes e corações para gritar: "Bakhita, welcome home!" – Bem Vinda a sua casa, Bakhita!2

Bakhita tornou-se, ao abdicar da sua voz em função da obediência, no discurso missionário e hagiográfico contemporâneo sobre ela, uma figura chave que justificava a ação evangelizadora contemporânea, sobretudo porque se enfatizou mais em todo processo de beatificação a sua origem "africana e servil", do que as conseqüências da sua trajetória em Schio e sua interação com a comunidade local. Sua vida na Itália é encarada como uma passagem que se situa entre um início marcado pela "barbárie" da escravidão e do ambiente africano, e o final no paraíso celeste, como a "Grande Irmã Universal".

Seu lugar subalterno na vida religiosa e social determinou todo o rumo e o futuro da trajetória da personagem, possibilitando identificá-la como uma figura eternamente ligada ao continente, o que possibilitaria na construção da memória hagiográfica, a "possível volta para a casa"- a saber, o Sudão.

Para Dagnino, o fato de estar indelevelmente marcada pela sua origem africana, a despeito das interações e transformações que sofrera na vida pessoal, possibilitava ao hagiógrafo acessar a essência da "sua natureza":

Da evidência dos fatos, pode se deduzir que Bakhita recebera da natureza um caráter dócil e manso, uma sensibilidade e delicadeza de sentimentos extraordinários – tinha uma forte propensão para amar e ser amada – tivera modo de gozar e padecer esta sua paixão tanto na família como depois, durante a sua vida de escrava. Apreciava o mínimo ato de bondade e de atenção afetuosa – quando lhe faltava, sofria intensamente.

(...) Muitos sublinharam a sua docilidade de caráter; essa porém, não a impediu de erguer-se decididamente contra as aliciantes promessas de uma vida mais fácil e na sua pátria, quando isso podia comprometer a sua fé católica.

Aquela que se considerava "como escrava, uma coisa de propriedade dos seus patrões", quando foi colocada diante da alternativa de escolher um bem imediato e já conhecido, não hesitou em optar pelo desconhecido, mas para ela , existencialmente mais seguro. Sabia unir à ternura do seu coração e à mansidão de natureza um discernimento claro e uma inabalável força de vontade.3

Suas "virtudes" a inseriam num lugar de pureza e de subalternidade que teriam transformado a sofrida existência, a partir do que se pode depreender da obra de Dagnino, na própria rememoração da Paixão de Cristo, para o bem maior da humanidade.

Sua ausência de ambição e a correção nos modos eram o exemplo vivo da dignificação das "funções simples", exercidas por aqueles que não tiveram acesso às possibilidades mais amplas de educação e inserção social tal dimensão se remete profundamente à visão da Rerum Novarum, escrita há mais ou menos 130 anos, a respeito do bom governo e da liderança cristã sobre o operário e os demais trabalhadores subalternos. "Servir nas pequenas coisas" era a medida da grandeza das almas, na visão teológica de Leão XIII sobre o trabalhador, que se consubstancia com a valorização do papel do trabalhador doméstico e da sua educação para o mundo moderno, na perspectiva cristã do Pós Segunda Guerra Mundial.4

Foi dentro dessa visão mais ampla a respeito de Bakhita e do trabalhador doméstico, que sua canonização fora proclamada e apontada como o início de uma valorização de demais exemplos africanos de fidelidade ao Cristianismo.

No entanto, algo pesava sobre esse conjunto de iniciativas da Santa Sé que gerava um incômodo tão grande quanto o do "não reconhecimento" de possíveis santidades da África: ao mesmo tempo em que havia um investimento para que através de Bakhita, a África tivesse a hora e vez nos corações e mentes dos católicos – esse incômodo veio, de início pela própria reação da imprensa laica que questionava o que de heróico havia feito a personagem? O que havia de sobrenatural em sua vida que justificava essa canonização? No ano de 2003, o Jornal La Repubblica de Roma, perguntava o que a santa africana e outras figuras canonizadas por João Paulo II poderiam trazer de novo, uma vez que não havia nada de "surpreendente" em suas vidas?

As respostas, em contrapartida, enfatizavam as dores de Bakhita, o fato de ter sobrevivido aos sofrimentos do cativeiro e principalmente, por trazer em si, de forma "inata", a religião "natural".

Perceber tais respostas no ano de 2003, me levaram a ver o que esta personagem significava realmente para os setores ligados à moderna evangelização dos povos, o que de fato era tão perceptível para seus postuladores que não era para nós, laicos, que vivenciamos a Guerra Fria, as lutas pela libertação da África e da Ásia, os protestos e lutas contra a ditadura na América Latina. Mergulhando no seu processo de canonização e nas publicações sobre essa personagem, emerge um dado fundamental para a compreensão não só das ações religiosas, mas creio que também das práticas filantrópicas contemporâneas, que é o do fascínio que existe pela fase das campanhas anti-escravistas na África no século XIX e o despontar de homens e mulheres não brancos que foram imortalizados pelas revistas missionárias como os resgatados da escravidão.

A história de Bakhita, na verdade, é um portal que acessa a um processo histórico importante para a elaboração de estatutos e códigos de indigenato na África, que é a da tutela sobre os ex-escravos, em especial das mulheres africanas salvas do cativeiro no século XIX até o final da Segunda Guerra Mundial.

Essas personagens ocuparam, a partir de 1870, ano significativo na medida em que se pode perceber o aumento da ação colonial européia, um lugar de destaque na literatura missionária e filantrópica. Suas desventuras eram relatadas em forma de confissões onde o leitor era convidado a participar da intimidade das suas dores, tendo a sensação de ser o único a poder decifrá-las, ao mesmo tempo em que a compartilhava com os outros. Era essa sedução com tom ao mesmo tempo intimista e público criava um vínculo salutar entre o cristão branco civilizado e o negro "nas trevas do paganismo", relação que era vista como benfazeja pelo Papa Leão XIII já no final do século XIX, que impedia o homem moderno na tensão entre a religião e o estado, ser indiferente a sorte dos mais "fracos". O difícil encargo do homem branco, de acordo com Kippling, ganhava uma profunda e significativa interpretação cristã, que condicionava a salvação das almas dos jovens das zonas rurais e das grandes cidades da Europa as das crianças das "regiões remotas" da África.

Na segunda metade do século XIX, pesava sobre as missões católicas e protestantes direcionadas para o antigo Vicariato Apostólico da África central, questões prementes, tais como, se seria possível o evangelho tornar-se nativo e se haveria a possibilidade das futuras comunidades cristãs ganharem uma autonomia, se bem que subalterna, de produzir importantes quadros missionários locais.

Destaca-se que a primeira pergunta que consistia em tornar o evangelho nativo, entendia como nativo uma categoria resultante da aproximação conceitual das definições de gentio, presentes nas experiências jesuíticas do primeiro missionarismo, datado dos séculos XVI ao XVIII, com as noções de raça e de hierarquia de populações que começaram a se gestar no início do processo colonial na África, a partir de 1870.

Portanto, poderia o evangelho ser um importante elemento civilizador que permitiria as missões católicas, na acepção de Comboni,5 serem as facilitadoras do progresso dos povos africanos? Vários foram os exercícios para se responder a esta questão, tanto por parte dos padres católicos quanto por pastores. Contudo, um elemento que perpassava a todas essas respostas, era a ênfase na conquista espiritual e na disciplinarização do corpo feminino.

De acordo com Giorgio,6 na segunda metade do século XIX, percebe-se na Itália católica, um investimento catequético na mulher, de acordo com a visão da restauração do Catolicismo, que enfatizava o corpo feminino como "templo sagrado do Cristo doméstico" e a vida matrimonial, como o "calvário cotidiano", onde a mulher se uniria ao seu Salvador, suportando a tudo com força, docilidade, submissão e solicitude, para salvar não só a si, mas a todos os seus familiares.

Cristianizar o corpo da mulher era assegurar a vitória da fé, o estabelecimento da religião como norteadora da vida social, especialmente no contexto do processo de laicização dos Estados europeus ocidentais, ação que a Igreja Católica via como perniciosa, uma vez que relegava a esfera das suas ações ao domínio do privado. Conquistar a mulher, levá-la para auxiliar as atividades paroquiais, motivá-la a apoiar as ações missionárias nas terras dos "infiéis", fazê-las mães e madrinhas dos futuros sacerdotes, envolvendo-as na busca de recursos para a manutenção dos jovens seminaristas, correspondia a um conjunto de ações que repercutiam um grande efeito no social, mostrando que o Catolicismo ultramontano poderia interferir nos rumos do político, através da tropa de choque que eram as mulheres católicas.

Além disso, com a restrição ao ingresso masculino para a vida religiosa, em função do serviço obrigatório na França, na Itália e na Áustria, as mulheres religiosas ganharam um grande destaque na vida missionária, assumindo pólos missionários, sendo professoras e catequistas e cuidando do cotidiano das paróquias e das missões, assegurando com isso o êxito missionário católico na Ásia e na África.



E a mulher na África, ou como, era conhecida nos periódicos missionários, a mulher nativa?

