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quinta-feira, 30 de julho de 2009

Pão: Dize-me o que comes e eu te direi quem és


Pão: Dize-me o que comes e eu te direi quem és
Na Idade Média, a hierarquia da sociedade erarígida até na alimentação. Enquanto os nobres tinham asua disposição uma grande variedade de carnes, oscamponeses viviam à base de legumes e frutas
por Eliza Muto
Ele era uma das poucas unanimidades nas refeições da Europa medieval. Fosse na távola dos senhores ou na mesa dos camponeses, o pão estava sempre presente. Mas havia uma marcante diferença na aparência e no gosto do alimento, que variavam de acordo com o status de quem se sentava para comer. O pão branco, feito com o mais puro trigo, era reservado à alta sociedade. Macio, chegava fresquinho à mesa da aristocracia. Já o pão preto, feito com uma mistura de cereais rústicos e legumes secos (como cevada e ervilha), era o que restava aos plebeus.

A receita dos pobres era dura de engolir: a massa seca, preparada sob cinzas ou sobre uma placa de terracota aquecida, precisava ser mergulhada na água, no vinho ou em algum caldo para ser consumida mais facilmente. Esse tipo de distinção alimentar entre nobres e camponeses era comum na Idade Média, período que se estendeu do século 5 até o século 15. “A alimentação era uma questão social, marcada pelas diferenças entre as classes, especialmente a partir do século 9”, afirma Francisco José Silva Gomes, professor de História Medieval da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

De acordo com as regras da época, os produtos do solo eram reservados aos camponeses. Essa camada mais baixa da sociedade, que correspondia a cerca de 90 por cento da população, tinha que cultivar as terras do senhor feudal, com a obrigação de prestar-lhe serviços e pagar-lhe diversos tributos em troca de proteção. Seus alimentos eram as leguminosas, os legumes e os cereais – com exceção do trigo, um luxo reservado às mesas dos ricos. Já as carnes, associadas à idéia de força e poder, eram praticamente exclusivas das classes dominantes.

O marco do início da Idade Média é o ano de 476, quando o Império Romano do Ocidente sucumbiu às invasões de diversos povos germânicos (como visigodos, vândalos e hunos). A mistura de culturas resultante, consolidada entre os séculos 11 e 13, ficou marcada na culinária medieval. Dos romanos, as principais heranças foram o pão, o vinho e o azeite – esses três alimentos, muito importantes na liturgia cristã, serviam de instrumentos para que a Igreja Católica pregasse sua fé.

Já os rústicos povos invasores, chamados de “bárbaros”, serviram de inspiração para as preferências (e para o comportamento) dos nobres medievais à mesa. A classe dominante tinha prazer em manter uma imagem de “selvageria”, comendo grandes porções de animais grelhados, temperados com especiarias e condimentos, preparados sem o uso de água ou recipientes. Fazendo isso, os nobres acreditavam se tornar mais fortes e viris. Para eles, comer não era a satisfação de uma necessidade fisiológica, mas um meio de reiterar, a cada refeição, a sua superioridade.

A mudança de costumes com a chegada dos germânicos incluiu também a valorização da caça, que era desprezada pelos romanos. Tentando privar os pobres do consumo da carne, a classe dominante transformou as florestas em um lugar reservado a seus exércitos particulares de caçadores. Era uma forma de manter bichos como cervos, porcos selvagens e faisões somente nas mesas da aristocracia. Mas, apesar dessa restrição, a carne às vezes aparecia no menu dos camponeses, graças à criação de animais domésticos – o cargo de guardador de porcos, por exemplo, era uma das ocupações mais valorizadas entre os camponeses da Idade Média. Assim como no caso do pão, o preparo da carne era diferente entre os camponeses e os senhores. “Enquanto os primeiros comiam, basicamente, carne cozida, acreditando assim tirar dela toda a substância possível, a nobreza preferia os assados, as carnes grelhadas diretamente sobre o fogo em grandes espetos ou grandes grelhas”, diz o historiador Massimo Montanari, professor da Universidade de Bolonha, na Itália, e organizador do livro História da Alimentação.

