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quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Revolução Francesa - Grande Medo


Charge francesa sobre o Grande Medo
(camponeses dominando um casal de nobres)
http://verhistoria.hdfree.com.br

A tomada da Bastilha pela população foi um ato de enorme importância, pois simbolizou o levante popular contra o Absolutismo. A revolta se alastrou pelo campo, propriedades foram saqueadas, castelos incendiados. Muitos nobres deixaram a França para se abrigar em Estados Absolutistas, como a Prússia e a Áustria. Era o Grande Medo, que assombrou a aristocracia entre julho e agosto de 1789.

Revolução Francesa


Oficial de justiça exibe a cabeça do rei em 21 de janeiro de 1793, conduzido à guilhotina em uma carruagem, última homenagem ao rei condenado.
Musée des Civilisations de I´Europe et de la Mediterranée, Paris, França.

sábado, 13 de agosto de 2011

Paris é uma festa

Em 7 de abril de 1831, o imperador Pedro 1º. abdicou da Coroa brasileira em favor de seu filho Pedro e zarpou para Paris. Após seis meses de badalações e tertúlias, viu nascer a filha Maria Amélia e moveu ofensiva militar contra o irmão, d. Miguel, rei de Portugal, a quem derrotou, deixando o trono livre para d. Maria 2ª.

ISABEL LUSTOSA

ESPECIAL PARA A FOLHA

Biblioteca Nacional de Portugal
Na caricatura de Daumier (1833), apoiado pelo rei da França, D. Pedro encara o irmão D. Miguel (à dir.)

No dia 7, fez 180 anos que o imperador d. Pedro 1º pisou pela última vez em terras brasileiras. A data, hoje esquecida, já teve tanta importância que chegou a ser cogitada como feriado da nossa independência. Era um dia tão significativo que Bernardo Pereira de Vasconcelos, grande personalidade da Regência, daria o nome de "7 de Abril" ao seu polêmico jornal. Talvez o baixo nível de muito do que publicou ali tenha contribuído para o rápido desprestígio da data.

Depois de um processo de desgaste que tivera entre suas razões o profundo envolvimento de d. Pedro com a sucessão da monarquia portuguesa, ele fora levado a abdicar da Coroa brasileira em nome de seu filho de cinco anos, que assim se tornava, automaticamente, o imperador d. Pedro 2º.

Não zarpou logo o ex-imperador.

Seu navio ficou no porto ainda por uma semana, durante a qual ele aproveitou para negociar todos os seus bens, até os mais modestos. A bordo, seus maus modos --especialmente no trato com d. Amélia-- e sua azáfama de dono de armazém cioso da contabilidade de seu comércio causaram espécie na tripulação inglesa do Warspite.

TIRANO Deixava para trás o Brasil, onde, ao longo de um reinado de dez anos, passara de herói da Independência, príncipe liberal indispensável à conservação da unidade do nosso território, a tirano que não respeitava as decisões da Assembleia e que estaria mais ocupado com os problemas do país do qual nos libertáramos do que com os nossos. Poucos dias depois da abdicação, um dos jornais que mais o combateram, o "Tribuno do Povo", do agitador republicano Francisco das Chagas de Oliveira França, publicaria a acusação, até então apenas murmurada, de que a imperatriz Leopoldina, pouco antes de morrer, teria recebido um literal pontapé do marido.

A imagem do imperador do Brasil também não parecia ser muito boa no exterior. O casamento com a segunda imperatriz, d. Amélia, aliás, só foi celebrado depois que 16 princesas europeias recusaram a mão ao pretendente, aterrorizadas com seus modos brutais. Sabia-se também na Europa que ele ostentava uma amante poderosa, a plebeia Domitila de Castro, elevada pelo imperador a marquesa de Santos.

A revolta dos batalhões estrangeiros que ensanguentou o Rio durante três dias, em 1828, traumatizara a cidade. Quando o mesmo cenário se repetiu, em março de 1831, na sequência dos combates entre portugueses e brasileiros que passou à história como a Noite das Garrafadas, o desapreço dos brasileiros por d. Pedro já era total.

