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segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Lampião, rei do cangaço. Exemplo de Nordestern


Guido Bilharinho

Sob o influxo da repercussão e do êxito de O Cangaceiro (1953), de Vítor Lima Barreto, gesta no decorrer da década de 1950 e surge no princípio dos anos 60 o então denominado nordestern, um dos subgêneros do drama, cuja produção fílmica se estende até o final dessa década para ressurgir, com um ou outro exemplar, nos anos 90. Configura espécie de faroeste nordestino, que, no entanto, mais se diferencia do que se identifica com o western, estadunidense ou não.

Se se descartar, por isolado, O Primo do Cangaceiro (1955), de Mário Brasine, sátira a O Cangaceiro, o nordestern tem início com A Morte Comanda o Cangaço (1960), de Carlos Coimbra (Campinas/SP, 1928-), que ainda realiza mais três filmes no gênero, Lampião, Rei do Cangaço (1962), Cangaceiros de Lampião (1966) e Corisco, o Diabo Louro (1969), cuja qualidade, registrada pela crítica da época, decresce de filme para filme ou, dito de outro modo, cujos defeitos crescem a cada filme.

Além deles, nessa mesma década, ainda são produzidos nada menos de outros onze nordesterns, a exemplo de Os Três Cangaceiros (1961, também sátira), de Vítor Lima, e de O Cabeleira (1963), de Milton Amaral, baseado no romance bomônimo de Franklin Távora, de 1876, até Quelé do Pajeú (1969), de Anselmo Duarte, e Meu Nome é Lampião (1969), de Mosael Silveira. Nesse mesmo ano surge nova sátira com Deu a Louca no Cangaço (1969), de Nélson Teixeira Mendes e Fauzi Mansur, título diretamente inspirado em Deu a Louca no Mundo (It’s a Mad, Mad, Mad, Mad World, EE.UU., 1963), de Stanley Kramer.

Lampião, Rei do Cangaço ainda apresenta atributos ou menos precariedades que os congêneres que se lhe seguem.

Com base nos livros Lampião, o Rei do Cangaço, de Eduardo Barbosa, e Lampião – Capitão Virgulino Ferreira (título da 5ª edição), de Nertan Macedo, o filme de Coimbra focaliza alguns dos enfrentamentos entre o bando de Lampião e as forças policiais nordestinas, antes, porém, em poucas cenas, informa o motivo principal do surgimento dessa saga mais sanguinária que aventurosa.

O cangaço é desencadeado de maneira impetuosa a partir da grande seca de 1877/1879 que assolou o Nordeste, conforme lembra Rui Facó (Cangaceiros e Fanáticos, p. 132), agravando e exacerbando condições patrimonialistas altamente concentracionárias e excludentes da estrutura econômico-social da região, preexistindo, pois, de muito, a Lampião (Virgulino Ferreira da Silva, Serra Talhada/PE, 1898 – 1938). Foi justamente seus contatos fortuitos com um cangaceiro antes do assassínio de seu pai, que lhe teria indicado o caminho que depois seguiria, de 1917 a 1938, transformando-se no mais famoso e ousado dos cangaceiros que infestaram o Nordeste nas primeiras décadas do século XX, período em que essa prática sobremaneira se intensificou paralelamente ao fenômeno do messianismo, ambos expostos e sintetizados, já com toques de genialidade, por Gláuber Rocha em Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), que, todavia, por sua amplitude, abrangência, enfoque e significado não se enquadra na categoria, extrapolando-a de muito.

Já o nordestem propriamente dito não teve preocupação outra que não fosse comercial, cingindo-se nos estreitos limites da narrativa e do espetáculo cinematográfico.

Lampião, Rei do Cangaço, por isso, não ultrapassa esse nível, não portando nenhuma qualidade cultural e artística.

