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domingo, 15 de setembro de 2013

Os bons e os puros

Eles desafiaram o poderio da Igreja Católica ao criar o catarismo. Por causa da intolerância religiosa, muitos foram massacrados ou queimados na fogueira

Por Rose Mercatelli

O Castelo de Carcassone, no sul da França, foi um dos grandes refúgios do povo cátaro no século 13


Quem visita a região de Languedoc-Roussilon, no sul da França, não se cansa de admirar a paisagem cercada de rochas e videiras, as mais antigas da Europa, que orgulha seus habitantes. Incrustadas na estrada sinuosa que corta a região, o viajante encontrará ruínas de castelos em Cobiéres e Ariége que, entre os séculos 11 e 12, serviram de refúgio ao povo cátaro.

Em cidadezinhas como Montaillou, Arques, Peyrepertuse, Quéribus, Aguilar e Minerve, os moradores do Languedoc também não escondem sua admiração pela cultura cátara. Esse orgulho é visível nas pequenas livrarias com uma infinidade de livros sobre o modo de vida e a doutrina daqueles que se autodenominavam "os bons homens" e "as boas mulheres", fundadores de um cristianismo alternativo que, entre outras coisas, não admitia se submeter à soberania papal e também não aceitava os dogmas da Igreja Católica, como a crença na Santíssima Trindade, por exemplo.

Nas palavras da Igreja Romana do século 12, o catarismo não passava de um movimento herético por não acolher qualquer tipo de domínio religioso ou político, da Santa Madre Igreja. Esta, em contrapartida, não tolerava qualquer interpretação espiritual que não seguisse à risca as instruções vindas de Roma. Por tudo isso, a luta contra os cátaros durou quase oito décadas (de 1167 a 1244), até que sua doutrina deixasse de ser uma ameaça ao poderio da Igreja Católica Apostólica Romana.

Simão de Montfort


O início do movimento
Os cátaros formaram a sociedade secreta mais popular da Idade Média. Os adeptos do movimento eram pacíficos e muito estimados pela população do Languedoc, tendo muitos nobres entre seus seguidores. E não foi à toa que a doutrina cátara foi bem aceita na região. Na Idade Média, a próspera Languedoc era um centro de diversidade cultural onde conviviam em paz normandos, catalães, judeus e sicilianos. Exercido por cidadãos livres que abasteciam os feudos com seus produtos agrícolas, ferramentas, armas e um sem-número de manufaturados, a força do comércio na região também limitava os poderes da nobreza intimamente ligada ao clero.

O início do catarismo é impreciso. Alguns historiadores acreditam que o movimento religioso nasceu em Constantinopla e foi trazido para a Europa Ocidental depois da 2a Cruzada, por volta de 1147 e 1149. Outros pesquisadores sugerem que as primeiras ideias de um movimento religioso (que ainda não tinha um nome oficial) começaram antes, por volta de 1022, quando dois monges foram injustamente queimados vivos, acusados de satanismo.

O bispo de Toulouse, a maior cidade de Languedoc, foi contra a execução. Mas o que a autoridade eclesiástica escondia dos poderosos da Igreja é que ele se reunia secretamente com outros clérigos para discutir suas ideias pouco ortodoxas e as insatisfações com o catolicismo praticado na época. O grupo acreditava, por exemplo, que Deus era um espírito puro e que a criação do mundo não tinha nada de divino, mas era, sim, o resultado de uma obra perversa, criada pelas forças do mal.

As ideias dos primeiros cátaros que aspiravam a volta do cristianismo primitivo começaram a se espalhar pela Europa. A nova crença arregimentou adeptos na Catalunha (Espanha), na Alemanha, na Inglaterra e na Itália. Seguidores da doutrina cátara recebiam diferentes nomes de acordo com seu país de origem. Dessa maneira, na Itália, eram conhecidos como patarinos, na Alemanha, como ketzers, na Bulgária, como bogomils. Porém, foi na região do Languedoc que os cátaros floresceram e viveram em paz por várias décadas.

Castelo de Saint-Félix de Caraman



Rompimento oficial
O movimento, entretanto, levou mais de 150 anos para se afastar definitivamente da Igreja oficial. No século 12, mais precisamente em 1167, cátaros franceses se reuniram em uma assembleia no Castelo de Saint-Félix de Caraman, para oficializar o abandono do credo católico em quatro paróquias da região do Languedoc, Toulouse, Carcassone, Albi e Agen, abraçando as novas diretrizes do catarismo. Por causa das paróquias de Albi e Agen, o movimento também foi chamado de albigense. Nessa mesma assembleia, foram nomeados os bispos de cada região e fixados os limites de cada diocese.

Segundo uma das versões históricas, o termo cátaro viria do grego katharoi, que significa "os puros". Mas a palavra entrou para o vocabulário medieval por volta de 1160, graças a um pregador católico da Renânia chamado Eckbert de Schönau que abominava a nova doutrina. Segundo Alain de Lille, um teólogo francês do século 13, sua origem estaria na palavra catus ("gato" em latim), pois os seguidores da seita, de acordo com Eckbert de Schönau, "faziam coisas ignóbeis em suas reuniões, como beijar o traseiro de gatos".

A luta do bem contra o mal
Os novos fiéis não davam a mínima atenção para as palavras de Eckbert e continuaram em frente, espalhando sua doutrina e conquistando adeptos. O catarismo foi uma religião influenciada pelo maniqueísmo, doutrina filosófica, fundada pelo profeta persa Mani. O princípio básico da filosofia maniqueísta é a divisão do mundo entre Bom (ou Deus) e o Mal (ou Diabo). Dessa forma, toda matéria é intrinsecamente má e tudo o que é espiritual "nasce" naturalmente bom.

Conforme as ideias do profeta, a fusão dos dois elementos primordiais, os reinos da luz e das trevas, teriam originado o mundo material. Por sua vez, os cátaros, seguidores do princípio da dualidade, também acreditavam que a criação do mundo e do ser humano era obra do Diabo e que a salvação estava em encontrar o reino da luz.



O cristianismo em sua origem
O catarismo também baseou seus fundamentos no Sermão da Montanha, um longo discurso proferido por Jesus, no qual o próprio Cristo ensinou aos seus seguidores lições de conduta e de moral, ditando os princípios que normatizam e orientam a vida cristã, aquela que conduzirá o homem à sua verdadeira liberdade. O Sermão da Montanha é considerado pelos estudiosos da religião cristã um resumo dos ensinamentos de Jesus a respeito do Reino de Deus, de como o homem pode ter acesso a ele e qual será a sua transformação quando chegar lá.

De acordo com a doutrina cátara, Cristo não foi um mensageiro de Deus que veio para ensinar o caminho da salvação. Sua morte não significa a redenção, como prega a Igreja Romana, mas representa a vitória do mal que jamais poderia ser vencido pela crucificação de Cristo. O sofrimento e a morte de Cristo serviram para alimentar ainda mais as forças das trevas. Eles também não acreditavam na cruz nem na eucaristia. A salvação, segundo eles, só era alcançada por quem seguisse ao pé da letra os preceitos do Sermão da Montanha, pois a Igreja Católica Romana era, sim, um reduto de anticristos.

Vida pura e casta 
Eles abdicavam de suas posses materiais e procuravam levar uma vida pura, afastando-se o quanto podiam do mundo material, o qual consideravam corrupto. Seus padres se vestiam com hábitos negros e rejeitavam os sacramentos, como o batismo, a eucaristia e o matrimônio. E não se incomodavam com o sexo fora do casamento. "A castidade devia ser priorizada, mas se não fosse possível mantê-la, melhor seria manter encontros casuais do que oficializar o mal por meio do casamento, um sacramento não aceito por eles", escreve a historiadora Maria Nazareth de Barros, autora de Deus Reconhecerá os Seus: A História Secreta dos Cátaros.

Em consequência dos seus princípios de pureza e castidade, os cátaros também repudiavam a maternidade. Qualquer mãe, frente à impossibilidade de gerar entes espirituais e perfeitos, ao dar origem apenas a humanos imperfeitos, estaria produzindo ainda mais matéria impura e fonte do mal.

Entretanto, apesar de o casamento e a procriação fossem tidos como obras maléficas eram também considerados, ao mesmo tempo, uma benção, pois evitava uma degeneração maior entre seus seguidores por dois motivos. Primeiro porque, segundo a lei bíblica, é melhor casar do que abrasar. Depois, como eles acreditavam na reencarnação, o nascimento era visto pela doutrina cátara como uma possibilidade de resgate pelas imperfeições geradas em outras vidas.

"Matem todos. Deus reconhecerá os seus". Esta foi a ordem do Abade Arnaldo Amauri, durante o cerco em Bélziers, França. Durante o massacre, os cruzados mataram mais de 20 mil pessoas, entre cátaros e católicos


A morte como salvação
A salvação para o catarismo era a libertação da alma de seu corpo material impuro. Por isso, os cátaros viam com bons olhos o suicídio. De acordo com Nachman Falbel, professor titular de História Medieval da USP, além do suicídio por envenenamento ou salto em um precipício, ou ainda a pneumonia voluntariamente contraída, era comum procurar a morte pela fome.consolamentum é um ritual que simbolicamente representava sua morte para o mundo material e e corrupto corrupto



Eram considerados bons homens depois de receberem oconsolamentum, um ritual que simbolicamente representava sua morte para o mundo material e corrupto. Os que eram apenas simpatizantes da doutrina, mas que não tinham nenhum compromisso formal com o movimento, só recebiam oconsolamentum nos momentos que antecediam sua morte.

Os altos sacerdotes cátaros eram denominados perfeitos. Eles andavam sempre em dupla, pregando entre o povo o Amor universal e ajudando a população carente. Por todos esses ensinamentos e diferenças entre o pensamento cátaro e o catolicismo oficial, a Igreja Romana via cada vez mais a nova doutrina como uma perigosa heresia a ser debelada.

Cruzada Albigense 
Mas não apenas por causa da doutrina herética que a Igreja Católica queria fazer desaparecer os cátaros da face da Terra. Por trás, existia também o interesse econômico da Igreja, na medida em que os dízimos de inúmeras paróquias, principalmente as do Languedoc, não chegavam mais a Roma.

