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quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Mergulho para a morte


Quem eram os Kamikazes e por que, para eles, o suicídio era uma saída mais aceitável que a derrota. 
 Da Redação

Fernanda Campanelli Massarotto

Eis-me finalmente incorporado às Unidades Especiais. Os 30 dias que restam vão ser minha verdadeira vida. Chegou a hora. O treinamento para a morte me espera: um aprendizado intenso para morrer com beleza. Parto para o combate contemplando a imagem trágica da pátria. Sou um homem entre outros. Nem bom nem mau. Nem sou superior nem sou um imbecil. Sou decididamente um homem.”

A carta acima, escrita em 22 de fevereiro de 1945, é a última mensagem do piloto japonês Okabe Hirabazau para sua família. Dias depois ele morreria, aos 24 anos, em um ataque aéreo suicida às Filipinas realizado pela Marinha do Japão. Hirabazau integra um contingente de mais de 20 000 jovens, adolescentes e até meninos que se engajaram na desesperada estratégia japonesa para não perder a disputa para os Aliados. Eram os kamikazes.

A explicação para essa entrega total pode ser encontrada no passado japonês. A Segunda Guerra mexeu com os brios do Japão. Até então, a história militar do país foi repleta de vitórias. Ninguém jamais conseguiu invadir a ilha. O Japão, ao contrário, subjugou todo o Sudeste Asiático. Primeiro derrotou a China, no final do século XIX (1895), na Guerra Sino-Japonesa. Depois, incorporou parte da Coréia, em 1910. E, por fim, dominou a Mandchúria, em 1931, consolidando o império nipônico. Mesmo durante a Segunda Guerra, até certa altura do conflito o Japão só havia conhecido vitórias: muitas ilhas do Pacífico e parte da Tailândia foram anexadas.

O domínio japonês no Pacífico só estremeceu com a entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra, em resposta a um ataque da Marinha japonesa ao porto americano de Pearl Harbor, situado na ilha de Oahu, no Havaí, em 7 de dezembro de 1941. Em pouco tempo, a Marinha e o Exército do imperador Hiroito (1926-1989, era Showa) colecionaram derrotas frente ao fogo americano. Na pequena ilha de Saipan, capital das Ilhas Marianas do Norte, parte da Federação dos Estados da Micronésia (oeste da Oceania), em uma única batalha, em julho de 1944, morreram 12 000 americanos contra mais de 130 000 japoneses. Uma proporção de dez baixas orientais para cada baixa americana.

O efeito dessa desvantagem sobre o Japão dos anos 40 faz parecer até natural o nascimento de um impulso suicida entre os jovens nipônicos. Os milhares de mortos envergonhavam o país, mas a imprensa de Tóquio os exaltava e descrevia a ação dos mártires como exemplos a serem seguidos. Os rapazes, como que expiando a humilhação nacional, colocavam-se às centenas à disposição das Forças Armadas. A lealdade às tradições do país e ao imperador deu o impulso que faltava, e toda uma geração entregou-se às armas, disposta a tudo para não perder a guerra para os americanos – chamados de chikucho (algo como “besta inumana”). Por fim, o rígido código de honra militar japonês sugeria uma única saída para uma guerra que, àquela altura, estava claramente perdida: a morte. Os kamikazes (kami é “deus” e kaze é “vento”, em japonês) são a faceta mais contundente desse espírito nacional.

O criador da ação kamikaze foi o almirante da Marinha Takajiro Onishi. Em 19 de outubro de 1944, Onishi comunicou a seus pilotos que os americanos haviam desembarcado nas Filipinas. A batalha naval estava próxima, e os métodos tradicionais não seriam suficientes para deter os inimigos. Havia, porém, uma esperança. Aviões de caça do tipo Zero, armados com uma única bomba de 250 quilos, se chocariam contra navios inimigos. A ousadia e o poder destruidor do ataque seriam fatais.

Faltava apenas encontrar voluntários para o mergulho mortal. Em qualquer sociedade ocidental, seria impensável pedir a um soldado que cometesse um suicídio altruísta. Não há registro de situação similar na história das guerras no Ocidente. Missões militares sempre comportam risco de vida. Mas o que dizer de abdicar dela de antemão? No Japão da década de 40, encontrar jovens corajosos com data e hora marcadas para morrer não foi um problema. Invocou-se a ética guerreira. Quem não encarnaria de bom grado o “vento dos deuses”? Que honraria maior do que personificar o “tufão divino” contra os inimigos?

Logo de início, os ataques dos kamikazes operaram muitos estragos na armada inimiga, que não sabia como reagir a esse tipo de ação. Os números comprovam a eficácia da estratégia: 57 navios inimigos foram afundados; 108 totalmente destruídos; 83 parcialmente destruídos e 206 danificados. Os momentos de glória eram desfrutados antes e depois das missões. Toda a esquadrilha se reunia e compartilhava, com os que iam partir, uma última dose de saquê, tradicional aguardente de arroz japonesa. Nas fotografias remanescentes da época, é possível ver o sorriso sereno dos jovens a caminho da morte. Na testa, uma faixa branca com um sol vermelho.

As unidades de combate kamikaze, na verdade, retomavam o espírito dos antigos samurais, guerreiros japoneses da Idade Média. “Mas não podemos pensar que os kamikazes foram os samurais do Japão moderno”, diz o doutor em história moderna do Japão Takane Kawashima, da Universidade de Meiji, em Tóquio, que publicou um estudo, em 1994, sobre o sentimento da população japonesa durante o conflito. “Há, simplesmente, a transposição do sacrifício pelo senhor feudal para a morte pelo imperador, em nome de uma lealdade radical. O samurai realizava o haraquiri, o corte do próprio ventre, uma morte solitária. O kamikaze, ao morrer, levava o inimigo consigo.”

Embora muito se tenha falado nas razões do espírito para justificar a ação kamikaze, os milhares de pilotos suicidas jamais foram movidos pela religião. O xintoísmo e o budismo, as duas principais religiões no Japão, condenam o suicídio. O Japão da era Meiji, que começou em 1872 com a abertura do país ao resto do mundo e encerrou-se com a derrota na Segunda Guerra, era fortemente influenciado pelos valores de Confúcio, filósofo chinês que viveu entre 551 a 479 a.C. Para o confucionismo, a família é a base da sociedade. E as relações de pai e filho são fundamentais. O Estado, por sua vez, é visto como uma grande sociedade familiar em que o imperador funciona como o pai. “A moral confuciana não é favorável ao suicídio. Mas suas idéias de obediência conduzem à devoção absoluta em relação ao soberano”, afirma Eduardo Basto, historiador especialista em religião da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp).

O primeiro ataque kamikaze ocorreu em 25 de outubro de 1944, durante a batalha de Samos, na costa de Leyte, nas Filipinas. As unidades especiais de ataque por choque corporal, os tokkotai, eram compostas por 25 pilotos suicidas, ou tokko. Um sucesso, a princípio, as investidas kamikazes foram, com o tempo, revelando seu preço: a extinção dos pilotos de elite. Foi preciso então formar pelotões inexperientes. Os jovens japoneses foram convocados a entrar na guerra e, prontamente, atenderam ao chamado. Muitos eram universitários. Estudantes da área jurídica e literária eram prontamente aceitos. Os cientistas eram poupados, pois se considerava que eles seriam mais úteis para o futuro do país. Morrer aos 20 anos podia não fazer parte dos planos daqueles jovens, mas o dever de obediência ao imperador era mais forte.

“Até 1945, os japoneses cultivavam uma adoração extrema ao imperador, que era visto como o filho da divindade solar, uma filosofia básica do xintoísmo, a religião mais popular do Japão”, diz Eduardo Basto. “Hiroito só foi abdicar desse poder ‘divino’ em janeiro de 1946, por exigência dos americanos, depois que o Japão se rendeu, em 15 de agosto de 1945, e começou o período de ocupação americana no país, que durou até abril de 1952.”

Os japoneses ouviram em meio às lágrimas o discurso de rendição do soberano. Foi o episódio mais amargo da história do país. “Ponho um fim a esta guerra por minha própria autoridade”, anunciou Hiroito. Mas, para surpresa até dos mais céticos, em poucos meses, a paz determinaria a morte do caráter divino imperial: os ultranacionalistas se resignaram e o povo acolheu sem revoltas o pedido superior. No entanto, alguns militares da Marinha e do Exército, inconformados com a derrota, invocaram os samurais e suicidaram-se cometendo haraquiri. Entre eles estava o criador das missões kamikazes, o almirante Onishi. Estrategicamente, os Aliados conservaram o imperador no poder. Temia-se que o imperador se matasse e o mundo assistisse a um suicídio em massa. De fato, sacrificar a vida (jusshi reuisho, em japonês) pelo país era uma obrigação da família real. E uma honra, uma regra de conduta que não poderia ser evitada para os cidadãos comuns.

Quem se rebelasse envergonharia toda a família. Dinastias com séculos de história podiam cair em desgraça na sociedade.

Foi precisamente a devoção à pátria e ao imperador que levou Kiyoshi Tokudome, então um garoto de 15 anos, a se alistar na Marinha japonesa em maio de 1944. Tokudome hoje tem 71 anos. Vive há 45 no Brasil. Ele dirige a Associação Cultural Kagoshima do Brasil, que leva o nome de sua província natal, no sul do Japão. Tokudome, ao entrar para a Marinha, foi enviado para um campo de aviação em Nagasaki. Segundo ele, o aprendizado não foi fácil. Com o avanço das tropas Aliadas, o curso de oito estágios com duração de três anos acabou reduzido para quatro semestres. O cronograma ficou apertado. O dia inteiro era preenchido com treinamento militar em aulas práticas e teóricas, manuseio de equipamentos, mecânica e simulações de vôo.

“A rotina começava às seis da manhã e muitas vezes se estendia até tarde da noite.” Caso os regulamentos fossem infringidos, as punições eram severas. Era muito comum os futuros pilotos serem esbofeteados pelos superiores. E jamais reclamavam. “Nossa educação baseava-se nos princípios de disciplina, lealdade, obrigação, devoção e soberania”, afirma Kawashima, da Universidade de Meiji.

A possibilidade de se tornar um prisioneiro de guerra não era concebida entre os militares japoneses. Cair diante do inimigo era considerado uma espécie de morte muito menos honrosa que o suicídio. “A maioria dos japoneses não imaginava uma guerra sem vitória. Não haviam sido educados para ser prisioneiros”, diz Kawashima. “Caso isso viesse a acontecer, por que não abraçar o fim na forma de um suicídio altruísta, abnegado, que reverenciasse os samurais?”

Para saber mais
Na livraria
Kamikaze, Piloto Suicida, Saburo Sakai e Martin Caidin, Ibrasa, 1975
O Suicídio, Emile Durkheim, Martins Fontes, 2000
O Crisântemo e a Espada, Ruth Benedict, Perspectiva, 1997
A Morte Voluntária no Japão, Maurice Pinguet, Editora Rocco, 1987

Na internet
http://www.japanbrazil.com
http://www.geocities.com/kamikazes_web/index.html
http://www.tcr.org/kamikaze.html
Revista Superinteressante

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Reconstrução transformou Hiroshima em 'cidade da paz'



Reconstrução transformou Hiroshima em 'cidade da paz'
Explosão de bomba nuclear pôs fim a décadas de tradição militar de cidade japonesa

Luísa Pécora, iG


A bomba atômica lançada pelos EUA em Hiroshima durante a 2.ª Guerra Mundial provocou uma verdadeira mudança de identidade na cidade japonesa. Com tradição militar desde a era Meiji (1868-1912), Hiroshima adotou o conceito de cidade da paz como base para seu processo de reconstrução.