Contudo, expõe, com seriedade, a temática elegida, convocando para esse feito os principais atores que se destacaram no gênero, a exemplo de Leonardo Vilar (Lampião), Vanja Orico (Maria Bonita), Milton Ribeiro (um dos imediatos de Lampião, celebrizado anteriormente como ator principal de O Cangaceiro, de Lima Barreto), Glória Meneses (muito travada nesse filme de Coimbra, não repetindo a excelente interpretação de O Pagador de Promessas, de Anselmo Duarte), Antônio Pitanga (desenvolto como sempre), Dionísio Azevedo (de destacado papel como padre no filme de Anselmo Duarte), e Geraldo del Rei.

O filme caracteriza-se, pois, dada sua finalidade congênita, pela ênfase na estória e pela narrativa linear e convencional, destituída de preocupação e elaboração artística e recriação autoral da realidade enfocada e de qualquer tentativa interpretativa do contexto, por mais tênue e longínqua que seja.

Alguns dos principais lances da saga de Lampião são nele expostos, inclusive seu comissionamento, em 1926, como capitão da Reserva do Exército para combater a Coluna Prestes, contra a qual, no entanto, não lutou, segundo Nertan Macedo porque “informado de que os oficiais pernambucanos não reconheceriam a sua patente, deixou a Coluna Prestes movimentar-se livremente” (op.cit., 5ª ed., p.144).

Já a respeito da atuação, posição e papel de Lampião, afirma Neil Macaulay: 

“Lampião não era um jagunço comum – um pistoleiro de aluguel, com vida organizada e pacífica, exceto quando chamado às armas por seu patrão – mas um cangaceiro fora de série, um bandido errante, de tempo integral. Frio e cruel, Lampião, em 1926, tinha admiradores declarados; bravo, brilhante, sempre bem vestido, era também um perfeito sanfoneiro cuja toada Mulher Rendeira transformou-se num sucesso permanente no Brasil, figurando até nas paradas de sucesso nos Estados Unidos sob o título de The Bandit. Lampião tinha todos os requisitos de um herói popular e como tal seria festejado após a sua morte. Na década de 1920, no entanto, parecia ser a verdadeira encarnação da maldade”. (A Coluna Prestes. 2ª ed. Rio de Janeiro−São Paulo, Difel-Difusão Editorial, s.d., tradução de Flora Machman, p. 186/187).

A propósito da Coluna Prestes, esse mesmo atilado brasilianist revela sua natureza e finalidade, responsáveis maiores de seu êxito, além da “coragem e a habilidade de alguns oficiais dedicados – Luís Carlos Prestes acima de todos”:

“Assim como a caminhada de Siqueira Campos ao longo da praia de Copacabana, a marcha da Coluna Prestes foi empreendida com o propósito de inspirar. A operação não era militar; não fora estabelecida para apreender ou tomar terreno, para destruir o inimigo ou sua vontade de lutar [...] só tinha por objetivo a própria sobrevivência” (op.cit., p. 229).

(do livro O Cinema Brasileiro Nos Anos 50 e 60, editado pelo Instituto Triangulino de Cultura em 2009 www.institutotriangulino.wordpress.com)

Guido Bilharinho é advogado atuante em Uberaba e editor da revista internacional de poesia Dimensão de 1980 a 2000, sendo ainda autor de livros de literatura, cinema, história do Brasil e regional.
Revista Malabia

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

A VIDA NO CANGAÇO


Nonato Freitas
CASAL DE EX-CANGACEIROS DE LAMPIÃO CONTA COMO ERA


A dramática história de Moreno e Durvalina, único casal de cangaceiros do bando de Lampião e Maria Bonita ainda vivo. Nesta reportagem, eles lembram os impressionantes momentos do cangaço e como conseguiram fugir, a pé, do sertão pernambucano para Minas Gerais.