No século 12, o papado tentou segurar o movimento, promovendo a reconversão de seus antigos fiéis, perdidos para o catarismo. Não resolveu. A Igreja, então, endureceu quando o papa Inocêncio III assumiu em 1198 e suspendeu os direitos eclesiásticos de diversos bispos do sul da França.

Em 1208, o representante da Igreja Pierre de Castelnau excomungou um nobre e, em represália, foi assassinado. O conde de Toulouse, Raimundo VI, foi o acusado de ser mandante do assassinato. O acontecimento acirrou os ânimos dos católicos que passaram a usar a violência para acabar com os seguidores da nova doutrina.

Inocêncio III tentou conter o abuso de seus fiéis escrevendo bulas e reduzindo o luxo do Vaticano, severamente criticado pelos antigos católicos convertidos ao catarismo. Para angariar aliados, apoiou a fundação de ordens mendicantes, como a dos franciscanos (de São Francisco de Assis e os dominicanos (de São Domingos de Gusmão).

Os cátaros que resistiram às Cruzadas finalmente foram exterminados pela Inquisição em Ariège, na metade do século 13

Reconhecimento divino 
Ainda por cima, Inocêncio III autorizou uma Cruzada, comanda pelo rei da França, Felipe II que, com outros nobres de Toulouse, iniciaram a carnificina que durou de 1209 a 1244. Na primeira fase da Cruzada, em julho de 1209, um exército de cerca de 30 mil homens, incluindo cavaleiros e infantes, desceu do norte da Europa para o Languedoc. No primeiro cerco em Béziers, que durou dois meses, os cruzados invadiram a cidade e aniquilaram quase toda a população, deixando para trás 20 mil mortos, entre eles muitas mulheres e crianças, sem se importarem se eram cátaros ou católicos. Quando um oficial perguntou ao representante do papa, o Abade Arnaldo Amauri, como ele conseguiria distinguir os hereges dos crentes verdadeiros, a resposta foi: "Matem-nos todos. Deus reconhecerá os seus."

Na guerra que se seguiu, todo o território foi pilhado, as colheitas destruídas, as cidades e vilarejos arrasados. O extermínio ocorreu numa extensão tão vasta que alguns historiadores consideram esse caso como o primeiro genocídio da história da Europa moderna.

Diante da fúria dos cruzados, uma a uma, as cidades de Languedoc foram caindo em poder dos franceses do norte e da Igreja sob a alegação de serem focos de atuação de cátaros. Carcassonne, depois de duas semanas sitiada, foi destinada a Simão de Montfort, o novo chefe militar da guerra santa. Na verdade, nos anos seguintes, a cruzada se transformou em um alto negócio para o nobre. Mais do que aniquilar os cátaros, seu alvo eram as terras e as joias da nobreza do Languedoc, não importa se apoiassem ou não os hereges.

As duas últimas fases 
Em 1224, com o apoio do papa Honório III (Inocêncio III faleceu em 1216), começou a segunda fase da Cruzada Albigense quando o então rei da França, Luís VIII, liderando os barões do norte francês, empreendeu uma nova investida que durou cerca de três anos com muitas conquistas até chegar a Avignon, onde terminou o cerco contra os hereges.

Apesar de terem o apoio de pequenos condados, os cátaros não conseguiram resistir ao genocídio das Cruzadas, mas elas não conseguiram erradicar o catarismo de forma definitiva. Foi a Inquisição, a instituição que realmente conseguiu exterminar definitivamente o catarismo. Quarta-feira, 16 de março de 1244, aos pés de um penhasco da região de Ariège (Midi-Pyrenees), nos Pirineus franceses, 225 homens e mulheres cátaros foram queimados em uma grande fogueira nos arredores da fortaleza de Montségur. Entrincheirados a 1.200 metros de altitude, os seguidores do catarismo foram capturados após dez meses de cerco, tinhamse recusado a abjurar a sua fé.
Saiba +


The Corruption of Angels, de Mark Gregory Pegg, Princeton University Press, 2001.

Deus Reconhecerá os Seus: A História Secreta dos Cátaros, de Maria Nazareth Alvim de Barros, Rocco, 2007
Revista Aventuras na História

sábado, 18 de agosto de 2012

A história sobrenatural do Brasil



Livro resgata fatos obscuros do trabalho
de cristianização dos índios na América portuguesa
Antropofagia, bebedeiras coletivas, poligamia, rituais pagãos, nomadismo, cotidianas guerras tribais. Como conviver com um povo deste? Para os dominadores portugueses do Brasil colônia, era impossível. Daí a decisão de catequizar os indígenas ou, havendo resistência, de escravizá-los ou dizimá-los. 
Os vivos e os mortos na América portuguesa – Da antropofagia à água do batismo é um livro de Glória Kok, lançado pela Editora da Unicamp, enfocando os vínculos que índios e jesuítas estabeleceram com o mundo sobrenatural. Formada em filosofia, mestre e doutora em história social pela USP, Glória reuniu testemunhos preciosos sobre a forma como os nativos brasileiros – notadamente os tupis-guaranis – encaravam a morte e o paraíso, as suas práticas xamânicas, o significado de suas guerras, as formas de resistência diante dos colonizadores e das atrocidades de que foram vítimas em nome da cristianização.
A partir do reconhecimento pelo papa de que os índios são seres racionais (em 1537) e da chegada da Companhia de Jesus (em 1549), Glória Kok resgata fatos obscuros da história colonial até hoje pouco divulgados. Esta omissão, de um lado, ajudou a eternizar o preconceito contra ritos ancestrais, pois, por ignorarmos seus significados, nos habituamos a vê-los como manifestação da ignorância dos índios. De outro lado, contribuiu para manter imaculada a história oficial, onde praticamente não se menciona o genocídio de nativos e que somente agora começa a ser revista e recontada aos alunos da rede básica.
Na opinião da pesquisadora da USP, houve nos últimos anos grande produção de teses e livros de historiadores, o que iluminou o tema da colonização da América portuguesa sob diferentes prismas. “Esses textos são gradualmente transpostos, ainda que com filtros, para os livros de ensino fundamental e médio. Assim, os conflitos inerentes ao processo de catequização e à escravidão já se apresentam indissociados da história da colonização em vários livros didáticos e paradidáticos do mercado brasileiro", afirma.
Glória, porém, ressalta que isso não basta. "Na minha opinião, os livros também devem contemplar uma abordagem mais detalhada e dinâmica dos rituais indígenas tupis-guaranis e a leitura que deles fizeram os jesuítas, bem como a que os índios fizeram do mundo cristão, para que os alunos possam entender as disputas simbólicas que estruturam nosso imaginário".


Hoje - Solicitada a avaliar a postura da Igreja de hoje ante os índios, a autora de Os vivos e os mortos lembra que, mesmo na Colônia, os jesuítas reuniram todas as forças para a catequese e, para isso, precisaram flexibilizar os seus próprios procedimentos. Ela crê que este enfoque em relação aos índios mudou, sobretudo a partir dos anos 70, com o surgimento da Teologia da Libertação na América Latina, quando a Igreja passou a se colocar ao lado dos oprimidos. "Não sou uma especialista na matéria, mas nota-se que, por um lado, a Igreja desenvolveu um padrão bem mais tolerante com relação às culturas diferentes e ancestrais e, por outro, muitos povos indígenas aguçaram a consciência da necessidade de preservação das tradições tribais e das diferentes culturas, organizando movimentos de resistência".
Os mortos em desassossego
Segue uma reprodução (praticamente literal) de alguns tópicos do Capítulo 1 de Os vivos e os mortos na América portuguesa – Da antropofagia à água do batismo. O capítulo leva o título acima e este resumo, obviamente, não reflete a riqueza de detalhes com que Glória Kok resgata as relações dos indígenas com o mundo sobrenatural:


*Por ocasião da chegada dos europeus à América portuguesa, os Tupi viviam na orla atlântica do Amazonas até Cananéia e na região da bacia amazônica, enquanto os Guarani distribuíam-se pelo litoral de Cananéia ao Rio Grande do Sul, infiltrando-se nas margens dos rios Paraná, Uruguai e Paraguai. Esta ocupação dos tupi-guarani era interrompida apenas em alguns pontos do litoral: na foz do Rio Paraíba pelos Goitacá, pelos Aimoré no sul da Bahia e norte do Espírito Santo, e pelos Tremembé na faixa entre Ceará e Maranhão. Esses povos não-Tupi eram chamados de tapuias.
*As guerras entre tribos indígenas, mesmo de mesma língua, fervilhavam por todo o território. O motivo desses conflitos era um só: eles queriam vingar a morte dos seus pais antepassados. Para os europeus, essas guerras não tinham o menor sentido, já que não visavam nem a expandir o território, nem enriquecer, nem dominar, explorar ou aniquilar o inimigo. Muitas vezes, um grande contingente de homens era mobilizado para incursões guerreiras, cujo resultado era a captura de um único prisioneiro, que depois seria comido ritualmente pela tribo.
*Na aldeia vitoriosa, o índio capturado era recebido com muita alegria e entusiasmo. Era pouco vigiado, pois se fugisse seria considerado um covarde em sua terra e acabaria passando a vergonha de ser morto pelos índios de sua própria tribo. A morte pelo inimigo era a ideal, almejada por todos: a consagração do guerreiro. Não se encontrava prisioneiro que não preferisse ser morto e comido a pedir perdão.

*Para os covardes e os homens que nunca mataram um inimigo, o destino lhes reservava a mortalidade da alma, o apodrecimento do corpo, a transformação em uma existência espectral, que não conservava nada mais de humano. Aos guerreiros valorosos, que aprisionaram e mataram muitos inimigos, ou ainda às mulheres dedicadas ao preparo da carne dos prisioneiros e à sua ingestão, era permitido o ingresso a essa vida ideal coroada pelo convívio com os antepassados, deuses e heróis-civilizadores.