Gostinho de conchavo

O cardápio dos aristocratas era marcado pela abundância e grande variedade de carnes consumidas: desde as mais finas, como a de ganso, até as mais comuns, como a de carneiro. Os animais caçados contavam com a preferência de muitos nobres. Era o caso de Raimundo Berengário IV, marido de Petronila, a rainha de Catalunha e Aragão – territórios que hoje ficam na Espanha. Ele tinha o hábito de devorar tetrazes (aves de porte médio, comuns no hemisfério norte), assadas e inteiras. Entre suas iguarias prediletas estavam também as exóticas coxas e patas de urso.

Além das carnes, a dieta da nobreza incluía ovos e queijos diversos. Já os legumes e frutas eram vistos com profundo desprezo. Entre abril e agosto de 1189, o nobre Guillemette de Montcada visitou várias vezes o castelo de Sentmenat, na atual Espanha. O livro de despesas do local registrou que, durante os 43 dias que Montcada esteve por lá, ele chegou a comer couve e espinafre. Mas foi uma vez só. “As teorias da época consideravam alimentos de origem vegetal como de difícil digestão para os estômagos refinados da nobreza”, diz Antoni Riera-Melis, professor de História Medieval da Universidade de Barcelona.

Nas grandes festas, as refeições eram compostas de vários serviços – até seis – que, por sua vez, incluíam um grande número de pratos diferentes – até 15. Servidas em baixelas de metais preciosos, as receitas eram postas, sucessivamente, à mesa: primeiramente as sopas, seguidas de diversos pratos de assados e grelhados. Enquanto os convidados esperavam pelo próximo serviço de pratos principais, quitutes eram servidos. Munidos de uma faca – na época, o único utensílio de uso individual à mesa –, os convivas serviam-se dos pratos que estavam mais próximos. Naquelas grandes refeições, era praticamente impossível provar todas as numerosas iguarias à disposição.

Como a culinária medieval não era lá muito sofisticada, ninguém esperava pratos saborosos. Muitas vezes, a aparência dos alimentos importava mais para os nobres do que o próprio sabor: cozinheiros lançavam mão de uma ampla gama de cores para seduzir os famintos olhos da classe dominante. Ingredientes como a salsa tingiam os pratos de verde, enquanto os ovos e o açafrão deixavam as receitas douradas. “O vermelho era obtido a partir de produtos exóticos, como extrato de sândalo vermelho e uma resina de árvore chamada de sangue-de-dragão”, diz o historiador Bruno Laurioux, da Universidade Paris VIII.

Naquele mundo de aparências, qualquer ocasião era digna de transformar um jantar cotidiano em um festival gastronômico: as tradicionais datas comemorativas cristãs, as festas familiares ou os acordos políticos entre a classe dominante. Banquetes eram organizados quando indivíduos ou reinos selavam a paz, faziam alianças ou simplesmente reforçavam a continuidade de seus laços de amizade. Se o gosto da comida não era lá essas coisas, tudo bem: o importante era reunir as pessoas para comer e beber. O ato de dividir a mesa era uma reafirmação de lealdade entre os nobres.

Pobreza saudável

Diante das orgias alimentares da nobreza, pode parecer que os servos tinham uma vida miserável. Em matéria de comida, pelo menos, não era bem assim. Um estudo da Universidade Estadual de Ohio, Estados Unidos, verificou que os habitantes do norte da Europa que viveram durante a Alta Idade Média (entre os séculos 5 a 10) tinham, em média, 1,73 metro de altura. Ou seja: eram quase tão altos quanto seus descendentes de hoje – o que indica que sua dieta permitia bom desenvolvimento corporal. “Os pobres da Idade Média tinham uma alimentação muito melhor do que supúnhamos, pois era bem balanceada, à base de legumes, frutas e peixes”, explica o medievalista Ricardo da Costa, professor da Universidade Federal do Espírito Santo.