Depois de 66 anos no mais absoluto anonimato, sem contar nada a ninguém sobre a vida deles no cangaço, Moreno e Durvalina, a Durvinha, único casal de cangaceiros do bando de Lampião
(Virgulino Ferreira da Silva) e Maria Bonita ainda vivo, resolveram relatar os longos e dramáticos momentos que juntos passaram na caatinga sob a perseguição implacável da polícia. No dia da morte do Rei do Cangaço, na Gruta de Angico, na beira do rio São Francisco, em Sergipe, pela volante (força policial) do tenente João Bezerra, Moreno e Durvalina estavam em Mata Grande,
distante 70 quilômetros do local. Homem de confiança de Virgulino, ele cumpria uma missão no comando de um subgrupo de cangaceiros.

Moreno lembra que, além de Lampião e Maria Bonita, mais nove cangaceiros foram mortos e degolados naquele dia (28 de julho de 1938). Ao todo, entre homens e mulheres, eram cerca de
47 pessoas. Os que escaparam do cerco se entregaram em seguida à polícia. Corisco, o Diabo Louro, sanguinário e igualmente homem de total confiança de Lampião, no momento do massacre
encontrava-se do outro lado do rio, a três quilômetros de Angico. Tinha sob seu comando um subgrupo. Moreno recorda que Corisco chegou a ouvir os tiros, mas nada pôde fazer em defesa dos companheiros por estar à margem oposta do rio, sem condição de atravessá-lo.

Hoje, aos 98 anos, Moreno vive com Durvalina, de 93, em Belo Horizonte. Ambos estão aí vivinhos, lúcidos e cheios de histórias para contar. Histórias repletas de dramas vividos num
tempo em que, no Nordeste, a lei era ditada pela boca do mosquetão e pelas afiadas lâminas de punhais que chegavam a medir 87 centímetros.
Com a morte de Lampião, o medo se espalhou como um fantasma entre os cangaceiros que não haviam sido capturados. Eles temiam ser degolados a qualquer momento. Assim mesmo
continuavam a desafiar as incansáveis volantes que eram comandadas por homens experientes e destemidos.
Dois anos após a morte de Lampião, o tenente Zé Rufino, da polícia alagoana, temível caçador de cangaceiros, decepou a cabeça de Corisco, que preferiu morrer lutando a se entregar às forças
do governo. Naquele tempo, a ordem era uma só: ou o cangaceiro se entregava, ou então era morto e degolado em seguida. Diante dessa crua realidade, Moreno tomou uma decisão. Homem corajoso que sempre foi, chamou a companheira de um lado e confessou que não se entregaria aos macacos, termo usado por Lampião e seus cabras para desqualificar os soldados das volantes.