A mulher africana aparece nos escritos missionários, ora como o exemplo da degradação da Maldição de Cam, ora como a esperança da "redenção" da África. Assim, Comboni aconselhava seus missionários a entrarem nos lares dos povos do Sudão, através das mulheres, das crianças e dos escravos, destacando de forma enfática, a importância da conversão das mulheres. Observador dos costumes islâmicos e dos povos do Nilo, o prelado percebia a importância econômica e social do trabalho feminino e não deixava de apontar para seus missionários que a conquista da alma da mulher nativa era a possibilidade de se construir o Cristanismo "doméstico", a pequena missão familiar, fato que contribuiria para o enraízamento do Catolicismo no continente, conquistando as terras do Islã "para Cristo".7

Num primeiro momento, acreditava-se que o investimento na catequese da mulher nativa, deveria ser feito através do incentivo da criação e formação de religiosas africanas. Essas, para que pudessem se contrapor, pela força do exemplo, à barbárie, precisariam, de acordo com os pressupostos do determinismo geográfico de Comboni, serem formadas fora da África, a fim de poderem se fortalecer e retornarem "civilizadas" e promotoras da fé cristã no continente.8

Nesse contexto, surge nos anos 70 do século XIX, uma importante figura para esse projeto missionário, a Irmã da Nigrizia Giuseppina Conde, jovem que assim como diversas meninas e meninos resgatados da escravidão, eram enviados para a Europa para viverem em orfanatos e estudarem em 'Escolas para meninos negros', a fim de retornarem, na fase adulta, como religiosas e religiosos nativos.

A exemplaridade da Irmã Giuseppina foi destacada por Comboni, no episódio em que narra o reencontro da jovem missionária com sua irmã de nascença que continuava imersa na "natureza selvagem" e "corrompida pelo Islamismo":

Alegro-me com o nosso reencontro" disse ( a irmã de Giuseppina), "mas me entristece vê-la cristã. Espero que se torne muçulmana como eu". "Não, querida, pelo contrário, espero que se torne cristã", disse Giuseppina."Eu estive na Europa, passei muitos anos na Alemanha e lá me cobriram de benefícios e me fizeram conhecer o caminho que leva o Céu. Infundiram-me o amor pela Santíssima Virgem e me tornaram cristã". A outra não aprovou as palavras da irmã, apesar de ter gostado de saber que Giuseppina esteve na Alemanha. No entanto, não queria que a irmã fosse cristã.

Giuseppina a convidou para me fazer uma visita, o que a outra refutou, por medo que eu a roubasse e a tornasse cristã. "Vem", disse Giuseppina, "vamos ao encontro do nosso pai, verá como ele é bom". Veio no outro dia, mas com muito medo. Desejava que eu permitisse que ela levasse a irmã para a sua casa, fato que eu refutei absolutamente. Pouco tempo depois, a irmã passou a visitar com freqüência Giuseppina e, por ora, parece muito disposta a se tornar cristã.9

Irmã Giuseppina era considerada também um símbolo do êxito da missão católica e da disciplinarização do corpo feminino no sentido de se constituir um Cristianismo de orientação ultramontana no coração da África.

Mas, ao mesmo tempo em que existia a figura de Giuseppina, Comboni também destaca o contraponto da selvageria e também de uma "nobreza de propósito" e de "sentimento" da mulher nativa, fato que motivaria a continuidade da tarefa missionária. Num relato feito às sociedades filantrópicas que o apoiavam, Comboni narra a história de três mulheres escravas de um comerciante austríaco que as tratava como concubinas. As mulheres teriam combinado entre si de seguirem as regras da poligamia, a partir do parâmetro religioso do Islã, a despeito do marido ser cristão e europeu e, assim,as duas esposas mais novas respeitavam as orientações da mais velha.

Com o falecimento do comerciante e os bens do mesmo sendo enviados para sua esposa cristã na Áustria, as três mulheres e os filhos reivindicaram o direito de terem parte do espólio, mas foi em vão, porque a situação das mesmas era considerada ilegal para o consulado austríaco em Khartum.

Assim, de acordo com o prelado, as mulheres vagaram pelo deserto e se depararam com a missão católica onde pediram auxílio. Comboni teria dito a elas que receberiam ajuda, desde que se convertessem ao Catolicismo. As mulheres se enfureceram e chingaram e cuspiram nele e nos demais missionários que estavam próximo. Com isso, voltaram a vagar pelo deserto em busca de proteção. Como não tiveram êxito e, constrangidas pela doença e pela fome, além do medo de perderem as crianças, retornaram para a missão e pediram para ser batizadas, confiando a guarda das crianças aos missionários, para "fazerem deles sacerdotes". Pouco tempo depois, as mulheres faleceram e as crianças ficaram sob a tutela dos padres.10

Com esse relato, Comboni conclamou a atenção para dois fatores que considerava importantes para o êxito da implantação do Cristianismo – o primeiro, fruto da influência da idéia de perfectibilidade de Rosseau, pela qual o "bom selvagem" traria em si virtudes inatas que poderiam ser despertadas em momento de desafio e violência, mostrando a "nobreza natural" do ser humano, como no caso das três concubinas. O segundo, era a exortação e a necessidade do controle disciplinar do corpo do "homem branco" que se permitia, fora do seu ambiente doméstico, experimentar prazeres com as mulheres africanas, sujeitando-as e levando a perder o papel civilizador europeu.

Tal fato foi demonstrado por Comboni, quando orientou aos seus missionários a conviverem com a desconfiança do "outro". Ao referir-se aos "traficantes de escravos", eleitos os inimigos do progresso civilizatório e perpetuadores das "trevas", o prelado destacou:

Como os autores celerados destes horrendos delitos não pertencem, geralmente, a sua raça, mas são estrangeiros, aqueles desventurados selvagens habituaram-se a sempre serem traídos e maltratados das formas mais cruéis. Portanto, olham o missionário com desconfiança e temor, porque é estrangeiro. Por outro lado, os negros se manifestam aos olhos do mesmo como bárbaros, estúpidos, ingratos e brutais. Por isso, para poder estabelecer uma troca de afeto animadora, o missionário deve se resignar em ver a resistência hostil, as tristes infidelidades e as sombrias traições.11

Diante da acentuação dos valores "inatos" existentes na humanidade da África, Comboni e os Padres de Nossa Senhora da África, instituto missionário fundado por Charles Martial Lavigerie, passaram a investir no resgate das mulheres da escravidão, conservando-as no continente, onde as mesmas, nas colônias anti-escravistas, deveriam ter o papel de "civilizar o território", contrapondo e superando econômica e socialmente as terras do Islã e as regiões "pagãs".

As colônias anti-escravistas, experiências desenvolvidas por institutos missionários e sociedades filantrópicas e de Estados europeus, tornaram-se algo recorrente no norte da África e na parte central do continente, a partir da década de 1870, por ocasião do acirramento do combate franco-britânico à escravidão e as disputas pelo controle da mão de obra liberada da escravidão.

Assim, na década de 70 do século XIX, Comboni escreve para a Propaganda Fide, a fim de justificar a criação da colônia anti-escravista de Malbes:

Para afastar, pois, esses neoconvertidos da peste e da sedução muçulmana, buscamos, obrigamo-nos ao gravíssimo sacrifício de fazer a compra de vastos terrenos na planíce de Malbes, que é abastecida suficientemente de água, além de fabricarmos casas e cabanas para instalar todos os mouros que foram convertidos no Instituto Masculino no Cordofan, e que possam se unir em matrimônio cristão com as mouras educadas no colégio das Irmãs. A cada família distribuímos um pedaço de terra para o cultivo de boa quantidade de grãos para semear, e assim possam viver independentemente e distantes da peste e da sedução muçulmana, sob a vigilância da missão católica e com o fruto do suor deles e com o auxílio das artes e ofícios que aprenderam na missão. Estas famílias católicas formarão, pouco a pouco, um vilarejo, um burgo católico que, com o passar dos anos, tornar-se-á uma cidade completamente católica, que será exemplo para as outras populações.12

Essa experiência, no caso do Sudão, foi interrompida pela vitória do movimento mahdista em 1881, liderado por Muhamamd Ahmad Ibn Allah, que obstacularizou a conquista britânica da região por um período de 17 anos,durando até 1898.

Nesses anos mahdistas, os catecúmenos e catecúmenas, originalmente resgatados da escravidão, foram dirigidos para Wadi Halfa no sul do Egito e ante a possibilidade de se perder de vez os convertidos para o "pernicioso ambiente" islâmico, marcado pela presença das confrarias sufis, os missionários da Nigrizia apostaram na criação de duas colônias anti-escravistas: a primeira, com o nome de Gezira e a segunda denominada Leão XIII, que perdurou no Egito até o final da Segunda Guerra Mundial.

Nessas colônias impunha-se uma rígida disciplina de controle do trabalho, onde não deveria existir espaço para o tempo ocioso. Além disso, buscava-se intervir nas relações afetivas, a fim de se incentivar matrimônios entre os catecúmenos e o surgimento de famílias cristãs desde o nascedouro.13

Contudo, não foram poucas as reações contrárias de jovens e mulheres catecúmenos que não aceitavam o controle sobre o direito de ir e vir e o fato de não poderem ter plenamente a posse dos seus sapatos, considerada símbolo máximo da autonomia. Os sacerdotes Carlo Tappi e Casemiro Giacomelli, que tiveram participação nos rumos das duas colônias, não deixavam de registrar as dificuldades geradas pela "insubordinação" e a reivindicação pela posse dos sapatos como o primeiro sinal de questionamento do controle missionário.14

Os maus exemplos das "insubmissas e desgraçadas" eram contrapostos por relatos de histórias de religiosas nativas, como Giuseppina Condè e também de uma importante religiosa da Nigrizia, que foi prisioneira dos mahdistas e que continua o seu trabalho missionário após a sua libertação, que se chamava Fortunata Quascè.15

Juntamente com a história de Fortunata Quascè, era conhecida também a história de uma jovem albina, batizada pelos missionários com o nome de Bianca Lemuna. Esta era percebida pelos catecúmenos e pelos missionários como um "ser exótico"e com conotações sobrenaturais, uma vez que os religiosos que a receberam como tutores desconheciam o fato de que poderiam existir negros albinos nos anos de 1890. Bianca era apontada como um exemplo pela sua inocência, por querer estar sempre com as irmãs e por ter recusado os arranjos matrimoniais do general britânico Charles Gordon, governandor geral do Sudão, com jovens da mesma "natureza exótica" de Bianca.16

Um dos exemplos destacados pelos missionários da Nigrizia da humildade "natural" de Bianca, foi o episódio em que ela poderia escolher entre um pão preto e um pão branco para comer e Bianca opta pelo pão preto, dizendo que como era diferente das Irmãs, ela deveria deixar o pão "mais claro" para elas e o mais "escurecido" para si mesma.17

Há quantos anos temos na missão católica de El-Obeid, capital do Cordofan, uma menina de cerca de quinze anos, de cor branco-avermelhada nascida de pais negros, da qual creio interessantíssimo fazer um sinal, seja pelo fenômeno extraordinário da anomalia de sua cor, seja pela sua qualidade moral, entre as quais resplandecem uma singular piedade, uma integridade e retidão de costumes verdadeiramente admiráveis, com um especial fervor para com a nossa Santa Religião, de comparar-se com os primeiros cristãos do tempo dos apóstolos.