Se os pratos das classes populares não eram requintados, pelo menos eram muito nutritivos. Nas sopas, preparadas em caldeirões pendurados numa corrente ou colocados diretamente nas brasas, havia um pouco de tudo: leguminosas como favas e ervilhas, legumes como cenoura e cebola e, quando possível, um naco de carne. Era comum o caldo ficar cozinhando durante dias: à medida que ia sendo servido, também ia sendo engrossado com novos ingredientes.

Além do pão, outro alimento de consumo diário que a elite compartilhava com os camponeses era o vinho. Na Idade Média, o consumo da bebida se estendia por toda a Europa cristã. Assim como no caso do pão, a qualidade do vinho também variava de acordo com a classe social – as melhores uvas eram, naturalmente, reservadas aos senhores. Entretanto, na região onde hoje fica a Alemanha, o vinho rivalizava em preferência com a cerveja. Na verdade, ela ainda era uma bebida densa e doce, que só muito mais tarde, com a adição do lúpulo, se tornaria o líquido claro e transparente que conhecemos. De modo geral, os habitantes da Europa medieval ingeriam grandes quantidades de bebida alcoólica. Não só pelo prazer, mas também por questões higiênicas. “A água, portadora de germes e doenças, inspirava pouca confiança”, diz Massimo Montanari. “Toda a literatura medieval revela uma profunda desconfiança a seu respeito.” Na Idade Média, era comum que o vinho fosse misturado à água. O objetivo era purificá-la. “Mais do que um sinal de bom gosto, era uma medida de prevenção sanitária”, afirma Montanari.



O peixe nosso de cada dia
Em boa partedo ano, a carne vermelhaera proibida
A voracidade carnívora dos nobres medievais não era ilimitada. Ela esbarrava nas regras da todo-poderosa Igreja Católica, que proibia o consumo de carne vermelha nos dias religiosos – e, na Idade Média, eles eram muitos. “O jejum da Quaresma, costume que se iniciara no século 4, foi prolongado para 40 dias e, além dele, havia o jejum das sextas-feiras, dia da crucifixão de Cristo”, conta o jornalista Mark Kurlansky no livro Sal: uma História do Mundo. Assim, boa parte do ano estava destinada ao consumo de animais encontrados na água, o que também incluía os mamíferos marinhos. A carne de baleia geralmente era reservada aos ricos (a parte que fazia mais sucesso entre eles era a língua). Para os camponeses sobrava o craspois: uma tira das áreas mais gordas do corpo do animal. Mas esse toicinho de baleia não era lá muito apetitoso. “Diziam que, mesmo depois de passar o dia inteiro no fogo, o craspois continuava duro e áspero”, afirma Kurlansky. Além dos cetáceos, outro habitante dos mares ganhou a simpatia dos europeus medievais: o bacalhau do Atlântico. Sua carne branca é ideal para ser salgada para conservação, já que praticamente não apresenta gordura – tecido que dificulta a fixação do sal na carne. Em tempos em que ainda não existia geladeira, essa era uma questão de grande importância. Por causa dessa característica, o bacalhau entrou no repertório da maioria das cozinhas européias – incluindo os países do sul do continente, onde não se encontrava o peixe fresco.

Como nos velhos tempos
Experimente o legítimosabor da Idade Média
Apesar de serem feitos com ingredientes bastante diferentes, os pratos comidos por nobres e plebeus tinham uma característica comum: a simplicidade. “Naquele período, em que o prazer foi muito oprimido pela religião, os pratos eram básicos, preparados com ingredientes locais, facilmente disponíveis”, afirma o chef Alessandro Nicola, professor de Gastronomia do Centro Universitário Senac, de São Paulo. Exemplo disso eram as sopas dos camponeses, receitas elementares que remetem a uma culinária de poucos recursos. Bastava juntar alguns legumes a uma carcaça de animal e cozinhar tudo por algumas horas (ou dias). O caldeirão ficava na sala, não na cozinha: reunidos em torno do fogo, os camponeses se aqueciam do rigoroso inverno europeu tomando um caldo quente. Do lado dos nobres, o faisão era uma das mais apreciadas iguarias. As aves eram perseguidas e capturadas no interior das florestas. Uma vez abatidas, eram limpas e deixadas de molho na cerveja durante dias, antes de ser assadas diretamente sobre o fogo em espetos. A mistura com a bebida não servia para dar um sabor especial à carne: era apenas um modo de conservá-la por mais tempo. A cerveja evitava que a carne apodrecesse, mas fazia com que ela fermentasse – deixando-a com um sabor intragável para os padrões atuais. A seguir, você vai ter a oportunidade de sentir um gostinho de Idade Média. Se estiver num clima camponês, escolha a sopa. Se preferir dar um ar de nobreza à sua vida, vá de faisão (não estranhe o uso de geladeira no preparo: o clima brasileiro é muito quente para que a ave fique de molho sem estragar). Qualquer que seja sua escolha, uma regra de etiqueta medieval é indispensável: nada de usar garfo.