SOZINHOS NA CAATINGA

Depois daquela manhã em que Lampião tombou morto ao lado de sua amada Maria e de mais
nove companheiros, o cangaço, na verdade, ficaria riscado, definitivamente, do mapa do Nordeste.
Corisco ainda resistiu durante dois anos ao lado de Dadá, sua brava e fiel companheira. Mas sem
Lampião, sem Maria Bonita, e tantos outros, como Corisco, Luiz Pedro, Virgínio, Zé Baiano, Juriti, Ezequiel (Ponto Fino, irmão de Lampião), Sabonete, Menino de Ouro e Jararaca, todos eles homens rudes e de extrema valentia, sem essas legendas do cangaço, que ficaram para trás, mortos em combate com as volantes, o mundo do crime nada mais representava para Moreno e
sua Durvalina.
O que fazer então com a vida? Abrir mão da liberdade e se entregar à polícia? Ou seria melhor pôr o pé na estrada e fugir? Fugir para onde, se apenas conheciam as veredas áridas e abrasadoras das caatingas? E se na próxima curva dos caminhos desérticos fossem surpreendidos por uma volante? Ah, isso tudo ia moendo, pouco a pouco, o juízo de Moreno.
Era o ano de 1940. Lá fora Hitler mostrava suas garras para o mundo. A Segunda Grande Guerra, com as famigeradas câmaras de gás, começava a ceifar milhares de vidas inocentes. No cinema,
a grande sensação era E o vento levou, rodado um ano atrás em Hollywood. No Brasil, para variar, surgia um movimento simpático ao III Reich, ou seja, algumas figuras importantes da nossa política trabalhavam, às escondidas, em prol das idéias nazistas lideradas por Hitler. Felizmente o raciocínio não vingou e, dois anos depois,no dia 23 de agosto de 1942, Getúlio Vargas decide declarar guerra ao eixo formado por Alemanha, Itália e Japão. Mas para Moreno, perdido naquele mundinho de nada, sem tomar conhecimento de qualquer fato exterior, nada disso tinha a menor
importância.
Em pleno sertão nordestino, acuado agora pela solidão de haver perdido tantos amigos, Moreno optou então pela fuga. Mas, como um homem rude, sem nenhuma instrução escolar, que mal
conhecia os limites da região onde nasceu e da qual nunca se ausentou, conseguiu romper a vigilância dos homens da lei e fugir, ao lado de sua amada, para um lugar tão distante como Minas
Gerais? Pois Moreno e Durvalina, caro leitor, conseguiram romper esse cerco.
Antes de contar esta fascinante história de fuga, vamos conhecer um pouco a trajetória desses dois intrépidos cangaceiros.
Natural de Tacaratu, PE, Moreno, cujo nome completo é Antonio Ignácio da Silva, nasceu no dia lº de novembro de 1909. São seus pais: Manuel Ignácio da Silva e Maria Joaquina de Jesus. Ele entrou para o cangaço ali pelo ano de 1930, quando era apenas um jovem de 21 anos.

Antes de abraçar a vida do cangaço, Moreno era um pacato trabalhador que ganhava seu honesto dinheirinho prestando serviços nas fazendas da região. Numa destas fazendas, de propriedade de um senhor chamado André, Moreno, ou melhor, Antonio (como era chamado antes de ingressar
no cangaço), praticou o primeiro homicídio, das 21 mortes que cometeu durante sua longa vida de cangaceiro. O fato é narrado em todos os seus detalhes por João de Sousa Lima, diretor de publicação e arquivo público do Instituto Histórico e Geográfico de Paulo Afonso, na Bahia, no livro intitulado Moreno e Durvinha – Sangue, amor e fuga no cangaço, lançado em 2006.
Uma sobrinha do dono da fazenda enamora-se de Antonio. Para azedar a amizade entre ambos, uma agregada da propriedade, conhecida por Antoninha, conta para Antonio que a moça não
é mais virgem. Acrescenta que ela havia “se perdido” em troca de uma novilha de gado. Esta mesma conversa é levada ao conhecimento de André pela própria Antoninha, mas de forma envenenada. Diz que o boato fora espalhado por Antonio, que é abordado pelo patrão. Injuriado, ele nega tudo, argumentando que soube do fato pela boca de Antoninha. Ao entardecer, André reúne no pátio da fazenda, além de sua sobrinha, todas as pessoas que convivem ali com ele. Lá estão também Antonio, um irmão de André, de nome Ananias, Antoninha e seu marido. Ao notar a aproximação de Antonio, Antoninha se antecipa, dizendo:

- Oh, seu Zé, que história é essa que o senhor foi contar
para o André?
- Aquela que você me contou.- Mentira sua, disse ela nervosa

Antonio respondeu que não era homem de mentira e aplicou um violento murro na orelha de Antoninha, que caiu zonza no chão. Diante da cena, o marido dela partiu furioso sobre Antonio,
que sacou de uma faca peixeira e, ato contínuo, cravou a arma no peito do homem, que caiu se esvaindo em sangue sobre a mulher e, em seguida, morreu.
Antes de fugir, Antonio, a faca assassina em punho, ainda mirou as pessoas ali presentes com o olhar transtornado de quem estava pronto para o que desse e viesse. “Quem se considerar
meu amigo não se aproxime!”. Como ninguém fez um único gesto para detê-lo, pegou o caminho do mato e sumiu no meio do mundo. Esta foi a porta aberta para Antonio entrar no desafiante e
incrível mundo do cangaço.
Depois de trabalhar numa usina de açúcar e em algumas fazendas da região, Antonio se depara, numa dessas propriedades, com um bando de cangaceiros. Eram eles: Virgínio, Luiz Pedro,
Maçarico, Fortaleza e Salviano, vulgo Medalha.

