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terça-feira, 23 de agosto de 2011

Fernando Morais reconstrói atuação de espiões cubanos nos EUA

SYLVIA COLOMBO
Os anticastristas mandavam explodir bombas em hotéis de Havana e metralhar navios para espantar turistas. Golpe duríssimo para o pequeno país, que, após o fim da União Soviética (1989), passou a depender muito dos ingressos do turismo.

Bem ao estilo da Guerra Fria, Cuba respondeu foJustificarrmando um grupo de espiões, a Rede Vespa, que se instalou na Flórida a fim de descobrir o que tramavam os inimigos.

Conseguiram, assim, impedir uma série de ataques à ilha. Até que foram pegos pelo FBI, em 1998.

Letícia Moreira/Folhapress

O escritor e jornalista Fernando Morais, que lança o livro " Os ultimos soldados da guerra fria", no seu apartamento em Higienopolis

O jornalista e escritor Fernando Morais, 64, velho conhecedor e amigo de Cuba, autor de "A Ilha" (1976) e "Olga" (1985), investigou o assunto e o resultado é "Os Últimos Soldados da Guerra Fria", lançado agora pela Companhia das Letras.

Morais fez várias viagens à ilha e aos EUA, entrevistou familiares dos envolvidos e alguns dos espiões presos.

Em 2008, conseguiu que o governo cubano lhe entregasse uma documentação valiosa sobre a Rede Vespa. Os papéis só foram parar em suas mãos devido a suas boas relações com Cuba, que já têm mais de 40 anos.

Entre os documentos, está o material que Fidel Castro enviou a Bill Clinton para pedir que os ataques à ilha parassem. O inusitado do diálogo é que ele foi intermediado por Gabriel García Márquez; o Nobel colombiano é amigo de Fidel e defensor de seu projeto político.

"É um episódio importante, porque Clinton ouviu Fidel e os ataques pararam", conta Morais.

O autor relata como os espiões da Rede Vespa se instalavam na Flórida. Mantinham segredo de suas atividades até de suas famílias. "Há o caso de uma das mulheres que se sentiu traída e está ressentida até hoje", conta.

Com poucos recursos, os agentes tinham de achar trabalho para se manter nos EUA. "Visitei apartamentos em que eles moraram, eram quitinetes, lugares muito precários", diz Morais.

Os disfarces eram construídos pela inteligência cubana. Os espiões recebiam novas identidades, às vezes roubadas de bebês mortos nos EUA, e eram obrigados a decorar fatos fictícios sobre toda uma vida pregressa que não haviam vivido.

O autor entrevistou condenados por e-mail e enviou perguntas por meio de suas mulheres, que têm permissão de falar com eles por telefone algumas vezes por mês.

A obra de Morais resgata também a participação de mercenários da América Central contratados pelos anticastristas. Uma das histórias mais interessantes é a do salvadorenho Cruz León.

Fã de Sylvester Stallone, Cruz León conta que se envolveu nos ataques porque queria viver aventuras parecidas com as de seu ídolo.

Com essa motivação, aceitou uma missão quase suicida: colocar bombas em hotéis e num restaurante em Havana por apenas US$ 1.500 cada uma. Acabou descoberto e condenado à morte.

"Os mercenários centro-americanos não conheciam a situação cubana nem sabiam o que estava em questão", diz Morais.

Ao contar sua história ao jornalista, Cruz León explicou o que o moveu a ajudar os anticastristas: "Eu ia pôr bombas num país que nem sabia qual era, voltaria para casa e iria para a cama com a Sharon Stone. Me senti um espião. Me senti o máximo".

Hoje, cinco espiões do grupo seguem presos --os outros foram libertados, beneficiados por delação premiada.

Morais crê que, se Obama se reeleger, deve rever o julgamento. "Pode tentar trocar espiões cubanos por presos políticos americanos em Cuba. Só não faz isso já para não perder votos na Flórida."

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Mulher e Revolução em Cuba


Mulher e Revolução em Cuba

Giselle Cristina dos Anjos Santos
Neste ano de 2009, comemorou-se o 50º aniversário da Revolução Cubana. Poucos imaginariam que o processo de enfrentamento ao governo do ditador Fulgêncio Batista, liderado por Fidel Castro, culminaria em uma revolução que pouco tempo depois se direcionaria ao socialismo e que subsistiria mesmo depois do fim da União Soviética, sua mais forte aliada política e econômica. Nestes cinquenta anos a temática da Revolução Cubana possuiu vasta produção historiográfica, mas pouco se pensou sobre o papel da mulher e as relações de gênero nesta sociedade que pretendeu a construção do socialismo e que resiste/persiste há cinco décadas.

Estruturalmente desigual, com altos índices de pobreza, Cuba, antes da revolução, possuía uma forte presença de capital norte-americano em sua economia, porém existiam altos índices de analfabetismo, cerca de 40% da população não era escolarizada.

Todo o processo revolucionário, desde o desembarque do iate Granma, em 1956, ao êxito revolucionário, em 1º de janeiro de 1959, e os primeiros anos da revolução, foram vivenciados a partir de muitos acordos e alianças entre tendências políticas distintas[*1].

Definindo-se como socialista, em abril de 1961, o novo governo recém-instalado na ilha, dirigido por líderes do Movimento 26 de Julho[*2], priorizou investimentos nos setores de educação, saúde e emprego, considerados fundamentais ao desenvolvimento social. Com o aumento do salário mínimo, a forte redução das tarifas de serviços básicos, além das medidas de estatização e reforma agrária, garantiram imensuráveis ganhos à sociedade[*3].

Uma das características desse período foi a intensa mobilização popular. O ideal de transformação tomou a população, sendo constantemente reafirmada pelo governo a necessidade de unificação do povo para o efetivo êxito da revolução, e para impedir a contrarrevolução. Houve a criação de microbrigadas de trabalho voluntário para campanhas de educação[*4], campanhas sanitárias, de trabalho agrícola, de construção civil, de defesa, entre outras frentes de atuação. Mas qual papel cabia às mulheres cubanas?

Apesar de o compromisso e as ações terem sido direcionadas a toda a população, ela mesma não estava em iguais condições sociais para acessar e interagir com as ações propostas. As mulheres apresentavam-se em extrema situação de vulnerabilidade social e representavam apenas 19,2% da força de trabalho no ano de 1953. Segundo Fidel, 70% delas executavam serviços domésticos ou ocupavam funções de baixa remuneração e qualificação. E, sinônimo da falta de oportunidades, Cuba era conhecida internacionalmente como “bordel norte-americano” – fala-se da existência de 10 mil prostitutas em Havana durante o governo do presidente Carlos Prio. Estima-se que cerca de 47 mil pessoas lucravam direta ou indiretamente com essa atividade[*5].

As mulheres foram convocadas a integrar a luta pela construção dessa nova sociedade, pois, como disse Fidel Castro, “a mulher tem que enfrentar numerosas tarefas no seio do processo revolucionário”[*6]. Em vista disso, desejamos analisar como foi proposta essa integração. Conforme afirma a socióloga cubana Velia Cecília Bobes,

participar implica además interrelación con otros (personas, organizaciones, instituiciones) y estas relaciones pueden ser simétricas y horizontales o jérarquicas y verticales. Se puede participar como sujeto (súbdito) o como igual.[*7]

Tais questionamentos vão no sentido de identificar como a mulher do período pós-revolucionário cubano passou a participar do espaço público, pois constatamos que sua presença em esferas sociais, das quais anteriormente a 1959 não compunha, cresceu consideravelmente. Dialogando com as considerações de Bobes, afirmamos que, além da análise dos dados e de números estatísticos para avaliar a participação das mulheres, é imprescindível identificar de que forma foi possível a sua participação, como foi proposta essa integração, quais foram as ações do Estado para esse grupo e como passaram a compor os espaços de intervenção política e social.

Neste sentido, realizamos a análise imanente de nossas fontes, legislações, documentos oficiais e discursos, visando identificar o ideário que está contido nesses preceitos, circunscrito às particularidades históricas vivenciadas em Cuba e ao arcabouço teórico que o subsidia. Consideramos que as características essenciais desse ideário se revelam objetivando as categoriais inerentes a estes discursos e preceitos legais, ou seja, que a análise imanente desta documentação permite que o próprio discurso mostre seus significados e sua articulação interna, evitando, assim, a atribuição arbitrária de sentido.

A análise imanente busca extrair do discurso a sua lógica interna – os temas abordados, os conceitos utilizados, o modo como se articulam – de sorte que ele mesmo evidencie o que é. “Os próprios discursos, em todas as suas modalidades, são predicações sociais, mediadas pelos sujeitos que integram a formação real sob clivagens de inserções efetivas e óticas de adoção igualmente societárias”[*8], exercendo um papel efetivo no desenvolvimento (conservação ou transformação) da realidade em questão, exatamente em função do caráter consciente da atividade humana.

Além da utilização da categoria analítica de gênero, que reflete sobre a constituição das relações de poder entre os sexos, busca-se descortinar o masculino e o feminino, suas relações, tendo em vista que seus perfis não passam de construções pré-estabelecidas social, cultural e historicamente, condicionando suas ações, tanto no âmbito público como privado[*9].

Possuímos enquanto hipótese a compreensão de que as tendências marxistas pouco se ativeram às peculiaridades e aos preconceitos definidos histórica e socialmente aos distintos grupos sociais, incluindo as particularidades de gênero. A problemática vivenciada por mulheres e homens derivaria de maneira subsequente da transformação econômica dos meios de produção.

Neste sentido, analisaremos como foi proposta a participação política feminina. Para mobilizar e organizar a participação popular foram criadas, através de iniciativa estatal, as organizações de massas, que convergiram em diversas frentes de atuação. Algumas das organizações de massas são: Comités de Defensa de la Revolución, Asociación de Jóvenes Rebeldes, Asociación Nacional de Agricultores Pequeños, Unión de Escritores y Artistas de Cuba, Federación de Estudiantes Universitarios[*10]. Entre elas estava a Federación de Mujeres Cubanas (FMC), organização de mulheres criada em 1960.

A FMC surgiu com a finalidade de integrar a mulher à nova sociedade, visando o seu aperfeiçoamento social e cultural. A Federação fortaleceu-se com o passar dos anos[*11] e contribuiu para o desenvolvimento de políticas de superação para as mulheres, representando a ponte entre o Estado e elas.

Al hablar de los logros alcanzados y de la línea de trabajo seguida por la Federación, debemos resaltar que en ellos a sido factor fundamental la acertada dirección de Fidel, conductor excepcional de la Revolución y su Partido, que ha tenido una profunda y real concepción acerca del papel de la mujer en la sociedad, y ha depositado su plena confianza en la masa femenina y en la Federación, situándonos tareas de alta responsabilidad en el proceso, desde los días gloriosos de la Sierra Maestra hasta la etapa actual de construcción del socialismo, trazando siempre las proyecciones adecuadas de nuestro trabajo.[*12]

Portanto, analisaremos aqui o discurso e as ações da FMC, compreendendo-os como discurso e prática do próprio Estado, através da figura de Fidel Castro, direcionados ao segmento feminino.

Considerando-se que a luta feminina na ilha já vinha sendo travada muito antes da revolução, desde as Guerras de Independência – no final do século XIX – a mulher já estava presente e ativa na luta por uma sociedade mais justa, irrompendo enormes barreiras de preconceito[*13]. Assim também o fizeram no processo revolucionário, transportando armas, organizando manifestações, greves, redes clandestinas, além de pegarem em armas nos focos da guerrilha, criando o pelotão Mariana Grajales, composto apenas por mulheres. Havia inúmeras organizações de mulheres em Cuba em janeiro de 1959, depois do êxito revolucionário.

Até que, em 23 de agosto de 1960, fundou-se a FMC: “Las mujeres cubanas, bajo la orientación directa de nuestro gran líder Fidel, tomamos el camino de la unidad, fundiéndonos en una sola organización.”[*14] Desde então presidida por Vilma Espín Guillois, esta manteve-se a frente da organização até a sua morte aos 77 anos, em julho de 2007. Cunhada de Fidel, Espín foi uma das mulheres que combateram em Sierra Maestra. Casou-se em janeiro de 1959[*15] com Raul Castro, atual líder da ilha.

A análise dos documentos permite-nos vislumbrar que as medidas destinadas a promover a igualdade propalada em Cuba seguem os passos da mesma plataforma política destinada às mulheres na URSS, como não poderia deixar de acontecer, já que por mais de 20 anos a URSS foi o maior, senão o único aliado cubano, a base de suas relações políticas e econômicas.

O Código de Família[*16], entregue à FMC em 1975, espelhado na legislação vigente na Rússia, foi uma das nítidas influências. Definiu o papel de homens e mulheres no lar, ratificando os preceitos defendidos na nova sociedade, e, baseado na moral socialista, possuía como conceito básico e primeiro a igualdade. A ideologia da moral socialista presente no Código de Família para a sociedade cubana estava baseada em referenciais heterossexuais, da família nuclear e monogâmica.

