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segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Sexo dos mortos

A arte erótica encontrada em tumbas pré-colombianas no Peru revela retratos intrigantes de culturas anteriores à civilização dos incas - e uma visão singular sobre a morte e o sexo.
Maria da Paz Trefaut


Seja nas sociedades maias ou astecas do México, ou entre os incas do Peru, há poucos registros sobre a vida sexual na época précolombiana. Essa é uma das razões do interesse pela rara coleção de arte erótica do Museu Rafael Lar co Herrera, que funciona em num palacete do século 18, em Lima, e reúne mais de 45 mil objetos. Ao chegar ao museu, os turistas descobrem que o sexo é apenas um dos temas intrigantes de civilizações com mais de cinco mil anos de história.


Garrafa da cultura virú (200 a.C. - 200 d.C.), da costa Norte do Peru. Homem e mulher usam turbantes e pintura facial.
O Larco Herrera fica a 15 minutos de táxi de Miraflores ou San Isidro, bairros nobres da capital que concentram boa parte dos hotéis. Todos os taxistas da cidade conhecem o museu, que fica em Pueblo Libre. Os peruanos costumam dizer que se for preciso escolher e visitar um único museu na cidade "vá ao Larco". Mas atenção: há profusão de táxis baratos em Lima, porém a maioria é clandestina - não tem sequer taxímetro -, o que obriga a negociar o preço antes.

Muros altos escondem os jardins floridos do palacete branco cujas grandes portas de madeira dão entrada para um pátio interno, com bancos e almofadas, teares e adornos nas paredes.

Reinaugurado em setembro de 2010, depois de uma criteriosa reforma, o museu exibe peças em estantes fechadas por vidros, catalogadas por época e por cultura, recuando até 8.000 a.C.: tecidos, cerâmicas, vasos, flechas, estátuas, joias e objetos de ouro e de prata.

Os detalhes arquitetônicos do prédio chamam atenção, como a pedra da soleira das portas e o piso de madeira antiga das áreas de exposição, que dialogam com as peças e revelam que o museu é a casa de um colecionador aberta ao público. Construída sobre uma pirâmide pré-colombiana do século 7, a propriedade foi comprada já com o intuito de expor o acervo privado de um dos pioneiros da arqueologia peruana, Rafael Larco Hoyle.

Nascido no Vale de Chicama, perto da cidade de Trujillo, Larco Hoyle passou a vida colecionando vestígios de civilizações passadas no norte do país. Para homenagear seu pai, Rafel Larco Herrera, que também promovia a arqueologia peruana, Hoyle fundou o museu em 1926, na fazenda da família, em Chiclin, e mais tarde o transferiu para o palacete de Lima.



Garrafa mochica (100 a.C. - 800 d.C.). Mulher amamenta o filho. Garrafa da cultura salinar (200 a.C. - 200 d.C.). Mulher acaricia o órgão sexual masculino.


Os vestígios arqueológicos expostos no Museu Larco recuam até 8.000 a.C.


As 45 mil peças reunidas integram uma espécie de livro dos mortos pré-colombiano. Quase todas foram encontradas em tumbas e estão ligadas a práticas funerárias e de sacrifício. Cada uma à sua maneira, seja pela forma, pelo material ou pelos desenhos, conta algo sobre as culturas ancestrais da região. Uma ânfora de cerâmica, por exemplo, revela hipóteses sobre a guerra, o poder dos xamãs e as divindades.

Nos desenhos, há profusão de imagens sobre o sacrifício humano, que não abatia apenas os vencidos, mas também caía sobre mulheres e crianças, cujo coração era retirado. A oferenda aos deuses visava manter o mundo em equilíbrio. Sacerdotes e xamãs, intermediários entre a sociedade dos vivos e os outros mundos, exibem peles, plumas e objetos rituais ligados à ingestão de substâncias alucinógenas, usadas desde 1.500 a.C.

Quando se fala em civilizações pré-colombianas peruanas, pensa-se logo nos incas. "O equívoco acontece sempre", diz a arqueóloga Ulla Holmquist, curadora do museu. O império incaico durou apenas um século, mas marcou a história porque era a cultura dominante que os espanhóis encontraram ao se instalarem no Peru no século 16. "Os incas duraram três ou quatro gerações, enquanto a presença humana no país tem mais de dez mil anos. A domesticação dos animais e a agricultura começaram em 7.000 a.C. As sociedades sedentárias se consolidaram entre 3.000 a.C. e 2.500 a.C. Portanto, é uma história bem mais longa."



Vaso mochica (100 a.C. - 800 d.C.). Morto com pênis ereto, uma alusão à continuidade da potência dos ancestrais.