Deixaram com ele um recado para o Sr. Antonim, dono da fazenda, avisando que em de-
terminado prazo voltariam para pegar uma encomenda. Eram duzentos mil réis. Quando voltaram, trouxeram com eles um coiteiro, devidamente amarrado, que os havia denunciado à polícia. Traição no cangaço era sinônimo de morte.
Os cangaceiros se arrancharam na fazenda durante uns três dias e fizeram amizade com Antonio, que se mostrou interessado em segui-los. Antes de partirem, submeteram-no a um teste de
fogo. Entregaram-lhe uma “Mauser” (carabina automática, de fabricação alemã) e pediram que fizesse o serviço.
Frio como uma pedra de gelo, Antonio segurou a arma com firmeza e mirou calmamente o peito do miserável. Em seguida, acionou o gatilho. O pobre homem caiu morto no meio do acampamento. Naquele instante, Luiz Pedro, famoso pela valentia e por ser um dos homens de confiança de Lampião, deu dois passos em direção a Antonio e afirmou, convicto: “Você vai com a gente.
E de agora em diante seu novo nome será Moreno”. Estava, assim, selado o batismo do ingresso de Antonio Ignácio da Silva no cangaço.


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Senatus, Brasília.

domingo, 7 de julho de 2013

Entre deus e o diabo

Livro resgata a saga do sírio-libanês Benjamin Abrahão, que imigrou para o Nordestebrasileiro na década de 1910 e entrou para a história por se tornar braço direito dopadre Cícero e ter sido o único a filmar Lampião e seu bando.

Por: Sofia Moutinho
Publicado em 15/05/2013 | Atualizado em 15/05/2013
Entre deus e o diabo
O aventureiro sírio-libanês Benjamin Abrahão exibe o equipamento da Aba Filmes ao lado de Lampião, Maria Bonita e o restante do bando. (foto: Cinemateca Brasileira)
Deus e o diabo na terra do sol. Impossível não lembrar do título do filme de Glauber Rocha ao ouvir a história do sírio-libanês Benjamim Abrahão, curiosa figura que fez sua vida no sertão nordestino nos anos 1920 e 1930. O forasteiro conseguiu seu sustentose aproveitando ora do homem santo padre Cíceroora do vilão Lampião. Nessaempreitada, ficou marcado na história como o primeiro a documentar de perto a vida docangaço, através de fotoe filmes.
Sua rica biografia é narrada pelo historiador Frederico Pernambucano eBenjamin Abrahãoentre anjoe cangaceiros, livro repleto de detalhes suculentos sobre a vida nosertão e que não deixa de fora importantes marcos da política e da história da época. 
Parte da história de Benjamin Abrahão já havia sido contada no filme Baile perfumado(1997), de Paulo Caldas e Lírio Ferreira. A essa época, Pernambucano já estudava a saga do sírio-libanês e foele quem sugeriu o tema para os cineastas. Passados quase 20 anos, o historiador nos revela, em mais detalhes, um Benjamin Abrahãooportunista, que soube aproveitar cada chance oferecida no Brasil. 
Logo que chegou ao país, em 1915, fugido do alistamento militar para a Primeira Guerra Mundial, Abrahão usou da sua estrangeirice para conquistar a confiança depadre Cíceroentão um poderoso e influente líder religioso e político de Juazeiro, interior do Ceará. Em meio à multidão de fiéis que visitavam o ‘padim’, o sírio se destacou apresentando-se como conterrâneo de Jesus. Tornou-se secretário pessoal de Cícero.
capa do livro
Capa do livro de FredericoPernambucano mostra Benjamin Abrahão e padreCícero. (foto: reprodução)
“Benjamin era um espertalhão, tão sedutor queconseguiu se instalar na casa paroquial, na época uma sede de poder importante. Lá vivia o padre Cícero e seu braço político Bartolomeu Floro. Benjamin se tornoobraço pessoal do padre”, conta Pernambucano. “Ficaram o padre e os dois como se fossem seus ministros.”
O sírio-libanês ficou na paróquia de 1917 a 1926. Nesse peodo, responsável pelas muitas joias doadas por fiéis, desviou fundos para si mesmo. Circulava noluxo e na luxúria até que a morte do padre pôs fim a sua boa vida. 
Pernambucano nos conta que em uma última tentativa de lucrar em cima do beato, Abrahão cortou chumaços de cabelo de Cícero já morto e passou a vendê-los para os romeiros. O empreendimento deu lucro até queo povo começou a desconfiar que o religioso não tinha tanto cabelo quanto estava sendo vendido.