Inspiradas ainda na URSS[*17], foram propostas medidas que amenizassem o trabalho doméstico, como a criação dos Círculos Infantis, os semi-internatos para crianças e a criação de casas geriátricas, além dos restaurantes coletivos nas fábricas e as lavanderias públicas. Encomendados por Fidel à FMC, os Círculos Infantis, creches onde as crianças adentram a partir do quadragésimo dia de vida, tiveram como objetivo viabilizar o trabalho feminino, mão de obra considerada fundamental para a construção da nova sociedade.

Ao analisarmos um dos cinco pilares da FMC, definidos em seu II Congresso em 1974, evidencia-se o estereótipo, cuja representação e cujo imaginário foram projetados pelo governo revolucionário para a mulher cubana.

Elevar cada vez más el nivel ideológico, político y cultural de la mujer, para ponerla en condiciones de jugar el papel que le corresponde como constructora de la nueva sociedad, en sus funciones de trabajadora, madre, formadora de las nuevas generaciones.[*18]

Ao refletir sobre tal ideário e estereótipo que se pretendeu forjar, notamos que a necessidade de elevar o nível ideológico, político e cultural da mulher direcionou-se para o desenvolvimento de suas funções sociais, definidas em primeira instância pelo trabalho e, em segundo lugar, para a função de mãe e guardiã das novas gerações. São recorrentes nas fontes analisadas as colocações sobre a luta pela incorporação da mulher no mercado de trabalho, observada pelo Estado como a estratégia política que erradicaria a desigualdade social entre mulheres e homens.

[...] tudo o que impeça a incorporação das mulheres no trabalho, dificulta este processo de integração, dificulta este processo para alcançar a igualdade plena. Viram que, precisamente quando a mulher se incorpora no trabalho, quando a mulher deixa de realizar as atividades tradicionais e históricas, estes problemas começam a tornar-se evidentes. [...] Primeiro, é uma questão de justiça elementar; e, segundo, é uma necessidade imperiosa da Revolução, é uma exigência do nosso desenvolvimento econômico, visto que, num determinado momento a força de trabalho masculina não é suficiente.[*19]

Estabelecida a meta de incorporação de 100 mil mulheres a cada ano na força de trabalho do país após a Revolução, também foram realizadas medidas para a liberação e gratuidade dos métodos contraceptivos e para a legalização do aborto. Tais ações desenvolveram possibilidades de independência financeira e acréscimos intelectuais e culturais às cubanas, fatores de altíssima relevância para o combate às disparidades entre os gêneros.

Como resultado, o setor de maior crescimento e representatividade do gênero feminino foi o da educação. No ano de 1992, as mulheres representavam 56,5% dos graduados em educação superior; em 1993, as mulheres constituíram 57,7% dos matriculados nas universidades do país. O reflexo deste enorme avanço no meio educacional, sua alta qualificação, é a condição alcançada por elas no mercado de trabalho[*20].

Mas, apesar dos enormes avanços no campo do trabalho, em 1991 as mulheres ocupavam apenas 28,8% dos cargos de chefia do país[*21]. A baixa participação de mulheres na vida política do país talvez seja um dos mais nítidos sensores para se observar os reflexos do preconceito ainda existente.

Pesquisa realizada com 5 mil cubanos em 1988 pela FMC, com igual número de mulheres e homens, buscou compreender a preferência por candidatos do gênero masculino nas eleições do Poder Popular. Ao perguntar sobre quem preferiam como dirigentes, 60% dos entrevistados responderam que não havia distinção entre serem dirigidos por uma mulher ou por um homem. Porém, mais da quarta parte declarou possuir preferência pela direção masculina. Essa resposta foi dada tanto por homens como por mulheres, 24,2% dos entrevistados do sexo feminino e 28,5% masculino. Quando foram questionados se consideravam os homens melhores dirigentes, 37,9% das mulheres e 43,3% dos homens responderam que sim. Dos 2.110 entrevistados que responderam positivamente a pergunta, 56% justificaram afirmando que os homens possuem mais oportunidade e tempo que as mulheres, e 30% afirmaram que os homens têm mais capacidade por natureza para exercer tais funções[*22].

Vinte e nove anos após a Revolução, e treze anos após o Código de Família, pouco se alterou na perspectiva constituída pelos cubanos sobre o papel das mulheres nessa sociedade, antes de sua importância individual e subjetiva, seus anseios e desejos, encontram-se os seus “deveres naturais”. Assim como nos países capitalistas, as duplas ou triplas jornadas de trabalho são uma realidade também vivenciada pelas mulheres da Ilha[*23].

Mas é emblemático notar que tais referenciais foram reafirmados pela própria FMC, instância que deveria desconstruir os estereótipos que discriminam as mulheres. Ao falar sobre os Ciclos Infantis, a organização afirma que os filhos são “una profunda preocupación para la madre que trabaja”[*24], como se o cuidado com os filhos fosse uma atribuição apenas feminina. No contato com as fontes, não se observou questionamentos sobre o cuidado com os filhos e o trabalho doméstico como funções historicamente designadas às mulheres; nem se realizaram considerações sobre a necessidade da divisão destas funções com os homens. O que se propaga com muita ênfase é a necessidade de o Estado assumir tais funções, com o fortalecimento da plataforma de serviços, como os Círculos Infantis, restaurantes coletivos, lavanderias públicas etc.

Durante a crise econômica dos anos 1990, denominada “período especial”, após o fim da URSS, vários benefícios sociais destinados à diminuição do trabalho doméstico foram reduzidos ou simplesmente fechados, incluindo os Círculos Infantis[*25]. O não questionamento sobre os espaços hierárquicos levam à manutenção do status quo, em que as mulheres tenderão à dependência do bom funcionamento da máquina estatal, ou ficarão sobrecarregadas, tendo de encarar duplas e ou triplas jornadas.

Mas um elemento que compromete tal realidade, pois a dificulta ainda mais, é o segundo papel social atribuído á mulher cubana, a maternidade. Existe uma forte sensibilização nesse sentido. Fidel, atribuindo às mulheres o papel de forjarem novos revolucionários, emprega até mesmo o termo de “madre heróica” para mulheres que tiveram filhos revolucionários, como Mariana Grajales, mãe dos irmãos Maceos, e a mãe de Frank País[*26]. O próprio emblema da FMC nos remete a tal valoração: uma mulher segura uma criança nos braços enquanto carrega uma arma nas costas[*27].

É notório o ideal da presença feminina no universo do trabalhar, mas, no ano de 1968, houve a Resolução 48, do Ministério do Trabalho, que impedia algumas funções de trabalho às mulheres por serem consideradas “nocivas para la función procreadora de la mujer”[*28], mesmo com a difusão dos ideais feministas no mundo nesse período histórico, com o questionamento da concepção limitadora da maternidade nas sociedades patriarcais.

Apesar de o direito ao aborto ter sido conquistado em Cuba depois da revolução de 1959, tal ideário de super valoração da maternidade sob a figura feminina se aproxima da concepção adotada na União Soviética por Stalin, que passou a premiar as mulheres que geravam mais filhos com títulos[*29]. A noção meritocrática de premiar com títulos de honra também foi incorporada em Cuba, que passou a destacar com títulos de “campesinas avanzadas”[*30] as federadas que melhor seguissem os códigos de conduta da FMC.

Assim como foi reproduzido o ideário de perseguição ao homossexualismo, que em 1934 foi proibido na URSS[*31], em Cuba, durante as décadas de 1960 e 1970, homossexuais e outros grupos sociais que significavam incômodo ou ameaça aos ditames do novo regime foram enviados para Unidades Militares de Ayuda a la Producción (UMAP), campos de trabalhos forçados, como denuncia o documentário Conduta Imprópria[*32]. Podemos visualizar que a criminalização do homossexualismo foi uma política institucionalizada ao analisar uma das resoluções finais do primeiro Congresso Nacional de Educação e Cultura de Cuba, no ano de 1971:

[...] não se pode permitir que por seus “méritos artísticos”, reconhecidos homossexuais influenciem a formação de nossa juventude. Como conseqüência, é necessário analisar como se deverá encarar a presença de homossexuais nos diversos organismos da frente cultural. Sugeriu-se o estudo de medidas que permitam o encaminhamento para outros organismos daqueles que, sendo homossexuais, não devam ter participação direta na formação de nossa juventude a partir de atividades artísticas ou culturais.[*33]

Através da análise imanente das fontes interpretamos que na Revolução Cubana houve rupturas no âmbito político-econômico, mas no aspecto tocante às representações de gênero pouco se alterou, pois não se planificou no sistema de valores da Revolução ideais de uma nova moral sexual. A defendida moral socialista está repleta de vícios de normatividade da moral burguesa.

Quem quer mudar o mundo não pode fazer do amor sexual o ópio que alimenta paraísos artificiais falaciosos e frágeis. Neste sentido, o “puritanismo revolucionário” tem sua razão de ser. Mas ele empobrece a revolução e mutila antecipadamente a nova mulher e o novo homem se imagina que a sexualidade socialista será a sexualidade capitalista sem capitalistas.[*34]

Apesar do ataque, a família burguesa pensada por Engels, em A origem da família, propriedade privada e o Estado[*35], nas experiências práticas do socialismo, assim como as desigualdades de gênero, foi questão secundária entre suas bandeiras de luta, que possuem como foco central a questão econômica e a produção[*36].

Defendeu-se na revolução o ideal de superação de todas as desigualdades a partir do assumido direcionamento socialista, indispensável à garantia da unidade, pois somente era possível estar com a revolução ou contra ela. Em pró da dita unidade, exterminou-se as organizações femininas existentes na ilha até a criação da FMC, que passou a centralizar todas as discussões sobre mulheres. E sob a mesma justificativa, atacou-se a Asociación de Mujeres Comunicadoras, chamada de Magín, que surgiu em 1993 com a pretensão de realizar intervenções nos meios de comunicação e saúde a partir de questionamentos sobre a figura da mulher, baseando-se na perspectiva do conceito de gênero. A organização introduziu a discussão de gênero em Cuba, chegando a reunir cerca de 400 mulheres. Mas, em setembro de 1996, o grupo foi dissolvido pelo Comite Central del Partido Comunista de Cuba sob a acusação de estar duplicando organizações que já existiam, como a Unión de Periodistas, a Asociación de Publicitarios e a Federación de Mujeres Cubanas[*37]. Portanto, em pró da unidade contra os propósitos subversivos e antirrevolucionários, a organização teve que deixar de existir.

Conclusão

Concluímos que, apesar da existência de medidas destinadas ao segmento feminino, tais ações possuíram como prerrogativa uma necessidade do todo social, e não a efetiva equidade entre mulheres e homens, como se nota na proeminência do discurso de integração das mulheres ao trabalho, que evidencia um imperativo de desenvolvimento econômico. Já que questões nevrálgicas para a superação das desigualdades entre mulheres e homens, como a divisão do trabalho doméstico e a participação política de mulheres nas instâncias de decisão, pouco foram questionadas.

Consideramos que a mentalidade patriarcal e os conceitos reforçados por séculos não seriam alterados com facilidade e rapidez, mas notamos que o Estado revolucionário, instância que se propôs à construção do socialismo e à promoção da igualdade entre mulheres e homens em Cuba, reafirmou em seu discurso e prática identidades sexistas e machistas que aprisionaram as mulheres por séculos.

Apesar de a revolução ter realizado inúmeras transformações positivas em Cuba, não existiu ruptura em diversos aspectos fundamentais para a construção de uma sociedade igualitária. As ações destinadas ao segmento feminino não foram pensadas por mulheres, mas sim por homens que tiveram enquanto fachada a FMC, organização de estrutura hierárquica, que mesmo se projetando á superação das desigualdades de gênero reproduziu a lógica patriarcal de dependência da figura masculina de Fidel Castro.

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Revista HISTÓRICA

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

A data símbolo de 1898: o impacto da independência de Cuba na Espanha e Hispanoamérica


Maria Helena Rolim Capelato
O texto foi apresentado como conferência no V Encontro da ANPHLAC (Associação Nacional de Pesquisadores de História Latino-Americana e Caribenha), realizado na UFMG, Belo Horizonte, em julho de 2002.
Departamento de História – FFLCH – USP – CEP 05508-900 – São Paulo – SP


1898 tornou-se uma data-símbolo na historiografia espanhola, vista como um marco de mudanças importantes na Espanha e América Hispânica. Mas este, como todo e qualquer marco histórico, está sujeito a uma infinidade de interpretações, que comportam inclusive a relativização de sua importância.

O tema tem sido exaustivamente estudado. Carlos Blanco Aguinaga refere-se à grande quantidade de livros e artigos publicados sobre 98 no ano do seu centenário; eles foram escritos tanto por especialistas como por periodistas. Além disso foram realizadas inúmeras conferências e congressos a propósito do que os espanhóis de 98 chamaram de o "Desastre", com D maiúsculo.3

Em 1989, foi organizado um Encontro Internacional na UNAM (Universidad Autonoma de México) com o intuito de comemorar o Primeiro Centenário da chamada "geração de 98". Com a participação de especialistas espanhóis e hispano-americanos, o assunto foi debatido sob diversos ângulos e resultou em algumas publicações que fazem parte da Coleção "Latinoamérica fin de Milenio". Dois títulos foram dedicados especialmente ao tema: 98: derróta Pírrica e El 98 y su impacto en Latinoamérica. No prólogo de um deles afirma-se que, em se tratando do encontro de dois mundos, 1492 foi o primeiro e o de maior transcendência. Depois desse acontecimento, o mais destacado é o do ano axial de 1898, muito significativo para a história dos povos hispânicos.