Faisão marinado em cerveja*

Ingredientes

1 faisão limpo

70 g de aipo-rábano

200 g de cebola picada

1 colher de sopa de zimbro

10 folhas de louro

1 litro de cerveja rústica

1 colher de sopa de sal

200 g de banha de porco

2 pães italianos bem rústicos

Modo de preparo

1. Junte o aipo-rábano, a cebola, o zimbro, o louro e a cerveja. Deixe marinar por, no mínimo, 24 horas em geladeira (o ideal é chegar a 72).

2. Retire a marinada e seque bem o faisão. Reserve a marinada separada.

3. Cubra o faisão com a banha e leve-o ao forno (160ºC) até começar a dourar.

4. Regue o faisão com a marinada.

5. Continue regando a ave com a marinada e a banha derretida até assar por completo.

6. Sirva a carne quente ou morna, acompanhada de pão rústico (para passar no molho que se formou na assadeira).

*Receitas elaboradas pelo chef Alessandro Nicola e preparadas por Lucas Medina, do centro universitário Senac em São Paulo

Sopa

Ingredientes

50 g de gordura de porco picada

70 g de cebola picada

4 colheres de sopa de vinagre de maçã

300 g de repolho branco ralado

300 g de beterraba ralada

200 g de cenoura ralada

100 g de aipo-rábano ralado

1 pé de porco

3 dentes de alho descascado

3 folhas de louro

2 maçãs raladas

10 sementes de zimbro

3 litros de água

Sal a gosto

Modo de preparo

1. Derreta a gordura e refogue a cebola e o pé de porco.

2. Acrescente os demais ingredientes e cozinhe por 4 horas, sem ferver.

3. Acerte o sal e sirva.


Fome do cão
Em caso de emergência,o melhor amigo do homemacabava indo para a panela
Durante séculos, cachorros encheram a barriga dos habitantes da cidade medieval de Carrickfergus, na Irlanda do Norte. Foi o que verificou o arqueólogo Ruairi O’Baoill, responsável pelas escavações no local, que fica a cerca de 16 quilômetros da capital norte-irlandesa, Belfast. Após analisar centenas de esqueletos caninos encontrados em antigos depósitos de lixo da cidade medieval, O’Baoill descobriu que muitos ossos haviam sido talhados pelas facas de açougueiros. “A presença dessas marcas nos restos dos animais é um sinal claro de que a carcaça era processada para a alimentação”, afirmou o arqueólogo na revista irlandesa Archaeology Ireland. Mas, para a sorte dos cachorros, talvez eles não tenham sido sempre o prato do dia em Carrickfergus. Fontes históricas indicam que a carne desses animais só era consumida em situações extremas, como durante períodos de fome ou guerra prolongada – a cidade irlandesa sofreu diversos cercos e ataques durante a Idade Média. “É possível que a alta concentração de ossos caninos esteja relacionada a um ou mais episódios de conflito”, escreveu O’Baoill.

Saiba mais
Livros

História da Alimentação, Jean-Louis Flandrin e Massimo Montanari (orgs.), Estação Liberdade, São Paulo, 1998 - Constrói uma história geral da alimentação, desde a Pré-história até os dias de hoje. Artigos assinados por historiadores relacionam a alimentação com a sociedade em várias épocas.