O cangaço filmado

Sem dinheiro e desrespeitado, Benjamin Abrahão partiu para uma nova aventura. Com a chancela de ter sido braço direito de padre Cícero, foem busca do temido VirgulinoFerreira, o Lampião. Devoto conhecido do ‘padim’, o cangaceiro estava em seu auge, controlando vários bandos pelo Nordeste, quando Abrahão lhe propôs ser seu documentarista oficial. Os dois já haviam se encontrado quando o cangaceiro foi convencido por padre Cícero a lutar ao lado do governo contra a Coluna Prestes, quepassou pelo Nordeste por volta de 1925.
Abrahão já tinha tudo preparado. Conseguiu apoio da agência alemã Aba Filmes para filmar o cangaceiro procurado pela Justiça com uma câmera sem som de alta tecnologia para a época. Lampião, fascinado com a modernidade dos apetrechos, aceitou a proposta. Antes, porém, testoo equipamento para garantir que não se tratava de uma arma disfarçada.
Pernambucano: “Lampião  viu na proposta defilmagem aoportunidade deingressar na história pela forma mais moderna quehavia então
“Benjamim conseguiu convencer Lampião por causa do efeito mágico do cinema”, diz Pernambucano. “Naquela época, Lampiãomobilizava grossos capitais. Travava com coronéis da região que financiavam seus rouboe recebiam parte do lucro. Seu bandoera a imagem do sucesso da organizaçãofora da lei. Ele viu na proposta de filmagem aoportunidade de ingressar na história pela forma mais moderna que havia então.”
A aventura cinematográfica de Benjamim Abrahão ganhou as páginas dos principais jornais do país. Em fevereiro de 1937, ele publicou uma série de reportagens no Diáriode Pernambuco exibindo a intimidade do cangaço
Havia fotos impensáveis de Lampião costurando, Maria bonita penteando-lhe os cabelos, cangaceiros tocando gaita e comendoO sírio-libanês anunciava para a imprensa que em breve lançaria um documentário sobre Lampião e seu bando
A ideia dele era exibir o filme no Brasil e vender cópias para o exterior, onde Lampiãotambém era manchete. Mas seu sonho foi destruído pela então recém-instalada ditadura do Estado Novo, que mandou confiscar as filmagens e proibiu a exibição ecomercialização das películas. 
“As fotoe filmes de Benjamim eram um atestado da incompetência das forças policiais e uma afronta ao Palácio do Catete”, comenta o historiador, que traduziu a caderneta em que o forasteiro sírio registrou denúncias sobre as forças policiais quematavam civis e colocavam a culpa nos cangaceiros.