Até 1945, Hiroshima era sede de importantes instalações das Forças Armadas japonesas e de fábricas que produziam materiais utilizados pelo Exército. A explosão da bomba atômica, em 6 de agosto, destruiu 40% da cidade e matou 140 mil pessoas. Nos anos seguintes, doenças relacionadas à radiação elevaram o número de mortos para 253 mil, segundo o governo japonês.

O mesmo efeito devastador de longo prazo ocorreu em Nagasaki, atingida por outra bomba nuclear três dias depois. Apenas em 1945, 70 mil pessoas morreram, número que passou para 143 mil nos anos seguintes. A tragédia que atingiu as duas cidades levou o Japão a se render em 15 de agosto.




Segundo Hidaki Shinoda, professor da Universidade de Hiroshima, a bomba atômica destruiu completamente o propósito da antiga cidade militar. "Hiroshima perdeu tudo, inclusive sua identidade", afirmou em entrevista ao iG.

Autor do estudo "Post-War Reconstruction of Hiroshima as a Case of Peacebuilding" (A Reconstrução de Hiroshima no Pós-Guerra como Caso de Construção da Paz, em tradução livre), Shinoda argumenta que a mudança de identidade foi uma "necessidade", já que a própria participação do Japão no conflito terminou seis dias depois do bombardeio. Não era possível restaurar uma cidade militar no Japão pós-guerra, por isso uma nova base era necessária, escreve.

Em novembro de 1945, o governo japonês iniciou um plano de reconstrução que incluiu 119 cidades destruídas durante a guerra. Em Hiroshima, foram construídas casas temporárias próximas a estradas, e revitalizadas ruas, parques e escolas, em um processo que empregou cerca de 100 mil pessoas.

Um passo fundamental foi dado em 1949, com a promulgação do ato de construção do Parque Memorial da Paz. Projetada pelo arquiteto japonês Kenzo Tange e inaugurada em 1954, a área está localizada no antigo distrito de Nakajima. A bomba destruiu o local, até então um dos principais centros comerciais de Hiroshima, onde viviam 6.500 pessoas. As construções que ficaram em pé, ainda que parcialmente, foram preservadas no projeto do parque, que tem cerca de 122.100 metros quadrados e abriga um museu sobre a tragédia.

Para o professor Shinoda, era preciso dar à população um lugar onde obter informações e refletir sobre o acontecimento. Se a bomba atômica fosse esquecida ou lembrada apenas com ódio e sofrimento, a nova cidade da paz não conseguiria avançar em sua reconstrução, afirmou. O mais difícil é reconstruir a mente de pessoas que estão tomadas pela raiva e pela perda.

Shinoda relembra que, quando o parque foi inaugurado, a direita japonesa criticou o governo por gravar em um dos monumentos a frase "nunca repita esse erro", sem especificar qual país lançou a bomba. "A intenção oficial era fazer do ataque a Hiroshima um chamado mundial ao pacifismo, para que a população não sentisse raiva dos Estados Unidos quando lembrasse do que aconteceu", explicou.

Com Reuters
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quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Ataques nucleares a Hiroshima e Nagasaki precederam Guerra Fria



Ataques nucleares a Hiroshima e Nagasaki precederam Guerra Fria
EUA e URSS não se enfrentarem de forma direta no período, marcado por coalizões militares, corrida nuclear e disputa econômica

Em 15 de agosto de 1945, nove dias depois da explosão nuclear em Hiroshima e seis após a de Nagasaki, o Japão anunciou sua rendição aos Aliados, liderados por Grã-Bretanha, Estados Unidos e ex-União Soviética. Em 2 de setembro, o país asiático assinou o Instrumento de Rendição, oficialmente pondo fim à Guerra do Pacífico travada na Ásia e, portanto, à Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

O conflito armado foi sucedido pela Guerra Fria (1947–1991), período de conflito político, tensão militar e competição econômica que existia primordialmente entre a União Soviética e seus Estados satélites e os países Ocidentais, em particular os EUA.

Embora as principais forças militares nunca tenham se enfrentado oficialmente de forma direta (característica que deu o nome ao conflito), eles expressaram o confronto por meio de coalizões militares, posicionamento de forças convencionais estratégicas, amplo auxílio financeiro a Estados considerados vulneráveis, guerras indiretas travadas nos territórios de outros países, espionagem, propaganda, corrida de armas nucleares e competições econômicas e tecnológicas, como a Corrida Espacial.

Apesar de serem aliados contra os poderes do Eixo (liderados por Alemanha, Itália e Japão) e terem as forças militares mais poderosas entre as demais nações, a URSS e os EUA divergiram sobre qual teria de ser a configuração do mundo enquanto ocupassem a Europa, onde o conflito começou com a invasão da Polônia pela Alemanha nazista.

A URSS estabeleceu o Bloco Oriental com os países que ocupou no leste da Europa, anexando como Repúblicas Socialistas Soviéticas e mantendo outros como Estados satélites, oito dos quais foram mais tarde consolidados na aliança militar do Pacto de Varsóvia (1955–1991).

Os EUA e alguns países da Europa Ocidental estabeleceram a contenção do comunismo como uma política de defesa, criando alianças como a Organização do Atlântico Norte (Otan) com esse objetivo.

Vários desses países também coordenaram o Plano Marshall, especialmente na Alemanha Oriental, ao qual a URSS se opôs. O plano foi o principal projeto dos EUA para reconstruir e criar uma fundação econômica mais forte para os países da Europa.

Em outros lugares, como a América Latina e o Sudeste da Ásia, a ex-URSS ajudou a desencadear revoluções comunistas, que sofreram oposição de vários países ocidentais e seus aliados regionais. Alguns países se alinharam à Otan e outros ao Pacto de Varsóvia, enquanto outros formaram o Movimento de Países Não-Alinhados.

A Guerra Fria foi caracterizada por períodos de relativa calma e de alta tensão internacional - o Bloqueio de Berlim (1948-1949), a Guerra da Coreia (1950-1953), a Crise de Berlim de 1961, a Guerra do Vietnã (1959-1975), a Crise dos Mísseis de Cuba (1962), a guerra soviética no Afeganistão (1979–1989). Ambos os lados buscaram contenção para aliviar tensões políticas e evitar um ataque militar direto, que provavelmente resultaria em sua destruição mútua com armas nucleares.

Nos anos 80, os EUA aumentaram suas pressões diplomáticas, militares e econômicas na União Soviética, em um momento em que o país sofria estagnação econômica. No final dessa década, o presidente soviético Mikhail Gorbachev introduziu as reformas liberalizantes da perestroika ("reconstrução", "reorganização", 1987) e glasnost ("abertura", 1985).

A Guerra Fria acabou após o colapso da União Soviética em 1991, deixando os EUA como o poder militar dominante, e a Rússia possuindo a maior parte do arsenal nuclear da ex-URSS.
http://ultimosegundo.ig.com.br

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Kamikaze Diaries - Pátria e morte


Pátria e morte

Emiko Ohnuki-Tierney

Perto do final da Segunda Guerra, quando a invasão do Japão por tropas dos Estados Unidos parecia iminente, o vice-almirante Onishi Takijiro criou as Unidades Especiais de Ataque por Choque. Elas incluíam aviões comandados por pilotos kamikazes, os tokkōtai, que deveriam produzir o milagre da defesa da nação, cercada de porta-aviões inimigos tidos como indestrutíveis. Para tanto, os pilotos suicidas deveriam conduzir um avião carregado de explosivos a um choque direto e devastador contra um navio inimigo.

Quando a operação tokkōtai foi criada, em outubro de 1944, nem um único oficial treinado nas academias militares japonesas se apresentou como piloto voluntário – todos sabiam que se tratava de missões suicidas.

Os “voluntários” foram perto de 3 mil “meninos-soldados”, nome dado às levas de adolescentes recém-recrutados como parte do esforço de guerra. Outros mil eram “soldados-estudantes”, universitários formados às pressas pelo governo para entrar nas fileiras militares.

Os soldados-estudantes formavam um grupo excepcional. Eles eram cosmopolitas e cultos, dados a reflexões profundas, fruto do exigente currículo escolar japonês. Era obrigatório o estudo de duas línguas estrangeiras, além do latim. Quem tivesse optado pelo alemão, por exemplo, recebia como dever de casa, já na primeira aula, ler Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe. E no original, antes mesmo de o aluno ter sido apresentado ao alfabeto romano. Também era avaliada a leitura da Crítica da Razão Pura, de Immanuel Kant. O fato de o aluno não entender quase nada, e ser obrigado a reler o texto à exaustão, destinava-se a torná-lo consciente de sua ignorância e do quanto deveria estudar.

Outra característica fundamental: enquanto os soldados alemães eram treinados para matar, os japoneses eram adestrados para morrer. Rendição, fuga, rebeldia, qualquer ato para salvar a vida diante da derrota incontornável eram punidos com a morte. Todo soldado que desobedecesse ao regulamento militar, ou a alguma ordem de superior, era fuzilado na hora. E uma ofensa dessa natureza podia levar à punição dos parentes imediatos do soldado.

Como primeira lição, o soldado-estudante aprendia a usar o rifle para se matar antes de ser capturado. Era-lhe ensinado a acionar o gatilho usando o dedão do pé – tendo por alvo um ponto preciso abaixo do queixo, para a morte ser instantânea.

Ser piloto tokkōtai significava morte certa, e por isso a oficialidade de alta patente imprimiu-lhe a falsa característica de voluntariado. Na maioria das vezes, todos os membros de uma unidade eram convocados a se apresentar num salão comum. Convidavam-se os recrutas a dar um passo à frente caso quisessem aderir à honra de dar a vida pela pátria. Ou o inverso: aqueles que não quisessem se tornar pilotos suicidas deveriam dar um passo à frente. Poucos resistiam à pressão.

O retrato idealizado desses jovens, promovido pelo governo militar da época, corresponde ainda hoje ao estereótipo do kamikaze – eles são vistos como a encarnação moderna dos bravos guerreiros, honrados por poderem se sacrificar pelo imperador.

Kamikaze Diaries: Reflections of Japanese Student Soldiers, livro da acadêmica americana Emiko Ohnuki-Tierney,corrige essa distorção. A seguir, trechos desses diários.



SASAKI HACHIRŌ

O pai de Sasaki Hachirōfez o possível para dissuadir o filho de ser voluntário para a missão de piloto kamikaze. Não tendo conseguido, jamais voltou a lhe dirigir a palavra. Mesmo quando Hachirō, com 22 anos de idade, veio se despedir, o pai saiu de casa e só retornou na manhã seguinte. Terminada a guerra, a família recebeu uma notificação da morte de Hachirō, junto com uma medalha e uma pequena soma de dinheiro. Sem dizer nenhuma palavra, o pai pegou o dinheiro, foi até uma loja de bebidas, comprou saquê e o bebeu sozinho.



10 de fevereiro de 1940_Finalmente invadimos Cingapura. O número de vítimas civis deve ter sido grande. Crueldade da guerra. Cega a esse tipo de questões, a história continua sua marcha diária.