*É lícito afirmar que os índios acreditavam na realidade de uma substância para além do corpo físico, a que os europeus atribuíram o nome de alma. Mas a alma índia não envolvia a idéia de desmaterialização absoluta. Tampouco suprimia todas as ligações entre a "alma" e os restos mortais ou a desvencilhava das primitivas necessidades. Nessa ótica, a morte representava uma fenda na pessoa, a partir da qual o corpo e a alma submetiam-se a intensos processos de transformação.
*Contrapondo-se à vítima do terreiro que não demonstrava o menor vacilo ante o golpe de tacape, ciente de que seu corpo posteriormente seria consumido pelos inimigos, o índio que era acometido por alguma doença e percebia a proximidade da morte vivia trespassado pelo medo. Pode-se deduzir que o medo era, em grande parte, oriundo da decomposição física. "(...) dizem que é triste cousa morrer, e ser fedorento e comido pelos bichos".
*O curso das relações entre os vivos e os mortos nas tribos tupis-guaranis alterou-se substancialmente com a chegada dos jesuítas que, ao trazerem um outro modelo de sobrenatural, desfiguraram e esgarçaram o vínculo existente entre os vivos e os mortos. No entanto, antes de implantá-lo, trataram, sobretudo, de minar a resistência indígena que se manifestaria em várias regiões e de formas variadas.

SERVIÇO
Os vivos e os mortos na América portuguesa - Da antropofagia à água do batismoGlória Kok
Editora da Unicamp
Campinas, 2001
183 páginas


Jornal Unicamp

terça-feira, 31 de julho de 2012

Igreja e Império Romano


entre Igreja e Império Romano
Historiador entende que a aproximação
entre as partes se deu fundamentalmente
por iniciativa de clérigos

Em dissertação de mestrado apresentada ao Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp, o historiador Robson Murilo Della Torre propõe uma nova leitura dos documentos que tratam da relação entre Igreja e Império Romano durante o principado de Constantino (início do século IV), o primeiro imperador a se declarar publicamente cristão. Ao contrário do que frequentemente registram os pesquisadores do tema, o autor do trabalho considera que a aproximação entre as partes teria se dado muito mais pela ação dos bispos, preocupados em defender e ampliar direitos e benefícios das comunidades cristãs, do que pela iniciativa da corte imperial, eventualmente interessada em obter vantagens com a possível submissão dos fiéis às suas políticas. O trabalho foi orientado pela professora Neri de Barros Almeida.
Della Torre conta que começou a trabalhar com a temática ainda na iniciação científica. Na graduação, durante a leitura dos documentos, um aspecto chamou a atenção dele. Vários autores partiam da concepção de que o Império teria cooptado a Igreja, para que esta lhe servisse de instrumento ideológico. “A partir do contato com esses textos, considerei que a relação entre Império e Igreja merecia ser analisada não tanto a partir dos interesses da corte, mas sim dos clérigos. Temos vários indícios na documentação, principalmente nos escritos do bispo palestino Eusébio de Cesaréia, nos quais meu trabalho se baseou, de que os representantes da Igreja se dirigiam com certa frequência ao imperador para pedir a concessão de benefícios ou a ratificação de direitos ancestrais da Igreja, que não estavam consolidados no direito romano”, afirma.
Entre os benefícios pleiteados pelos religiosos estavam, por exemplo, a obtenção de isenções fiscais, de privilégios jurídicos e de recursos financeiros para a construção de templos. “Esse tipo de relação, vale registrar, antecede Constantino. Já é possível identificar o movimento de aproximação entre Igreja e Império desde meados do século III. Em 270, por exemplo, um bispo pediu ao imperador Aureliano que este revertesse a decisão conciliar que o havia afastado da igreja de Antioquia, no que foi atendido. O dado interessante é que o referido imperador, além de pagão, determinou mais tarde uma perseguição aos cristãos, que acabou fracassada, uma vez que ele morreu antes do início das ações”, relata.
O principado de Constantino, conforme o autor da dissertação, é emblemático no que se refere à análise da relação entre Igreja e Império justamente porque o imperador foi o primeiro a se declarar cristão. “Durante o período em que ele esteve no poder, porém, não ocorreu uma ruptura com um suposto passado idílico no qual os cristãos teriam rejeitado todo e qualquer contato com os poderes constituídos, mas sim o ápice de um processo que já vinha em curso, principalmente por iniciativa clerical”, defende Della Torre. Com Constantino, prossegue o historiador, ocorre uma maior abertura aos cristãos. Cria-se, por exemplo, um novo corpus legislativo para tratar de ações da Igreja. “É importante notar que essa abertura seria em vão se não houvesse o interesse da Igreja em participar e se não houvesse esse histórico de busca pelo poder imperial para defender seus interesses”, insiste.
De acordo com Della Torre, Constantino também foi o primeiro imperador a isentar os clérigos de obrigações civis, como prestar serviços públicos. A justificativa apresentada por ele era de que os religiosos não precisavam deixar suas obrigações com Deus para cumprir tais tarefas. A despeito de as comunidades cristãs terem conquistado inúmeras vantagens junto ao poder imperial no período considerado, a relação entre as instituições nem sempre era tranquila, como assinala o autor da dissertação. No final do século IV e início do V, a negociação entre as partes, dependendo do tema em questão, era bastante espinhosa. Um exemplo nesse sentido era confisco dos templos pagãos, que em alguns casos eram revertidos para a Igreja. “O Império tinha dificuldade de atender a esse tipo de interesse dos clérigos porque os pagãos eram súditos como quaisquer outros. Eles pagavam seus impostos e não ofereciam problema ao poder constituído. No começo do século V, o imperador Arcádio se negou a atender esse tipo de pedido, justificando que a medida poderia gerar tumulto, uma vez que os pagãos cumpriram seus deveres normalmente”, explica Della Torre.
Ainda segundo a leitura proposta pelo pesquisador, embora a aproximação entre Igreja e Império tenha se dado fundamentalmente por iniciativa da primeira, o segundo também auferia vantagens com essa relação. A principal delas, no entender de Della Torre, era o fato de os clérigos não provocarem tumulto, dado que tinham poder para isso. “Na época, não era raro as facções eclesiásticas digladiarem entre si, o que perturbava a ordem pública. Há um episódio ocorrido em Roma, em 366, no qual dois candidatos ao episcopado se enfrentaram no interior de uma igreja. Segundo os relatos de um autor pagão, o resultado do confronto foi a morte de 3mil pessoas. Ou seja, o Império tinha todo o interesse de que esses acontecimentos não se repetissem. Em outras palavras, o poder imperial esperava que a Igreja adotasse uma posição conciliadora e não trouxesse problemas”.
Na opinião de Della Torre, ao lançar o olhar para os acontecimentos do século IV, é possível compreender melhor as questões de hoje. “Penso que um ponto importante do trabalho é justamente pensar como as igrejas já lidaram de modo diferente com o poder secular. Atualmente, a relação das igrejas com as diferentes esferas de governo se dá de forma direta, entre bispos, padres e pastores e as autoridades constituídas. Há uma defesa de interesses muito particular. Eu não vejo, como ocorria no século IV, as igrejas mobilizando fiéis para fazer valer os interesses da comunidade. Exceto no caso da última eleição presidencial, em que o tema do aborto deu o tom dos debates e obrigou as igrejas a se manifestarem publicamente a respeito, a relação entre as partes se dá de modo mais restrito”, considera. De certa forma, continua o historiador, esse novo modelo de relacionamento advém do movimento reformista cristão, que estabeleceu uma clara divisão entre Igreja e Estado, o que não havia no século IV.
A pesquisa desenvolvida por Della Torre, como já mencionado, foi baseada fundamentalmente nas obras de Eusébio de Cesaréia, que produziu vários textos sobre o imperador Constantino. “Tentei relacionar essas obras com a produção literária mais ampla de Eusébio. Além disso, também usei documentos que me permitissem confrontar ou ampliar o que ele registrou, como os escritos de historiadores eclesiásticos do século V. Por fim, utilizei ainda tratados teológicos e textos de autores pagãos, bem como breviários dos século IV”, elenca o autor da dissertação.
O trabalho acadêmico, assinala Della Torre, está vinculado ao grupo de pesquisa do Laboratório de Estudos Medievais (Leme), que envolve, além da Unicamp, USP, Unifesp e UFMG. “A atuação do grupo é muito importante porque congrega outros estudos relativos a essa temática. Tenho colegas pensando a relação entre Igreja e Império a partir de outras perspectivas”, observa o historiador, que contou com bolsas concedidas em períodos distintos pelo Conselho de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).
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■ Publicações
Dissertação: “A atuação pública dos bispos no principado de Constantino: as transformações ocorridas no Império e na Igreja no início do século IV através dos textos de Eusébio de Cesaréia”
Autor: Robson Murilo Della Torre
Orientadora: Neri de Barros Almeida
Unidade: Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH)
Financiamento: CNPq e Fapesp
Jornal UNICAMP

domingo, 10 de junho de 2012

Rapidinhas ... Cesaropapismo



Submetida ao imperador bizantino, a igreja de Constantinopla se mantinha autônoma em relação ao patriarca de Roma (o Papa). O mesmo ocorreu em outras sedes da igreja oriental, incluindo partes da Europa do leste, onde os patriarcas eram autônomos e só formalmente subordinadas ao patriarca de Roma. Nos territórios de Bizâncio, a maior autoridade da igreja era o imperador. Portanto, desde o início da Idade Média, ou mesmo antes, as igrejas do Ocidente e do Oriente eram separadas. No entanto, a ruptura total somente se consumaria com o Grande Cisma do Oriente, no século XI, com a fundação da igreja ortodoxa ou igreja grega, que conheceu diversas ramificações.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Irmandades