DESEMBARQUE No entanto, ao desembarcar na Normandia, em junho de 1831, o agora duque de Bragança foi recebido com salvas de 21 tiros de canhão, batalhões em formação, banquetes e todas as honras devidas ao chefe de Estado que já não era. Cherbourg e o resto da França festejavam d. Pedro como o príncipe que implantara um regime constitucional em um novo país da América.

As notícias sobre a revolução ocorrida em Paris em julho de 1830, que derrubara Carlos 10º, e, com ele, a última encarnação do regime absolutista na França, serviram de estímulo aos que, no Brasil, combatiam d. Pedro, impulsionando o movimento que o levou a abdicar. Na França, no entanto, o imperador tropical representava justamente os ideais modernos do constitucionalismo e do liberalismo.

Ao contrário do irmão, d. Miguel, que promovia um reinado de terror em Portugal, d. Pedro era visto como um monarca à frente de seu tempo, pois dera uma constituição tanto aos "selvagens" do Brasil como ao obscuro Portugal, mergulhado no atraso e na superstição. Impulsionada pelas ações e pela boa imagem do ex-imperador, a causa de d. Maria 2ª, cuja coroa fora usurpada pelo tio, ia ganhando admiradores por toda a Europa e empolgava a imprensa liberal francesa.

REVOLUÇÃO Em Paris, no aniversário de um ano da revolução de julho de 1830, o rei Luis Felipe fez questão de comparecer a todos os festejos na companhia do ex-imperador. D. Pedro causou a melhor das impressões. Elegante, simpático e bom cavaleiro, por onde passava era saudado pela multidão. Se no Rio desconcertava os diplomatas europeus com seu estilo informal --sem atentar para as sutilezas do "vous" (pronome de tratamento formal) e do "tu" (informal)--, só fazia agradar numa França com sede renovada de democracia.

Lafayette, por exemplo, que andava meio em baixa, até gostou quando, ao ser apresentado a ele, d. Pedro não escondeu que era tiete do herói francês. A amizade que firmaram faria com que o próprio Lafayette mais tarde escrevesse a d. Pedro encaminhando-lhe o neto como voluntário para lutar na reconquista do trono de Portugal.

Aurélio de Figueiredo/Wikimedia Commons
Na tela de Aurélio de Figueiredo (c. 1890, d. Pedro 1º entrega a carta de abdicação

Dali em diante, d. Pedro seria constantemente mencionado nos jornais. Até o nascimento de sua filha, em dezembro de 1831, mereceria longa matéria na primeira página do "Le Moniteur Universel". Ali se descrevia em detalhes a reunião em torno do leito da duquesa de Bragança. Entre os convivas, estava o embaixador do Brasil, pois d. Pedro queria garantir para a filha caçula o direito de sucessão ao trono brasileiro.

Diz o jornal que, depois do nascimento da princesa Maria Amélia, foram todos comemorar num restaurante. Devem ter reproduzido ali, no frio do inverno parisiense, mais uma das memoráveis pândegas lideradas pelo maior dos pândegos que sempre foi o imperador. Do grupo, no qual não faltaram o Chalaça e o futuro marquês de Resende, Antonio Telles, é possível que também participassem o pintor Jean-Baptiste Debret e seu pupilo, Araújo Porto-Alegre, então recém-chegados à Europa.

MUNDANISMO Se, do ponto de vista da vida pública, o "séjour" parisiense de nosso primeiro imperador foi um sucesso, do ponto de vista mundano não foi diferente. Ele era visto em toda parte, na ópera, nas corridas, frequentando os melhores cabeleireiros, os melhores alfaiates, fazendo-se retratar pelo melhor gravador e, só para não perder o costume, conquistando corações.

Mas não seria o nosso d. Pedro 1º se tudo o que fizesse agradasse aos esnobes franceses. A condessa de Abrantes, que o vira menino em Lisboa, classificou seus modos como equivalentes aos de um "criado de quarto de uma casa sem muita classe".