13 de abril_Soa a sentimentalismo, mas, se você precisa morrer, que seja de forma bela.



12 de outubro_O idealismo não é nem uma ideologia fixa nem uma autoridade absoluta.



1º de novembro_Para quem vive no século XX, é preciso saber encontrar a síntese entre o mais passivo e o mais agressivo polo de racionalismo e ativismo... O racionalismo é por demais objetivo e o ativismo, subjetivo em demasia. Como sustenta Heidegger, estamos na história. Ela não nos precede quando nela adentramos. A partir do momento em que nascemos, estamos na história. Somos o sujeito que vive no objeto. (...)

(...)Prefiro pensar que “inevitabilidade” é mais importante do que “necessidade”. Devemos sempre nos empenhar em stirb und werde! [“morra e seja”, ou crescimento por meio da morte]. Estou sinceramente feliz por estar vivo... O que mais importa é a liberdade da vontade, liberdade de espírito em meio ao caos do presente... Obediência cega sem vontade livre não constitui uma resposta ao nosso caos.



16 de abril de 1941_Quantos realmente morrem de “morte trágica” nessa guerra? Estou convencido de haver várias mortes cômicas disfarçadas de mortes trágicas. À primeira vista, ambas são iguais. Mas mortes cômicas camufladas de trágicas não deixam transparecer a alegria de uma vida. Estão cobertas de agonia sem valor ou sentido. Ou seja, são duplamente negativas, o que as torna cômicas.



14 de setembro_Foi anunciado que todos os japoneses devem trabalhar em indústrias vitais para o esforço de guerra. Isso significa que há pessoas saboreando néctar enquanto ignoram o esforço árduo e a humanidade dos japoneses. O que é patriotismo? Como tolerar a matança de milhões de pessoas e a privação de liberdades básicas de bilhões de outras por causa de noções abstratas como patriotismo e pátria?



9 de dezembro_Não consigo me sentir eufórico com as vitórias do Japão na guerra. Sinto ansiedade. Também me preocupo com os rumos do capitalismo depois do fim da guerra.



15 de dezembro_Dado que vivobem, sob a benevolência da nação deste imperador, não me recusaria a me alistar, se chamado. Não sou fraco a ponto de me sentir esmagado pela guerra. Mas faço questão de declarar minha oposição a todas as guerras.



26 de janeiro de 1942_Sei que posso morrer a qualquer momento, e por isso deixo tudo o que é meu arrumado; vivo uma vida organizada e tiro fotografias para a posteridade.



1º de março_Hoje presto exame de admissão para economia na Universidade de Tóquio. Usei meu uniforme de sempre, mas minhas roupas íntimas estavam limpas e novas. Acho que escrevi um ensaio singular sobre a questão da nossa história e da história do Ocidente. Também acho que fui bastante audacioso na resposta sobre a crítica literária contemporânea. Portanto, não sei como serei avaliado. Em retrospecto, penso que poderia ter me saído melhor, mas se for reprovado isso significa que eles não têm a mais vaga ideia do meu potencial. Uma das perguntas foi tirada da obra de Tanabe Hajime, Rekishiteki-geniitsu [Realidade Histórica, sem edição em português]. Fico deprimido ao pensar o quanto esse livro me impressionou no passado. Ele é dogmático e cheio de fios soltos. Não é nada além de raciocínio vazio.



4 de março_Achei uma aranha minúscula dentro do meu livro. Num impulso de malvadeza, aproximei meu cigarro da aranha, que se pôs a correr freneticamente. Coloquei o cigarro aceso à sua frente, ela mudou de rota. Repeti o ato várias vezes até a aranha se imobilizar. Deixei-a sossegada por um tempo. Num novo impulso, aproximei o cigarro aceso por cima, e ela voltou a correr. Continuamos assim por uns dois minutos. Ela então cansou, encolheu as pernas e tornou-se imóvel mesmo sem ter sido tocada pela brasa do cigarro.

É possível que, para essa aranha, o tamanho do livro seja o do Japão, e cinco minutos sejam cinco ou dez anos. Durante esse período, e nesse espaço, onde quer que ela fosse, havia fogo. E quando ela parou, o fogo veio de cima... Se isso acontecer a um ser humano, ele enlouquece. A aranha não entendia de onde vinha aquela chama. Seres humanos também perdem.

Desejo me tornar um homem capaz, mesmo que a grande custo. Capaz de identificar objetivamente a causa do problema, e transmitir esse conhecimento à geração seguinte. Feito isso, posso morrer. Através da alegoria da aranha traço um retrato doloroso do povo japonês nestes tempos de guerra – sem entender o que ocorre, ele corre sem rumo, em busca de uma saída para a situação impossível causada pela guerra.



Abril_Os militares: bando de loucos!



Junho_Todos os livros escritos pelos marxistas [japoneses] são demagógicos, combativos ou parecem ensaios de estudantes secundários que descobriram a filosofia. Perdi a ingenuidade de me deixar levar nessa demagogia. Lamento por Marx ser divulgado através desses sujeitos.



Abril de 1943_[A notícia da morte do almirante Yamamoto Isoroku angustia Sasaki. Yamamoto opusera-se inicialmente à entrada do Japão na guerra, argumentando que o país não aguentaria seis meses, mas acabou designado para comandar o ataque a Pearl Harbor. Seu bombardeiro Mitsubishi “Betty” foi derrubado por caças americanos numa emboscada, causando profunda comoção à nação. Sasaki pensa em se apresentar como piloto suicida voluntário e morrer.] Sou um mero ser humano. Por vezes, meu peito explode de excitação quando imagino o dia em que vou decolar rumo ao céu. Treinei corpo e alma o quanto pude, e anseio pela chegada do dia de usar em combate todo o meu potencial. Minha vida e morte pertencem à missão. Mas há vezes em que invejo os estudantes de ciências que continuam em casa, isentos do serviço militar. Invejo os que se tornarão bibliotecários, engenheiros ou médicos, e escaparam do recrutamento. Sou atraído pela minha segunda alma terrena. Tenho duas almas escondidas dentro de mim, e cada uma desponta com os estímulos externos da minha mente. Uma de minhas almas olha para o céu, enquanto a outra sente atração pela terra. Gostaria de me alistar na Marinha o quanto antes, para poder me dedicar à minha tarefa. Tomara que passem logo os dias em que me sinto atormentado por pensamentos tolos.



11 de junho_[O desembarque das tropas americanas na ilha Attu desencadeia um longo solilóquio de Sasaki Hachirōsobre marxismo e capitalismo.] Vejo sinais de um novo ethos para uma nova era. Se o poder do velho capitalismo é algo do qual não conseguimos nos libertar a menos que ele seja esmagado pela guerra, estaremos transformando um desastre num fato positivo. Estamos em busca de uma fênix saída das cinzas. Mesmo que o Japão sofra uma ou duas derrotas, ele não será destruído se conseguir sobreviver. Não sou pessimista, mas não podemos negar a realidade. Temos de olhar para frente, superar os tempos difíceis. Nesta encruzilhada crítica da história, não podemos deixar que velhos capitalistas e militares irracionais se agarrem ao velho regime. Nós, os jovens, precisamos arcar com a responsabilidade de fazer nascer um novo mundo.



Novembro_Não sei se esperam que eu vença esta guerra, mas vou lutar o quanto puder... Rezo para que chegue logo o dia em que possamos saudar um mundo no qual não devamos matar inimigos que não conseguimos odiar. Para esse fim, estou disposto a ter meu corpo destroçado inúmeras vezes.



Dezembro de 1944_Finalmente vou para a Marinha. Treinei meu corpo praticando natação, ginástica e tiro ao alvo. Sinto-me confiante na minha força. Devemos agora tornar-nos escudos para garantir vida eterna à nossa nação e prevenir o avanço do inimigo. Meus estudos universitários são importantes, mas a disciplina que escolhi (economia), que é pragmática e socialmente relevante, será mais bem exercida se eu tiver um treinamento militar. E, mesmo que eu venha a tombar, a sociedade não depende de um só indivíduo.



20 de fevereiro de 1945_[Todos os soldados-estudantes foram reunidos num saguão da Universidade Imperial de Tóquio e “convidados” a se inscrever na lista de pilotos suicidas “voluntários”.]



14 de abril_[Sasaki Hachirōmorre aos 22 anos e 9 meses de idade.]





HAYASHI TADAO

O diário manuscrito de Hayashi Tadao foi compilado e editado por seu irmão mais velho, Katsuya, vários anos após o fim da guerra. As forças de ocupação americanas haviam imposto uma rígida censura ao Japão. Diários como o de Tadao eram confiscados. O irmão de Hayashi também quis dar tempo para que os próprios japoneses começassem a compreender o envolvimento do país na Segunda Guerra Mundial. E o porquê de se ter enviado tantos jovens universitários para a morte.

Os irmãos Hayashi e Katsuda compartilhavam o apego ao comunismo, à música clássica ocidental, à filosofia e a discussões sobre vida e morte. Pouco depois da guerra, a família recebeu uma caixa de madeira com a inscrição “A Heroica Alma do Saudoso Hayashi Tadao”. No lugar das cinzas, em uma pequena folha de papel branco havia as palavras “restos mortais” (ikotsu) escritas em caligrafia nobre.



6 de abril de 1940_À noite leio Debaixo das Rodas, de Hermann Hesse. A jovem alma [o personagem Hans Giebenrath] procura crescer contra a opressão do sistema educacional do mosteiro. Ele abandona o mosteiro e tenta seguir seu próprio caminho. Mas Hans adoece. A beleza e a efemeridade do seu espírito e alma levam ao triste final de sua vida. A corrente subterrânea da impermanência. Sopro de crescimento, bela mas frágil alma da juventude, e morte.



15 de abril_Dominar o idioma inglês e identificar um princípio que me guiará intelectualmente – o liberalismo – são duas tarefas importantes da minha busca. Me pergunto em vão: “Quanto tempo vou viver?”



23 de maio_Sigo uma agenda diária que me impus: ler cinco páginas em inglês e 100 em japonês... Durante meus anos de colegial me proponho a ler 300 livros em japonês, quinze em inglês [além dos do currículo escolar] e melhorar meu condicionamento físico com trinta minutos de exercícios diários. Não ler enquanto descanso.



19 de abril de 1941_A indulgência com emoções e o erótico tem sua razão de ser. Mesmo que não passe de uma união entre dois corpos, o ser humano está destinado a sentir que não pode viver sem a companhia de outro ser humano. É claro que o erotismo não brota apenas da solidão. Algo mais leva ao desejo de companhia. Mas talvez essa interpretação sirva apenas para estetizar o erotismo...



22 de junho_[A propósito da declaração de guerra da Alemanha à União Soviética.]O que vai acontecer com o Japão? A morte é imoral e viver é absolutamente moral.



31 de agosto_Japão, por que eu não te amo e não te respeito?



12 de outubro_A nação é uma entidade com enorme poder de controle.Não posso mais elogiar minha pátria. A guerra não se destina a proteger o país, mas é o resultado inevitável da forma como o Japão se desenvolveu como nação. Sinto que devo aceitar o destino da minha geração, lutar na guerra e morrer. Chamo isso de “destino”, uma vez que somos mandados ao campo de batalha para morrer sem podermos expressar nossas opiniões, criticar e dar argumentos a favor ou contra. Morrer na guerra, morrer sob a demanda da nação – não tenho a menor intenção de elogiar esse estado de coisas. Trata-se de uma grande tragédia.