Em 1898 os Estados Unidos emergiram como grande potência, e um século depois ainda se mantinham como tal, alcançando uma hegemonia unipolar. Seu primeiro feito de destaque foi a derrubada dos últimos bastiões espanhóis na América (Cuba e Porto Rico) e na Ásia (Filipinas). Mas 98 não representou unicamente uma grande vitória da nova potência imperialista - os EUA -, mas o fim do decadente colonialismo espanhol.

O episódio teve muitos desdobramentos e foi alvo de múltiplas interpretações. Pretendo abordar alguns dos significados desse acontecimento, levando em conta o que ele representou, não só para os espanhóis, mas também para os hispano-americanos.

Cabe, de início, enfatizar a mudança que 98 produziu nos olhares recíprocos, dando origem à construção do conceito de hispanidad, pleno de significado ideológico.

O "Desastre" teve impacto muito negativo para os políticos espanhóis e para as camadas mais conservadoras da sociedade, que o sentiram como uma "mancha na honra militar".

Os debates da época acusam ampla e rica discussão em torno do problema. Azorín, um dos intelectuais identificados com o grupo denominado "geração de 98", escreveu no jornal ABC, em 1913, que eles tinham sido estimulados pela experiência do "Desastre". O acontecimento avivou as críticas e radicalizou as posições dos intelectuais.

É preciso deixar claro que, neste texto, não estou me propondo a fazer uma recuperação da história da Espanha no período. A ênfase da análise será posta na atuação de um conjunto de intelectuais que, motivados por preocupações e busca de soluções para os problemas de seu tempo, passaram a refletir sobre questões de natureza individual, social e política.

Tomando como referências básicas os temas da modernidade/modernização/modernismo (final do século XIX e início do século XX), que suscitaram uma polêmica em torno do que significava "ser nacional", pretendo mostrar em que medida a construção do marco de 98, envolvendo Espanha e hispano-América, contribuiu para a afirmação de uma intelectualidade mais integrada e participante em relação às questões de sua época.

A chamada geração de 98 manifestava angústia pelo estado de decadência a que estava submetida a Espanha. Os autores procuravam analisar as causas desse mal e propunham soluções para regenerar o país; por esse motivo são identificados também como "regeneracionistas". Caracterizavam-se por uma percepção negativa da nação espanhola e lamentavam o fato do país manter-se à margem da Europa. Definiam a Espanha como um país rural, marcado por graves problemas econômicos e políticos. Criticavam o sistema político, controlado por "caciques" (só votava certa de 4.5% a 5.5% da população) que resolviam os conflitos sociais e políticos através da censura e da repressão policial. Condenavam, também, a forte presença religiosa e militar no governo e o descaso com a educação. Alegavam que a maioria das crianças não ia à escola, e o ensino primário, secundário e universitário era de baixa qualidade e estava, em sua grande maioria, nas mãos da Igreja.

Consideravam que, embora a Espanha tivesse dado início a um processo de modernização econômica, as condições materiais eram ainda muito precárias. O escritor Ramiro Maeztu, após sua visita a Cuba em 1891, afirmou que a ilha era, em muitos aspectos, mais avançada que a metrópole, pois ao longo do século havia passado por transformações importantes que deram forte impulso aos negócios.4

Outra fonte de insatisfação na época era o serviço militar obrigatório - só para os pobres -, pois quem podia pagar pela isenção se livrava dele; o Estado permitia que se designasse um substituto. Na guerra de Cuba, a ida dos jovens pobres causou indignação entre as classes populares. A geração de 98 era anticlerical e antimilitarista.

A derrota na guerra de Cuba foi responsável por uma crise de identidade que se integrou numa crise mais ampla, de âmbito europeu, caracterizada por reações contra a modernidade e a modernização.

A revisão de valores que se manifestou na sociedade européia foi produzida por importantes mudanças econômicas e sociais relacionadas ao processo de industrialização, de urbanização acelerada e emergência de conflitos entre burguesia e operariado. Nesse contexto de amplas mudanças, no qual a Espanha se inseria ainda que de forma moderada, a nação ibérica se viu atingida pela guerra de Independência de Cuba. As repercussões da derrota não podem deixar de ser levadas em conta para se compreender os problemas que preocuparam os intelectuais espanhóis nesse final do século.

Na introdução do livro Fuera del Olvido: los escritores hispanoamericanos frente a 1898, Lourdes Royano afirma que o ano de 1898 constitui uma data paradigmática para a cultura espanhola e hispano-americana. Para a autora, o "Desastre" resultante da guerra de Independência de Cuba não foi vivido apenas como uma derrota militar que trouxe consigo a perda das últimas colônias de ultramar. Tampouco significou a independência definitiva de um continente em relação à sua antiga metrópole. Mais do que isso, 1898 representou um momento conjuntural dentro do mundo hispânico que deu lugar a um diálogo enriquecedor entre escritores de uma e outra margem do Atlântico. Em sua grande maioria, os intelectuais do final do século XIX questionaram os valores de uma cultura expansiva - a anglo-saxã - cuja impetuosa modernidade se impôs sobre a tradição humanista da cultura latina que esteve na base da cultura ibérica.5 A discussão que se travou em torno da cultura saxã versus cultura latina serviu para unir espanhóis e hispano-americanos. Como afirma Royano, a literatura produzida por eles, nessa época, foi fundamental para a evolução literária do século XX. Os grandes escritores espanhóis e hispano-americanos se converteram em modelos internacionais.

Tratarei, num primeiro momento, de caracterizar o que foi a geração de 98 e o que representou sua produção cultural. A seguir, procurarei me deter na relação entre intelectuais espanhóis e hispano-americanos, procurando mostrar como se deu a inversão dos olhares recíprocos e como se constituiu o conceito de hispanidad. No final, apresentarei uma reflexão sobre as posições políticas dos representantes de 98, indicando mudanças que ocorreram ao longo de suas trajetórias de vida.



A GERAÇÃO DE 98: REGENERACIONISTA E MODERNISTAS

Luis de Lhera, no texto intitulado Historiografia y modernismo literário, afirma que a geração de 98 teve duas origens muito diferentes. A primeira se relaciona ao momento político da derrota na guerra de Independência de Cuba, quando se realizou o acordo com os EUA, ocasionando a perda de Cuba, Porto Rico, e mais tarde Filipinas. A segunda está relacionada ao surgimento da palavra intelectual posta em moda na Europa, França e Espanha principalmente, quando, no final do século XIX, homens de ciência e cultura passaram a intervir no debate público através da publicação de manifestos e presença forte na imprensa. Nessa época, os problemas relativos à Restauração espanhola provocaram, no ambiente intelectual, reação dos autores à política e instituições nacionais. Manifestaram falta de confiança no sistema parlamentar, criticaram os militares e membros do clero, protestaram contra a ineficiência do governo perante a sociedade corrompida por interesses burgueses. Nesse contexto, os intelectuais tomaram para si a incumbência de regenerar o país, atitude que os colocava na posição de guardiões críticos do Estado e da sociedade espanhola. A atuação deste setor produziu na sociedade um novo poder que atuava através da imprensa e opinião pública. Arvoraram-se em superego da nação e agiram como sábios ou juízes da coisa pública. Revelaram, nos primeiros tempos, uma tendência progressista ante dos conservadores (Clero e Forças Armadas) e se manifestaram a favor da secularização do ensino e da vida pública.

A propósito do conceito de geração, Luís Lhera relata que Azorín apropriou-se deste termo, que fora cunhado pelo então jovem escritor Ortega y Gasset, para descrever o grupo de intelectuais do qual fazia parte, e utilizou, em 1913, a expressão: "nós, os da geração de 98". Javier Pinedo aceita o conceito e define esse grupo de jovens intelectuais como "geração de 98", a partir de alguns critérios. Além da proximidade de nascimento, da formação educacional concomitante e similar, dos contatos muito freqüentes nos salões e cafés principalmente, foram marcados por acontecimentos históricos importantes como a derrota na guerra de 98. Do ponto de vista literário, recusavam os cânones da geração anterior, a do realismo literário, e usavam uma linguagem comum, que na maioria deles correspondia ao modernismo. Discussões estéticas e literárias, políticas e sociais criaram um marco de referências novas para interpretar a Espanha. O pessimismo crítico, as preocupações com o futuro do país e a conseqüente ênfase na necessidade de regeneração foram predominantes. O resultado foi uma mudança profunda na literatura e nas artes espanholas e uma nova visão da Espanha e de seu significado histórico.6

Pedro Cerezo Galán, ao abordar a "dupla crise ideológica e intelectual do 98", destaca o surgimento de uma nova sensibilidade de amplo horizonte histórico, que se poderia designar "espírito do tempo", categoria que considera mais apta que a de geração para caracterizar o grupo que sofreu uma mutação relevante de consciência. A crise não era só espanhola, mas européia, e tinha no industrialismo o seu fundamento. A revisão de crenças e valores foi, segundo o autor, decorrente de mudanças mais profundas que resultaram num mal-estar da cultura.7

O duplo aspecto da crise manifestou-se na posição dos escritores de 98. Azorín se ateve à situação espanhola que provocara um "grito de rebeldia, desdém em relação ao caduco, indignação frente ao oficial". Pio Baroja privilegiou a tendência cultural mais profunda, o espírito do tempo, caracterizado pelo individualismo, injustiça social, desprezo pela política, pelo anarquismo e pelo misticismo. Neste caso, o problema da Espanha era um problema europeu.

A obra de Miguel de Unamuno, En torno al casticismo, resultado de um conjunto de ensaios escritos em 1895, mostra que a crise era anterior ao "Desastre", que só veio a torná-la mais evidente. Menendez y Pelayo, embora não mencionado por respeito ao antigo mestre, era considerado pelo autor como o protótipo do intelectual castiço, disposto a guardar as essências da Pátria de toda contaminação estranha. Unamuno se propôs a mover-se fora da antinomia entre tradição e progressismo, propondo uma síntese entre as duas tendências. Ángel Ganivet, em correspondência pública com Unamuno, também apontou para a necessidade de superação integradora das forças em litígio. Ramiro de Maeztu considerava que o problema da Espanha era o dogmatismo que significava uma afirmação integral da tradição, resultando numa atitude integrista própria da Espanha da Contra-Unamuno, argumentando que a europeização da Espanha fora eloqüente mas superficial pois, no fundo dela, permanecera um sentido religioso da vida, essencialmente hispânico. Ressaltava ser necessário superar a tradição histórica e romper com o castiço temporal. A tradição castiça de base religiosa e teológica, simbolizada pela cruz e espada, produzira o controle religioso da consciência e dominação política a serviço do unitarismo. A Inquisição significara a "aduana do utilitarismo castiço", responsável pelo antimoderno e pelo integrismo. Estas teriam sido as conseqüências de se estabelecer a religião como vínculo social e forma de unidade política. Diante de tão profundo problema, propunha a realização de uma superação da personalidade castiça cristalizada através de vários séculos de monarquia católica. A mudança profunda dizia respeito à transformação do "caráter espanhol", imprescindível para a regeneração do país.

Nem reforma nem revolução bastariam, era necessário que na consciência coletiva do povo se produzisse uma crise tal, capaz de provocar a cura da personalidade patológica. A solução, de fundo psicanalítico, pressupunha acabar com o velho eu para que, de suas ruínas e nutrido delas, surgisse um novo eu.

Unamundo e Maetzu tinham a mesma percepção sobre os resultados de 98: a crise tocara fundo mas não provocara a renovação desejada. O regime canovista resistira intacto a ela. Unamuno, perante a indiferença da população, passou a manifestar frustração com os resultados do "Desastre", que não produzira nenhuma mudança política. Passou a preocupar-se com o marasmo da Espanha, referindo-se ao estado de abulia, ao mal endêmico do caráter espanhol. Como o mal era profundo, voltou-se, junto com seus companheiros, para a tarefa de regeneração. Como não se produzira a revolução desde arriba, nem desde abajo, a alternativa era batalhar pela revolução na raíz.

O impacto da crise do fim do século e a preocupação com os males da Espanha uniram os intelectuais espanhóis da época no desejo de regenerar a nação através da sua incorporação à modernidade, sem perder as bases de sua identidade. A Espanha, como pátria, como realidade histórico-cultural, como convergência de valores espirituais, guiou os propósitos regeneracionistas. Mas eles também se preocuparam com a regeneração da Espanha dos pontos de vista político, econômico e social.