Vivien Ishaq
Pesquisadora do Arquivo Nacional
Doutora em História - UFF

O culto em torno da devoção a um santo, representado por relíquia ou imagem, fazia parte das práticas do catolicismo ibérico. Devoção particular vivida na privacidade da casa, e devoção coletiva vivida na comunidade de irmãos organizada em torno da eleição de um padroeiro comum, com quem dividiam simbolicamente as incertezas e as dificuldades terrenas. A Igreja pós-tridentina confirmou os poderes dos intercessores, em resposta à reforma protestante que eliminou ou minimizou todos os intermediários entre o crente e Deus: liturgia, clero, sacramentos, culto dos santos e orações pelos mortos. Os santos da Igreja católica seriam os guias e advogados, os confessores, os mestres, os mártires da fé; “seriam eles os personagens intermediários que manteriam a relação entre a vida na terra e a inspiração do céu”[1]. Os católicos praticavam sua devoção em santuários, em oratórios, capelas, igrejas, e também em irmandades. Inspiradas por suas congêneres européias – que atingiriam o milhar no final do século XV –, especialmente as portuguesas, as irmandades fundadas por leigos, desde o século XVI, marcaram com suas festas e procissões a religiosidade vivida no mundo colonial, expressando ser uma célula importante da vida na América.
As irmandades não estavam subordinadas a uma ordem religiosa como as ordens terceiras e se distinguiam das confrarias medievais que, via de regra, eram vinculadas a uma paróquia. Antes da publicação, em 1719, das Constituições primeiras do arcebispado da Bahia, que regulamentaria a vida religiosa do território português, as irmandades fundadas no ultramar era regidas pelas Ordenações do Reino. Esta legislação determinou que as irmandades fundadas por leigos e por eles dirigidas estavam subordinadas às autoridades civis, podendo os prelados visitá-las, porém, somente com "nossa licença, por assim serem de nossa imediata proteção”, estabelecendo, ainda, limites da administração eclesiástica em relação a essas associações.[2].
As irmandades são associações formadas por leigos dedicadas ao incremento da devoção aos santos e santas da Igreja católica. Como a implantação dos bispados e paróquias ocorreu de maneira gradual e diferenciada nas terras lusas na América, concorrendo para que organização da vida religiosa da população ficasse, em grande medida, a cargo dessas associações. Foram elas que dinamizaram o incremento do culto católico pelas diversas regiões do vasto território, exigência do padroado concedido pela Santa Sé à monarquia portuguesa, e disputando com o clero colonial os dízimos administrados pela Coroa portuguesa.
A legislação dotava cada irmandade de autonomia para gestão de seus bens e rendas, que eram arrecadados também por meio de doações de fiéis e das heranças dos irmãos congregados. Cada irmandade era regida por um estatuto ou compromisso, que era submetido à aprovação régia, no qual estava registradas as regras do funcionamento da associação e os direitos e os deveres de seus membros, denominados irmãos ou irmãs.
No século XVIII a organização de irmandades se intensificou na Colônia e implicava, no mínimo, a obtenção de um altar onde se pudesse prestar a devoção ao santo patrono escolhido pelo grupo de fiéis. Era comum que em uma mesma igreja estivesse sediada mais de uma irmandade, e com o crescimento da associação e do volume de recursos arrecadados, a irmandade poderia construir sua própria igreja, existindo ainda a possibilidade de que um irmão abastado arcasse com a edificação da mesma, como foi o caso, por exemplo, da Igreja da Candelária na cidade do Rio de Janeiro. Nos documentos do Arquivo Nacional estão registrados os conflitos decorrentes da divisão de um mesmo espaço pelas diferentes irmandades, a busca de autonomia administrativa, assim como os esforços de arrecadação de recursos para construção e embelezamento das igrejas, pois elas eram o sinal visível da existência da associação para a comunidade de habitantes.
Em suas capelas e igrejas as populações teciam uma rede de relações que iam além de sua participação nos ofícios religiosos. Seus membros, já congregados em torno da devoção ao santo patrono, uniram-se por meio dos laços de solidariedade e de auxílio mútuo, promovendo sepultamentos dignos, sufrágios às almas dos irmãos falecidos, e prestando assistência às suas viúvas e órfãos. A documentação do Arquivo Nacional reunida, por exemplo, no Fundo Inventários, registra o desejo de inúmeros fieis, que motivados pela fé, por promessas, pela vontade de garantir um lugar longe do inferno ardente, pela necessidade de afirmação de sua fortuna perante a sociedade ou mesmo pela busca da eternidade, doavam parte de seu patrimônio às irmandades. Era prática comum dos devotos na sociedade portuguesa e também em suas colônias, designarem suas almas como herdeiras. Os legados eram administrados pelas irmandades, de forma a garantir a realização de missas pela alma do morto, muitas vezes por décadas, tentando, assim, interceder no julgamento final entre o inferno ou o paraíso.
As relações de solidariedade eram soldadas no mesmo espaço da realização dos rituais religiosos; e em razão da sua natureza associativa e de seu caráter eletivo, era também um lugar de sociabilidade. Ser membro de uma irmandade respondia a uma necessidade social inscrita na sociedade colonial, alguém que não participasse da vida religiosa, seja nas igrejas paroquiais, seja nas irmandades, seria de certa forma visto com desconfiança, a possibilidade de denúncia à Inquisição era uma ameaça sempre presente.
O calendário de festas religiosas e procissões proporcionava à população momentos de convívio social, sobretudo às mulheres, rompendo seu cotidiano restrito ao ambiente doméstico-familiar. Nessas ocasiões, nas vilas e cidades, os fogos de artifício eram soltos em frente às portas das igrejas, que ficavam iluminadas durante toda a noite. Cruzes e figas contra o mau-olhado eram vendidas à mesma população, o comércio dos objetos considerados capazes de afastar as desgraças e os malefícios se intensificava, eram vendidas, por exemplo, fitas que pretendiam ter a exata altura das imagens do santo escolhido. Usadas em torno da cintura, inscrevia-se nelas o nome de quem as portava, com a esperança de que amarradas junto ao corpo, removessem dores ou doenças. Nas procissões, cada irmandade concorria para fazer dessa participação o momento de reconhecimento da comunidade. As vestimentas, as cores, as opas e os estandartes utilizados pelos membros de uma irmandade eram sinais de reconhecimento interno e permitiam, igualmente a afirmação de identidade do grupo para o exterior.
Os dias das festas dos santos e santas venerados pelas irmandades de negros, por exemplo, eram ocasiões onde as tradições africanas se manifestavam, sobretudo, durante as eleições de reis e rainhas da irmandade. Momentos de afirmação de identidade cultural, mas também oportunidade de lutar pela sobrevivência de cada irmandade, uma vez que nesses dias havia a arrecadação de doações, que auxiliava a comunidade a manter a associação, tornando-se o único lugar de convívio social dessa população fora do mundo do trabalho. Uma importante função cabia às irmandades que reunia escravos, reservar parte dos recursos das irmandades para a compra de alforria de alguns de seus membros, conforme foi registrado na correspondência da Coroa ao governador da capitania de Rio de Janeiro: “por parte dos irmãos da Senhora do Rosário dessa capitania, se me representou aqui terem alguns irmãos cativos em algumas casas com ruim cativeiro, e por alguns deles se achasse com bastante resgate para se libertarem, não podia fazer a dita Irmandade sem licença minha[3].
Organizadas segundo os diferentes grupos sociais, as irmandades revelavam a estratificação da sociedade colonial. As irmandades de Nossa Senhora do Rosário, por exemplo, reuniam negros forros e escravos. As famílias mais ricas geralmente se reuniam nas Igrejas da Irmandade de Misericórdia e do Santíssimo Sacramento. Uma rígida hierarquia existia entre as diversas irmandades que conviviam numa mesma localidade, expressando o prestígio social das atividades profissionais dos seus membros, das disparidades entre seu nível de fortuna e, em relação direta com esses últimos elementos, dos meios de que cada irmandade dispunha para assegurar um belo desfile numa procissão.
As irmandades coloniais desempenharam uma intenção função de regulação das comunidades paroquiais; reforçando hierarquias sociais, difundindo padrões morais e de comportamento.Eram unidades espaciais mais próximas da comunidade de fiéis e que cumpriram funções religiosas e sociais, auxiliando na resolução de aspectos fundamentais tanto da vida privada quanto da coletiva, tentando assim, atender ou dar melhor resposta às necessidades vividas por parte da população colonial.

[1] Giulio Carlo Argan. L’age baroque. Géneve: Editons d’Art Albert Skira, 1989, p. 77.
[2] Ordenações e leis do Reino de Portugal. Coimbra: Real Imprensa da Universidade, 1833, 10a edição, parágrafo 42, p. 238.
[3] Arquivo Nacional. Códice Correspondência da Corte para o governador Duarte Teixeira e Chaves, 12 de janeiro de 1685
http://www.historiacolonial.arquivonacional.gov.br
O Arquivo Nacional e a História Luso-Brasileira

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Arquivo secreto do Vaticano publica pedido de divórcio de Henrique 8º

Retrato de Henrique VIII, de Hans Holbein
Revista História Viva

ASSIMINA VLAHOU
da BBC Brasil, em Roma


O Arquivo Secreto do Vaticano anunciou que irá publicar cópias da carta de 1530 em que nobres e religiosos ingleses pedem ao papa para anular o casamento do rei inglês Henrique 8º com Catarina de Aragão para que ele pudesse se casar com Ana Bolena.

O documento original, arquivado no Vaticano com o nome de "Causa Anglica --O atribulado caso matrimonial de Henrique 8º", contribuiu para desencadear o cisma entre a Igreja Anglicana e a Igreja Católica.

O original e um fac-símile, a partir do qual serão feitas outras cópias, foram apresentados para a imprensa na última terça-feira, na sede do Arquivo Secreto do Vaticano.

O lançamento oficial das cópias do documento está marcado para o dia 24 de junho, durante as comemorações dos 500 anos da ascensão de Henrique 8º ao trono da Inglaterra.

O texto é considerado uma das páginas fundamentais da história inglesa. Nele, 85 nobres e religiosos ingleses se dirigem ao papa Clemente 7° pedindo a anulação do casamento do rei com Catarina de Aragão, a primeira das seis esposas de Henrique 8°.

Para se casar com Catarina, o rei da Inglaterra, que subiu ao trono em 1509, já tinha pedido uma autorização especial do pontífice, porque ela era viúva de seu irmão.