20 de janeiro de 1942_Uma frase de Jean-Christophe [obra que valeu o Nobel de Literatura ao romancista francês Romain Rolland] me tocou fundo: “A vida consiste em uma batalha contínua e sem trégua. Se você quer se tornar um ser humano honrado, precisa lutar contra inimigos invisíveis, desastres naturais, desejos avassaladores, pensamentos sombrios; tudo o que engana a pessoa, a diminui, a destrói.”



18 de junho_Assisti a uma palestra do professor Tanabe Hajime [venerado membro da Escola de Filosofia de Kyoto]. Sua voz era tão miúda que ficou quase inaudível. Em suma, ele disse que “a filosofia é um treinamento para a morte. A realidade demanda a morte, isto é, o sacrifício da própria vida. Não se morre de acordo com a própria vontade”.



30 de setembro_Preciso ser sincero. O desejo sexual é doloroso. Olho para mim, tomado pela vontade de união física. Em seguida combato o impulso como se fosse sujo e feio, resultado da minha raiva por não satisfazer o desejo. Por outro lado, sonho em aspirar o cheiro do suor [de uma amante] que excita, o cheiro do corpo do sexo oposto, o toque em um corpo quente, a euforia do enlace de duas pessoas apaixonadas se descobrindo, sem o sentimento da vergonha, a dança selvagem do ato, o adormecer abraçado e a doce sensação de despertar a seu lado – são todas imagens que me atormentam. Luto diariamente com esta dor. Preciso assumir o controle sobre mim!



21 de maio de 1943_Outra palestra do professor T. Ele explicou que a Escola Estoica considera a morte um fenômeno natural, não controlável por nossa vontade, enquanto o existencialismo de Heidegger vê a morte como uma possibilidade realista – a possibilidade de renascer que deriva da nossa habilidade de encarar a morte. De acordo com o professor, nossa única salvação é sabermos que devemos morrer, que devemos viver nossas vidas preparados para mergulhar na morte a qualquer momento. A morte não é Sein [ser, em alemão], mas Sollen [dever ser]. Ele prosseguiu dizendo que a humanidade e Deus não entram em contato direto. São as nações que medeiam entre os dois. Devemos fazer o possível para manter os três conectados.



16 de junho_Ao ler Em Torno de uma Vida: Memórias de um Revolucionário [de Piotr Kropotkin, o anarquista], fiquei tocado pela força espiritual dos russos, em especial pelas mulheres da Rússia pré-revolucionária. Apesar de perseguidas pelo regime, elas procuraram obter conhecimento; algumas se aventuraram no exterior e acabaram por encontrar uma faculdade de medicina para mulheres. Nelas encontro o verdadeiro caráter dos russos. Nossa tendência, quando pensamos no povo russo, é evocar a imagem do miserável mundo descrito por Dostoiévski em Recordações da Casa dos Mortos, mas a intensa busca intelectual da verdade também existiu.



1º de dezembro_[Entre 200 mil e 300 mil estudantes foram convocados para a guerra. O número exato permanece incerto.]



9 de dezembro_[Entre os 63 mil jovens enviados para a base naval de Takeyama, em Yokosuka, estava Hayashi Tadao.]



19 de dezembro_Os dias passam rápido. Ainda assim, cada dia parece longo... Não se pode lutar sozinho em guerras modernas. Cada um se torna uma peça da roda. Como estou convencido de que esta guerra é uma Totalkrieg [guerra total], devo concordar com cada etapa necessária.



25 de dezembro_Estou decidido a manter meu diário. Mas o Geist [Espírito] precisa permanecer livre. Dado que procuramos manter a liberdade de espírito, nos sentimos controlados. Por sermos responsáveis pela proteção do país, devemos ter a firme convicção de pro patria mori, trabalhar nossa força física e dominar nossas qualificações técnicas.



1º de janeiro de 1944_Talvez o que nos espera seja uma funda desilusão e, para nossa sociedade, uma anarquia insidiosa. Sonho em me alongar sobre as ondas do mar num dia ensolarado de primavera para me intoxicar com pensamentos soltos enquanto meu corpo se solta à deriva na água... De repente, me vem à mente uma cena de Casa dos Mortos – no entardecer de um dia de verão de céu esbranquiçado, os prisioneiros são empurrados para dentro das celas.

Vivo na solidão.



3 de janeiro_Não fujo do sacrifício. Mas martírio e sacrifício devem ser feitos no auge da realização pessoal. Sacrifício ao término do autoaniquilamento, da dissolução do seu ser, não tem nenhum significado.



22 de janeiro_Os militares exterminam a paixão e transformam o ser humano numa peça que gira uma roda mecanicamente.



23 de janeiro_Estamos todos pessimistas quanto à possibilidade de voltar para casa. Se eu não conseguir sair da Marinha, vou enlouquecer. No momento eu só quero ler livros e nesse estado de espírito não vou conseguir lutar na guerra... Não tenho paixão. Sinto perda e indiferença. Não me importa o que venha a acontecer. O sentimento mais penoso e insuportável deriva dessa vida de forçada indiferença. A parte dura não é morrer, é viver.



28 de janeiro_[Hayashi Tadao é selecionado para piloto reserva e transferido para a base naval de Tsuchiura, notória pelo tratamento brutal conferido aos soldados.]



8 de maio_O individualismo não é um mero “ismo”, mas um princípio inato do ser humano. Realmente odeio os militares. A única utilidade que reconheço neles é o seu papel de protetor do nosso Volk [povo, em alemão].



19 de maio_Sinto-me cada vez mais atraído pela solidão, preces, dívida e responsabilidade social, mas nenhum sentimento de amor, que me parece remoto demais no momento.



2 de junho_Acabo de ouvir a Nona de Beethoven. Me tocou profundamente. Intensificou meu desejo de ler livros.



8 de junho_Prevejo a queda de Paris para dentro de um mês e meio. Agora começa o contra-ataque inimigo, com sua acachapante superioridade bélica. A catastrófica etapa descrita em Nada de Novo no Front [romance pacifista de Erich Maria Remarque sobre a Primeira Guerra Mundial] se aproxima.



16 de junho_Ataques aéreos contra Saipan, ilhas de Tinian e Bonin. A situação é muito tensa, mas para mim tanto faz o Japão ser destruído. É por demais tedioso ficar esperando.



20 de junho_Minha alma treme diante da tapeçaria literária de Tonio Kröger, de Thomas Mann, com sua pitada de solidão, sensibilidade aguda e uma sublimidade quase ameaçadora.



8 de julho_É pouco provável que eu consiga obter O Estado e a Revolução, de Lênin. Meu plano, então, é memorizar A Última, de Wilhelm Schmidtbonn, e O Apóstolo, de Rilke.



14 de Julho_Hoje encerro meu diário, fruto da minha empobrecida vida espiritual. Eu, confusão e anarquia, estou reduzido a isso. O que me atrai são questões sobre a natureza da sociedade moderna. Neste diário eu expus minhas fraquezas. Este misérable humano na sua totalidade está aqui retratado. Escrever o diário foi uma forma de encontrar algum sentido para mim.

O que desejaria, para mim, é andar pelas ruas de Moscou com uma boina na cabeça, estudar economia e política internacional numa Bibliothek alemã ou me envolver numa análise teórica dos rumos a serem tomados pelo Japão. Se eu viver, é o que farei. Se eu morrer, terá sido um mero sonho. Gostaria de pensar neste diário como o primeiro capítulo do registro de um ser humano que tinha um grande sonho, mas que não encontrou uma solução. Tentei como pude realizar este sonho. Fim.



Final de maio de 1945_[Antes de ser transferido para a base aeronaval de Miho, Hayashi Tadao implorou ao irmão que lhe emprestasse O Estado e a Revolução, de Lênin, à época proibido no Japão. O irmão conseguiu fazer-lhe chegar a obra e Hayashi Tadao lhe contou ter lido, página por página, no banheiro. A cada vez, rasgava a nova página em pedacinhos e a fazia sumir na privada. Houve vezes em que engoliu os pedacinhos.]



30 de maio_[Última carta à mãe.] Mãe. Quantas vezes você falou que viveríamos em Kyoto depois da minha formatura da faculdade... Kyoto é realmente uma cidade pacífica e plebeia. Você e eu – não há lugar melhor para vivermos juntos e continuarmos a nos aprimorar. Mãe, já não há esperança de vivermos juntos agora que fomos arrastados pelo redemoinho do tumulto mundial. Como você viverá? De qual força moral poderá você depender para a continuação da vida? Minha pobre mãe.



27 de julho_Entardecer, o momento mais belo... Sem avisar, milhões de imagens aparecem e desaparecem. Amado povo. Como é doloroso morrer no céu.



28 de julho_[Hayashi Tadao morreu aos 24 anos, já depois da rendição aos americanos. Seu avião explodiu numa noite enluarada.]





KASUkA TAKEO

Apesar da publicação de inúmeros testamentos, fotos e filmes mostrando jovens pilotos sorridentes fazendo o último aceno antes de decolar para a derradeira missão, um raro relato de como transcorria a noite de véspera mostra uma história inteiramente diversa. Kasuka Takeo tinha 86 anos em junho de 1995 quando narrou o que viu, numa noite como aquela. Durante a guerra, Kasuka Takeo tinha por tarefa cuidar das refeições, da lavanderia, da faxina e de outros trabalhos manuais para os pilotos tokkōtai da base aeronaval de Tsuchiura. Eis o trecho da carta enviada a um amigo:

No salão onde ocorriam as festas de despedida, os jovens oficiais estudantes bebiam saquê frio. Alguns engoliam o copo de um só trago. Outros sorviam grandes quantidades em goles consecutivos. O local se transformava em caos. Alguns quebravam lâmpadas com suas espadas. Outros arremessavam cadeiras contras as janelas e rasgavam as toalhas de mesa. Um misto de hinos militares com xingamentos enchia o salão. Enquanto alguns vociferavam em fúria, outros soluçavam. Era a última noite de suas vidas. Embora, para todos os efeitos, estivessem prontos a sacrificar sua preciosa juventude ao alvorecer, em nome do imperador e do Japão, eles estavam dilacerados – uns repousavam a cabeça na mesa, outros escreviam testamentos ou juntavam as palmas das mãos em meditação, ou dançavam feito alucinados. Na manhã seguinte, todos decolaram portando a faixa com o sol nascente na fronte.





NAKAO TAKENORI

Nascido em Fukuoka, numa família de classe média-alta, Nakao Takenori estudava direito na Universidade de Tóquio quando foi convocado para a guerra, em dezembro de 1943, aos 19 anos de idade.

Em 1997, seu irmão caçula publicou Registro de uma Busca Espiritual: Diário Manuscrito Deixado por Nakao Takenori, um Estudante que Morreu na Guerra. Com mais de 700 páginas, nele ficam evidentes a procura de um sentido para a vida e o desejo de ser “puro”, livre de qualquer materialismo ou egoísmo. A busca da mulher ideal também permeia os escritos de Nakao Takenori. Seu conhecimento de textos filosóficos em grego e latim, além de literatura alemã e francesa, era profundo.