O termo regeneração, geralmente associado a condições materiais e sociais/raciais era muito difundido no Ocidente, tanto na Europa como na América. Os "regeneradores" de 98 preocupavam-se com as condições materiais (econômicas, sociais e políticas) do país, mas estiveram, acima de tudo, empenhados na regeneração espiritual da raça hispânica; a raça, neste caso, era entendida no sentido cultural.

A "geração de 98" delineou um projeto moderno sem abandonar as bases da hispanidad. Pinedo se refere a esse projeto de identidade e modernidade espanhola como "ser outro sem deixar de ser o mesmo". Esses intelectuais foram responsáveis por uma explosão literária que expressava a desolação nacional causada pelo "Desastre colonial".

Luis Lhera considera que há diferenças entre a "geração de 98" e os "modernistas". Os primeiros se caracterizaram pela preocupação com temáticas regeneracionistas e os segundos, literatos puros, preocuparam-se com a renovação do estilo. A linha divisória entre eles não é muito nítida. Citando Federico de Onís, refere-se ao modernismo como uma forma hispânica de manifestação da crise universal das letras e do espírito, ocorrida a partir de 1885, com manifestações na arte, ciência, religião, política, tendo como fundamento mudanças históricas.

Apesar das diferenças, Lhera considera que modernismo e geração de 98 se cruzaram e revelaram influências mútuas. Ambos se identificaram com movimentos de reforma. A posição intelectual da "geração de 98" diante da história e da vida espanhola produziram um movimento político e literário nacionalista no sentido de interpretação da realidade nacional; mas aceitaram também as reformas estéticas, literárias, de caráter cosmopolita.

Dentre os nomes da "geração de 98", Azorín destaca, além dele mesmo, Miguel Unamuno, Pio Baroja, Ramiro de Maeztu, Valle Inclan, Benavente, Rubén Darío. Dentre os modernistas são mencionados Valle Inclan, Benavente e Rubén Darío. Outros autores acrescentam os nomes do poeta Antonio Machado (como expressão do modernismo literário), de Menendez Pidal (como regeneracionista, embora pertencesse a uma geração anterior), além de Ángel Ganivet, Ricardo Macías Picavea, Joaquín Costa, Rafael Altamira e Luis Morote.

Todos se caracterizaram, em maior ou menor grau, pelo protesto moral, pela rebeldia, pela crítica social, e foram responsáveis por um renascimento literário.

Adolfo Sánchez Vazquéz menciona especificidades dos autores: alguns, como Unamuno, Maeztu e Azorín, eram mais preocupados com problemas políticos, e outros, Pio Baroja, Antonio Machado e Valle Inclan, mais voltados para questões literárias.8

Pedro Ribas menciona algumas características da interpretação da Espanha realizada pelo grupo. Menciona a descoberta de Castilha (feita por autores de outras regiões), a indagação e análise sobre os traços do caráter espanhol, e também a interpretação nova da história da Espanha.9

As propostas para a solução da crise interna, de caráter profundo, criaram polêmicas entre os "regeneracionistas" e sofreram alterações ao longo do tempo. Unamuno propunha que, diante do marasmo, do pântano de água estagnada e da falta de correntes vivas internas, a solução era abrir as fronteiras da Espanha e permitir que chegassem à península ares da modernização dos vizinhos: era favorável à europeização da Espanha. Mas a partir de 1905, quando foi acometido por uma crise existencial que o fez voltar-se para a metafísica, passou a recusar as soluções concretas e a enfatizar a solução espiritual; a partir de então, a europeização da Espanha perdeu sentido para ele . Maeztu, na obra Hacia otra España (1899), também propôs a europeização da Espanha. Tomando como exemplos a modernização e o progresso material da Inglaterra, Alemanha e França, deu ênfase à necessidade de soluções concretas para os problemas da Espanha. Chegou a atacar Unamuno quando se tornou metafísico e criticou Ganivet pelo idealismo mas, a partir de 1911, após uma viagem à Alemanha, mudou radicalmente: aproximou-se ideologicamente dos autores que antes criticara e suas posições passaram a se caracterizar pelo subjetivismo e espiritualismo. Passou a questionar a modernidade, acusada de economicista e vulgar, alheia às expectativas espirituais. A ânsia de dinheiro, afirmou o autor, era insuficiente para fazer uma nação recobrar a iniciativa histórica. Acabou cerrando fileiras com os católicos integristas.

Por fim, a proposta identitária para a regeneração da Espanha prevaleceu sobre as soluções concretas, voltadas para a modernização de estilo europeu.

As obras mais representativas do 98 estavam impregnadas de pessimismo, e algumas delas representaram verdadeiras metáforas de uma Espanha carente de vontade política e reservas morais.

A "geração de 98" caracterizou-se, acima de tudo, por uma reflexão sobre a "alma" da Espanha e sobre o significado do país na história. Ganivet identificava a Espanha com a moral cristã, espírito de independência, individualismo indisciplinado e genialidade improvisadora; Unamuno, com o espírito castelhano. Ambos assumiam a idéia de decadência e esgotamento do país, acreditando que ele vivia, no final do século XIX, uma gravíssima crise histórica, e consideravam que só a recuperação da verdadeira essência nacional permitiria sua sobrevivência como nação.

A Espanha representava, pois, um problema, uma preocupação e um fracasso em termos de nacionalidade. A visão de uma "Espanha negra" estava em muitos outros textos.

Castilha era, na perspectiva desses autores, a essência mesma da nacionalidade espanhola: uma Castilha quixotesca, na concepção que Unamuno e Azorín tinham de Don Quixote; uma Castilha de paisagens desoladas e frias, tristes e nobres, campos vazios e cidades decrépitas, na poesia de Machado; uma Castilha realista, na concepção dos outros autores.

A herança de 98 foi, pois, uma reflexão ensimesmada sobre a idéia de Espanha e sua realidade histórica, como já mencionei. As manifestações dos autores foram, desde o início, polêmicas. Eles se criticavam entre si, seja pelo pessimismo exacerbado, seja pelo diletantismo "estrangeirizante", seja pelo desdém à tradição ou pela invenção de uma Espanha sombria e arruinada. A esquerda os questionava por não terem entendido que o problema da Espanha era antes de tudo um problema político, uma questão de democracia.



ESPANHA E AMÉRICA HISPÂNICA NO CONTEXTO DE 98

O hispano-americanismo, cujos primeiros impulsos partiram de liberais com Rafael Altamira, serviu para o restabelecimento das relações culturais entre os países, reintroduzindo a América como fator necessário à política espanhola. Abriu, ainda que timidamente, o mercado americano a alguns escritores espanhóis: Unamuno, Grandmontagne e Salaverria residiram por alguns anos na América, estabelecendo contatos importantes e produzindo livros interessantes. A presença de Ortega y Gasset em Buenos Aires, a partir de 1916, foi extremamente produtiva para o pensamento argentino.

Mas o encontro entre Espanha e América hispânica teve também seu lado mais questionável. Interesses políticos e ideológicos resultaram na produção de um discurso de exaltação nacionalista que, já em 1918, quando se celebrou o 12 de outubro como festa da "raza" hispânica pela primeira vez, apresentou a hispanidad como comunidade espiritual entre Espanha e América. A idéia de hispanidad serviu de justificativa para projetos antidemocráticos e orientou a formação de grupos nacionalistas de extrema direita dos dois lados do Atlântico.

O 98, como exame de consciência nacional, impulsionou o "redescobrimento" da América espanhola e de seus vínculos com a cultura nacional. O reencontro das duas culturas acabou sendo denominado de hispano-americanismo.

Teodósio Fernández escreveu um artigo importante sobre a relação entre hispânicos dos dois mundos. Lembra que as décadas finais do século XIX foram marcadas pelo predomínio das potências capitalistas da Europa e América (EUA) e pela expansão imperialista. A Espanha não figurava entre elas e a hispano-América foi alvo da política de domínio externo. A atuação dos norte-americanos na guerra de Cuba acabou provocando reação não só na Espanha mas nos países americanos. 98, o ano da derrota espanhola, acabou adquirindo um marco histórico para as duas culturas porque tornou possível uma nova unidade dos países hispânicos conjuntamente marginais ante a presença do imperialismo moderno no mundo. Portanto, concluiu o autor, essa data é tanto espanhola como americana. Afinal, a derrota foi compartilhada por espanhóis e hispânicos da América em virtude do poderio dos Estados Unidos, convertido numa ameaça que os anos posteriores confirmariam. 10

Entre os intelectuais americanos, os protestos contra as intervenções em Cuba não tardaram a surgir. O colombiano José Maria Vargas Vila escreveu Ante los bárbaros em 1903, onde relembrou que eles (norte-americanos) invadiram o México, aprisionaram Cuba, Haiti e Santo Domingo, conquistaram Porto Rico, despedaçaram a Colômbia e roubaram o Panamá. O argentino Manuel Ugarte em El porvenir de la América española (1910), e em muitos outros escritos, considerou que os males das nações latino-americanas derivavam da fragmentação e vassalagem colonial e semi-colonial imposta pelas potências imperialistas.

No final do século XIX teve lugar, tanto na Europa como na América, uma ampla polêmica entre saxonismo e latinismo. Autores como Gustave Le Bom, em Leyes psicológicas de la evolución de los pueblos (1894), Edmond Demolins, na obra En que consiste la superioridad de los anglosajones (1897), e muitos outros, procuravam ressaltar a superioridade dos anglo-saxões em relação aos povos latinos. A vitória norte-americana sobre a Espanha confirmava essas teses.

Na América hispânica, muitos autores, que procuraram interpretar as causas do atraso dos seus países, utilizaram essa tese. O argentino Carlos Octávio Buñes, em Nuestra América (1903), denunciou os defeitos das raças hispânica e indígena: preguiça, tristeza e arrogância constituíam, para o autor, os traços próprios do caráter das raças inferiores.

Mas os intelectuais que estiveram na Espanha ou mantiveram contato com os regeneracionistas foram atraídos por suas inquietações renovadoras. Identificaram-se com os povos que enfrentavam problemas semelhantes aos seus (pobreza do solo, atraso econômico, deficiências administrativas e partidárias, defeitos do caráter nacional) e esboçavam projetos para solucioná-los. Os acontecimentos de 98 facilitaram a aproximação entre os reformadores de um lado e outro do Atlântico, decididos a superar as deficiências e lutar pelo progresso de suas respectivas nações.

Em época anterior, muitos intelectuais e políticos haviam proposto a americanização da América hispânica como forma de superar o "atraso", mas as agressões norte-americanas da segunda metade do séc XIX foram produzindo, pouco a pouco, uma inversão de valores que acabou provocando um sentimento pró-latinidade, aí incluindo os franceses e espanhóis. A valorização da tradição latina veio acompanhada da construção de uma imagem negativa dos EUA. Modernistas franceses, como Jean Marie Guyau, identificaram as grosseiras correntes materialistas do século com o "americanismo", e Ernest Renan criou, para caracterizá-las, o símbolo de Calibán. O termo não tardou a difundir-se. Rubén Darío, em visita a Nova York, em 1893, afirmara que Calibán reinava na ilha de Manhattan, em São Francisco, em Boston, em Washington, em todo o país. O franco-argentino Paul Groussac e o argentino Roque Sáenz Peña criticaram "a agressão do yanquee contra la hidalga y hoy agobiada España".

Mas Darío era o mais veemente. Em 1898 escreveu um breve texto "El triunfo de Calibán", no qual caracteriza os estadunidenses como "bárbaros, comedores de carne crua, cíclopes, bestiais, grosseiros que vão por suas ruas empurrando-se e roçando-se de forma animalesca, à caça do dólar". "Não posso, nem quero estar perto desses búfalos de dente de prata, são inimigos meus, são os que aborrecem o sangue latino."

O poeta que foi pouco a pouco deslizando do saxonismo para o latinismo, radicalizou suas posições em 98. No diário La Nación, de Buenos Aires, do qual foi correspondente na Espanha a partir do final de 1898, escreveu sua primeira crônica demostrando esse sentimento de solidariedade em relação ao vencido que surgiu após a derrota de 98:

De novo em marcha, em direção ao país materno que a alma americana - americano-espanhola - há de saudar sempre com respeito, há de querer com carinho profundo. Porque se já não é a antiga poderosa, a dominadora imperial, cabe amá-la em dobro; e se está ferida, estende a mão a ela muito mais.11

Do encontro de Rubén Dario com Unamuno surgiu o par que se destacou pela constituição de uma rede de contatos, correspondências, comentários e circulação de obras e pessoas interessadas pelo ibérico e o americano no começo do século. Nesses anos viajaram ou se instalaram na Espanha numerosos intelectuais latino-americanos, e espanhóis vieram para a América Latina onde permaneceram por algum tempo. Maeztu e Baroja escreveram textos sobre este continente; Unamuno destacou o parentesco maior da Espanha com a América hispânica e salientou a vantagem de uma aproximação espiritual entre os povos de língua castelhana. Rafael Altamira, que também se destacou pela preocupação com a América, foi inspirador de política culturais visando a maior contato entre esses dois mundos. Enfatizou a necessidade de fazer crescer o prestígio espanhol entre os povos americanos de origem hispânica e convencê-los da importância de conviverem espiritualmente.12

Rubén Darío, quando sediado na Argentina, propôs a unidade dos latinos contra o inimigo comum - os Estados Unidos. Afirmou que apesar de ter-se declarado pela Cuba livre, acompanhando-a em seu sonho, tornou-se amigo da Espanha no momento em que a viu agredida por um inimigo brutal, que fez uso da violência, da força e da injustiça.13

Naquele momento, a Espanha, filha de Roma e irmã da França, passou a ser vista como parte de uma verdadeira tradição ibero-americana: a tradição latina. Muitos outros adotaram a defesa da latinidade. Vargas Vila escreveu que as possibilidades de sobrevivência dos países latino-americanos estavam relacionadas com sua capacidade de conseguir a união com a "Mãe Pátria" e a aproximação com a "Itália e a França, as filhas mais velhas da raça. Neste caso, a palavra raça não tinha uma conotação étnica pois estava relacionada a civilização e ideais compartidos. Foi nessa atmosfera que se gestou Ariel, obra publicada em 1900.14 O uruguaio José Antonio Rodó levou mais longe a contraposição entre anglo-saxões e latinos.