Suas composições musicais, apresentadas no Teatro dos Italianos pela orquestra do grande Rossini (diante do qual d. Pedro quedara-se embasbacado), foram bombardeadas pelo jornal "La Mode". Disse o jornal conservador que "o imperador do Brasil faria melhor indo expulsar seu sanguinário irmão do trono de Portugal do que expulsando com sua música os pacatos frequentadores da ópera".

CAMPANHA MILITAR D. Pedro não demoraria a de fato partir para Portugal. Enquanto jogava bilhar com o rei dos franceses ou festejava com os brasileiros e portugueses radicados em Paris, captava os recursos para aquela campanha militar que então todos consideravam de sucesso improvável. A simpatia pela causa de d. Maria no resto da Europa e o apoio da imprensa e dos liberais não eram garantia de ajuda para a expedição. Inglaterra e França preferiam, mesmo que apenas oficialmente, manter-se neutras diante da situa­ção portuguesa.

D. Miguel contava com um Exército de 80 mil homens e com o apoio da população. D. Pedro era um completo estranho, que nunca mais voltara a Portugal e que, ainda por cima, tinha arruinado o país patrocinando a independência do Brasil. Quando deixou a França com destino a Portugal, em janeiro de 1832, mal conseguira juntar 7.000 homens e algumas poucas embarcações, muito mal equipadas. Faltavam a d. Pedro navios, armas e homens. Suas tropas contavam, no entanto, com um bom elenco de poetas e idealistas, entre os quais Almeida Garrett e Alexandre Herculano, além da garra do notável líder militar que o ex-imperador do Brasil haveria de se revelar.

Foi uma campanha heroica e, pela bravura que demonstrou nos campos de batalha, pelo comando firme que impôs aos seus Exércitos, d. Pedro alcançou a vitória em 1834, quando, afinal, pôde coroar rainha sua filha amada, Maria da Glória. Estava fechado o ciclo desse contraditório herói romântico moderno que morreria logo depois, em setembro de 1834, aos 36 anos, deixando fixada na história de Portugal uma imagem bem diversa da que deixou no Brasil quando abdicou, em 7 de abril de 1831
Folha de São Paulo

quarta-feira, 23 de março de 2011

A revolução de saias

Revolução Francesa : Partida das Mulheres do Mercado para Versalhes (1789)

A revolução de saias

A atuação das mulheres na Revolução Francesa foi marcada por uma marcha que forçou o rei a deixar Versalhes
por Tiago Cordeiro

Na história tradicional da Revolução Francesa, os grandes personagens são homens: Maximilien de Robespierre (1758-1794), Georges Jacques Danton (1759-1794), Jean-Paul Marat (1743-1793). Uma mulher brilha nos relatos, porém do lado da realeza: a rainha Maria Antonieta (1755-1793). Mas a participação feminina foi muito mais importante do que se imagina. "Sua presença na cena política foi tolerada e até incentivada no início da Revolução, porém reprimida em outubro de 1793, e depois novamente, de forma definitiva, em 1795", afirma a pesquisadora Tania Machado Morin em uma tese a respeito do assunto, defendida na Universidade de São Paulo - e um dos raros estudos sobre o tema já publicados no Brasil.

As mulheres fundaram clubes políticos, discursaram na Assembleia Nacional, participaram das jornadas revolucionárias. Mas, acima de tudo, foi um grupo de 7 mil mulheres do povo que marchou 14 quilômetros de Paris a Versalhes, sob chuva, para protestar contra a escassez de pão, gritando: "Vamos buscar o padeiro (o rei), a padeira (a rainha) e o padeirinho (o príncipe delfim)". A Marcha das Mulheres alcançou o objetivo de trazer o rei Luís XVI e sua família para Paris. Poucos dias depois, a Assembleia Nacional também se mudou para a capital.