O nome primitivo daquela jovem é Lemuna. Mas como nós damos aos nossos convertidos um nome cristão, fazendo servir o nome primitivo como sobrenome, e como foi imposto o nome de Bianca no Santo Batismo administrado no dia 7 de junho de 1879 pelo Reverendíssimo D. Battista Fracaro, Superior das Missões Católicas do Cordofan, assim ela se chama Bianca Lemuna.

(...) Seu pai que tem por nome Ninghina é de cor negra, sua mãe que tem por nome Gen-tid é também de cor negro-etíope e as irmãs que diz ter, uma é perfeitamente negra e a outra é vermelha, mas tende à cor dos abissínios. Seu pai Ninghina é um dos mais ferozes e enraivecidos jialaba ou negreiro, que se enriquece com o sangue dos pobres escravos, roubando da sua pátria e entregando-os a outros jialabas. Enquanto estava ocupado com a caça dos escravos em uma terra longe da sua, a nossa Bianca veio a ser raptada junto com a sua escrava por um bando de negreiros traficantes de carne humana. (...) Foi então presenteada como um interessante presente ao Senhor Gordon Paxá, governador geral do Sudão, o qual, passando por El-Obeid, teve o nobre pensamento de dá-la à nossa Missão do Cordofan para ser cristã e assegurar o seu futuro.

(...) Bianca apenas ingressou na nossa missão e foi instruída nas máximas da nossa Santa Religião por uma jovem religiosa oriental da Província de Damasco chamada Virgínia Mansur e teve por mestra a negrinha Fortunata Quascè, proveniente do Gebel-Nuba, e por ora é noviça do instituto das irmãs e que continua a sua instrução. Desde o dia no qual Bianca conheceu a nossa Santa Fé tornou-se uma fervorosa católica.

(...) Fortunata Quascè, sua mestra, convidou-a muitas vezes para comer o pão branco das Irmãs, que é de frumento, porém muito inferior aos nossos pães na Europa, mas Bianca recusou-o sempre dizendo: 'não é conveniente que eu, uma pobre escrava, coma o pão das Irmãs que são livres'. Há quem observe que ela no momento do batismo se tornou livre como as irmãs, porém ela disse: 'é verdade que agora sou cristã, mas eu nasci escrava e não é conveniente que eu coma o pão das irmãs que nasceram livres e que sempre foram cristãs; por mim convém comer o pão dos negros e eu sou feliz e bem aventurada por ser a serva das Irmãs.18

Além de Bianca Lemuna, ganhou destaque nesse período do controle mahdista do Sudão, a história de uma jovem escrava que fora batizada como Josephina Bakhita. Como já foi dito, Bakhita veio a ser canonizada em 2002 pelas razões que tornaram Giuseppina, Fortunata e Bianca exemplos: a noção de uma religião "inata" e os valores da "docilidade", da "obediência" e da "gentileza".

Bakhita, de acordo com Ida Zanollini, teria nascido por volta de 1880 em Olgossa no Sudão e passara por vários donos até ser vendida para o cônsul italiano Calisto Legnani.

O mesmo a confiara a uma das famílias de comerciantes italianos, cuja esposa queria uma babá para sua filhinha. Dado o desejo da mãe de que a criança fosse educada na Europa, a Sra. Michelle levou Bakhita e sua filha para Veneza, confiando-as aos cuidados das Religiosas Canossianas, onde permaneceram por ocasião do retorno da mãe da menina para o Sudão.

No convento com as Irmãs, Bakhita se convertera ao Catolicismo e quando solicitada para voltar ao Sudão, alguns anos mais tarde pela Sra. Michelle, a jovem foi tomada pela "força do Espírito", segundo Zanollini, fazendo ela relutar em seguir com sua senhora. Sua história tornou-se conhecida e acabou por envolver o Patriarca de Veneza que deliberou que Bakhita deveria permanecer na Itália, uma vez que no país não havia escravidão. Contudo, ela deveria ficar confiada aos cuidados das irmãs.

Posteriormente, Bakhita ingressou para a vida religiosa e foi destinada para a casa das Canoissianas em Schio no Veneto, onde permaneceu até sua morte em 1947.

Na construção hagiográfica sobre Bakhita que deu argumento para seu processo de canonização, apontou-se que a mesma enquanto escrava e posteriormente como livre, sabia respeitar seus superiores e que chamava a Deus de "Paron". De acordo com Zanini, comentando o depoimento de Bakhita para uma das religiosas canossianas:

O Paron. Exatamente como os patrões que ela teve enquanto foi escrava. Um Senhor a quem sempre se deve obedecer com solicitude, mas não por obrigação, nem por constrangimento, mas porque a "obediência agrada tanto ao Senhor... Como escravos era preciso obedecer pela força, senão, voavam chibatadas e eram muitas! Agora, obedecemos com alegria... e quando estou com ele, e onde ele quer, estou bem em qualquer lugar. Ele é o Senhor, eu sou a sua pobre criatura" ( trecho do depoimento de Bakhita). Um Senhor bondoso, que nunca deixa o seu servo sozinho, mas guia-o a cada momento da vida. " Eu dou tudo ao Paron e ele vai cuidar de mim; é obrigado a fazer isso" (novamente a citando). Um patrão exigente, mas caridoso, pronto a suprir as necessidades de quem o serve com amor. Assim, a uma pessoa que, com um pouco de superficialidade, se espanta pelo fato de ela sempre conseguir fazer a vontade de Deus com alegria e sem nunca mostrar cansaço, Bakhita responde: "Acha que é fácil contentar o Patrão? Mas eu faço tudo o que posso. Ele faz o resto.19

Por essa forma de se construir a trajetória de Bakhita, percebe-se que a jovem resgatada trouxe para sua vida religiosa os padrões de comportamento e a hierarquia de papéis vivenciada na sua condição de escrava. Contudo, nesse relato e na obra de Zanollini, bem como no primeiro manuscrito ditado por Bakhita em 1923, percebe-se que, de um lado, ela aponta a submissão ao Deus como seu Senhor e nessa margem de ações que ela desenvolve de subalternidade, exige, dentro do campo do costume, seus direitos conquistados no cotidiano numa relação direta com o seu Paron e com as representantes dele na Terra, no caso as religiosas Canossianas. Tal relato, somado ao momento em que Bakhita se posiciona em querer ficar na Europa, foi visto pelos seus hagiógrafos como um arroubo de espírito e não como uma resistência consciente da personagem às condições que a aguardavam no retorno ao Sudão e, ao mesmo tempo, um apelo ao atendimento das suas revindicações, embasada no direito adquirido por ser uma boa serva.20

Bakhita foi canonizada como a santa da África contemporânea, como a "grande Irmã Universal" e, tais aspectos nos remetem para as ressignificações de antigas práticas subalternizantes das mulheres africanas, já no contexto pós colonial, onde a necessidade de controle do corpo das africanas se coloca ainda como condição sine qua non para o enraízamento do Cristianismo no continente.

Essa pesquisa sobre a ressignificação dos mecanismos subalternizantes da mulher africana se entrelaça com os rumos do destaque ao papel da mulher contemporânea na família cristã, tal qual imaginada no papado de João Paulo II. Esta seria a guardiã dos filhos, baluarte da fé e santuário doméstico face à um mundo cada vez mais desafiador e emergente de 'novas vozes' e 'rostos' que, devido ao fenômeno contemporâneo da imigração proveniente de países da África e da Ásia para a Europa, transformam o panorama cultural, político e religioso da "Velha Europa".

Este artigo tem, por fim, o objetivo de apontar como o estudo dos mecanismos contemporâneos de subalternização da mulher negra africana, a partir do passado da experiência das "resgatadas da escravidão" precisa cada vez mais analisado e dimensionado a luz também da inserção subalterna dos países da África no processo de Globalização.

Notas

Revista de História - USP

O Brasil, a África e o Atlântico no século XIX

O Brasil, a África e o Atlântico no século XIX

Alberto da Costa e Silva

O início do século XIX caracteriza-se por um aguçamento dos nacionalismos. E não só na Europa, mas também nas duas margens mais ao sul do Atlântico. Na América, as colônias espanholas e portuguesa independentizam-se; na África, os grandes agrupamentos étnicos se consolidam.