Nesse livro Rodó reiterou a visão dos Estados Unidos como reino de Calibán, onde o utilitarismo havia afetado negativamente os valores espirituais e morais e, através da figura de Ariel, procurou recuperar a latinidade. Assim se concretizava uma nova mensagem regeneracionista, destinada a enfrentar os perigos de um tempo de decadência, fruto do bestial materialismo do fim do século. Durante mais de duas décadas o arielismo constituiu uma espécie de "evangelho latino-americano", citado e seguido por inúmeros escritores. Transformando-se em corrente de pensamento, contribuiu para consolidar as esperanças na raça latina, associada ao idealismo e contrária ao mercantilismo utilitário dos EUA, definido por Rodó como "nordomania" que afetava muitos intelectuais latino-americanos.

Na Argentina, o centenário da Revolução de Maio de 1810(momento da primeira declaração de Independência) deu ensejo a reflexões em torno das origens nacionais. Nessa época, havia uma nova geração de escritores que se mostrou preocupada com a possibilidade de perda da identidade nacional devido à entrada maciça de imigrantes estrangeiros. Diante do "crisol de razas", as raízes hispânicas foram recuperadas. A primeira corrente de pensamento nacionalista, que se firmou no país no início do século XX, tinha afinidades com os regeneracionistas espanhóis. A herança espanhola assumia uma significação nacionalista ao integrar-se na busca de identidade própria, perdida no passado indígena e colonial, mas considerada ainda viva na atmosfera tradicional das províncias menos afetadas pela imigração e pela modernização corruptora. Os autores procuraram recuperar a Argentina verdadeira e eterna para com ela fazer frente aos perigos e inseguranças acarretados pelas transformações da época.

Escritores como Ricardo Rojas e Manuel Gálvez tornaram-se representativos desse momento. Eles aprofundaram as críticas ao projeto liberal oligárquico que servira de base à construção da Argentina moderna. Gálvez exaltou a tradição hispânica, vista como base da argentinização do país. Na alma da raça e na antiga grandeza espiritual, a nação encontraria recursos para abordar a espiritualização da consciência nacional como remédio contra o materialismo que imperava no país. Ricardo Rojas também se opôs ao materialismo e propôs o estudo da história para fomentar o nacionalismo; para o autor, a nacionalidade representava a consciência de uma personalidade coletiva.

Os nacionalistas argentinos desse período formavam um grupo que, segundo Gálvez, exercia uma missão semelhante à que teve na Espanha a geração de ideólogos surgida depois do "Desastre". Como decorrência desse intercâmbio de idéias, segundo Fernandez, os hispano-americanos passaram a ver seus países como um problema, sobretudo moral, segundo Maeztu. Também se sentiram estimulados a desprender-se das matrizes de pensamento positivista-cientificista para interpretar a realidade nacional e trabalhar pela reconquista dos valores espirituais perdidos, distanciando-se dos interesses materiais. Os autores dessa época dialogaram com os espanhóis e com os ideólogos da nova direita nacionalista francesa: Charles Maurras, Maurice Barrès e outros.15

A mudança de visão da Espanha com relação à América e vice-versa se deu a partir de acontecimentos ocorridos nesses dois mundos: no que se refere ao mundo espanhol, é preciso levar em conta que a atuação conjunta de intelectuais hispano-americanos, como Rubén Darío, com os espanhóis no projeto regenerador foi muito importante; no mundo americano, há que ser considerar que a chegada de inúmeros imigrantes espanhóis na América, a partir da segunda metade do século XIX, alterou a visão que os americanos tinham do poder da metrópole e de seus filhos colonizadores. O intercâmbio intelectual aproximou espanhóis e hispano-americanos. Além disso, a animosidade contra os EUA era um denominador comum.

A presença dos norte-americanos na América Latina desde a independência de Cuba teve importância no despertar da simpatia pela Espanha nas repúblicas hispano-americanas.

Segundo Eduardo Devés, a emergência dos EUA como país expansionista e imperialista deu origem a teses identitárias que reconheciam no latino, em geral, e no hispano, em particular, um componente real e legítimo do que era a "nossa América". Lembra que, para Darío, tanto quanto para Rodó, o latino estava marcado pelo signo da cultura, da civilização e do espírito, elementos que "todos levamos dentro de nós e que nos pertence".

O autor procurou mostrar que os contatos dos latino-americanos com a Espanha no plano intelectual foram configurando uma rede de solidariedade na qual americanos e peninsulares teceram laços identitários a partir de idéias e sensibilidades comuns. Para Devés, essa solidariedade que significa imaginar ou reimaginar uma identidade, mesmo que seja parcial, só é possível a partir da definição de um inimigo comum. Nesse sentido, o latinismo e o iberismo só se configuraram como tais na medida em que passaram a identificar o saxão como um inimigo e, às vezes, até como um bárbaro ou como um inferior. 16

Não se pode afirmar que essa visão identitária dos regeneracionistas fosse plenamente progressista e democrática, mas enquanto os debates permaneceram no plano da cultura e da mentalidade, as críticas à situação vigente, controlada pelos conservadores, foram freqüentes. Porém, com o passar do tempo, diante do recrudescimento dos conflitos sociais e políticos e da evolução do quadro europeu no sentido de uma radicalização entre esquerda e direita, os regeneracionistas tanto da Europa como da América foram se definindo ideologicamente no sentido da extrema direita. Poucos permaneceram no quadro do liberalismo político. É o que pretendo mostrar a seguir.



A GERAÇÃO DE 98 E A POLÍTICA

A "geração de 98" tentou aproximar a Espanha da modernidade, ou seja, da razão, da democracia, do progresso econômico. Mas, num segundo momento, seus integrantes chegaram à conclusão de que a verdadeira salvação estava na afirmação da identidade espanhola e se propuseram a resgatar a hispanidad.

Esses intelectuais viveram um período de crise global. Enquanto jovens, conviveram com as idéias de Marx, Spencer, Nietzche, Schopenhauer, aproximaram-se dos anarquistas, dos socialistas, mas acabaram por se tornar conservadores indo ao encontro de soluções pessoais, no plano da metafísica, ou políticas, junto aos setores da extrema direita. Na juventude, lutaram pela abertura da sociedade espanhola, mas na maturidade, a maioria optou pelo refúgio no passado hispânico. O projeto regenerador transformou-se num assunto de identidade nacional.

O "Desastre" produziu uma catarse coletiva que permitiu gerar a idéia de ressurreição da Espanha. O pessimismo e visão crítica iniciais resultaram numa explícita atitude de denúncia política e social. Alguns membros de "98" chegaram a se identificar, por um certo tempo, com as correntes de esquerda. Unamuno militou em agremiação socialista e escreveu artigos influenciados pelo marxismo no semanário "La lucha de Clases"; em sua trilogia intitulada La lucha por la vida (La lucha, Mala yerba, Aurora Roja). Baroja romanceou o baixo mundo de Madri, os bairros e as classes marginais e o anarquismo. Azorín denunciou a fome e a greve em Andaluzia em artigos escritos em 1905. É importante lembrar que o anarquismo era forte na Espanha dessa época, sobretudo na Catalunha.

A "geração de 98" demonstrava grande descontentamento em relação à política oficial. Galdós, autor da geração anterior, mas também crítico da política Restauradora, escreveu que a Restauração inaugurara os tempos bobos. Nessa época, houve um período de pacificação política na Espanha que o autor definiu como "paz boba e medíocre". Unamuno se queixava do marasmo. Mas durante o período da Restauração modernizadora, a classe operária, ligada ao processo de industrialização recentemente iniciado, começou a manifestar-se através de organizações anarquistas e socialistas.

A questão social veio à tona e o governante Canovas se referia a ela como "a enorme questão do proletariado". Em 1868 já atuava na Espanha a I Internacional, em 1879 foi fundado o Partido Socialista e em 1888 foi fundada a CGT; dois anos depois, o 1º de maio já se manifestava como um grande acontecimento, e as greves começaram a se suceder. Sobre o 1º de maio de 1895, Galdós afirmou: "Estamos sobre um vulcão, ou seja, estamos sobre o 1º de maio, dia tremendo, no qual a greve universal dos operários há de colocar no terreno prático o problema mais grave do século: a questão social, a luta entre o capital e o trabalho17".

Os intelectuais de 98 eram bem jovens nesse período de desenvolvimento capitalista intenso e de surgimento do socialismo. Maeztu escrevera sobre o capitalismo basco e se declarara socialista. Azorin era simpatizante do anarquismo. Unamuno, em 1891, já dono da cátedra de grego na Universidade de Salamanca, ainda se identificava com o socialismo e continuava escrevendo no jornal La lucha de clases de Bilbao.

Esses autores, que se manifestavam amiúde através da imprensa, assistiam com entusiasmo aos conflitos sociais do País Basco e da Catalunha.

Por ocasião da episódio de Cuba, os anarquistas e socialistas se manifestaram contra a guerra e denunciaram a injustiça em torno do serviço militar obrigatório que só penalizava os pobres. Os jovens intelectuais também fizeram críticas radicais ao sistema colonial espanhol. Maeztu, ainda que manifestasse um certo sentimento patriótico em 1898, ante a intervenção yankee na guerra, escreveu muitas páginas condenando o envio de gente do povo para lutar em Cuba. Unamuno criticou fortemente o vão patriotismo e defendeu o direito de independência dos cubanos, portorriquenhos e filipinos. Era anticolonialista e anti-racista. Discutiu o assunto da guerra em vários artigos publicados no La lucha de clases, de Bilbao.

Ao mesmo tempo que os conflitos sociais foram crescendo, sobretudo nas regiões mais industrializadas como Catalunha e País Basco, nelas também começaram a ocorrer movimentos nacionalistas periféricos que se insurgiam contra o poder central. O quadro espanhol mostrava-se bastante complicado no início do século XX.

Carlos Blanco Aguinaga, referindo-se à geração de 98, comenta que, a partir do início do século XX, vários de seus membros derivaram para um pessimismo vital que foi se acentuando ao longo dos anos. Baroja, Azorín e Maeztu foram assumindo posições políticas cada mais reacionárias. 18É muito provável que a derrota da Espanha na guerra tenha tido um impacto negativo sobre esses homens.

Comentando o pessimismo cada vez mais acentuado de Pio Baroja, Antonio Elorza associa essa postura ao impacto do "Desastre".19 A evolução ideológica da "geração de 98" era impressionante. Quase todos, exceto o poeta Antonio Machado e Valle Inclan, aliás os que menos se envolveram com a política e mais se dedicaram à questão estética, abandonaram suas primeiras idéias. Vários apoiaram direta ou indiretamente o franquismo.

Azorín criticava Unamuno por não ter mais fé no socialismo. Ele e Baroja faziam manifestações explosivas na imprensa contra militares, políticos e curas.

Baroja teve ambições políticas. Candidatou-se a cargos públicos mas não foi bem-sucedido, e por isso passou a ser contra a atividade política. Azorín, que criticara Unamuno pela sua falta de firmeza no apoio ao socialismo, foi deputado pelo Partido Conservador e ministro da Instrução Pública em governos conservadores; apoiou o republicanismo durante a 2ª República, mas acabou se arrependendo. Tornou-se conservador e chegou a elogiar Franco.

A mudança política de Masztu foi mais radical. Ao aceitar ser embaixador de Primo de Rivera na Argentina, abjurou seu livro Hacia outra España, escrito em 1899. Passou a teorizar sobre a hispanidad numa perspectiva católica e imperial. Com o advento da 2ª República, certa vez comentou o seguinte sobre esse livro que escrevera: "Todas as suas páginas merecem ser queimadas, mas o título expressa o ideal de 98 e o de agora." A "outra Espanha" era a da Ação Católica ou a da Renovação espanhola? –indaga Federico Alvarez, autor do texto Evolução política da geração de 98.