Esse período de ativismo político foi pouco estudado até os anos 1980, quando as comemorações do bicentenário da Revolução Francesa impulsionaram as pesquisas sobre o tema e fizeram justiça à ação pioneira das cidadãs revolucionárias francesas.
Influência e liderança

Antes de 1789, só mulheres da aristocracia tiveram poder. Depois, surgiram lideranças nas classes populares e entre a burguesia

Os irmãos Edmond (1822-1896) e Jules Goncourt (1830-1896) escreveram - com uma dose de exagero - sobre a mulher da aristocracia francesa no século 18: "Ela tinha o rei da França ao seu alcance; dava ordens na corte, mantinha as alianças políticas, a paz e a guerra, a literatura, as artes e a moda nas dobras de sua saia. Do começo ao fim do século, o governo da mulher foi o único governo visível e apreciável". Parte dessa descrição poderia se aplicar a madame de Pompadour, amante do rei Luís XV (1710-1774) durante 20 anos. A partir de 1789, em meio à efervescência social e política, uma geração de revolucionárias entrou na cena política. Muitas vinham das classes populares e tiveram papel importante em vários momentos cruciais da Revolução (leia abaixo).

Surgiram as primeiras vozes feministas (o termo nem existia na época), como Olympe de Gouges (1748-1793), que escreveu a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã, dizendo que, se a mulher tinha o direito de subir no cadafalso, também deveria ter o de subir na tribuna. Foi guilhotinada em 1793, acusada de se esquecer das virtudes de seu sexo. A baronesa holandesa Etta Palm d'Aelders (1743-1799) fez discursos em defesa dos direitos políticos da mulher, da educação feminina e do divórcio. Considerada suspeita, fugiu para a Holanda. Théroigne de Méricourt (1762-1817) declarou que as mulheres se armariam para mostrar aos homens que não tinham menos coragem que eles. Pronunciada louca em 1794, foi internada num hospício feminino até a morte.

Mas foi na Marcha a Versalhes de 5 e 6 de outubro de 1789 que as mulheres irromperam na cena pública como protagonistas políticas. As militantes causaram escândalo dentro e fora da França e medo nas autoridades, que decretaram a lei marcial para pacificar a rebelião a força. "A marcha marcou o início do ativismo das mulheres do povo e sua integração ao movimento de massa revolucionário, coisa inédita na França e na Europa da época", diz a pesquisadora Tania Morin. Em agosto de 1792, muitas participaram do ataque ao palácio das Tulherias, em Paris, onde morava a família real desde 1789. O acontecimento levou à destituição e prisão do rei e ao início do regime republicano na França.

Em 1793, Claire Lacombe e Pauline Léon fundaram o principal clube político feminino da Revolução: a Associação das Republicanas Revolucionárias. Elas reivindicavam o porte de armas para defender a pátria dos inimigos internos (um direito exclusivo dos cidadãos). À época, havia 60 clubes políticos femininos ou mistos espalhados pelo país. Em outubro de 1793, todos foram fechados e Pauline Léon passou seis meses na prisão.

Em maio de 1795 havia fome na capital. Suicidas se atiravam no rio Sena, inclusive mães com filhos pequenos. Exasperadas pelo racionamento de pão e pela não aplicação da Constituição democrática de 1793, as mulheres dos bairros operários, apelidadas de "bota-fogos", instigaram um levante popular contra o governo da Convenção Nacional. Foi a gota d’água. A insurreição foi derrotada e as mulheres, alijadas da política nacional. A repressão severa é a maior prova de que elas incomodaram seriamente a ala masculina da Revolução.


Igualdade entre os sexos

Os principais momentos da revolução e a participação feminina

1789-1790
Mulheres escrevem numerosas cartas e panfletos pedindo educação, treinamento profissional e igualdade para homens e mulheres perante a lei.



1789
5 de maio: Abertura dos Estados Gerais.

14 de julho: Tomada da Bastilha. Entre os combatentes, ficaram registrados vários nomes de mulheres.

26 de agosto: Os deputados aprovam a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão.
5 e 6 de outubro: Marcha das mulheres para Versalhes. O rei Luís XVI é forçado a se mudar para Paris.

1790
2 de fevereiro: Surge a associação política Sociedade Fraternal dos Patriotas dos Dois Sexos.