Agosto de 1939_Embora Hitler e Napoleão tenham guerreado para expandir seus territórios nacionais, do ponto de vista histórico eles são apenas a ascensão e queda de um povo. Seres humanos nascem para a morte. Somos apenas um ciclo histórico. A história se repete. Qual o verdadeiro sentido do universo?



Dezembro_Ameaçar a vida de um inocente jamais deveria ser permitido. Do ponto de vista dos militares, porém, isso não importa, pois a única coisa que conta para eles é a honra. Eles não questionam o que é ou não verdade, apenas enchem o ar de mentiras.

Devo ingressar no mundo do caos em que interesses partidários obstruem a justiça? Não gostaria de fazer parte do mundo que aprimora a justiça somente para os burocratas e aumenta o poder dos militares. Prefiro me manter à margem e, como Zola [Émile Zola, autor de J’Accuse, panfleto de 1898 em defesa do oficial francês Alfred Dreyfus, de raiz judaica, acusado injustamente de traição], orientar a nação em direção à justiça e à verdade.



Abril de 1940_Sócrates foi forte. Sempre se opôs aos hipócritas e manteve seu sentido de justiça. Sinto não ser tão forte como ele.



Maio_Vejo tudo cinza. Desesperança e melancolia sem perspectiva de melhora. Não estou certo de conseguir suportar a exaustão física e mental. Devo simplesmente morrer, sem haver qualquer sentido à minha vida? Sinto como se tudo fosse desmoronar repentinamente.



Abril de 1941_Muitos estudantes aceitam o seu destino, aceitam a necessidade de lutar mesmo diante da matança cruel. Sacrificam as próprias vidas pela pátria e morrem abençoando suas mães e irmãos. É espantoso. Talvez seja esse o espírito que hoje torna a Alemanha vitoriosa. [Nakao Takenori acabara de ler uma coleção de cartas escritas por soldados-estudantes alemães da Primeira Guerra Mundial.]



Abril de 1943_Estamos lutando contra a Inglaterra, esse grande império em declínio, e contra uma América que está no ápice de sua cultura material. Embora eu ainda não esteja no campo de batalha físico, já me considero dentro. Eu, que procuro e amo o absoluto, devo me sacrificar pela pátria... Será o “absoluto” encontrável neste sacrifício?

Não consigo não me debater com esta contradição... Eu, que cheguei a conhecer a profundidade da vida e a viver essa vida, devo me sacrificar pelo país uma vez que é esse meu destino? Persigo a verdade, a duras penas.



28 de abril de 1945_[Última carta endereçada aos pais.] Na festa de despedida o pessoal me deu forças. Também me esforcei para me encorajar. Sinto-me uma pessoa feliz. Posso ir ao encontro da morte na certeza de ter recebido tratamento sincero de quem eu tratei bem... Meu copiloto é Uno Shigero, um garoto bacana de 19 anos... Ele me considera seu irmão mais velho e eu o vejo como meu irmão caçula. Unidos por um mesmo pulsar de coração, vamos mergulhar num navio inimigo. Uma foto minha, que tirei recentemente, ficará pronta em pouco tempo. Ela será enviada a vocês.



29 de abril_[Nakao e Uno decolam para a missão suicida, mas são forçados a retornar à base por mau funcionamento do avião.]



5 de maio_[Os pais de Nakao vão até a base naval de Takuma para ver o filho, mas são informados de que ele já havia sido transferido para outra base; não foram informados de que ele tinha morrido na véspera, ao mergulhar na batalha de Okinawa.]





HAYASHI ICHIZŌ

Nascido numa família cristã de cultura refinada, Hayashi Ichizōse formou pela Universidade Imperial de Kyoto e foi alistado aos 21 anos. Dois anos depois, foi selecionado como piloto tokkōtai. Em menos de dois meses partiu para sua missão final. Todos os trechos de seu diário datam de 1945, quando já estava aquartelado na base naval de Wŏnsan, na Coreia ocupada.



9 de janeiro de 1945_Ganhei um caderno novo e vou começar a escrever meu diário... Embora nossa missão seja lutar, é frustrante ficar esperando... Mais um dia sem poder decolar... Provavelmente não poderei ir à frente de combate antes do florescer das cerejeiras, nem quando elas já tiverem murchado.



22 de fevereiro_[Data em que foi designado para uma unidade tokkōtai.] Devemos seguir a expressão “Sob as ordens de Sua Majestade”. Recebemos a locação da nossa morte. Devemos simplesmente mergulhar com o avião. Seres humanos são dotados da capacidade de perdoar.



23 de fevereiro_Tenho tido tanto medo da morte, mas ela já foi decidida por nós...Quando penso na minha mãe, não consigo não chorar. Sei que tentarão consolá-la, mas sei que não será fácil aliviar sua dor. Choro muito ao pensar nela...

Tenho a sorte de crer em Deus, e minha mãe também. Embora eu vá morrer, sonho com o nosso reencontro... Tenho a forte esperança de que nosso país irá superar esta crise e haverá de prosperar. Não suportaria a ideia de a nossa pátria ser esmagada pelo inimigo sujo.

Para ser sincero, não posso afirmar que o desejo de morrer pelo imperador seja genuíno, que ele venha do fundo do coração. Mas foi decidido assim.

Não terei medo no momento da morte. Tenho medo do quanto o medo da morte perturba a minha vida.



4 de março_O motivo pelo qual ando pensando em suicídio é porque a morte em combate significa o meu completo aniquilamento, impedindo que eu contribua para a sociedade, que eu empreenda algo. É fácil falar de morte no abstrato, como nas discussões dos filósofos da Antiguidade. É a morte real que temo e não sei se poderei superar este medo.



19 de março_Gostaria de fazer alguma diferença no mundo. Não nego que parte desse desejo deriva da minha vontade de ter a existência reconhecida. Mas sobretudo ele deriva do vazio que sinto e da minha ira com os chamados líderes, que são incapazes de reconhecer problemas que até eu consigo identificar.

Os militares que ocupam altos postos estão cometendo um pecado que não pode ser desculpado: estão matando crianças e civis inocentes na China.

Não tenho mais tempo para fugir... Desta vez não vou tentar escapar.



21 de março_Com os preparativos para a decolagem final sinto um peso dentro de mim. Acho que não conseguirei olhar a morte na cara.

Desespero, desespero é pecado.



Abril_[A missão final de Hayashi Ichizōfoi abortada devido ao mau funcionamento do seu avião. Isso permitiu que ainda escrevesse mais três “cartas de despedida” à mãe.] Hoje metade de nossa unidade mergulhou sobre navios inimigos ao largo de Okinawa. Não temos luz, por isso escrevo perto de uma fogueira.

Mando lembranças a todos. Não me resta tempo para escrever-lhes. Vamos afundar navios inimigos. O uniforme de um piloto tokkōtai para sua última missão inclui uma bandana com o sol nascente e uma echarpe de seda branca em volta do pescoço... Para meu último voo vou enrolar no meu corpo a bandeira do Sol Nascente que você me deu e vou colocar uma foto sua no peito... Quando você ouvir pelo rádio que navios inimigos foram afundados, por favor lembre que mergulhei em um deles.

Amanhã não estarei mais vivo. Os que saíram em missão ontem estão todos mortos? Não consigo crer que seja real. Sinto como se fossem retornar de repente. Você talvez pense a mesma coisa em relação a mim. Mas, por favor, desista. Por favor, chore. Mas, por favor, não fique tão triste.

Parto antes de você. E me pergunto se me será permitido ir para o céu. Ore por mim, mãe. Não suportaria a ideia de ir para um lugar onde você não se juntará a mim mais tarde.

Amanhã mergulho contra uma flotilha de porta-aviões inimigos. Se você fizer um funeral religioso, coloque a data certa: 10 de abril.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Samurais - Os guerreiros da honra

Nos tempos do Japão feudal, os samurais defendiam seus territórios com a própria vida se preciso fosse. A partir do século 17, eles aos poucos foram desaparecendo. Mas seu inflexível código de honra e impecável conduta até hoje influenciam o povo japonês


Fabíola Musarra

Muito retratada em livros, pinturas e superproduções cinematográficas, a imagem do samurai chegou ao século 21 envolta em uma aura mítica e por vezes até romântica. Uma imagem, no entanto, bem distante da realidade vivida por esses guerreiros na época do Japão feudal. Filmes, como O Último Samurai (dirigido por Edward Zwick e estrelado por Tom Cruise e Ken Watanabe), e a dificuldade do mundo ocidental em compreender a complexa cultura e tradições japonesas contribuem para formar uma visão estereotipada desses bravos combatentes: enquanto uns acham que eles são personagens legendários, outros sustentam que são fanáticos sedentos de sangue. Heróis? Bandidos? Admirados? Temidos? Afinal, quem são e como viveram esses lendários combatentes do antigo Japão?

Ao contrário do que a ficção retrata, não havia nada de romântico na vida dos samurais. Eles surgiram como um produto das circunstâncias históricas do Japão, de uma longa evolução social e política que culminou nos séculos 17 e 18. Com extensão territorial limitada e dividido em feudos, o pequeno arquipélago era um campo de constantes batalhas pela posse de terras nos séculos 10 e 11. Essas disputas medievais e a necessidade de defender as propriedades do daymiô (senhor feudal) e, no século 13, as próprias fronteiras do país ameaçado pelos mongóis, favoreceram o aparecimento dos samurais. Essa classe social guerreira mudaria para sempre a trajetória do Japão, ajudando a unificar o país e a fazer dele uma nação.

A origem dos samurais, na realidade, remonta aos séculos 4 a.C. e 3 a.C., quando começaram a surgir elites armadas nos grupos tribais que formaram pequenas entidades sociais. Esses grupos foram se convertendo, um a um, em grandes clãs submetidos às autoridades provinciais do império. A relação conflituosa entre esses clãs abriu portas para a formação de milícias que deveriam proteger os interesses dos vários senhores feudais, e os do próprio império. Os membros dessas elites guerreiras eram conhecidos como bushi, termo que significa "aquele que serve" e que com o tempo acabou se tornando sinônimo de guerreiro.

A ascensão dos samurais como uma classe social começou no período Heian (nome da então capital do país, a atual Kyoto), com a derrota do governo aristocrático Taira, na Guerra Genpei, no fim do século 12, quando o clã de Minamoto no Yoritomo vence o conflito e recebe o título de xogum: um título de distinção militar concedido pelo imperador, equivalente a comandante do exército.

A partir daí, e ao longo de mais de 400 anos, o imperador era o legítimo governante, mas era o xogum quem governava de fato o Japão. Quem era agraciado pelo imperador com esse título tinha autoridade civil, militar, diplomática e judiciária. Vale lembrar que durante todo esse período o Japão teve três xogunatos. O primeiro foi o estabelecido em 1192 por Minamoto no Yoritomo, conhecido como xogunato Kamakura. Já o segundo é conhecido como Ashikaga e foi fundado em 1338 por Ashikaga Takauji, enquanto o terceiro foi o de Tokugawa Ieyasu.

Em 1600, Tokugawa venceu a batalha Sekigahara, na província de Mino, tida (não sem razão) como uma das maiores de todas: em apenas seis horas de confronto, morreram em torno de 35 mil homens só do lado derrotado. Mas o massacre durou três dias e foi uma verdadeira carnificina, especialmente se for considerado que naquela época as lutas aconteciam olho no olho, homem contra homem, espada contra espada. Pouco a pouco, Tokugawa ia vencendo os clãs rivais. Como recompensa, o imperador lhe concedeu o título de xogum.