Com o desenrolar dos acontecimentos políticos na Espanha, Maeztu tornou-se ideólogo da extrema direita. De socialista, crítico do capitalismo, acabou como um dos fundadores do partido de extrema direita "Renovação espanhola", e teceu loas ao franquismo. Ortega y Gasset havia dedicado à obra Meditaciones de Quijote (1914) a Maeztu, mas eliminou a dedicatória na segunda edição porque o companheiro passara de armas e bagagens para o campo da monarquia e da ditadura de Primo de Rivera. Quando foi a Buenos Aires, Ortega mandou pedir que o embaixador Maeztu não fosse assistir à sua conferência - conta melancolicamente o próprio Maeztu.20

Unamuno, cabe lembrar, viveu uma crise espiritual que o direcionou para a metafísica. Mas não deixou de manifestar-se e tomar partido diante da política nacional. Foi contra a ditadura de Primo de Rivera e, por isso, sofreu prisão e exílio por 7 anos; voltou com honras e glórias, mas não se sabe se voltou republicano. Em 1931, já na posição de reitor de Salamanca, atacou os republicanos e elogiou o regime da Restauração. Encontrou-se com Primo de Rivera e assistiu a uma manifestação da Falange. O triunfo eleitoral da Frente Popular em 1936 já fazia vislumbrar o espectro da guerra; em 18 de julho deu-se a sublevação do exército contra o poder legítimo da República: Unamuno se juntou publicamente aos militares sublevados e aceitou ser conselheiro da Câmara Municipal salmantina. Além de calar-se ante o assassinato de um amigo e colega, presidiu o comitê depurador de professores e intelectuais da Província. Justificou a sublevação "para defender nossa civilização cristã ocidental que formou a Europa, contra a ideologia oriental destrutora".

Logo depois, foi destituído do cargo de reitor e submetido a prisão domiciliar. Morreu em dezembro de 1936. Nos últimos dias de sua vida repudiou o franquismo.

Valle Inclan, ao contrário, partiu do carlismo mas acabou se encantando com os revolucionários mexicanos e russos. Na Espanha, identificou-se com a República e com a Frente Popular. Antonio Machado, formado num ambiente liberal laico, não manifestava interesse pela política mas, no final, assumiu compromisso com a Frente Popular durante a Guerra Civil.21

Como explicar tantas transformações? Cabe lembrar que nesse ínterim os conflitos sociais e políticos se aguçaram na Espanha. Nas mesmas regiões onde o socialismo ganhava terreno, fizeram também violenta irrupção os autonomistas catalãos, bascos e galegos. As greves se sucediam nessas localidades, e em 1917 ocorreu a greve geral com duração de uma semana. A repressão resultou em 80 mortos, 150 feridos e 2.000 detidos. A influência da Revolução Russa entusiasmava a classe operária e seus líderes. Nas manifestações de apoio aos grevistas presos ouviam-se os "Vivas à Rússia". Enquanto isso os defensores e simpatizantes da ordem se apavoravam.

Com o advento da República, alguns representantes de 98 se uniram em torno dela. Mas quando os partidos de esquerda se situaram no comando do movimento republicano, houve reação dos intelectuais. Baroja passou a escrever impropérios contra a República. Logo depois, Unamuno fez o mesmo. Depois de um alarde antifranquista, respaldou, em 1936, a sublevação militar e depois se arrependeu. Nas várias fases de sua vida, caracterizou-se pelo pessimismo.22

Aliás, o pessimismo foi uma das principais características da geração de 98. Na juventude eram pessimistas em relação ao statu quo e, posteriormente, quanto a qualquer possibilidade de mudança significativa. Acabaram marcados pelo ceticismo teórico e vital. Cabe aqui lembrar, citando William James, que o pessimismo é essencialmente uma enfermidade religiosa porque implica uma exigência absoluta e integral de sentido que nunca encontra nenhuma resposta satisfatória. O resultado do pessimismo consistiu, como observa Galán, numa sedução tanática pelo nada. Como na Espanha, às vésperas da Guerra Civil, não havia espaço para o nada, vários intelectuais da "geração de 98" acabaram navegando para a outra margem do rio, a margem direita onde melancolicamente terminaram seus dias, contemplando o vazio da existência ou lutando do outro lado da trincheira, como foi o caso de Maeztu. Este autor sugeriu que seus escritos poderiam ser queimados. Não foi o único na história a renegar o que escreveu. Mas os intelectuais não renegam seus escritos impunemente, pois a história acaba por resgatá-los.
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-90742003000200003&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt

Revista História - UNESP

sábado, 26 de setembro de 2009

Revolução à cubana


Estudos analisam influência da ilha de Fidel sobre a esquerda brasileira e a luta armadaCarlos Haag
Edição Impressa 119

Pesquisa FAPESP - © Hélio de Almeida


Já houve um tempo no Brasil em que sonhar com uma cuba libre era bem mais do que misturar duas colheres de sopa de suco de limão, uma dose de rum, meia lata de Coca-Cola, tudo batido com alguns cubos de gelo. “Dificilmente seria possível tratar da história das organizações comunistas brasileiras nos anos 1960 sem destacar o papel da revolução cubana na elaboração do programa político dos comunistas brasileiros daquele período”, avalia o historiador Jean Rodrigues Sales, da Unicamp, autor da recém-defendida tese de doutorado “O impacto da revolução cubana nas organizações comunistas brasileiras”.

“A leitura da revolução feita pelo livrinho de Debray, com a metáfora da mancha de óleo se espalhando pelo país, é uma grosseira falsificação da revolução cubana. A proposta do foco foi deletéria para as esquerdas de Nuestra América. Derramada sobre uma juventude esquerdista sem muitas margens legais de atuação, impaciente com a ineficiência notória dos velhos partidos comunistas, com suas derrotas seguidas, teve efeito de fogo sobre gasolina: incendiou imaginações, estimulando assaltos sem apoio e sem fundamento, caminho certo para a derrota”, analisa Reis. Efetivamente, Havana acabou por se transformar no pomo da discórdia entre as esquerdas brasileiras, em especial após o golpe, quando vários setores da esquerda responsabilizaram a política inepta do PCB pelo sucesso dos militares. “Nesse momento, o modelo revolucionário cubano foi visto por muitos militantes como um exemplo que poderia servir no Brasil, principalmente no uso da luta armada contra a ditadura”, diz Jean.

Centenas dentre eles resolveram deixar o partido para formar organizações de esquerda revolucionárias, que tinham em comum o uso do foquismo como motor de seus projetos políticos. O PCdoB (Partido Comunista do Brasil), constituído em 1962 como dissidência do PCB (que passou então a se chamar Partido Comunista Brasileiro), igualmente se interessou por Cuba, mas na contramão, apresentando a revolta de Fidel como um exemplo da falência dos partidos comunistas ligados a Moscou e optando pelo modelo chinês. Ainda assim, alguns historiadores, como Jean, vêem no ápice da ação armada do PCdoB, a guerrilha do Araguaia, não uma luta nos moldes maoístas (a guerra popular prolongada), mas um inusitado exemplo de foquismo à cubana. “Mesmo fazendo a defesa da guerra popular e criticando o foquismo, o PCdoB acabou, no Araguaia, tendo uma prática foquista. Ou seja, não houve trabalho político anterior à luta e quando esta começou os militantes ficaram totalmente isolados. Com a diferença do cenário (o campo em vez da cidade), o partido padeceu do mesmo isolamento dos grupos urbanos, que ele criticava por adotarem o foquismo como inspiração”, explica o pesquisador.

Mas, falando mal ou bem, Cuba passou a ser o centro de referência do debate que originou a chamada Nova Esquerda brasileira. Fidel, por sua vez, procurou por parceiros os mais diversos no Brasil. Depois do fracasso das Ligas e do advento da ditadura, depositou suas esperanças no exilado Leonel Brizola e, com o fracasso deste, a partir de 1967, voltou-se para a ALN (Aliança Libertadora Nacional) de Marighela, um dissidente do PCB. “Então as esquerdas ficaram socialmente isoladas, disseminou-se uma crise sem precedentes de representação dos partidos tradicionais de oposição”, observa Marcelo Ridenti, sociólogo da Unicamp. A partir dos anos 1970, Cuba receberá levas de militantes para serem treinados como guerrilheiros, vindos, na sua maioria, da ALN, da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária) e do MR-8 (Movimento Revolucionário 8 de Outubro). Mais do que nunca vigorava o caráter mítico da revolução cubana, a “vitrine revolucionária”.

“Esse mito (não falo no sentido de mentira) era muito mobilizador. Ser chamado a Cuba para treinar dava à organização uma legitimação forte diante dos outros grupos de esquerda brasileiros. Embora a ALN tenha sido escolhida pelos cubanos como a mais capacitada para dar início ao processo revolucionário no Brasil, Marighela, o seu líder, jamais aceitou que a contrapartida ao apoio fosse a interferência dos cubanos nos rumos da revolução brasileira”, adverte Denise Rollemberg, historiadora da Uerj. “Outro aspecto a ser mencionado é a transfiguração do caráter político da proposta revolucionária em uma proposta ética-moral. A revolução tinha que ser feita, menos porque havia condições para tanto, mas porque era justa”, analisa Reis. “Esta concepção, mais tarde, dificultaria a adoção da autocrítica ou a opção por um recuo, mesmo tático, visto como covardia.” Sem ponto de retorno, militarizados e crentes de que Fidel efetivamente vencera Batista apenas com seu romântico grupo de guerrilheiros, os militantes partiram para a ação armada sem condições mínimas.

“As organizações que tiveram seus quadros treinados na ilha só se beneficiaram disso de forma simbólica, pois os companheiros que ficaram no Brasil sentiam-se motivados imaginando seus colegas com os melhores instrutores de guerrilha”, diz Ferreira. Infelizmente, a verdade era bem diversa. “Esses cursos, além de deficientes, eram voltados para luta no campo, a guerra de guerrilhas. A realidade brasileira acontecia nos centros urbanos e, assim, esse treinamento se distanciava do que era necessário, naquele momento, na luta que ocorria no Brasil”, observa Jean.

Ferreira lembra ainda que o índice de mortes dos treinados em Cuba era maior do que os que ficaram no país. “Agentes infiltrados avisavam da chegada de guerrilheiros, que eram logo capturados pelos órgãos de repressão. Considerados pelo regime como ‘de alta periculosidade’, foram os mais perseguidos pela sanha policial.” José Dirceu, que treinou em Cuba (ao lado da atual ministra Dilma Roussef, aliás), apelidou os cursos de “vestibular para o cemitério”. Apesar de tudo, ele teve sorte. Dos 28 militantes do grupo dissidente da ALN, o chamado Grupo da Ilha, que voltaram ao Brasil de Cuba, o ex-chefe da Casa Civil é um dos seis únicos sobreviventes. Será que a passagem por Cuba foi tão fundamental para o modus operandi do ex-deputado, como quer a grande imprensa?

“Não há por que afirmar que uma experiência vivida há mais de 30 anos possa ser tão decisiva nas tomadas de posição de Dirceu ou de outros membros do atual governo que passaram por Cuba. Muita coisa aconteceu na vida desses militantes, da volta ao Brasil até a chegada do PT à Presidência em 2002”, avalia Ferreira. Afinal, lembra o pesquisador, o PT foi criado quando a luta armada já não estava mais na ordem do dia, e sim a redemocratização, que fez com que esses antigos militantes dirigissem seu foco para disputar eleições, exigir a abertura do regime etc.

“Creio que as culturas políticas de esquerda colaboraram para forjar a sociabilidade que existe hoje, em especial nas elites políticas, intelectuais e artísticas, por mais contraditório que isso possa parecer. Mas vale lembrar que o passado não é exclusivo dos membros deste governo. O prefeito José Serra, por exemplo, deve também parte de sua capacidade administrativa a sua militância na Ação Popular, que se aproximou de Cuba e depois da China”, lembra Ridenti. Reis é mais enfático: “O que prevaleceu em muitos dirigentes do PT foi a assimilação de comportamentos da elite brasileira, e isso não se aprendeu em Cuba, mas no treinamento realizado em Brasília”, ironiza o historiador.

Disney - Para ele, boa parte das esquerdas ainda se relaciona com Cuba como se ela fosse a “Disney da esquerda”. “Vão fazer turismo ideológico, sem nenhum espírito crítico, condicionadas mais por um ressentimento visceral, em parte justificável, contra os Estados Unidos, do que por um conhecimento de causa adequado das condições e da dinâmica da revolução cubana”, alerta. Ridenti lembra, com propriedade, a citação de Max Weber, em A política como vocação: “O resultado final da atividade política raramente corresponde à intenção original do agente e, freqüentemente, a relação entre o resultado final e a intenção primeira é simplesmente paradoxal”. Afinal, cuba libre, em Cuba, se chama apenas “cuba” e há tempos não é a bebida favorita da ilha, tendo sido criada no início do século passado, quando Havana e Washington (daí a Coca-Cola) andavam às boas, contra a Espanha.