Cópias

A primeira cópia da carta vai ser dada ao papa Bento 16, que deve visitar a Inglaterra até o final do ano. As demais publicações serão vendidos a museus, institutos de cultura e colecionadores privados.

Os interessados deverão desembolsar cerca de R$ 130 mil para comprar uma das cópias e, provavelmente, comprometer-se a expô-la a um público mais amplo.

Até agora, o documento podia ser visto apenas por chefes de Estado ou outras autoridades em visita oficial ao Vaticano.

Segundo o diretor do Arquivo Secreto do Vaticano, monsenhor Sergio Pagano, o dinheiro arrecadado com as vendas vai ser usado para restaurar parte do acervo da instituição, um dos mais ricos do mundo.

Cisma

A carta ao papa foi redigida em duas cópias, ambas assinadas pelos nobres e religiosos com os tradicionais lacres. Uma delas está no Arquivo Secreto Vaticano e a outra no arquivo Nacional de Kew, na Inglaterra.

Um trecho do documento, publicado pela imprensa italiana, mostra que os nobres ingleses já previam a possibilidade de que uma resposta negativa do papa pudesse agravar a situação já delicada da Igreja Católica na Inglaterra.

"Mas se [o papa] não quiser fazê-lo [anular o casamento de Henrique 8º], menosprezando as exigências dos ingleses, eles se sentiriam autorizados a resolver a questão sozinhos e procurariam soluções em outro lugar. A causa do rei é a causa deles. Se [o papa] não intervir ou demorar a agir, a condição deles se tornará mais grave, mas não irresoluta: os remédios extremos são sempre os mais desagradáveis. Mas o doente quer sobretudo sarar", diz o documento.

O cisma entre os anglicanos e a Igreja Católica ocorreria quatro anos mais tarde, em 1534.

Conservação

Segundo os técnicos da editora que vai publicar as cópias para a Santa Sé, o texto de propriedade do Vaticano está em excelentes condições.

"No pergaminho [do Vaticano] estão pendurados lacres magnificamente conservados, enquanto o documento que ficou na Inglaterra está em estado de conservação precário. Em algumas partes chega a ser ilegível e não há nenhum lacre", diz um comunicado da editora.

O pergaminho com os 85 lacres, emoldurados em metal e unidos por uma fita de algodão e seda de 40 metros de comprimento, pesa 2,5 kg.

Arquivo secreto

No Arquivo Secreto Vaticano, criado em 1610, são conservados mais de 2 milhões de documentos relativos a 800 anos de história, em um espaço de 85 quilômetros de prateleiras.

Usado sobretudo pelo papa e pela Cúria romana, o arquivo secreto foi aberto aos estudiosos e pesquisadores a partir de 1881.

Além de documentos sobre a história cristã, o arquivo possui importante material sobre a história dos vários países.
Folha de São Paulo

sábado, 24 de abril de 2010

Santos pecadores


São Cipriano, detalhe de um mosaico do século VI que representa a procissão dos mártires, na Basílica de Santo Apolinário Novo, Ravena

Santos pecadores
Durante boa parte da vida, eles vacilaram. Cometeram crimes, afrontaram os valores religiosos e até mataram cristãos. Saiba o que alguns santos andaram aprontando antes de ser canonizados

por Michelle Veronese
Camilo era viciado em jogo, Maria amava a luxúria, Paulo matava inocentes e Cipriano maltratava donzelas indefesas. Para não falar no que fizeram Margarida, Cássio, Sebastião... Segundo a tradição cristã, esses personagens viveram histórias de arrepiar. Mas, curiosamente, todos são cultuados como santos. A eles a Igreja dedica festas, altares e procissões. Mas como esses homens e mulheres conseguiram superar suas falhas e se tornar veneráveis? Bem, essa resposta você não vai encontrar aqui – até porque as histórias de redenção são bem conhecidas e bastante parecidas entre si. Nos relatos a seguir, queremos mostrar o lado menos famoso desses santos. O lado que não combina com as auréolas douradas.

A parte obscura das biografias dos santos, entretanto, não é vista como algo negativo pela Igreja. Ao reconhecer os erros dos indivíduos que foram canonizados, a instituição humaniza seus santos, criando exemplos de superação a ser seguidos pelo fiéis. Afinal, vacilar também faz parte da vida. E da santidade, como explica o teólogo Victor Villavicencio, da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Minas Gerais: “Geralmente, o santo sente o chamado da fé, mas rejeita a vocação e passa a viver um conflito”. No fim das contas, segundo a tradição, todos os santos acabaram superando esse conflito e assumindo sua vocação. O que impressiona, nos casos a seguir, é como alguns capricharam na hora de pecar.

O bruxo

“Meu glorioso São Cipriano!” Experimente mencionar essa frase em público. Os mais supersticiosos baterão na madeira, farão o sinal da cruz ou se fecharão num silêncio constrangedor. Muitos séculos após sua morte, Cipriano, chamado de “o feiticeiro”, ainda desperta reações como essas. Há quem negue que ele seja santo, quem garanta que fez pacto com o demônio e quem não queira nem ouvir falar dele.

Mas por que um santo é lembrado dessa maneira? A resposta está na história espinhosa que antecede sua conversão. Diz a tradição cristã que Cipriano nasceu e viveu na cidade de Antioquia, no norte da Síria, no fim do século 3. Adorador de deuses pagãos, ele estudou magia, alquimia, ocultismo, astrologia e cartomancia. Especializou-se em todo tipo de artes mágicas, empenhando-se em usá-las para causar o mal. E, diz a lenda, ainda tornou-se amigo íntimo de espíritos e demônios (Lúcifer e Satanás seriam os mais chegados), recorrendo a eles para conquistar seus objetivos.

Uma das histórias mais conhecidas de Cipriano trata de sua tentativa de seduzir a jovem Justina. Acostumado a ameaçar moças com seus feitiços para conquistá-las, ele encontrou dificuldades daquela vez. Diante do fora que levou de Justina, passou a invadir seus aposentos, noite após noite, para forçá-la a ficar com ele. De nada adiantou. Com a ajuda dos demônios, teria se transformado em homem, mulher e animal para conquistá-la – em vão. Segundo a tradição religiosa, era a fé de Justina que a protegia contra os feitiços. Por fim, Cipriano decidiu se vingar. Espalhou boatos maldosos sobre Justina e realizou feitiços contra a família dela – um comportamento nada santo para um futuro santo.

Propagadas pela tradição oral, as histórias do santo-bruxo percorreram o Oriente e depois a Europa, até chegarem ao Brasil. Tirando, claro, a parte fantasiosa, é difícil saber se são baseadas em fatos reais e se ele existiu mesmo. “A construção da figura do santo se dá principalmente na imaginação das pessoas. E, no caso de São Cipriano, como no de muitos outros santos, é impossível separar a lenda da história”, explica Jerusa Pires Ferreira, professora da PUC de São Paulo, especialista em comunicação oral.

Lembrado pela Igreja em 26 de setembro, no Brasil São Cipriano ainda permanece cercado por mistério. Além de seus “feitos”, outra razão para sua popularidade negativa está num misterioso livro de magia que leva seu nome. Acredita-se que a obra, cujo conteúdo traz variações dependendo da editora que a publicou (entre as versões mais conhecidas, estão O Livro de São Cipriano das Almas e Livro Negro de São Cipriano), seja baseada em manuscritos antigos, que teriam circulado após a morte do santo. “É uma espécie de almanaque popular, que reúne diversos saberes. No passado, era muito utilizado por camponeses de países como Portugal e Espanha”, afirma Jerusa, autora de O Livro de São Cipriano – Uma Legenda de Massas, no qual investiga esse tema. Na obra atribuída a Cipriano estão reunidos feitiços, exorcismos e simpatias que não poupam ervas raras, gatos pretos, sapos, morcegos e outros ingredientes bizarros. Tudo para que o leitor e candidato a feiticeiro possa conquistar o que deseja – atrair amor, dinheiro, sucesso ou até se livrar da calvície.

A amante e a prostituta

Nem exemplos de pureza, nem de castidade. Existem mulheres que, apesar de terem sido canonizadas, durante boa parte da vida estiveram muito longe dos ideais de comportamento recomendados para as santas. Uma delas é Margarida de Cortona, que nasceu em 1247, na região da Toscana, Itália. Órfã de mãe, foi criada por uma madrasta e um pai cruel. Aos 18 anos, viu no concubinato sua chance de mudar de vida. Naquela época, nobres, reis e até alguns membros do clero mantinham uma ou várias amantes. Muitas viviam no luxo e possuíam grande influência sobre eles, mesmo em questões políticas. Margarida tornou-se uma delas. Foi concubina de um nobre italiano, com quem conviveu durante nove anos e com quem teve um filho. Conta-se que, nesse período, vivia cercada de mimo e demonstrava um grande desprezo pelos pobres.

Já Maria Egípcia, também conhecida como Egipcíaca, viveu no século 4, longe do luxo e da corte. Aos 12 anos, abandonou a família e, sozinha, foi viver num dos principais centros comerciais da Antiguidade: a cidade de Alexandria, no Egito. Freqüentando o porto local, que atraía comerciantes de todo o mundo, tornou-se prostituta. O surpreendente é que ela não vendia o corpo pensando em enriquecer. Mesmo quando os clientes queriam lhe pagar, recusava o dinheiro. “Eu agia dessa maneira porque queria ter quantos homens fosse possível, fazendo de graça o que me dava prazer”, teria confessado a São Zózimo, um abade que viveu naqueles tempos. Para se sustentar, Maria Egípcia contou que mendigava e trabalhava na fiação de linho. Viveu dessa maneira durante 17 anos, até que decidiu partir para a Palestina.

O relato sobre como a prostituta conseguiu viajar é especialmente impressionante para alguém que, depois, virou santa. No porto de Alexandria, ela teria encontrado vários homens que, apressados, se preparavam para ir a Jerusalém participar da Festa de Exaltação da Santa Cruz. Ela pediu para acompanhá-los, mas era preciso pagar pela viagem e pela alimentação. Como não tinha um tostão, Maria Egípcia propôs: “Eu tenho um corpo – podem tomá-lo como pagamento pela jornada”. Assim ela conseguiu sua passagem para a Terra Santa.