A mais antiga sociedade do Peru foi a civilização caral, que floresceu ao longo da costa do Pacífico entre 3.000 a.C. e 1.800 a.C. Há indícios de presença humana recuando até 10.500 a.C. Depois da cultura caral, há camadas de culturas arqueológicas distintas: cupisnique, salinar, chavin, paracas, virú, mochica, nazca, huari, lambayeque e chimu. Só depois dos chimus vieram os incas que criaram um Estado baseado na agricultura em terraços, irrigação, pecuária de lhamas e vicunhas e pesca - uma sociedade sem mercado nem dinheiro.

Em 1524, a varíola, introduzida a partir do Panamá, devastou o império antecipando a conquista empreendida por Francisco Pizarro, que derrotou e executou o Sapa Inca Atahualpa, em 1532. Dez anos depois, a coroa espanhola estabeleceu o vice-reinado do Peru controlando todas suas colônias na América do Sul.


O ouro e a prata inca atraíram a cobiça dos espanhóis que conquistaram o Peru em 1532.


Vasos, cerâmicas, estátuas, joias, tecidos e flechas, num total de 45 mil objetos oferecem um panorama das civilizações pré-colombianas.

Mortos-vivos



Garrafa mochica mais popular de Lima. (100 a.C. - 800 d.C.). Casal com pintura facial e peitoral.


Holmquist ressalta que a arte erótica é apenas uma das manifestações vitais da arte précolombiana. Muitas culturas dividiam a vida entre o mundo dos vivos e o dos mortos, um exterior e outro interior, invisível. "Achar que aqui temos uma espécie de Kama Sutra précolombiano revela a nossa visão ocidental a do sexo e não a de pessoas que viviam em outra época com conceitos diversos."

Muitas cenas retratadas remetem à sociedade dos mortos. A maior parte dos objetos pertence à cultura mochica, que colonizou os vales do Norte, entre 300 a.C. e o ano 1.000. Os mochicas não chegaram a constituir um Estado ou uma unidade política que integrasse os centros populacionais, apesar da extensão da sua civilização e do tempo que perduraram. Para eles, os ancestrais seguiam fertilizando a terra e assegurando a continuidade do ciclo produtivo,no mundo invisível no qual viviam após a morte. Aí continuavam a cantar, a dançar e a manter relações sexuais. Muitas cenas mostram práticas sexuais tradicionais como masturbação e felação. Segundo os antropólogos, os mortos expeliam sêmen, embora a fecundação não fosse mais possível.


O prédio colonial foi reformado em 2010 para abrigar o museu mais popular de Lima.


Garrafa mochica (100 a.C. - 800 d.C.). Casal em relação sexual com o filho dormindo.


"Os seres do passado são considerados seres sociais que possuem desejos", explica o antropólogo alemão Jürgen Golte, especialista na América andina. "Eles viviam conflitos, sentiam repugnância, atração, estabeleciam alianças, faziam oferendas, feriam, assaltavam e violavam. O cosmos sociomorfo era um cosmos de seres ativos." Para Golte, o sentido das imagens legadas não é de simples decifração. "O Kama Sutra dos andinos carece de um prazer expresso aparente. Mas isso não significa que eles não tivessem prazer", ressalta.
Revista Planeta

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Arqueólogos encontram pedras sagradas dos incas no Peru

Pedras. Foto: Museu Britânico/Divulgação

As pedras cônicas já haviam sido descritas por cronistas

Arqueólogos do Peru e da Grã-Bretanha encontraram um conjunto de pedras incas que, segundo eles, podem revelar à humanidade o segredo do poderio da civilização que dominou parte da América do Sul entre os séculos 15 e 16.

Fazendo escavações no topo de uma montanha onde os incas realizavam rituais sagrados, os especialistas encontraram as três pedras ancestrais, objetos sagrados que, na crença inca, representavam a conexão entre o mundo dos ancestrais e o Sol.

Nenhum exemplar das pedras - descritas por cronistas espanhóis que chegaram à América no período das grandes navegações e vistas em desenhos feitos no período - havia sido encontrado antes.

Elas têm 35 cm de altura, formato cônico e são relativamente pesadas, precisando ser carregadas com ambas as mãos.

A equipe de arqueólogos incluiu cientistas da Universidade Nacional de Huamanga, no Peru, do Museu Britânico e das Universidades de Reading e de Londres, na Grã-Bretanha.

"Acreditamos que essas pedras, e as plataformas onde foram encontradas, guardam o segredo do poderio inca"", disse o especialista do Museu Britânico Colin McEwan à BBC Brasil.

Relatos Históricos

Os cientistas trabalhava há duas semanas a altitudes de entre 3,6 mil metros e 5 mil metros quando as pedras foram localizadas.