Revista FAPESP
De Leonel Brizola a José Dirceu, passando por Carlos Marighela e Luís Carlos Prestes, a esquerda (e, por algum tempo, antes do alinhamento cubano com a antiga União Soviética (URSS), mesmo setores à direita da política nacional festejaram Fidel Castro) admirou o grupo de “barbudos” que, em 1959, pôs fim à ditadura de Fulgêncio Batista e se espelharia neles para fazer também aqui uma revolução. Afinal, o próprio Che Guevara não escrevera que “o Brasil é realmente um lugar para se travar uma batalha e devemos considerar sempre, em nossas relações com os países americanos, que somos parte de uma única família”?

Isso ganhou ainda mais força em 1961, quando Cuba se declarou socialista e passou a sofrer uma intensa pressão dos Estados Unidos. “Nessa situação, interessava imensamente aos cubanos que outras revoluções eclodissem no continente para que diminuísse a pressão que Washington fazia sobre a ilha. Ao mesmo tempo, as esquerdas nacionais, anteriores ao golpe, se apoiavam no exemplo de Cuba, que aparecia como um caminho revolucionário vitorioso nas condições latino-americanas”, explica o pesquisador.

Assim, antes do golpe de 1964, lembra Jean Sales, já havia setores da esquerda que queriam seguir o caminho da luta armada, como, por exemplo, as Ligas Camponesas, grupo surgido em 1955, em Pernambuco, dirigido por Francisco Julião, que, se de início desejavam uma reforma agrária dentro dos limites legais, após a passagem de alguns de seus líderes por Cuba, entre 1960 e 1961, modificam o seu projeto político, para incluir um possível enfrentamento armado. Entre 1960 e 1961, alguns de seus membros foram a Cuba para um treinamento guerrilheiro. “Os campos brasileiros foram desbaratados pela polícia, mas sua existência serve para chamar a atenção para a presença de propostas de enfrentamento armado que antecedem o golpe”, observa.

Massas - O PCB (então chamado partido Comunista do Brasil) de Prestes saudou também com entusiasmo a vitória de Fidel, mas de forma distorcida, já que vista como a corporificação da teoria apoiada pelos comunistas de que uma revolução democrático-burguesa havia antecedido a chegada ao socialismo e o papel de destaque nesse sucesso caberia ao Partido Comunista Cubano. “Depois da revolução cubana, o questionamento sobre a necessidade de um partido coordenando as massas chegara ao ápice. Para toda uma geração que acabara de ingressar na militância não fazia sentido acreditar que a revolta do povo só ocorreria sob a tutela de uma direção política”, observa André Lopes Ferreira, historiador da Unesp.

“Cuba era o exemplo mais citado pelos que discordavam dos partidos comunistas tradicionais, ligados à URSS, pois a revolução fora iniciada por um grupo de guerrilheiros, sem apoio do partido cubano, prova de que a direção política era dispensável diante do desejo de transformação.” O PCB não via com bons olhos a luta armada e rejeitava o chamado “foquismo” castrista, ou seja, dar prioridade à luta armada, iniciada por um pequeno grupo, cujas ações criariam as condições objetivas para a tomada do poder. A revolução, segundo esse postulado, começaria com um foco guerrilheiro e se alastraria, escreveu Régis Debray em Revolução na revolução?, livro em que, diz o historiador Daniel Aarão Reis, “ele exacerbou o papel da vanguarda e obscureceu as complexas forças que deram a vitória à luta em Cuba”.

Revista FAPESP

terça-feira, 14 de abril de 2009

Cuba de quintal à ameaça aos Estados Unidos

A ilha localizada no mar do Caribe viu sua população nativa ser dizimada, enfrentou a dominação espanhola e a intervenção norte-americana até aderir ao sistema socialista, após a Revolução Cubana de 1959

POR MARIA TERESA TORÍBIO B. LEMOS

Na página ao lado: Fidel Castro discursa em Washington, em 15 de abril de 1959 (à esquerda); Raúl Castro e Che Guevera, em Cuba, 1958 (à direita) POLÍTICA FUNDO: SHUTTER STOCK / FOTOS:



Pintura da ilha de Cuba feita pelo cartógrafo holandês Johannes Vingboons (1616-1670)

O arquipélago cubano, situado entre o Golfo do México, o Mar das Antilhas (Caribe) e o Oceano Atlântico, distante apenas 180 quilômetros do Estado norte-americano da Flórida, abrange as ilhas de Cuba, Pinos e cerca de 1.600 ilhotas. Cuba é a maior das ilhas, com uma superfície de 110.992 km². A capital, San Cristóbal de la Habana, foi fundada em 25 de julho de 1515 por Diego Velázquez (1599-1660), primeiro governador da ilha.

Desde o século XVI, Cuba vem desempenhando relevante papel na história americana - antes pela sua posição estratégica, como núcleo irradiador da conquista espanhola, e, a partir da Revolução Cubana (1959), pelas posições adotadas em relação aos Estados Unidos. Descoberta por Cristóvão Colombo (1437-1506) em sua primeira viagem, em 27 de outubro de 1492, a ilha de Cuba recebeu primeiramente o nome de Juana, em homenagem a Juan de Castilla, herdeiro do trono espanhol que morrera em 1487. A partir daquela data, o território teve várias outras denominações, prevalecendo a de Colba, nome nativo, e registrado como Cuba, por Colombo, em seu Diário de Navegação. A procedência desse nome indica os topônimos indígenas coabaí ou cubanacan.

Naquela viagem, Cristóvão Colombo explorou parcialmente o litoral norte da ilha. Na segunda viagem, dirigiu-se para o sul em uma expedição de reconhecimento do litoral, quando encontrou a ilha de Pinos, que recebeu o nome de San Juan Evangelista. Ao atingir a ilha de Cuba, Colombo imaginou ter descoberto um continente. Para configurar a descoberta de terra firme, redigiu uma ata que foi assinada pela tripulação de sua nau, confirmando ter chegado à Ásia. Esse engano foi desfeito com a viagem de circunavegação realizada em 1508, por Nicolas de Ovando (1460-1518).

EXPLORAÇÃO E EXTERMÍNIO DA POPULAÇÃO NATIVA

Em 1512, Diego Colombo (1480-1526), filho primogênito de Colombo, encarregou o comandante Diego Velázquez da conquista e exploração da ilha. Velázquez encontrou forte resistência indígena liderada pelo cacique Hatuey, que já se confrontara anteriormente com os espanhóis no Haiti. Após sangrenta batalha, Hatuey foi derrotado e queimado vivo por ordem de Velázquez.

A produção de tabaco e a economia açucareira assumiram papel de destaque na reserva cubana

A colonização foi brutal, seguindo os mesmos mecanismos da conquista. Os grupos indígenas tainos e os siboneyes, que se encontravam em Cuba, originários da Flórida, foram submetidos a trabalhos compulsórios e escravizados até a extinção.

Após a etapa da conquista, a ilha de Cuba, centro irradiador da conquista, além de base e escala para as frotas que faziam o comércio entre a Espanha e o Novo Mundo, foi beneficiada por algumas décadas do apogeu produzido pela exploração do ouro de lavagem. No final do século XVI, a maior ilha das Antilhas foi perdendo a sua expressão econômica. Tornou-se local de piratas, bucaneiros e flibusteiros (piratas do mar das Antilhas), entre outros aventureiros que vinham para o Novo Mundo.

Batalha de Santo Domingo na versão do pintor polonês January Suchodolski (1797-1875)

ECONOMIA E MÃO-DE-OBRA NEGRA

Em meados do século XVI, com o esgotamento dos metais preciosos, a produção do tabaco e a economia açucareira assumiram papel de destaque na reserva cubana, prosseguindo até o século XVIII. Desenvolvido desde 1610, o comércio do tabaco assumiu grandes proporções a partir do século XVIII. Posteriormente, com a produção açucareira, a ilha readquiriu sua importância econômica.

O lucro produzido pelas vegas (terras plantadas com tabaco) alertou a Espanha para a riqueza da produção. E, em 1716, a metrópole decretou a Lei do Estanco, monopólio sobre a produção do tabaco. Com aquelas medidas restritivas originadas pelo estanco sobre o comércio do tabaco, os vergueiros (proprietários de tabaco) ficaram impedidos de vender livremente sua produção. Revoltados, iniciaram movimentos de rebelião que levaram seus líderes à forca, em 1723, enquanto outros pequenos produtores se transferiram para o Oriente da Ilha e Pinar del Rio, longe da fiscalização, para fugir do monopólio real.

Os nativos da ilha foram submetidos a trabalhos compulsórios e escravizados até a extinção


O comércio realizado pelas companhias espanholas, especialmente a Compañia de Habana, trouxe grande riqueza e poder aos proprietários de terra da ilha, principalmente aos comerciantes de tabaco e açúcar, além do tráfico de escravos africanos, importados para as plantations do Novo Mundo.

No século XVIII, Cuba se beneficiou da revolução negra no Haiti, que paralisou a produção de açúcar e destruiu os engenhos. Além de ocupar a posição desfrutada anteriormente pelo Haiti, Cuba incorporou a experiência técnica dos refugiados haitianos que entraram em seu território, beneficiando, dessa forma, os produtores e comerciantes locais. Graças à mão-de-obra negra, a economia açucareira tornou-se a principal riqueza do país.

Os escravos negros da África chegaram ao Novo Mundo junto com a expedição de Colombo. A nau de Pedro Alonso Niño (14681505), em 1502, trazia negros escravos para a exploração das novas terras. Na medida em que a colonização avançava e a resistência indígena atravancava a exploração de metais preciosos, o recurso era a mão-de-obra negra, barata e abundante. Com a eliminação dos indígenas, o tráfico se intensificou. Além de atender aos proprietários, Cuba também atuava como mercado revendedor de escravos para as demais colônias da América.

AS LUTAS PELA EMANCIPAÇÃO

Cuba durou cerca de quatro séculos. As ondas revolucionárias que assolaram as colônias espanholas na América também atingiram Cuba. A história das lutas de independência da ilha é marcada pela violência, intrigas internacionais e intervenções dos EUA. Sob a influência dos movimentos revolucionários das colônias espanholas, um grupo de criollos cubanos e espanhóis de tendência liberal iniciou um movimento conspiratório contra o domínio colonial, que foi sufocado e seus líderes condenados à morte.

Entre 1834 e 1838, diversas conspirações foram duramente rechaçadas pelas tropas comandadas pelo general Miguel Tacón y Rosique (1777-1855). De 1838 até 1868, os movimentos revolucionários se tornaram menos freqüentes, cedendo lugar às idéias anexionistas. Apoiados por espanhóis liberais e mesmo militares e políticos venezuelanos radicados em Cuba, os criollos enriquecidos passaram a defender a anexação de Cuba aos Estados Unidos.

Retrato do espanhol Diego Velázquez de Cuéllar (1465-1524), conquistador de Cuba

Vários líderes favoráveis à anexação de Cuba aos Estados Unidos, como Narciso López (1797-1851), militar e político venezuelano residente em Cuba, Joaquín de Agüero (1816-1851), de Porto Príncipe, e Isidoro Armenteros, de Trinidad, foram derrotados. Os dois últimos foram fuzilados e Narciso López, condenado ao suplício do garrote. Outros revolucionários foram supliciados e garroteados.


Nos Estados Unidos, os Estados do norte, contrários à escravidão, eram desfavoráveis à idéia da anexação de Cuba, pois acreditavam que o apoio a Cuba reforçaria a posição dos Estados escravistas do Sul. Os nortistas estavam mais preocupados com os conflitos internos de seus Estados às vésperas da Guerra de Secessão (1861-1865), que envolvia a escravidão como problema crucial.

As rebeliões na ilha recrudesceram após 1868, quando Carlos Manuel de Céspedes y Borja (1819-1874), proprietário de engenho de açúcar da região oriental de Cuba, iniciou a rebelião conhecida como A Guerra dos Dez Anos. Foi uma revolução sangrenta, na qual o número de mortos foi muito grande. O movimento contou com o apoio dos laborantes da região ocidental da ilha, controlada pelos espanhóis em Havana.

Em 10 de abril de 1869, em Guaimáro, reunidos em assembléia nacional, os revoltosos reconheceram a república em armas, ocasião em que indicaram Manuel Céspedes como presidente dos revolucionários. Os rebeldes receberam apoio informal do México, da opinião pública norteamericana e especialmente do governo do General Ulysses Grant (1822-1885), comandante-emchefe das tropas nortistas durante a Guerra de Secessão e 18º presidente dos Estados Unidos, entre 1868 e 1876.

A reação espanhola foi imediata. Tropas foram enviadas à ilha e, em 1873, Manuel Céspedes foi deposto. Os rebeldes ainda resistiram por mais alguns anos, mas a Espanha retomou o controle da ilha, em 1878.O período posterior, entre 1878 e 1895, conhecido como trégua profunda, caracterizou-se pelo predomínio do Partido Autonomista, que divergia substancialmente dos rebeldes separatistas. O Partido acreditava alcançar maior autonomia para o país de forma pacífica. Mas devido às dificuldades de interlocução com a Espanha, aquelas idéias pacifistas não vingaram.