O Oitocentos é também o século em que o Reino Unido procura fazer do Atlântico um mar inglês; o século em que se destrói o tráfico triangular entre a Europa, a América e a África e em que se desfazem as ligações bilaterais entre os dois últimos continentes; o século em que as sociedades africanas, até então fora das grandes rotas do caravaneiro e do navegador, começam a integrar-se, ainda que de modo imperfeito, nas estruturas políticas mundiais.

Na realidade, a África só abria para o exterior um pouco da casca. Assim fora desde sempre. O estrangeiro se parava no Sudd, ao sul da Núbia, em Ualata, Gana, Gaô, Tombuctu e outros caravançarais do Sael, em Quiloa, Mombaça, Angoche, Zanzibar e iguais feitorias do Índico e, desde a abertura do Atlântico, nos entrepostos e fortins de Bissau, El Mina, Ajudá, Luanda, Benguela e tantos mais. Até meados do século XIX, o europeu só avançava alguns passos para fora de seus muros e paliçadas em algumas poucas áreas e, na maior parte dos casos, com o consentimento e o apoio dos africanos, ou sob sua vigilância.

Isso não impediu que se fossem estabelecendo, desde o século XVII, mas sobretudo a partir do XVIII, fortes vínculos entre certos pontos do litoral africano e as costas atlânticas das Américas, como conseqüência do tráfico de escravos. O comércio de braços humanos não aproximou apenas as praias que ficavam frente a frente, mas estendeu sertão adentro o seu alinhavado, uma vez que muitos dos escravos trazidos para o Brasil e que foram trabalhar em Minas ou Goiás vieram de regiões do interior do continente africano, das savanas e das bordas dos desertos. Não eram, portanto, falsos, como pareceram a tantos leitores e críticos, os versos em que Castro Alves se referia a escravos como vindos de regiões áridas. O poeta, que tinha familiares envolvidos no tráfico, sabia do que falava, quando em O Navio Negreiro, descreveu os cativos a dançarem no convés como "os filhos do deserto / onde a terra esposa a luz, / onde voa em campo aberto / a tribo dos homens nus ..." Ou quando, em A Canção Ao Africano, disse, da terra deste, que ''o sol faz lá tudo em fogo, / faz em brasa toda a areia''.

Ainda que os contatos diretos entre europeus, americanos e africanos não passassem, na África, muito além da linha em que findavam as praias, as notícias esgarçavam-se pelo interior e certas novidades, e só certas novidades, expandiam-se rapidamente. Assim, a África recebeu e africanizou a rede, a mandioca e o milho, enquanto o Brasil e Cuba faziam seus o dendê, a malagueta e a panaria da Costa.

As trocas deram-se nas duas direções, e a cada um dos lados do Atlântico não era de todo desconhecido e indiferente o que se passava no outro. A independência do Brasil, por exemplo, não ficou despercebida na África — e o prova terem sido dois africanos os primeiros reis a reconhecê-la, o Obá Ósemwede, do Benim, e o Ologum Ajan, de Eko, Onim ou Lagos. Em Angola, os acontecimentos de 1822 tiveram enorme impacto, chegando a gerar uma corrente favorável à separação de Portugal e à união ao Brasil.

No território brasileiro, reis e nobres africanos, vendidos por seus desafetos como escravos, buscaram, algumas vezes, reconstruir as estruturas políticas e religiosas das terras de onde haviam partido. Isso terse-ia verificado — para citar o caso mais conhecido — com Nan Agotiné, a mãe do rei Guezô, do Danxomé, Dangomé, Daomei ou Daomé. Passada às mãos dos traficantes pelo rei Adandozã, ele teria refeito os seus altares e a sua Corte na Casa das Minas (ou Querebetam de Zomadonu), em São Luís do Maranhão (1). Outros sonharam voltar à África e reconquistar as posições perdidas, não se excluindo que hajam conspirado para isso. Não faltaria quem lhes levasse as mensagens a adeptos e descontentes na terra natal, pois a tripulação dos navios negreiros era em grande parte africana. Um desses príncipes quase logrou tornar real o sonho. Chamava-se Fruku, no Danxomé, e foi vendido ao Brasil pelo rei Tegbesu, provavelmente para permitir que Kpengla ascendesse ao trono. Viveu no Brasil vinte e quatro anos e voltou à Costa dos Escravos com o nome de Dom Jerônimo. E como Dom Jerônimo, o brasileiro, o príncipe Fruku disputou o trono do Danxomé, após a morte de Kpengla, em 1789, e só por pouco o perdeu para Agonglo (2).

Repito: muito do que se passava na África Atlântica repercutia no Brasil, e vice-versa. Os contatos através do oceano eram constantes: os cativos que chegavam traziam notícias de suas nações, e os marinheiros, os mercadores e os ex-escravos de retorno levavam as novas do Brasil e dos africanos que aqui viviam para uma África que era ainda, no início do século XIX, um continente sem senhores externos.

De colônias havia somente o Cabo da Boa Esperança e as possessões portuguesas. Não tinham elas, porém, as dimensões territoriais com que figurariam depois nos mapas. Cada uma era apenas uma coleção de pequenas cidades, vilas, vilarejos e entrepostos comerciais, com restrito acesso às terras que a circundavam e ainda menor controle efetivo sobre elas. Os numerosos estabelecimentos europeus encravados em outros pontos da Costa pagavam aluguel ou direitos de comércio aos reis, régulos ou chefes locais. Feitorias mercantis, quase todas dedicadas primordialmente ao tráfico negreiro, como Saint-Louis, Goréa, Cachéu, Bissau, El Mina e Cape Coast, suas populações continham pequena quantidade de mulatos. Esses eram mais numerosos nas comunidades fundadas por ex-escravos retornados do Brasil, Cuba e Venezuela, como Atouetá e Porto Seguro, e nos bairros brasileiros de Acra, Agoué, Ajuda, Porto Novo, Badagri e Lagos. Havia ainda o caso especial de Freetown, na Serra Leoa, onde os ingleses colocaram, como colonos, no reino temne de Koya, ex-escravos que combateram ao lado deles na guerra pela Independência dos Estados Unidos. O exemplo seria seguido, mais tarde, em Bathurst, Monrovia e Libreville. Esses refúgios para ex-escravos transformaram-se em embriões de colônias — a da Serra Leoa já em 1808 — e de uma república nos moldes americanos, a da Libéria.

A presença européia na África era, portanto, muito limitada. Discreta. Não se comparava à do Islame, que desde o século IX, atravessara o deserto e se fora lentamente derramando pelo Sael e a savana. Nos começos do século XI, os reis de Gaô e do Tacrur já eram muçulmanos e, na segunda metade do XIII, um mansa, ou soberano do Mali fazia a peregrinação a Meca. No Duzentos, Tombuctu e Jenné tornaram-se importantes centros de saber islâmico, seus passos sendo seguidos, mais tarde, pelos burgos amuralhados dos hauçás. No início do século XIX, das savanas no Senegal ao planalto do Adamaua, as instituições políticas aspiravam a ajustar-se ao modelo muçulmano, e ás elites liam o árabe e estudavam o Alcorão, ainda quando as massas continuassem fiéis às crenças tradicionais. Em muitos lugares, muito antes do primeiro pregador muçulmano, chegavam do Egito, da Líbia, do Magrebe ou do Sael islamizado o turbante, a sela com estribo, certos modos de vida e até mesmo um volume do Alcorão, com o prestígio de objeto mágico.

Também a abertura dos litorais atlânticos teria efeitos muito mais profundos sobre a África do que faria prever a diminuta presença humana européia nas franjas do continente. Pela difusão das plantas americanas, como a mandioca e o milho, que alteraram substancialmente a dieta de numerosas populações. Pela introdução das armas de fogo. Pelo surgimento de nova e crescente demanda de escravos, mais dinâmica do que as do Magrebe, do Oriente Médio e do índico. E pela atlantização de boa parte do comercio à distancia, com perda para as rotas caravaneiras do Sael e do deserto e para as estruturas políticas que delas dependiam.

Os mercados transatlânticos tornaram-se mais importantes do que os antigos mercados transarianos. A vinculação floresta-savana-Sael-deserto, através da qual desaguavam o ouro, a cola e o escravo, passou a ter de competir com a ligação savana-floresta-praia. Acentuaram-se, conseqüentemente, os liames entre os vários pontos do litoral atlântico e tornaram-se mais intensas as atividades ao longo da costa, as viagens de praia a praia que fizeram famosos os crus da Libéria, com suas longas pirogas. Elas deram renome não só a eles, mas também a tantos outros, como os ijós do delta do Niger, cujas almadias assim descreveu, no Esmeraldo de Situ Orbis (3), mal entrado no século XVI, Duarte Pacheco Pereira: "Todas feitas de um pau (...), algumas delas há tamanhas que levarão oitenta homens, e estas vêm de cima deste rio (o Real), de cem léguas e mais, e trazem muitos inhames (...) e muitos escravos e vacas e cabras e carneiros''.

Tal qual sucedera, vários séculos antes, com a chegada do cavalo como animal de guerra às estepes ressequidas e às savanas da África Ocidental, as armas de fogo alteraram as táticas de guerra e as relações de força interafricanas. Cresceu o poder centralizador dos reis, que monopolizavam o comércio externo e, portanto, o acesso aos mosquetes e à pólvora. Novos estados surgiram de chefias que controlavam os caminhos para o mar e outros se consolidaram e expandiram, muitas vezes sobre a base de um intenso sentimento nacional.