Sal: uma História do Mundo, Mark Kurlansky, Senac, São Paulo, 2004 - O jornalista Kurlansky conta como o sal influenciou os hábitos alimentares de diversas civilizações, fosse para temperar, fosse para conservar a comida.

Revista Aventuras na História

sexta-feira, 13 de março de 2009

Fome de Pirata


Conheça as histórias de navegadores que estiveram no Brasil atrás de comida e acabaram descobrindo novos sabores e adotando novas receitas
Sheila Moura Hue

Eles saíam de casa, do velho continente europeu, rumo aos desconhecidos mares do sul, com um apetite voraz por aventura e seus navios abarrotados de comida e água, que teoricamente deveriam durar até a próxima parada. Mas as coisas nem sempre transcorriam como o esperado. Tempestades, calmarias, incêndios e encontros nada amistosos com inimigos destruíam parte do estoque. O calor infernal dos trópicos se encarregava de fazer apodrecer o resto, o que provocava uma horripilante proliferação de vermes e doenças. Os corsários e piratas ingleses chegavam ao Brasil quase sempre famintos, depauperados, doentes e desesperados por água fresca e comida.

Muitas vezes o objetivo das frotas não era o Brasil, e sim destinos mais distantes no Oceano Pacífico: as costas da América espanhola com suas ricas embarcações abarrotadas de ouro e prata; e as rotas do oriente, onde também havia galeões carregados de tesouros. O Brasil era uma espécie de escala, quase obrigatória, antes da difícil e perigosa travessia do Estreito de Magalhães.

A tarefa de achar um bom porto para ancorar e abastecer os navios com água e mantimentos não era das mais fáceis. Alguns felizardos encontravam belos rios de água potável e eram bem recebidos por índios ou colonos amistosos, que lhes forneciam frutas, raízes comestíveis e animais. Outros eram rapidamente expulsos da terra por tribos de canibais, precisando ir de ilha em ilha em busca de alimentos.

Tudo se tornou mais difícil depois de 1580. Naquele ano, Portugal foi anexado à coroa espanhola, e Felipe II, rei da Espanha, que estava em guerra com a Inglaterra, passou a ser também soberano do Brasil. A situação piorou ainda mais em 1588 quando a junta governativa composta por Antônio Barreiros, Cristóvão de Barros e Antônio Coelho de Aguiar criou medidas para defender o país contra o ataque de corsários, proibindo navios estrangeiros de freqüentarem as costas brasileiras, com exceção daqueles que apresentassem uma Provisão Real (documento fornecido pela coroa portuguesa). Suas ordens eram muito claras: estava proibido comercializar com qualquer embarcação inglesa em território brasileiro. Mas nem todos os ingleses estavam a par dessas ordens e, quase sempre, movidos pelo desespero da fome e da doença, tentavam a sorte em nossos portos.

Quando ainda contavam com homens em condições de lutar, alguns navegadores atacavam e saqueavam vilas no litoral brasileiro, onde se fartavam com frutas nativas, peixes, carnes, e com derivados da mandioca, como a farinha e os beijus (massa feita de farinha de tapioca). Os alimentos eram disputados avidamente, como aconteceu com a tripulação do corsário Thomas Cavendish (1560-1592), em 1592, que pretendia, pela segunda vez, dar a volta ao mundo. Na Ilha Grande, no Rio de Janeiro, os homens de Cavendish, desesperados de fome, saquearam as casas da região, angariando batatas, bananas, raízes, além de porcos e galinhas. “Naquele lugar, não consegui comida nem dinheiro, de modo que, levado pela pura fome, me meti na floresta para tentar caçar alguma coisa. Enquanto seguíamos, topamos com sete ou oito homens de nosso grupo que se aglomeravam ao redor de um porco que haviam matado e brigavam para ver quem ficaria com a melhor parte. Chegamos bem no momento em que começavam a se socar, e assim roubamos um pedaço da caça e corremos para dentro da floresta” conta um dos membros da expedição, Anthony Knivet, em seu livro de memórias. Já os músicos de Cavendish tiveram mais sorte: caçaram oito gambás, que comeram assados, acompanhados de raízes da terra, provavelmente carás e aipins. Uma deliciosa refeição brasileira. Quando abandonaram a Ilha Grande, os então bem alimentados e restabelecidos ingleses incendiaram todas as casas e retomaram seu rumo.