As principais armas dos samurais eram a katana, uma espada curva, que somente era usada com outra espada: a wakizashi, uma arma mais curta com a lâmina mais larga. As duas espadas juntas são referidas como daí-shô, cujo uso era um privilégio exclusivo deles

Tokugawa, então, passou a ser o senhor absoluto do Japão, dando início ao período Edo (1603-1868), assim chamado numa referência ao nome da cidade de onde ele tomava as decisões políticas (a atual Tóquio). Ao assumir, tornou hereditário o xogunato, criando assim a dinastia dos Tokugawa. Por sua vez, o imperador viveu na antiga capital, Heian. Esse foi um longo período que contribuiu para configurar a imagem estereotipada do país: sedutoras gueixas, casas de chá, imponentes lutadores de sumô e arrogantes samurais.

Como consequência de o xogunato tornar-se hereditário, desde o berço a criança nascida em uma família de samurai era educada em um regime de autodisciplina e de exercícios contínuos. Em geral, o treinamento das artes marciais começava por volta dos 5 anos. Os filhos de famílias ricas (a riqueza era medida em unidades de arroz, okoku) frequentavam academias, onde aprendiam literatura, artes e habilidades militares. O tipo e a frequência dos treinamentos de um samurai dependiam da riqueza de sua família. Nas de menor poder aquisitivo, os filhos eram enviados às escolas dos vilarejos para receber instrução básica e o seu treinamento normalmente era feito pelos pais, tios ou irmãos mais velhos.


Cada prega do hakama(calça) simboliza uma das sete virtudes que um samurai deveria ter: a honestidade, a lealdade, a coragem, a perseverança, a benevolência, a compaixão e a sinceridade

A sociedade feudal japonesa

Na sociedade japonesa do século 16, os samurais formavam uma casta a serviço da alta nobreza, os daymiô, que exerciam o poder por meio de uma rede de ligações pessoais e familiares. Ao lado de sua família mais direta, os daymiô ocupavam o topo da hierarquia feudal. Abaixo deles, vinham os fudai (aquelas famílias que sempre estiveram a serviço daquela família principal) e, finalmente, os vassalos, que muitas vezes haviam sido antigos senhores que, derrotados, haviam jurado fidelidade, a fim de manter sua propriedade.

Por conta dessa estrutura, a rede de fidelidade dos "súditos" se ampliava e o poder do daymiô se fortalecia. Paralelamente a essa organização política, havia outra que inicialmente era estritamente militar e representava os samurais. Exímios praticantes de artes marciais e dotados de total controle sobre seu corpo e sua mente, os samurais, com o tempo, foram se tornando tão poderosos que ultrapassaram os limites dos feudos e acumularam influência política e militar.

Existiam muitas categorias de samurais. Abaixo deles, havia ossotsu (as tropas de infantaria), que, por sua vez, eram divididos em outras categorias. Exceto os de mais alto escalão, todos eles zelavam pelas propriedades do daymiô. Também de todos eles era esperado que respondessem de imediato ao chamado de guerra do seu senhor e que estivessem sempre prontos a combater, apresentando o seu equipamento em conformidade com a sua posição e a sua riqueza.

Na base da pirâmide estavam os ashigaru, que
eram a maioria dos combatentes. Eles eram os
arqueiros da infantaria, mosqueteiros e lanceiros e,
algumas vezes, mensageiros, porta-bandeiras, criados.
Por muito tempo, essa categoria representou a porta de
acesso à classe dos samurais.


Essa hierarquia social prevaleceu durante todo o
período Edo, no qual aparentemente nada mudou,
mas a prolongada paz desses anos acabou modificando
radicalmente a natureza dos samurais. Como não existiam
mais guerras, eles não tinham razão para lutar. Agora,
suas habilidades marciais só podiam ser testemunhadas
em duelos particulares.


Diante das novas condições, os samurais começaram a
ampliar sua formação intelectual e técnica e a integrar-se
na sociedade civil, na qual executavam tarefas educativas
ou administrativas. Administravam, especialmente, as
propriedades do daymiô a quem serviam, durante o longo
tempo em que ele era obrigado a permanecer na corte
do xogum, praticamente recluso.


Anos mais tarde, a burguesia em ascensão (chonin)
foi capturar o prestígio social que os samurais continuavam
a ter no país, num processo que poderia ser classificado
como uma fusão e que foi de fundamental importância para
a expansão e sobrevivência dos valores dos samurais na
sociedade japonesa até os dias atuais.

Independentemente de ser rica ou pobre, a criança ganhava uma katana (espada longa semelhante a um sabre) de madeira em uma cerimônia formal, rito que se repetiria na adolescência, desta vez com uma espada de verdade. A katana era uma das principais armas dos samurais - acreditavam que ela carregava a alma do guerreiro, devendo portanto ser muito bem cuidada e não ser exposta sem uma razão. Seu uso pelos civis havia sido proibido por um decreto de 1590. Portá-la era um privilégio dos guerreiros. Aprendizados à parte, o garoto, antes e acima de tudo, era educado para servir. Servir com lealdade ao seu senhor, a quem daria a vida se preciso fosse.

Desse modo, os samurais cresciam imbuídos do princípio da restituição do débito. A lealdade e a honra também eram levadas muito a sério por eles: lutavam até a morte para proteger a propriedade de seu senhor ou praticavam o harakiri (cortar o ventre com sua própria espada), caso o desonrassem. Da luta às relações sociais, todas as normas de vida e de conduta às quais o samurai tinha de se submeter estavam previstas no bushidô (o termo vem de bushi, guerreiro, e de do, caminho, e significa caminho do guerreiro), um inflexível código que colocava a honra acima de tudo.

Embora já estivesse definido no século 8, o bushidô somente foi instituído no século 17 e alcançou sua própria perfeição com a difusão dos princípios do confucionismo. O código tinha como meta aperfeiçoar o caráter por meio de rígidas regras de disciplina e comportamento e incluía a divulgação de vários princípios: gi (a atitude do justo),yu (habilidade), rei (o comportamento justo), makoto (sinceridade), meiyo (honra e glória) e chigi (lealdade).

Escrito por Taira Shigésuké, sábio confuciano e militar japonês da segunda metade do século 17, o texto de abertura do bushidô dá uma boa ideia do que era a vida de um samurai: "A primeira preocupação de quem pretende tornar-se guerreiro é ter a morte sempre presente no seu espírito, dia e noite, desde a manhã do primeiro dia do ano até à noite do Ano- Novo." Traduzindo: viver é estar preparado para a morte, é saber morrer - um samurai não podia praticar o harakiri nem morrer de qualquer jeito.

Ao contrário, se tivesse de morrer, ele não deveria resistir. Logo cedo, o jovem aprendia a se desapegar dos bens materiais e a desprezar a dor e a morte. Por isso, tinha de morrer com honra, sem demonstrar qualquer sinal de sofrimento até cair inerte, suportando a dor sem fraquejar. Contam que a morte dele deveria ser igual a de uma da carpa que, no momento que está para ser trucidada sobre a mesa, simplesmente se rende à morte sem a menor resistência.

O harakiri, suicídio ritual

A honra era tão importante para os samurais que era bastante
comum eles se suicidarem em face de um fracasso, ou se
tivessem violado o bushidô. Esse ato vinculado à honra
acabou se tornando um ritual, tomando a forma do
seppuku (também conhecido por sua expressão
mais popular, harakiri), que nada mais era do
que o modo de o samurai restaurar a honra do
seu daymiô e de sua família e cumprir a sua
obrigação de lealdade, ainda que tivesse
falhado como guerreiro.


Antes de cometer o seppuku, o guerreiro se
vestia com roupa apropriada. Depois, se ajoelhava
enquanto lhe entregavam uma faca embrulhada em
papel (posteriormente, foi substituída por um leque).
Com ela, o samurai cortava seu ventre da esquerda
para a direita, finalizando com outro corte para cima. Este
ritual, porém, não era um ato solitário: poucos samurais
acabavam sentindo na pele a dolorosa e lenta morte por
desentranhamento, pois outro samurai ficava em pé
atrás do suicida e o decapitava logo após o harakiri,
evitando que qualquer dor fosse sentida.



Não era só. Havia ainda a vingança. Mais que uma obrigação, ela era um dever do guerreiro. Se a honra de seu senhor fosse manchada ou se ele fosse morto, o samurai era obrigado a encontrar e matar os responsáveis. Um dos mais famosos contos sobre a vingança dos samurais é "Os 47 Ronin" (samurais sem um senhor para servir). Sob o governo Tsunayoshi, o quinto xogum Tokugawa (1646-1709), o senhor de Asano, foi condenado a praticar o harakiri instigado por um alto funcionário do xogum, chamado Kira. O código ético dos samurais previa que ele teria de ser vingado pelos seus homens. Comandados pelo oficial Oishi, os 47 ronin juraram vingança.

Por algum tempo, parecia que nada ia acontecer. Oishi levava uma vida depravada e os ronin pareciam ter esquecido o juramento, o que lhes custou o desprezo do povo. Mas foi exatamente esse falso esquecimento que fez com que Kira baixasse a guarda. Dois anos depois, em uma noite de inverno, o grupo invadiu o seu castelo e o assassinou. Presos, os ronin foram condenados a praticar o harakiri. O motivo da pena não foi porque eles cumpriram o seu dever de vingança, pois isso era o esperado, mas porque atacaram o castelo secretamente, o que era tido como uma desonra.

A longa trajetória dos samurais se estendeu até 1876, quando o uso das espadas foi proibido e a classe samurai, extinta. Apesar disso, o espírito desses incansáveis guerreiros, cujo estilo de vida aliava conduta irrepreensível, árduo treinamento e aperfeiçoamento constante, sobreviveu. Até hoje, os valores e as virtudes dos samurais fazem parte da identidade nacional do Japão. Ou melhor, ultrapassaram as fronteiras do país e as barreiras do tempo, e ainda agora o carisma desses míticos heróis continua encantando o mundo.

informações
www.niten.org.br

Revista Planeta

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Portugueses do sol nascente


Portugueses do sol nascente
No Japão do século 16, a presença lusitana deixou marcas profundas

No auge de seu império, Portugal teve colônias na costa da África, em ilhas do Atlântico, no Oriente Médio, na Índia, na China, no Sudeste Asiático e no Brasil. Mas um outro país também foi ocupado: o Japão. Ainda que essa história seja pouco conhecida, a presença portuguesa na terra do sol nascente deixou marcas permanentes na cultura local.

Segundo o tratado Teppo-ki ("Crônica da espingarda"), de 1606, os lusos chegaram ao Japão em 1543. Não por acaso, esse registro está contido em uma obra histórica sobre a introdução da arma de fogo no país. A colonização europeia foi apoiada em armamentos, no comércio e na divulgação do cristianismo.

A princípio, cada navio ocidental chegava carregado com pólvora, seda e porcelana, trazidos da China, e especiarias da Índia. Rapidamente, o objetivo comercial somou-se à intenção de propagar a fé cristã. "O binômio missionário-comerciante é constante na história da presença portuguesa no Japão", afirma Madalena Ribeiro, pesquisadora da Universidade Nova de Lisboa.