"Estou falando de arqueologia radical, era difícil trabalhar e até mesmo respirar lá em cima", disse McEwan.

Os incas acreditavam que seus ancestrais, os fundadores da civilização, haviam sido convertidos permanentemente em pedras.

Após a chegada dos colonizadores espanhóis, cronistas descreveram, em seus relatos históricos, importantes eventos públicos na praça central da capital do Império Inca, Cuzco.

Nessas ocasiões, o rei inca ficava sentado em uma plataforma elevada, de onde observava as celebrações.

Oferendas líquidas de chicha (uma bebida fermentada feita com milho) eram feitas por meio de uma abertura vertical feita na plataforma.

Quando o rei não estava presente, uma pedra sagrada era colocada no assento onde ele deveria estar sentado para representar o poder da dinastia inca.

Deuses da Montanha

"A capital inca, situada entre altitudes de 2,5 mil e 3,6 mil metros, era bastante alta", disse McEwan. "Mas a expansão do império inca implicou na conquista de altitudes ainda maiores, onde viviam as lhamas e alpacas, entre 3,6 mil metros e 5 mil metros".

Fonte de alimento e de lã para tecelagem, além de importante meio de transporte, grandes rebanhos de lhamas e alpacas eram vitais para a sobrevivência do império.

McEwan e a equipe de arqueólogos acreditam que isso explica a presença, nos cumes de várias montanhas, de cerca de 40 plataformas cerimoniais, símbolos do controle inca sobre esses territórios.

Com a ajuda do arqueólogo peruano Cirilo Vivanco Pomacanchari, da Universidade Nacional de Huamanga, que vem progressivamente localizando e mapeando as plataformas em locais remotos, a equipe chegou ao local onde as relíquias foram encontradas.

Segundo McEwan, eles não tinham qualquer ideia do que poderiam encontrar.

"Esses locais eram tão sagrados que os incas não queriam deixar qualquer traço visível da presença humana neles", disse McEwan.

"Ao escavar o chão da plataforma, encontramos amostras de solo trazidas de diferentes regiões, cuidadosamente dispostas".

Mais ao fundo, cerca de 2,5 metros abaixo da superfície, a equipe encontrou uma cavidade que havia sido escavada na rocha sólida.

"Quando escavamos, descobrimos três dessas pedras, cuidadosamente colocadas com as pontas juntas, como um tripé, apontando para baixo, indicando a conexão com o mundo dos ancestrais".

Poder Benevolente?

Questionando teorias segundo as quais os incas seriam "socialistas", McEwan disse que seu império foi construído com astúcia e violência.

"Quando negociavam com um líder local, os incas lhe ofereciam a opção de governar localmente, mas ele era obrigado a pagar impostos".

Se a oferta não era aceita, o poderio inca dizimava a população masculina e transferia os sobreviventes para outros locais, cortando seus vínculos com a terra e meios de subsistência.

As plataformas e as pedras ancestrais, parte do arsenal ideológico inca, eram um instrumento-chave de controle imperial.

"Sabíamos que os incas deveriam ter razões importantes para colocar essas plataformas nesses locais, próximos dos cumes sagrados e permitindo uma visão ampla de todo o horizonte à volta".

"Nós acreditamos que eles obrigavam a população local a trazer (as amostras de) solo e as colocavam nas plataformas como símbolos do domínio inca".

Os especialistas calculam que essas plataformas teriam sido construídas por volta de 1.400, durante a conquista daqueles territórios pelos incas, antes da chegada dos espanhóis.

Na crença inca, picos de montanhas cobertos de neve, de onde vem a água que sustenta a vida nos vales, eram sagrados.

As pedras seriam oferendas para o cume sagrado, conectando os ancestrais incas ao Sol.

"Você dá seu mais precioso objeto aos deuses da montanha, esperando em retorno a fertilidade da terra e os benefícios trazidos pelos animais que a habitam",

Corpos de crianças mumificados, encontrados anteriormente nas montanhas, indicam também a prática de sacrifícios humanos.

Nova Etapa

Segundo McEwan, o próximo passo é fazer uma análise das amostras de solo encontradas nas plataformas.

Com a ajuda de satélites, a equipe está tentando entender também a lógica por trás da localização específica de cada uma delas.

Ele diz que não há plataformas em todos os cumes altos e acredita que a escolha dos locais não era aleatória.

Finalmente, McEwan diz que a equipe quer saber como os incas conseguiram ganhar o impulso que lhes deu controle sobre um território tão imenso.

A resposta estaria guardada nas plataformas e pedras ancestrais.

"Elas estão no coração do grande projeto inca", concluiu Colin McEwan.

http://www.bbc.co.uk