O jogador

Ele tinha tudo para construir uma carreira de sucesso em meio a guerras, trincheiras e pelotões. Mas preferiu as cartas, trapaças e apostas. Foi em nome deles que Camilo, mais tarde conhecido como São Camilo de Lellis, mentiu, mendigou e desperdiçou parte de sua vida. Ele nasceu em 1550, na cidade de Bucchianico, Itália. Ficou órfão de mãe muito cedo e praticamente foi educado por estranhos, já que o pai era militar e vivia viajando. Durante a juventude, andou em más companhias, fez todo tipo de travessuras e logo encontrou a paixão pela qual faria muitas loucuras: o jogo.

Aos 17 anos, Camilo parecia ter se ajuizado. Alistou-se no exército e representou seu país em campanhas militares. Mas a atração pelas apostas era incontrolável, e toda sua vida passou a girar em torno da jogatina. O soldo que recebia como soldado era todo gasto em jogo. Quando suas reservas acabavam, voltava a lutar em novos conflitos. E, ao regressar, começava tudo novamente – mais apostas, mais aventuras, mais dificuldades financeiras. Foi assim durante vários anos. Até que ele acabou na miséria.

Sem ter mais o que dar como garantia no jogo, Camilo empenhou sua capa de militar. Perdeu a aposta, a dignidade e se viu obrigado a entregar a roupa em praça pública. Virou mendigo e tornou-se alvo de chacota. Para completar, ainda sofria com uma chaga incurável no pé, que lhe causava imensas dores. Torturado por elas, certo dia decidiu mudar de comportamento. Foi, então, pedir abrigo no hospital São Tiago, em Roma, oferecendo-se para auxiliar os enfermeiros em troca de tratamento médico. A diretoria do hospital compadeceu-se dele e aceitou o acordo.

O novo ajudante foi uma decepção – não agradou nem aos doentes, nem aos médicos. “O rapaz não tinha juízo. Era um cabeça quente, brigava com os enfermos por qualquer ninharia, discutia com os enfermeiros e perdia tempo no jogo”, conta o monsenhor Ascânio Brandão no livro São Camilo. Em 1569, o homem que se tornaria o santo protetor dos enfermos foi dispensado por irresponsabilidade e inaptidão para o trabalho de enfermeiro.

Caçadores de cristãos

Nos primeiros séculos de nossa era, um trabalho comum às tropas romanas era perseguir seguidores do cristianismo. Sob as ordens de imperadores, eles torturaram e martirizaram vários cristãos. Alguns soldados eram especialmente bons nessas tarefas – e, mesmo assim, se tornaram santos. O primeiro deles teria feito suas atrocidades antes que se pudesse falar de “cristianismo”, pois o próprio Cristo ainda estava vivo.

Segundo a tradição cristã, o militar romano Cássio foi designado para acompanhar a execução de Jesus e outros condenados. No fim do dia, cansados de esperar que os crucificados morressem, seus colegas decidiram acelerar o processo, quebrando as pernas e braços dos condenados. Cássio assistiu a tudo aquilo sem nada fazer. Quando coube a ele se certificar de que Jesus, de fato, havia morrido, ele não vacilou: perfurou com a lança o abdôme da vítima. Hoje muita gente lembra de São Longuinho – o santo dos três pulinhos –, mas nem todo mundo sabe que ele é o cruel Cássio depois de canonizado.

No século 3, Sebastião (o atual padroeiro dos presidiários) teria feito carreira no exército de Roma, chegando ao posto de capitão da Guarda Pretoriana. O cargo exigia que ele acompanhasse as prisões de cristãos e os horrores que ocorriam nos cárceres do Império Romano. Para completar, ele ainda teria sido incumbido de zelar pela segurança pessoal de Diocleciano – que governou entre 284 e 305 e foi um dos imperadores mais implacáveis na perseguição aos cristãos. Naquela mesma época, Jorge da Capadócia (região que hoje faz parte da Turquia) teria partido para a Palestina e jurado fidelidade a Roma, servindo também a Diocleciano. Diferentemente de Sebastião, o militar – hoje cultuado como santo guerreiro –, teria logo se revoltado com as atrocidades cometidas contra os seguidores da religião de Jesus.

Não há dúvida, entretanto, de que o mais lembrado perseguidor de cristãos seja Saulo de Tarso, hoje conhecido como São Paulo. Filho de pais judeus e, possivelmente, adepto da seita judaica dos fariseus, ele teria sido designado pelo sumo sacerdote de Jerusalém para capturar os seguidores de Jesus, que havia acabado de morrer. Segundo a Bíblia, Saulo testemunhou a morte de Santo Estêvão, lembrado como o primeiro mártir do cristianismo, e perseguia cristãos no caminho para a cidade de Damasco, na atual Síria – nessa mesma estrada ele teria se arrependido e se convertido, ainda no século 1.

Os cultuados da vez
Até a carreira de santo tem seus altos e baixos
A cada época, um diferente tipo de santo se torna alvo de veneração. Os primeiros cristãos, por exemplo, cultuavam os mártires – que, nos períodos de perseguição, haviam morrido por defender sua fé. Quando, no século 4, o cristianismo se tornou a religião oficial do Império Romano, vieram os santos eremitas – abandonando os bens materiais para viver em desertos e montanhas, eles protestavam contra os novos rumos da Igreja. Depois surgiram as santas virgens e muitos outros. “Cada um a seu tempo, eles serviram como modelo de comportamento diante de determinados desafios históricos”, explica o frei Vanildo Zugno, teólogo da Sociedade de Teologia e Espiritualidade Franciscana, em São Leopoldo, no Rio Grande do Sul. Até hoje, muitas canonizações seguem essa lógica. Na década de 50, quando a liberdade sexual começava a ser defendida, foi canonizada Maria Goretti, que, sob a ameaça de estupro, preferiu morrer a punhaladas a perder a virgindade. A devoção dos fiéis costuma ressuscitar santos que pareciam superados. Nos anos 1960 e 70, durante as ditaduras na América Latina, o culto aos mártires ganhou novo impulso: os perseguidos políticos se identificavam com santos como Pedro e Sebastião, que haviam sido combatidos por defender um novo modelo de vida. Veja, ao lado, um pouco do sobe-e-desce dos santos no Brasil.

Santa Edwiges

A alemã que pagava a conta de pessoas que haviam sido presas por não honrar suas dívidas tornou-se bastante popular entre os brasileiros. É venerada por pobres e endividados em geral.

São Vito

Na falta de médicos e remédios, era aos santos que os fiéis pediam ajuda. Até a Idade Média, o siciliano Vito era invocado para proteger contra a epilepsia e as mordidas de animais.

Santo Expedito

Conhecido por atender preces bem rápido, tornou-se muito popular na América Latina. “Hoje as devoções mais comuns são as que respondem a necessidades particulares”, diz o frei Vanildo Zugno.

Santa Luzia

Teria feito voto de castidade e se dedicado à caridade. Segundo a tradição, ao se recusar a casar, foi denunciada por ser cristã e acabou torturada e morta pelo Império Romano.


Papas que não pouparam ninguém
Alguns pontífices tiveram muito de pecadores - e nada de santos
Até o ano 530, todos os papas eram canonizados após a morte. O costume foi remodelado e hoje os pontífices candidatos a virar santos têm que, a exemplo de qualquer cristão, passar por um processo que julga se eles merecem ser venerados. Foi uma decisão sábia. Embora em vida os papas tenham uma aura de santidade, nem todos eles fizeram jus a ela. Na gigantesca lista dos que ocuparam o cargo (a Enciclopédia Católica conta 266 nomes), não faltam histórias escabrosas. Um exemplo é João XI, líder da Igreja entre 931 e 935, que tornou-se papa graças às artimanhas de sua mãe, a senadora romana Marozia – ela teria sido, por exemplo, a mandante do assassinato de Leão VI, o antecessor do filho. Anos depois, em 955, foi a vez do neto da mesma senadora ser eleito papa, graças à imposição do pai, o político romano Alberico: com apenas 18 anos, Otaviano assumiu o controle da Igreja, adotando o nome de João XII. Em nove anos como papa, cometeu assassinatos, sacrilégios e até incesto. Seu pontificado acabou quando ele foi morto por um marido traído, que o flagrou nos braços de sua mulher. Já Bonifácio VII não teve intermediários: matou ele mesmo o papa Bento VI, para sucedê-lo em 974. Deposto, voltou novamente ao comando da Igreja de 984 a 985, após assassinar outro papa, João XIV. Séculos depois, os métodos de tomar o poder ficaram um pouco mais suaves. Alexandre VI, que liderou a Igreja entre 1492 e 1503, teria subornado vários cardeais para ser eleito papa – para completar, teve vários filhos ilegítimos e foi acusado de desviar dinheiro do Vaticano. Entre os papas recentes, o mais polêmico foi Pio XII, que assumiu em 1939 e ficou até 1958: ele é criticado por ter mantido silêncio diante dos crimes contra os judeus cometidos pelos nazistas na Segunda Guerra Mundial.

Saiba mais
Livro
Santos e Beatos de Ontem e Hoje, Angela Cerinotti, Globo, 2004

Apesar de não ter os pecados como tema, reúne muitas biografias de personagens do cristianismo, contextualizando a época em que cada um deles viveu.

Revista Aventuras na História

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

São Pedro - O primeiro papa


São Pedro - O primeiro papa
Discípulo favorito de Cristo, guardião das chaves do céu e primeiro bispo de Roma, Pedro foi a pedra fundamental da Igreja Católica Romana. E, por isso, até hoje causa polêmica
por José Francisco Borelho
No dia em que João Paulo II morreu, foi retirado de sua mão esquerda um dos símbolos mais tradicionais do poder papal: o Anel do Pescador. Trata-se de uma peça forjada em ouro puro, que traz inscrito em alto-relevo o nome do papa – além da gravura de um homem lançando redes de pesca. Um anel idêntico (com o mesmo desenho, mas outro nome) foi entregue para Joseph Ratzinger durante a cerimônia da consagração – junto, é claro, com o poder supremo sobre a Igreja Católica.