Na África, sempre houve nações, como as definiu Renan: povos unidos pelo sentimento de origem, e língua, história, crenças, desejo de viver em comum e igual vontade de destino. E sempre houve noções que se cristalizaram em estados. Basta lembrar Gana, construída pelos soninquês, e o Mali, com seu núcleo mandinga. Mas o preconceito teima em chamar tribos às nações africanas, sem ter em conta a realidade de que não podem ser tribos grupos humanos de mais de 60 milhões de pessoas, como os hauçás, ou superiores ou semelhantes em número às populações da Bélgica, do Chile e da Suécia, quando não, da Argentina e da Espanha. O conceito de nação podia, aliás, ser ainda mais profundo, na África, do que o enunciado por Renan. Assim no Danxomé. Mais que um estado-nação, o Danxomé era uma realidade espiritual: a soma dos tons mortos, desde o início dos séculos, com os vivos e com os que ainda haviam de nascer. A nação desdobrava-se no tempo sob disfarce de eternidade: dela e de sua representação como estado não se excluíam ancestrais e vindouros.

O sentimento nacionalista expande-se e se adensa na África do século XIX. Torna-se mais intenso em estados muito antigos, que podiam ter vários séculos de existência, como Ifé, Benim, Oió, Bornu, Uagadugu, Kano, Katsina, o do monomotapa e o do Angola a Kiluanje. Afirma-se em novos reinos, que tomaram forma e força sob o estímulo do tráfico de escravos. Como o Achanti, que se encorpara com a produção e o comércio do ouro e da noz de cola, antes de se assentar na venda da escravaria. Como Danxomé, negreiro quase que desde o seu início. Como Jalofo, Fante e Warri, que tendo surgido ou ganhado vigor do tráfico humano, continuaram a crescer, depois, com o mercadejo de dendê, marfim, cera e borracha.

Do nacionalismo surge uma nova idéia de estado. O poder em expansão não busca mais apenas submeter outros agrupamentos humanos, que lhe pagariam tributo e lhe engrossariam os exércitos, respeitando e preservando, porém, tal como sucedera nos impérios de Gana, Mali, Canem-Bornu e Songai, as estruturas sociais e os modos de vida dos derrotados. O modelo do Mali – no qual a nação mandinga se impunha sobre as demais, sem exigir dessas que abandonassem língua, religião, costumes e os próprios reis, que geralmente continuavam no mando, ainda que vassalos do mansa – passa a sofrer a competição de um outro em que, tal qual sucedera na França e viria a acontecer na Alemanha e na Itália, se tentaria aglutinar os povos dominados ao dominante, dissolvê-los e aculturá-los, para uniformizar o estado. Um estado, uma nação – este o desiderate dos zulus e dos angúnis; esta a política das estruturas de poder resultantes das guerras santas islâmicas dos fulas de Osmã den Fodio, de Seku Ahmadu e de El Haji Ornar, nas quais, para se ter as vantagens da cidadania, se tinha de ser muçulmano. Mas não apenas novos estados, como esses, aspiravam à uniformidade. Reinos antigos também ambicionaram tornar-se teocracias. E desejo semelhante de um império em que todos rezassem prostrados no rumo de Meca jamais abandonou Samori Turê.

As guerras santas na África derivaram do renascimento, na segunda metade do século XVIII, de um Islame fervoroso e militante, de que dão exemplo os vaabitas, na Arábia, e o reflorir, no Egito e no Magrebe, do sufismo e da ordem mística e militar da Cadirija. Esta última tinha presença e influência no Sudão Ocidental, desde o fim do Quatrocentos, quando Al-Maghili andara a pregar em Bornu e na Hauçalândia, acenando com a vinda de um mahdi que imporia ao Bilad al-Sudan, o pais dos negros, o verdadeiro Islame, purificando-o de todo sincretismo e destruindo de vez as religiões pagas que com ele conviviam, como o culto dos boris entre os hauçás.

A jihad mais famosa, e a que mais interessa aos brasileiros, foi a de Osmã den Fodio, um xeque, poeta, teólogo e pensador fulo (fulani ou peul), sufista e cadirija. Nasceu ele no reino de Gobir, no norte da atual Nigéria, e criou-se num ambiente intelectualmente requintado e pleno de controvérsias, o da elite fula, minoria étnica embutida na maioria hauçá e a dever incômoda obediência a um sarqui ou rei nominalmente muçulmano, mas não estrito o bastante para ser considerado um verdadeiro crente. Para Osmã e seus amigos fulos, era escandaloso que os fiéis fossem governados por ímpios e que se reduzissem islamitas à escravidão. Instou com o soberano de Gobir para que não mais fizesse concessões ao sincretismo prevalecente na Hauçalândia, para que fizesse calar os tambores, transformando-os em manjedouras, e para que abandonasse os ritos de fertilidade da terra, que conflitavam com o Islame. Diante da recusa deste, que não podia furtar-se às práticas religiosas tradicionais em que se fundava a sua legitimidade e o seu poder, Osmã den Fodio cumpriu a sua hégira em Gudu, onde se fez imame de um pequeno estado teocrático. Em 1804, após receber, numa visão, a espada da fé do próprio fundador da ordem de Cadirija, Abdel-Cadir, que tinha a seu lado o Profeta Maomé, proclamou a guerra santa contra o sarqui de Gobir e os outros reis hauçás. Seus textos de pregação e propaganda, em árabe, fulfulde e hauçá, ganharam rapidamente as cidades e atraíram para os seus exércitos os letrados e mercadores urbanos, aos quais se acrescentaram fulas que não eram sequer moslins, pastores animistas que viviam nos arredores das comunidades amuralhadas hauçás e conflitavam com estas pelo uso da terra. A campanha tomou, assim, a feição de uma guerra que, sendo religiosa, sendo muçulmana, era também nacional, era também fulani. Em 1812, vitória após vitória, Osmã den Fodio tornou-se califa de um grande império, o de Socotô, controlado por uma aristocracia fula, que rapidamente se hauçaizou. Esse império não viria a cobrir apenas a maior parte dos territórios hauçás, mas também o norte do Iorubo, fazendo fula o que, como Ilorin, fora oió. Só os campos cobertos, os cerrados e as matas, adversários naturais da cavalaria, pararam a arremetida muçulmana. Os fulas haviam montado a cavalo, a seguir o exemplo dos hauçás, que, convertidos ao zelo de seus novos senhores, passaram a formar o grosso de suas tropas, e, a cavalo, foram vencidos em Oshogbo, em 1840, pelos exércitos de Ibadan. A revolução islâmica de Osmã den Fodio iria, porém, iludir a floresta, passar por entre o lorubo dos orixás e prolongar-se no Brasil, com as chamadas guerras dos males, na Bahia.

Nina Rodrigues (4) percebeu com clareza que,''para apreender a verdadeira significação histórica'' dessas revoltas, era''mister remontar às transformações político-sociais que a esse tempo se operavam no coração da África''. Vinculou-as à jihad de Osmã den Fodio — a meu ver, com razão. Os poucos fulas e os muitos hauçás e iorubas recém-convertidos ao Islame, que as guerras fizeram prisioneiros e embarcaram como escravos para o Brasil, aqui prosseguiram a catequese e o sonho do califado. A essas insurreições, fossem predominantemente hauçás, como as de 1807, 1808 e 1814, iorubanas, como a de 1830, ou plurinacionais, como a maior de todas, a de 1835, em que os nagôs eram o grupo mais numeroso, entre hauçás, nupês, jejes, minas, bornus e baribas, o povo baiano deu o nome justo, porque percebeu o seu caráter político-religioso. Chamou-lhes guerras dos males, isto é, dos islamitas, pois imalê quer dizer moslim em iorubano.

Os próprios documentos por elas deixados, as rezas, as transcrições de suras e os amuletos apreendidos pela polícia, estavam escritos em árabe. Na maioria dos casos, em árabe correto e bem-ortografado, na variante do cursivo magrebino corrente entre os fulas de Osmã den Fodio e de rigor em todo o Sudão Ocidental (5), a mesma grafia dos numerosos grigris que Nina Rodrigues (6) pôde ainda recolher entre negros islamitas baianos, no fim do século. Um dos textos colecionados pelo autor de Os Africanos no Brasil, embora em caracteres árabes, não pôde ser traduzido. Nina Rodrigues (7) sugeriu que estivesse em idioma hauçá. Quem sabe se alguns daqueles escritos, em que se davam instruções para a rebelião de 1835, não estariam em ajami, isto é, no alfabeto árabe a servir de veículo ao hauçá e ao fulfulde, ou idioma dos fulas? O amuleto de que Nina Rodrigues não logrou leitura talvez fosse uma prece. Não transcreveria, porém, um versículo do Alcorão, por ser isso contrário ao que pregava Osmã den Fodio. Este escreveu em hauçá sermões em verso. E houve um certo momento em que começou a verter para aquele idioma o Alcorão. Não deu, porém, prosseguimento à tarefa, persuadido de que não lhe cabia traduzir as palavras ditas por Deus a Maomé, e de que o livro santo deveria ser mantido na língua em que Alá o ditou.

Consta que as ordens para a rebelião baiana de 1835 foram dadas por um imame, limamo ou limanu, de nome Mala Abubacar, que teria sido enviado de volta à África (8). Da revolta participaram outros alufás, marabus ou mallans, entre os quais um tapa ou nupê, um hauçá e, dono de enorme prestígio, um nagô. Como os libertos formavam grande parte dos revoltosos — 126 daqueles contra os quais se apresentaram acusação eram negros emancipados, enquanto que 160, escravos (9) —, muitos deles devem ter voluntariamente regressado à costa africana, enquanto outros se beneficiaram da medida governamental que comutou em banimento para a África a pena dos condenados à prisão. Estaria entre esses últimos, protegido pelo silêncio dos correligionários, o imame Mala Abubacar? Teria sido ele o primeiro chefe religioso dos maometanos brasileiros em Lagos?