A parada seguinte foi no Porto de Santos. Na noite de Natal, os ingleses atacaram e se apossaram do povoado. Em Santos, os ingleses se fartaram de comida. “Na vila havia um bom estoque de alimentos, doces cristalizados, açúcar e farinha de mandioca, com a qual fizemos ótimo pão, e trezentas cabeças de gado, que nos alimentaram todo o tempo em que lá estivemos”, conta Anthony Knivet. Confortavelmente instalados no mosteiro dos jesuítas e com alimentos em abundância, os piratas ficaram por dois meses, o que provocou o fracasso da viagem, pois acabaram perdendo a temporada correta para fazer a travessia do Estreito de Magalhães. No estreito, enfrentando frio extremo e fortes tempestades, quase toda a tripulação sucumbiu, e o explorador foi forçado a voltar para a Inglaterra. Sem a farinha de mandioca, os pães, os doces e as carnes de Santos talvez a história de Cavendish tivesse tido um desfecho diferente. O conhecido bon vivant talvez tenha sido derrotado pela barriga.

O pirata cortesão Richard Hawkins (1562-1622) teve mais sorte. Homem extremamente educado e gentil, ele pensava, acima de tudo, no bem-estar e na saúde de seus homens, ao contrário de Cavendish, que abandonava os doentes em praias desertas e desabitadas. Em 1593, com o objetivo de chegar à China e ao Japão, via Estreito de Magalhães, precisou fazer uma escala em Santos. Sua tripulação estava doente, enfraquecida pelo escorbuto, e incapaz de empreender qualquer tipo de ataque. Hawkins decidiu, então, negociar pacificamente com a população local. Escreveu uma elegante carta, propondo trocas comerciais, e pediu que um capitão a entregasse. O emissário inglês foi muito bem recebido pelos oficiais de Santos e pela população.

Conseguiu que a frota recebesse 300 laranjas e limões – fundamentais para combater o escorbuto (causado pela falta de vitamina C no organismo). “Quando os mantimentos subiram a bordo de nossos navios, uma grande alegria tomou posse da tripulação, e muitos recuperaram a saúde apenas ao avistar as laranjas e limões. Trata-se de um maravilhoso segredo do poder e sabedoria de Deus, que escondeu tão grandes e desconhecidas virtudes nessas frutas, para serem tão certo remédio para essa enfermidade”, relata Hawkins.

As autoridades de Santos enviaram a carta ao governador da capitania, Lopo de Souza, mas a resposta não foi a esperada. O governador se disse pesaroso por não poder atender a tão justo pedido. Afirmou que recebera ordem do rei para não negociar com os ingleses, e estabeleceu um prazo de três dias para Hawkins abandonar o porto. Salientou, ainda, que estava sendo generoso em consideração aos modos aristocráticos do capitão.

Diante disso, os ingleses seguiram em direção ao sul, onde encontraram algumas ilhas (talvez o Arquipélago de Alcatraz, a 45 quilômetros do Porto de São Sebastião, também em São Paulo). Toda a tripulação desembarcou, incluindo três médicos, para completar o restabelecimento da saúde da tripulação. Ao escrever sobre essas ilhas, Hawkins, um excelente observador da natureza, tornou-se o primeiro cronista a descrever a brasileiríssima pitanga: “uma espécie de cereja, de cor vermelha, com um caroço, não totalmente redonda, mas em gomos, e com um sabor extremamente agradável”. Maravilhou-se também com a exótica aparência de outra fruta: “de gosto muito prazeroso, com a forma de uma alcachofra, toda rodeada de espinhos”. Tratava-se do abacaxi. “Uma das melhores frutas que comi nas Índias”, conta Hawkins.