Em 1582, já havia 150 mil cristãos no Japão e 200 igrejas, além de 20 padres. No auge, o número chegou a 200 mil, distribuídos principalmente no sul do país, em Kagoshima e Nagasaki. Mas a intromissão estrangeira em um país em fase de unificação incomodou as autoridades locais. A partir de 1587, os cristãos começaram a ser reprimidos. Os que não recuaram se tornaram kakure kirishitan, ou "cristãos ocultos". Com o tempo, a falta de contato com sacerdotes católicos fez com que alguns rituais fossem adaptados. Nas missas, a hóstia e o vinho passaram a ser substituídos por sashimi, arroz e saquê. Em 1859, quando chegaram ao Japão, missionários franceses descobriram que cerca de 60 mil japoneses praticavam o cristianismo na clandestinidade. As comunidades kirishitan existem até hoje. Muitas ainda têm orações como pai-nosso e ave-maria, recitadas (sem serem compreendidas) em uma mistura de japonês, latim e português do século 16.
Além da religião, a influência portuguesa marcou a medicina, as ciências náuticas e a astronomia. Os arquitetos japoneses aprenderam técnicas para fortificação de castelos. Outros campos do pensamento ocidental também influenciaram os orientais. "A chegada dos portugueses permitiu uma alteração na maneira de pensar dos japoneses, por influência de ideias como o racionalismo e o liberalismo", diz Ikunori Sumida, diretor do Departamento de Estudos Luso-Brasileiros da Universidade de Estudos Estrangeiros de Kioto. "Foi uma mudança invisível, ao contrário da introdução das espingardas e da religião."

Fé de berço
Alguns imigrantes que vieram ao Brasil já eram católicos

A maior parte dos japoneses que se mudaram para o Brasil a partir do fim do século 19 conheceu o catolicismo no nosso país. Mas uma pequena parcela descendia dos cristãos escondidos, os kakure kirishitan. "Esse grupo foi importantíssimo para a conversão dos japoneses e nikkei brasileiros ao cristianismo. Eles ofereceram um tipo de catolicismo com o qual os japoneses puderam se identificar", diz Rafael Shoji, do Instituto para Religião e Cultura da Universidade Nanzan, em Nagoia, Japão.
Entre os cristãos que chegavam por aqui estava um missionário católico, o monsenhor Domingos Nakamura. Nascido no arquipélago de Goto, ele conhecia as famílias que atendia, no Paraná e em São Paulo, por causa de seu trabalho anterior, na paróquia de Kagoshima. Madalena Hashimoto Cordaro, 51, professora de Literatura Japonesa na USP, também descende de "cristãos ocultos". "Meu pai contava histórias sobre perseguições ocorridas no passado e crucificações na praia."

Glossário luso-nipônico
Palavras japonesas de origem portuguesa

Padre - bateren

Bênção - bensan

Vidro - bïdoro

Botão - botan

Jesus - Esu

Carta de jogar - karuta

Pão - pan

Tabaco - tabako
Revista Aventuras na História

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

A história da bomba atômica e seu genocídio instantâneo




A história da bomba atômica e seu genocídio instantâneo
A história da bomba atômica desde a descoberta da energia nuclear até o massacre de Hiroshima, os colaboradores e inventores desta arma mortal.
por Marco Chiaretti, Flávio Dieguez
O monumento de granito marca o lugar da primeira explosão nuclear produzida pelo homem. Foi às 5h29min45s do dia 16 de julho de 1945, em Alamogordo, Estados Unidos. Ele representa um grande feito científico, mas também é o simbolo de uma vergonha: o uso do conhecimento para construir uma superarma que, menos de um mês depois, dizimou a população civil das cidades deHiroshima e Nagasaki, no Japão.

Por Marco Chiaretti e Flávio Dieguez

A primeira explosão nuclear da História aconteceu em silêncio, na madrugada chuvosa do dia 16 de julho de 1945, numa àrea de testes de bombardeios do exército americano, em Alamogordo, Novo México. Uma luz dura, vinte vezes mais brilhante que a do Sol, acendeu a noite e fez o céu, o deserto e as montanhas próximas ficarem brancos como papel. Apesar da hora, milhares de pessoas, em cinco Estados vizinhos, viram o flash sem ter idéia do que estava acontecendo. Não se ouviu o som.

Muito mais lento do que a luz, o som veio muitos segundos depois. Um estalo seco como um tiro, seguido de um trovão. E uma imensa bola de fogo, com 2 000 metros de diâmetro, levantou-se de repente. Mudando de amarelo para laranja e depois para vermelho, a bola em poucos minutos alcançou 15 quilômetros de altura.

Numa reação automática, manifestou-se o gênio do físico italiano Enrico Fermi (1901 - 1954). Ele calculou quase a olho a energia da detonação: deixando cair pequenos pedaços de papel, quando a onda de choque passou pela casamata em que estava escondido, mediu a distância a que os papéis foram lançados e estimou o poder da energia liberada em pelo menos 10 quilotons. O equivalente a 10 000 toneladas de dinamite. Uma conta excelente, naquelas circunstâncias: o número preciso, como se verificou mais tarde, era de 18 quilotons. De longe, a maior quantidade de energia já produzida de um só golpe pelo homem.

Foi um instânte de imenso urgulho e alegria. Os cientistas, técnicos, militares e políticos reunidos em Alamogordo pularam, gritaram e se abraçaram na lama que a chuva tinha deixado por toda parte. A montagem final da bomba, a partir do segundo semestre de 1944, e o teste em julho de 1945 tinham sido apenas as últimas etapas de uma longa corrida contra o tempo.

Nos três anos anteriores, centenas de milhares de americanos tiveram que ser mobilizados, de engenheiros a trabalhadores da construção civil. Acima de tudo, exigiu-se a colaboração disciplinada de dezenas de físicos, químicos e matemáticos. Um time de cérebros que contava com dez ganhadores do Prêmio Nobel. Sete já haviam sido premiados: o italiano Fermi, o dinamarquês Niels Bohr (1885 - 1962), o alemão Otto Hahn (1879 - 1968) e os americanos Arthur Compton (1901 - 1958) e Harold Urey (1893 - 1981). Três eram futuros escolhidos: o alemão Hans Bethe (1906 - ), o húngaro Eugene Wigner (1902 - 1995) e o americano Richard Feynman (1918 - 1988). Além deles, outros figuravam entre os melhores cientistas da época, como o húngaro John von Neumann (1903 - 1957), um dos maiores matemáticos do século, e o próprio chefe cientifíco do projeto, o americano Julius Robert Oppenheimer (1904 - 1967).

O time aceitou trabalhar voluntariamente, num regime de disciplina militar. Em Alamogordo, uma região seca e arenosa, habitat de escorpiões e cobras, quase deserta de gente, ficava apenas uma parte da equipe. Juntando cientistas, técnicos e soldados, a população chegava a 200. Vida duríssima e sigilo absoluto. Ninguém podia telefonar para fora sem autorização. Nem sair do alojamento, um punhado de barracos levantados às pressas pelo exército em 1944. Aí, durante 10 meses, os pesquisadores trabalharam alegremente, com toda boa vontade.

No final de 1938, o físico italiano Enrico Fermi aproveitou uma ocasião extraordinária para escapar da ameaça de perseguição que sentia em seu país, então sob o domínio fascista. Numa quebra de sigilo sem precedentes, mas justificável naquelas circunstâncias, ele havia sido informado de antemão que ganharia o Prêmio Nobel de Física daquele ano. Então, sabendo que conseguiria uma autorização para ir a Estocomo, na Suécia, receber a láurea, planejou secretamente não voltar mais para a Itália. Fugiu com toda a família para os Estados Unidos.

A chegada de Fermi foi decisiva para que a tecnologia do átomo fosse dominada em apenas três anos __ um feito, na época, inimaginável para a ciência. Ninguém conhecia melhor do que ele a ação de partículas recém-descobertas no núcleo atômico, chamadas nêutrons, que teoricamente poderiam escapar de seu núcleo original e entrar em outro para quebrá-lo. Assim, liberariam a energia estocada lá dentro. Na prática, não era tão simples. O próprio Fermi sabia apenas que os nêutrons penetravam facilmente nos núcleos: não sabiam de que os núcleos se quebravam. A fissão nuclear, nome dado a esse fenômeno, foi comprovada em 1939, um ano depois da fuga para os Estados Unidos.

Mas Fermi tinha certeza, desde o ínicio do século, de que o núcleo representava a mais densa concentração de matéria já vista. E isso significava muita energia. Um único grama de matéria, seja do que for, representa 20 trilhões de calorias, o suficiente para fazer ferver 900 000 toneladas de água. É o que diz a fórmula descoberta por Albert Einstein em 1905, E=mc2. Energia (E) é igual à massa (m) multiplicada pela velocidade da luz ao quadrado (c2). Em 1939, a alemã Lise Mentner usou a fórmula de Einstein para calcular a força gerada durante a fissão do núcleo do urânio.Nem toda a mat´ria virava energia (a conversão não chega a 20%, ainda hoje), mas dava de sobra para projetar uma superarma.

Só faltava demonstrar que, quando um átomo de urânio se quebra, seus fragmentos provocam sucessivamente a quebra de outros núcleos. Ou seja, uma reação em cadeia, que foi demonstrada por Fermi em 1942. Daí em diante, a construção da bomba já não dependia tanto da ciência. Era um problema de tecnologia e de dinheiro, especialmente para produzir e transformsr o urânio comum em combustível (ele precisa ser enriquecido com variedades mais raras de urânio).

A própria guerra, então, daria o empurrão final para a conquista da energia nuclear. Em meados de 1942, os ditadores Adolf Hitler, da Alemanha, e Benito Mussolini, da Itália, haviam dominado toda a Europa continental, da França à Polônia. Diante de tamanha demonstração de força, o presidente dos Estados Unidos, Franklin Roosevelt, resolveu encomendar a arma atômica a uma unidade de engenharia do exército. A ordem foi dada em junho. Em agosto, nasceu o Projeto Manhattan, cuja função era coordenar o trabalho de todos os físicos, químicos, engenheiros, técnicos e operários necessários para execultar a ordem.

O gatilho da revolução atômica foi a ciência pura. Mas, depois de iniciada, teve de ser sustentada por uma mobilização monumental de recursos. Até cidades foram construídas. Algumas saíram do nada, em locais isolados, justamente para garantir o segredo. Existem até hoje. Outras, que também permanecem, foram refeitas. Hanford, então um povoado insignificante e perdido do mundo no estado de Washington, foi invadida, em 1943, por 25 000 trabalhadores. Em menos de um ano, construíram 250 quilômetros de ferrovias, 600 quilômetros de estradas, casas para 40 000 operários e suas famílias, e uma fábrica de plutônio, combustível nuclear como o urânio.

As cidades cresceram em diversos pontos do país, sempre com o mesmo fim: alimentar a superbomba. Das novas fábricas, saíam peças ou combustível. Dos laboratórios, números e medidas. Quantos quilos de urânio ou plutônio seriam necessários? Como detonar a explosão no momento exato? Até que ponto o urânio comum, extraído das minas, precisaria ser misturado com o urânio-235, mais radioativo? Em resumo, os cientistas já não faziam Física pura. Mas só eles eram capazes de manipular as equações descobertas na década anterior para desenvolver a técnologia que estava nascendo.