19 de junho: A Assembleia Nacional suprime a nobreza hereditária, os títulos e os brasões.

3 de dezembro: Luís XVI escreve ao rei da Prússia para pedir apoio.


1790-1791
Formação de associações políticas femininas. Os herdeiros são declarados iguais perante a lei. É o fim dos privilégios da primogenitura masculina.

1791
20-21 de julho: Fuga e prisão do rei em Varennes.

17 de julho: No Campo de Marte, massacre de manifestantes contrários à restauração do rei.

3 de setembro: Aprovação da Constituição de 1791, que inclui o sufrágio masculino censitário.

Setembro: Olympe de Gouges publica a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã.

1792
6 de março: Pauline Léon apresenta à Assembleia uma petição de 319 parisienses reivindicando a formação de uma guarda nacional feminina.

20 de abril: A França declara guerra ao rei da Hungria e da Boêmia.

10 de agosto: O palácio das Tulherias, onde morava o rei, é invadido pelo povo.

20 de setembro: Aprovação da lei do divórcio.

21 de setembro: Fim da monarquia e início da república.

1795
20 a 24 de maio: Insurreição de Prairial, instigada pelas mulheres, que gritam o lema: "Pão e Constituição!".

- A Convenção proíbe as mulheres de frequentar as assembleias e de se reunir nas ruas em grupos de mais de cinco.

26 de outubro: Fim da Convenção Termidoriana e início do governo do Diretório.

1794
4 de fevereiro: A Convenção decreta a supressão da escravidão nas colônias.

Fevereiro e março: Agitação das operárias das oficinas de fiação.

28 de julho: Robespierre e 22 seguidores são guilhotinados.

Setembro: Théroigne de Méricourt é declarada louca e internada.

1793
21 de janeiro: Execução de Luís XVI na guilhotina.

Abril: o deputado Guyomar propõe a igualdade política de homens e mulheres. Sua sugestão não é aprovada pela Assembleia.

16 de outubro: Execução de Maria Antonieta na guilhotina.

30 de outubro: Proibição dos clubes políticos femininos.


Jornada revolucionária

Depois de um dia de marcha, negociações e violência na madrugada, as manifestantes conseguiram trazer o rei Luís XVI a Paris

Em setembro de 1789, faltava pão em Paris. As autoridades nada resolviam. As mulheres ameaçavam tomar as rédeas da situação. Um incidente infeliz no palácio de Versalhes precipitou a rebelião. Em 1º de outubro, durante uma recepção da família real a oficiais do regimento de Flandres, oficiais teriam pisoteado aos risos a cocarda (insígnia militar) tricolor, símbolo da revolução, e levantado brindes à cocarda austríaca, da terra natal da rainha Maria Antonieta. Notícias e boatos a respeito da ofensa percorreram Paris como um rastilho de pólvora. A indignação do povo estava prestes a explodir.

Em 5 de outubro, as mulheres tomaram a iniciativa, batendo tambores e tocando os sinos das igrejas para reunir a multidão. Mesmo após a queda da Bastilha, o rei ainda conservava certa aura de poder divino. O povo acreditava que sua presença resolveria a escassez. Por isso, causava irritação o isolamento de Luís XVI em Versalhes. Além disso, era intolerável sua recusa em assinar decretos importantes aprovados pela Assembleia Nacional, como a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão.

As mulheres vieram em massa para o ponto de encontro na praça Luís XV, atual praça da Concórdia, armadas de lanças, foices, machados e mosquetões e puxando um canhão sem munição. Escolheram Maillard, oficial da Guarda Nacional e herói da Bastilha, para liderar a marcha. O grupo exigia a punição dos oficiais do banquete em Versalhes, o restabelecimento do suprimento de trigo e a presença do monarca em Paris. Exaustas mas vitoriosas, as mulheres do povo voltaram para a capital acompanhando a família real e trazendo a promessa de providências para a crise do pão. Como disse o escritor Jules Michelet (1798-1874): "Os homens tomaram a Bastilha, as mulheres tomaram o rei".