Mas o mais exótico alimento que saborearam foi uma espécie de sopa, cuja receita foi criada pelos médicos ingleses, com o objetivo de fortalecer a tripulação. Naquela época, a alimentação era parte fundamental na cura, e havia receitas especiais para cada tipo de doença. “Nessas ilhas encontramos grande quantidade de pequenos alcatrazes (aves das costas atlântica e pacífica da América do Sul) em seus ninhos, que reservamos para os doentes, e que fervidos com porco em conserva, e engrossados com farinha de aveia, resultaram numa sopa muito substancial”, relata Hawkins. O poderoso caldo preparou a tripulação para enfrentar a difícil e perigosa travessia do Estreito de Magalhães. Nessas ilhas, acharam também grande quantidade de uma erva riquíssima em vitamina C e indicada especialmente para combater o escorbuto: a beldroega.

No caminho para o Estreito de Magalhães encontraram um navio negreiro português, que seguia para a África. Os corsários perseguiram a embarcação, que rapidamente se rendeu. Os ingleses desarmaram o navio e se apoderaram de seu carregamento. “A nau estava abarrotada de farinha de cassave, que os portugueses chama de farinha de pau, feita de uma raiz muito parecida com batata”, explica Hawkins. Os portugueses trocariam esse precioso carregamento por escravos em Angola. Mas nas mãos dos ingleses a farinha de mandioca teve outro destino. Com o ingrediente, os homens de Hawkins fizeram deliciosas panquecas, que fritavam em manteiga, óleo, ou banha de porco, e depois polvilhavam com um pouco de açúcar. O exótico manjar passou a ser a comida preferida pela tripulação. Os corsários ingleses, quem diria, fartaram-se de beijus, um acepipe inventado pelos índios brasileiros.

Hawkins também se rendeu ao fascínio do cauim, uma bebida indígena feita a partir da mandioca macerada. E observou que os melhores eram aqueles “mastigados por uma velha”, contrariando outros cronistas que diziam que o bom cauim era feito a partir da mandioca mastigada por jovens ou virgens. Hawkins era um conhecedor. Registra três diferentes maneiras de preparar bebidas feitas a base de mandioca. Além do cauim obtido através da mastigação, muito conhecido, ele cita outras duas variedades. E fornece a receita: a mandioca era assada até ficar quase queimada, pilada até virar pó, e, em seguida, acrescentava-se água, fervia-se e deixava-se a mistura descansar por três ou quatro dias. A outra variedade era também à base do pó da mandioca torrada, misturado à água, mas sem ferver ou descansar. O resultado era “muito parecido com ale (tipo de cerveja comum no norte europeu), que é usada da Inglaterra, e da mesma cor e sabor”, afirma o corsário inglês. Muitos cronistas demonstraram repugnância ao beber o cauim indígena. Mas os ingleses encontraram nele os mesmos encantos da cerveja de sua terra natal.

SHEILA MOURA HUE é coordenadora do Núcleo Manuscritos e Autógrafos do Real Gabinete Português de Leitura e autora da edição comentada do livro As incríveis aventuras e estranhos infortúnios de Anthony Knivet (Zahar, 2007).

Saiba Mais - Bibliografia:

BERGER, Paulo. WINZ, A. Pimentel. GUEDES, Max Justo. “Incursões de Corsários e Piratas na Costa do Brasil”. In: GUEDES, Max Justo. História Naval Brasileira. vol. I, t.II. Rio de Janeiro: SDGM, 1975.

CALMON, Pedro, Brasil. Defesa da Unidade Nacional Contra a Fixação Estrangeira. Século XVI. In: BAIÃO, A. et al. (ed.). História da Expansão Portuguesa no Mundo. vol.III. Lisboa: Ática, 1940.

KNIVET, Anthony. As incríveis aventuras e estranhos infortúnios de Anthony Knivet. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007.

CASCUDO, Luís da Câmara. História da alimentação no Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia, 1983.

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