A direção geral do Projeto Manhattan, que coordenava toda a operação, foi entregue a um general do setor de engenharia do exército chamado Leslie Groves. Era administrador competente e autoritário, conhecido por ter levantado o prédio do Pentágono, a secretaria militar do governo americano. O general estava fora da luta, mas queria combater. Então, deram-lhe a função de "construir o armamento que acabaria com a guerra".

Groves teve o bom senso de escolher um cientista brilhante para comandar o time de gênios: o físico Robert Oppenheimer, que também revelou admirável capacidade gerencial. Voluntariamente, os pesquisadores se submeteram a uma disciplina militar. Confinados aos locais de trabalho, moravam longe de suas famílias. Foram divididos em equipes para que uns não soubessem o que os outros estavão criando. Usavam nomes falsos e escreviam tudo em código. Ficaram proibidos até de pronunciar palavras denunciadoras, como "físico". A vontade de vencer a Alemanha gerou um espírito de cooperação fora do comum.

Houve erros e contratempos. A divisão de tarefas por equipes que não se comunicavam não funcionou pois, entre cientistas, pensar significa trocar e debater idéias. O húngaro Leo Szilard simplesmente não obedeceu as restrições de segurança. E, apesar de ter sido o primeiro a propor a construção da bomba, foi ameaçado por Groves com a acusação de traidor. O americano Richard Feynman, outro rebelde incorrigível, se divertia quebrando códigos secretos e abrindo os mais complicados cofres com perícia de arrombador. Edward Teller, da Universidade da Califórnia, futuro idealizador da bomba de hidrogênio, muito mais poderosa que a atômica, brigou com Oppenheimer também por causa da disciplina. Queria mais autonomia.

Nada disso, porém, comprometeu a eficiência prodigiosa do projeto.

A euforia com o teste de Alamogordo, nos Estados Unidos, durou muito pouco. Foi uma emoção passageira. O estado de espírito dos cientistas era péssimo. Eles já sabiam que o governo americano planejava um ataque nuclear ao Japão, o último inimigo ainda de pé (alemães e italianos já estavam vencidos na Europa).

Numa carta à mãe, o físico Richard Feynman descreveu os sentimentos de quase todos: "Tudo estava perfeito, menos o objetivo". Oppenheimer, chefe da equipe científica, lembrou de um antigo texto hindu: "Eu me tornei morte/Destruidor de mundos". O moral da equipe de gênios caía vertiginosamente nos últimos dias do Projeto Manhattan.

O ânimo já vinha despencando desde a morte do presidente Franklin Roosevelt, em 12 de abril de 1945, com quem os cientistas haviam concordado em trabalhar. Eles não se entederam bem com o novo presidente, o vice de Roosevelt, Hary Truman. Em seguida, com a rendição dos alemães no dia 7 de maio de 1945, a tensão aumentou ainda mais. A derrota nazista, que o resto do mundo recebeu como uma boa notícia, virou fator de preocupação dentro do Projeto Manhattan. O que é fácil de explicar: foi contra Hitler que els tinham se unido e, com o ditador nazista fora do conflito, desapareciam as justificativas pAra a construção de uma arma tão arrasadora. E ainda faltava um mês para o teste de Alamogordo. Foi então que, para tornar tudo ainda mais torturante, às vésperas do teste, veio a informação de que o governo americano estudava a hipótese de empregar a nova arma contra o Japão.

Era o início do pesadelo. Até ali, os cientistas alimentavam a ilusão de que o poder nuclear jamais seria de fato empregado. Na pior das hipóteses, aceitariam lançá-lo contra os nazistas. Truman vacilou entre argumentos contra e a favor. Por fim, decidiu-se. Era o final de julho.

Dois anos antes, a máquina militar já começava a se mover. Desde 1943, a Força Aérea treinava o chamado Esquadrão 509, chefiado por um dos melhores pilotos de bombardeiro do país, o coronel Paul Tibbets. Na Boeing, em Seattle, ele escolheu pessoalmente seu avião, o gigantesco quadrimotor B-29. O que havia de melhor na indústria americana. O objetivo do 509 era lançar uma bomba de 4 000 quilos sobre Hiroshima, fazer uma curva de 180 graus, mergulhar, acelerar e dar o fora.

Hiroshima havia sido escolhida depois que o ministro da Guerra, Henry Stimson, descartou a opção por Kyoto, ex-capital e maior centro religiosodo Japão. Na madrugada de 6 de agosto de 1945, já a caminho do Japão, mas sem saber bem por quê, a tripulação recebeu a ordem de lançar a bomba. Ela partiu do avião às 8h16 da manhãe 43 segundos depois, explodiu.

A cidade ficou coalhada de incêndios. Perto do hipocentro, foco da detonação, gente virava cinza. Quase ninguém, a menos de 5 000 metros do hipocentro, sobreviveu. Em toda a cidade, 50 000 edifícios ruíram. Mais tarde, durante anos, a radiação continuou matando. Até hoje surgem novas vítimas fatais do pikadon, o "raio-trovão", neologismo criado para descrever o indescritível. Elas já são mais de 200 000.

"Os físicos conhecerão a vergonha". A maldição poderia ter vindo de uma das vítimas de Hiroshima ou de Nagasaki. Mas seu autor, paradoxalmente foi um dos arquitetos da bomba, o físico americano Robert Oppenheimer. Que nunca se arrependeu do que fez. Essa ambigüidade __ a mistura de desonra com falta de arrependimento __ foi uma marca que pairou sobre a ciência e dividiu a sua história em duas partes. Antes e ddepois da bomba.

A vergonha ficou porque não há como negar: os cientistas produziram a máquina do genocídio instantâneo conscientemente. Têm a seu favor o fato de que queriam construí-la antes de Adolf Hitler. Mas, então, por que não foram unânimes em condenar o seu lançamento contra Hiroshima e Nagasaki, quando Hitler já estava derrotado na Europa? Por que muitos se conformaram? Tudo leva a crer que quando terminaram a sua parte do trabalho, os cientistas, simplesmente, deixaram que ele fosse completado. Bombas são bombas. Existem para matar gente.

Há nuances, e muitas. O homem que mais lutou para ver a bomba construída foi depois o que mais fez força para impedir que ela fosse usada: o físico húngaro Leo Szilard. Desde 1933, antes de qualquer outro, ele intuiu no que daria a mistura das equações de Einstein com a radioatividade. Nos dez anos seguintes, gastou tempo batendo à porta dos governos inglês e americano para convencê-los de que suas idéias não eram absurdas. Em 1939, Szilard conseguiu que Einstein, um dos gênios de maior prestígio na época, escrevesse uma carta a Roosevelt, presidente dos Estados Unidos, dizendo que a bomba era factível e que os alemães poderiam construí-la durante a guerra. Mas, depois, tentou evitar o bombardeio de Hiroshima a todo custo. Arrumou encrenca com quem foi preciso. Especialmente com o então poderosíssimo general Leslie Groves, coordenador do projeto. Derrotado, depois do ataque nuclear pediu a um padre para rezar uma missa para os mortos.

No final das contas, Szilard foi apenas ingênuo. Obcecado pelos crimes do nazismko, ele só se deu conta do demônio que havia criado quando já não havia mais como detê-lo. Porque a arma nuclear, mais do que qualquer outra obra humana, trouxe para dentro da ciência o poder do sistema de produção em escala. O projeto da bomba virou indústria: posta em movimento, começou a devorar os seus criadores.

Resumo: ela não acabou apenas com duas cidades japonesas. Ou com o ideal do cientista como benfeitor da humanidade. Ela acabou também com a noção de liberdade. A começar pela pesquisa científica. De 1945 em diante, o Estado passou a impor limites à manipulação de urânio ou de plutônio, que acarreta riscos imensos. Desconhecidos pela humanidade, até então. Os desastres potenciais são muitos, desde a possibilidade de um acidente causar contaminação ambiental por longo período, de até milhares de anos, até o perigo de atentados terroristas com material nuclear. Mas a liberdade também viveu outras limitações. A informação passou a ser a mais vigiada pelas razões de Estado. No mundo em que se seguiu a Segunda Guerra, até mesmo as convicções ideológicas dos cidadãos viraram matéria de segurança nacional. A sombra do cogumelo nuclear destruiu a inocência. Cientifica e política.

Depois do teste de Alamogordo, já não havia mais lugar para a ingenuidade como a de Szilard. Oppenheimer, mesmo sentindo vergonha, parece ter compreendido isso melhor do que seu colega húngaro. Daí porque também não mostrou remorso. não custa lembrar que, quando a história da bomba começou, os Estados Unidos estavam em uma guerra selvagem, na qual o número de atrocidades cometidas pelos vários exércitos superou o de qualquer conflito anterior.

Mesmo depois da rendição da Alemanha, havia argumentos militares muito fortes a favor de usar a bomba contra o Japão. Eles iam muito além da necessidade de derrotar o Japão. O governo dos Estados Unidos alegava que o recurso atômico quebraria o ânimo dos generais japoneses, aparentemente dispostos a prolongar a luta até o seu último soldado. Assim, a bomba poderia custar menos vidas do que a invasão do país com a ajuda de armas convencionais. Pode ser, mas a estratégia americana não era determinada apenas pelo que ia acontecer nos meses seguintes. Estava em jogo, principalmente, o equilíbrio do poder sobre o mundo do futuro. Depois da guerra, restariam duas potências: Os Estados Unidos e a então União Soviética. Isso estava bem claro e pesou decisivamente nos cálculos frios da política com relação ao Japão. Hiroshima e Nagashaki eram uma oportunidade para os americanos ostentarem a força de que despunham.

Há uma ironia na mudança dos tempos, desde a ascensão da ciência, na época do italiano Galileu Galileu (1564 - 1642), até a era nuclear. Galileu foi um dos pais da física moderna, a mesma que projetou a arma atômica. Galileu também é lembrado por sua luta contra o autoritarismo. É famosa a sua frase depois de ter sido obrigado a abandonar a idéia de que a Terra não estava parada e que girava em torno do Sol."No entanto, ela se move", comentou o sabio, apesar da humilhação a que fora submetido. Pode-se dizer, como uma metáfora, que ele enfrentou o imobilismo em defesa do prosseguimento da evolução do conhecimento. E da História. Em 1945, deu-se o oposto. A ciência fez o tempo parar. Restou em Hiroshima um símbolo do horror paralisante causado pelo genocídio instantâneo: um relógio parado, encontrado junto da ponte Aioi, perto do local da detonação. Deixando de marcar os minutos, ele parece dizer que, agora, a Terra já não se move.

O relógio de Hiroshima, num sentido muito real, é um herdeiro maldito de Galileu. Oppenheimer percebeu isso muito bem. Reconheceu que tinha as mãos manchadas de sangue. Não tinha dúvida de que tinha sido um dos personagens centrais de uma tragédia gigantesca. Mesmo assim, não queria voltar atrás. Em mais de uma oportunidade, perguntado, repondeu que faria tudo de novo. Sua trágica lucidez rompe com a ilusão de neutralidade da ciéncia e assume as contradições em que os mais destacados gênios podem sucumbir. A realidade em que vivemos hoje é um paradoxo fatal. Oppenheimer e seus colaboradores fabricaram o instrumento de um genocídiu inominável. Eles não tem perdão. Mas também não tem condenação. No mundo que surgiu depois de Hiroshima e Nagasaki não existe um tribunal com a isenção necessária para julgá-los. A humanidade ficou assim: de uma vez só, é vítima e cúmplice da invenção da bomba atômica.

Revista Superinteressante