Assista a trechos do filme de Benjamin Abrahão sobre o bando deLampião


Nessa época, sequências inteiras dos filmes foram destruídas. O que restou foi recuperado na década de 1950 pela Fundação Getúlio Vargas. Entre os filmes remanescentes, um chama atenção. Mostra o rei do cangaço fazendo comercial deCafiaspirina, remédio para dor de cabeça da empresa alemã Bayer. O cangaceiroaparece distribuindo o remédio para seu bando em frente a um cartaz que diz: “Se é Bayer, é bom”.


Fadados à morte

Benjamin Abrahão morreem circunstâncias misteriosas sem conseguir lucrar com seus filmes. Saiu para beber cerveja quando faltou luz na vila em que estava. Ouviram-se gritoe seu corpo foencontrado esfaqueado dentro da casa de um homem aleijadoque confessoo crime
Ninguém sabe quem foo real autor do assassinato. Segundo Pernambucano, provavelmente foi alguém do povo contratado por algum coronel que queria queimar o‘arquivo vivo’ que era Abrahão. Tendo convivido com Lampiãoele conhecia todoos coronéis e policiais corruptos que ajudavam o cangaceiro.
Pernambucano: “Quem matou Benjamin foi a mesma força quematou LampiãooPalácio do Catete eos valores da ditadura”
Mas, para o historiador, em última instância, quem matoo sírio-libanês e também Lampião foo Estado NovoO fim da soberania doestados imposta pelo novoregime nacionalista desmantelou a estratégia de ocupação do cangaço, que se mantinha nas fronteiras para escapar das forças policiais que não tinham domínio para além de seus territórios.
Outro elemento apontado por Pernambucanofoo fim da inviolabilidade do latifúndio, quefez com que os coronéis que abrigavam bandos de cangaceiros não pudessem mais impedir a entrada de policiais em suas terras.  
“Quem matou Benjamin foi a mesma força que matou Lampiãoo Palácio do Catete eos valores da ditadura”, afirma o historiador. “Antes que o Estado Novo espatifasse osistema de poder do sertãoera alto negócio para qualquer fazendeiro comercializar coo cangaceiroO Estado Novo acabou coesse colaboracionismo. A morte deBenjamin foi, sobretudo, uma queima de arquivo histórica.” 
Aproximação suspeita
A história de Benjamim, na biografia de Frederico Pernambucano, tem como pano de fundo a relação da Alemanha coo Brasil antes da Segunda Guerra Mundial. O patrocínio da Bayee da Aba Filmes à empreitada de Abrahão não foi gratuitoO historiador acredita queo apoio aleo é indício da política de aproximação do Reich coonosso país.
Garoto propaganda“Lampião foi garotopropaganda da Bayee issose encaixa dentro de um quadro geral de sedução da Alemanha em direção aoBrasil”, diz. “Para se ter ideia, Hugo Sorentino, italiano quefazia filmes no Brasil, foi convidado a dirigir a UniversoFilmes, agência alemã criada aqui para difundir o cinema aleo e furar o bloqueio deHollywood. Ele chegou a ser convidado por Goebbels [ministro depropaganda de Adolf Hitler] a ir para Alemanha e ouviu dele quetinha interesse em moldar o cinema aleo para ser atraente parao brasileiro. Havia um namoro entre Alemanha e Brasil. A Alemanha sonhava com certas matérias-primas brasileiras, algumasestratégicas como o urânio.”
Pernambucano diz que os interesses da Bayer no Brasil não sãocompletamente esclarecidos por falta de documentos históricos. Quando o Brasil declarou guerra aos países do Eixoem 1942, a Bayer sofreu intervenção federal e muitos arquivos foram destruídos. Mas o historiador acredita que a figura de Lampião eraestratégica para a entrada da empresa no sertão. “Aproveitar uma figura de herói popular, no sentido grego da palavra, que é um sujeito capaz de grandes façanhas para o bee para o mal, era a intenção”, diz. “Lampião era cruel, perverso, atacava vilarejos, mas fascina o povo até hoje.”

Sofia Moutinho
Revista Ciência Hoje