A ida

Reunidas e armadas, as manifestantes partiram na direção de Versalhes

1. Concentração
Uma multidão se concentra em frente ao Hotel de Ville, sede da prefeitura de Paris à época, e denuncia o prefeito Bailly por corrupção. O grupo é formado por mulheres do povo: vendedoras, lavadeiras, costureiras, artesãs.

2. A Marcha começa
Depois de tomar armas no Hotel de Ville com a ajuda de homens, o grupo se dirige à praça Luís XV, atual praça da Concórdia. A massa aumenta ao longo do percurso, atraindo militares, operários e gente da burguesia. Dali, todos partem para Versalhes, a fim de falar com o rei e a Assembleia.

3. Chegada a Versalhes
Depois de 14 quilômetros debaixo de chuva, 7 mil mulheres acompanhadas de soldados e populares se concentram nos portões do palácio. O grupo conta com o apoio da Guarda Nacional. O rei, que estivera caçando de manhã, fora avisado da manifestação e estava no palácio.

4. Mulheres na Assembleia
Parte das manifestantes se dirige à Assembleia Nacional, ao lado do palácio. Os deputados são interrompidos, as mulheres tomam a palavra e uma delas discursa da tribuna. Elas forçam a aprovação de medidas para diminuir o preço do pão.

5. Desmaio diante do rei
Doze mulheres vão ao palácio pedir ao rei que resolva a falta de pão. A porta-voz do grupo, Louison Chabry, de 17 anos, fica tão emocionada diante de Luís XVI que só consegue dizer "pão!" e desmaia. O rei a socorre paternalmente. Louison entra revolucionária e sai monarquista.

6. Tentativa de fuga
Luís XVI manda preparar as carruagens, reúne a família e tenta fugir pelos fundos. Membros da Guarda Nacional dizem a ele que não podem garantir sua segurança fora do palácio. Impedido de sair, ele volta para a residência.

7. Declaração assinada
Pressionado pelos gritos que vêm de fora e apreensivo com a iminente chegada de 15 mil guardas nacionais, o rei enfim capitula: assina a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão.

A volta

Com o rei a caminho da capital, o protesto se transformou em festa

8. Invasão e morte
Durante a noite, a população invade o palácio e ruma para os aposentos da rainha Maria Antonieta. Ela foge por uma passagem secreta direto para quarto do rei. O incidente provoca a morte de dois guardas.

9. O rei fala com o povo
Acompanhado da rainha e do comandante La Fayette (1757-1834), o rei se apresenta no balcão para os mais de 30 mil manifestantes que exigiam sua presença em Paris. Acuado, Luis XVI cede, com a condição de ser acompanhado pela rainha e pelos filhos.

10. Retorno a Paris
Depois de uma madrugada tensa, a família viaja na carruagem real, em meio a mulheres sentadas em canhões, manifestantes cantando "Viva o rei, viva a nação" e duas cabeças decapitadas em pontas de lança. Da procissão fazem também parte 100 deputados, guardas nacionais e carroças de trigo.

11. O cortejo real na capital francesa
Na chegada, Luís XVI recebe as chaves da cidade do prefeito Bailly e fala ao público do balcão do Hotel de Ville. Depois ele se instala no palácio das Tulherias, um espaço muito menor que Versalhes e que estava abandonado havia 100 anos. Duas semanas depois, o preço do pão cairia.


Post-Scriptum
Por Tania Machado Morin*

Legado escondido
O exemplo das revolucionárias só foi resgatado depois da Segunda Guerra

Uma patriota da cidade de Besançon declarou que as mulheres preferiam os elevados ideais da Revolução às trivialidades do amor. Imbuídas dos princípios de liberdade, justiça e igualdade contidos na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, o entusiasmo daquelas mulheres era sincero, apesar de não terem oficialmente nenhuma das prerrogativas da cidadania, como o direito ao voto e às armas. A ruptura revolucionária abriu espaços inéditos de expressão política a um grupo social antes excluído deles: as mulheres do povo, que estavam mais preparadas do que se imaginava para ocupá-los. Pressionadas pelas circunstâncias, elas saltaram da política de bairro para a cena nacional ao se dirigirem às mais altas instâncias de poder em outubro de 1789: a Assembleia Nacional e o rei. Na sede do Legislativo, falaram de igual para igual com os deputados, subvertendo a ordem hierárquica tradicional. Ali nasceram as militantes francesas. Tendo combatido, não queriam ficar à margem dos acontecimentos.