Os escravos e libertos que promoveram as chamadas guerras dos males encontravam-se, na Bahia, na mesma situação — intolerável para um islamita zeloso e pio — de Osmã den Fodio e seus companheiros em Gobir: sob o jugo de infiéis. Os que eram livres tinham o governo do Império do Brasil por ilegítimo, uma vez que não se fundava na crença e no direito islâmicos; os cativos não podiam aceitar de forma alguma sua condição, em tudo contrária à lei divina, pois, para o Islame, só o incréu pode ser escravizado (10).

Antes da chegada dos libertos brasileiros e dos sarôs (ex-escravos redimidos pelos ingleses e postos como colonos na Serra Leoa), já havia grupos de islamitas em Lagos, Badagri e outros pontos do sul do lorubo. Se entre esses se contavam alguns nagôs, a maioria era formada por gente estrangeira, por uns poucos mercadores e muitos escravos hauçás, nupês e bornus. Sobretudo após a revolta de Ilorin contra Oió, na passagem do século, e sua posterior incorporação ao império fulahauçá de Socotô, cuja expansão para o sul aterrorizava os iorubas, esses diminutos grupos de moslins viram-se, no sul da atual Nigéria, discriminados, expulsos ou perseguidos, rezando e cumprindo, quase sempre em segredo, as suas obrigações religiosas. A chegada de muçulmanos da Bahia, do Recife, de Fourah Bay e de Foulah Town aumentou-lhes o número — e o número dos que eram, embora imigrantes, muçulmanos iorubas — e emprestou a Islame até então menosprezado o lustro de dois grupos, os sarôs e os agudás (ou brasileiros), que se faziam cada vez mais prósperos, porque tinham intimidade com ofícios e profissões, adquiridas no Brasil ou na Serra Leoa, crescentemente necessárias às cidades litorâneas, onde a influência européia se ia impondo (11). Eles praticavam abertamente a sua crença e construíram as .mais antigas mesquitas de Lagos. A própria Mesquita Central, até há bem pouco de pé, foi iniciada por um mestre-de-obras brasileiro, João Baptista da Costa, e concluída por seu discípulo sarô Sanusi Aka.

Se o primeiro imame-em-chefe de Lagos, Idris Salu Gana, foi um hauçá, possivelmente vindo do norte, e se os muçulmanos africanos viam com certa desconfiança os que se tinham convertido do outro lado do Atlântico (12), cedo os brasileiros passaram a figurar entre os principais dignitários islamitas. E continuam, até hoje, a contar entre eles. Em 1983, quando deixei Lagos, o imame-em-chefe da cidade, El Haji Liadi Ibrahim, era descendente, pela linha materna, de brasileiros, e disto se orgulhava.

Os muçulmanos não predominaram, contudo, entre os brasileiros e os abrasileirados que se estabeleceram na costa atlântica da África. A maioria era de cristãos ou cristianizados, estes últimos a praticarem a um só tempo, ou paralelamente, a religião dos orixás e aquela a que se converteram na outra margem do oceano. Brancos e mulatos, uns poucos, e vários deles negros, nascidos na África ou no Brasil, tornaram-se, do mesmo modo que os imalês traficantes de escravos. Alguns deles fizeram-se famosos, como Francisco Félix de Sousa — o Chachá de Ajuda —, Pedro Kodjo, Domingos José Martins — o todo poderoso de Cotonou — e Joaquim Manuel de Carvalho, que embarcava em Porto Novo. O comércio dividiu certas famílias: um irmão em Lagos e outro em Salvador, um primo em Anécho e outro no Recife, a trocarem escravos, azeite de dendê, noz de cola, sabão e pano da Costa por tabaco, cachaça, ouro e tudo o que se usava na rua, na sala, no quarto e na cozinha. Negociantes em grande de gente e coisas, lojistas e vendedores de esquina, plantadores de algodão, tabaco, cacau e café, mestres-de-obra e pedreiros, modistas e alfaiates, padeiros e doceiras, marceneiros, músicos e professores, fundaram cidades como Atouetá e Porto Seguro e se uniram em bairros próprios em Acra, Lomé, Agoué, Anécho, Ajuda, Porto Novo, Badagri e Lagos, onde construíram, para si mesmos ou para outros grupos, igrejas, mesquitas, palácios, edifícios, sobrados e arruamentos de casas térreas e de parede e meia, com uma, duas, quatro ou mais janelas. Tudo num estilo arquitetônico derivado das formas barrocas, rococós e neoclássicas aprendidas no Brasil. Criaram, assim, em pequenino e por iniciativa própria, as suas Serras Leoas e as suas Libérias.

Esse é um enredo. O outro é o da luta contra o tráfico humano, que serviu de roupagem limpa à política britânica de controle do Atlântico e das rotas para a índia. A história tem suas ironias. O movimento generoso e humanitário para destruir a ignomínia do comércio de negros confundiu-se com o que iria transformar, num espaço curto de tempo, quase toda a África em colônia européia. Sob pretexto do combate ao mercadejo de escravos, ingleses e franceses ocuparam cidades e portos africanos, humilharam e depuseram chefes, sobas e reis, depois de debilitá-los, vedando-lhes a compra de armas e pólvora, impedindo a cobrança de taxas de passagem pelas terras sob sua soberania e destruindo o monopólio comercial em que muitos deles fundavam o seu poder.

A partida para Cuba, em 1865, do último barco de escravos não terminaria, no entanto, com o tráfico de braços humanos. Este continuará, até bem depois da Primeira Guerra Mundial, numa direção que já percorria muitos séculos antes do descobrimento da América: através do Saara, do Indico e do mar Vermelho, para o mundo islâmico. Mais importante ainda: crescem a escravaria na África e o comércio inter-regional de cativos. A fim de atender à demanda européia e por estímulo daquelas mesmas nações que haviam combatido o tráfico transoceânico de escravos, expande-se na África uma agricultura de exportação — de óleo de palma ou azeite de dendê, de amendoim, de cravo, de pimenta, de café, de algodão, de cacau, de sisal — e desenvolvem-se grandes plantagens do tipo americano, até então só conhecidas em algumas poucas regiões, como a Hauçalândia e Canem-Bornu. Milhares de cativos iorubanos passam a trabalhar nas plantações de dendê do Danxomé. Para as de cravo, em Zanzibar, preiam-se e compram-se escravos no continente. E escravo quem percorre a pé imensas distâncias, a carregar à cabeça as presas de elefante e os fardos de goma, cera, almíscar e outros produtos que os europeus desejam em quantidades crescentes. Faz-se guerra para vender à distância, dentro do continente, a mão-de-obra que pedem as lavouras e as caravanas.

Não se muda apenas a direção do tráfico negreiro. As grandes rotas mercantis africanas desviam-se das Américas. Vão rareando, no fim do século XIX, os barcos que, partindo da África, demandam Havana, Cartagena de índias, Recife, Salvador, Rio de Janeiro e Montevidéu, bem como os que, saindo de portos caraibanos e sul-americanos, viajam para Dacar, Porto Novo, Lagos, Malembo, Cabinda, Luanda ou Benguela. A Europa apossa-se praticamente das trocas com a África: os que haviam, em nome da liberdade de comércio, combatido o monopólio dos reis africanos fazem-se, vencida a luta, monopolistas.

Alterado o rumo do comércio, trocam-se naturalmente os seus parceiros africanos e se modificam as relações de poder. Alguns estados regridem: o Lunda e o Loango, por exemplo. Outros se transformam: o Danxomé passa a assentar-se sobre a exportação de dendê e os ovim-bundos de Bié trocam o marfim negro pelo marfim branco e pelo cobre do Chaba. Há aqueles que se tornam mais fortes, como Bonny, Opobo e Huila. Os quiocos, em menos de cinqüenta anos, convertem-se num poder comercial e militar em Angola: com cera, marfim e borracha obtêm os recursos para comprar armas de fogo e as mulheres com que aumentarão os seus números. Outros, que opuseram maior resistência aos europeus, acabarão por ser destruídos ou politicamente castrados.

Há uma data que assinala, da perspectiva brasileira, o início da colonização da África pelas grandes potências européias: 1851. E o ano em que os ingleses, para pôr fim ao comércio negreiro, bloqueiam a cidade de Lagos. O primeiro tiro de canhão dado contra eles parte de um grupo sob a chefia de um brasileiro, um certo Lima (13). Ele, como seus vizinhos da Bamgbose Street, da Kakawa Street, da Campos Square, da Tokumboh, da Martins e da Igbosere Streets, compreenderam de imediato que a chegada dos britânicos significava o fim das trocas com o Brasil e, conseqüentemente, do predomínio comercial que tinham tido na cidade.

A partir de 1851, vai acentuar-se o que o Reino Unido pretendia ser: um controle informal da África. Londres desejava assumir uma posição de primazia mercantil no continente sem gastar em combate vidas humanas, sem despender dinheiro além da linha das praias, sem assumir responsabilidades coloniais. O seu poder naval garantiria por si só a preponderância econômica nos litorais, nos rios e nos portos. Em breve, porém, a pressão ambiciosa dos interesses de seus comerciantes, o zelo de seus cônsules, os brios dos comandantes de sua marinha e a contestação à sua presença nas costas da África por outros países europeus, sobretudo a França, fariam com que o governo britânico assumisse encargos que buscara inutilmente evitar.