No topo, imagem sobre a independência de Cuba, publicada na revista satírica espanhola La Flanca, em 1873; acima, a Rough Riders, cavalaria voluntária dos Estados Unidos, ataca em San Juan, em Cuba



O PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA

Apesar dos sucessivos fracassos, as idéias revolucionárias continuavam a dominar os insurgentes. Em 1887, José Martí (1853-1895) tornou-se o principal representante dos independentistas cubanos exilados nos Estados Unidos. Em 1891, Martí organizou o Partido Revolucionário Cubano e aliou-se ao líder revolucionário Máximo Gómez (1836-1905), refugiado em Santo Domingo, atualmente capital da República Dominicana, e conseguiu que ele aceitasse chefiar a invasão a Cuba. A cidade de Nova York tornouse o centro das conspirações. Lá, reuniam-se os cubanos emigrados para planejar a invasão. Martí também angariou junto aos companheiros recursos para o movimento.

A rebelião começou em Cuba, com o Grito de Baire, e a seguir com o Manifesto de Monticristi, firmado por Martí e Gómez, ainda em Santo Domingo. Na ilha, juntaram-se aos revolucionários comandados por José Maceo (18491896) e seu irmão, que voltou da Costa Rica para a revolução. Em Dos Rios, logo após o início da rebelião, José Martí foi ferido mortalmente em uma das batalhas.

A morte daquele líder e a violenta repressão espanhola, que causou mais de 50 mil vítimas, enfraqueceram os revoltosos. Diante da gravidade da situação, o governo espanhol concedeu, em 1897, autonomia a Cuba e Porto Rico. Os revolucionários recusaram essa concessão e os conflitos recrudesceram. Cuba só se tornou independente da Espanha em 1898.

Imagem de 1960, das bandeiras de Cuba e dos Estados Unidos, simboliza o exílio cubano. Depois da revolução de 1959, muitos habitantes da ilha foram para o território norte-americano em busca de outras alternativas políticas

A INTERVENÇÃO NORTE-AMERICANA

Os comerciantes e os proprietários das fazendas de açúcar norte-americanos, residentes em Cuba, ficaram temerosos com os prejuízos causados pelos incêndios e devastações nas plantações de cana-de açúcar. Apoiados pela opinião pública norte-americana, aceitaram as medidas de intervenção dos Estados Unidos na ilha.

Em 1899, a ilha de Cuba foi ocupada pelos norte-americanos, que nela permaneceram até 1902. Em 1901, foi redigida a primeira constituição cubana, na qual os EUA incorporaram a Emenda Platt, que facultava aos Estados Unidos a intervenção na ilha para a preservação de sua independência.

Do início do século XX até o primeiro governo de Fulgencio Batista (1901-1973), entre 1940 e 1944, sucederam-se, no governo cubano, vários presidentes apoiados pelos Estados Unidos. Na qualidade de nação dependente e periférica, Cuba foi considerada o quintal dos EUA, cidade de jogos, cassinos e prostituição.

Apesar daquela situação, o primeiro governo de Batista foi considerado bom, devido às obras públicas, equilíbrio das finanças, rigor e ordem social. A economia açucareira registrou índices favoráveis no mercado internacional. Já os governos seguintes, de Grau San Martin (1887-1969), entre 1933 e 1934, e, novamente, entre 1944 e 1948, e de Prío Socarrás (1903-1977), de 1948 a 1952, decepcionaram os cubanos pela ausência de um programa político.

Quartel Moncada, onde Fidel e mais 165 homens tentaram derrubar Fulgencio Batista do poder, em julho de 1953


FIDEL ENTRA EM CENA

Fulgencio Batista foi reeleito em 1952, com o apoio do capital norte-americano e dos ricos proprietários cubanos. Ao contrário de sua primeira gestão, seu governo apoiado por forças poderosas evoluiu para uma ditadura cruel e corrupta. Insatisfeita com a corrupção, a juventude universitária tentou derrubar o governo de Batista. Chefiados por Fidel Castro, em 1953, os estudantes tentaram tomar o quartel de Moncada. No confronto, morreram 165 estudantes. Fidel Castro e seu irmão Raúl, presidente do Conselho de Estado da República de Cuba desde fevereiro de 2008, entregaram-se e foram presos. Condenados a 15 anos de prisão, os dois irmãos foram colocados em liberdade graças à pressão popular.

Em 1956, acompanhado por 82 homens, Fidel Castro, então refugiado no México, invadiu a ilha de Cuba. Mas a maior parte dos combatentes foi morta por um destacamento militar da ditadura de Batista. Fidel e seus companheiros, entre eles o argentino Che Guevara (1928-1967), refugiaramse em Sierra Maestra. Lá, iniciaram um movimento de guerrilha que resultou na Revolução Cubana, em 1959.


A REVOLUÇÃO CUBANA

Antes de derrubar o presidente Fulgencio Batista e chegar ao poder, em 1959, Fidel Castro enfrentou violenta repressão por parte do governo e chegou até a ser dado como morto

Fidel Castro liderou o movimento popular que tirou o presidente Fulgencio Batista do poder e deu início a um novo governo, em 1959. Em 1952, Fulgencio Batista instalou uma das mais terríveis ditaduras que Cuba conhecera. O pretexto político para o golpe militar foi libertar o país do governo do então presidente Carlos Prío Socarrás, acusado de corrupção, além do medo de que a oposição o impedisse de assumir o poder.

A juventude universitária, apoiada por amplos setores sociais, rebelouse contra a corrupção acobertada pela ditadura, além das torturas aos presos políticos. A tentativa chefiada por Fidel Castro de tomar o quartel de Moncada, em 26 de julho de 1953, foi o estopim da revolução.

O confronto foi sangrento, marcado pelo massacre de 165 estudantes. Após o fracasso do ataque, Fidel Castro e Raúl, seu irmão, entregaram-se às autoridades e foram presos. Após serem condenados a 15 anos de prisão, Batista colocou-os em liberdade por pressão popular.

Acima, Fulgencio Batista; ao lado, Fidel Castro

A QUEDA DE BATISTA

Refugiado no México, Fidel Castro retornou a Cuba, em 1956, com uma expedição composta por 82 rebeldes para invadir a ilha e depor Batista. A invasão, realizada em 2 de dezembro daquele mesmo ano, foi desastrosa, tendo provocado violenta reação por parte das tropas do governo. O exército cercou os invasores e os metralhou, além de bombardear por terra e ar a comunidade de Alegría de Pío, no Oriente (província de Cuba até 1976). A maioria dos combatentes foi dizimada. Nessa ocasião, jornais cubanos chegaram a noticiar que Fidel Castro havia morrido em combate.

Os que sobreviveram, comandados por Fidel Castro, entre eles Che Guevara, refugiaram-se em Sierra Maestra, região cubana localizada na província de Oriente. Sierra é formada por uma cadeia de montanhas, sem estradas ou caminhos que facilitassem a comunicação. Os revolucionários se embrenharam em suas matas para organizar a resistência por meio de um movimento de guerrilha.

Em 1957, o movimento rebelde recebeu grande número de simpatizantes em diversas partes do país. No ano seguinte, a guerrilha ampliou sua ação. Em 1º de janeiro de 1959, Batista e sua família abandonaram Cuba e refugiaram-se na República Dominicana. Foi a vitória da Revolução Cubana.

Che Guevara em Santa Clara, Cuba, em 1959


O COMANDO DE FIDEL
Fidel Castro prometeu um governo civil para substituir a ditadura de Batista e também promover eleições no prazo de um ano. Em seus discursos, Fidel pregava a união de todos os cubanos, afirmando os princípios democráticos da revolução.

O nacionalismo marcou o período de 1959 e 1960, além do surgimento de um forte sentimento antiamericanista entre os revolucionários. O governo cubano firmou uma série de convênios com os países do Leste Europeu e acusou os Estados Unidos de dar asilo aos contra-revolucionários e de incentivar sabotagens contra Cuba.

As relações com os Estados Unidos se acirraram. Em 1960, Fidel Castro iniciou a política de nacionalização das empresas estrangeiras.

Foi o começo da fase socialista da Revolução. Em abril de 1961, teve início o ataque norte-americano à ilha, na praia de Giron, localizada na Baía dos Porcos.

A invasão fazia parte da Operação Magusto, e contou com a participação de mais de 1.200 exilados cubanos nos Estados Unidos, treinados e financiados pelo serviço secreto norte-americano. Os invasores foram derrotados pelas forças de Fidel Castro.



A APROXIMAÇÃO COM OS SOVIÉTICOS

Apesar da vitória contra os invasores, Cuba vivia aterrorizada pelas ameaças norte-americanas. Para evitar novos ataques, Fidel Castro se aproximou da União Soviética, contribuindo para radicalizar ainda mais as relações com os Estados Unidos. O clima da Guerra Fria se intensificou com a presença de navios soviéticos, em outubro de 1962, deslocandose para o Caribe. O temor de uma guerra nuclear dominou o mundo.

A malograda invasão à Baía dos Porcos consolidou o poder de Fidel. A reação dos Estados Unidos foi imediata. Em 1962, em Punta del Este, o presidente John F. Kennedy (1917-1963) decretou o isolamento diplomático de Cuba e pressionou a Argentina, México, Brasil, Equador, Chile, Bolívia e Uruguai a romperem relações com os cubanos.

Fidel, já como presidente de Cuba, em encontro da ONU, em setembro de 1960



Durante a Guerra Fria, a URSS tentou instalar mísseis em Cuba, mas os EUA efetuaram bloqueio naval na ilha e impediram que isso acontecesse

A VITÓRIA DA REVOLUÇÃO CUBANA

Apesar daquela iniciativa do governo norte-americano e do isolamento diplomático, a Revolução Cubana foi vitoriosa. Às vésperas das comemorações dos 50 anos da Revolução, Cuba ainda persiste no imaginário das nações em luta pela autonomia, como uma ilha que defendeu sua dignidade, revelando persistência, força e abnegação de um povo, sobretudo ao enfrentar por longos e duros anos o bloqueio econômico dos Estados Unidos e seus aliados.

A revolução transformou Cuba no símbolo de defesa dos ideais de liberdade contra o imperialismo e o sistema capitalista, representados pelos Estados Unidos. Desde o início de sua revolução até os dias atuais, a ilha sofre com as medidas restritivas norte-americanas, que do isolamento inicial continuou com um desumano e cruel bloqueio econômico.

BARACK OBAMA E EXPECTATIVA DE MUDANÇAS

A eleição de Barack Obama para a presidência dos Estados Unidos, em novembro de 2008, acena com expectativas de mudanças. Uma vitória que coincide com os 50 anos da Revolução Cubana. Obama reflete a esperança de mudanças profundas em relação à política externa dos Estados Unidos. Cuba e a América vivem atualmente essa expectativa.

A Revolução Cubana triunfou. O novo governo dos Estados Unidos vai se defrontar com uma nação em processo de mudanças. Fidel Castro se retirou do poder. Cuba não é mais a Cuba de Fidel, embora ele ainda viva. Fidel abandonou a cena política para entrar para a história como um mito. Mito da liberdade, que representa a realidade da luta de um povo contra a opressão.

Como líder latino-americano, Fidel encontrou adeptos e inimigos, mas, como mito, tornou-se invulnerável. Um mito não se desconstrói com facilidade, mesmo que seja uma representação.

A vitória de Barack Obama representa expectativas de mudanças entre as relações dos EUA com Cuba

REFERÊNCIAS

AYERBE, Luis Fernando. A Revolução Cubana. São Paulo : Editora da UNESP, 2004. PIERRE-Charles,Gerard - Genesis de la Revolución Cubana.Mexico, Siglo Veintiuno editores, 1996 CASTRO, Fidel. A história me absolverá. São Paulo, Alfa-Omega, 1992 EMIRO VALENCIA,Luis - Realidad y Perspectivas de la Révolución Cubana.Havana,casa de las América, 1961 ESCOSTEGUY, JorgeCuba Hoje. 20 Anos de Revolução.S.Paulo, Alfa-Omega, 1978 FERNANDES, Florestan. Da guerrilha ao socialismo. A revolução cubana. São Paulo, T.A. Queirós Ed.,1979 GUEVARA, Ernesto. A guerra de guerrilhas. São Paulo, Edições Populares, 3a ed.,1992 . 1982. Sierra Maestra: da guerrilha ao poder; passagens da guerra revolucionária. São Paulo, Edições Populares. EMIRO VALENCIA,Luis - Realidad y Perspectivas de la Révolución Cubana.Havana,casa de las América, 1961 BANDEIRA, Luis Alberto Moniz. De Martí a Fidel: a Revolução Cubana e a América Latina. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998.

Maria Teresa Toríbio Brittes Lemos é Pós-Doutora em História da América Latina pela Universidade de Varsóvia (Polônia), procientista da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), coordenadora-geral do Programa de Pós-Graduação em História da UERJ, coordenadora do Núcleo de Estudos das Américas NUCLEAS, autora de diversos livros sobre América Latina, como O Corpo Calado (2002), América Latina em Construção (2006), Religião, Violência e Exclusão (2006 ) e América Latina Identidade em Construção (2008).

Revista Leituras da Historia