As autoridades pensavam diferente: era preciso transformar aqueles seres políticos em esposas e mães dedicadas à família. Em 1793, uma lei estipulou que as "patriotas de outubro" teriam lugar especial nas cerimônias cívicas, durante as quais deveriam tricotar pacificamente na companhia dos maridos e filhos. A moral republicana exigia uma divisão clara entre papéis masculinos e femininos. Na Revolução, mulheres de todas as classes desempenharam com orgulho a função materna, agora acrescida de uma dimensão política e patriótica. Não era pouco: sua missão era educar os futuros heróis da nação. As militantes não viam incompatibilidade entre a vida política e a doméstica. A pátria era uma extensão da família. Mas os líderes jacobinos não queriam compartilhar o espaço com as mulheres, e a vocação materna foi a justificativa para a exclusão. Entretanto, as razões políticas não foram menos importantes para o silenciamento de adversárias estridentes que instigavam rebeliões populares e ameaçavam o poder.

O que restou de toda aquela experiência revolucionária? Os atos de cidadania femininos foram varridos do mapa até meados do século 19. O exercício pleno dos direitos cívicos imaginado pelas patriotas só se materializou na França após a Segunda Guerra Mundial. Mas as lutas pela cidadania do início da Revolução inspiraram as futuras gerações. A Sociedade das Republicanas Revolucionárias foi o protótipo dos clubes políticos femininos que surgiram na revolução de 1848. Como salientou a historiadora americana Harriet Branson Applewhite, depois da Revolução Francesa, qualquer planejamento de guerra incluía pensões para as viúvas ou esposas de mutilados de guerra, uniformes e provisões para maridos e filhos no exército, oficinas de trabalho para as mães e esposas de combatentes.

A Revolução acentuou o papel das mulheres como barômetro das crises sociais. Elas tinham se habituado a ir às galerias das assembleias exigir providências se suas reivindicações fossem negadas. Mas não se pode falar em continuidade entre as revolucionárias e as feministas contemporâneas. Separa-as o século 19, marcado pela profunda desigualdade política, social e jurídica entre os dois sexos. Os tratados médicos do fim do século 18 apontaram uma subalternidade orgânica no gênio feminino, condenando-as a uma espécie de menoridade vitalícia. Tal é o fundamento científico da subordinação da mulher ao homem no Código Civil de Napoleão (1804). Essa legislação reafirmou a autoridade paterna, reinstituiu a supremacia marital e tornou o divórcio mais punitivo para a esposa que para o marido. A teoria da domesticidade e da debilidade física e mental da mulher custou ao sexo feminino a relativa liberdade de que desfrutou nos primeiros anos da Revolução, sepultando por um século os sonhos políticos das mulheres livres de 1793. A marcha das mulheres foi longa e acidentada, e o legado das revolucionárias só foi resgatado pela geração das feministas do pós-guerra.

*Tania Machado Morin é mestre em História Social pela Universidade de São Paulo e autora da dissertação Práticas e Representações das Mulheres na Revolução Francesa - 1789-1795.

Saiba mais

LIVROS
A História da Revolução Francesa, Jules Michelet, Companhia das Letras, 2003
Obra clássica de Michelet, historiador do século 19 atento à vida privada da época.

Política, Cultura e Classe na Revolução Francesa, Lynn Hunt, Companhia das Letras, 2007
Analisa os símbolos e gestos que formaram a nova cultura política revolucionária.

Citoyennes Tricoteuses, Dominique Godineau, Editions Alinea, Perrin, 2004
Em francês, revela a trajetória das militantes políticas parisienses.

Revista Aventuras na História