Em 1870, eram imensos os espaços vazios no conhecimento que a Europa tinha da África. Por sua vez, a maior parte das comunidades africanas ignorava existir o homem branco, ainda que utilizasse produtos por ele manufaturados. A presença européia no continente, até a véspera de 1900, só se fazia sentir a uma escassa minoria e, mesmo mais tarde, numerosíssimos eram os que jamais haviam visto um português, um inglês, um francês ou um alemão, ou faziam idéia de que suas terras estivessem sob domínio de um povo de além-mar. Os britânicos, com os quais competiam outros europeus, assumiam rapidamente o domínio do Atlântico. Nele já haviam ocupado Santa Helena, Ano Bom, as Malvinas, Fernando Pó e outras ilhas, entre as quais a nossa de Trindade, da qual só se retiram graças à intervenção da coroa portuguesa. Se não se apossaram de Cabo Verde, foi porque se iludiram com um projeto de fazer de Portugal um preposto do Reino Unido na África.

Todo avanço em política acaba por adquirir dinâmica própria. Ao pretender controlar informalmente a África, através da esquadra e de cônsules que protegeriam o comércio e as pessoas e os lucros dos negociantes britânicos, o Reino Unido encaminhou-se, quase sem possibilidade de recuo, para um império africano, de início não desejado. E algo semelhante sucederia com a França, que tinha talvez ainda maior apetite pelo controle de portos e feitorias.

Por volta de 1870, só estavam em mãos européias a Argélia, o Senegal, Cabo Verde, as possessões portuguesas na Guiné, em Angola e em Moçambique, São Tomé e Príncipe, Lagos e seus arredores, o Cabo da Boa Esperança, os demais territórios ingleses e boers na África do Sul e alguns fortes, entrepostos e outros pontos da Costa e da Contra-Costa. Muitos desses estabelecimentos eram vistos pelos africanos como áreas por eles cedidas em aluguel ou empréstimo, tal como haviam procedido no passado com outras gentes — os diulas ou uangaras, os hauçás, os aros — que entre eles se tinham instalado com fins comerciais. Ingleses e franceses pensavam de modo diferente: tinham esses territórios, por menores que fossem, como protetorados ou sob sua direta soberania. O choque entre as duas concepções era inevitável.

Agravou-o e precipitou-o o terem assumido os britânicos, e atrás deles os outros europeus, o que se chamou de missão civilizadora, e, mais tarde, de fardo Ao homem branco, máscaras de um darwinismo sociológico, que se traduzia, nas relações humanas, em racismo e arrogância cultural. Não havia a menor compreensão pela diferença de modos de vida: tudo o que se afastava dos padrões europeus era uma demonstração de selvageria e barbárie. Os cônsules e administradores de enclaves europeus na África queriam que se transformassem, pela adoção dos modelos prevalecentes na Europa, as estruturas políticas e os costumes sociais das comunidades que os consideravam como hóspedes. Queriam que as diferenças se reduzissem a uma uniformidade imposta de fora, e a imposição desse querer, freqüentemente através de ações armadas, não podia deixar de desembocar no império.

A percepção européia da África era a de um continente vazio, já que quase não tinha brancos, um continente vazio a pedir povoamento e inversões. E, na Europa, sobejavam gente e dinheiro. A África aparecia aos europeus como um El Dorado, com o ouro de Buré, de Lobi, do país achanti e de Sofala, com manadas infindáveis de elefantes e uma infindável produção de marfim, com cobre, ferro e estanho, com alúmen, almíscar, cera, borracha e óleos vegetais, e com extensas terras por cultivar. O Reino Unido, onde se principiara a segunda Revolução Industrial, via multidões de compradores nos africanos, ignorando que esses tinham hábitos de consumo de todo distintos dos europeus. A costurar essa visão prometedora, corria o sonho oitocentista do progresso ilimitado. Dele foram exemplos o famoso projeto, até hoje no papel, da ferrovia transariana e o plano, de todo mirabolante — a beirar as fantasias do Professor Kaximbown, criado por Yantok nas páginas d' O Tico-Tico —, do engenheiro francês Amédée Sébillot, de uma estrada de ferro, combinada com navegação marítima, que ligaria, em apenas duas semanas, Londres ao Rio de Janeiro, através de Agadés, Argel e Ajuda, e, por outro ramo, a capital inglesa Bombaim, via Obock, e a Johannesburg, atravessando o Chade (14).

Do desejo de controle mercantil à ambição do completo domínio colonial, a passagem foi rápida. Em pouco tempo, o Reino Unido de tal modo se considerava o melhor pretendente da África, que chegou a recusar os títulos históricos de Portugal sobre vários territórios que esse tinha por seus em seus mapas, mas onde muitas vezes não possuía tropas permanentes nem colonos. Os britânicos opuseram-se até mesmo à posse portuguesa das duas margens do estuário do Zaire, embora estivessem, bem ou mal, ocupadas, e só a aceitaram tarde demais, depois que os franceses, em 1882, se apoderaram, com Brazza, do atual Congo. Foi então a vez de a França e a Alemanha impugnarem os direitos lusitanos.

O Reino Unido perseguira, durante algum tempo, a quimera de controlar os territórios que se estendiam das praias de Angola às de Moçambique, através de um Portugal que fosse seu sócio menor ou preposto, como o Egito o era em relação ao Sudão. Em 1877, o Embaixador britânico em Lisboa, Sir Robert Morier, sugeriu formalmente ao Foreign Office que se acrescentasse Portugal aos dois estados clientes do Reino Unido na África: o Egito e Zanzibar (15). A proposta deve ter andado de mesa em mesa e talvez tenha parecido supérflua a funcionários que mediam a desproporcionada diferença entre o poder naval e militar britânico e o enlanguescido estado da presença portuguesa na África. O Reino Unido apresentava-se a eles como o herdeiro natural de um império empobrecido, que a história por si só não podia mais justificar.

Entretanto, renascera o interesse português pela África. E tanto Portugal quanto França, Alemanha e Itália multiplicaram as respostas às pretensões britânicas de supremacia ao continente africano. Os portugueses — e disso dá testemunho a travessia do continente por Capelo, Ivens e Serpa Pinto — procuraram consolidar o domínio das terras que separavam Luanda de Lourenço Marques. Não contavam com a resposta arrogante de seus aliados de tantos séculos, o ultimatum de 1890, que obrigou Lisboa a abandonar ao Reino Unido as terras que comporiam mais tarde o Maláui, a Zâmbia e o Zimbabué.

A humilhação portuguesa fluiu naturalmente da interpretação em favor do lobo das resoluções da Conferência de Berlim, reunida entre novembro de 1884 e fevereiro do ano seguinte. Dentre essas resoluções, ressaltava a de que o direito de um país europeu a terras africanas decorria primordialmente de seus títulos de ocupação efetiva e dos tratados assinados com os nativos. A Conferência resultará, aliás, de uma descontrolada e febril busca de acordos de protetorados com reis, régulos e até chefetes de aldeia e da proliferação de ações militares para impo-los. A França, a partir da Argélia e do Senegal, procurava pelo interior, pelo Sael e pelas savanas sudanesas — evitando, assim, ter de enfrentar a supremacia britânica na costa e no oceano —, cercar os enclaves e as zonas sob a esfera de influência do Reino Unido (a foz do Gâmbia, a Serra Leoa, a Costa do Ouro, a Colônia de Lagos, o Protetorado dos Rios dos Óleos e a Colônia do Cabo), bem como os territórios dos Camarões e do Sudoeste Africano, sobre os quais punha as mãos a Alemanha. A Espanha era senhora do Rio do Ouro e de Fernando Pó. E o rei Leopoldo II da Bélgica tornar-se-ia dono em potencial da imensidão do Congo, após ter devaneado apoderar-se de Mato Grosso, no Brasil, para ali fundar o seu império (16).

Na penúltima década do século XIX acelerou-se a corrida pela divisão da África. De fuzil apontado ao peito, sobas africanos cediam o poder a comandantes de tropas européias. Outros assinavam tratados de proteção, na ignorância de que transferiam aos estrangeiros a soberania sobre suas terras e suas gentes: julgavam estar arrendando ou cedendo para uso provisório um pedaço grande ou pequeno de solo, como de praxe, quando um estrangeiro pedia o privilégio e a honra de viver e comerciar entre eles. Não deixavam de espantar-se, por isso, quando dois grupos de brancos de língua diferente disputavam entre si, e às vezes com violência, essa honra e esse privilégio, em vez de em paz compartilhá-los. De vários dos grandes reis africanos as intenções européias não passaram, porém, despercebidas.

Em 1885, Portugal, com a ajuda do então Chachá de Ajuda, Juliano de Souza, logrou firmar com o rei Glelê, do Danxomé, o tratado de Aguanzum, pelo qual se estabelecia o protetorado português sobre o litoral daomeano, dando-lhe em conseqüência direitos sobre o interior. Os franceses, que haviam renovado com o mesmo rei, o acordo de 1878, de cessão de Cotonu, reagiram prontamente, obrigando Lisboa, em 1887, a renunciar a suas pretensões. Para Glelê, porem, tanto o documento assinado com os franceses quanto o ajustado com os portugueses tinha apenas uma significação comercial: correspondia a um aluguel de terras que continuavam sob seu governo e soberania (17). Glelê, ao inteirar-se do que na realidade se passava, não hesitou: mandou prender o Chachá e lhe deu sumiço, acreditando-se que o tenha executado. Esse Juliano de Souza ressuscitara em parte, e talvez sem o saber, o projeto do primeiro Chachá, Francisco Félix de Souza, que, usando o nome do rei Guezô, a quem ajudara a pôr no trono, oferecera a D. Pedro I do Brasil o protetorado sobre o Daomé (18) ou, quando menos, o senhorio do Forte de São João Batista de Ajudá (19).