A insígnia no anel faz referência ao primeiro homem que, segundo a tradição, teve esse poder – um humilde pescador que iniciou sua vida no litoral da Galiléia. O mais antigo precursor de Bento XVI foi um judeu, nascido na região que hoje forma o Estado de Israel, e se chamava Simão Ben Jonas – mas tornou-se famoso com o nome que, segundo o relato dos Evangelhos, foi-lhe dado por Jesus Cristo em pessoa: Pedro, a “Rocha”.

Na verdade, o anel é mais do que apenas uma homenagem. É sobre a figura de Pedro que reside, em última análise, o poder do Vaticano e o do papa. Não fosse ele, o bispo de Roma poderia ser apenas mais um dentre vários líderes católicos. A origem e a justificativa do papado dependem desse pescador da Galiléia. E, para entender o porquê, é preciso conhecer a história dele.

Pedro, o líder da Igreja Católica?

Simão entrou para a história do cristianismo – e do mundo – por volta do ano 28 ou 29. Na época, ele vivia na cidade de Cafarnaum, na costa noroeste da Galiléia. Certo dia, enquanto apanhava peixes, a vida simples e pacata de Simão mudou para sempre. De acordo com o Evangelho de Marcos, um desconhecido aproximou-se pelas margens e o convidou a se tornar seu discípulo. Pedro aceitou a proposta, deixou de lado seu barco e suas redes e seguiu aquele pregador misterioso, que vinha da cidade de Nazaré e dizia ser o Messias enviado por Deus. Seu nome era Jesus.

Foi ao longo das andanças pela Galiléia que Jesus pregou sua doutrina e, de acordo com os Evangelhos, realizou grande parte de seus milagres. E o pescador Simão o acompanhou o tempo inteiro. Dentre os doze principais discípulos, ele era certamente o favorito: Pedro é o apóstolo mais citado nos Evangelhos e aparece ao lado de Cristo em vários momentos cruciais de sua pregação. Também é o mais dedicado, ardoroso e o primeiro a reconhecer Jesus como o “Filho de Deus”.

Sua proeminência fica bem clara em uma passagem que, nos séculos seguintes, daria muito o que falar a historiadores e teólogos. De acordo com as Escrituras, Jesus conferiu a Simão um novo nome, Kepa – palavra hebraica que significa “rocha” ou “pedra”. No futuro, o termo seria traduzido para o grego petros e para o latim petrus, até chegar ao português “Pedro”. Para muitos, esse apelido é uma investidura de poder. A narrativa mais completa do fato encontra-se no capítulo 16 do Evangelho de Mateus. Quando passavam pela região conhecida como “Cesaréia de Felipe”, Jesus disse a Simão, diante de todos os apóstolos: “Tu és Kepa (ou Pedro) e sobre essa pedra edificarei minha igreja, e as portas do inferno nunca prevalecerão contra ela. Eu te darei as chaves do reino do céu, e o que ligares na Terra será ligado nos céus”. Para muitos teólogos, esse trecho é a prova de que Pedro foi escolhido como o maior representante de Cristo sobre a Terra. Ele não seria apenas o líder do cristianismo, mas o porta-voz da vontade divina. Em Um Judeu Marginal, o historiador americano John Meier resume a opinião católica sobre o assunto: “As decisões de Pedro, autorizadas aqui na Terra, são ratificadas no reino do céu. Pedro fica no lugar de Jesus. A autoridade que ele recebe diretamente de Cristo se estende a toda a Igreja, sem restrição”.

Ou seja: Pedro teria sido apontado como primeiro e supremo chefe do cristianismo – e suas decisões deveriam ser consideradas infalíveis, já que têm o aval de Cristo. De acordo com a doutrina católica, as prerrogativas de Kepa foram herdadas por seus sucessores, os bispos de Roma – ou seja, os papas. Mas para entender por que o Vaticano se considera o herdeiro legítimo de Pedro, é preciso dar uma olhada no que ele andou fazendo em suas últimas décadas de vida.

Pedro, o primeiro bispo de Roma?

Logo após a crucificação de Cristo, no ano 30, o pescador da Galiléia passou a chefiar a Igreja recém-nascida. Além de organizar os fiéis em Jerusalém – o primeiro centro da nova religião – , Pedro pregou em cidades distantes como Corinto (na Grécia) e Antióquia (na atual Turquia).

Sua importância como líder do cristianismo primitivo foi gigantesca. Entretanto, pouco se sabe sobre a vida de Pedro - em especial, sobre suas andanças finais. A maior parte das informações a seu respeito vem dos evangelhos, dos Atos dos Apóstolos e das epístolas (ou cartas) escritas pelos primeiros discípulos de Cristo. Outras pistas podem ser encontradas em textos de alguns historiadores antigos, que escreveram nos primórdios do cristianismo, ou pelas lendas que se formaram ao seu redor. E só. Uma antiqüíssima tradição católica garante que o apóstolo viajou para Roma, em meados do século 1, fundando a primeira comunidade cristã da cidade. Essa hipótese é fortemente sustentada por historiadores como Eusébio de Cesaréia – que, embora tenha vivido cerca de dois séculos depois de Pedro, fundamentou sua obra na opinião de autores mais antigos.

Verdade ou não, o fato é que, já no século 2, Pedro era tido pelos líderes católicos como o primeiro bispo de Roma. E mais: de acordo com a Ata dos Mártires – documento composto pelos primeiros cristãos –, foi no território da moderna capital italiana que o maior dos apóstolos encontrou a morte, provavelmente na época do imperador Nero. Segundo Orígenes, um erudito do século 3, Pedro foi preso pelos romanos e condenado à crucificação. Julgando-se indigno de morrer da mesma maneira que Jesus, ele pediu que o crucificassem de cabeça para baixo – e seu desejo foi atendido.

Durante o século 20, investigações arqueológicas feitas a pedido do papa Pio XII descobriram um grande cemitério cristão nos subsolos do Vaticano, sob a atual Basílica de São Pedro. Os arqueólogos concordaram que a necrópole datava do século 1 – e que provavelmente um grande mártir ali fora enterrado. Ninguém sabe quem, mas muita gente jura de pés juntos que era ninguém menos que Simão da Galiléia.

A presença e o martírio de Pedro na cidade foram usados para comprovar o “primado de Roma” – a idéia de que o Vaticano e seu bispo herdaram a liderança cristã, em linhagem direta, do escolhido de Jesus Cristo. Mas não faltou quem questionasse tanto sua posição como “porta-voz” de Cristo, quanto o direito dos bispos romanos de se declararem seus herdeiros.

Papas, herdeiros de Pedro?

A relação entre Jesus e seu discípulo favorito nem sempre foi um mar de rosas. Embora tenha sido escolhido para “guiar o rebanho” de Cristo, Pedro também recebeu críticas violentas do mestre. O Evangelho de Marcos conta que, quando Jesus anunciou que sua missão divina era ser preso, torturado e crucificado, Pedro “tomou-o à parte e começou a repreendê-lo”. Jesus então disse: “Afasta-te de mim, Satanás, pois teus sentimentos não são os de Deus, mas os dos homens”. Há também o famoso episódio da noite em que Jesus foi preso. Conta a Bíblia que Cristo havia reunido seus apóstolos para uma ceia, a última que fariam juntos. Voltando-se para Pedro, disse: “Ainda hoje, antes que o galo cante, tu me negarás três vezes.” E Pedro: “Mesmo que seja preciso morrer contigo, jamais te negarei!” Horas depois, Jesus foi preso e levado à casa do sumo-sacerdote Caifás, onde se reunia o conselho religioso judaico – que acusava Jesus de blasfêmia por se declarar o Filho de Deus. Pedro seguiu o mestre e se misturou à criadagem da casa, para espiar o interrogatório. Alguns servos o reconheceram como um dos seguidores do “nazareno” e Pedro, com medo de ser preso, repetiu três vezes que não conhecia Jesus. Nesse momento, o galo cantou – e, de acordo com o Evangelho de João, Jesus o olhou diretamente. Percebendo o que fizera, o apóstolo foi para a rua “e chorou amargamente”.

Mais tarde, a liderança de Pedro seria criticada por seus próprios aliados. A polêmica mais contundente foi levantada por Paulo de Tarso – outro discípulo ardoroso, responsável por grande parte da disseminação do evangelho em terras “pagãs”. Em sua Epístola aos Gálatas, Paulo acusa Pedro de certa relutância em entregar-se à conversão dos gentios – ou seja, os povos não-judeus. Para Paulo, certos costumes judaicos, como a circuncisão e as restrições alimentares, não deviam ser impostas aos estrangeiros interessados em abraçar o cristianismo.

Esses episódios da vida de Pedro inspiraram nada menos do que os grandes cismas do catolicismo. Com base neles, no século 2, seguidores do gnosticismo – vertente cristã que não aceitava a hierarquia católica – empreenderam uma verdadeira campanha de difamação contra Pedro. E, em 1050, a polêmica se tornou tão grande que acabou rachando para sempre a cristandade: os líderes religiosos de Constantinopla (atual Istambul, Turquia) repudiaram a autoridade do Vaticano e formaram a Igreja Ortodoxa. No século 16, o monge alemão Martinho Lutero repetiu o gesto, dando origem ao protestantismo. Esses movimentos negavam, antes de mais nada, a autoridade suprema do papado sobre o cristianismo. Para questioná-lo, alguns foram direto à raiz e atacaram a noção de que Pedro fosse o escolhido para guiar os cristãos. Em várias épocas, ortodoxos e protestantes usaram argumentos idênticos: por causa de seus deslizes e contradições, Pedro não poderia ser considerado o porta-voz de Deus. Não duvidavam de sua importância histórica, apenas não atribuíam a ele a infalibilidade divina nem a autoridade absoluta sobre os cristãos. Outros aceitavam a posição de Pedro como embaixador de Jesus na Terra, mas negavam que esse poder tivesse sido transmitido para os bispos romanos. Sua autoridade, instituída por Cristo, teria acabado lá no século 1, quando o apóstolo foi crucificado de cabeça para baixo.