Completou a Conferência de Berlim uma outra, ainda mais sinistra e ameaçadora, do ponto de vista africano: a de Bruxelas, em 1890. Chamaram-lhe sintomaticamente Conferência Anti-Escravagista, e o texto que nela se produziu é um violento programa colonizador. Tudo dentro da melhor lógica política, pois afinal fora em nome da luta contra o tráfico negreiro e a escravidão que a Europa começara a ocupar a África. Como os europeus partiam do princípio, de todo equivocado, de que na África não havia governos, o artigo primeiro da Ata Geral da Conferência recomendava a "organização progressiva dos serviços administrativos, judiciais, religiosos e militares nos territórios sob a soberania ou o protetorado de nações civilizadas'', a instalação de fortes no interior do continente e nas margens dos rios, a construção de estradas de ferro e de rodagem e a proteção da livre navegação pelas vias fluviais, ainda que em áreas sobre as quais os europeus não tinham sequer arremedos de jurisdição. Uma das principais disposições era aquela que restringia a compra de armas de fogo pelos africanos, por serem eles instrumentos de escravização.

Imposto o domínio colonial, a consciência européia deixou de considerar urgente o fim da escravidão. Esta continuou a existir como atividade legal até 1901 no sul da Nigéria, até 1910 em Angola e no Congo, até 1922 em Tanganica, 1928 na Serra Leoa e 193.5 na Etiópia; e subsistiu de facto por muito mais tempo, até quase os nossos dias no Sudão e até ontem na Mauritânia. Novas formas de servidão viram-se, além disso, criadas pelos administradores coloniais, como o trabalho compulsório, de que deu testemunho, entre tantos outros, o André Gide das páginas indignadas de Voyage au Congo e Le Retour du Tchad.

Também a liberdade de comércio foi esquecida, tão pronto se tornou inútil como bandeira do arremesso imperial. Fez-se a partilha de mercados. Cada metrópole buscou excluir o mais que pôde os demais países dos portos por ela controlados. Fecharam-se para o Brasil, por exemplo, os desembarcadouros africanos, e o Atlântico deixou de ser uma espécie de rio larguíssimo, mas fácil de ser cruzado a partir do Recife, de Salvador ou do Rio de Janeiro.

O cerco completo da África só se dará, no entanto, nos últimos dias do século XIX ou nos primeiros do Novecentos. E será de breve duração. Se abstrairmos as áreas costeiras das possessões portuguesas, a colônia do Cabo e os territórios boers, a fase colonial da África é a mais curta de sua longa história. Subsistiu durante meio século. Um pouco mais, em alguns casos. Um pouco menos, em outros. Em algumas áreas, por exemplo, foi somente uma espécie de roupagem para inglês e francês verem, pois, havendo, por conveniência política, a metrópole européia conservado as estruturas de poder africanas, eram estas que resolviam o dia-a-dia do povo, exerciam a polícia e julgavam em primeira instância, segundo o direito costumeiro ou a sharia islâmica.

Os impérios, reinos e cidades-estado da África eram entidades políticas inexistentes para os diplomatas europeus que participaram das Conferências de Berlim e de Bruxelas. Não os tinham como interlocutores. Mas, quando seus países tiveram de ocupar os terrenos que dividiram no mapa, e seus militares de tornar efetivos tratados de protetorado que para os soberanos da África eram contratos de arrendamento ou empréstimo de terras, toparam a resistência de estados com firmes estruturas de governo e povos com forte sentimento nacional.

Venceram-nos, graças aos fuzis de cartucho e de fechadura a ferrolho, à metralhadora e aos canhões sobre rodas, contra os quais os africanos opunham a lança, a azagaia, o arco-e-flecha, as espingardas de pederneira ou de agulha e cápsula fulminante, que se carregavam pela boca, e os velhos canhões imobilizados no solo ou de difícil transporte. Venceram-nos porque souberam jogar os povos vassalos contra os senhores e os inimigos tradicionais uns contra os outros. Assim, os britânicos usaram os ibadãs contra Ijebu Ode e os fantes contra os achantis. Assim, os franceses juntaram às suas tropas as de Quêto, para dar combate ao Danxomé, e as bambaras, para fazer frente aos tucolores de Ahmadu. Venceram-nos, mas algumas vezes com grande dificuldade e após demorada luta.

Em oito guerras enfrentaram-se achantis e britânicos. Em 1896, estes últimos entraram finalmente em Kumasi e enviaram Prempeh I, o achantehene, para o exílio nas Seichelles. Quatro anos mais tarde, os achantis, sob o comando da rainha-mâe Yaa Ashatewa, ergueram-se de novo em armas, para serem de novo derrotados. Baixaram a cabeça aos ingleses por apenas pouco mais de meio século, pois em 1954 a República de Gana, da qual o país achanti faz parte, tornou-se independente.

Os franceses enfrentaram com armas e diplomacia, durante mais de 35 anos, El Haji Omar ben Said Tall, que construíra um vasto império no alto Senegal e no alto Niger, e seu filho e sucessor, o sultão Ahmadu. A derrota desses tucolores só se deu, após numerosas campanhas militares, em 1892.

O Danxomé só foi verdadeiramente dominado, com a captura de Béhanzin, em 1894. E por dezesseis anos os franceses tiveram de combater, na Guiné, na Costa do Marfim, no norte de Gana e na Libéria, o grande Samori, antes de aprisioná-lo em 1898. O império fula-hauçá de Socotô só se renderia, com a morte do sultão Atahiru Ahmed, em 1903, já em nosso século.

A imagem que fica de tudo isso é a de uma África, no século XIX, governada essencialmente por africanos, e na qual, na maior parte dos casos, os europeus não se diferenciavam dos diulas, dos hauçás, dos árabes, dos fulas e de outros grupos que se incrustavam, como mercadores ou pastores, em reinos e cidades a que pelo sangue não pertenciam. Um mapa da África em 1880 mostra que ainda ocupavam a maior parte dos espaços geográficos entidades políticas soberanas como o reino tucolor de El Haji Omar, o império móvel de Samori, os reinos de Futa Jalom, Achanti, Danxomé, Benim e Bamum, Oió e numerosas cidades-estado iorubanas, os sultanatos de Socotô, Bornu e Uadai, o califado mahdista, a Etiópia, o reino vátua do Gungunhana, para ficar em alguns exemplos, além de milhares de aldeias-estado sob o comando de régulos, chefes de linhagens e conselhos de notáveis.

Durante o período colonial, muitas dessas estruturas de poder persistiram, como se fossem vassalas, tanto naquelas partes onde se adotou o governo indireto, preconizado por Lord Lugard, quanto em outras, nas quais os administradores europeus não puderam dispensar a intermediação dos régulos tradicionais. Em alguns lugares, tendo os europeus substituído por um pau mandado o soba ou chefe legítimo, este continuou a receber clandestinamente a obediência de seus súditos e a sacrificar aos seus deuses e ancestrais. Muitas vezes, para melhor ocultá-lo, valeram-se do chefe de palha, do falso chefe, que se fez visível como se fora o verdadeiro líder, o qual continua a mandar em segredo.

É muito possível que no Brasil tenha havido chefes africanos embuçados em escravos e libertos comuns, e que tenham também existido chefes de palha,, para iludir os senhores. Até hoje não se estudaram, de uma perspectiva basicamente africana, os quilombos, os reisados, os maracatus, as irmandades católicas negras e os próprios candomblés, como persistências e adaptações de estruturas políticas da África no Brasil.

Na sua obra sobre as danças tradicionais brasileiras, Mário de Andrade (20) conta como se processava a saída de um maracatu no Recife. Descreve os rituais em torno da calunga carregada pela dama do passo, e com grande intuição, afirma que a boneca tinha um sentido político. Tinha. Na África e também, no passado, possivelmente, no Brasil. Calunga é um símbolo de poder em Angola. Pode ter continuado como tal no maracatu, um cortejo real africano. Quem sabe se o maracatu não era um modo de manter vivo no exílio um sistema de solidariedade e obediências? Quem sabe se o maracatu não era, sob o disfarce de bloco festivo, o modo que tinha um rei oculto de mostrar-se aos seus ou de afirmar a sua presença através de um chefe de palha,, que, como se estivesse na África, desfilava, entre marcha e dança, sob os grandes pára-sóis?

O que seria de estranhar-se é que assim não fosse, tão intensas foram as relações e as trocas entre as duas margens do Atlântico. O Brasil é um país extraordinariamente africanizado. E só a quem não conhece a África pode escapar o quanto há de africano nos gestos, nas maneiras de ser e de viver e no sentimento estético do brasileiro. Por sua vez, em toda a outra costa atlântica podem-se facilmente reconhecer os brasileirismos. Há comidas brasileiras na África, como há comidas africanas no Brasil. Danças, tradições, técnicas de trabalho, instrumentos de música, palavras e comportamentos sociais brasileiros insinuaram-se no dia-a-dia africano. E comum que lá se ignore que certo prato ou determinado costume veio do Brasil. Como, entre nós, esquecemos o quanto nossa vida está impregnada de África. Na rua. Na praça. Na casa. Na cidade. No campo. O escravo ficou dentro de todos nós, qualquer que seja a nossa origem. Afinal, sem a escravidão o Brasil não existiria como hoje é, não teria sequer ocupado os imensos espaços que os portugueses lhe desenharam. Com ou sem remorsos, a escravidão é o processo mais longo e mais importante de nossa história.

Notas

Revista Estudos Avançados - USP