A divisão da cristandade entre aqueles que aceitam a autoridade papal e aqueles que a renegam permanece até hoje. Mas apesar de ter deixado uma herança ambígua e muitas vezes contestada, o papel histórico de Pedro é inquestionável. Para qualquer cristão, esse patriarca ardoroso e contraditório foi, de fato, o sustentáculo da Igreja em sua fase primitiva – o primeiro líder de uma revolução espiritual que, nos milênios seguintes, mudaria os rumos do mundo.



Pedro, o manda-chuva
Além de representar Jesus Cristo na Terra, São Pedro ganhou, na imaginação popular, outro atributo especial: controlar o clima. A origem dessa simpática lenda está na passagem do Evangelho de Mateus em que Jesus diz a seu apóstolo: “Eu te darei as chaves do reino do Céu”. Em quadros e esculturas, Pedro geralmente aparece com um grande par de chaves nas mãos. Ao longo dos séculos, nas piadas e contos populares, o primeiro papa acabou se tornando uma espécie de porteiro divino, controlando a entrada das almas no paraíso – além de usar suas “chaves celestiais” para trazer chuva, sol ou neve de acordo com seu estado de espírito.

Para saber mais
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Um Judeu Marginal – Livro 3, Volume 1 - John P. Meier, Imago, 1993

Revista Superinteressante

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

A CIDADE DE DEUS COMO FUNDADORA DA HEGEMONIA CATÓLICA NA IDADE MÉDIA


A CIDADE DE DEUS COMO FUNDADORA
DA HEGEMONIA CATÓLICA NA IDADE MÉDIA

Glauber Freire
Aluno do Curso de Filosofia da Universidade Mackenzie


A partir do século III, o império Romano começa a passar por profundas e significativas mudanças na sua ordem estrutural, sobretudo no coração da sua administração política, Roma. Gradativamente, as províncias começam a passar da posição de conquistadas à de conquistadoras: espanhóis, gauleses e orientais iniciam sua “invasão” no senado; no mesmo espírito, com o Edito de Caracalla, promulgado em 212, todos os provincianos conquistados ascendem ao posto de cidadãos romanos, o que corrobora para a ascensão política de Trajano e Adriano, ambos de origem espanhola, e Antonino de cultura e naturalidade gaulesa, este e aqueles, futuros imperadores. Do mesmo modo, a dinastia dos severos foi composta por imperadores africanos e imperatrizes sírias. Mesclado por culturas e conivente com o processo de mutação estrutural, Roma experimentará nos séculos porvir a mudança de posição da sua artimanha política para se perpetuar no poder, tornando-se a razão de sua desgraça, inconcebível para seus compatriotas que, ao exemplo de São Jerônimo, exilado na Palestina proferiu a sentença derradeira: “A voz fica-me na garganta e os soluços interrompem-me ao ditar essas palavras. Foi conquistada a cidade que conquistou o universo”.

Na mesma perspectiva, antes do total declínio do Império, a última grande guerra vitoriosa foi encabeçada por Trajano e a última reserva financeira fora a conquista, em 107, do ouro dos Drácios. Por esse prisma, considerando que o Império se nutria, substancialmente, das conquistas de guerra, dos saques e da prisão de escravos, além da dominação de novos territórios, Roma começa a passar por uma crise que, inevitavelmente, desembocará na derrocada total do império com a conquista efetiva dos bárbaros que, por essa época, já se encontravam circundando o interior da magnífica fortaleza dos césares.

Os ataques que terão resultado efetivo a partir do século V, porém, não se apresentaram como novidade para os romanos. Desde Marco Aurélio, entre 161 a 180, se têm notícias das tentativas inglória para a dominação de parte do território romano, fato que levaria à depressão do século III. Francos e Alemanos no ano 276 devastaram o território dos espanhóis anunciando assim o massacre e a tomada do Império Romano que se concretizaria, por fim, no século V, com a tomada da Cidade Eterna por parte de Alarico em 410.

Em meio a todas essas circunstancias históricas resta-nos, porém, compreender de que maneira a Igreja Católica, já constituída como religião dominante no Estado, se firmou como o poder ideológico supremo de todo o mundo circunscrito ao antigo império, agora pertencente aos bárbaros.

Conforme sabemos, o período medieval, conseqüência imediata do fim do Império Romano, é marcado pela concentração dos homens em feudos, cultivando e produzindo o necessário para a subsistência das suas respectivas famílias, dízimo oferecido à Igreja e percentual do trabalho destinado aos senhores, detentores das terras concedidas ao trabalho. Para tanto, nos será preciso ainda, recorrer à autoridade de um dos mais influentes pensadores do Ocidente e, concomitantemente, articulador de um ideal cristão que se perpetuou por dez séculos em todo o território da cristandade: Santo Agostinho de Hipona.

Já na abertura de sua De Civitates Dei, Santo Agostinho, ao tentar encontrar uma explicação plausível para a queda do Império Romano, se utilizará da argumentação de que nada é gratuito, o fim do império, portanto, cumpriria de maneira vigorosa os desígnios de Deus. O que doravante Santo Agostinho fará, dentro da “Cidade de Deus” e, se valendo das Sagradas Escrituras, é mesclar duas realidades justapostas, uma dando sustentação à outra e, simultaneamente, alicerçando o poder a ser fundado na terra para que se encontre o lugar merecido, por meio dos atos, o reino dos diletos filhos de Javé.

Com efeito, o que se perceberá é uma relação complementar e intercambiável de poder político, fundado na ordem do Estado e poder clerical, fundamentando-se na “interpretação” da palavra divina que aos sacerdotes é revelada cabendo a eles designar as atitudes corretas a serem praticadas pelos fiéis, clero aqui entendido como os detentores da “sapiência” divina e guardiões dos textos sagrados.

Santo Agostinho se valerá de alguns conceitos, para fundamentar suas afirmações, que se nos apresentam como chaves explicativas para a compreensão, desde os textos e as fundamentações teológicas, até a efetiva influência política que elas exercerão sobre o poder, tornando a própria Igreja detentora maior do poderio político-econômico, a saber, a idéia de intelecto finito.

Segundo De Civitates Dei, o fato curioso, não para os que detêm um conhecimento da verdade revelada, é que os bárbaros que invadiram Roma tiveram misericórdia de todos os refugiados nas catedrais cristãs. Todavia, cumpre asseverar que o grande fautor que teria levado o império à decadência seria a própria Roma, pelo apego à temporalidade da vida, afastando-se de Deus. Do mesmo modo, os inocentes que sofreram por conta dos erros alheios, segundo Agostinho, sofreram para serem testados quanto à sua dignidade de passar para a outra vida; os injustos, por sua vez, sofreram para verem já na vida presente o que futuramente terão de experimentar. Por qual motivo Deus faria isso, nos é impossível determinar, posto que temos um intelecto finito, impossível seria , portanto, apreender os desígnios de Deus. “O conhecimento do mundo daí resultante será, pois”, nos lembraria Denis Rosenfield, “fundado nos axiomas da fé”.

O que Santo Agostinho inaugura é um curioso vínculo entre o mundo a ser alcançado depois da morte, pelos merecimentos próprios de cada indivíduo, tendo por base as práticas no mundo presente, e a realidade política em vigor, a necessidade de adaptação de um contingente rebelde e grupos provenientes do poder, para que ambas as esferas possam coabitar mesclando-se para legitimar o poder de Deus na terra, representado pela sua Igreja; ao contrário de Pascal, por exemplo, ele não se retira deste mundo preparando-se para o outro, Agostinho vê na passagem por ele uma missão concreta a ser desempenhada, missão essa que é, há um só tempo, política e religiosa. Baseando-se nesses axiomas que, em primeira instância, são retirados da Bíblia, Agostinho frisa a necessidade do desapego à realidade temporal e aos bens da terra que, de alguma maneira, afastam o homem de Deus. A prisão pela satisfação pessoal à vida na terra poderia custar-lhes a salvação na outra vida, na eternidade.

Por fim, duas características históricas ainda mereceriam nossa atenção, a primeira é a relação entre as palavras de Agostinho e o desenrolar do processo do feudalismo na Europa, manifestação cultural, aliás, que só estará definitivamente extinto após a Revolução Francesa em 1789; a outra, e conseqüência desta, é o poderio que a Igreja Católica pôde exercer durante mais de mil anos na história, como tutora absoluta da revelação divina. O que, finalmente, poderíamos conjecturar é a maneira como o catolicismo após a queda do Império Romano do Ocidente, se firmou no poder; na mesma linha, como a obra agostiniana tem uma estreita relação teórica com o que foi a prática na Idade Média no referente à organização dos homens e, de que maneira, tais fatos se relacionam e corroboram reciprocamente para a instauração de um reino de Deus na cidade dos homens, enquanto os homens abdicam da sua condição de humanos em sua plenitude para viverem à espera de poderem habitar a Cidade de Deus.

Ora, o que aqui se quer defender, longe de teorias que se valham de argumentos fictícios, é uma relação causal estreita e claramente manifesta na história; de um lado, uma crise causada pela falta de elementos coerentes dentro da política administrativa romana e; por outro lado, uma teologia que, embora comungando com toda uma tradição e inspirada no “livro da revelação divina”, se fundamentou em uma manifestação específica e, simultaneamente, influenciou os séculos posteriores da historia do Ocidente. A Cidade de Deus de Santo Agostinho, portanto, no que tange ao estudo e ao entendimento da Idade Média, apresenta-se como uma das obras magistrais que explicam a razão passada, o contexto presente e o desenrolar daquele processo ou, como nos diria Jorge Luis Borges em outro contexto, no seu Avelino Arredondo, no que se refere à Cidade de Deus é preciso percorrer “página por página, às vezes com interesse, às vezes com tédio”, nos impondo “o dever de aprender de cor algum capítulo” para entendermos mais de nós mesmo.

Revista Pandora